Thursday, May 28, 2015

Rosário Breve n.º 409 - in O RIBATEJO de 28 de Maio de 2015 - www.oribatejo.pt





Memória doutro Inverno

Chamavam-lhe respeitosamente “Senhor Arquitecto”.
Todos os dias fazia de comboio Figueira-Coimbra-Figueira. Vestia-se de preto como uma andorinha anacrónica. A cabeça subia para um chapéu de judeu velho. A gravata parecia uma guita de embrulho de loja de ferragens. A camisa, outrora branca, mostrava o enxovalho têxtil dos homens que vivem sós. Inverno ou Verão, caminhava munido de um guarda-chuva maior do que a tristeza a que chamávamos “mata-cães”. O Senhor Arquitecto era um holograma do passado, Tinha o ar irrefutável de quem aparece do nada para ir a nenhures. Regressava de Coimbra com quatro livros novos. Todos os dias, quatro livros novos. Imperturbável, folheava-os num transe de alheamento que impunha o silêncio em torno dele, como sucede com certas árvores e certas dores.
Cheirava tremendamente a alho. Numa tarde do Inverno de 1988, chovia tanto, mas tanto, que o mundo visto do comboio aparecia mais desalmado do que um fim de amor. A carruagem vinha atulhada de gente. O Senhor Arquitecto sentou-se no único lugar disponível. O bafio a alho tomou imediatamente conta do lugar. Folheava ele os livros novos naquele dia hoje antigo quando uma mulher tirou do saco de compras uma embalagem de desodorizante do ar. Com dedo firme e quase morta de riso, espraiou na atmosfera exígua do compartimento uma nuvem de eucalipto químico. Os passageiros conseguiram sufocar o riso até que o velho homem, percebendo que aquilo do spray era com ele, abandonou sem uma palavra aquele recinto popular. Então, o maralhal desatou à gargalhada. Alguém abriu uma janela até que o alho e o eucalipto se dissolvessem no ar afiado de chuva.
Segui-o. Havia dois lugares noutra carruagem. Ele escolheu o de costas para o destino; homem sábio. Sentei-me de frente para ele. Então, ele olhou-me. Eram olhos de outro século, pérolas de fundo de poço, olhos que vêem para dentro.
Eu disse: Tanta chuva, Senhor Arquitecto.”
Ele disse: Sempre gostei do Inverno.”
Depois calámo-nos. Ele voltou aos livros. Eu pensava que àquela hora estava a chover no mar, tendo-me vindo à mente a frase de Mercè Rodoreda: “Como se o mar não tivesse já água suficiente.”
Nunca mais o vi. Os anos levaram-mo, supunha eu que para sempre. Até que hoje, tendo despertado sem remédio às seis da manhã, amanheci a pensar nele, não exactamente nele, mas no enorme guarda-chuva dele. Que será feito de tal objecto? Que sucede às coisas que substituem a memória dos mortos, que no-las fazem perder?
No meu quarto de ocasião, como que em resposta, uma ligeira fragrância de alho palpitou no escuro, Na rua, senti que começava chovendo. Também sempre gostei do Inverno.

(NB: Esta crónica é uma republicação, coisa repescada de um livro meu já antigo de uma década quase. Mas decidi-me por ela in memoriam viva do Dr. Luís Eugénio Ferreira, cumpridor da palavra e do óbolo por ele dada e dado ao “Barqueiro”. Se o meu Leitor quiser, pode trocar o título da presente crónica pelo de “Solilóquio IV”. Ele perceberia o recado, que é saudoso já.)


Wednesday, May 27, 2015

Rosário Breve nº 408 - in O RIBATEJO de 21 de Maio de 2015 - www.oribatejo.pt




A (C)idade não é um posto, é um pote

A idade não me tem dado, ou deitado, tudo a perder. O mesmo se passa, ao que leio, com Santarém, pessoa colectiva bem mais antiga do que a individual minha. Exemplos? Tenho potes deles. Nomeada e numeradamente, 11 (onze) potes, que é como quem diz paletes.
Pote 1 – “Luís Farinha perdeu os pelouros do lixo e dos espaços verdes” – SANTARÉM/2 – FARINHA/0.
Pote 2 – Cronista voluntário deste Jornal, não sou, nem oficial nem oficiosamente, fornecedor da Câmara scalabitana, pelo que nem uma linha, nem um parágrafo, nem uma coluna, nem um dia sequer perco à espera que me pague ela o que aliás me não deve – EU/IGUAL-AO-LITRO – CMS 423/68 DIAS DE PRAZO/PAGAMENTO.
Pote 3 – Bicampeão mundial consecutivo de Cálculo Mental, João Bento, estudante da abrantina ES Manuel Fernandes, é já, aos 13 anos de idade, um dos mais promissores lavadores das janelas-de-oportunidade emigratório-passoscoelhanas. Isto pelos meus cálculos, que mentalmente são de uma besta. “Cresce e desaparece” – JOÃO BENTO/15 EQUAÇÕES-33,66 SEGUNDOS – CUNICULTURA EMIGRATÓRIA/MAIS 1.
Pote 4 – A Estatística é uma coisa inventada pelos yuppies dos anos 80/XX, gentalha reciclada, uma vez chegada à idade adulta, a partir dos hippies cansados de brincar aos Woodstocks e aos Maios/68. Parece que, estatisticamente, Santarém/Distrito aumentou as suas/dela exportações em coisa de 80% entre 2003 e 2013. Mais 12%, portanto, do que Leiria, a “rival”. E muito acima dos 69,48% da média nacional para o mesmo período cronológico – SANTARÉM/DISTRITO 80% – NÃO-SE-NOTA-NADA-DE-ESPECIAL-NA-VIDA-DA-GENTE 0%.
Pote 5 – O Riachense é um clube-espelho do País. Crise. Portas que se fecham. Ninguém de jeito que a jeito se ponha e se atravesse. O actual presidente, confesso não-recandidato ao cargo, já é, se calhar injustamente, tido e dado como involuntário “coveiro” da popular colectividade de Riachos – LUÍS CARLOS DIAS 0 – CAVACO SILVA ABAIXO-DE-0.
Pote 6 – “O presidente da Câmara de Santarém chama a si os pelouros dos Espaços Verdes e da Higiene e Resíduos Sólidos.” Ora catano! “Farinha” do mesmo saco (roto, ninguém disse azul…) – TUDO-NA-MESMA 1 – RUAS-DA-CIDADE 0.
Pote 7 – Vale (valerá mesmo?) que a vereadora Inês Barroso, perdendo embora a “Criança”, sempre mantém o Canil e o Gatil municipais – ÃO/ÃO 1 – M(I)AU/MARIA 1.
Pote 8 – Desde 6 de Maio último, deixou de haver paparoca no refeitório do CAS/Centro de Apoio Social. Sem substituição dos trabalhadores afectos àquele serviço entretanto postos a (des)andar, a panela não ferve sozinha. Mesmo assim, ó Anjos Todos do Céu e ó Santos Todos dos Andores Todos de Todas as Procissões a Cujas Nenhuma Falta o Presidente!, o superior edil “reconheceu o excelente trabalho de apoio social que tem vindo a ser desenvolvido pelo CAS aos seus associados”. Mas, note-se bem, salvaguardada porém a “completa independência da entidade ao município” – EXCELÊNCIA 1 – INDEPENDÊNCIA/BACALHAU-COM-GRÃO-A-3-EUROS-E-MEIO 0.  
Pote 9 – Sexta-feira, 15 do corrente, realizou-se na ESGT/Escola Superior de Gestão e Tecnologia de Santarém um “seminário”. Não daqueles para futuros sacerdotes mas para “líderes de organizações de Economia Social”. Isto é: para mais yuppies-ex-hippies. Já cá tínhamos poucos. Não consta que nem o moribundo Riachense nem o CAS tenham sido convidados. A mim pelo menos não me constou. “Oraram” (aquilo, afinal sempre era “seminário”…) Maria do Céu Freire, Tânia Graça e João Serrano – PALEIO & TRETAS 3 – QUAL-ORGANIZAÇÃO-QUAL-ECONOMIA-QUAL-SOCIAL-QUAL-RIACHENSE-QUAL-CAS? 0.
Pote 10 – “Ouve bem, mas percebe mal?” é a “manchete” da página 9 (nove) da edição passada do nosso Jornal. Publicidade devidamente assinalada (como é de lei, aliás), deve ter recebido 100% de respostas “SIM”. A minha, pelo menos, foi essa – 100 a 0, portanto.
Pote 11 – “Posto de Turismo de Santarém ‘esconde’ os folhetos das feiras que se realizam na cidade”. Calculo eu (desculpa-me lá, ó grande bicampeão João Bento!) que haja gralha neste título. Se estão escondidos, não são “folhetos”. Serão mais “falhetos”. Parece que por ordem do vereador. E quem é ele? Claro: o tal Luís Farinha. Folhetos de interesse turístico para a cidade e para a região? Bota pró lixo! Certo. Bem pode Farinha perder o lixo. Nós é que o não perdemos a ele. Resultado à vista no contentor mais próximo de si. Ou debaixo do balcão do Posto de Turismo.
E pronto. Por esta semana, nem me estico nem marro mais com suas sumidades (antes sumiços fossem ou levassem…).
Sim, senhores da página 9: ouvi tudo muito bem mas percebi tudo muito mal.
É da idade. Ou da (C)idade.



Thursday, May 14, 2015

Rosário Breve n.º 407 - in O RIBATEJO de 14 de Maio de 2015 - www.oribatejo.pt





25 menos 25 igual a 28


Sentado em perfeita solidão no banco da paragem, espero o autocarro da carreira 27, o das 19h45m. Calor. Inconstante como a vida, o meu Maio natalício esteve de radiador ligado o dia todo. E que me oferece a espera, primeiro, e a viagem, depois? Oferece-me números:

1. A derradeira dança do pombal pelo entardenoitecer. Umas duas dezenas e meia delas voando em formação ordenada, elíptica, comandada por um qualquer instinto gregário e aerotopográfico que não sei azimutar, muito menos explicar. Constituem uma forç’aérea muito bela e muito poderosa no azul-ferrete terminal do firmamento. Um pouco mais alto do que elas, todavia, mas delas ameaçadoramente não muito longe, sobrevoa-as um milhafre. De rapace solidão é a figura dele. Lento, pensativo, calculista, armado até aos dentes que aliás nem tem, merece-me uma alcunha má: Carlucci.

2. Derredor, o arvoredo incólume do planalto (cedros, mormente) matiza uma álea de sombra em refresco. Estão, ainda, vinte & muitos graus centígrados. A esquadrilha columbina desapareceu (para) já. O milhafre, não. Dele, a linha escura tem qualquer coisa de traço cuneiforme, de caligrama chinês, de cabide sumério. Não o odeio nem o venero – vigio-o, tão-só.

3. A quatro minutos do horário, passa-me defronte um quarentão de chapéu amarelo fitado de azul, pele tisnada daquele inequívoco açafrão típico do pica-heroa, rabo-de-cavalo a precisar muito de água-sabão. Vai labiando, como se charutasse um habano, um mata-ratos enrolado à mão que rastilha pelo ar uma espiral pró-hílare de oleaginosa essência de Marraquexe. No preciso entrementes mesmo, cruza a via (mas oh quão majestosamente!) um luzifelídeo, vulgo gato, de pêlo tipo carvão refractário, qual tocha negra de todo alheia e imune a tudo isto a que, se calhar por inconsciente auto-sarcasmo, chamamos “civilização”.

4. Tudo isto é pela hora a que os Antigos chamavam “noitinha”, mimoseador diminutivo da tenebrosa incógnita que a Noite é, foi sempre & sempre será. Eu chamo-lhe “entardenoitecer”. Eu chamo-lhe “luzcofuspúsculo”. Espécie de, digo eu, “eterni’tarde”. 0u de “peren’oite”. Acaso, ocaso tudo, qual seja o nome.

5. A bordo já do 27, colecciono os terminais lampejos solares que faíscam nas cúpulas dos prédios de mais altos cristais: frechas de ouro oblíquo, dardos de platina torrada. Mas também se me dá a recepção de certa pré-lunaridade na progressiva quietação: dirigindo-me eu a certa reunião (às 21h00m em ponto) de deserdados & desencaminhados do viver meus afins, recebo os sinais do vulgo humilde – a evidente fadiga dos trabalhadores em fim de jornada, a volatilização em éter dos desempregados cansados de enxamear sem préstimo o mundo-colmeia das abelhas-ainda-assalariadas, o cego de caixa-fenda-esmoler ao peito reenrolando os naperons das cautelas que ficaram por vender à pequena-sorte, o par de namorados partilhando a botelha plástica de água morna mercê de mole câmbio ósculo-beijoqueiro, a autoridade da incerteza pesando os quilogramas do Destino.

6. E ainda se me oferece saber, via O RIBATEJO da semana passada, que o “pacu”, peixe parece que familiar da sinistra e dentívora piranha, prolifera no fluvial-tomarense Nabão.E tanto prolifera ele, ouço dizer, que já lhe dá para migrar do rio para a seca Assembleia Municipal de Santarém, pardieiro-capoeiro onde andam urdindo a troca festivo-fogueteira do 25 de Abril pelo 25 de Novembro. O de 1974 pelo de 1975, portanto. O pacu anda armado em milhafre, por modos. Mas é mentira. O pac(arl)u(cci) não é nada o 25/XI/75 que quer festejar. É o 28. De Maio. De 1926. É, é. Repete a desgraça da História quem não engraça com a lição da memória.
Digo-vos eu tão-só isto: cuidado, garnizés, que as pombas ainda um dia se cansam de tanta mansidão. A ponto de um dia destes ainda fazerem pombal-quartel-general na maltratada EPC, de cujo pátio e de cujos portões, por mais degradados pela incúria e pela amnésia obrigatória dos politicamente imberbes cachopos de momento galarós no poleiro local, sairão voando baixinho.
De chaimite.
E de megafónicas asas abertas à Salgueiro Maia.
Cuidado com elas. Isto é: connosco.

Thursday, May 07, 2015

Em tributo a Luís Eugénio Ferreira - Rosário Breve n.º 406 - in O RIBATEJO de 7 de Maio de 2015 - www.oribatejo.pt




Que mal sejas servido, Luís Eugénio


(Nota prévia: em pessoa, não me atreveria a tutear-te, Luís Eugénio Ferreira. Nesta folha, onde companheiros escribas somos – por e para minha honra mais do que para e por tua –, atrevo-me. Assim seja, posto que assim vai ser.)
Permite-me que te justifique o gravoso título da corrente crónica. É sincero, para já. Li, na mais recente edição do noss’O RIBATEJO, o teu Solilóquio 2. Nele afirmas já teres obolado o sinistro Caronte. Como quem diz que pagaste já a fatal travessia que a todos nos está reservada. Se adiantado pagaste, que mal servido sejas, Luís. E que muitos anos demores, a vau, a cruzar tal almegue, a que não sei se chame Letes ou Hades. Vou mais pelo Letes – o Hades lembra-me um tal Jorge Mota Coelho Engil a falar…
Mente-me ainda o noss’O RIBATEJO que estás “à beira de completar os 90 anos”… Aldrabões! Pode lá pois tal ser! Cinquenta e um faço eu na sexta-feira, 8 do corrente Maio, e também é mentira!
Bem, mais a sério: bem mereces os muitos abraços que decerto vais receber no sábado, 9, pelas 17 horas, no Centro Cultural Scalabitano. Magnífica (mais uma, aliás) iniciativa do Movimento de Cidadania “No Coração da Cidade”. Parece que Santarém te retribui em amor, que não em géneros, o amor que (desde) sempre lhe devotaste.
És, Luís Eugénio, o tipo de homem que eu quero ser quando for homem. De intocável hombridade, de indelével civismo, de profunda filantropia, de não cotejável urbanidade – és um cavalheiro como já tão poucos há.
Quanto à tal festa de sábado, espero tão-só (vade retro!) que um tal espécimen de Boliqueime se não lembre de por aí aparecer. Que antiga e moça gente toda tua seja e esteja à tua roda, essa e isso sim.
Tem juízo: e dá seca ao tal Caronte por muitos anos mais. Fazes-nos falta como o ar, crê-me. Honra não é palavra vã – e tu honraste a Vida e a Cidade cada dia, cada década, cada página que (escre)viveste. Honra te seja pois, não feita, mas reconhecida.
Sou-te grato como leitor. Sou só mais um dentre os muitos afortunados que tiveram o privilégio de ser teus contemporâneos – e ainda, o que é mais e melhor, teus coetâneos.
Saúde, Luís Eugénio! Sobre que escreverás na próxima semana? Seja o que e sobre o que for, não lhe chames solilóquio. Nunca foi sozinho que falaste. Nunca foi sozinhos que ficámos depois de ler-te.
Mando-te uma rosa. Farás o favor de ser cravo para ela.