quinta-feira, julho 21, 2005

Cinzas


Desconfiei sempre da folia organizada. Isto é, da folia institucionalizada e respeitável, cujo calendário pode implicar (e geralmente implica) consequências e cinzas tão graves como Alberto João Jardim.
O Carnaval deve começar por ser minúsculo. Ou seja: pessoal e intransmissível como a peça de roupa que algodoamos entre partes e calças. Há folia suficiente nas minúcias com que levamos a vida. Exemplos: quero um isqueiro amarelo, apesar de todo o arco-íris faiscar; prefiro fazer palavras cruzadas a cruzar palavras com gente quadrada; transporto no bolso um livro que não vou acabar de ler porque ando a fazer os possíveis para ser atropelado numa passadeira.
Em suma, não alinho em carnavais alheios. Chega-me bem conseguir adormecer em autocarros e almoços, de garfo hirto numa mão que treme.
O meu carnaval individual é quanto (me) basta para perceber que a loucura é séria de mais para ser partilhada.

Imagem: © Chema Madoz
Texto: orinalmente publicado no jornal Trevim, da Lousã, comuna 'Leite dos Santos', a instâncias do meu querido amigo Zé Oliveira e em data que não recordo. Lá para 2001, salvo grande erro.

Milénio

Peço desculpa, mas não nasci para durar mil anos. Isso. Mil anos são coisa de gente perpétua. Não é o meu caso. Nem o vosso, eu sei.

É mais fácil sobreviver que viver. Não há verbo previsto para "sobremorrer". Desculpai-me. Não tenho lições a dar. Os tangos são coisas de senhores, as valsas são coisas de senhoras. Não descortino qualquer razão, para que, por um passo de mágica qualquer, as coisas se tornassem diferentes num milénio a que, em vez de dois, chamássemos três, ou catorze, ou qualquer coisa de que Deus se lembrasse, por puro prazer aritmético.

Não tenho soluções. Gostaria que a minha chuva fosse menos intelectual que a vossa. Gostaria que o próximo milénio me não trouxesse, sequer, a hipótese de ser cremado contra vontade. Não sei se é pedir muito. Mas também não é pedir.

Texto orinalmente publicado no jornal Trevim, da Lousã, comuna 'Leite dos Santos', a instâncias do meu querido amigo Zé Oliveira. Escrito a 31 de Janeiro de 2001, em Aveiro, acho eu.

São Quê?



Se os santos fossem mesmo populares, não seriam santos, mas gente do povo. E gente mais virada para a terra do que para o céu.
Comer gafanhotos no deserto e prègar (*) às dunas é mais coisa de capelão-fuzileiro do que de santo. E é pouquíssimo popular.
Outra coisa estranha é o facto de todos os santos só o serem depois de mortos. De modo que a santidade, condenada como está a ser póstuma, de pouco serve aos vivos, a quem os exemplos só aproveitam enquanto por cá andam.
Podemos não acreditar neles, mas que os há, há, como se diz das outras. Quase todos andam de sandálias e cheiram a alho que tresandam. A sua moral é feita de ralhos sexuais, abstinências dietéticas e crepúsculos mais tristes que de costume.
Há-os simpáticos, claro. António, por exemplo. Malicioso consertador de bilhas, alcoviteiro. Mas também de sandálias. E há os antipáticos. Paulo, por exemplo. Depois de chatear os outros pelo mal, desatou a chateá-los por um bem que nem tinham encomendado, como acontece com aqueles concursos da Reader’s Digest.
Altar, enfim, cada um tem o que merece. Eu, que não mereço, despeço-me aqui e vou converter-me à pesca. Sem sermão aos peixes. Isso nunca.

(*) Teimo na necessidade do acento grave. Os pseudo-arranjinhos ortográficos oficiais que se vão pôr num porco.


Texto orinalmente publicado no jornal Trevim, da Lousã, comuna 'Leite dos Santos', a instâncias do meu querido amigo Zé Oliveira e em data que não recordo. Lá para 2001, salvo grande erro.

quarta-feira, julho 20, 2005

Acento Grave


Uma pessoa aclimata-se de pequenina a objectos preciosos que depois lhe tomam a vida.
Nalguns milhões de casos, a solidão colecciona selos.
Outros coleccionam pègadas, mantendo, por pura ortoteimosiagráfica, o acento grave.
Mulheres seleccionam amantes finos como caules de champanhe.
Rapazinhos domesticam rãs.
Menininhas adoram avôs.
No tudo, a vida e a morte coladas a cuspo pelo tempo.
Depois, as segundas e as quintas dispersam-se como fins de feiras: horas ciganas, minutoldos, segunbancas, existir a saldo e a soldo, caixas aeróbicas com galinhas tísicas rodeadas de pintos de bairro social.
Eu fui escolhido por alguns Mundos de Aventuras com capas de Carlos Alberto.
Uma pessoa é para o que nasce, é para o que morre.


Imagem: © Chema Madoz
Texto: Tondela, tarde de 20 de Julho de 2005

Mar de Ancas de Senhora


Português de nascimento e limitação, só me aconteceu, até à data, visitar três países além do meu: Espanha, Bélgica e Cabo Verde. O que não é pouco nem muito. A minha avó teria achado muito, o dr. Mário Soares ter-se-ia rido. De modo que a teoria da relatividade continua absoluta, acho eu.
Como a Espanha e a Bélgica para aqui não interessam nada, recordo, com vossa licença, o glorioso entardecer desse Julho de há oito anos em que quase fui esquartejado pelas ancas industriais de uma senhora da Costa do Marfim que teimava em ensinar-me a dançar morna. A mim, calculai, que tenho tanto de dançarino quanto o grogue tem de santo. Mas que foi bom, foi. A festa era no terraço alto de um quarto ou quinto ou sexto andar de Santiago, convidaram-me não sei por nem para quê, sei que fui e que fui filado pela tal senhora e pelas tais ancas. A coisa nem aqueceu, ficou pela morna, não sei por que recordo isto. Talvez porque recordar seja dançar.
Sem música nem senhora, andei eu depois pela noite da capital. Soprado pelo bafo de forno molhado do trópico, suava como uma vela exilada do altar. As noites eram boas e plenas, apesar da solidão profissional que todos os portugueses gostam de envergar como sinal de respeito ou quejanda imbecilidade. Antes que a noite acabasse de todo, às seis horas da manhã-ainda-não-manhã eu escapulia-me do hotel e ia dar comigo na praia quente. Descia uma encosta de areia armadilhada de garrafas partidas e adentrava o mar despido de tudo menos da ânsia. Isso, eu sei por que recordo: porque entrar no mar é como entrar ancas adentro de uma senhora imensa.
Seja ela da Costa do Marfim, da Espanha ou da Bélgica.








Imagem: © Chema Madoz
(Escrito para o sítio na net:
www.liberal-caboverde.com, na tarde de 19 de Julho de 2005, Tondela

De Casa de Seus Pais

Desapareceu de casa de seus pais um órfão, maior de 45 anos de idade. Pela última vez que foi visto, envergava uma camisola de cavas amarela com um boneco do Naranjito, mascote do Mundial de Futebol México-86 (ou Espanha-82?), umas calças castanhas coçadas ao longo de tardes e tardes de chuva e silêncio no interior da casa que foi de seus pais e agora era dele, um par de sapatilhas encarnadas rotas à frente pela pressão incompreensível (crescer para quê?) das unhas dos dedos grandes, um ar de quem usa chapéu sem chapéu e uma expressão de periquito agoniado por ouvir tanto Brahms imaginário, na casa não havia gira-discos nem rádio parado na Antena 2.
Chamava-se Alberto Minde Rico, não constando que alguém tenha alguma vez entendido o que dizia. Antes do desaparecimento, era visto passeando pelas margens do lago de lixo junto ao mercado abastecedor da cidade. Parece que gostava de rãs e de pássaros verdes, que sempre deixou em liberdade apesar de lhe povoarem sem medo as mãos e os ombros.
Alberto, como toda a gente, às vezes chovia e outras fazia sol.
E agora, como toda a gente, desapareceu. A casa vai a hasta pública. Um japonês já telefonou a dizer que está interessado, mas ele há sempre Hollywood e a questão dos direitos.


Imagem: © Chema Madoz
Texto: Tondela, tarde de 19 de Julho de 2005

Cultura Geral - 7

O Verão Quente foi há 30 anos. PC e algum MFA contra o Mário Soares, a população de Rio Maior, o Frank Carlucci e o Bispo de Braga com o Cónego Melo a tiracolo. Com raras intermitências que a História fará o favor de esquecer, o País tem sido, de então a esta parte, governado (é um modo de falar) ora pelo PS, ora pelo PSD. O resultado aí está: o Desemprego, o Défice Constâncio, o Durão Mao Dum-Dum na Comissão Europeia, o Mário Soares a gozar as viagens da Presidência da República a cavalo nas tartarugas das Ilhas Seychelles, o Portas Ministro sem que ninguém se ria, os euros dos bombeiros queimados nos submarinos, o Luís Delgado no Diário de Notícias, o Rogeiro em tudo quanto é monte excrescente, o Pacheco Pereira de volta, aos poucos, ao PCP-ML, o Cavaco feito Salvador, o Alegre a dizer as patetices poéticas do costume, o Barreto com aquele cultivado olhar alucinogéni(c)o, a mulher dele (a Mª Filomena Mónica) armada em exegeta queiroziana (com z, sim), o Sousa Tavares Filho a escrever bestas-céleres (expressão do O'Neill), a boazona da Bárbara Guimarães casada com a Cultura, o Zé Maria feito em merda, os locutores de rádio a defenderem as playlists à la USA, o Rodrigues dos Santos a lacrimejar notícias e cabotinomalandrar pisca-olhos à visão do inevitável 'apontamento' de moda que fecha todos os telejornais desde o badagaio do PREC, a Senhora de Fátima pontual na hora da maior sangria de divisas do País rumo-a-Roma, a Saúde-por-assim-dizer, a Justiça-por-assim-dizer, a Educação-por-assim-dizer, a Função Pública-por-assim-dizer, o Paulo China no Algarve a lamber botas do Figo, o Bloco a fumar cachimbos de Magritte pelas beiças do Rosas, os habitantes sobreviventes de Entre-os-Rios a fazerem rappel à ida e à vinda das amendoeiras-em-flor, os autarcas rotundos rotundando tudo quanto é via, os cabrões dos empreiteiros a palitarem lucros à sorrelfa, o Freitas do Amaral-de-manhã-do-Governo-à-noite-nunca-tal, o João Soares a pôr Jonas ao filho, a Maria Barroso a fazer-se de católica depois de se ter feito de actriz, o padre Melícias em tudo quanto é Santa, e Casa, e Misericórdia, o Feytor Pinto a dizer que afinal-a-camisa-de-vénus-pode-não-ser-pecado-depende-da-moral-da-piça, o Valentim Loureiro a dar o Boavista ao filho, o que era cantor dos Ban, os Xutos a comemorarem as Bodas de Diamante-não-tarda-nada, as manas Pinto Correia com aquele arzinho de comedoras de tubarões. E o Rui Veloso a cantar não há estrelas no céu, parapim, parapam. E valha a verdade que se, há 30 anos, tivesse dado comunistas e éméfiás, a coisa seria o mesmo, posto que portuguesa.

E eu vou para onde, se me fazem barão?

Desenho: Pombal, 2002
Texto: Tondela, tarde de 19 de Julho de 2005

Andante


Quatro pinheiros mansos como bois bordam uma encruzilhada que faço a pé todas as manhãs, cedo no dia.
Eles farfalham, contentes de lhe dar o vento nas axilas.
Ainda esta manhã os respirei, gozoso.

Ontem à noite, abandonei por momentos a casa e a Virginia Woolf. Tinha comido uma conserva, dois pães, um pouco de queijo. Apetecia-me café. Saí. No lusco-fusco da aldeia, os passos britavam areia. À porta do estabelecimento, a dona conversava ao fresco com um casal de aldeãos. Tomei uma chávena enquanto pensava na cara. Entre a minha casa e o café, uma cara passou por mim. Feita de pedra e de sombra, uma cara de mulher dura. Foi só isto, mas ficou-me. Voltarei a vê-la: a aldeia é pequena.

Comprei uma botija de gás no sábado à tarde. O rapaz das bombas queria ajudar-me a pô-la no carro. Agradeci-lhe, disse-lhe que não era preciso. Ainda não é preciso.

Jantei num pátio à sombra de tílias. Em redor, famílias grelhavam pequeninas maledicências sobre outras famílias. Um cãozito baixote e antigo estacionou-me aos pés, o olhar flechado para cima, à espera. Manso como um daqueles pinheiros. Dei-lhe um bocado de carne. Cheirou-o, agradeceu-me com um relance dos olhos piscos e comeu devagar como um cavalheiro.

Antigamente, eu só andava para ir. Agora, também regresso. Não sei se anda aqui alguma coisa de velhice, nisto. Se anda, ainda bem que anda: é bom.

Amanhã de manhã, se o coração me não trair, levanto-me com a certeza dos pinheiros. Içar-me-ei mansamente.

Imagem: © Chema Madoz
Texto: Tondela, tarde de 19 de Julho de 2005

terça-feira, julho 19, 2005

Tem estado a chover sal




Marsupial e amor

O verdadeiro inimigo está em ti. O teu verdadeiro, o mais tenaz de todos os teus inimigos, é em ti que mora. A diferença está em que, ao contrário de todos os outros, ele é o único que te presta lealdade. O teu verdadeiro inimigo é-te leal, acredita. Leva-lo contigo, alojado no ventre, pelo deserto, o que faz de ti um caso marsupial. Dás-lhe quarto, comida e roupa lavada, o que faz dele mais teu filho que teu mero hóspede. Acabas por gostar dele, a ponto de não seres alguém sem que ele te ajude a ser. Isso é engraçado: por se parecer tanto com o amor.

Limão e açúcar

E há os outros inimigos. São aqueles que, verdadeiramente, não podes amar com a indulgência triste dos amores resignados. Os que invejas ou te invejam. Os que desprezas ou te desprezam. Os que sabes que te ignoram e os que ignoram o que sabes. Os que te negariam uma casca de limão durante um ataque de escorbuto. Aqueles a quem negarias um punhado de açúcar numa chuvada de sal. Esses não estão em ti: não são verdadeiros. Estão, porém, sempre perto de ti: para que melhor saibas quanto ignoram. Isso também é engraçado, mas não tem nada parecido com o amor. Só com a decepção dele.

Laranjeiras e guarda-chuvas

Olha, faz desta maneira: percorre as tuas vielas noctâmbulas contando gatos, matrículas de carros, contentores de lixo, janelas ainda acesas. Olha, faz assim: observa como as laranjeiras parecem fechadas como guarda-chuvas. Não é curioso as coisas parecerem o que não são? E as pessoas, vê bem: guarda-chuvas disfarçados de laranjeiras: os inimigos.

Boa noite

E amigos, onde anda essa gente? E amores? São duas perguntas.
Dos amigos, responderás que andam em vielas só deles, contando outros gatos. De vez em quando, surgem do nada para te darem tudo e para tudo te levarem, abandonando-te exausto e quase feliz numa orla de praia, na mão esquerda uma casca de limão, na direita uma mínima duna de açúcar.
Dos amores, dirás que não podem ser plurais, que só o singular se aplica a tão solitária ocupação.
Se responderes isto assim como está escrito, pode bem ser que o teu verdadeiro inimigo se compadeça por instantes de ti, a ponto de, por uma noite, te não deixar ir por vielas contando o incontável, de, por uma noite, te deixar até dormir.
E dormir com o inimigo não é má ideia, desde que ele adormeça primeiro.



Imagem: © Chema Madoz
(Originalmente publicado no hoje extinto Dito e Feito, Pombal, Outono de 2004)

Espargos


Quando eu era menino e estava doente, a febre era como uma pessoa quente que se tivesse deitado comigo. Depois, deixei de ser esse, dormi com mulheres e soube que era outra vez a febre, mas agora redonda e branca e com um calor de outra natureza, embora também por causa do corpo, como tudo. Entre uma e outra coisa, ia ao monte e colhia espargos. O vento era ele próprio uma bandeira, uma presença que exaltava. Eu corria de espargos apertados na mão, e tudo isto é triste e bonito porque é o passado. Conheço estas coisas desde que sei que vou morrer – quase desde sempre. Os vizinhos do apartamento de cima, ouço-os na cama a gemerem de ira ou de amor, o som é igual. Durmo sem pijama, os mamilos são dedadas de sangue, o umbigo chupa o cotão dos cobertores, os pés estão exilados no pólo sul do corpo, lá onde o gelo se afia de unhas, lá onde os calos de vendedor pulsam uma dor melancólica.

E à tardinha somos os mesmos, a uma mesa de pastelaria redonda como o destino. Todos bem, sendo “bem” o ter um trabalho. Eu, vendedor. Tu, administrador. Ele, professor. Aquele, or, ores, ores. Todos com algo de sufixo de agente, como nas palavras cruzadas. O denominador comum é a condição de estar vivo. E assim vamos estando, sendo, adiando. Outros houve no grupo da tardinha. Uns morreram, outros mudaram de mulher, casa ou emprego, ou tudo isso, dá no mesmo. Preocupamo-nos uns com os outros, mas a saúde ainda não é o que há-de ser: o tema único. Porque, afinal, somos gente com quarenta anos. Certo que nos lembramos, cada um por si, de coisas ridículas do passado, coisas como os espargos, que, de tão mínimas, fundam o ser, muito mais do que o estar. Envelhecer não é quando a infância cresce? É, sim. Sim, é isso. Por isso, há tardinhas em que não apareço. A dor toma-me e eu não apareço. Fico com uma cara de cão batido pela chuva, só me apetece descascar árvores até que tudo fique em sangue: a árvore, a mão. Como é evidente, tenho de ter cuidado com isto.

Quando decidi aceitar (como quem, magnânimo, concede) a ideia de morrer um dia? Lá longe, digo. O espaço acumulado torna-se tempo, sendo “tempo” o peso da acumulação de lugares. O umbigo é uma matriz geodésica inversa: assinala o mais profundo, o vale uterino onde o astronauta fetal arranca para a corrida do espaço. E quando estou assim, não me digam nada. Até porque estou só, que é como está quem vive. E se me perguntar se sempre foi assim, respondo-me que nem sempre foi assim. E minto com a boca toda. Artigo acrílico incluído.

A dor sobe, feita fogacho gástrico. Isto sim, sempre foi assim. Dor da memória, pior de todas: branca, falsa, falsa porque não branca. Equilibrar isto, equilibrar isto. Preferível de outra maneira. Junto dos clientes fiéis de muitos anos, sorrir melhor, mais brandamente, de modo mais puro. Vendedor-pessoa, não vendedor-vendedor.

Ou não. Só viver a verdade do passado. Cada vez que nos lembramos, refazemos. Isso pode ser maravilhoso. Posso ser uma criança mais alta do que fui, ou terei sido. Ao mesmo tempo, não cortar de todo as cordas que te amarram ao presente: o ordenado a vencer, as contas a liquidar, as tardinhas da pastelaria, o nome completo, sua data de nascimento. E as coisas restantes.

Assim está bem. Vamos, então. Nos hipermercados é possível descobrir uns espargos grandes dentro de frascos de vidro. Os espargos, que vêm do estrangeiro, estão a dormir dentro do soro. Não são os meus espargos. Os meus espargos são mais miúdos. São silvestres. A primeira mão humana que conhecem é a que os mata. Agora estou no monte, o vento levanta-me alguns centímetros e põe-me um pouco mais à frente. Há caracóis no musgo. Procuram as partes frescas do monte. Babujam e balbuciam. Também eles adoram os espargos. Mas eu corro mais do que eles. Em adulto, comerei caracóis grandes em restaurantes ainda maiores. São um manjar de luxo. É preciso ultrapassar, pela cultura da aparência e pela aparência de cultura, o nojo do ranho. Mas ainda não é a altura. Agora, sou este que ultrapassa tudo: caracóis, vento, luz. Sento-me numa encosta de que se desfaz a pedra. É à sombra. Enterraram por aqui um cão chamado Dourado. Mas agora o cão ainda não morreu. Está lá para baixo, vivo, na rua, no quintal dos donos. Amanhã, que é quinta-feira, visito o dos plásticos e fecho a volta em beleza. Hoje, tenho de procurar o sono, como se o sono fosse um irmão bom que se tivesse escondido atrás do armário ou atrás da morte. Não, ainda não.

Quem anda ao sol, conhece a extensão da vida. Percebe que é menor que a extensão do tempo. Quem anda dentro de um comercial de dois lugares movido a gasóleo, representando marcas de artigos, exibindo catálogos, aparentando um favor especial por um desconto especialíssimo, conhece o sabor a nada e a renada na paragem para refresco num bar da estrada, nalguma estação de serviço. Mostruários fechados a aloquete exibem cassetes de música e vídeos pornográficos. Cartazes de pé de ferro exibem os gelados à venda neste local. Calendários com mulheres nuas e calhambeques publicitam a próxima oficina de bate-chapas. As putas da estrada vêm aqui ingerir café com leite e bolos de arroz. Todos andamos ao sol com a cabeça cheia de sombras. Devagar, devagarinho, o meu tempo lê-me. Mão mágica, desbravadora de íntimas hortas. O hortelão, que é um príncipe caído em desgraça por manigâncias do IRS, espera que o sol da manhã venha pintar a primeira água sobre os legumes. Tenho de ter todo o cuidado.

A extensão das minhas duas vidas afia unhas de mosca nas muitas janelas. Todo o cuidado é tão pouco, não é? Se isto não dá, tem aquilo de dar, é tudo. Viver, viver, estar vivo. Aguentar as marradas e dar marradas. No íntimo da casa, no entanto, usar a cabeça apenas para efeito de recriação do território da infância, lá onde os espargos pulsam aroma, lá onde as raparigas não são importantes e não cheiram e não chamam.

Quando a noite vem, com gestos de mãe universal, vejo-me a sair de casa, a decidir esquerda ou direita, a guiar o carro por asfaltos moles (fez calor). Uma destas noites, escolhi a direita, fui comer salada de batata a um estaminé de brilhos modernos. Comprei cigarros, deixei o carro ao pé do restaurante e pus-me a andar noite adentro. Vi outra vez as pessoas. Todas acondicionadas na sua noite particular. Cada uma urdindo o novelo do destino, de olhar distraído e puro, um olhar deitado às costas das coisas. Naveguei assim para não deixar que a dor me matasse. Ou me mordesse como uma cadela prenhe que pensa que já pariu. Andei muito tempo. Entrei num piano-bar. Casais gintonificados falavam com os braços todos no ar. Ninguém parecia ligar ao trabalho do pianista. Vi que a rapariga do balcão me não iria tratar bem nem mal, coisa que me encheu de uma doçura maravilhosa. Senti-me invisível. E visor, visor de tudo e de todos. Estive ali. Não era importante. Eu não era importante, as coisas não eram importantes. A noite era importante. Para já, porque era muito antiga. Depois, porque era tão recente como um bebé. Desta condição estranha, a noite retira a produção dos melhores frutos: a solidão, a desimportância da solidão, a desnecessidade de voltar. Os amigos da tardinha dissiparam-se, o meu trabalho desapareceu. No corpo, subsistia um pouco da fadiga do trabalho. Vender coisas com uma facturação limpinha, falar com sujeitos que engordam em cubículos a que chamam empresas, tudo isto pode ser e é. Mas há as outras janelas: as que abrem paisagens dominadas por castelos dentro dos quais há condes húngaros que sorvem sangue, as que mostram o olhar do pintor que dava às coisas um nome diferente do legal mas mais justo do que o legal, as que uso para aceder a recantos da infância, lá onde os caracóis não são comidos, nem as raparigas. É muito importante impedir que a tristeza seja veloz. A qualidade da tristeza está na lentidão. Lenta, pode ser saboreada como café em púcaro de folha, ao vento do monte, acesa a fogueira. Os lobos juntam-se para ver o homem triste beber café, o homem que abre as asas do nariz para o hausto do vento que traz a presença desordenada dos espargos. De modo que saí do piano-bar, regressei ao carro e regressei a casa. Era já terça-feira, tudo estava em ordem. Verifiquei o alarme do despertador, li o Jornal do Comércio e estendi o braço para apagar a luz. Mas há muitas noites que ela estava apagada.

A manhã é um país muito parecido com a infância. Pode ser modificada, como tudo o que se sabe ter a morte no papo. E, como a infância e o cinema, é uma ilusão feita de luz. O resultado é, a longo prazo, a noite. A médio, o torpor de jibóia do almoço, altura em que é preciso retornar à estrada e aos industriais que encomendam por catálogo.

Dar luta à dor: programa do dia. Há muitos dias que não vou à pastelaria. Compro nozes, pão e cem gramas de mortadela, uma lata de gasosa. Estaciono à sombra da igreja, finjo que não sofro o olhar dos aldeãos carbonizados pelo sol das três da tarde, desço as escadas públicas até ao parque de merendas. Há um fio de água entre pinheiros. Calor e música de insectos. Uma cobra de água flui (dois segundos de epifania) entre ervas: pobre rã. Filmo o estralejar insone da luz entre folhas: flechas de pó iluminado, ouro vivo que paga a despesa da sombra. Sinto-me muito bem. Lá do alto, um aldeão espreita-me. Desconfia do turista. Quem, a uma tarde de semana, e sozinho, pode vir merendar? Desperto-lhe uma curiosidade a que o rancor mole dos estúpidos deve dar alguma cor. Passado um bocado, são dois a espreitar. Gesticulam. Decido olhá-los sem disfarce. Recolhem-se. Não. Descem ambos a escadaria. Um fica perto da mãe d’água. O outro acerca-se-me. “Vossemecê é daqui perto?”, dispara. Engulo devagar o último bocado de pão. Chupo o dente furado. Digo-lhe: “O senhor conhece-me?” Diz que não com a cabeça. Só a cabeça mexe. Os olhos ficam. “Então, é porque sou de longe”, digo. Olha-me, desconfiado. O humor é estrangeiro em toda a parte. “Isto aqui já foi dum dono”, avisa. Digo-lhe: “Isto aqui pertence ao povo desde 1974, a Junta trata disto, basta haver quem aproveite, então não acha o senhor que é assim e assim deverá ser enquanto o fio de luz daquilo a que chamamos eternidade se não apagar no azeite do olvido? Para mais, e contando sempre com a mais que previsível má catadura dos energúmenos, como no caso a mim presente e por si constante, sujeitos à insolação da Outra Senhora, não me parece, ainda assim, dever-lhe o obséquio tendente à fundamentação de razão e ou finalidade da minha presença manjedoura neste recinto sobredito público. N’é?”, metralho. O homem vai-se embora. Faz sinal ao outro com a mão. Leva a conta dele. O cu mental e o físico vão atados pelo mesmo nó. Mas isto entristece-me: a invasão, a guerra, a presunção, o estrangeiro, o estrangeirismo e o estrangeirado. A pacóvia plenipotente provinciana pobreza psicológica. Guardo os despojos da merenda no saco de plástico, cuspo para a água, mijo para a água, vou lavar as mãos e a boca ao fio gelado que sai da mãe-de-pedra e regresso ao carro com um ar de filósofo arrependido de não ter emigrado para a Venezuela ou para o Alasca. Já em andamento, topo os dois sentados num banco do adro da igreja. Meto a cabeça de fora e vocifero: “Vão desenterrar a vossa mãe, que os bichos estão fartos de ir às putas!” Ganhei o dia.

Por falar em mãe, se eu quiser fundar de novo a vida que encheu o meu corpo dentro da barriga dela, terei de invocar os vários reinos, os reinos primevos. O reino animal que enche a infância de sabedoria, por exemplo. Estou a ver-me a ver os pássaros. Eram caçados à pedrada e a tiro. Não por mim. Alguns adultos comiam-nos fritos com cebola. Outros pássaros eram para prender. Via-se o caçador no campo, mais longe que um grito. Ele apontava a espingarda, que era como um braço negro. Víamos o fumo a sair, mas só muito depois se ouvia o despejo do tiro. Os caçadores voltavam ao entardecer. Calçavam botas de borracha. À cintura, enforcados em anilhas de ferro, vinham os pássaros sem vida. Pareciam bonecos mal acabados, sem a firmeza de pau dos bonecos reais. Havia mais bichos. Os grilos, em cujas tocas mijávamos para os obrigar a sair à pressa, aturdidos como mineiros. As casas dos grilos tinham uma entrada redonda, perfeitamente redonda, com porta e tudo. Deviam ter janelas subterrâneas, porque cá em cima só se topava a porta redonda. Havia os sapos gordos da vala. A vala era pútrida, nela cagavam todas as fábricas da zona. Havia os cães, que matavam os gatos. Por isso, quase não havia gatos. Associávamos os gatos a um outro reino animal: o das mulheres. As mulheres velhas, sobretudo. Mesmo ao pé do monte, havia uma casa alta. Viviam nela a mãe velha e as duas filhas sem maridos. Vendiam ovos e recebiam as reformas. Nós atirávamos fisgadas às galinhas para as ver fugir com aquele ar indignado das pessoas estúpidas. Estou a fundar a vida de novo. Sinto-me bem com isso. Tenho uma paz tremenda. Estou do lado grande, agora. Os meus sapatos são maiores do que os do meu pai. Os meus sovacos já têm cabelo. A pele da ponta da piça deixa-se puxar toda para trás. Fumo sem me esconder, sem mascar folhas de oliveira depois. O da fábrica de plásticos chamou-me para jantar em casa dele. É uma vivenda com piscina emoldurada de relva. Tem bancos de recostar de plástico. Há azulejos pintados, uma mangueira dorme na relva como uma anaconda. A mulher reconhece o meu nome. “É você que é solteiro, não é?”, sorri. Tem a língua bifurcada. “Sou eu”, digo. Ela oferece vermute, pego no copo e brindo: “Mas a senhora, não.” Ela aguenta: “Às vezes sou, tudo calha.” Achamos ambos piada à conversa de filme maduro, rimos os dois. O anfitrião vem, rosna: “Ainda bem que se estão a divertir”, pega na mulher por um braço e leva-a. Fico por ali a engolir vermutes e a olhar para o azul-juliglesias da piscina. Um fabricante vem ter comigo. Estende-me o cartão: “Passe pela minha fábrica um dia destes, vamos almoçar e conversamos.” Digo-lhe que sem falta, muito obrigado. A vida é fácil. Vendes uma coisa barata, tornas-te caro a toda a gente. Gostam do dinheiro por causa disto: a evidência da piscina, o vermute dado aos pobres. Só precisam de ter cuidado com a menopausa das esposas. Por um nada, até com um vendedorzeco, põem cornos a torto e a direito. A brisa encrespa a água da piscina. O mordomo chama-nos para dentro. É um jantar-volante. Tem pianista e flautista. São casados. Ela é anémica e loura, como convém a todas as flautistas. Ele é marreco e infeliz como a música, poderia trabalhar nos saloons do Mundo de Aventuras. A sopa chama-se “Aveludado de Espinafres”. Comemora-se, com um brinde inicial de champanhe, a licenciatura em Medicina do filho mais velho da casa. Há tornedós, medalhões, escalopes, filetes, bavaroises, cordons bleus, batatas assadas e espargos. Não são os meus. Venho à portada espreitar o jardim: um passarito bebe água interminavelmente. O vento vem e toca-lhe o corpo. O passarito torna-se pedra. A dor.

Tudo se mistura muito rapidamente. Todo o cuidado é pouco. Não posso viver no caso de os planos se misturarem de mais. Os tempos têm de ser mentalmente apartados. Os lugares também suscitam muito perigo. No mesmo lugar, posso viver vários tempos. E posso morrer por causa disso. A rua aonde me dirijo, por exemplo. Há uma mercearia-café na esquina. Estou lá há agora quinze anos. Conheço a rapariga do andar de cima. Ela desce, compra pão, leite e margarina. Conhece-me. Depois, é uma tarde de chuva. Ela está à janela. Eu subo. Fazemos como os coelhos. É o dia da semana em que a senhoria dos quartos de estudantes se ausenta. Agora, faz um sol com mais quinze anos. A mercearia-café é uma pequena agência bancária. Onde está o frigorífico, está o cofre do multibanco. Não há rapariga. Há raparigas estudantes, suponho. Dormem no mesmos quartos, agora outros. Não tenho lá lugar. Não produzo ausência. O sol é uma surdez do ar, barra vidro pelo pão do calor, as pessoas desfalecem dentro dos automóveis parados na fila. É o mesmo lugar? Como pode? Mas é um único tempo, uma dimensão matadora que deixa recordar. Não há pássaros à vista. O mar respira longe, o mar de veleiros ricos e afogados pobres. No campo, um pastor escolhe uma sombra larga. É jovem. Espreita-o uma mulher. A mulher veio lavar roupa de cama no tanque da quinta. Os braços dela estão ainda frescos de sabão e água de pedra. Outros cheiros acordam no sul da mulher. Ouviu os passos descuidados do pastor. Tem o dobro da idade dele. Veio espreitá-lo. O rapaz tem pernas muito brancas e muito sólidas. A piça está meio túmida, perlada por uma lágrima de soro. O rapaz segura-a como se ela fosse uma atitude. A cegarrega canta. A açucena é de uma doçura enlouquecedora. O rapaz arranca uma folha de figueira, árvore láctea também. Mira-se com apreensão. A piça não desce. Pastor, frauta, fruta, figo, leite. A mulher não diz nada. Vê-o tocar-se, expandir-se, ficar triste. O pastor abandona a cena, assobia já longe às ovelhas. A mulher volta ao tanque, põe à cabeça, sobre uma rodilha de pano, a bacia de plástico azul. Os lençóis lavados perfumam o ar. A mulher desaparece, já meio esquecida.

O humor da dor contagia todo o corpo, corpo-garrafa que deito ao mar de sargaços (os outros, as outras coisas) sem manuscrito dentro, para quê. A luz da tarde está a arder muito bem. Sentado sobre mármore, de traseiro fresco, contemplo árvores altas que fremem como pulmões expostos. O ar fá-las cantar o tema eterno da água nas pedras. Gosto disto. Arejo a boca, abrindo-a como um sapo canoro. Descubro que tenho estado a ser observado por alguém. É uma menina. Está à janela de um sexto andar. O prédio, de onde o vejo, está meio oculto pelas grandes árvores cantoras. A menina abre uma estrela no vidro da janela: a mão esquerda. Digo-lhe a minha alegria com uma onda do braço. Mantém a estrela, o rosto concede um sorriso. Aparece uma cabeça de mulher na pintura. A mãe fala. A menina desaparece. Resta a vidraça, sobre que subsiste, impressos a vapor, o rosto da menina, a mão que era estrela, a presença do que perco quando me levanto e vou embora.

E digo-me muitas vezes que é preciso acordar cada manhã como quem renasce, mas o corpo não vai na conversa. O hálito traz consigo a véspera, as bolsas sob os olhos estão ainda cheias das coisas vistas nos ontens de muitos anos. De modo que renascer se me torna cada vez mais difícil. E então eu tento outra vez e outra e outra, como se escrevesse. Gostaria de iludir essa voz que cá dentro me diz não valer a pena repetir até à exaustão uma mentira cuja repetição lhe não outorga foros de verdade. Disfarçar, então, com a acção, vamos:

Ela aparece, vestida de azul, as glândulas ensacadas dentro da pele torrada pelo estio mais solar dos últimos anos e um olhar de cãozito sem dono. Eu estou na pastelaria do nosso costume, não dela, nunca a vi por estas bandas. Ela fuma uns cigarros longos e consecutivos como nos filmes, não olha para ninguém, nem sequer para a pessoa de calças pretas e camisa branca que lhe traz a água mineral sem gás. A acção propriamente dita começa com a chegada do homem. Deve ser o dela. Caso contrário, como justificar o cansaço fingido dele, todo músculos e fato italiano, encomendando com um estalar de dedos o balão de whisky? Não a beija. Ela, agora sim, olha. Mira-o fixamente, implorando uma atenção que ele dá negando. Lágrimas nos olhos dela, rastilhos de cristal. Ouço-o que murmura: “Se te pões aqui a dar espectáculo, levas aqui mesmo”. Ela levanta-se, mas a mala de mão não está fechada, de modo que se lhe derramam pelo chão as miudezas de senhorita: lápis de olho, cor de boca, escova, espelhinho matador, cartão de multibanco, óculos escuros. Ele levanta-se, saca uma nota de mil de um rolo que tirou do bolso das calças, murmura “Que espectáculo” e sai. Ela junta as coisas à pressa e sai a correr atrás dele. Ele já está dentro do carro, ela bate no vidro do lugar do morto, ele arranca, ela fica ali, outra vez sem olhar nada nem para ninguém.

Muitas vezes, com o ego a tiracolo como uma cartucheira, derivei no ar da mentira açucarada. Bebia até cair na ilusão de nunca me embebedar, de isso ser uma interpretação simpática mas errada dos outros, que também bebiam, e muito. Encontrava-me à noite, esperando por mim na casa anoitecida. Lá estava eu, o que tinha a casa e mantinha as despesas num alinhamento precário mas pagante. E cá estou, por assim dizer na mesma, isto é, vivo, mas mentindo-me menos, permitindo menos que a ilusão, essa gata, faça de mim um novelo. Por pura teimosia, sigo vivo. Nas costas de um mediterrâneo juncado de papéis, ordeno uma escrita que já não é navegação, nem mar, nem balsa de náufrago. Apenas isso – escrita. Quero dizer que os anos me vão dando uns cadernos de argolas com o nome-género de “Boca e Dentes”, mais um romance chamado “O Preço da Chuva”, mais uma coisa híbrida chamada “Noite de Homens-Cantores”, mais uma pequena colecção de relatos que leva o título do primeiro: “Gente do Touro de Ouro”. Em ardência, uma mistura hagiográfica, “São Jim”, com os ícones Sãozinha da Abrigada e Jim Morrison, “O Verão do Camionista Holandês” e um livro de “Espargos”. Em organização, um volume de crónicas, “Ouro e Sal/ Riscos de Inter-Invenção”. E isto vai sendo assim. Parei agora para dizer isto, como se fosse tarde. Posso morrer de uma apendicite aguda ou de um desastre de viação, e depois não disse nada. E isso nem seria assim tão mau. Mau mesmo haveria de ser não conseguir compulsar os meus movimentos profundos, esses mapas conscientes que é preciso (mas não sei por que razão é preciso) fixar com literatura, à falta de melhor laca.



Texto: Verão de 2000
Foto: Pombal, Setembro de 2004

Da Verdadeira Amizade e da Falsa




(Pede-me Edite que lhe ponha por escrito aquela história do pássaro caído na neve, parábola da verdadeira e da falsa amizade. Assim seja, pois, com uma vénia ao Zé, que me a contou.)

Imaginemos um montalto de serra na hora-antecâmara da madrugada. Sítio de eternidade, não faz sentido invocar a posição dos ponteiros do relógio. A noite não foi ainda desflorada pela rosácea solar, embora um livor quase verde de tão cinza (à maneira de uma oliveira de luz) vá estendendo seu alto lençol no estendal do céu.
O ar range de gelo, a esta hora desumana. A neve, cega de tão branca, mais contrasta o negrume das escarpas agrestes de em torno. São um sítio e uma hora despojados de caridade. Faz vento. Nada se ouve. Quase nada se vê.

Duas figuras

É então que (vindas porém de onde?) surgem, neste cenário ainda não magoado senão de si mesmo, duas figuras. Silhuetas torcidas da dor de existir, trata-se de um homem e de uma vaca. Pungente cromo da luta pela sobrevivência, a bicéfala imagem bifurca a ancestral unidade do humano com o bovino, hoje industriosa serviência mas outrora primevo parentesco. Siga.
Respondamos primeiro ao “(vindos porém de onde?)” de início do parágrafo anterior, que quem retoriza obscura pergunta clara resposta lhe acabe dando, a bem da Nação. Clara resposta, pois: provêm o homem e a vaca do mais subido cume da serra, onde o anémico sol da véspera (tem vésperas, sim, também ela, a eternidade) logrou a oneroso custo derreter a álgida farinha de água a que chamamos neve por economia de literatura. Só no cume possível, a magra erva foi forragem de sustento da não menos magra vaca, que agora vemos descendo, tão precária mas tão feminil, a encosta de regresso a casa. Os quartos traseiros, aparafusados fracamente no débil espinhaço alquebrado, mal suportam a gelatina das frementes tetas de senhora, por assim dizer. Regressa por igual, à vaca igual na condição, o homem, menos dela amo que dela, afinal, parceiro. O vento corta.
Posto que: madrugada cedinha, em hora obliterada de presente por força do eterno pretérito em que todo o sofrimento se volve, um homem e sua vaca regressam a casa. Dizer uma vaca e seu homem não seria piorar, mas fique como está.
(Nota: nada de preconceitos, por favor! Não é por ter sido nado e criado em tão bruta e abrupta região que o elemento humano desta parábola tenha de ser tido como abrupto e bruto. Como vereis, bem pelo contrário: suas extrema delicadeza e atitude pungente derreterão o cardiograma até do mais bestial leitor.)

Preto no branco

Imaginemos ainda que, coisa de 15/20 metros à frente do primeiro passo da vaca e do segundo do homem, uma coisa acontece. A coisa acontecida é de puro fulgor cromático: no ínclito manto de neve, cujo branco é fulminante como um sonho de cego, um minúsculo ponto preto agita a pura antítese: preto mínimo no máximo branco, o ponto rufa o insone estertor que freme a tarola da aflição. É um passarito.
Um passarito, sim. Cortado sem mercê pela cutelaria do vento invernal (‘v’ por ‘f’, infernal), a minúscula ave caiu para morrer. Mas debate-se ainda com a questão mais antiga: não morrer sem ter vivido.
Pressuroso, já comovido, inquieto já, o pastor acode a essa ansiosa topografia plumitiva. E dá com a avezinha, que se prepara para expelir o derradeiro suspiro. Combinando de pronto emoção e razão (ao jeito de António Damásio, Doutor, em ‘O Erro de Descartes’e livros seguintes), o bucólico pastor decide agir. Soergue a ave e acalentá-la tenta no bojo roxo de suas mãos postas em concha de precisa preciosa prece. Mas roxas se lhe demoram as mãos, posto que geladas.

Drama e salvação

Outra carnação aquecer com gelo carnal? Termometramente improvável. Já desespera o nosso bom pastor quando a Providência, do alto vinda como a avezinha, providencia assaz escatológica mas sensata solução: é que, nisto, a vaca dá de derramar farta bosta de estrume. Sabido que a vaca vulgar, qual ser humano, fornalha por dentro idêntica temperatura à bípede espécie, teremos que a providencial dejecção andará pelos 37,4 Cº, mais cêntimo menos cêntimo. Bendita desova: o homem, pressuroso sempre mas de todo pragmático, à bosta acode de passarinho manual. Seccionando com a sinistra a benigna descarga vacum, amorosamente nela deposita com a dextra o terno e indefeso ícaro, aconchegando depois os hemisférios digestivos em torno do desfalecido ser.
Mais não podendo suportar a incerteza do êxito (pois que a certeza do fracasso tanto obriga à vanidade do esforço), o homem afasta-se o mais cerce, retomando de casa o rumo, como quase todos nós.
Alegria! Segundos incontáveis corridos, ao humano tímpano acode esta vivaldiana interjeição primaveril: “Piu!”. É o passarito, que, acalentado pela bosta centígrada, revive. Feliz, justo nobel de si mesmo, o homem sorri para dentro e segue caminho, nem para a retaguarda olhando. Há toda a razão para supor que até a vaca mesma sorri, maternal.

Perdição e anunciação de moral

“Nem para a retaguarda olhando”, dissemos. Dissemos bem, pois que o pastor não olha para o que atrás deixa. O que o leitor vai ver, Edite lembrar e Zé anuir, infelizmente, não o verá felizmente o bondoso homem da nossa parábola. É que não apenas ao ouvido do bom pastor chegou o redivivo “piu!” do passarito. No alto ar, cortando o próprio vento, uma ave de rapina também ouviu. E se bem ouviu, melhor desceu. Outra sorte de parábola de pronto descreve, assim dando azo, muito rapace, à mesma dela sobrevivência. Quer dizer que a águia não perdoou. Fácil e vulnerável como uma costureirinha, o pequenino ponto, cuja breve salvação tanto vem de nos comover, é vítima da fome da rapinante, também ela criatura de Deus, por mais que a contrariada fé nos gema o adverso. O passarito foi papado e pronto e ponto.
Ponto? Só se for parágrafo.

Moral em partes três

Tão longo e arrastado conto deve servir-nos, ao menos, para a extracção de uma moral em três partes. Três, conta que se diz Deus fez e que por igual serviu a Júlio César na descrição da divisão da Gália Transalpina aquando da guerra que ali levou a romana hoste. Suma façamos: um pastor, uma vaca, um pássaro aflito, um gesto de auxílio, um assassínio alimentício de documentário de vida selvagem: de que moral, ou moral trindade, falamos afinal? Desta(s):

a) Nem todo aquele que te mete na merda é teu inimigo;
b) Nem todo aquele que te tira da merda é teu amigo;

E sobretudo

c) Quando estiveres na merda, nem “piu!”…




(Originalmente publicado no hoje extinto Dito e Feito, Pombal, Outono de 2004)

Cavaco Silva Desconhece Quantos Cantos Tem "Os Lusíadas", Mas Aqui Vai uma Pista






















I

3 x 4

Os operários da construtora
não sabem ler, nem escrever,
mas todos os dias
misturam cimento, cal e areia
e fazem poesia concreta.

José Rocha

II

Enquanto o homem pensar
que vale mais que outro homem,
são como os cães a ladrar,
não deixam comer, nem comem.

António Aleixo

III

Aberta
estende
reclama
ternura

Frágil
de palma voltada

Quando se fecha
sobe no braço
é arma apontada


António Borges Coelho

IV

ARRE, que tanto é muito pouco!

Arre, que tanta besta é muito pouca gente!

Arre, que o Portugal que se vê é só isto!

Deixem ver o Portugal que não deixam ver!

Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!

Ponto.

Agora começa o Manifesto:

Arre!

Arre!

Oiçam bem:

ARRRRRE!

Álvaro de Campos

V

As casas ganham um ar mais mortal
na tristeza depois de não ter havido coito.
Vão depressa as nuvens, tão depressa, levam pombos
e telhados agudos com ardósia quebram
em radiações de treva na água aprisionada.

Joaquim Manuel Magalhães

VI

As palavras dançam nos olhos das pessoas
conforme o palco dos olhos de cada um.

Almada Negreiros

VII

Atiram pedras aos outros
Por verem espelhos em tudo
Para não ser como eles
Fecho os olhos fico mudo

João Belo

VIII

Carregando os caixões nos magros ombros
Enterrando na polpa das montanhas
Os tornozelos de aço,
Rasgando no ar fino agudas frestas
Caminham lentamente os enjeitados.

Escasseia-lhes emprego nas florestas
Nas bancas da cidade revoluta
E transportam a morte com cuidado.

Natércia Freire

IX

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.


António Maria Lisboa

X

de dia não nos podemos viver.
só na ausência dos outros podemos realmente ser nós próprios,
e mesmo assim nem sempre.
a minha janela dá para uma rua de mar.
só com ondas exangues de gente.
uma ou outra vez reparo existir ,
vivo na cidade e observo.
não é próprio , mas é da minha janela verde , cesariana , que o faço.
sobrevivo, sim.

Nuno Travanca

Lusofonia - 3

Lusofonia - 2

Lusofonia - 1


(Não se riam, que esta malta também vota.)

Quero Ver Portugal na CEE

Em Pombal como no Resto do Mundo

Esposas dos Reunidos G8

Ásia na Agenda da Reunião do G8

África na Agenda da Reunião do G8