Monday, April 29, 2013

RIO-FLÚX - 15




15

Leiria, entardenoitecer de
29/IV/2013, segunda-feira

MUNIFICÊNCIA, A INOMINÁVEL

I

Saiba o senhor que chegando Abril, depois Maio, isto do mundo me parece tudo, digamos, uma munificência, quase um motivo cada coisa para euforia.

disse-me o cavalheiro com que eu sempre apenas troquei os bons-dias no Café da Rita. Sorri-lhe à munificência em jeito de, digamos, aquiescência.

II

Amanhece quando as coisas começam a deixar de ser vidro, quando voltam a ser porosas, destrutíveis.
Anoitece quando a hialurgia retorna a reino –e por todo o lado a magia é finalmente humana, isto é, finalmente entregue aos bichos.

III

Aos bichos
da sede.

IV

Sábado passado, pelo entardenoitecer, eu fumava à varanda um cigarro cujo fumo, como eu, esperava qualquer coisa inominável. Talvez fosse música o que cigarro e eu esperávamos. A música veio. Veio merendar comigo. Era a primeira das minhas filhas.

V

Agora toco os objectos com mais simplicidade – como se eles fossem um piano que os anos tivessem tornado humilde, acessível, cordato quase até. A mesa do Café, por exemplo, que é de alumínio reforçado da cor de certas invernias pintadas nos manuais da Primária para ilustração das estações do ano. Outro exemplo, o caderno, que me faz a companhia glauca dos espelhos de papel – e em que o meu rosto pode exercer a idade que quiser, pois que querer é fingir que se quer. E se crê, como eu não creio, nunca cri.

VI

Foi-se embora o Senhor Munificência.
Já a Rita procede à limpeza do estabelecimento.
Sou o último cliente.
As vezes na vida que o tenho sido, c'um caraças.

Sunday, April 28, 2013

RIO-FLÚX - 14








14

Leiria, entardenoitecer de
28/IV/2013, domingo

ESPÓLIO

I

Uma mulher diz:

– Eles falavam sempre um com o outro, eu não os percebia, acabava por adormecer, acordava sozinha, já o meu tinha saído de casa e nem sempre a noite mo devolvia.

A outra mulher faz que sim com a cabeça, entende-a bem, o suficiente para nem aventar um arremedo de consolação da amiga. Está grávida, tem mais de quarenta anos, não sabe se há-de chorar ou se há-de chorar.

II

A penumbra instala-se em câmara-lenta-e-muda, carvão em pó o mais fino, farinha de carvão, pública cegueira de uso privado. As árvores alastram, a mancha delas toma conta das águas múrmuras. E o saibro é crespo, canta estaladiçamente no calfe dos pés peregrinos. Ou fugitivos.

III

Um dia, não já mas não remoto também,
restolho de papéis será o espólio:
sombra de idas sombras,
bálsamo não demandado,
nem resto nem rosto já. 

IV


Um Cecil Trevor Broom de há cem anos à porta de uma estalagem de mala-posta depois do desjejum. Choveu muito durante a noite, a estrada é um arroio de lama que se vai enregelando devagar. De pé, a um passo do pórtico, Broom fuma a cigarrilha dominicana. Pensa no que conversou com o sócio Ralph Neville McPherson, o mais leal dos seus amigos, talvez mesmo o único Amigo. Nem por sombras (sombra de idas sombras) pensa na mulher. Na de McPherson sim, pensa. Está grávida. E isso fá-lo sorrir na penumbra da manhã, espólio do século.

RIO-FLÚX - 13 (agora completo)




13

Leiria, 28/IV/2013, domingo

IMPORTÂNCIA

I

Sou um homem. Ou não. Ou ainda não, talvez não ainda. Sou um dos homens. Ah, assim sim. Um dos. Nem a gilete me distingue de todos quantos outros. É verdade que me exilo quando escrevo. O onanismo literário não é pecado – é só o processo de consumir o Tempo das pastelarias, quando o domingo enverga o peplo merencório. Entre homens do milénio estreado há pouco, parecendo todavia já que há tanto. Se era afinal para isto o nascimento? Por que não, aliás?
Sou o terceiro na fila da registadora para pagar o café e o pão. É de malares limpos, a caixeira que recebe as moedas e, qual fada de salário mínimo, faz soar o sininho da gaveta devoradora de cobres. Já a vi na praça, acabado o turno. É quando solta o cabelo, trocadas as chinelas brancas (como as das enfermeiras aposentadas) por botas de amazona sujeita a transportes municipalizados. Se calhar, toca clarinete na filarmónica da vila onde a segunda-feira da folga é uma eternidade reiterada pela cal do muro cemiterial e pelos velhos sentados no rebordo do fontanário extinto esperando-a, à eternidade. Colecciono cães imaginários que roem os ossos da infância.
Nada é de grande importância.

II

Escrevem os calhamaços por receita, metem-lhes umas cena de sexo para voyeurismo das divorciadas que os compram nos hipers e nos cêtêtês, comentam merdas nas televisões – e assim vamos todos andando abóboras cinderelas à espera da carruagem da meia-noite, três ratos numa panela/outros três num alguidar.

III

Ao calafrio/arrepio de ontologias antológicas, no antípoda de baixo como de para cima: bela maneira de passar a tarde, quanto menos não seja e mais não for. Como este cavalheiro, muito cívico em sua solidão tipo fato-de-treino-dos-domingos, muito bucal de um mau hálito a papel-selado e maneiras vinte-e-cinco linhas vincadas na longitudinal. Chega a ser comovente a evidência do poço tão vão que é no concernente às necessidades afinal mais básicas (o m. q. excruciantes) da vida, i. e.: um pouco de Vivaldi (embora, é claro, Lester Young), as recordações desenfreadas a meio da fala que alguém nos tosse ao rosto, o sabor a outra coisa da água bebida numa cidade onde se não nasceu mas em que é possível morrer – e a possibilidade de morrer agravada pelo desejo de renascer lesto e jovem, ou Lester Young.

IV

O sem-abrigo. Deram-lhe um pão que era para as pombas, não tem mal que um pouco ratados os três – o pão, quem o recebeu e quem o deu.

V

Nem sei que haverias tu de querer mais, se alguma coisa e que coisa, afinal há chá e bolinhos, de canela uns, de noz outros, de manteiga açucarada todos. A verdade é a verdade não ser precisa: nem de necessidade (ou obrigação) nem de acuidade (ou precisão).

VI

Além, entre este caderno e o Rio (flúx, ambos), um rapaz careca com uma mulher vermelha. Ele fotografa postais trivibanais da Cidade, ela vai andando. À noite, ela não anda – alterna. Já deu para ter com lhe comprar a Nikon.

VII

Vai e volta com o vento o olhar as coisas.
Só não é o mesmo, quando ao sítio volta,
o sítio de que com o vento se deixou ir.

Há uma mensagem nisto, mas desconheço
que cifra a emaranha e me a torna
irresgatável. Tenho de volver-me coisa

e ser olhado de eólica mente.


RIO-FLÚX - 13 (I) - domingo, 28 de Abril de 2013




13

Leiria, 28/IV/2013, domingo

IMPORTÂNCIA

I

Sou um  homem. Ou não. Ou ainda não, talvez não ainda. Sou um dos homens. Ah, assim sim. Um dos. Nem a gilete me distingue de todos quantos outros. É verdade que me exilo quando escrevo. O onanismo literário não é pecado – é só o processo de consumir o Tempo das pastelarias, quando o domingo enverga o peplo merencório. Entre homens do milénio estreado há pouco, parecendo todavia já que há tanto. Se era afinal para isto o nascimento? Por que não, aliás?
Sou o terceiro na fila da registadora para pagar o café e o pão. É de malares limpos, a caixeira que recebe as moedas e, qual fada de salário mínimo, faz soar o sininho da gaveta devoradora de cobres. Já a vi na praça, acabado o turno. É quando solta o cabelo, trocadas as chinelas brancas (como as das enfermeiras aposentadas) por botas de amazona sujeita a transportes municipalizados. Se calhar, toca clarinete na filarmónica da vila onde a segunda-feira da folga é uma eternidade reiterada pela cal do muro cemiterial e pelos velhos sentados no rebordo do fontanário extinto esperando-a, à eternidade. Colecciono cães imaginários que roem os ossos da infância.
Nada é de grande importância

Saturday, April 27, 2013

OS ÚLTIMOS ANOS DE TODA A GENTE - 24 a 29




24

Leiria, 5/III/2013, terça-feira



De volta ao mundo breve, caneta na mão direita, cigarro na mão esquerda. Perto, fala-só, aquele de blusão nácar-ostra que a droga maluqueceu. Tem uns phones enterrados nas orelheiras. Hoje tem tabaco, não anda a cravar. Vive com a mãe num andar próximo da galeria da Rita, onde escrevo para ninguém (quase).
Que me trará o dia?
Que levarei à noite?

25

Ibidem



As mãos daquele homem: flores-aranhas petrificadas.
Os olhos daquela mulher: berlindes sérios no azul.
Um menino brincando no passeio: cabrito-montês sem monte.

26

Ibidem


Era então que as mãos eu depunha ante teu altar
As mãos que à boca me escavam palavreados
Uma vez na Maceira, eu sozinho como um cão, eu

27

Ibidem


Estava frio ontem, consolava-me porém saber que
frio não sentiam nem passava na terra os
meus amados mortos, dormindo sempre eles,
agasalhados de raízes e podridões supuradas.

28

Ibidem


Olha-me olhando-te: perpétuo flash
enquanto há tempo.

29

Ibidem


Sufrago-te, Ermelinda, saudáveis votos.
Afago-te, Graciana, mil composturas.
Não sei, Rosa-Josette, por que tal marido aturas.
Vem daí, Maçã-do-Monte, limpar-me esgotos.

Maluqueço, Joselito, devagarinho.
Vem comigo a um copito de branco vinho.
Escrevo muito, digo tão pouco, velho Raimundo.
Abel, velho comparsa, sempre iracundo.

Sozinho como um cão, consciência adentro.
Conheço todas as margens mas nenhum centro.
Sou um corpo de vidro meio, meio de pedra.
Muito mundo emurcheci, muito porém ’inda medra.

Olha, Adão Mastor, olha-me bem esta cidade.
Toda a avenida é de vida em liberdade.
Toma-se um café antes de morrer e pouco mais.
Dez milhões de pobrezinhos, outros tantos portugais.

RIO-FLÚX - 12 (I) e 11 (I e II)


12

Leiria, 27/IV/2013, sábado

DIADELO

I

Posso ter quase tudo. Basta não querer. Na manhã que sucede a uma véspera apagada, por exemplo. É agora, a luz é total como o céu. Céu é não haver detalhes: é  tudo de uma só vez a uma só voz. E em azul, o que sempre é bónus. Há horas que espero as pombas. O arroz que trago na algibeira dextra ainda as não mereceu. Eu sofreria mor placidez se elas viessem agora, permitindo-me escreviver sem pen(s)ar tanto nelas. Passando à fase seguinte do sonho. Do sonho – ou da espiral. Não tenho grande coisa porque me encontro em estado de querer. Quero uma ou duas pombas no passeio em frente ao Café da Rita, dar-lhe(s) pão e arroz, integrar a cadeia alimentar, o ecossistema, o formigueiro retributivo. Para adiar (ou aliviar) essa querença, trabalhei um pouco já no Caderno Verde, objecto celulósico em que inscrevo palavras que ou me hão-de ser úteis ou acabarão por morrer-me. ECÚLEO. CONSCRITO. DIADELO. FLAGÍCIO. HIPERDULIA. INÓPIA. ORNATO. A haver problema, o problema está em as palavras precisarem de um corpo para ser. Um corpo que as seja. Sem corpo, as pessoas são só palavras. E sem palavras as pessoas são só a falta do não-querer, são só a impotência.

11

Leiria, 26/IV/2013, sexta-feira

FORMIGUEIRO

I

O mistério da vida da formiga. Não parece individual, tal existência. Parece que o único sentido é o formigueiro. Não é assim, em Poesia. 

II

O Mandador dos Céus procedeu hoje ao encerramento dos ditos. Manhã e tarde fechadas como punhos não solidários. A sexta-feira rodou às cegas como um boi perdido numa lezíria só de cinza.

Friday, April 26, 2013

RIO-FLÚX - 10

Leiria, sobre o Lis, 21 de Abril de 2013




10

Leiria, 24/IV/2013, quarta-feira

COLÍRIO

I

Voltaram as jornadas quentes. Dizer jornadas é dizer fornadas. Por quanto é vista, dá-se da flora a pujança, a furiosa alegria da cor ao ar. Tudo propicia o quase entendimento do para-quê de se ter nascido. A terra bebe quanta água pode, retribuindo em alimento e oxigénio. Os animais aderem à contracena da contraluz povoando o fresco das sombras, saciados de açúcar solar. Isto da vida: esta orquestra que ela é em fervor. Bailo devagar a seu compasso. Isto é: respiro com os gestos. A harmonia é legível. E o de Leiria é o mais bonito dos castelos de Portugal, peço perdão mas é. Quando a casa voltarmos, o meu Irmão Fernando e eu hemos de avançar beira-Lis. Pais jovens com suas crias juvenis veremos que auferem o licor etéreo do pré-Verão. Como feridas boas e brancas, nuvens suspendem o azul muito puro. Há toda e mais alguma razões para crer, seja no que for, sem recorrer à esperança. A esperança é a usança da espera – a evitar, portanto. Mais tarde, quando o crepúsculo tomar todos e cada um (um por um, sem falha nem remissão), a hora será de esvaimento – como é de lei & Natura.

II

Recordo certo instante vespertino, voltava eu de Aveiro ou de Oliveira de Azeméis, não estou certo de onde já.
Viajava sozinho no meu carro.
(Sim, já tive um carro.)
Dei por mim ante um vale maravilhoso.
O Sol parecia subi-lo.
A vegetação era viva de animais minuciosos.
Detive a marcha, suspenso de tanta maravilha.
Recordo isso agora, não sei por nem para quê, enquanto com o Fernando espero que o chamem para a consulta de Oftalmologia.

III

Cavaleiros frúem a fresca álea a manso trote.
Os alazões são de uma nobreza maviosa.
Em V, duas encostas da serra dão-se em decote.
Uma fonte canta cristal sem que se note
tristeza ou euforia nas voltas dadas ao mote.
Respirar é uma arte deliciosa.

Vamos rumo a oeste tecendo loas
à bolina da brisa que, zéfira, é favónia.
Ver com a mente faz bem à cachimónia.
Aquela é Albertina, a outra é Lurdes; vão c’Antónia
beber chá frio e comer as doces broas.

Compressa de bons campos, a velha Cidade
parece remoçar-se, ladina qual pardal.
Deriva-se por ela em andor de Portugal.
O passo é leve e lento em liberdade.

Sou por vezes agraciado de sonhos cuja simplicidade
chega a ser movente, comovente – e tocante.
Ontem sonhei, veja-se cá, com bacalhau.

Despertei sorrisonho, o que não é nada mau.
Refrescado, de atavio aprumado, dei-me levante

e fui à Rita, que serve a melhor bica da Cidade.

IV

Às imagens do mundo acresce o vidente.
O nada não é a ausência das coisas mas
a do sujeito.
Não é, ainda não, o nosso caso, valha-nos isso.

À orla litoral uma quase-alegria do corpo.
O iodo penetra as frinchas do estar-em-ser.
Se feminil figura lacra a luz o passeio marítimo,
então o caso é mirar com educada discrição
a gino-estesia patente andante adiante.

Regueifada de boas chichas, Maria Eduarda
adentra-me, lípida & boazonamente, o campo visual.
Foi ninfeta outrora. É ora matrona.
E, como disse, boazona.

Puxa-me entretanto a obrigação para casa.
Espécie de doce fadiga me torna seda a pestana.
Hoje, francamente, nem vou com o grão-na-asa,
tenho-me portado bem toda a semana.

V

Lacrimeja colírio a arrependida,
beija em delírio seu saudoso.
Foi escolha dela, o ter esta vida.
Regressa ao futuro o passado danoso.

É de mamas moles e palavras duras.
Não é má pessoa, a vida é-lhe avessa.
Enfuna o decote, assim tipo condessa.
Mas chora no escuro ’mas mil amarguras.

Chama-se Yvette, o que não ajuda.
Tem quatro afilhadas, mas co’ elas não fala.
Vive mais na cozinha, sem visitas na sala.

Namorou-se em tempos de um sargento casado
que nunca a estimou e a cobriu apressado.
Amanhã vai para um lar. E já fez a mala.

Thursday, April 25, 2013

Rosário Breve n.º 306 - in O RIBATEJO de 25 de Abril de 2013 - www.oribatejo.pt




Brava maravilha

Sepultei o meu Pai no exacto dia em que a Revolução dos Cravos fez vinte anos. Ambos mortos a essa data, revolução e ele. Tinha então a primeira das minhas filhas quatro meses e oito dias: a transmissão estava em marcha.
Um Pai não morre – os filhos é que se perdem dele. Deve-se isto ao facto de a morte ser apenas deixar de estar, não deixar de ser. Creio nisto. (Sim: não apenas descrenças me animam, da vida, o mote e as voltas.)
Dezanove anos são ora cumpridos sobre esse dia em que não choveu. Há um ano, portanto, que é maior de idade a minha orfandade patriarcal: já pode votar. Tenho sido bom eleitor: perdi-me da minha Mãe fez este Março dois anos. Nascera-me todavia entre os dois óbitos uma outra menina: a transmissão seguia (e segue) marchando. A vida pode ater-se; a vida pode conter-se – mas nunca se detém. Brava maravilha é que assim seja.
Escrevo estas linhas a um domingo. A longa ferida do Inverno parece sarada. É pelo cair da tarde. Pouca gente por ruas e praças. Há mais pombos do que pessoas. Um que outro cão vadiando pela temporalidade desertada como filósofos existencialistas de cunho católico à la Gabriel Marcel. Tenho moedas, vou ao Café da Rosa poetar as minhas crónicas patetices decassílabas. Em casa, a mulher penelopa a miríade têxtil do bordado aceso: sou dela o pretendente único, Ulisses de viagem nenhuma. (Alguém vomitou no fontanário de que já não mana a água que era de todos. Por onde congestion’andará a cirrose desse anónimo roxeador de fontes em pedra?)
Já a noite urde (arde) aos poucos a sua autoridade invencível, já dela o manto pipila estrelas de robe de mágico. Como aparado crescente de unha, já a velha Lua se faz numismática no argênteo firmamento. É tudo (ele)mental – sem ansiedade, sem esperança, sem dívida e sem remissão. É tudo muito bonito, também. Arrefeceu.
Sim, também o deserto é formoso. Sabes, aquela areia em ondas como o mar em dunas estriadas à espuma do vento, à escuma dos dias/anos/décadas, não tarda séculos, um que outro milénio como esses cães por essas praças e ruas vadiando, existenciais, o domingo.
Nenhuma quimera e nenhuma utopia. Onde foi a retrosaria, é hoje a agência bancária. Onde a livraria, hoje uma seita-maná qualquer. Onde a infância, hoje esta ferrugem úrica nas dobradiças de rachada cartilagem. As filhas crescem-me, porém.
Leva-me (ou traz-me) esta derradeira verificação, em nave (ou neve) do Tempo, à antevéspera do passamento do meu Velho. Levara-o eu ao hospital. Já a terminação lhe esbofeteava o semblante: era como um cego sem lotaria que apregoar, quanto mais vender. Deitado no lençol impessoal tatuado a carimbo (H.U.C.), regougava ele, como um cisne de asas quebradas, a respiração muito afadigada. Olhei-o muito, que me não via. Tinha os lábios causticados da febre de tantos anos terçãos e malsãos. Tinha a boca enlameada a branco do pó de tantos comprimidos sem remédio. Tirei-lhe a placa, fui lavá-la, remeti-lha na boca que já não dizia o meu caminho. Olhei p’la janela da enfermaria (enfer, Marie!) como ora olho as linhas que lhe/vos escrevo. Precisei de ir-me embora. Baixei-me ao ouvido dele, disse-lhe: Pai, amanhã volto. Disse-me ele: Eu também.
Até hoje.   

Wednesday, April 24, 2013

RIO-FLÚX - 8 - (caderno-livro em construção andante)


8

Leiria, 23/IV/2013, terça-feira

ORÁCULO SOLAR

I

Muito sol anda no ar, hoje.
Terrível chega a ser, tanta beleza.
As mulheres beneficiam muito do dia.
A tarde espaneja-se toda bandeira.
Fixo nas coisas um olhar serenado.
Espero a pomba das três horas.
Trouxe-lhe pão novo, é claro.
Envernizadas, coruscam as árvores.
Até a amargura vale um esmalte.
Por onde seguiria, se não por dentro?

O trabalho daquele cão é ladrar aos carros.
Que irada irritação o excita?
Ulcerado de sombra, o muro humedecido
é escrito a hera povoada de pardais.
E um gato tomado de sono bebe sol.
E eu quase não existo, quase não hesito.
Amarela como um recado alegre, esta mulher.
Esta mulher aloirada de seiva passando.
Passando e levando com ela a gardénia macerada.
Tudo vale tanto, melhor do que nada.

Desertada de gente, a casa antiga apodrece devagar.
É à face do Rio, que sereno brilha & vai & fica.
Falo com a senhora mãe do Eduardo.
Conta-me ela de quando a mãe dela era caseira.
Que nada lhes faltava na quinta:
criação, horta, fruta, sardinhas, azeite.
Conto-lhe a infância da minha Mãe.
Conto-lhe dos pais da Mãe, caseiros de quinta também.,
Azeite, sardinhas, fruta, horta, criação.

Do milho, a broa-pão sustentando gerações.
Tinta permanente: ingénuo, perecível adjectivo.
Olho em qualquer direcção cardial: a tudo pertenço.
Quando a noite visita os olhos, apossa-se deles.
Não agora.
Agora, a claridade instaura o País.
A claridade faz bem até aos desgraçadinhos.
Os desgraçadinhos que andam no gamanço e os outros.
E nos solares os fantasmas são familiares.
E o Senhor Engenheiro tem uma amante em Lisboa.

Ai aqueles olhos verdes, perdição da carne, fúria do leite.
Amazona preclara, intangível, mosqueada.
Matizada a cordões nervosos à flor de álacre lacre do mamilo.
Rebentação de escumas, penhasco dulcíssimo.
É se calhar casada com algum advogado.
Ou pior.
Que bem se embalsama ela de cremes franceses.
Ai que água de azeitonas chilreia ela.
Escrevo as minhas décimas à indiferença dela.
Boa para levar para uma ilha mais uns livros.

Tem sido na prática assim a minha vida adulta.
Digo: a minha adúltera vida adulterada.
Escarneço a vida, mas ainda sou laborioso tipo rã.
Pedem-me do Louriçal um entreacto jocoso.
Escrevê-lo-ei amanhã, entre bebidas e fumos.
Ponho isto aqui, sentido lhe não demando.
Chega-me hoje p’lo fim da tarde o Fernando.,
É meu Irmão – mais não há que dizer.
O Sol é todo uma Gréci’Antiga.
Afio o lápis, vou fazer outra cantiga.

II

– Mais uma que não vai à missa – diz a mãe
do Eduardo, referindo-se a uma brasileira-de-esquema
que surde pela Avenida 22 de Maio de telemóvel
(“célúlá”) na orelha pingona de cera.
Sorrio à expressão, contentinho dos rins.
Uma alforreca tisnada carrinho-bebéa a cria,
Um cão boceja no separador relvado da via.
Segrego o pus benigno e inócuo dos versos.
Deveria talvez fazer sopa para a ceia.
Sei-a de cor já (à vida ávida).

Volúvel, o Rio arde além dele a febra fresca.
Aquilo é tudo um marulhar de cristais.
Sempre que qual um ferrete a estupidez das
pessoas genuflectidas ante o não-mistério,
passo-me da mona, a estupidez desmona-me todo.
Sobra porém Bach, sobra todavia Ruy Belo.
Português qual pardal, tenho muita pena de não ser católico.
O Senhor perdoar-me(doer-me)-á, estou certo.
Ínsua de tangerinas face à Vala do Norte:
infân’Mãe’distân’cia: verdade, que bem na sei.

Quanto tempo hei ardido para aprender a escrever?
Todo ele.
Sentido para isto?
Nenhum em peculi’particul’ar.
Mal que isto faça?
Idem.
(Cospe as pevides, não as tasquinhes.)
Às vezes, em Casa, abro o caderno.
Abro o caderno, dou à Mulher conta do dia.
Ela escuta, raposa vegetariana na floresta carnívora.

Não há-de ser assim para sempre,
a não ser que por escrito fique.
É outra das albardas da Poesia:
querer ficar, crer ter-sido.
A gente masculina ante um par de mamas:
boquiabre-se o eterno efebo ante a
Mãe-Ressuscitada.
Ou, como há pouco diss’escrevi:
Tudo vale tanto, melhor do que nada.
Nada.


A pomba da tarde com(a)pareceu às 15h36m.
Miguei-lhe o pão, fiz-me revoador alcoo’eólico.
Atirei-o-esmifrei-o ao ar.
Ela comeu-o de boa-bom boca-bico.
Acabaram-se-me os cigarros.
(A infância também, por mais que eu.)
Lavanda nórdica eucalipta-me a fala.
Falo com a mãe do Eduardo no Café da Rita.
Há muito tempo não pinto casas a lápis.
Excepto ontem.

Excepto ontem porque a Graça quis saber.
Arejámos a sala, sentámo-nos, havia água fresca.
Toma-cá-dá-lá, li-lhe o lápis.
Ela ia reiterando com a cabeça o próprio Pai.
O dela, que fez casas onde ’inda hoje outras pessoas.
Tardou nada, era noite.
Eu assim para ela: – Vês?
Ela assim para mim: – As orquídeas, há que mudar-lhes a terra.
E eu assim: – As orquídeas. E ela: – A Grécia (a Graça), às vezes tenho saudades desse tempo.

Thursday, April 18, 2013

OS ÚLTIMOS ANOS DE TODA A GENTE - 7


7

Leiria, 4/III/2013, segunda-feira


Chove na segunda-feira do Império.
As pessoas acontecem como borrões de tinta.
Uma vaga tristeza, não há quem a não sinta,
nem quem a vida leve muito a sério.

Um cão molhado, absorto ante o Rio,
pensa em que cadela por que cio?
Uma mulher-da-limpeza, de bata azul,
ora santas-engrácias vaporosas de tule.

Um português de boné, desses de antigamente,
escorropicha uma ginja repenicadamente.
E eu componho versículos para o mor olvido.
(Que ao menos conta dêem de eu ter vivido.)

OS ÚLTIMOS ANOS DE TODA A GENTE - 2 a 5


2

Leiria, 1/III/2013, sexta-feira

Lá em baixo, visto em mente de aqui, a força
da água fazendo o rio espumar pela boca, o
rio que vejo sem olhá-lo, como veia viva, viva
via que ensina como morrer à(s) mão(s) do mar.

Por enquanto encerrado em sala eléctrica, à
febre da consumpção da manhã em casa
pública: um hospital, onde o irmão busca
saúde, alívio, cuidado: cuidado, ó vida!

3

Ibidem

Pessoas traçando linhas de sombra com o corpo na luz da manhã mais recente que a humanidade dá a conhecer. No barzinho do hospital, mulheres ingerindo café-com-leite, fatias de pão aquecido com manteiga. Vermelhos como fósforos, três bombeiros em repouso (dois fumando, um sentado, bebendo água, no estribo traseiro da ambulância).

4

Ibidem

Da celerada brevidade da vida darei justo reportório, fragmentário ele embora. Se à frígida e viva torrente mineral da montanha, serei bem. Se à esquentada manação do gás ardente dos sonhos, serei só. Vale-me o por-enquanto da eternidade. Isto pretendo só deixar estabelecido. A isso portanto deixo.

5

Ibidem
Fui lá fora fumar o cigarro – e fi-lo sob o cerúleo firmamento, cuja altura é fundura sem medida.

OS ÚLTIMOS ANOS DE TODA A GENTE - 1


Leiria, 4 de Abril de 2013



1

Leiria, 28/II/2013, quinta-feira

Todos os anos são os últimos anos: basta ter-se nascido. Assim é para mim, assim para toda a gente.
A única volta a dar-lhe – é ir dando a volta possível, resistindo à doença, à tristeza, a um que outro vício, ao mundo mesmo.
O dia mais importante é o de hoje: o de ontem já não conta, à mesma vez que com o de amanhã não há que contar. Este imediatismo não é tolice. Não creio que o seja, pelo menos. Então: todos os dias são derradeiros. Esse treino para a morte em que o sono consiste, que outra coisa ou poderia ser, na verdade? Estou em paz com isto. E com isto tenho levado a água da tinta ao moinho dos livros de que sou, ou vou sendo, capaz.
Fevereiro acaba-se hoje. Não é bissexto. Por ruas, praças, aldeias, vilórias, cidades – andam inquietas as pessoas, temerosas das tropelias da política financeira do império, cuja sede toda a gente sabe quem, o que e onde é.
Vale-nos arder a luz de mui prazenteiro modo. Por estas bandas, é um Inverno esclarecido o que nos é dado viver. Temo, por outro lado, que mais e mais gente se esqueça de sobreviver. Anda por aí muito desespero – não há que enganar. Jovens, maduros e velhos vêem-se proscritos de toda a expectativa – menos a da miséria. Os lacaios do império que nos desgovernam assim o impõem. E eu não sinto que alguma Revolução esteja na calha. Acho-nos de uma excessiva mansidão bovina para tanto. De povo que éramos, passámos a ser público – uma abissal diferença entre uma e outra condição.  



Rosário Breve n.º 305 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt




Banhada términ’ortográfica p’ra português ver

Todos os nomes dos meses terminam em O (O de Opressão) menos Abril, que conclui em L de Liberdade.
Relvas termina em S. De Sacanita. Portas, idem. Troika – em A de Abuso. FMI – em I de Imperialismo. Santarém, em M de Moita, esse grande telenovelista alegadamente criminólogo e comprovadamente oleiro de rosáceas de gesso anti-património eclesial: Malheureusement – como diria o francês que inventou o Mulãrruge. Todos os dias supostamente úteis terminam em A – de Agonia. Sábado e domingo também em O – de Ora-Bolas. Etc.
Procedo a estas verificações prontuárias “derivadó-facto” de me sentir entediado. Aborrecido. Espinafrado. E todo prepúcio da corneta (o que não é glande coisa, como diria o chinês que descobr’inventou a roda, o papel, a pólvora e a EDP).
Portugal, que eu amo porque sou uma besta não reciclável, aborrece-me até às lágrimas egressas do bocejo mais escancarado.
Aborrece-me o Cristo-Rei de Almada, a que o vulgo ateu (como eu) graciosamente chama “Saca-Rolhas”.
Aborrece-me o Garnizé de Barcelos.
Enfastiam-me o Zé-Povinho das Caldas e o Coiso de barro, das Caldas também, dele.
Esmói-me o bestunto a couve-flor que a gritadeira arregalada conhecida por Mariza usa à (ou por) cabeça.
Entenebrece-me a moela a hibernação comatosa do senhor Presidente da República.
Emaranha-me as gónadas o estado-novismo emaciado a xanax do senhor Primeiro-Ministro.
Arrefenta-me os guizos o cristianismo postiço dos católicos (e o dos protestantes também, e o dos mórmones também, e o dos budistas também etc.).
Repugna-me a gelatina da espinal-medula a barbárie “cultural” da tauromaquia. (E não, não tenho medo algum de dizer isto em voz alta ao Ribatejo todo.)
Desconjuntam-me a ossatura as televisões ditas nacionais só emitirem trampa óptica.
Arrepimp’ouriça-me a cidadania (que aliás pratico sem redenção nem pecado, juro que sim) que o cartaz pró-tacho-de-Santarém do PS diga tão-só “Idália Serrão” sem dizer mais nada, nem que fosse uma qualquer mentirinha bem intencionada tipo “Flores nunca mais, Obrigado ó Rosa”.
E envergonha-me não ter ido, não ainda, àquele antigo hotel rural na Azóia de Cima acompanhado por essa suculenta (e lenta) posta de carne chamada Andreia e cujo heterónimo oficioso é “Viviana” quando luxo-acompanhante de e “para homens solitários, desacompanhados e carentes”, a crer no item n.º 03 da rubrica Sopa da Pedra da pretérita edição do nosso jornal.
E agradar-me? Agradar-me-á alguma coisa neste infecto rincão de rectangular formato, neste desínclito morredouro de sem-tostões? Sim.
Sim: as manhãs diáfanas como ósculos de criança; os arvoredos envernizados do sol que esmalta o olhar de vê-los ondulando à brisa como searas de vento à Manuel da Fonseca; as praias tripuladas por gaivotas que se vêem e crêem águias brancas à ilusória bola-de-espelhos da luz; Os Pescadores de Raul Brandão; a poesia de António Osório; e as formosas portuguesas que por ruas nossas e praças de mais ninguém mesmerizam de sandálias finas como fiambre da perna os cronistas ateus que só sabem dizer mal do desGoverno e da vida própria.
Vida que termina em A. A de Adeus. Ou de Até-para-a-semana. Ou de “Agonia nunca mais, obrigado.”
Ó Rosa.

Saturday, April 13, 2013

Thursday, April 11, 2013

Rosário Breve n.º 304 - in O RIBATEJO de 11 de Abril de 2013 - www.oribatejo.pt



Fósforo, lareira e Éssélbê

Na semana passada deixámos de ter (tanto) Relvas e voltámos a ter (alguma) Constituição. Mas calma. Não embarquemos em euforias: a felicidade é um fósforo, a infelicidade é uma lareira.
É que, à má imagem e pior semelhança do que se passa com a nossa dimensão político-económica, a invernia se prolonga Abril adentro, em escandaloso desrespeito pelo preceituado na sua/dela própria Constituição, vulgo calendário. Indiferente ao regulamentado na tábua das estações, das folias e das devoções, a Natura parece comprazer-se em vergar-nos ao peso de tanta água, ao ferro de tanto frio e ao exílio do bom sol português que sempre foi, até para o pobre, e a par da Lua fadista, o fanal gracioso capaz de nos salvar da tristeza profissional e da procela sem bonança da portugalidade mesma. Mas adiante.
Na segunda-feira, 8, a patusca Águas de Santarém, já chamuscada aquando daquilo da passeata à Coreia do Sul, ardeu um bocadito, obrigando à evacuação da sede e, talvez, a breve prazo, a um aumento do tarifário. Digo eu, que sou maldoso. Foi no mesmo dia da morte da Thatcher, essa espécie de raia seca muito mais malévola do que este Vosso criado. Amiga íntima do genocida Pinochet e inimiga confessa de trabalhadores e sindicatos, deixa-me tantas saudades quantas as que me deixaria o trânsito de cálculos biliares pela uretra. Mais pena tive da Sara Montiel, a diva de Espanha que nos bons velhos tempos (dela) semeou pruridos e borbulhas por quanta próstata havia em Hollywood, à excepção da do Rock Hudson.
Abril por Abril, já não falta muito para o 25, efeméride que é, por assim dizer, o Natal dos indignados-mas-quietos. Os altifalantes voltarão a roufenhar o bom Zeca Afonso – e até dia 30 o tutano do IRS vai ser esvurmado, que é como quem diz gasparilhado, a doer. Sem chaimites, sem cravos, sem poesia na rua e sem remédio.
Se Vos pareço negativo, sou aquilo que pareço, ó bons Aleixos. À hora a que componho a 304.ª das crónicas que há quase seis anos me suportais, a harpa da chuva fustiga de rijo cordame de arame a cidade e os campos que a emolduram. O vento é oblíquo como uma perfídia. O arvoredo parece um borrão de tinta contra o papel-manteiga do ar. Andam desorientadas as aves como operários de estaleiro naval. Os cães vadios ouriçam a pianola dos ossos em desvãos de pardieiros sem gente. E, como jamais, o País dá a ideia de os muros do Júlio de Matos irem do Minho ao Algarve, com refeitório na Madeira e dormitório nos Açores.
Falta falar do meu Benfica. Direi portanto nada, que ainda é cedo. Nada – ou apenas isto: que, a havermos de facto uma Constituição em vigor, este ano ninguém nos tira o título, essa outra Primavera que nem o Inverno da realidade há-de poder confiscar.



Thursday, April 04, 2013

Rosário Breve n.º 303 - in O RIBATEJO de 4 de Abril de 2013 - www.oribatejo.pt




A pulseira do Sala

Lembrais-vos da pulseira mágica do António Sala, aquela a que o suposto Senhor Rádio e alegado Príncipe da Renascença fez propaganda? Sim, aquela que os e as abéculas deste País triste e parv’alegre compraram em massa para suster o mau-olhado, o herpes, o corrimento menstrual, a egofagia, as saudades da tia e o raio que os parta? Sim, aquele amuleto de fraca lata que era suposto curar e sinecurar as vertigens, a bola de pêlo na garganta, o mijo em caso de gargalhada, o paradoxo que resulta da disfunção eréctil crescer tanto e a angústia metafísica perante o IVA dos livros? Pois, essa mesma que os supinos parolos deste morredouro de lambéculas passou a usar galhardamente na mesma pata do dedo do cachucho e da fitinha do Senhor do Bonfim, em vez de a trazer ao pescoço como os cães fazem à coleira e os bois à canga, ou, à maneira de arganel, no focinho como os cafres, os punks e os porcos?
Sonhei com ela. Que era obrigado a usar uma. Que nem debaixo da camisola a podia esconder. Que tinha de andar sempre com o antebraço arregaçado até ao sovaco.
Sim, tenho sonhos tristes. Nem pesadelos são, que não tenho dinheiro para filmes. (E quem não tem dinheiro, não tem vícios, excepto o vício de não ter dinheiro.)
Desse sonho da pulseira do Sala acordei especialmente consternado. Compungido. Pesaroso. Dorido. Raivoso. Combalido. Acordei português, enfim. Mas, pronto, levantei-me e pus-me a cirandar pela mente à cata dos cacos do sonho. Andava eu já quase muito contentinho nesse ofício quando me deparei com nótulas a lápis encefálico para futuras crónicas.
Uma era esta: que o défice e o Relvas devem ser afins, já que ambos são impagáveis. Outra ocorreu-me quando, dando pão às pombas, veio um pardal e roubou quanto pôde, pelo que passei a designá-lo por “gaspardal”. Outra, vá lá, era um arremedo de senso-comum: chávena escaldada de café frio tem medo. Maluqueiras de cronista ocioso, eu sei.
Costumo esquecer-me depressinha dos sonhos. Mas o da pulseira do Sala não quis ser obliterado sem se ver em tinta de imprensa. Que significará tal desvario? Que simboliza? Que quis ele alegorizar? Eu não acredito em transcendentalismos nenhuns. As superstições põem-me a rosnar. As psiquiatrias e os pais-de-santo valem-me o mesmo. Aos que se genuflectem, só me apetece povoar-lhes os cagueiros de pontapés com biqueira de aço. O meu único santo é São Tomé. E o meu credo é todo material, a ponto de considerar os humanos como meros sacos de vísceras apertados em cima por um olhar. Mas “o” raça da pulseira do Sala, sinceramente…
Peço-vos perdão. Isto não é crónica que se veja ou sequer se cheire. Eu sei, eu sei. O que não sei, é como arrancar do pulso a porra da pulseira, que acabei por ter de comprar à viúva do Serafim, cujo a tinha comprado para se curar duma caganeira hemorrágica mas acabou por morrer dela na mesma, como toda a gente.

Wednesday, April 03, 2013

OS ÚLTIMOS ANOS DE TODA A GENTE - entradas 441 a 446. Escritas há pouco, na Rita, pelo café pós-prandial


441

Leiria, 3/IV/2013, quarta-feira

(Amanhã como hoje: assim o instinto guia e quer.
Duas pombas tenho à espera que lhes panifique o instante.
Outras vezes, só o passado hei por diante.
E então o instante é triste e é razão de ser.)

442

Ibidem

(Ao sabor dos ventos, os panos drapejam viagens.
Farfalha do arvoredo eólica euforia.
Tenho por mim que ganho o dia
na recepção dos ares que trazem imagens.

Tudo me parece palavra possível, o desamparo até.
No Rio, os patos espadanam robustas natações.
Todos os animais me merecem celebrações,
mesmo ridículas, por rimadas e por de rodapé.)

443

 Ibidem

Quando ela vier, que venha de mansinho.
Que por quem a não temeu, não digo carinho,
mas mansidão use lenta, devagarinho.

444

Ibidem

(Usura e vezura dos dias a que pertenço,
a Língua é quanto tenho por espelho.
Se de mais sinto, vejo tudo vermelho.
Tudo a preto-e-branco, se de menos penso.)

445

Ibidem

(Por vezes, é em planalto moral que me ocorre
sufragar o vale, que toalha estende ’té o mar.
Nem tudo vive, mas certo é que tudo morre.
Não se fica porém ou vai – ser é mudar.)

446

Ibidem

Colhi dos passantes a efemeridade.
É inconstante o tempo, muito dura a invernia.
Recolhi a casa (é na estrema da Cidade).
Passado é já quase o hoje do dia.