Friday, May 31, 2013

Rosário Breve n.º 311 - in O RIBATEJO de 30 de Maio de 2013 - www.oribatejo.pt

Confeitaria Setembro


É um fim de tarde como alguns que vivi na moça idade. Não frio, mas fresco. Cinza plumada de umas poucas palhetas de ouro, lá longe. Setembro ténue para uma vida crepuscular. Café e cigarros numa confeitaria que diz "TRESPASSA-SE" na porta de vidro. Quase ninguém neste mundo. No outro, o das ruas, uma suave agitação comercial de ante-fecho de lojas: últimas compras, últimas vendas do dia.
É a hora dos cinzanos na velha vila (não consigo chamar-lhe cidade, embora o seja por decreto). Tenho um livro de Machado de Assis, limpei os óculos, reencontrei a caneta preta de que andava perdido. As coisas compõem-se.
Andava farto de Agosto, cansado da fornalha omnipotente, exausto por nada. Agora, devolvo-me este sossego serôdio de batedor de confeitarias em trespasse. Algumas moedas na algibeira: douradas umas, outras castanhas. Uma impressão na garganta, que alivio com ríspidos regougos. Uma rapariga com um balde verde na rua.
Imagino um rio que não vejo daqui. Vai para o mar, como eu iria também se pudesse mais que imaginar. Bordado de salgueiros diagonais e de pedras deitadas, é um rio bom. Absorve a luz cinzelada, faz dela uma faca dinâmica, uma folha de aço não matadora, antes sim avivadora de olhos.
Imagino a minha cidade natal (essa sim, cidade) sulcada por esse rio, essa lâmina benigna. Transporto-me no tempo, devolvo-me a moça (c)idade. Vivi perto desse rio este entardecer. O mesmo crepúsculo nas mesmas margens. A ponte? No tempo. No tempo crepuscular, a ponte é uma dedada de contracor. Automóveis mais lentos que pessoas - os meus mortos e os alheios vivos cruzam-se na ponte, cumprimentam-se surdamudamente, hologramam a visão cinemascópica, passam infinitamente como outros tantos rios.
Embalo belo, esmerada esmeralda - escreviver. Quietas hostes, adormecidas legiões, uma mala encarnada de cartão juncada de fotografias de bordos ondulados com o carimbo do fotógrafo no verso.
Um tractor carregado de lenha trota na calçada: há já quem se aprovisione de lenha para o inverno. Antecipo esses invernos individuais que não vejo daqui: as mulheres aquecidas nas cozinhas de pedra amanhando coelhos; os gatos, saciados de vísceras mornas, derramados ao lume do lar como trapos de flanela; as panelas negras aferventando a galinha gorda; os homens que chegarão do trabalho e dos cinzanos.
Nada disto é comigo, excepto por magia: imagino - imagi(a)nação - letrinhas pretas de caneta reencontrada. Atravesso setembros. Não é difícil. Já não é difícil. Um homem aprende a ser uma imagem de homem, um relógio de sol, um varredor de cinzas.
Que será o jantar? Peixe do rio não pode ser, que longe ficam ambos, rio e peixe. Sopa de tomate, quero imaginar, e depois peito de vitela com massa, doce de laranja, café. Água da fonte, que a da rede anda química de todo. Uma fatia de pão de segunda, uma lâmina de marmelada. Depois, sendo já noite, de Machado de Assis nos joelhos e ao rés do candeeiro, esperar o canto do vento nas laranjeiras vizinhas. O canto do vento nas laranjeiras vizinhas e o canto rouco dos cães à Lua molhada, à humana Lua que do alto nos vigia a inocência, o breve cromo do crepúsculo colado de costas à caderneta da idade, a esperança de um bom trespasse para a senhora da confeitaria.



Thursday, May 23, 2013

Rosário Breve n.º 310 - in O RIBATEJO de 23 de Maio de 2013 - www.oribatejo.pt


Madeira

Segunda-feira passada, através de um calor de sufocação, preparava-me para estacionar o carro quando um agente de polícia me sinalizou que o não fizesse ali.
O agente inclinou-se com cortesia à janela direita e explicou-me: “Há um cavalo morto, tem de passar por aqui a máquina para o levar.” Estacionei noutro sítio e fui ver. Era verdade. No terreno baldio onde acaba o bairro social (pintado, com humor, de cor-de-rosa), havia um animal entregue à impenetrabilidade da morte. Era um pónei acabado. Perto dele, um pónei vivo olhava o morto com a mesma humana incompreensão. Talvez fosse irmão dele. Nem eu nem o guarda sabíamos porquê. Se de doença, se de sede, se de quê. Um animal deitado de vez na erva exausta, apenas. Abatido pela inclemência do sol, parecia o que era: um saco de ossos, carne, pele, cabelo – um saco igual àquele em que nos embrulhamos para existir, faça chuva, faça sol. Fazia sol. Jazia todo o sol que há, nessa segunda-feira esbraseada que já não podia punir o cavalito, o cavalito que nenhuma terça-feira torturará mais. O ar vibrava de vidro derretido. O gás da luz cozia as casas como a ovos geométricos. Nenhuma brisa chegava de nenhum mar. A única árvore do sítio dardejava riscos de giz de passaritos de ardósia. O calor era tanto, que a eternidade se tinha tornado um fenómeno local. A marca da camisa tatuava-se-me sobre o mamilo do coração. Era uma cena triste. Por um momento, desejei que não fosse verdade, que o polícia e a realidade e o sol se tivessem enganado, que aquele vulto jacente não fosse um pónei morto mas, afinal e tão-só, um cavalito de pau ali abandonado à condição de madeira sem magia dos carrosséis desmantelados. Que ainda fosse, enfim, uma brincadeira de crianças. Mas era o que era. E o que era, era triste e ao sol. “Os animais são como nós”, disse eu ao polícia, só para que, dizendo alguma coisa, alguma coisa nos desse a ilusão de ser possível sobreviver ao calor e à tristeza e ao pónei. Ele concordou com um menear de cabeça. A verdade é que não havia nada a dizer. A máquina falaria, arquejando de gasóleo na remoção do corpo. Não fiquei para assistir a essas exéquias mecânicas. Ao fim do dia, quando a noite me concedeu o cessar-fogo, voltei ao carro. Antes de meter a chave, decidi regressar ao baldio. Nenhum pónei, vivo ou morto, por ali siderava na sufocação fátua da lua de Junho. Regressei a casa pensando no pónei vivo. Já tinha a crónica. A crónica que é, afinal, sobre ele. Resume-se a isto: é nos vivos que devemos pensar. Póneis ou não, irmãos ou não, é nos vivos. A eles devemos a sombra em plena canícula, a água no cálido deserto, o soro em hora de veia aberta, a palavra quando o óxido da indiferença (n)os arrepanha de ferrugem. Os mortos cantam, mas os vivos contam. Caso contrário, a vida torna-se tão improvável como um lugar de estacionamento num carrossel de vivos cavalitos de osso, carne, pele, cabelo, madeira.

Thursday, May 16, 2013

Rosário Breve n.º 309 - in O RIBATEJO de 16 de Maio de 2013 - www.oribatejo.pt




Felicidade é mais depressa açúcar dos caramelos que azeite dos iluminados

Agora já não, que o tomou já a calvície sem retorno, mas ele era naquele tempo de uma cabeleira lustral qual tocha de gel. O mesmo espaço esférico-cabeçal funcionava au ralenti de uma acefalia atinente ao seu linguajar pulha e à sua estroinice miseranda. Mas ela era dele assim mesmo que gostava. Isto do amor pode ter muito que se lhe repita, mas, no fundo, nada tem que se lhe inove.
Nunca lhe conhecemos o piripíri de uma ideia, o mentol de uma graça, a pimenta de uma hipótese, o coentro de uma opinião perfumada de fundamento. Invariável, inevitavelmente, o seu raciocínio íngreme estatelava-o, nunca sem estrépito e jamais sem edemas, na cloaca petrificada do guano mais endurecido. Mas que tal lho dissessem a ela mil vezes, que mil e uma e mais cem ela o queria e curava e amava e babujava.
Dele, lesmice e mesmice eram uma só e mesma coisice. Se lhe causticavam uma toleima, cacarejava todo espalha-penas com aquela estupidez indignada das galinhas-carecas quando um cachorro pueril quer brincar às cadelas com elas. Só podia, por tudo isto, ser carimbado daquele terrível apodo que é a derradeira coisa que se pode chamar a um zé-ninguém: era bom-rapaz. Não fazia mal e nunca mal fez, para ela: porque ela hipostasiava nele a essência mesma do santo, cuidada e tomada a vulgaridade piolhosa por insígnia a mais virtuosa.
A ignorância envelheceu-o em novo, como é quilate pindérico da beterraba que se julga ananás. Rangia de incompreensão à face de paráfrases simples como “Quando mais o euromerkel sobe, mais o Alcabideche”. Rábulas e fábulas de figurado sentido moral não puderam nunca adentrar-lhe o maciço granítico sobre que os antigos usavam chapéu e em cujo cocuruto os rastas de jamaicana import-imitação espessam o esterco da grenha. Mas ela? Oh se ela alguma vez outro peso de alimária quisera que lhe amulatasse a alvura!
Ele tinha dinheiro. Deixara-lho uma avó, figurinha de cera que conseguiu, chegando embora aos 94 anos, não estourar tudo em padres. Nisso, vá lá e venha cá, não foi ele burro: vivia, sem abrir sequer uma mola da roupa, dos juros dessa maquia que nunca viu sol. Disso – e das rendas de dois prédios (um com farmácia e tudo no piso térreo) sitos no miolo comercial mais nobre da Vila. Naturalmente, ela também disso gostava muito nele, dele emprenhando a tempo de salvaguardar para si o caldo e o cabeleireiro da velhice amailo um fiat-uno para cada um dos quatro moços que pariu sem dor na glória das estruturas de hélice do ADN auto-replicativo.  
Foram, é claro, muitas vezes a Fátima, mas sempre pela Marateca, à guisa de quem ruma ao Algarve da fé. Uma vez até se deram à extravagância de ir ao Complexo do Bonito, no Entroncamento, onde gozaram a boa sorte de assistir àquela memorável e dramática conquista da Taça do Ribatejo pelos rapazes juniores do União de Tomar frente aos seus não menos bravos homólogos do Alcanenense. No fim do prélio, foram os dois com sua/deles quaternária prole fedelha alambazar-se de enguias a Escaroupim, jóia de terra-água-ar de Salvaterra de Magos, por acaso até no mesmo dia em que os fotógrafos Zé Freitas e Tó Vieira por lá andavam também, aquele como de costume a fotografar passarocos e este sem fotografar fosse o que fosse por, como de costume, andar de óptica toda obturada nas gajas.
O tempo entretanto passou (que é aliás o que ele mais faz nos entretantos) e tornou-se hoje.
Ora, acontece que hoje é precisamente o dia em que mais nada tenho a dizer, portanto não digo.

Wednesday, May 15, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 16 a 20


16

Leiria, tarde de 9 de Maio de 2013, quinta-feira


É com férrea disciplina que cometo afinal a minha vida.
Colonizei todos os lugares que respirei em presença.
Cedo pouco importância até ao alude dos anos.
No fundo, não tenho medo, facto que me apazigua.
O problema, a havê-lo, estaria na urgência inelutável
de tudo escrever sem o luxo do repouso.

Postulo, por tudo isto, uma verdade pessoal e ínclita
quase. Faço-me livros de que hei veloz necessidade.
Eles acabam adentrando-me a fala, a vida social,
os nervos da flora, a ubiquidade dos animais,
a ventania que desde menino me euforiza aos gritos,
me iça aos ares frios atordoados de azul.

Não posso ser igual a mais nada, a começar pelo espelho.
Quando bebo uma cerveja em atento silêncio, sidero
a solidão gástrica e dela a vocação de entranha
labiríntica, ao fervor da sede que a aridez da esperança
implica e imbúi. Encastoo os meus ferros em oral
veludo, o que é muito para um pobre e nada para o moribundo.

Os núcleos efervescentes da minha vida têm amor dentro.
Sou um pássaro de calças sobre areias e mirtos
(e mortos também, sempre & para sempre), querida.
Vejo que toda a criança reitera a eternidade caduca.
Vejo o cão que dança de lobo dentro vigiando.
E com férreo disciplinado amor atiro pedras à água da fala.

17

Ib.


Gosto de coisas como a que ora mesmo aconteceu:
um velhote de boina que antes de se sentar
boatardou todos os circunstantes (um homem/uma mesa)
no Café da Rosa. Sim, sou de gostos simples,
como o de gostar de bons-dias, boas-tardes, boas-noites
dadas e recebidas por e de pessoas não conhecidas.

Em este Maio me pergunto quantos Dezembros serei ainda.
E se será em casa que de vez adormecerei.
A minha casa – esse país por onde traficam os meus
Amados Mortos o amor mais estupefaciente em
açúcar cristalizado e violáceo, violento às vezes.
(Sim, estou hoje capaz de verdades.)

Não percebo o aquário como não aceito a gaiola.
Mas em casota caninamente me encerro, pulguento
de tanta poesia ao mundo desnecessária mas a mim
crucial, em Língua Portuguesa de Portugal. E tal.
Sou bonito quando atiro diamantes às pombas, embora
pão seja só, de rosas esmigalhado-diamantinas perfumado.

Sim – e viva o fado. Quando músico de baile, certa noite,
adentrei o bufete no intervalo para rifas em quermesse
pró-pobrezinhos da aldeia. Lá fora, chovia gelo quebrado.
Pedi uma cerveja, que o director em função barista
me serviu com rodela graciosa de tremoços gordos
curados em serapilheira no ribeiro. E eu dei-lhe as boas-noites.

18

Ib.


O Inverno de Queluz sempre me acinzentou a imaginação.
Aquelas pessoas, sabes, a fazer de canários nos andares-gaiolas.
Que luz Queluz não pode ter, dada a taxa de divórcios,
óbitos do amor contratual com que os católicos não-
-praticantes enganam a Deus? Adeus, adeus, não
quero morar jamais em Queluz, nem no Monte Abraão,

que Rui de Moura Belo circum-escreveu como ninguém.
A minha Mãe tinha uma prima velha chamada Clementina
e muito sozinha que morava em Queluz. Nos Julhos de
primórdios de 70/XX aparecia-nos na praia da Figueira da Foz,
a minha Velhota e ela conversavam eternitardes
enquanto eu absorvia as cores mais salgadas da felicidade.

Às vezes falo de coisas assim à minha Graça,
ela não acha estranho que eu continue ao pé da Bola-Nívea,
por isso nos casámos. O meu Pai vinha de comboio
aos sábados, não sei por que terá deixado de fazê-lo,
talvez porque não dêem aos mortos dinheiro que chegue
para o comboio, que naquele tempo eram de cartão

p(r)ensado, os bilhetes da ferrovia. Às vezes a minha vida é
Queluz, outras em que luz. Isto depende dos sais,
que são mancúspias grão-cristalinas como as enzimas
mas um bocadinho menos.
No Verão, o Mar exulta.
E os Campos aureolam-se de ricos fenos.

19

Ib.


É uma espécie de transe.
Uma combustão, um quase-grito.
É um amaciar de coxas.
É como ser flibusteiro.
É lapijar a cores o mapa das laranjeiras.
E é não ter hipóteses.

Respondi exacta-sic-mente assim à pessoa
que no Largo das Forças Armadas, Leiria,
me perguntou em que trabalha o mundo
e que sentido pode haver em que ele trabalhe
e para quê tanta pomba tanta criança
tanta às vezes aflição.

Vi depois um homem todo vestido de roxo.
Talvez fosse o vinho: o meu como o dele.
Sim, pode ser aflitiva a consciência verbal.
É quanto tenho.
Se poderia ter mais?
Não o quereria.

Depois, o carro da polícia passou em frente à Rodoviária.
Um notário filatelista pediu chá de tília.
Pensei nos telefonemas que de quando em vez faço à família.
Sementes agrícolas e ceras apícolas e agonia viária.
Página em frente, trabalha muito, sê gente.
Não escreviver, morrer seria, seria ser igual só, nunca dif’rente.

20

Ib.


Um rapaz representante de vasilhames
teve à nossa frente sua quebra-de-tensão,
demos-lhe todos água açucarada
e face-palmadinhas de cristão carinho,
o moço rearribou,  é de calvície precoce,
pele tipo cor-de-sobrinho-filho-de-padre.

Depois, a Celeste, que usa e abusa daquela blusa
que lhe acarna o seio adiposo de amamentadora
profissional, quis saber qualquer coisa que não ouvi,
não me sendo portal, perdão, por tal
possível poetar seja o que for
com Celeste sextilh’ adentro.

Três-euros-e-meio são setecentos-paus dos antigos.
Há já quem consumo-minimize isso a senhoras
nos bailes-das-velhas que são
a mais admirável circunscrição
desta como de muita re(li)-
gião.

Aguardo activamente o Poema que me resgate,
qualquer coisa tipo
Os-Lusíadas-como-os-diz-Molero.
Ainda não será hoje.
Pego nas manchas de tipografia.
(Não há dia em que te não deseje bom-dia.)

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 13 a 15


13

Leiria, manhã de 9 de Maio de 2013, quinta-feira


Como se deveras tivesse sido músico,
porto em corpo a moléstia da atenção.
Cultivo no rio mesmo a serradura sideral:
se ele espelha das miríades a miopia estelar.
Vale-me o, tendo que dizer, não mandar
dizer por ninguém.  Por algo cresço ’inda.

Quebrei já muitos vidros na imaginação.
Teima em mim o infante de outro início.
E em partitura para harpa a velha chuva.
Adormeci ontem no sofá enquanto os Marx Brothers
iam ao circo emaranhar ingénuos  enredos.
A alegada Civilização precisa de Irmãos.

Volto ainda a aldeias apenas entressonhadas.
O avô e o neto extraem água ferrosa do poço.
O cão é o mesmo de quando Teixeira de Pascoaes.
E o frágil japão da geada matinal, a mesma
de quando o bondoso Wenceslau de Moraes.
Sim, estas coisas podem ser.

De limitada edição é o amor lácteo.
Começa-se pela Mãe, chega-se à Mulher final.
Panifico-me todo em óbolo de pombas,
columbina é minha ronda pela Cidade.
E duas rolas são as filhas que pude,
no gás das esferas, na noite aldeã.

14

Ib.


Quando talvez músico outror’ um dia,
mais do que saber o que fazia, eu vivia.
Ainda assim me é o expediente respiratório
na consumpção do quase semisséculo pessoal.
O meu Cunhado José Maria faz hoje, 9, anos.
Foi com a minha Irmã ao Lidl de Eiras,

apanhei-os por telefone tomando café, uma
na companhia de outro, é bonito saber tal.
O resto da manhã, vou ardê-lo na composição
destas canções, ofício que desempenho com mais
pertinácia do que talento, eu sei, mas outro
remédio me não sobra que o da contumácia

mais relapsa. Saindo daqui da Rita, vou ao
Lagoa, aproveito para atirar ao Lis o olhar
ambulatório de músicozito provincial,
sendo meu natural um coração manual.
Se alguma vez de novo em seio de floresta,
refarei de cada passada uma festa,

pois que tudo a passado passa.
O oficial dos Correios, ao lado, vozeia
caladamente as missivas por frinchas
de alumínio à face dos prédios.
Já o vi com a mulher às compras no
hipermercado da Gândara, comprou sardinhas de lata.

15
Ib.


Supina amabilidade, gentileza a mais grácil,
tudo me conforma a mulher que tenho e de quem
sou na espiral das horas que dias e anos
engessam sem remédio mas a azul-marinho.
Quebram-se-me os dentes de não lascivo desejo
quando a bom-dio, a desperto e a beijo.

De pantanas, ex-relicários, que mover me fizeram,
me não comovem já, fruto que mordi mas não
lamento, não mais & já não, podeis crer.
Procedo em paulatino crescimento, vergando as horas
como se dobrasse duros ferros em fundação de casas,
sim, trabalhei já de adjunto de mação.

Ao fervor das tripas me marulha a humanidade,
o dia chegará em que de vez se me prateiem os gestos,
um pratito de massa com carne me sustenta
enquanto vejo aquela série-reality-show dos polícias
detendo traficantes e afins gafanhotos da heroína,
lá fora o dia não abre o jogo do sol.

Ali em São Romão, uma mulher atropelou de carro
uma criança e fugiu do local, a criança morreu,
ela já foi detida, a vida não é uma festa porque
a gente abandona o local dela, imagino o que por São Romão,
Leiria, vai, ou não, nem imaginar quero,
ele há músicas que se não dança, só se chora.

Tuesday, May 14, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 6 a 10


6

Ib.

De anémonas um rosário eu possa,
ora que ’inda é hora de escre’viver.
Um cântico é um ladrar solitário,
quantos palcos de associações recreativas
venci na penumbra de anos esboroados,
tangos, valsas, fandangos & fados.

Operática nudez me convoco sem pranto,
nas salas-de-espera dos apeadeiros concebi
a inconcebível solidão moral do músico,
já então me adornava de cadernos impublicáveis,
lia com minúcia os mapas-horários,
meu era o fervor da ópera, da tragicomédia.

Coimbra, sim, mas Peniche, mas Aveiro,
mas o Caramulo com seus fantasmas hécticos,
Viseu com seu brasiledo de putas,
a por vezes inumana (inumada) Lisboa,
pensões de cinco tostões cuja humidade
fervia peixes frigidíssimos de agora-que-me-será-?,

fecho os olhos, canto (tom e meio sobre a linha melódica)
a Montanha, a Lua Fanal da Montanha,
canto a Grande Rapariga de Prata no Tempo,
canto a poliglotia dos animais mais mudos,
só não canto o quanto uma pontada de desespero
pode furar coração adentro um desejo simples.

7

Ib.

Quem ainda trabalha no meu ex-negócio é
o José Cid, coitado. Compreendo-o bem,
é afinal um português que gosta de cavalos
e de falar de D. Sebastião, o cachopo realengo
que se foi fazer ferrar a África. Falei
uma vez com ele – o Zé Cid, não o Sebastiãozito.

Fora & tirante o Cid, não mantenho grandes ícones.
Talvez o Conjunto Maria Albertina.
A Hermínia Silva. O Max da Madeira.
Um pouco de Händel, concedo.
Uns pós de Vivaldi na sensibilidade, vá lá.
E Paulo Frederico Simão do Bairro das Rainhas, NYC.

Tudo quase quanto hoje sei, é onde há pombos,
pombos e laranjeiras e cabeleireiras sós
como peúgas desirmanadas em marquises,
troco às vezes a serenidade por uma botelha,
uma botelha daquele bagaço que sabe a evangelho
todo cagado dos pombos.

Verdade é, também e porém, que isto tudo deriva
da habit(u)ação: às marés terrenas sufragadas
pelo vento de música dos bailes da mocidade,
quando eu era para não ter sido, não ’inda,
uma calota polar do que se junta, janta &,
irrefragável, se dispersa – cinzas quase tudo.

8

Ib.

Delego na memória fabril o febril produto,
que operário sou da articulação dita,
que não falada, da indústria poética.
No Largo do Cónego Maia, Leiria, anos-ora-depois,
Inscrevo a sombra confessa do meu Inverno,
o meu portátil Inverno de rapaz português.

Sou, em verdade mo repito & crocito, um órfão.
Tenho uma experiência venatória, pelo lado
do gamo. D. Fuas Roupinho não m’ enjeitaria.
E do meu tempo de infante pedonagem
reservo a pedraria viva de gafanhotos, sardaniscas,
ouriços, raparigas lácteas, primeiro desejo

de ver o universo em verso.
Evoco às vezes um vocativo que não há,
como se em palco de associação recreativa
me dirigisse em rogo a um público
de namorados zundapp-motorizados
e costureirinhas perfumadas de bolacha.

Quan/d/to assim escrevo, deponho. Não é o mesmo
que enlouquecer – não ainda, minha linda.
Eu sou do Verão de 78, da Primavera de 74.
Mas também do Mondego, que o Pavia e o Lis
me repetem em aquífero eco.
Não me quero par de qualquer badameco.

9

Ib.

Cantei uma vez a solo, andava adoentado o cantor.
Desempenhei-me na função como canário tristímano.
Uma mulher dentre a assistência quis saber mais.
Não havia telemóveis na altura.
Quando me apareceu com um copo de Dimples sem gelo,
Agradeci-lhe, primeiro, questionando-a depois

se era mordoma de alguma festividade religio-fogueteira,
dessas de aldeia que Agostam a portugalidade,
disse-me que não, que gostara de me ouvir cantar,
que se eu compunha,
disse-lhe eu que ainda não,
que só em Maio de 2013

me atreveria a compor um Baile mas Sozinho,
redarguiu-me ela, em aquiescência, que sim,
que compreendia, que às vezes se sentia sozinha
entre tanta pomba e tanta laranja,
& que sentido é haver por aí tanta ourivesaria
e tanto cantor e tão sozinho dela ser o dia.

Isto não é verdade. Nunca aconteceu. É só um livro-só.
É apenas como se eu tivesse integrado o Trio Odemira.
E só o Bailinho-da-Madeira em quádruplas sucessões
de sextilhas em estilhas verbais.
É só um ter-nascido-e-já-sido.
É não saber mais.

10

Ib.

As linhas cantadas atiram lírios aos pés descalços
que a alma usa quando a desnuda a música.
Senti vivamente isso em certos desempenhos bailadores,
quando o conjunto menos era movido pelo dinheiro
do que pela urgência de partilhar a chaga-viva
da rima tónica, em C-cortado, tipo slow.

Outra coisa são as linhas contadas.
Essas que em família soliloquamos nos invernos.
Essas que nodulam (ondulam) a garganta à saída de casa
para a vida definitiva, essa morte da canção,
vê se me percebes, vê
pelo menos se me ouves.

Recordo entre bailes
(entre livros, sobretudo)
certo hepático cavalheiro
cuja amarelidão traía
muito granel de aguardente
e muito hectare de tabaco acre.

Era Serafim:
a mulher traía-o.
O bairro via-o (e, casquinho, escarnecia-o).
Não nascera amarelo. Foi fugazmente, por bebé, até belo.
Gostava da música que a gente fazia,
mas no fundo só queria tão-só companhia.

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 1 a 5


BAILE SOZINHO
ou
O INVERNO DE QUELUZ





Talvez entre o amor e o mundo haja uma chaga pior – a memória mortal.

HERBERTO HELDER, in Doenças de Pele (apud OS PASSOS EM VOLTA)


De 30 de Abril de 2013, terça-feira,
a 14 de Maio de 2013, terça-feira


1

Leiria, noite de 30 de Abril de 2013, terça-feira

Em invernia antiga, uma vez em aldeia
de que não guardo o nome, chovia
debilmente través a pouca luz
pública, a noite vinha armadurada
de veludos frígidos, cheirava das casas
a caldo e a cães e a mato.

Dormiam já os animais maiores,
já os humanos seniores dormitavam
sentados à face do brasido, eu não
tinha aonde entrar, esperava que me
viessem buscar, tinha tocado no
conjunto que deu baile, tudo acabara.

Muitos eram os quilómetros a cumprir
no regresso a Coimbra, músicos éramos
quatro mais a noiva do baterista,
que era bonita e estudava então
para enfermeira ou professora, não
guardo bem o que me não pertence.

Fomos desenrolando a fita preta
da estrada, não havia então icês
nem tanta auto’strada, eram beirãs
as curvas apinhadas de pinheiros,
não nos largou a plúvia até ao Café
do Silva, onde libávamos o fim do contrato.

2

Ibidem

Levantava-me cedo ao outro dia,
que não sei já qual, refeita a manhã.
Se no sincelo atentava, gostava daquele
vidro ge(r)ado sobre a flora simples
da Cidade: planava sobre essa arte do
cristal chamada Frio.

Tinha algum dinheiro no bolso quando
o cantor pagava, era ele quem tratava
do metal não assim tão vil, naquele
tempo em que comer uma sandes e
beber café-com-leite sabia à música
que se tinha tocado num salão recreativo.

Retomo uma dessas manhãs de invernias
nessa Coimbra desses acabados dias:
saía muito cedo da cama, muito cedo
do quarto arrendado ali perto de S. José,
nada longe do Liceu onde me preparei –
para ser só isto.

Outro trabalho não tinha nem procurava.
Dava pontualmente explicações de francês
a meninos capciosos que queriam era
ser músicos como na televisão viam eles
que havia, e tantos. Mas trabalho-
-trabalho, não tinha nem demandava.

3

Leiria, manhã de 1 de Maio de 2013, quarta-feira

Com discrição era que devagar olhava
os silfos aéreos terrenamente ditos
Mulheres, vaporosos génios de que Coimbra
é tão profusa, tão fornida.
Ubiquista quase fui e decerto me senti,
sem magia e sem anátema.

Foi de certo modo um tempo perfeito.
Havendo por certa a morte, a vida
parece uma prenda fora do aniversário.
Outras vezes, todavia, cruzando pela
ponte diagonal do Calhabé para o Norton,
o absurdo ganhava transporte por meus pés.

Quando fui músico para comer, comia
também das muitas laranjeiras que havia
por aqueles pátios ferrugentos onde
casotas desertas chamavam em vão
por cães antigos e donos que já não
eram, viúva marquesinha, viúvo conde.

Cheguei, claro, a falar sozinho, praças
e ruas por meu auditório o mais
surdo. Chegado o Natal, tremiam
as gambiarras em os pinheirinhos
de plástico para os matrimónios sintéticos
& suas crias de celofane.

4

Ib.

Transido transito ’inda, em pleno Estio mesmo, pelo trânsito
de imagens desse tempo músico. Ensaiávamos num anexo
de ferramentas que pertencia aos pais do pianista,
era perto daquela via de S. João que leva
à Portela, à Lousã, a Espanha, ao Mediterrâneo.
A mim nunca me levou, valha a verdade.

Penso que o António Nobre por ali refrescou
ante uma criança a gentileza de papoila
(vermelho tossido de héctico, fatal cor).
Sá de Miranda, Camilo Pessanha, Eugénio de Castro,
Camões até, podem (devem) ter sabido
onde ensaiávamos, perto o Mondego claro.

O cantor e eu íamos depois aos bilhares,
o guitarrista era já casado então,
o baterista morava mais longe e não podia,
o último comboio levava-o para os campos de arroz
que as cegonhas regiam como fadas vorazes,
dessa voracidade lenta de que o amor é feito.

E se hoje isto recordo e assento em letra de canção,
é por hábito imorredouro, eu fazia a segunda-voz,
tom e meio acima da linha do vocalista,
ficava bem, as pessoas gostavam, pelo menos dançavam.
Íamos aos bilhares, conhecíamos raparigas,
algumas por vezes ficavam, por festa.

5

Leiria, tarde de 8 de Maio de 2013, quarta-feira

Muitos anos são volvidos já desse (m)eu-corpo,
ainda canto mas em surdina só, e cambaleada,
por ruas & praças de cidades acumuladas,
outras de si mesmas, como mesmas e outras são
as jornadas em salmoura de literatura,
nem outra coisa me surge que isto de escre’viver.

Procuro talvez tão-só a serenidade, não importa
que mais do que ela cinzas coleccione, pouco
é deveras o que ainda importa, uma saúde
razoável, moedas para cigarros e refrigerantes,
algum trabalho de vez em quando que eu possa,
saiba e queira fazer, sim, pouco importa.

Gostaria ainda, claro que sim, de ser olhado pelo mar
no Inverno, quando os penhascos se apalaçam
à monarquia de gaivotas & albatrozes, caiado
de sal e juncado de naufrágios equivalentes
aos despojos das vidas, quais vidas?, todas elas.
(Ou quase todas elas, há casos que felizmente não.)

Em poucas meias-dúzias de anos, os leitores
chegarão à foz do espelho terminal no Inverno
de Portugal, país que a infância soube perder
por todos os lados menos pela Língua, os leitores
terão frio, não será já amanhã nenhum,
entretanto penso no Baile que toco sozinho.

Thursday, May 09, 2013

Rosário Breve n.º 308 - in O RIBATEJO de 9 de Maio de 2013 - www.oribatejo.pt




Alegoria apícola

Nada perdura que humano seja.
Brilhantes terão sido as empenas das hoje áridas Pirâmides do Egipto. Da imortalidade a que se propuseram, areia ficou só, que permanecer não há-de.
Tirante esta melancolia, permiti-me Vós que Vos narre certa teimosa perduração de que o muito outonecer da vida me faz presença, gala e abespinhada teimosia. Foi quando o Carlos “Minhoca” da Fonseca gozou sem ofensa o bom Augusto Abreu.
Passou-se isto num Inverno benévolo de há coisa de vinte e picos anos. O Augusto tinha ajudado o filho a apossa-trespassar-se de um café-restaurante dedicado a refeições operário-diárias. A malta frequentava aquilo à noite, extintas do expediente as obrigações horárias. Tinha outra coisa, o Augusto Abreu: era homem de virtudes d’antigamente, daquelas virtudes que sabem o valor da horta, a beneficência da árvore de fruto, o tesourinho do porco d’engorda, o quanto para comprar uma lareira conta o salmourar da sardinha em caixa de sal com fundo de feto roubado ao pinhal. Era um homem que se interessava, pronto.
E, pronto, o Carlos “Minhoca” da Fonseca não quis outra vítima que Augusto, agravado de Abreu, se não chamasse, nesse Inverno que nem eu nem Vós reviveremos.
Disse assim o “Minhoca”, como quem não quer a coisa:
– Palavra de honra que achei estranho a mulher só me ter pedido 500 paus por um pote de dois litros de mel do purinho.
Eu nada disse: porque sei bem mais de minhocas do que de apiculturas. Mas o Augusto Abreu (bom homem, pai de seu casalinho, maridinho de sua esposa varizenta & cultor indefectível de seu quintalinho sem ferrugem nem caracol fumigado) caiu que nem um estorninho em visco armadilhado com anzol de silveira:
– Ó senhor Carlos, o senhor desculpe mas isso interessa-me muito. Eu fico com dez potes, se o senhor me der o número de telefone da senhora.
E o sacana do “Minhoca” assim:
– Dou-lho com todo o gosto, senhor Augusto, mas vai ter de esperar dois anos pela encomenda.
E o pobre Augusto assim para ele:
– Dois anos?! Então porquê?
E o mau: – Pois, dois anos porque a senhora de momento está a trabalhar só com uma abelha.
Ora, isto do trabalhar da solitária zunidora e da ilusão da eternidade tem tudo a ver com o mesmo, digo (ou bebo) eu.
E de potes, notas de 500 à Alves dos Reis, minhocas, abelhas e coelhos percebo eu.
E também muito de pirâmides, que mortas estão mas continuam a apontar para o céu como os imbecis que ainda se admiram de ver passar aviões que de Bruxelas, ou de Berlim, nada mais trazem que perdure senão a inelutabilidade da morte e a porquita miséria a meio conto de réis o pote.

Thursday, May 02, 2013

Rosário Breve n.º 307 - in O RIBATEJO de 2 de Maio de 2013




Dou-te uma filia se me deres uma fobia

Não somos um país pobre. Somos um país de pobres. São coisas muito diferentes. Pobre é quem não pode. De pobre é de quem não quer. E de quem, portanto, não crê.
Nenhum país de gente a sério seria capaz de empobrecer vitaliciamente com todo este mar à janela, todo este solo tão generoso à porta e todo este clima como idêntico outro não há em quintal geográfico algum. Também somos um morredouro de pobretes parvo-alegretes. Exercemos sem pudor e sem consciência a paradoxal idiotia de, não nos lembrando de quase nada (olha a História, estúpido!), pedestalizar a honras de palavra-pátria o substantivo “saudade”. De anfractuosidades dentárias pejadas de broa rilhada e de jaquinzinho moído a cuspo, ouvimos o fado como quem se injecta de vinagre com açúcar amarelo. Mais (e pior): somos quase todos hibristófilos, paranóia derivada da mariquice a que os ratolas dos psiquiatras chamam coulrofobia. Abrindo o livro:
1) “Hibristofilia” é a veneração doentia por alegadas celebridades, da Maya charlatã ao Marcelo leitor de capas de livros, do histriónico Baião ao bacoquismo separatista dos mútuos clones Alberto João/ Jorge Nuno, do papa novo que antiargentinamente corpuscristou a hóstia nas fauces do genocida Videla ao casalinho-é-não-é-agora-sim-daqui-a-bocado-anavalho-te-o-plasma Djaló/Floribela, que deveriam ser presos ambos por terem baptizado as filhas com nomes de posologia farmacêutica em tailandês. Sim, somos hibristófilos, não há que abjurar.
2) “Coulrofobia” é ter miúfa/cagufa de palhaços. Ora, ter medo de “clowns” será próprio de crianças hipersensíveis criadas por padrastos dados à bissexualidade, à cocaína e ao sonho de ter um monte alentejano como os que aparecem sempre nos inquéritos de Verão do Expresso, mas é impróprio de um povo adulto com quase 900 anos de História como o Manoel de Oliveira. E votar neles é ainda pior, porque indesculpável não é o erro, é o repeti-lo tanta vez, porra.
Eu não quero saber para nada dos imbecis dos Islandeses, essas bactérias criogénicas que parece terem vo(l)tado a empoleirar no poder os mesmos facínoras de direita que lhes comeram as casas, as filhas e a arquibancada central de assistir àquele cabrão de vulcão lá deles que mata frotas aéreas como nós por cá varejamos moscas. Eu quero saber é dos Portugueses, essa heróico-pícara grei de tremoç’ó’pevid’amendoim pinoquialmente capaz de um Sócrates e soporiferamente incapacitada de um Excel-lento Gaspar, que eu nem a um nem a outro empregaria como irmanador de peúgas num asilo de pernetas.
Extinto o cambalacho das nóvóportunidades, que nos resta senão os velhos fiascos? Os sem-abrigo agora têm todos (pinoquialmente etc.) o 12.º ano, diploma que ainda ninguém me provou estar na posse do Miguel R. (R de “raposa”). Ai têm o 12.º? E agora? Vão licenciar-se em quê? Em Instalação & Detonação GPL num Multibanco Perto de Si? E doutorar-se em que semântica executivo-operatória? Em Carjacking Romeno-Angolano a Crédito-BPN?
Tende cá paciência, ó parvo-alegretes. Paciência e prestidigitação: encarando Portugal como cartola, seríamos todos mágicos, mágicos a ponto de a primeira coisa a fazer sem mais delongas consistir em tirarmos o Coelho da Cartola, não sei se estão a ver, nada na manga, ó manguela. A seguir, perceber de vez que o euro não é moeda unitária nenhuma, é mas é o lobo do marco alemão com pele de cordeiro a imolar na mesma ara sacrificial de onde começaram duas guerras mundiais para os inumeráveis (mas enumeráveis) milhões de mortos e estropiados do costume.
Finalizo concordando a priori com tudo quanto, a este e outros propósitos, Cavaco não pensar – e acusando tudo quanto ele não disser, que eu pobre ainda posso ser, agora coulrófobo é coisa que nem a minha tia, quanto mais o pai das minhas ricas filhas.