Thursday, October 30, 2014

Rosário Breve n.º 380 - in O RIBATEJO de 30 de Outubro de 2014 - www.oribatejo.pt

Pouca-terra

Sou maquinista da CP.
O meu Avô paterno foi da primeira geração de condutores de carros-eléctricos de Coimbra, vão lá já quase cem anos.
Eu fiz subir a fasquia dos anais familiares: os eléctricos, afinal, estão para os comboios como os legos da criançada estão para os tijolos a sério.
O meu Avô teria fartas, largas & sobradas razões para orgulhar-se deste neto. Só não se orgulha de facto por ser difícil o trabalho do orgulho ao cabo de 86 anos de morto.
A minha profissão reitera a vocação viária dos destinos: de apeadeiro em apeadeiro até à estação terminal.
Conheço as luzes na noite. Conheço a luz diferente que a noite é. Conheço o país dessa luz, esse país nem sempre lunar. Conheço os suicidas: o olhar aberto deles ante o touro da máquina.
Sei como verdade que é a máquina a locomotivar-se a si mesma, não passando eu de espécie, por assim dizer, de alfaiate eléctrico: o mais que faço, é estar atento aos botões.
Como de estrelas molhado o firmamento nocturno, de tíbias gambiarras as populações no veludo da ferrovia anoitecida: enfrento isso, guiador da férrea lombriga.
Já fiz muito regional, muito intercidades. Certa histórica vez, cheguei a fazer Espanha-quase-quase-França. Era no tempo das malas-de-cartão: hoje como bidonvillemente então, portanto.
Acordei vezes talvez de mais em dormitórios transitários da Companhia: mas o que é que na vida não é dormitar?, mas o que é que na vida não é transitar?
Os casamentos que contraí entretanto, à maneira de gripes periódicas, foram-se-me na pouca-terra-muita-areia do costume: marido ausente a horas certas só pode dar ou turnos ou cornos.
Coisas gastronómicas que por causa do meu ofício sei bem mais do que o gastrófilo senhor Armando Fernandes: o frango guisado com massa no Alfa de Alfarelos; as favas com presunto de Mangualde; o toucinho à Senhor Cristo do Barroca de Taveiro; a francesinha verdadeira de Campanhã; o panrico-com-margarina-de-sabor-a-manteiga-dos-ricos de Vila Franca das Naves; e a regueifa coimbrã que a minha ti’ Maria da Estação (Velha) de voz finíssima apregoava na mesma e exacta Coimbra-B do filme Capas Negras protagonizado pela divina Amália e pelo estentóreo Alberto Ribeiro.
Coisas oficiais, estas: entre mentiras crónicas (minhas) e alheios veros interstícios ferrobiográficos.
Sou maquinista da CP – é mentira.
O meu senhor Avô foi eléctricomotriz – é verdade.
E a linha CP de Santarém vai ser interrompida pelo motim histriónico que num momento de nervos o senhor Ricardo Che Gonçalves Guevara anunciou à Cidade & ao Mundo por causa das encostas-barreiras da capital do Ribatejo – é mentira. (Olha, Ricardito, vai-lá-vai, que os meus botões não contemplam travões.)
Os autarcas de hoje (não todos, mas tantos, lego de brincar por tijolo a sério) fazem muita palhaçada desengraçada, coitados. Corro-lhes os quintais e devasso-lhes os pátios. Nunca me esqueço de agradecer-lhes o tanto rir que me fazem. Gosto deles assim pequenitos, tipo aqueles ranchos de marquesmendes & antóniosvitorinos que de bibe, patrulhados à proa por uma educadorazita anoréxica e à popa por uma contínua de joanetes inflacionados como repolhos, nos ensinam por essas ruas que a vida sempre creche e aparece.
De Santarém, o senhor herdeiro caçula do Moita de fraca memória determina excitações pueris do género fala-fala-queu-touta-ouvir.
Nasceu, coitado, apenas em 1975.
De modo que se lhe perguntarmos, à maneira do BB do laçarote, onde estava ele no 25 de Abril, a resposta só pode ser equivalente ao sítio onde está hoje: que é lado nenhum.
E para Santarém, esse lado nenhum é terra-pouca a mais.


Thursday, October 23, 2014

Rosário Breve n.º 379 - in a O RIBATEJO de 23 de Outubro de 2014 - www.oribatejo.pt

Alô, alô, aqui Vale da Pinta

“Se todo o Estado fosse como o Poder local, não teríamos défice.”
Quem isto publicamente cuspiu aos ventos não foi o maluco cá da aldeia. Foi um adjunto governamental. Para tal risível figura, a evolução financeira dos municípios é exemplo dos mais laváveis, perdão, louváveis. E o maluco sou eu, aqui no Vale da Pinta, Cartaxo.
Já não sei, francamente não sei, o que fazer de tanto palerma.
Ele é o coiso que, perorando sobre ética e deontologia da e na docência, plagia à força toda. Ele é uma tal Associação Nacional de “Professores” (tem de ser entre aspas, se não vomito) a dizer mal dos jornais por trazerem o granchar copy-paste de cueca à mostra.
Ele é os ministérios da “Educação” e da “Justiça” (aspas, claro) serem, obviamente, citius muito mal frequentados – mormente nos respectivos topos.
Um é caric(r)ato. Ninguém lhe exija que faça o que nós, como ex-Povo, há quarenta anos andamos a fazer: demitir-se. Pois se até o Primeiro veio agora a terreiro dizer que ele foi a sua “melhor escolha para o lugar”
Quanto ao caos (sim: caos, balbúrdia, feira-da-ladra, escarcéu, trapalhada, monturo, zaragata, torvelinho, carrossel, berbicacho, forrobodó, trinta-por-uma-linha) da “Justiça”, tudo está muito bem também, graçasadeus. Os juízes recebem setecentos e tais só para subsídio de alojamento mais miles pela “especialização”. Os funcionários judiciais fazem o favor de levar o coice nos fundilhos, agradecer a suas senhorias e aloquetar o bico, que a António Maria Cardoso ainda é no mesmo sítio.
Se todo estes rol & ror de deformidades desgovernantes não são emanações espectrais do atraso cognitivo, não sei que raio chamar-lhe alternativamente. Uma pessoa liga em casa o televisor e/ou o rádio – e é imediatamente sitiada por idiotas mal intencionados de alfinete-portugalinho na lapela. Na Grécia e na Alemanha, há facínoras presos por causa daquilo dos submarinos. Aqui, há medalhinhas do Dez de Junho e do Padre Cruz para os facínoras. O Sporting foi à Alemanha ser roubado à descarada: poupasse a viagem, que para ser roubado por alemães não é preciso ir além da taprobana de Caminha.
Eu sei, eu sei: mais com fel escrevo do que com tinta. Que quereis? Ando com um edema na glândula da amargura. Olho derredor e não me sossega o que vejo. Acho os cães de rua mais magros. Acho a mocidade mais burra, mais praxística, mais vã, mais feia. Até os bêbados meus colegas bebem menos, porra. Pelos jardins deste Verão anacrónico, os velhinhos tossem a desesperança com uma espécie de fé virada do avesso. Uma espécie de febre fúnebre amplifica em redondo o Zero nacional. Um caraças de autismo multitudinário resigna-nos e persigna-nos com férrea inexorabilidade. A indiferença imbeciliza-nos. Mas o Poder local, diz o tal gnomo de rala barba, é um espelho lavado a que o Estado deveria barbear-se, comovido e grato por tal e tão subido exemplo.
Enfim, pior há-de ser falecer.
Ou não.

Tuesday, October 21, 2014

Entrada n.º 55 (da manhã de domingo, 12 de Maio de 2013) do caderno 16 da série Leite dos Santos

55

Ib.


É raro agora pedestrar-me por Coimbra em podografia,
a vida é ora para mim sinonímia de Leiria e
e, como em toda a parte me aconteceu, o domingo é tristonho,
espécie de solução de descontinuidade entre a morte e o sonho
até as pombas pela Cidade parecem macilentas &
mais lentas, é como se pensassem sentindo que não

gostam do que sentem pensando-se pessoas.
De fêveras fracas é a flausina que veio
aquaminerar-se sem grandes maneiras educadas,
a primeira coisa que fez, ainda nem se sentado tinha,
foi ir à mesa dos três carecas cravar um cigarro,
foi esperta, evitou-me num soslaio por ter percebido logo

que eu estava com cara de pomba ao domingo pensando-se
poeta ou, o que é pior, pessoa normal.
Deu-se já ao deus-das-coisas-para-nada o meio-dia,
hoje o sol já ferra, seria bom ver o mar sem precisar 
dele, como quase tantas vezes nos acontece a quase todos,
ao contrário quantas vezes da vida, de que a gente precisa 

sem a ver.
Pensei há pouco em Coimbra só porque sim,
se fosse como nos meses em que esperei a morte da Mãe,
hoje seria dia de levar ao Café S. Paulo o bornal,
e ao senhor Manuel & don’Adelaide o mesmo,
e sentir a lâmina do Mondego entrando, azul-pomba, no peito.

Tuesday, October 14, 2014

Livro novo, antiga viagem



A minha Senhora & eu fomos ontem, 11-X-14, a uma festa muito bonita: a do 50.º aniversário matrimonial de Gina & Armindo (Lopes Carolino).
A surpresa oferecida pelos veteranos Noivos aos (muitos) convidados foi a a biografia do antigo presidente da Câmara Municipal de Pombal.
Tive a honra de escrevê-la para eles e para a minha Editora, a Imagens&Letras
Viva a Gina. Viva o Armindo.

Thursday, October 09, 2014

Rosário Breve n.º 377 - in O RIBATEJO de 9 de Outubro de 2014 - www.oribatejo.pt

Quer tacho

Tenho um primo de sangue directo que é médico no Cartaxo há coisa de trinta & picos anos. É rapaz bonito e afável como uma manhã dos Junhos de antigamente. Foram-lhe ásperas as primícias da vida. Até fome passou. Tudo venceu, todavia. Até a morte de um filho pequenino. Já o não vejo há tempo de mais. Não é meu costume andar pelo Cartaxo. Não é meu costume andar pelo Cartaxo por causa de Vila Chã de Ourique.
Tenho medo de Vila Chã de Ourique por causa do “terrorismo” institucional-autárquico que por aquela sede de freguesia praticam. Espero bem que o doutor meu primo também por lá não ande muito. Não quero que eventualmente o acusem de andar violando o n.º 2 da Lei 75/2013, de 12 de Setembro.
A Ção & a oposiÇão são mulheres para o encalacrar com isso se ele lá for, mesmo que só para praticar a sua, dele, bondade clínica. Quando o Relvas andou mundo fora a esterilizar freguesias e a enxugar poços, esqueceu-se de apagar de vez a Vila Chã de Ourique, que tanta falta faz ao mundo como a fome em África & Arredores. Malvado Miguel, doutor de pechisbeques & quinquilharias.
Já o meu primo médico poderia passar e passear sem medo pelo concelho todo. E eu. E eu com ele. Dos meus projectos de vida mais benignos, um é ir com o meu rico primo assistir a um treino dos rapazes Caixeiros de Santarém ao recinto desportivo de Vila Chã de Ourique. Iríamos até talvez com o marido da Ção presidente, esse que foi tesoureiro de um executivo que já não há nem me/nos parece que venha a haver. Nessa minha insensata quimera, os apaniguados do senhor Paulo Varandas não dinamitam nada. As mulheres deles não usam burcas. Nem os rapazes do PSD local rezam cinco vezes por dia em posição genuflectida de catar pulgas ao chão.
Acontece que tenho uma solução milagrosa para a embrulhada de Vila Chã de Ourique. Faríamos assim: dava-se à Ção presidente e ao marido a Junta Boa; aos outros da oposiÇão, a Junta Assim-Assim, para lhe não chamarmos . (Esta minha proposta não é meramente boazinha: é cinco-estrelas.)
Com a Junta Boa, a Ção & o marido poderiam ir almoçar fora aos domingos, amando-se com ternura entre garfadas de cozido e terrinas de canja rica. Com a Junta Assim-Assim, o PSD local, o comunista residente e os paulovarandasistas fariam uma suecada valente, rodando os três pares que seis cabeças perfazem. E eu e o meu primo sorriríamos a todos, untados ambos de gozo o mais feliz e o mais sacro. Agora, assim como está é que não dá.
Em minha casa, a senhora a que pertenço também preside – mas (atenção!) acumula a tesouraria. Não é como em V. C. de O. Eu só respiro. Sou vogal consoante, por assim dizer em alfabético paradoxo. O meu primo doutor, não sei como faz. Como é médico encartado há tanto ano, ele lá saberá. Aqui a sós comigo mesmo, penso um dia destes visitá-lo. Não conheço ainda a senhora com quem ele contraiu segundas-núpcias. Espero, tão-só, que ela se não chame Conceição. Porquê?
Porque, nesse caso malfadado, eu teria de reformular a presente crónica toda, começando-a, para meu & Vosso mal, assim:
Tenho um primo de sangue directo que é tesoureiro no Cartaxo há coisa de trinta & picos anos etc..

Thursday, October 02, 2014

Rosário Breve n.º 376 - in O RIBATEJO de 2 de Outubro de 2014 - www.oribatejo.pt





Bye-bye, Tó-Zé, bye-bye e não voltes

Nem todos os cristãos são católicos, nem todos os católicos são cristãos.
O mesmo se aplica aos socialistas de Portugal: nem todos os que o são, estão no PS; nem todos os que no PS estão, socialistas são.
Por outras palavras e no sentido idêntico: nem das galinhas cresce lã, nem as ovelhas dão ovos.
O que reluz e o que é ouro – raro coincidem.
Dou por mim a dar nestas lapalisseadas pelo alvor da manhã derradeira de Setembro. Uma cantoneira da Câmara vai penteando a corta-relvas o separador central da Avenida. Pela galeria da Rita, choutando a mansinho passo, uma senhorita-caniche dá trela a si mesma em gracioso par. O copofonista madrugador das sete e onze acaba de emborcar o terceiro porto mercê de uma tecnicamente perfeita cabeçada-marcha-atrás.
Dão as sete e doze quando me ocorre que o senhor papa Francisco sempre há-de, cá p’ra mim, ser tão mais cristão quão menos católico pareça. Já quanto ao novel campeão de pesos-mosca, António Costa, aliás simpático e bonacheirão portugoês do Príncipe Real, o mínimo é agradecer-lhe, para já & se calhar muito, a deserção do inSeguro da televisiva pantalha. Receio, tão-só, que os coelhos ainda venham a dar ovos, fora da pagã Páscoa do calendário comercial.
Través tudo isto, faço como os índios da Nort’aAmérica: tenho as minhas reservas. Tudo faço para não confundir a canábis com os canibais. De crónicas ferreiro, que espeto de pau me não seja o argumento. Não pretendo ser indelicado, não é melindrar que pretendo. Os “simpatizantes” do PS podem perfeitamente integrar procissões santuárias, tal como ele houve decerto muito padre que a seu tempo votou Sócrates. Não é com isso que me vou armar em cabeçudo – desses cabeçudos tão cabeçudos, mas tão, que nem se penteiam, antes estabelecem perímetro. O PS e a Igreja não me fazem mal. Também me não enchem de sopa o prato. Cá p’ra mim, a filial portuguesa de Roma e o partido rosicler são como aqueles primos remotos que todos temos algures: usam-nos o apelido mas não são nós.
Enquanto tudo isto, uma matrona conserta ao decote um fio de ouro de que se dependura a medalhinha da Senhora da Conceição. Mas, por pecaminosamente ter madeixado de trigo químico a cor natural da cabeleira, é como se a Imaculada habite o sopé de uma silveira outonal. É como a vocação dos sapateiros para serem coxos. O da minha Rua era: cambava o próprio andar.
Por este andar, dizia eu pois, o PS ainda se arrisca a deixar de vez cair a máscara. Que é como quem diz: a maquilhagem. Aquele “S” sempre significou tudo menos “Socialista”. Foi “S” de Soares, de Santos (Almeida), de Sampaio, de Sócrates, de Seguro. Só lhe faltou ser de Santana, pelo histórico descambar.
Ainda me hei-de rir um dia destes. Digo: de o PS tornar-se PC.
“C” de Costa, não de “Comunista”. Ou de “Católico”.
Agora de “Cristão” é que não, isso de certezinha absoluta.