Thursday, November 24, 2016

A IDADE DE DEUS & A MINHA - Rosário Breve nº 482 - in O RIBATEJO de 24 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt

A idade de Deus & a minha

Uma boa maneira de haver menos idiotas no mundo é não fazermos mais filhos às mulheres deles. Digo-o eu, assim um bocadito co’s nervos. Mas só um bocadito: na minha idade, é bem mais curial cansar-me galgando escadas do que dando fôlego à globalizada imbecilidade que pelo mundo campeia e ao mundo infesta.
Ah, tivera eu hoje menos uns vint’anitos no couro que decerto me indignara mais & com mais férrea força ante tanta incomunicação-dita-social do jornaleirismo-croquete em voga. Sabeis? A gula dos mirones ante as sessões de porrada Carrilho-Bárbara. A gosma dos voyeurs perante as neonamoradas do Futebol Pinto da Costa & do Sporting Carvalho do Bruno. O frisson do galinhedo paraliterário cacarejando o-Dylan-merece-o-Nobel-porque-sim-sim-senhores e/ou por-causa-disso-é-que-o-Leonard-Cohen-morreu-de-desgosto e/ou/ainda com-a-azia-o-Lob’Antunes-já-deve-andar-a-sonhar-com-pelo-menos-um-Grammy-para-o-ano-que-vem.
E depois, aquela farruscada toda da questão dos taxistas (de Lx., note-se) co’ a Uber & a Cabify, a qual só me desperta uma ilação de pronto & evidentíssimo teor homofóbicoiso e que é a seguinte: nunca é de confiar num gajo que nos deixa ir atrás. Ou então aquela que mete meninas: o Instituto Nacional de (ment’)Estatística revela que em Lisboa existem 189 meninas virgens por cada taxista sério – mas só há prova confirmada de 188.
Mais: a clara & flagrante certeza de as praxes estarem para a dignidade académica como o Relvas para a mesma. Isto por causa de uma equivalência que me parece clara como aquilo à volta da gema do ovo: se o analfabetismo funcional fizesse ondas, o ensino-dito-superior português seria um tsunami de alto-lá-co’-baile-e-pára-o-charuto.
E a carneirada das selfies? Não V. faz impressão, nas tragicomediantes redes-alegadamente-sociais, aquela malta toda só com um braço? O problema de tanta clonestupidez é afinal napoleónico: por causa do seguidismo, vai tudo para (o) maneta.
E a rábula do declara-não-declaro-nada-o-património dos indigitados (tu)barões daquela Caixa que dizem ser nossa? Ide por mim: fornicar os ricos não é sexo – é amor.
Ainda há pouco, era voz-corrente esta barbaridade acéfala: “Taxar os gajos de 500 mil euros p’ra cima é matar o investimento.” Ai é? Ai é? E fomentar o desemprego é o quê, ó cáfila de cornúpetos descalcificados?
Cá p’ra mim, a pessoa deixa de ser criança quando cessa de acreditar no Pai Natal. E volta a sê-lo quando começa a acreditar no Sócras. Foi como com aquilo das entrevistas do juiz Carlos Alexandre – só achei mal ele ter escolhido a SIC e o Expresso. Sim, mal: então duas vezes o exclusivo para o PSD-à-la-Balsemão porquê? Não há mais papagaios nas outras gamelas partidário-jornaleiras? Há. Então, quid juris?
Ai, estranha és, ó Madre-Língua-Portuguesa minha. Estranha mas bela. Bela mas estranha. Quando decides elogiar alguém, dizes: “Não há pai para fulano.” Ou seja, valorizas o fidapu. Há mas é que não confundir o burkini raso com o Burkina Faso. E saber que a frieira rebenta a pele por vir da geada islâmica. E topar de antemão que a melhor maneira de abrir buracos num green novo é praticar o golf pérsico. O Deus de cá sabe que eu nisto tenho toda a razão, o (a)lá deles é que não. Quanto a mim, só sei que a fé & a ignorância são unha-com-carne vezes de mais. E que não é solução roer as unhas até fazer carne-viva.
E agora que a UE já não é só p’ra-inglês-ver? Agora que a UE já não é só p’ra-inglês-ver, retenhamos do brexit ao menos uma coisa boa, muito boa, pelo menos uma: são maiores as hipóteses de vermos menos por cá os execráveis McCann.
Ó pessoal, por favor atenção: apesar de todo o desarrazoado supra, sou muito menos esquisito do que o mundo em geral & do que a TV-por-cabo em particular. Ainda agora. Olhai-m’esta: acabo de ver uma série com cenas de vampiras lésbicas. Sim. Vampiras. Lésbicas. Coitadas! Devem namorar uma só vez por mês. (Como eu aqui em casa, aliás, num mês bom.) Ai, saudades do tempo da ditadura da RTP-única….Em casa de meus saudosos Pais, certa vez. Certa vez, em casa de meus saudosos Pais, o som do televisor pifou-se. A imagem, na mesma. Mas o som, népias. Eu era então tão moço, que cri com esperança naquilo resolver-se por si só. Continuei a ver. Nisto, aparecem as Doce. Lembrai-vos das Doce? Sem som embora, gostei muito de vê-las cantar. Idade feliz, essa minha. Não é como a idade de Deus. Deus perdoa, a idade não.
Nem eu.


Wednesday, November 23, 2016

Às 12h07m de hoje mesmo, 23/XI/2016, esta estrofe de quatro linhas (não é o mesmo que 'quadra') por causa e para o meu Amigo Joaquim Jorge Carvalho





O mundo é sempre do tamanho do mundo.
Aceita-me, bom King, este truísmo.
Alto de sua fundura, de sua altura fundo:
a terra faz de céu - e o céu, de abismo.

Sunday, November 20, 2016

Eliot, Cesário, Diniz & o 31 que O Ribatejo é - Rosário Breve nº 481 - in O RIBATEJO de 17 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt

Eliot, Cesário, Diniz & o 31 que O Ribatejo é

O nosso Jornal perfaz por estes dias a idade que foi terminal para dois vultos absolutamente maiores da nossa portugalidade: Cesário Verde e Júlio Diniz. Estes dois rapazes finaram-se com 31-anos-31, idade em que se deveria florescer, não descer à catacumba. Obstinadamente, O Ribatejo não se propõe morrer – antes sim ( para desgosto antigo de um Moita de que já ninguém mal se lembra & para desgosto presente de um Gonçalves que não deixará boa lembrança) renasce a cada aniversário: mesmo que sem esmoleres capas-falsas. Este periódico continua a ser um trinta-e-um, por assim dizer.
Tenho aqui no bolso, para a festa aniversária do meu/Vosso Semanário de eleição, a prenda de uns versos que não são de Cesário nem de Diniz [sim, insisto no Z do Autor da Morgadinha por ser como o próprio (se) assinava]:
«O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.»
Os versos são de T.S. Eliot (in Quatro Quartetos, tradução de Gualter Cunha, Ed. Relógio d’Água).
Cuidado: tenho ainda & aqui mais versos para a mesma festa. Estes é que já não são de Eliot. São de João Alves Coelho, versejador que, com o compositor José Maria Pereira (também) Coelho, criou o célebre Fado do 31:
«Ai… Ólarilolela
Como este não há nenhum (…)»
E é que não há. Nenhum. Aos 31 anos de idade, este Jornal continua a não embarcar em seguidismos acríticos, a não embalar-se de modismos trengos (ou trendy – olá, vereador Luís Farinha!), a não ser maria-vai-c’as-outras. O Ribatejo é eliotiano por saber que
«Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.»
Como irredimível é, por grave e baixo exemplo, a rábula da Loja do Cidadão em Santarém, que é mas não há. Como eternamente presente é, mas não deveria ser, a tragicomédia das Barreiras/Estrada da Estação/Pró-ano-é-que-é-a-culpa-é-do-Tribunal-de-Contas. Idem-aspas para a lixarada daninha que infesta a Cidade, cujo pecado-capital é ser capital de nada. Não falo no abstracto. Eliot connosco, se fazeis favor:
«O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Somente num mundo de especulação.»
Especular é duplamente congeminar e espelhar. Trocadilhando com outro versejador de grandíssima qualidade, Sérgio Godinho, espelhem a notícia.
Enfim. Retornemos à casa-de-partida. O Ribatejo sopra 31 velas acesas de pura resistência: resistência à sacana da (des)economia, resistência aos ventos adversos da politiquice, resistência ao desinteresse acéfalo do rebanho. Mas, felizmente, também as sopra em persistência: em nome dos que lêem porque pensam & dos que pensam porque, já agora, lêem.
Cá por mim, tanto leio O Ribatejo como Eliot:
«O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.»
A partir desta edição, é já no ano 32 que V. escrevo.
Assim sendo, e posto tudo isto assim, termino por hoje com esta rima trinta-e-um-mente bela:
«Ólarilolela».

Thursday, November 10, 2016

MEIO SÉCULO DE 'O JUDEU' - Rosário Breve nº 480 - in O RIBATEJO de 10 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt






Meio século de O Judeu



O Judeu de Bernardo Santareno foi publicado há 50 anos.
Obra-prima da literatura dramatúrgica portuguesa do século XX (e de todos os que vierem), é ponto cimeiro do extraordinário repertório teatral criado por António Martinho do Rosário, nome civil do dramaturgo nascido a 19 de Novembro de 1920 na scalabitana freguesia de Marvila.
O Judeu marca, também e ainda, a incursão de Santareno na dimensão épica do entrecho discursivo-dramático, monumento que alguns tolos (críticos de pacotilha, revolucionários de café) acharam “irrepresentável em palco”. (Talvez os engulhasse o parentesco brechtiano da viragem formal da escrita do Santareno pós-neo-realista.) Mas não só. A peça de Santareno tem por núcleo primacial a tragédia pessoal de António José da Silva (1705-1739), autor, como Santareno, de uma produção dramática incómoda (exasperante até) para o regime seu contemporâneo. As sátiras espirituosas deste cristão-novo (como As Guerras do Alecrim e da Manjerona) caíram mal, para dizer o mínimo, entre os intolerantes e fanáticos monstros da “Santa” Inquisição, que de muito mais não precisaram para o queimar em público auto-da-fé a 18 de Outubro de 1739.
Retratado & retratista (António ambos) irmanam-se na desventura trágica das respectivas existências terrenas. A António José da Silva corresponde Bernardo Santareno do paralelo modo como ao Santo Ofício dos séculos XVI a XIX corresponde a PIDE do século XX. A polícia política de Salazar não extinguiu fisicamente, é certo, Bernardo Santareno – mas tudo fez para lhe sufocar a Obra, a torrencial & primorosa obra teatral com que Santareno fustigou o despotismo ao tempo mesmo que exalçava a peremptoriedade da dignidade humana, essa dignidade que outra coisa não é, ou outro nome não tem, que isto & este: Liberdade (e da incondicional).
Em e a partir desse remo(r)to ano de 1966, O Judeu não pôde, naturalmente (aqui, o itálico não é de resignação fatalista mas de fatal acusação), ser levado à cena. Saiu em livro, para prontamente ser perseguido pelas feras cinzentas & analfabetas do salazarismo, que nessa década de 60/XX já estertorava de necrose. Todavia, um facto triste veio adensar a solidão vitalícia do grande escritor. (Faço aqui parágrafo para mais distintamente vos sublinhar a injustiça e a ingratidão dos factos:)
Não havendo, depois do 25 de Abril, qualquer razão (bem antes pelo contrário) para não representar O Judeu, as tricas & baldricas aparentemente fatais do milieu intelectual(óide…) português obstaram a que a magnífica peça tivesse palco & plateia antes da morte física de Bernardo Santareno. Com efeito, o grande dramaturgo, morrendo a 30 de Agosto de 1980, não assistiu já à estreia do seu opus-magnum, que ocorreu apenas e quase meio ano depois (a 20 de Fevereiro de 1981, no Teatro Nacional de D.ª Maria, com encenação de Rogério Paulo). Bem e acertadamente andou Luiz Francisco Rebello quando escreveu (in O Jornal de 5/9/1980):
Santareno não morreu na fogueira acesa pela Inquisição para suprimir o Judeu da sua obra-prima []mas consumiram-no as chamas de mil pequenos fogos ateados pela mesquinhez, pela intolerância, pelo ódio, até pela indiferença às vezes mais cruel ainda, que desde muito longe, desde Gil Vicente e mais atrás, têm sufocado a respiração do teatro português.
Consolemo-nos, digo eu, com a certeza de o gigante Santareno ter morrido na consciência muito íntima da sublime valia não só de O Judeu como de toda a sua Obra literária, a qual, resistindo à corrosão inapelável do Tempo, se iniciou em 1954 com A Morte na Raiz (poesia), permanecendo viva & actual para além da extinção corpórea do Homem/Artista que no-la deu.
Resta-nos demonstrar, como Público & como Povo, que somos merecedores de tão descomunal, tão alta, tão preciosa oferenda. Ou então que, não dela merecedores, ardamos a frio nessa labareda de gelo chamada esquecimento.


Thursday, November 03, 2016

OU ESTUDO OU NADA - Rosário Breve nº 479 - in O RIBATEJO de 3 de Novembro de 2016 - www.oribatejo.pt



Ou estudo ou nada


Licenciei-me em Letras pela Universidade de Coimbra.
Antes porém dessa glória que para sempre me distingue, melhora, enobrece & separa da reles plebe mortal, tive de fazer (uma-duas-três-quatro) a 4.ª Classe do Ensino Primário – com exame na 3.ª & com exame na 4.ª.
Seguiram-se os 1.º & 2.º Anos do Ciclo Preparatório. Entrou então em vigor a nomenclatura da Escolaridade, pelo que dei por mim cursando (um-dois-três) os 7.º, 8.º & 9.º Anos – com exame no 9.º.
Por essa altura, vieram-me chegando, tomando-me sem remédio, o acne & a estranha consciência da existência do sexo-oposto. Borbulhas & raparigas cercaram-me (um-dois-três) os Anos 10.º, 11.º & 12.º – com exames no 11.º & no 12.º. Só depois, finalmente, as Letras, a Universidade, a Glória.
Través este percurso, dei-me paralelamente a práticas não-obrigatórias & a trabalhos não-forçados. Pratiquei piano, natação, xadrez, guitarra, andebol, futebol, acne & raparigas.
Certo dia, chegou a altura de ir trabalhar. Lá fui. Uns anos, fui professor do Ensino Secundário. Outros pós-estes, fui jornalista encarteirado. Quando sem saída nem fim-de-mês, fui pintor da construção civil. Também fui pai de duas meninas, profissão que nunca é possível trocar por outra impossivelmente mais bem remunerada. Hoje, que nem a pintura de paredes chama muito, vivo do que ganha a minha mulher.
O curso que nunca tirei, Senhores & Damas, foi o de jota. A minha universidade não era de Verão. A minha universidade dava trabalho do Outono à Primavera – e desde a 1.ª Classe. Não encarreirei, portanto. Nem (me) falsifiquei. Os meus livros, sou eu a escrevê-los.  
Sobre (mais uns) escândalos de licenciaturas falsas, digo nada. Limito-me a ter muita pena desta gente alérgica ao honesto estudo, desta maltosa impermeável à qualificação honesta, desta canalha que não sabe nem saberá jamais o que a Glória faz a um homem.
Que o diga a senhora minha mulher.