Thursday, July 24, 2014

Rosário Breve n.º 368 - in O RIBATEJO de 24 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt

Olha, Mimi

O Verão tem acontecido temperadamente. Trouxe de volta as cores, espargiu pelos relvados as poucas crianças que ainda por este País de tesos sem tusa são feitas. A chávena de leite fresco sabe bem na estreia de cada dia nato em nata. A meio da manhã, a malga de branco amorangado também. No estaleiro da obra, duas aparas de madeira esbraseiam a sardinha operária.
Dona Graciana veio bem-disposta da consulta: ainda não é desta que nos fecham o posto de saúde. Juvenal chega do rio com uma rede generosa de peixes quási vivos. Expele delicada fragrância erótica a turista de sandálias verdes e promessa de blusa vinculativa, de que mana (ou mama) a fofura do par de alperces lácteos. Parece rola dada aos ardis turvos da lingerie. É ela quem lhe dá na malga frígida de branco, indiferente aos miasmas oftálmicos que lhe açulam ao decote. De bicicleta furiosamente encarnada, vem pedalando vapores de toiro o Ruizito da Aurora – dizem que é muito esperto na matemática, mas oxalá que não estude para professor por causa do emprego, quanto mais da carreira. O Telmo da Florbela está precisamente agora a teimar com o Horácio Padeiro a propósito da exactidão onomástica da pintora francesa exposta em colecção na Casa-Museu Passos Canavarro: o Telmo assevera que é Mimi Fogt; o Horácio, que não, que pode lá ser, que Fogt é lá nome francês. O Raul da Farmácia tem uma amante casada em Alpiarça e quer que se saiba, mas baixinho. Às quatro da tarde, a cal da igreja está em brasa ao torresmo solar. O pachorrento Mariano da Estrelícia brande o jornal ao Benedito Borbulhas, chamando mentirosos aos jornalistas por causa daquilo das 100 maiores empresas do distrito de Santarém. Quando o Benedito quer saber porquê, redargue-lhe o Mariano que ao todo nem 40 empresas há-de por aí haver em laboração, quanto mais cem. Eu sorrio mui doutamente, rodando na pata esquerda o terceiro vermute abridor da ceia. O Joca Franciú, que esteve uns anitos poucos no Luxemburgo para vir de lá sifilítico de ainda mais pobre do que o aquando de para lá ir, tira à carrada industrial cera do orelhame com a unhaca do mínimo, fazendo estralejar a pulseira de lata gross’amarela. Carregada de flores como a Mrs Dalloway, passa a caminho do cemitério a patética Ricardina. – Estás-lh’a chamar pateta porquê?, quer saber o Joca. E eu digo-lhe que patética não quer dizer pateta, quer dizer comovente. E mais lhe digo que até parece que tu foste ao São Carlos desgostar a sinfonia do Cruges com aquelas mamarrachas da plateia. E ele remata que aqui não mora nenhuma Senhora Dá-lo-ei, que eu tenho mas é a mania. E tenho.
Nisto, a noite emaranha já gambiarras de silveira estelar. Da boca do rio, uma aragem branda traz o frescote. O rio mesmo parece prantear os filhos que lhe sequestrou o Juvenal. O Assunção vai de zundapp buscar a mulher à saída do hipermercado. O Mariano ainda está a zurzir naquilo das não-sei-quantas maiores empresas do distrito, pelo que, fartinho dele, o Borbulhas lhe diz tipo isto: – Ó pá, se tu subisses a um altar no 15 de Agosto ainda t’apar’cia o prezdente-da-cambra na procissão. E o Mariano: – Olha, Fogt.   

Wednesday, July 23, 2014

A Secreta Vitória


A Secreta Vitória


Fazem as pequenas pedras os grandes edifícios. E pequenos, por igual ideia, parecem os homens que organizam as ditas pedras de modo a que a História encontre marcos no tempo que passa. Que passa para as pessoas, não para os monumentos.
A Batalha, toda ela, vila e mosteiro de Santa Maria da Vitória, evoca essa comparação. Não é possível, perante a beleza descomunal daquela pedra, evitar a íntima inquietude de sermos, nós pessoas, ínfima areia. E que só ela, junta e trabalhada pedra, é eterna.
Ainda assim, retenhamos de uma visita à Batalha (que é, como em tantos outros casos de amor, uma revisita) a noção de que a alma colectiva existe. E que olhando nós o que invisíveis e dissipadas mãos ergueram, também mãos damos ao que eles quiseram olhar por dentro e de frente: a alma da História, a nave do Tempo, as abcissas da Memória.
Visitada, revisitada, nunca esquecida, a Batalha exalta deste modo uma vitória mais secreta que a de Portugueses sobre Castelhanos: o triunfo da arquitectura sobre o esquecimento. Ou a morte da Morte, por assim dizer.

Saturday, July 19, 2014

Rosário Breve n.º 367 - in O RIBATEJO de 17 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt

Menos um morto ali para a mesa do Moita

Não é só o professor Marcelo que faz homilias dominicais. Moita Flores também as faz. É na página 2 do Correio da Manhã. Não há véspera de segunda-feira que lhe escape. Na mais recente, perorando um chorrilho de banalidades vácuas sobre os incêndios que cada Verão nos causticam a Pátria, sai-se ele com esta assim: “Oxalá morram menos pessoas, mas que ninguém duvide que o fogo nos vai abrasar outra vez.”
Pode ser que eu seja picuinhas. Pode, até, que eu solenemente me dê ao desperdício de embirrar com o homem. Pode. Mas, a esta, não lha deixo passar em claro, que nem na lerpa sou de ir ao escuro. Basta olhar para a (des)conta-corrente da Câmara de Santarém para ver sem precisão de óculos e/ou de binóculos que este senhor Moita é de más contas. De modo que o interpelo aqui assim: Menos pessoas mortas? Quantas menos? Um bombeiro? Dois? Três civis? Meia dúzia? Frase infeliz, irreflectida, vã, de copy-paste moralóide: “Oxalá morram menos pessoas (…)” A frase correcta, até humanamente, até curialmente, até como toda a gente, teria (e tem) de ser: “Oxalá ninguém morra.”
Ao contrário do senhor Flores, a minha mulher é pertinente. Para além do ofício de ganha-pão, é bombeira voluntária há uma carrada de anos. Terei eu de pedir ao senhor Flores que a integre na sua oração-de-oxalá? Que seja ela, este Verão, uma das “menos” que não ardam? Uma das que, sacrificando-se na ara e em aura de solidariedade social-colectiva, não deixem de si apenas cinzas, pó que somos todos?
Atenção, por favor: nada me move contra o ex-edil de Santarém, esse fugitivo do e ao escrutínio público. Também nada dele me comove. É criatura bidimensional apenas. É apenas outro professor Marcelo. É apenas outro Seara. Outro Sousa Tavares filho apenas. E outro Romeiro do Frei Luís de Sousa: “Ninguém!”.
Mas, figura pública que tanto e tão incansavelmente se autopublica e que tanto e tão incansavelmente se autopromove, tem responsabilidades. A citação motriz desta crónica sobrepassa o banal. É lixo à nascença. É uma treta até crápula. É uma coiseca vadia. Alguém ainda me há-de explicar como é que o (esse sim, grande) Luís Filipe Costa se deu ao luxo triste e ao desperdício de co-assinar com ele aquela frívola coisa dos “Polícias” para essa ampla manjedoura de inúteis e de cravas chamada RTP. Ou como é que há editora que de Moita carrascamente publique os dramalhões pseudo-históricos relativos ao elenco episódico da nossa vil capoeira pátria: das Ferreirinhas aos Ballet-Rose, dos Alves-dos-Reis a toda a trapalhada com a própria mulher em protagonista do telelixo do marido.
Digo eu e tenho razão: uma pessoa séria não deseja, nem muito menos escreve, menos morte. Deseja nenhuma. Escreve nenhuma. Num desastre de avião, uma pessoa decente não diz que “ainda bem que só morreram 273, sempre se safou a hospedeira”. Um escriba a sério nunca rosna que “no próximo bombardeamento de Gaza, oxalá que os israelitas matem menos quatro crianças”.
Há coisa de duas décadas, Gilles Lipovetsky escreveu uma obra chamada “A Era do Vazio”. É a nossa. É a porra da síndrome do balão: muita cor por fora mas só ar quente por dentro. Hélio de ninguém. Nada-resto-zero.
Já quanto à dívida da Câmara de Santarém, oxalá que este ano seja de menos milhões. Um milhão por cada morto a menos na fogueira do senhor Moita, a quem só não mando ir pôr-se num porco por não saber, eu, se ele domina a arte do contorcionismo. 

Monday, July 14, 2014

49 do 31 (Leiria, entardenoitecer de segunda-feira, 14 de Julho de 2014)

49

Com os anos, é possível aprender a ser-se amado.
Passou há muito, felizmente, o tempo das experiências.
A receita eficaz está agora na adoração pachorrenta:
as pantufas irmanadas, o gato plácido,
as andorinhas-de-barro na empena do alpendre.

Os grossos cordames dos navios não logram isto:
são só cordames de navio – e está muito bem.
Em vários istmos portuários eu vi tais cordames.
Daí que, sim-talvez-ou-não me ames,
o que retiro é ter sido o que olhava navios.

Não posso, bem no tente eu embora, deixar-me todo em papel.
Há coisas que são só p’ra dizer aos domingos
– e hoje é segunda-feira na minha vida e
amanhã também.
Penso ter-te posto isto em pratos os mais limpos.

Gosto, como tanta gente gosta, de crianças ao vento.
Sinto-nos cadernos-de-colorir – e elas, as cores.
Mas depois derivo, dou voltas na chuva mesmo fazendo sol.
Nos espelhos das barbearias, ao longo dos meus já tantos dias,
tenho visto mais do que a mera multidão restrita

do barbeiro & eu.
Uma vez, num inverno poderoso como um guante de ferro,
tremi sezões que não provinham de moléstia no sangue.
Fiz por esquecer isso em trovas fingidoras & bem escritas.
Também fiz filhas, nem tudo foram falhas.

Hoje, que é julho por minutos, já recebi sinais,
telepáticos talvez, da nunciatura feliz e descamisada
sempre tão afim dos poetas-de-esplanada.
Isto, à flor como no fundo, vale-me tudo,
por valer nada, ó só minh'(a)prendid'amada.

Sunday, July 13, 2014

Mais quatro entradas do caderno 31 da série Leite dos Santos - Leiria, tarde de domingo, 13 de Julho de 2014


36

A senhora Gioconda nos olhos nos olha
– e sorri de nós, não a nós.
Sorrirá da pobreza de cada um,
de cada um da escassez a que assiste.

Figura de colo manso, de suave tintura as mãos,
é senhora para isso, disso e de/para muito mais.
Habituámo-nos todos à sua voraz ubiquidade,
estatisticamente símil à do Cristo e à do Che.

Nimbada de ordinário mistério,
parece sacerdotisa de penhoristas,
pois que para sempre de prego pendurada,
a pobre.

Ninguém a requer em casamento,
ninguém aparece que um vermute lhe pague
em algum aprazível balcão do entardenoitecer.
Onanismos, não merece. Erecções, muito menos.

Pode que por ser tão Mona.

37

O corpo sente-se branco na luz completa.
Estas árvores, porém – que sentirão?
À luz toda, subindo água, cada delas, aberta,
abre-se em altura por & à condição.

Panos limpos domesticam a cozinha
que em manhã livre ela lavou.
A sala cheira a qualquer coisa azevinha
que, avezinha, ela (po)voou.

Eu vim à rua. Em casa, ela, de si descuidosa,
cuida das plantas, que dela são prolongamento.
Nunca se queixa, nem se lhe escuta lamento

do que-foi-que-não-foi. Habilidosa,
bricàbraca coisas, abre, fecha, veda, estanca.
Nisto, dá-lhe a luz: ei-la, tão branca.

38

Que espécie de pureza em leite poderia eu
não prometer-te em vida por mais um dia?
Ouvi falar crianças, foi num outro Inverno. Sucedeu
que aquilo me deu, não sei, uma ’spécie d’alegria.

Em torno de nenhum centro me fiz periferia.
Ah sim, tenho habitado abrigos só mentais.
Contas bem feitas, usei já não sei quantos portugais.
Deles, nenhum a algum outro preferiria.

É mesmo assim como te digo, podes crer.
Vou usando com proveito a ciência da não-espera.
Telefonam-me muito, mas é p’ra me dizer

que este & aquele Amigo não chegam à Primavera.
Porra, chiça, merda, catano!
Já (des)contei cinco, só este ano.

39

Com deliciosa, insuportável quase, lentidão
a do segundo-andar acende dela o cigarro.
De vez em quando pela rua passa um carro
e mais nada se passa, há felizmente quietação.

A mulher disse-me que trouxesse versos & algum pão.
Esqueci-me em casa do isqueiro, peço fósforos à Sónia,
robusta empregada, que seria amazona se fosse da Amazónia.
A luz azula a esplanada. É pouca a frequentação.

No bornal, trago o Ángel Crespo & o Antoine de Saint-Exupéry.
Já me icei duas vezes daqui: uma p’ra fósforos, outra p’ra chichi.
Vai bonita a tarde: luz & brisa são dupla consolação.

Bocejo o meu bocadito, apesar dos três cafés que bebi.
Se calhar fecho ora o caderno, vale pouco o qu’escrevi.
Valha, enfim, o que valer   desde que me não esqueça o pão.

Três entradas do caderno 31 da série Leite dos Santos

Leiria, manhã de domingo, 13 de Julho de 2014

33

Humana frota tripula a manhã dominical
ao remanso fresco que a hor’ainda dá.
É uma matina portuguesa, ilesa, meridional:
melhor do que ela é que não há.

Às nove, na Igreja de Santa Cruz de Coimbra-a-Minha,
rezaram missa por alma e em intenção
do meu ido Amigo José António da Conceição.
Neste sítio mundial, que Leiria é, a luz pergaminha

o fluvial arvoredo, que é de rama umbrosa.
A vida, assim quieta & (c)alma assim, é decorosa,
é rosa de que se não augura o fim.

Mas tem-no. Detém-no. Para tal, não há remédio.
Suficiente & pertinente é, por ora, capar o tédio,
sabendo de ti alguma coisa – e tu, alguma de mim.

34

Desse azul mais escuro
que é veludo noctâmbulo
& da manhã preâmbulo,
reverso dela o mais puro

– desse oferta te fiz & faço.
Lento, cada verso, tipo melaço,
para ti escorre, quer ser, entregar-se.
O melhor do receber ’ind’ é o dar-se.

35

A mulher hoje de azul na esplanada clara
é dessas belezas verticais que ao céu mesmo sublimam.
Duas belas orelhas de viva louça a encimam.
E o rosto é desses rostos a que se não chama cara.

A bacia dá ao torso a sugestão da ânfora.
O pé, a ouro de tiras sandaliado,
tem qualquer coisa de âmbar, digo, de cânfora.
Todo o resto é muito bem ataviado.

Tem marido, claro, que à trela usa ela.
É rapaz de têmporas grisalhadas & de perfil discreto.
Usa camisa castanha com gola amarela

e umas sapatilhas lavadas, sérias, de tom correcto.
Ambos contribuintes, eleitores ambos democratas.
Ele é Rui. Ela é Maria do Amparo Gomes Pratas.





Thursday, July 10, 2014

Rosário Breve n.º 366 - in O RIBATEJO de 10 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt



Zeferino Crusoe

Chamo-me Zeferino, tenho 47 anos e ganho a vida a fazer carocas, ou pelo menos antigamente ganhava, sempre tive um bocadito de jeito mais ou menos pa’ quase tudo na construção e na agricultura, o problema é que agora tou preso vai já para uns meses largos, mas atenção, preso sem ser na prisão, nunca cometi crime algum senão ser pobre, digo preso porque é como tou, eu conto.
Acontece que aqui há uns tempos me chamaram se eu queria vir ajudar a arrancar equipamentos e coisas assim aqui ao Café Central e eu disse que sim, três euros à hora hoje em dia não são pa’ desprezar, quanto mais aqui há meses que era quando o euro ainda valia, sei lá, tipo uns setenta paus dos antigos quando é pa’ receber e quatrocentos e tal dele quando toca a pagar, mas adiante, apresentei-me e fiz tudo o que ma mandaram, arranquei tudo o que ma mandaram arrancar, arcas frigoríficas, vitrinas dos bolos, máquina do café, os seis baixos-relevos do senhor Maximiliano acho que Alves, era isso, Alves, por acaso até muito bonitos, tive pena, claro, mas três euros são três aéreos e é vê-los àvoar, como eu dizia portanto arrancar arranquei, só que no fim, quando era p’arreceber, quem arrancou foi quem aqui me chamou, o pior inda nem foi isso, o pior foi que por causa da marosca me trancaram aqui dentro e por isso é que eu disse que tava preso e tou e é aqui no Café Central.
Tou aqui há tanto tempo que nem sei s’inda é o senhor Noras q’amanda cá na parvónia ou sindé aquele da televisão que diz mal do que se dizia que queria o lugar dele, se não é devia ser, dizem que ele é que não quis qu’isto fechasse, qu’era uma pena, talvez por causa dos coisos maximilianos, isso não sei nem sou chamado a saber, o que eu sei é arrancar, construir também sei se for preciso, mas pa’ isso chamam cada vez menos ou nada.
Ó princípio inda julguei que fosse descuido sem maldade, mas não era, sacanitas dum raio viesse qu’os partisse, dos primeiros quinze dias nem me posso queixar, havia uma data de latas de atum e coca-colas daquelas de litrimeio, um português safa-se sempre mesmo que seja sozinho, é como, com licença da palavra, o mijar, se mija um português mijam logo dois ou três, ao menos no mijar sempre somos unidos, isso ninguém nos tira, inda havia luz também e como descobri a televisão antiga mesmo a pretibranco sempre fui vendo o Goucha e a Maya de manhã e o Jorge Gabriel de manhã à noite, nem sei como é que ele aguenta tanto sem ir a casa, quer dizer, agora sei, que também já não vou à minha Póvoa da Isenta desde antes do Natal, às tantas a minha mulher ainda desconfia que eu fui ali ao Retiro da Francesinha e prontos, e eu nada disso, que sempre lhe fui sério, excepto daquela vez quando foi pela largada dos toiros em Almeirim mas isso nem conta se vocês não lhe contarem.
Mas agora cortaram a água e tou que nem posso, ainda experimentei mijar menos de cada vez para ver se mapareciam os tais dois ou três e viste-zios.
Modos que era para pedir ao senhor Noras ou ao coiso depois dele que até fez mesmo aqui a festa de candidato antes de sir embora quase logo a seguir, agora já malembro, se podia mandar abrir isto mais uma vez, que eu juro que desta vez é de borla, té digo mais, que desta vez sou eu que pago a reabertura, só tem é de me dar tempo para juntar os três euros.

Thursday, July 03, 2014

Rosário Breve n.º 365 - in O RIBATEJO de 3 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt

Ver também:
http://www.oribatejo.pt/2014/06/30/santarem-limpeza-na-junqueira-e-festa-na-fonte-das-figueiras/


Levando o cântaro à fonte

Eu gosto de quem gosta da Fonte das Figueiras. Gosto, gosto. É gente exemplar, no sentido em que, pela prática do exemplo, demonstra sem peias nem rebuços a evidência seguinte: o melhor que há a fazer à sujidade é limpá-la, não é carpi-la. O zelo castra o desmazelo. E ao desconcerto do mundo – o mais é concertá-lo, consertando-o.
Aquela gente é veramente comunitária – sabe que o Outro existe, querendo para ele o que deseja para si mesma: um mundo mais limpo, mais respirável, mais humanista. A ecologia dela é com sabão. E o sabão nunca cheirou mal.
Também me agrada sobremaneira que tal movimento seja apartidário. Mas atenção: tal não significa que o resultado do seu activismo seja apolítico. Nem menos. Porque política a sério não é profissão: é missão. E é a resolução prática de problemas concretos. Não é torcer o que está mal, é torná-lo dextro. Porque o mundo é no nosso quintal que começa.
Percebo que isto desassossegue os políticos profissionais. Enxadas e enxós sempre inquietaram os colarinhos-brancos. Baldes e esfregonas, idem. Espátulas e trinchas, aspas. Percebo que eles se alvorocem, que mandem batedores subassalariados por antecipação. Percebo, percebo – o que me faz gostar ainda mais da Fonte das Figueiras. E da Fonte da Junqueira. E das fontes todas que, manando da terra que é de todos, a todos se oferecem limpamente e de limpa mente como aquela gente.
O chato é a possibilidade de aquele Movimento, um destes dias, pegar de estaca, a ponto de o resto do País se julgar ribatejano & pró-activo. E se os zeladores da Fonte das Figueiras se lembram de ir limpar a dívida colossal da Câmara de Santarém, expurgando-a de pus e crosta? E se àquela malta lhe dá para vir de lixívia esfregar o contrato do Café Central, ou vir de escova de aço cardar a lã ao estacionamento tarifado, ou ensaboar os processos inquisitorial-disciplinares aos impugnadores de concursos manhosos, ou fazer uma barrela das antigas aos contratos orais com empreiteiros, ou impor uma faxinadela das valentes ao encerramento de maternidades e afins estruturas da saúde?
Imaginai ainda mais: que aquela gente afinal perigosa (porque gosta de música, de poesia e de partilhar a merenda, entre outras subversões) desata por aí a lavar os cestos da Selecção Nacional da Bola, a vindimar a direito na Assembleia da República e a arejar os bafientos salões dourados que, de Bruxelas a Estrasburgo com moratória central em Berlim, nos ensombram a soberania e nos atulham o presente e o futuro de lixos irrecicláveis como o desemprego vitalício, o desamparo na velhice, a choldra na justiça, a impertinência na educação, a selvajaria antropófoba do hipercapitalismo, a manipulação no jornalismo e a infelicidade obrigatória da pessoa singular?
Calma. Por enquanto ainda só estamos a levar o cântaro à fonte. Até o dia em que ele teime em lá deixar a asa. E isso pode acontecer.
A partir das Figueiras e da Junqueira, pode. Pode, pode. É limpinho.