Thursday, February 12, 2015

(SONETO EM) OFERENDA - Leiria, tarde de quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2015




O sol português resiste ao frio februário.
A calma excede da pré-morte a ânsia.
O olhar singra pela luz em estuário.
Agora o longe não se faz distância.

Poucas pessoas, muita área, todo o ar.
Venéreo seria, e venal, não aproveitar
o instante em-vivo, instantâneo
ideário que bem usa o momentâneo.

Vamos indo. É devagar. Um pouco mais além,
flores que eu colheria & daria à minha Mãe.
Como quem daqui é & daqui não sai,

nuvens de branc’azul(ejo) propícias a meu Pai.
Calma. Tenhamos ao menos, por merenda,
tanta vã ideação, que não vã oferenda.

Rosário Breve n.º 394 - in O RIBATEJO de 12 de Fevereiro de 2015 - www.oribatejo.pt

A cera não é ruim, o defunto é que sim

Um país de pobres desgovernado por miseráveis – conheceis algum?
Eu, sim. E não queria.
Conheço um onde a vozearia é muito mais iracunda e a revolta muito mais veemente quando um qualquer padre é trocado por outro padre qualquer do que quando o posto de saúde, os correios, a escola, o tribunal e a própria junta são encerrados até (nunca) mais ver. País-carapau, que só assim faz escabeche.
Uma cidade capital de distrito (e de província) inçada de lixo e de contentores de recolecção estripados à maneira de fins de acampamento de rave – conheceis alguma?
Eu, sim. E não queria.
Conheço uma que Garrett imortalizou, por exemplo. E não sei se o mesmo hoje faria, ele, a tal morredouro de miasmas.
Tal país e tal cidade parecem andar e trazerem-se a si mesmos num virote esquisito. Varrer as respectivas testadas é coisa que nem esta nem aquele fazem. Nem à chicotada. (Da psicológica, claro, que da outra nunca a demos a sério, isto ainda não é a Arábia Saudita e as sanzalas ultramarinas há muito as extraviámos.)
Qualquer antístite, mesmo o mais reles, é gajo para abichar sem esforço mor os cimélios da parvónia – digo-o assim porque ando a ler o santareno Veríssimo Serrão tão saudoso de seu Marcello exilado, rebate lhe(s) dando o coração contrito.
Eu nem quero imaginar o que não faria uma Suíça, por exemplo, se lhe dessem nem que fosse uma só légua de litoral do nosso. Um Tejo destes adentrando as primícias do Atlântico por quanto é regadio, lezíria, sequeiro, céu até. E se esses acantonados e multilingues helvéticos relojoeiros/queijeiros/banqueiros pudessem dispor deste sol sem neve de quase todo o ano incidindo a pique sobre planuras tão mais úberes quão mais desertadas? Não quero imaginar. O que damos à Suíça é emigrantes de não-retorno e porrada no hóquei-em-patins (mais daqueles e menos desta, aliás).
Venho há uma vida gastando despicienda cera com o ruim defunto que, todavia, me é, no (des)concerto das nações, o único que alguma vez me interessou, interessa e interessar há-de – Portugal. Portugal e o Ribatejo dele, já agora. Continuarei tal gasto, bem no sei, desgastado e desgostado, mas exalçado sempre por (in)certa íntima obstinação a que só não chamo patriótica por poder ficar, hoje em dia, malvisto com o epíteto.
Não frequento doutos grémios. Nem subidos sinédrios. Nem vou, sabido, à TV parecer sabedor – gosto bem mais de iscas com elas e de ginjas idem.
Vou mais pelo escalpelizar da pública coisa atoardando indignações miudinhas de cigarra farta de ser formiga.
Terçando armas pela Língua – é ver o estropiado idioma com que a mais soez ignorância escreve, às costas e a pretexto do execrável AO 90, os rodapés dos telenoticiários e demais imundícies afins.
Objurgando o fedelho que fizeram, primeiro, cola-cartazes, depois assessor, depois (tumba!) edil e/ou, até, ministro da Relespública.
Exprobrando a demora inaceitável da adjudicação do Ministério da Saúde, no seu todo, à confederação nacional de agências funerárias: pois não é ele o mais ingente gato-pingado que por aí negreja o mais negregada, o mais mórbida e o mais mofinamente? É. É pois: legionella, urgências, hepatite C em infindo e cursivo etc.
Increpando a emanação morbífica da mui bela, mui antiga e mui mal empregada Scalabis, cuja multissecular vetustez merecia (e merece) outro futuro. Ou outro galo no campanário. Ou outro povo cá em baixo. Ou, pelo menos, menos lixarada por tudo quanto é canto, chiça.
O meu único receio é ainda vir a ficar reduzido, uma destas quintas-feiras, a um qualquer insensato atirador-não-furtivo de geriátricas verborreias, à imagem daquele pantafaçudo peregrino do 44.
Pode ser que não: ser pobre não é o mesmo que ser miserável.
Assim sendo, que nunca me/nos falte a cera.  





Thursday, February 05, 2015

Rosário Breve n.º 393 - in O RIBATEJO de 5 de Fevereiro de 2015

Quem Disse

O homem vestido de escuro surgiu como uma exclamação muda na chuva da tarde. Contornou a esquina, parou em frente ao contentor municipal, remexeu a camada superior do lixo. Não encontrou o que procurava. Virou costas ao lixo, deixou-se molhar minutos e mais minutos. Tinha um chapéu escuro. Tinha uma boca fina e horizontal de travessão de diálogo com ninguém. Era só um homem vestido de chuva na tarde escura.
Recupero hoje essa visão violenta. Senti, então, uma mesquinha misericórdia. Também, às vezes, sou cristão sem querer. Depois, critico-me com aspereza. Pena por quê, para quê, por alma de quem? Por nada, para nada, por ninguém. Havia o Café amarelo ali perto. Eu tinha já estes quase tantos anos. Acampei na mesa junto ao aparador (guardanapos dobrados, talher, cesto da fruta, palitos, tintos e brancos, galheteiros, pratos, sal & pimenta, extintor). Tirei a única certeza. O caderno. Então, o homem da chuva continuou.
Era um homem vestido de escuro na tarde de chuva. Ele procurava. Não estava no lixo o que procurava. Estaria alhures. A chuva desalmava até a respiração, a água babujava nas sarjetas entupidas, niquelava nos pátios abandonados o folhame dos plátanos senhoriais, fazia do ar uma grade sem limite nem sentido. Era o céu desabado, toda a tristeza do mundo. O homem saltou o muro da casa abandonada, dirigiu-se ao plátano maior e remexeu a terra. Não encontrou o que procurava. Ali o deixei por instantes.
No Café amarelo, atento às moscas refugiadas, cocei a mão esquerda com a direita, ouvi os impropérios do rapaz reformado aos 27 anos por pancada mental, dei-lhe um cigarro e agarrei-me ao caderno enquanto o desespero me colava à boca a fita de goma do costume. Não dei atenção ao desespero. Um homem é um homem.
Um homem vestido de plátano procurava uma coisa na chuva. Saltou o muro, abandonou o quintal abandonado, foi pela calçada foi pela calçada foi pela calçada até que chegou à parede onde luzia a santa do mesmo nome. Era um nicho ogival onde tinham embutido a santa. Duas velas ardiam dentro de água: os olhos do homem escurecido. O homem olhava a santa, que olhava o homem. Tremendo duelo de almas.
Nessa altura, eu procurava moedas nas calças. Estavam no casaco. Fizeram-me a conta, paguei e saí para a chuva que aluminiava o mundo como o mundo era essa tarde. Não foi assim há tanto tempo. Já era, suponho, o futuro.
O homem tinha deixado a santa entregue ao martírio afinal benigno da solidão. Ele era agora uma interrogação oblíqua parada em frente à montra da loja dos rádios. Olhava os aparelhos japoneses. Não era isso, nem a santa, o que ele procurava. Era outra coisa.
A mesma coisa me esperava à saída do Café amarelo. E era a vida. A vida era tarde, já então. Esquerda ou direita, igual. Subi a calçada de pedra subi a calçada de pedra subi a calçada de pedra até que cheguei ao bar de putas. Estava fechado. Quando um homem vai a um bar de putas e o bar de putas está fechado, alguma coisa se desacertou sem remédio na vida desse homem.
Esse homem já não era perante os rádios, tinha seguido pela tira de terra e cacos de tijolo que leva à via-férrea. Por aí eu fui.
O homem esperava o comboio. Tinha desistido de procurar o que procurava. Toquei-lhe com a mão direita, a que escreve, no ombro do mesmo lado. Ele virou-se:
– Finalmente. Andava à tua procura. 
Disse ele.
Disse eu.