quinta-feira, agosto 18, 2005

História das camisas e não só

Procedo com regularidade a obras de reparação numa casa chamada memória. Removo soalhos apodrecidos, pinto paredes, desenferrujo janelas, mudo lâmpadas – e o passado brilha de novo, falso como o futuro. Arriscarei muito, afirmando que toda a gente assim faz?
Só vivi três semanas em Cabo Verde. Bastam-me esses 21 dias, no entanto, para toda uma empreitada memorial em que os andaimes da verdade suportam sem custo nem vergonha a ficção operária. Quer isto dizer que minto? Não. Quer dizer que finto.
Escrever é antecipar Alzheimer. Esquece-se o trivial, o imediato. Mistura-se o importante, o afectivo. Baralha-se o factual, o histórico. A história das camisas, por exemplo.
Eu levei quatro camisas novas no saco de viagem Lisboa-Sal-Praia. Iam dentro das peles de plástico. Novas, berrantes, frescas, de mangas e ideias curtas: portuguesíssimas camisas. Nunca as tirei do plástico. Mas tirei-as do saco. Na véspera de (v)ir embora, dei-as aos bons homens que atendiam às mesas os comensais de hotel. Não o fiz por esmola, óbolo, gratificação, caridade ou cristandade. Dei-lhas porque sim.
Eram homens com qualidades. Homens produtores de boa fala, ritmo tropical, sorriso franco, avisada recomendação, atenciosidade profissional. Fora de serviço, a outros balcões, bebi copos altos com eles. Conversei, soube de filhos, trabalhos e dias. Eles ofereceram-me a alta recompensa do serviço à hora do serviço e do conhaque à hora do conhaque. Na antecâmara dos adeuses, eu só tinha, de material que lhes oferecesse, as camisas. As camisas eram quatro, quatro eram eles. Assim foi.
Havia outra pessoa, no entanto e ainda, a quem agradecer. Era uma rapariga.
Para descrever-vo-la, forço-vos a seguinte imaginação: de uma estante alta, um tombado frasco de mel derrama, em vertical hemorragia, uma lentíssima lágrima de néctar; solificando-se na queda, modula uma cabeleira florestal, um egipto oftalmológico, um nariz mental, uma boca oblíqua, um vale dos reis sob delta de pescoço, uma barriga musculada, adiante e pernas de suporte de templo grego: ei-la, ela. Ofereci-lhe a cara despedinte. Ela despediu-se-me na boca.
De modo que estou, desde então, em obras. Arriscarei muito, afirmando que toda a gente assim estaria, doutor Alzheimer?


(Escrito para o sítio na net: www.liberal-caboverde.com
na tarde de 17 de Agosto de 2005, em Tondela.)



quarta-feira, agosto 17, 2005

Cem anos sem sono

para A.S.
O que desejo, basta-me esperar para ter: do Outono falo.
Acolherei na aldeia, sob o castanheiro, as horas mais que estas frias.
E refarei a ficção de brincadeira e de sempre.
Ela é: permitir à cabeça um recuo de cem anos no Tempo e na História.
Todos os verões pratico tal recuo inofensivo.
É quando quero adormecer, quando a realidade se deixa esvaziar em torno como um saco de pano, como um balão de menino envelhecido.
Quase sempre consigo esse milagre.
A electricidade desaparece.
A noite toma-se de uma pureza mais pura e mais negra.
Os pomares cheiram.
As estradas minguam, reaterradas.
As casas piscam olhos de azeite, bruxuleando dentro a lareira vermelha, onde fuma o caldo, perto de que bocejam os casais casados, dorme a velha no altar de pau.
Gosto dessas noites seculares de minha mentira.
Não fazem mal a ninguém e permitem que eu durma.
E não outra coisa que isso – adormecer – desejo.
Contra Agosto, contra o néon, contra as motorizadas que serrilham o silêncio com uma tosse de gasolina de metros de cauda.

Não me tem feito particular mal, estes primeiros 41 anos, iludir a natureza do Tempo com a imaginação da Natureza.
Julgo que o não tem feito, mais bem dizendo.
De olhos tapados duplamente pelas pálpebras e pela noite contemporânea, abro a vista mental à ruminação do Outono, e pós Inverno, de há um século.
Deixa de ser preciso, o meu corpo tabágico de agora.
Uma azulada fluorescência abandona quem durmo, levando-me.
Lá fora, o quintal amarela-se de out(ro s)ono.
Ervas antigas reflorescem, passíveis de caligraphia.
Tetravós de pardais dormem como frutos de pé, as patinhas pedunculares amarrando o ramo.
A Lua suscita ohs de cemitério ultra-romântico.
E eu azulo pelo anil benfazejo deste Outono dotado da sabedoria milenar dos recém-nascidos.
Então sim, então admitir talvez Deus e Seus Anjos agricultores;
Suas Alminhas de encruzilhada;
Seus Mártires apedrejados e comedores de gafanhotos.
Panteísta ou não, telúrico sempre, o já-sonhador pode alterar-se, o que é tornar-se outro.
E vaporizar sendas, córregos, arroios, veredas, alm'alamedas, atalhos, azinhagas, choupais, choupanas, arborescências, eiras – com a humidade da boca.
Desprovido do contumaz relapso eu, iridesce ele, matizado de furta-cores a que a prata da Lua empresta uma couraça de carocha voadora.
Tanta silhueta negra apregoa a nudez arábica do Tempo redivivo: os ramos que raspam o céu de vidro, letras ilegíveis para aprender de cor.
Sem corpo, nem a ideia padece orfandades ou desamores de outro corpo, outra hora (não esta) amado com cadência, leite, violência, deleite.
Cadentes riscos siderais, em vez: são no céu esmigalhados diamantes, boquinhas de brilho que apetece pintar de púrpura.
A aldeia dorme, a minha aldeia de que sou.
Lobos não extintos farejam a tépida lebre, que penugeou de odor o caminho sobre que, amanhã (se eu dormisse sempre, para sempre), cabras unhariam de fartas quentes tetas suspensas.
As mesmas solenes indignadas cabrinhas cuja feminilidade atormenta o pastor como iniciou o poeta.

Isto é tudo uma boa coisa, escreve ele.
A nobre paz, larga como uma procissão vista de lado, é de uma nobreza sem dinheiro.
Toda a serra lhe pertence.
E os pinhais, que asmam a ilusão sonora do mar, adensam a alma respiradora de resina.
A miséria cessou.
Não há bancos usurários, inexistem os prestamistas, esquecem quaisquer anjos-da-guarda a 32 por cento.
Há casebres adormecidos, tão-só.
E neles gente não temente porque tenente, dona de seu mesmo futuro (hoje) pó.
Isto é tudo um bom japão, se tal me consentem a diplomática educação e a matemática cortesia.

Mas – que é isto? – de novo sinto o material pé direito, tornado cera pelo abandono do outono do sono, e a impaciente bexiga ressinto, pedra-pomes tornada.
Sou de novo o condenado eu a agora.
E, acordando na abafada noite deste indesejado agorAgosto, deixo tombar o caderno no banal tapete de quarto de cama banal.
E é que me levanto e vou mijar, grunhindo de tristeza, primeiro, e de humano mortal contemporâneo alívio, depois. Ou agora.


Botulho, Tondela, noite de 11 e madrugada de 12 de Agosto de 2005

quinta-feira, agosto 11, 2005

Duas Canções com Peninha no Bico

Escrevi ontem (9) duas canções para o Carlos Peninha.
A primeira é a brincar ao verso romântico.
A segunda é uma maluqueira à la Mler Ife Dada.
Cá vão elas.

1
DUMA FLOR E DE MAIS NADA

Eu tenho posta à janela
Em vaso simples a simples flor
Dando-lhe a luz amarela
Transparece fica mais bela
E qual face de donzela
Parece até ganhar rubor

Tão bom é ter casa ter janela
Mais que quarto de aluguer
(Ó jurista não se ofenda
Diz-se bem sei quarto de renda
Mas há lá flor que o entenda
Quando à luz faz de mulher)

O nome dela desconheço
Botânica nunca estudei
Sei tão-só que estremeço
Tanto assim que apeteço
Certas coisas que não mereço
Nem jamais merecerei

Simples vaso flor simplória
À janela bem rimada
24 de memória
Versos sem fulgor nem glória
Dão o cromo a esta história
Duma flor e de mais nada.



2
PENSICOLA

Guadal de carte
Sem tererte
Guarte zuminada releverte
Som caterra dá diluminismo
Tento marcapom dalibridismo

Tum acordi sente lenha cedo
Pensicola jogo já ó remanhado
Criadum pretamanhe sido
Guadal de carte equilibrido
Um canal de garde equilibrido

À porta nem sente a luz vermelha
25 peças cada copo
Garrafa a 300 companhia
Se a mater for magna com jeito
A direito tem de ser assim
P'ra mim cum laude peito
Coxas sim
Se o frango dá assim assado
Carmim revesado
Ou guarda ou não

Tarda em ser se for então'stá bem
Alonga alongamento no minuto
Bruto tem acorda cedo
Medo que a pastelaria eu não acho
Acende o lumebroa do haxismo
Abaixo o fósforo fosforescismo
Ou guarda ou não
Canal é pena má

quarta-feira, agosto 10, 2005

A horas do Sal

O meu quarto de hotel na Praia de Santiago era como a minha vida: uma nave de reduzida tripulação onde alvejava o duro lençol e amarelecia a solitária lâmpada de leitura.
O banheiro era ascético e morno, e nele lavei, poupando água, um corpo de monge abelardo sem Deus nem Heloísa.
Eu recolhia cedo a essa estufa jardinada por invisíveis mãos veladoras, nunca deixando de sentir o milagre comercial de, na volta do mundo exterior, me ressurgir arrumado e limpo o que, à partida, deixara húmido e desordenado.
No roupeiro, o saco com as camisas, as cuecas e os dólares dormia o honesto sono de serviçal com dentes de fechéclér.
Na secretária, a folha de serviços era todo um poema plastificado com versos de lavandaria, bar, restaurante e demais utilidades de rodapé que li e reli na solidão como se ocultos sentidos surdissem nas cifras dactilografadas. Não surdiam.
À roda desse quarto viajei, qual Garrett tropicalizado a breve trecho.
Ali exerci sonos breves que o suor perlava muito, deles despertando com a sensação de todo o meu corpo, à excepção dos olhos, ter chorado sal.
O telefone nunca tocou. Poucas coisas haverá mais rubricadoras de desamparo do que um telefone que não toca. Mas eu era mais novo, então, e portanto menos frágil. Suportei pois o silêncio do aparelho com o fingimento da dor que deveras tocava, ao contrário dele.
Quase não escrevi, no meu quarto de Santiago. O mais que fazia, nele, era estar vivo, o que sempre é obra.
No corredor, hóspedes ainda mais estrangeiros do que eu desejavam-se boas-noites francesas. Depois, as portas sucediam-se como teclas de piano. Breve, o silêncio retomava o seu esmigalhar de vidro.
Perto, no mar, acampava a vasta Lua de Cabo Verde. Muitos peixes de pura prata imaginei que voavam, atormentados pela alegria mística de se ser puro peixe de lunar arquipélago.
Hoje, tripulo outra nave, tomo outros duches de outra água mas igual melancolia e transpiro a frio outras mesmas noites sem remédio.
Já me sucedeu, porém, acordar sem marcação ao toque do remoto telefone de hotel. De olhos fechados, estendo a mão para o auscultador na esperança da confirmação da chegada do Sal, no horário previsto, de Heloísa, mesmo a tempo de eu encomendar um pequeno-almoço finalmente duplo.


(Escrito para o sítio na net: www.liberal-caboverde.com
na tarde de 10 de Agosto de 2005, em Tondela.)

segunda-feira, agosto 08, 2005

Segunda-feira, Mais Uma Ainda

Junto muitas muito pequenas coisas.
Lumes de cigarro.
Rádios no jazz o som baixinho para não acordar a gata Agostinha.
Sou um homem em seu trevo travo treva.
Agora que sou um homem.
Já me descalcei em dunas frias.
Prefiro no inverno a praia.
É quando o frio endurece a luz
quando enfurece o mar.
Um homem também tem tristezas
pontes que o fazem olhar a infância
da outra banda.
Quando tudo se podia e nada queria
de especial.
Depois os néones atacaram e venceram
muito económicos muito senhores administradores
muito graças a deus filhos da puta.
E uma pessoa pensando voltar às frias dunas do mar
quando dezembro volta
quando a vida não é segunda-feira.



Tondela, madrugada de segunda-feira, 8 de Agosto de 2005

Para Ruy, Pois Então Para Quem

o amor é uma pequena coisa que se espalha muito
conforme os ventos que houvermos soprado
não sei se concordarias quando vivo
morto decerto nem concordarás nem pelo contrário
deixarás andar
palavras leva-as o vento ao encontro de outras
enfim
ou de encontro a outras
também pode dizer-se

tudo pode dizer-se
até que o amor é
um pequeno espalho que se faz muito

pela hora da morte
como se diz dos preços
na hora da vida
como menos se diz

ainda assim um gajo deve fazer por ser feliz



Tondela, madrugada de 8 de Agosto de 2005, com imaginário champanhe

Ruy Belo (1933-1978)



Os números não são para levar à letra. Não estes.
1933, S. João da Ribeira (Rio Maior) - 1978, Queluz.
Rui de Moura Belo, Ruy Belo.

Todos os dias me lembro dele.
Se não todos os dias, algumas noites.
Morreu, diz-se que sim, na tarde de 8 de Agosto de há 27 anos, faz hoje.
Morria ele e fazia o meu sobrinho Carlitos sete precisos meses de vida.
A poesia tem custo de vida.


Melhor, porém e sempre, é reouvi-lo (reavê-lo):


E TUDO ERA POSSÍVEL

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido.

Chegava o mês de Maio e era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido.

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer.

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança


(in memoriam vitae R.B., Tondela, 8 de Agosto de 2005)

Febre

Umas sombras cruzam com rapidez o olhar, turvando por pedacinhos de segundo a claridade e a disposição das coisas mundiais.
No pulso, o batuque cardíaco everesta gráficos abruptos, o que não mata mas desassossega.
Na abóbada, lá onde o porão sobe em curva para acomodar a noz mental, bobines de sonhos emaranham-se pelo negativo, projectadas à noite para revelação dos vários papões do dia.
No tudo, uma quietude embaciada no viver.
Externos, os incêndios lacram o sol, debandam as aves, timbalam os coelhos e desenrolam as inócuas serpentes portuguesas, tudo quanto é bicho do mato vindo morrer à estrada por onde silvam uivando sirenes vermelhas e homens fardados de serapilheira azul e de caras vermelhas como rubis congestionados empoleirados em machados e mangueiras.
Perto desta paragem, há um rio que não corre.
Adormeceu apodrecido como um rodapé ilegível.
Os peixes já nascem cozidos.
Libelópteros iridescentes heliçam-se à pele morta da água, raspando as patinhas uns aos outros.
A luz queimada raspa os últimos pinheiros.
Um sono de febre toma os últimos homens.

Eu poderia dizer, apenas, que me não tenho sentido muito bem.
Mas um bocadinho de literatura também não ofende para fora nem agrava para dentro.



Tondela, num mau domingo, 7 de Agosto de 2005

domingo, agosto 07, 2005

Mão Suja de Tinta-da-China

Era por uma dessas paisagens de antiga litografia franco-inglesa de XIX: um caminho de terra arenosa linguando a floresta densa de tinta-da-china.
Ocultos na floresta, talvez um elfo, um fauno talvez, ou uma cabrinha perdida, ou uma menina desflorada.
À vista na estrada, de costas para a mão que escreve, um homem caminhando devagar.
A figura humana não podia apreciar a beleza litográfica por ir afrontada.
Era um homem de quase sessenta anos.
Usava samarra cor-de-pinhão e duras calças de tela que acabavam em dois sapatos ferrados.
Um chapéu negro apontava o sítio da cabeça, a aba enlutada por uma rodela de seda que já havia brilhado.
A afronta do homem era em parte física - tinha comido umas nêsperas mornas que agora se lhe encortiçavam, de novo inteiras, no balseiro das entranhas.
E era, a outra parte, do núcleo mental - vinha de visitar a única filha, que ele perdera em recente negócio de casamento para um herdado sem maneiras e mais de vinte anos que ela, menina, velho.
Ruminando seguia o homem más nêsperas e pensamentos piores - quando, de repente e fremente urze lateral, lhe saltou à frente, pernas separadas de fixação na areada terra, um coelho.
O homem estacou, fugida a absorção de que se absorvera.
Ia dizer-lhe, ao coelho, um ternurosa máxima de fábula, mas nem uma palavra pôde encetar - mínimo, o coelho fugira-lhe à máxima.

Pois que é da Natureza, litográfica mais que seja ou nada, falarem menos os coelhos que fugirem.
Na floresta, nenhum elfo, fauno algum ou sequer cabrinha - só uma menina, a dele, desflorada como uma nêspera morna, quente, arrefecida.



Tondela, entardecer de 6 de Agosto de 2005

Hiroshima 60 Anos

Perdoe eu a mim mesmo minhas mesmas perdoações.
Com perdições rimam, nisso primam.
Meu garrafário passado, que não olvido,
também.
Minhas cruentas tristezas, laranjas
e mesas.
Os assassinos desovaram, faz hoje
60anos60,
A Bomba Atómica.
Perdoe-lhes quem saiba, não
quem ignore.



Tondela, entardecer de 6 de Agosto de 1945, perdão!, 2005

Amigo Lusitano 1

Tenho um amigo que trabalha em pastelaria congelada.
Camisa branca, manga curta, gravata-seta apontada às partes nodosas sob a calça fina de vendedor activo.
Sapatos de fivela - um bocage sem graça nem latim, a mim igual.
Um casamento lhe implodiu em seguimento de certa gravidez solteira, ejaculada mais que planificada.
De tudo quase fez já o meu de bravata amigo, gravata, fivela.
Esteve no Luxemburgo 3 meses.
Conheceu de bíblia mulheres.
Teve patrões sufocantes.
Urdiu arrevesados idiomas de emigrante.
Até que voltou.
Voltou triste e alegre; e português.
Tem o filho.
Arranjou agora para o ramo da pastelaria congelada.
E sabe de futebol, nem se nota que esteve fora tanto tempo.



Tondela, entardecer de 6 de Agosto de 2005

Ode, Vejam Bem

Incendiados dias.
Mas não é ainda o ocaso,
não é caso para isso.
Merecemos a água.



Tondela, entardecer de 6 de Agosto de 2005

sábado, agosto 06, 2005

Algún Sábado



"todos tenemos derecho a la privacidad de nuestros pecados"
de Los Gozos y las Sombras

paradójicamente en sombras gozosas
plurales, de manos no mías
construyo mis fronteras
en ojos ajen(j)os me bebo
espero que me escriba
una mano siniestra, impar
una mano desasosegada de hombre
Vamos ha por las misteriosas trampas individuales
en ritual de vino noche risas lagrimas balcón
develadas serán como todas
mientras los amores
nada(n) alchólicos y serenos
sin camisón

Gabriela López Zubiría

Junio 2005
http://www.verbobravio.blogspot.com/

sexta-feira, agosto 05, 2005

A Pena


Vale a pena estar vivo, embora não se saiba por ou para quê.

Este é o país a que chamamos nosso, apesar de ser deles. Deles: dos que mandam pôr a arder, dos que põem a arder mesmo sem mando, dos que ganham com o que ardeu.
Perante o flagelo anunciado de cada Verão (que, com a seca, começou este ano em Janeiro), alguém acredita na senhora-de-fátima o suficiente para encomendar submarinos em vez de helicópteros.
Nas festas flavas do T-Clube, a nacional aristocracia achinela-se untada de banha e idiotia.
Enquanto isso, nós engarrafamos clios e eskorts na curva de Buarcos, entre peões de tanga que carregam tremoços e feijoadas e mães solteiras buscando alemães que não virão, verão.
Vale a pena estar vivo, mas não ser vivo, ici.

Este é o país a que chamamos osso, porque a carne é deles. Eles, quem?

A ver:
O pivô-chorão do telejornal.
O Marcelo Rebelo de Sousa, de olhos muito abertos de coruja que não dorme para nos velar.
O Mário Soares, que não morre nem que o matem.
O Pateta Alegre, que já morreu mas não sabe.
O coiso dono da Vivenda Mariani.
O Obikwelu a tocar o hino das quinas em congas e bidons.
O Nino Vieira a passar anos de férias cá antes de ir mamar de novo lá.
O Pinto Balsemão sempre a cocar e o directorzito do Expressozito dele.
A Catarina Furtado a dar cabo ao nome do pai.
O Joaquim Furtado a criar uma filha para isto.
O Nicolau Breyner, que, via RTP, está encarraçado no pêlo do Orçamento de Estado há coisa de 40 anos.
O Herman José, que tem tanta piada como uma anedota pedófila e/ou de peidos.
O Moita Flores, esse grande guionista e grande amigo do Carlos Cruz.
O Carlos Cruz.
O Benfica, o Sporting e os coisos das Antas.
O viveiro-PS e o viveiro-PSD.
O mexilhão e a alforreca.
O Fausto Correia hirsuto e o Albarran careca.
O Carlucci da CIA e da EuroAmer.
O Talon e o Tyson.
A Pasta Medicinal Couto e a placa da Lili Caneças.
O Santana Lopes e o Sentido de Estado.
O Vasco Pulido Valente e o século XIX Fraco.
O Sampaio a chorar como se fosse pivô de telejornal.
A família Câmara Pereira e as pragas de gafanhotos bíblicas.
O riquinho que é presidente da Câmara de Aveiro.
O idem que é ibidem da homóloga de Ílhavo.
A calcinada tristeza de Coimbra, sob todos os aspectos.
Os indígenas de lata da Cova de Papelão da Moura.
O Zezé Camarinha, tão algarvio como o coiso da Vivenda Mariani.
A Igreja de Viseu.
O sertão de Bragança.
O Bispo de Braga.
A Josefa d'Óbidos.
As alcunhas alentejanas que passam a nome de família à hora da sesta-baptizado.
A Reserva Territorial aposentada da Tropa a gozar o prato nas termas.
A maltosa sueca da celulose.
O Pacheco Pereira a garantir que é a reencarnação do Che mas em Rumsfeld.
O Rumsfeld e a Condor Lisa, a preta que lá está a fingir que a MerdAmérica do Norte não é dos brancos wasp.
A Nancy Reagan, que é viúva há 80 anos e só agora é que lhe disseram.
O Giuliani no baile dos bombeiros antes do baile da Casa Branca.
A maltosa toda a dizer “é assim”.
O Luís Represas no elevador a fazer muzcas pró dito.
As manas Pinto Correia muito muito Fundação do Gil.
O Padre Fontes a cozer chás de bruxas em chaleiras de ouro bento.
O Moniz e a cova da Moura Guedes.
A TMN a mandar uma optimus fodavone.
O preço do tabaco.
A sangria atada do gasóleo.
O Bibi a fazer bobós a bebés.
O socrático Carrilho e a platónica Guimarães.
O bebé deles com nome daquele rei que plantou pinhais para ter onde cagar no intervalo das cantigas de amigos e das guerras com o filho.
D. Afonso Henriques, o primeiro presidente do Conselho de Administração da Gulbenkian, cujo complexo de Édipo fundou um país lamentável.
O próprio Gulbenkian, que quis fazer outra merda desta merda e que fez.
Os reformados a votarem lanigeramente nos gajos que lhes mamam as reformas de mama.
As reformas educativas e os professores e os alunos e os resultados das reformas educativas e dos exames, menos os de consciência.
A água das torneiras.
Os rios, mortais casas dos peixes.
Os suinicultores de galochas e os porcos descalços.
Timor e a Religião e Moral obrigatória.
O Rato Zinger, Mickey em alemão.
O futsal e o futebol de praia.
O voleibol de praia e o Maia e o Brenha.
A Madeira e o coiso.
USAçores.
O Graça cova da Moura, poetastro oficial cujo nome de tradutor é maior do que o traduzido Dante.
O Prado Coelho, coelho oficial.
O Guterres nos ugandas e nos sudões a benzer refugiados e a dizer “tenham paciência, tenham paciência, vão lá com Deus”.
A Maria Barroso e o padre Melícias a irem lá com Deus.
A fanhosice perpétua do Herdeiro do Trono de Portugal, que parece ‘cosa mentale’ mas não deve ser.
O Feytor Pinto e as camisas-de-vénus, hoje sim por causa do cancro ou lá como se chama aquela moléstia que dá de comer à Margarida Gorda dAbraço, amanhã não por causa da moral.
A moral.

E a pena.


Texto:Tondela, apenas tarde (de mais) de 5 de Agosto de 2005
Foto: interior do Café Sol Dourado, de Henrique Santos Belho e Belha Lúcia, Louriçal, 2003

Beleza pegada

Antes de ir e chegar a Cabo Verde, eu já lá tinha estado. E foi em Lisboa que lá estive e fui.
Foi no Inverno de 1995. Levaram-me ao B. Leza, território civil das lisboetas ruas de S. Paulo e Conde Barão. Já então, eu tinha tão pouco dinheiro, que os pássaros deixavam de cantar à minha passagem. E olhai que eu passava muito. Bom, mas então era 1995 e invernava. Fui levado por gente amiga ao B. Leza. Lá dentro, a escuridão era apenas a outra forma que a luz usava para mostrar o caminho. Hoje é ao contrário para mim.
Fui de imediato capturado e sequestrado pela viva música ao vivo. No palco, o senhor Paulinho Vieira, aranha de mulata carnação e escuros óculos, tecia a teia mortal da poesia sonora. À guitarra ou ao teclado, Paulinho dirigia a orquestra, que, afro, arfava. Tudo era mornidão e morenidão. Exaltava-se o que exultava: o corpo, território do homem, colónia da mulher.
Voltei a esse Cabo Verde lisboeta algumas vezes. Foi no B. Leza que vi e ouvi Maria Alice, Dani Silva, Tito Paris. Foi no B. Leza que o duo Angola-Brasil me deu um concerto que não posso esquecer nem esqueço. Anónimos eram os dançarinos na pista. Mas, também, quem assim dança não precisa de nome.
Escrevendo isto, estou de volta a Cabo Verde em Lisboa. Dez anos passaram. Ou talvez não. Talvez não tenham passado nada dez anos. Talvez eu seja dez anos mais novo do que a mão que escreve. Se assim for, estou mesmo de volta. Então, na clara escuridão, Paulinho, de boné e botas altas, sugere o paraíso terreal, esse a que temos todos direito quando, apesar do pouco dinheiro, usamos muito coração. E depois?
Ora, depois é Dani. Ou Tito. Ou Maria Alice. Pássaros que cantam sempre para mim, mesmo por dinheiro nenhum.




(Escrito para o sítio na net: www.liberal-caboverde.com
na tarde de 4 de Agosto de 2005, em Tondela.)

quinta-feira, agosto 04, 2005

Luzombra

Vi
mais do que imaginei
a sombra do corpo que sou
- libertando-se do que era
- seguindo novo obscuro próprio
caminho.
De então desde
sou todo luz que
não alcança a noite
nem a paz que
apesar de tudo
a noite concede aos corpo
mesmo os mais sombrios.

Foi o que vi
afastando-me dele.


Tondela: entardecer de 3 de Agosto de 2005

quarta-feira, agosto 03, 2005

Think too much


They say that the left side of the brain
Controls the right
They say that right side
Has to work hard all night
Maybe I think too much for my own good
Some people say so
Other people say no, no
That fact is you don’t think
As much as you could


Paul Simon

terça-feira, agosto 02, 2005

Sete Fragmentos da Totalidade Impossível


1. Os senhores Araújos, Cerqueiras, Fernandes, Santos, Paivas, Ferreiras, Borges, Gomes, Quintanilhas, Amados, Venturas, Chapas: todos vivem, morrem e chovem.

2. À noitinha, pelo fresco, o casal gordo vai à festa da vila. Ela leva um banquinho de campismo para esborrachar as nádegas durante o chô do pcantorimba. Ele vai de sandálias de plástico, descuidado o negro das unhas muito crescidas e muito amarelas de condutor TIR. Eles não questionam a felicidade, logo são felizes. É deles, o Verão.

3. Uma pessoa gosta daqueles e daquelas a que chama 'seus'. E, gostando-os, pertence-lhes.

4. À hora do chá, um saco de bolos secos sobre a mesa da cozinha. Rumor de fundo, a rádio regional. Instalação de moscas no ar quieto. A luz puntiforme filtrada pelos estores escorridos. Agosto de giz.

5. Quase tudo implica um combate, que devém incessante. Salvaguardam-se uns poucos instantes, à sombra espessa da árvore do jardim que não plantei.

6. Um grande chapão de sol na relva crestada. Boceja o cão magro que se deitou à sombra do muro riscado de rápidas sardaniscas. Os caixotes de lixo repletos e esbeiçados de cartão, restos de peixe, sacas do Continente.

7. O resto é ter cuidado com as evidências: elas não gostam de nós.


Pintura: Golconde, de René Magritte
Texto: Tondela, tarde de 1 de Agosto de 2005

Agosto



Os telejornais, vazios e partidos como cascas de que se retirou o ovo cozido, desfilam cidadãos anónimos quási nus nas praias do País.
Inveja minha, que cresto ao sol da serrania como um pastor sem gado.
Até na tv gosto do mar: aquele relógio líquido feito espaço, redançador das infinitas areias da ampulheta infinita.
Os que podem e sabem, vão para o litoral.
Ainda existe, o litoral.
Apesar de tudo o que lhe (des)fazem, ainda existe.
Resta-me imaginar a cutelaria do vento marinho, as gaivotas apitando nos ares como amola-tesouras ricos, o iodo respiratório, as criancinhas trôpegas de liberdade como pinguins só brancos, o homem dos gelados aparentemente perpétuo de luz e dedos pegajosos.
Fico na serra.

Foto: Baleal, Peniche, 2004, Catarina/Fernando H..
Texto: Tondela, tarde de 1 de Agosto de 2005


sexta-feira, julho 29, 2005

Nesciência

Há coisas que não sei.
Elas configuram o futuro - o que saberei.
O que já esqueci - também tal configura o futuro.
O que demoro é ouro: o pequeno gesto que tiveram para contigo, a atenção que te deram sem saberes tu que a merecias, o copo-de-água de laranja virginal, a pureza dos sapatos engraxados de negrossol quando se casou aquele casal de amigos, a chanfana rica para pobres comedores.
Ah, mas essas coisas - essas coisas, eu sei.



Tondela, noitinha de 28 de Julho de 2005