Thursday, November 26, 2015

Rosário Breve n.º 433 - in O RIBATEJO de 26 de Novembro de 2015

Crónica ourives

I.
Não há razão para euforia. Há razão para contentamento.
A euforia é bebedeira dos nervos. O contentamento é uma vindicta mansa, lúcida, avisada.
Posto isto, há que apurar se:
1) a Esquerda existe (mesmo);
2) a Esquerda presta;
3) a Direita, cumprindo o verbo em 1), não logra tão-depressa o verbo em 2).
Trocadilhando a preceito, a Esquerda tem de ser destra, por isso mesmo que a Direita é sinistra. E ainda: quanto mais a Esquerda se adestra, menos a Direita nos amestra.
Pronto – esta parte já cá está & já lá mora. É como no testemunho do próprio: o gigante olímpico (e muito nosso) Carlos Lopes, ao atingir a meta de ouro da maratona de Los Angeles/1984, exultou consigo mesmo través este pensamento definitivo: “Esta, já ninguém ma tira!”.
Escrevo pouquíssimas horas depois do ocaso dos pífios PàFistas. Alerto: não me/nos basta que o primeiro-ministério mude de mãos – o crucial é que mude de rumo.
Que, paulatinamente embora, nos devolva a todos algum manuseamento de moedas, algum acesso a víveres, algum retorno ao trabalho que compense cada final de dia.
Que cesse de des-Educação. Que deixe de propiciar a in-Justiça. Que não mais privatize ao desbarato o pan-Património. Que comece por não acabar com a Saúde. E que, entre muitas outras urgências, deixe de encarar o Trabalho como uma mania dos mal-remediados e como um estorvo dos colossos empresariais, passando a tê-lo em conta & medida como direito (até moral, até social, até cívico, até solidário) dos que não nasceram naquele tipo de berço feito daquele tipo de ouro que só pode vir das roubalheiras hereditárias.
Do caruncho de que é feito o pau do ainda supremo magistrado, temos dito & por consabido todos.
Assim seja.
II.
Chamamos “frio” ao arrefecimento que, naturalmente pois que natural, vem sucedendo ao bondoso & cálido Verão-de São-Martinho. Não sabemos o que dizemos –  frio, isto? Só os proscritos que portam pouca & fraca roupa, só os despejados de casa, só os que fantasmaticamente povoam a frigidez das ruas e o relento das noites sem porvir – só eles podem carpir a penitência baixo-centígrada da quadra. Nós outros, abonados de sobretudo, inquilinos de furtadas águas em fogos de tijolo, não. A sociedade de consumo iludiu-nos, mentiu-nos, despojou-nos. Certo estoicismo que foi das gerações nossas antanhas faz-nos falta. Não falo de, salazarentamente, louvaminhar a escassez, honrar a pobreza, adorar a miséria, venerar a tesúria – falo de, querendo, fazer mais com o pouco que nos é presente. É neste fio de pensamento que chego ao miúdo do iPad a quem roubaram o livro. Às pessoinhas frivolizadas por revistecas sinónimas de trampa multicolorida e por televisões estúpidas como a morte. Aos pobretes-mas-alegretes de espírito que repetem as argoladas autofágicas & suicidas do Passado porque o não conhecem: nem de ouvir falar, nem de querer ouvir falar dele. E ao meu Benfica, Farol da Humanidade Desportiva, não menos do que Zeus do Olimpo do Coice na Bola, que, perdendo três-em-três na mesma época ante o seu (aliás único) Rival, me tem acidulado as entranhas mentais e as pregas intestinas. A mim e a mais 6+6+6 milhões – e toda a gente sabe que 666 é o número místico da Besta. Porque, enfim, perder com o Sporting é o diabo. E o Diabo é que é frio mesmo.
III.
I, II, III, pim, pam, pum – chegado é o momento do remate/roda/pé. Este: duas vezes grafei supra o substantivo ouro.
Da primeira vez, foi ardil estilístico: em “meta de ouro”, queira ler-se a medalha daquele metal precioso com que Carlos Lopes tão altamente subiu todo um Povo – mais precisa e mais historicamente, a 12 de Agosto de 1984. Tínhamos nós todos, então, coisa de 20 anos.
Da segunda vez, foi estilizado truque também – mas a responsabilidade oratória é da proverbial sabença popular relativa aos bem-nascidos, materialmente falando. (Mais vernaculamente, “Quem não rouba ou não herda, não vale uma merda”.) No meu caso, “berço feito daquele tipo de ouro” é vilipêndio oriundo, talvez, da minha inveja de bêbados e de borrachos que nascem com Deus por os baixos. Mas não importa.
Importa é que saibamos distinguir o ouro que vem do muito trabalho sério, honroso & honrado (cf. toda a carreira de Carlos Lopes) e o que é mera usurpação, em e para proveito próprio, do trabalho dos outros (estás a ouvir, PS?).
De resto, calo-me em voz alta: é que, a 12/8/84, Lopes era Portugal. Mas nos outros dias, peito-de-leão de leão ao peito, era Sporting. Era, era.
E só isso é que me arrefece a euforia.

Thursday, November 19, 2015

Comemorando os 30 anos de O RIBATEJO - Rosário Breve n.º 432 - 19 de Novembro de 2015





(…) dum’ assentada/que eu pago já

Nos alvores do ano 1985 d.C., fui recipiente do desastroso e dolorosíssimo apodrecimento de um incisivo. A violenta e virulenta catástrofe dentária abcess’intumesceu-me a metade esquerda da boca de tal maneira, que até o olho do mesmo hemilado da cara se me semicerrou em presidência pitosga da abóbora-pouco-menina que o espelho me retornava e reflectia em ros’amarelo-pus. A fio, dias moles duramente penei. Inabilitado de rua civil (quanto menos não fosse, por razão de estética mínima), repugnei de suores-frios o pijama de solteiro, envelheci de chinelos os tacos do quarto singelo, canjengalinhei fastios famélicos sem retorno, adoeci as cortinas de tule da janela glauca e desesperei sem ilusões & com borato morno a degradação irreversível da minha cremalheira maxilamandibular.
Até então & desde então, houvera & houve Janeiros melhores. Desse mau januário 85/XX, não me esqueço. Todavia & naturalmente, o resto do ano foi também de coisas boas & de coisas nem-por-isso. Antes delas, porém, permiti-me V. que repesque pérolas de outros Oitenta&Cincos. (Faço-o via a História de Portugal em Datas, Círculo de Leitores, 1994.)
No 85/XII, nascia Évora enquanto diocese cristã (a consagrar 19 anos depois) e morria o cristão D. Afonso Henriques, rex primus de Portugal, sucedendo-lhe no ceptro o seu primogénito Sancho.
Em 1285, houve Cortes em Lisboa. Danada e furibunda, a nobreza de então ladrava em acirrado desfavor das Inquirições, que lhes tolhiam as imunidades senhoriais. Deve ter sido feio: Filho (infante D. Afonso) contra Pai (D. Dinis). Veio a Rainha Santa com pão & rosas – e pronto: tudo pobre e tudo amigo na mesma.
No 85 da centúria XIV, muita acção também – as Cortes são em Coimbra. O jurista João das Regras diz, a coisa faz-se: em detrimento de outros (a menina Beatriz e os rapazes de D. Pedro I, João e Dinis), é aclamado regiamente o Mestre de Avis, também João e também Dom e também Primeiro. E ainda: damos porrada aos Castelhanos em Aljubarrota, em Trancoso e em Valverde.
Em 1485, Diogo Cão retorna à costa africana, logrando atingir a Serra Parda. Os sabões da caboverdeana Ilha de Santiago são concedidos ao senhor daquele arquipélago, um tal Rodrigo Afonso. E o por assim dizer nosso D. João II trata de aliar-se ao oitavo dos Carlos de França.
Os dígitos 85 do século seguinte são já espanhóis por cá. Manda há cinco anos Filipe II de lá, I aqui. Nota artística-imperial: é proibido o comércio com a inimiga & arquirrival Holanda. Os anos de Seiscentos são os do grande e glorioso plumitivo & sermonista padre António Vieira. O ano 85/XVII propriamente dito é o de vinda a lume de uma obra importante: a Arte de Criar Bem os Filhos na Idade da Puerícia, de Alexandre de Gusmão.
Cem anos & muita solidão depois, há casórios realengos entre as Casas Ibéricas: os infantes tugas João e Mariana Vitória enlaçam-se, respectivamente, com os castelões Carlota Joaquina e Gabriel de Bourbon. É também o ano da morte da célebre amante de D. João V, a pouco casta Madre Paula.
Antefinalmente, chegados somos ao século do gigante Eça. Há 40 anos é ele nascido (em 1845, na Póvoa de Varzim, de amor não matrimoniado ainda entre um senhor juiz e uma senhora ajuizada) quando um tal Bernardino Machado, futuro Presidente da futura República, cria na Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra as cadeiras de Antropologia, Paleontologia Humana e Arqueologia Pré-Histórica. Noutro plano, um Acto Adicional à Carta Constitucional visava a progressiva democratização do sistema político: menos Rei e nenhuma hereditariedade no pariato camarário. Já o Partido Progressista (de figuras como Oliveira Martins, António Cândido e Lobo de Ávila, entusiastas no encómio ao cesarista modelo alemão à la Bismarck) preconizava, por seu lado, o projecto Vida Nova: mais Rei e mais Executivo.
No triste século XX do nosso nascimento físico, o ano 85 é de aluviões contraditórios: em Janeiro, aquilo mau do meu dente; em Fevereiro (8), morte do Poeta José Gomes Ferreira; em Março (29), inauguração da Mesquita de Lisboa para os (talvez) 15 mil seguidores locais de Mafoma; a 10 de Abril, debate na AR sobre a adesão sim-ou-não à CEE; a 19 de Maio, dá-se, na Figueira da Foz, a Cavacada da revisão do carro; a 15 de Junho, Tomar acolhe a 1.ª Convenção Nacional do novel PRD de inspiração & tutela eanistas; a 12 de Julho, Eanes dissolve presidencialmente a AR e fixa as Legislativas para 6 de Outubro seguinte; a 11 de Agosto, chegada das supostas relíquias de D. Nuno Álvares Pereira ao lisbonense Convento do Carmo, no âmbito comemorativo do hexacentenário da Batalha de Aljubarrota; a 5 de Setembro, enquanto o PS atribui ao PSD a paternidade da crise política, os meus Irmãos Fernando & Jorge geminam entre si o 31.º aniversário natalício (último do Jorge, mas não o sabíamos então); a 16 de Outubro, as ossadas de uma multidão chamada Fernando Pessoa são trasladadas para os Jerónimos; a 6 de Novembro, Cavaco é indigitado por Eanes para formar Governo; e dois dias depois chega às bancas o número primeiro do jornal O Ribatejo. Um tridecénio depois, o dito semanário é o meu avesso: nunca lhe doeram os dentes, nem jamais trincou a língua.
Venham mais trinta (…)


Thursday, November 12, 2015

Rosário Breve n.º 431 - in O RIBATEJO de 12 de Novembro de 2015

Quarenta anos menos quinze dias depois

A Terça-Feira/10 de Novembro de 2015 foi uma jornada irrevogável.
O Sol do Verão de São Martinho dourou graciosamente a nossa parte do mundo. A luz alta, dando esmalte alto nos verdes perpendiculares, todo o santo dia nos animou o simples facto de estarmos vivos pela mercê de brilhos à mesma vez minuciosos e amplos, como óptima e opticamente acontece na senda de ouro em perspectiva que vai mar afora da praia ao horizonte. Nem parecia haver nervosismo dos mercados internacionais.
A Natália devassou a Praça de chapèuzinho fofo cintado a tira azul-bebé de velcro no feltro da copa, a Natália muito branca por dentro do vestido de gaze cor-de-violeta-macerada, a Natalinha todo certi’aprumadi’nha nos sapatinhos rasos de freira-noiva. Nem nos lembrou que acabava de morrer, felizmente longe, o ex-chanceler amigo e alemão do Soares, um tal Helmut Schmidt de 96 anos que a Natália obliterou de vez & sem remorso logo que nasceu, há dezoito.
Obliquando os ígneos cabelos ruivos que são de sua natura e nossa loucura, a Filomena, que é muito dada de dar, dava água fresca de beber às crianças peregrinas de romagem à Senhora da Infância, cujo santuário é ubíquo e alveja, tal um beijo de cal, nos filhos com que fomos capazes de refazer-nos a nós mesmos à imagem e semelhança de nossos pais. Filomen’apaziaguada aquela sede pueril, a ninguém ocorreu angustiar-se com a perfídia do PSI20 que entretanto baldeava para baixo a Bolsa.
Molhados de sombra enxuta sob os eólicos plátanos farfalhantes do Largo, os jogadores-de-cartas, à maneira de monarcas exilados na própria pátria, biscavam & trunfavam em total alheamento dos ministros de economias & finanças àquela hora aquadrilhados em Bruxelas para mais um sinédrio de roubalheiras & comezainas de igreja & gamela.
Por faltarem então dois dias para a saída do Jornal, foi sem provisão de leitura que levei o ácido úrico a passear pelos arrabaldes-de-nenhures que são a paisagem ambulatória do povoamento fixo da minha vida. Talvez por isso não puderam, eles, juntar-me a Paulo Lalanda de Castro, ex-patrão de Sócrates na Octapharma, no rol de arguidos dos processos Marquês + Visa Gold: sem O Ribatejo, faltava-me a capa-falsa.
Quando, pela tardinha já, já o ouro-velho fulgia faíscas nas derradeiras vidraças inteiras da fábrica ao abandono, abandonei-me sem estrebuchos à miragem verídica da passagem da Dolores pela azinhaga do fontanário, a Dolores Maria macia & maciça como azulejo de chacota-viva, a Doloreira solteira & feliz como a perdiz de petisqueira. É do ser singela que a ela-Dolores não dolorosamente imputam qualquer quebra de lealdade, como a que se diz teve Jesus (o Jorge, não o INRI) para com o Éssélbê.  
A noite amansou de vez as ilusões de perpetuidade a todos nós cães, búfalos, hienas, gatos, hidrómetras, hidrófobos, abstémios, abstencionistas, pensadores, pensionistas, apostadores, apóstatas, ratos, iconoclastas, ginastas & moscas. Em Lisboa, parece que apearam o desGoverno.
De modo que, no dia seguinte, onde estiveram e por onde passaram a Dolores, a Filomena & a Natália, há-de passar também, que é bem senhora para isso, a Esperança.


Monday, November 09, 2015

Mariana Canta Paredes

http://www.rtp.pt/antena1/os-dias-da-radio/mariana-abrunheiro-cantar-paredes_9027

Thursday, November 05, 2015

Rosário Breve n.º 430 - in O RIBATEJO de 5 de Outubro de 2015

São Luís, orago de pontes de fantasia
ou
O coronel tem quem lhe escreva

Preciso muito de que o meu Leitor tenha presente a edição passada deste Jornal para que esta crónica (a começar pelo título) faça, ou tenha, algum sentido.
Falo das páginas 12 e 13 de 29 de Outubro último.
Página 12 integral. Canto superior direito da ímpar seguinte. Por favor.
Na 12, mais ou (pouco) menos isto: tropa alemã atira ponte entre o Arripiado da Chamusca e os castrenses Tancos da Barquinha. Coisa provisória, ilusão de barcaças. É que a de Constância (a da vida real, a dos civis) continua impraticável. Brincadeira de militares: coisas da OTAN que fingem que os puros (ou arianos) Alemães se deixam comandar pelos híbridos (ou anglo-franco mestiços) Canadianos do senhor coronel St.-Louis, supremo manda-chuva da paródia.
Magotes populares correm e concorrem a pasmar:  “A ponte é uma passagem / Para a outra margem” – lição dos nortenhos Jàfumega de melhores do que este ano(s). Os calhambeques militares passaram todos. Os homens soltos, também. Muitas toneladas caras. Nada a ver com os irrelevantes civis que precisam de trabalhar na banda d’além fora destes carnavais pseudobélicos.
Entretanto, a páginas 13, o meu/nosso/vosso Jornal assinala que demandar e atravessar a abrantina Ponte do Rossio pode custar 45 minutos de vida, no mínimo, aos deserdados e malfadados auto-utentes da dita travessia. A coisa é para, mole, durar. O Tejo fora de Lisboa conta muito pouco. Os Ribataganos, idem zero. A manutenção daquela estrutura rodoviária ora à mui portuguesa Santa Engrácia, não ao germanizado canadiano São, ou Saint, Luís, ou Louis.
Digo eu agora, uma vez fechadas sobre si mesmas as pretéritas páginas: tragifarsa, tudo isto. País (o nosso) de micos de circo que, ante o foguetório barulhento das luzes, privilegiam o irreal de dois mil maçaricos de pólvora-seca cruzando num ápice, por meia meia-dúzia de semanas, as mesmas águas que o pessoal trabalhador de cá não atravessa sem ser por esmola.
Porquê?
Porque a gente quer. Ou deixa. Porque a gente deixa.
Extinta a palhaçada, sobram os inexoráveis cursos de água e as imperdoáveis travessias adiadas.
Cristo não volta e o senhor coronel St. Louis vai-se embora.
“Like a bridge over troubled water” – não é Jàfumega, é Simon & Garfunkel.
Pode bem ser que ainda, uns e/ou os outros, passem nos receptores de rádio dos veículos parados ante as pontes quietas do nosso afinal sossego, a avaliar pelo mais recente plebiscito pró-legislativo.
Valha, enfim, a moral triste: a povo manso, rio bravo.
E Alemães adentro.