Thursday, February 28, 2013

Rosário Breve n.º 298 - in O RIBATEJO de 28 de Fevereiro de 2013


O BARQUEIRO

Da outra margem da minha vida, alheio a esta hora tolerada, está o barqueiro que me oferecerá flores e sombras.
Flores crescidas nas sombras da água, não longe de árvores altas que apontam, como lápis, os números sem leitura do céu. Tantas ruas agora corro, até que uma delas se feche. Entrarei. Terei chegado ao cais. Música de madeira molhada os meus pés tocarão. Verei no escuro os olhos de lobo do barqueiro. Verei o brilho dos dentes: para me sorrirem e me comer. Sentirei a vida pontiaguda das árvores-lápis apontando a desnecessidade de tanta leitura. Agora, não procuro. Sei que as ruas preparam o barqueiro. Tantas ruas, um só barqueiro. Uma porta para mim, por onde me escoarei como uma língua de luz, saciado e grato pela glória de algumas mãos cujos dedos cercaram as minhas mãos, os meus dedos já sem lápis pretos como árvores. Espero isso, caminhando embora, saindo daqui, entrando aqui, penetrando os jornais do dia (os crimes de Negritarias e Mançã) e as laranjeiras da noite, consciente de quem em bares frios adolescentes jogam videocêntimos, atiram electrodardos, escutam hipnomúsica, bebem o leite verde que lhes troca a consciência por uma hora melhor do que a vida toda. O meu barqueiro cultiva as minhas rosas. Esta noite, merecerei ainda o meu caldo de ervilhas com um naco de bovino afogado, uma lâmina de pão com cabo de mão humana, a minha esquerda, também colhedora de azeitonas e páginas pares de jornais da noite e de est(r)elas da tarde. Espero caminhando, amando a amargura, essa fiel irmã dérmica, pulsadora, intrépida corredora venosa da minha cartografia, lá onde a dopamina e outras terças-feiras se associam recreativamente para dar ao meu barqueiro estas flores horizontais a que não escapo nem quero. Posso ainda rondar o mar como um pastor de gaivotas, completamente vivo, não despedaçado ainda pela porta sideral que leva ao barqueiro cósmico, pobre funcionário crematório de rapazes tristes e putas tristes e tão triste e sossegado no leite verde que reflecte o barco, o barqueiro, as flores-lápis e as árvores-lazuli, um egipto de ruas portuguesas. Até que a porta suceda.
Truz-truz. 

Saturday, February 23, 2013

Rosário Breve n.º 297 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt


LADO B

O Verão foi-se embora. E quem sabe o que levou com ele...”, disse o Victor com olhos de reticências, remexendo o açúcar coagulado no fundo da chávena como se tentasse ler o futuro.
Eu não respondi. Não era uma pergunta. Deixei-me estar. Então, vindo da tarde triste da rua triste, entrou o Rodrigo. Trazia uma bolsa de fotógrafo com relógios dentro. Os relógios eram pesados e prometiam uma pontualidade suíça. Notei que o tempo custa mais a passar para os vendedores de relógios. Mandei vir três botijas de cerveja. A tarde continuava lá fora, parda e fria como uma declaração de rendimentos. Entrou o Fernando.
Quatro botijas” –  disse o Fernando.
Deixámo-nos estar. O Victor contou uma história engraçada passada num baile. Rimo-nos. O Fernando contou outra coisa, sem baile mas com piada. Rimo-nos.
O Rodrigo disse que aquela bolsa lhe tinha sido dada pelo Zé Manel. Nós acreditámos. O Rodrigo tinha um colete de malha novo. O colete caiu no chão.
Eu disse: “Rodrigo, o colete caiu no chão.
O Rodrigo disse: “Então já não o quero.”
Vai daí, ofereceu-o ao Victor. O Victor vestiu-o. Servia-lhe. Ficou com ele. Então, eu contei a história do lado B.
Em 1994, trabalhei num bar nocturno. Servi botijas e mastigantes a muita gente. Uma noite, apareceu o rapaz Raul. O Raul tinha maus dentes e bons fígados. Mostrou-se uma jóia de rapaz. Falava pouco, comia muito e bebia à percentagem do falar e do comer. Uma noite, falou mais do que de costume. O Raul pigarreou e disse isto: “Pessoal, atenção: conhecem a do lado B?”. “Não, nós não conhecemos a do lado B”, respondemos em coro grego. Então, ele pôs-se a imitar o som de um gira-discos antigo. Mortos de riso, primeiro, e ressuscitados de espanto, depois, ouvimos perfeitamente o “single” a receber a agulha, percebemos, por magia, a ferrugem de chuva da agulha a chegar ao 45 rotações, escutámos, como se fosse possível tanta música, a canção (era o Palito Ortega em “Yo Tengo Fe Que Tudo Cambiará”), sobressaltámo-nos com a crepitação da espiral sem-fim da agulha no fim do disco. Foi uma coisa maravilhosa. Um acontecimento único, uma efeméride instantânea como um pudim de pó. Eu percebi que aquilo era uma história boa para contar nos bares do futuro. Acabei de contar a história do lado B. Riram-se. O Fernando disse: “Quatro botijas, Daniel.” Havia, e ainda há, outro Daniel na história. Nada de confusões. O Daniel trouxe as botijas, baixou o som da televisão e não mandou bocas. Espreitei para dentro: a noite já estava lá fora, fora do Verão e à nossa espera. Castanha como um fundo de chávena, mas sem açúcar. Pagámos, despedimo-nos, cada um foi para seu lado.
O lado A.

Monday, February 18, 2013

E então esta manhã, assim a modos que sem quê nem por nem para quê, zinga com quatro sonetos mais


SONETOS PROSAICOS PARA NADA MAS ’INDA ASSIM

Leiria, 18/II/2013, segunda-feira

I

Enquanto migava e atirava o pão do dia à pomba
da manhã, ocorrendo-me veio a visão de um re-
trato dos antigos, um de cinco figuras, das quais
quatro idas já, uma vivente ainda mas por um
fio. À esquerda extrema, a Avó, desalojada da dig-
nidade do centro por loucura símia no rosto
patente e semblante; à sinistra dela, a inevitá-
vel Tia solteira, de peito chato à fundo de barco;
ao centro, a Mãe; depois, desta as duas filhas:
irrelevantes magnólias. Só a da ponta direita vive.
Tem um quarto-cozinha-retrete em Queluz. Cons-
ta que lhe ficou o prometido no Ultramar, mas
de tal nunca lhe houveram notificação oficial. Tam-
bém consta todavia que não, que é viúvo e vive em Oeiras.

II

Teve um só desgosto mas vários maus passos.
É ’inda assim uma mãe como outras tantas.
Foi vista com diversos no Estádio das Antas:
com o Rui contra o Penafiel, com o Tó contra o Paços.

É Ermelinda, tem suas cruzes. Leva a vida
entre a Sé e os Aliados, que frequenta
entre a vida que sonhou e a que aguenta
enquanto não dobra o sino por lhe despedida.

Mais não sei. Tenho ouvido dizer.
Mas do que se ouve, vá-se lá saber
se o que consta, conta ou não conta.

Derredor, a Invicta, laborinha,
faz de conta(s) o rosário da vidinha,
que, certa, a morte a tanto monta.

III

Da veterania que sofrem os velhos combatentes,
sei eu muito – que bem os vejo no Lagoa
armados de decepção até aos dentes,
aliás acrílicos, tipo Fernando Pessoa.

Serve ao mármore firme viúva.
Ele é a cabeça do chicharro, a porcina orelha,
a isca encebolada, a libação vermelha,
que tudo tão bem sabe enquanto a chuva

lá fora arpeja a harpa, ó farpa imensa.
Envelhecer o ser, é inverno que se pensa
fora de toda a primavera, por futura.

Algum, verdade, têm de seu, que o pouparam.
Joga-se agora a sueca, já embaralharam.
Mais rija é a morte que a vida dura.

IV

Do mel (do mal, de tanto bem) de um homem
de sua dele mulher polinizado, em abelha o furor do amor
leite se fez – e então carne: o filho, jovem,
jorrou de pura água amniada em fervor.

(Mais que sexo, mete este soneto assunto adentro.
Do emprenho, o empenho é purpúreo vinho
que liba do mundo o sentido ao centro
da terra e do céu, e do Algarve ao Minho.)

À fria noite, no tálamo do casebre, o azeite
tremula dos três a consequência do leite.
Abre-se a mãe em rosa. Parida, maravilhosa,

ela a pai & filho congrega, o pão rachando.
Assim se vão e vêm os três amando
em leite e mel e água e vinho e azeite e rosa.



Um soneto de 2012, ainda



D(O)URA-TE – soneto luminotécnico

Leiria, 28/XII/2012, sexta-feira

Doura-te, manhã, à luz lenta.
Sê infantil ’té que te mate o meio-dia.
A vida pode não ser a que se queria,
mas doura-te, manhã, à luz, tenta

que cada dia renascer seja a vez prima,
que à morte é de mais símile o adormecer.
De baixo sobem águas árvores a cima,
tudo é azul e verde e branco sem perecer.

Somos, manhã, teus c(r)éus discípulos.
Apreciamos teu quase-frio em versículos.
Andamos ti adentro dessedentando

o corpo da secura da vil espera.
Uma manhã destas, é primavera:
assim te vá o inverno, gentil, dourando.

Sunday, February 17, 2013

Ontem, em viagem


NOITE DA LEIRIA À CHARNECA (POMBAL)

16/II/2013, domingo

Fevereiro. Um carro muito amarelo na noite da estação gasolineira. Folhetos volantes de igrejas prometend’anunciando manás brasileiros, de clínicas dentárias, de desperdícios a brilhar de novos. Os anos dando nos elementos – e o terror de que tudo dê sono, apenas sono. Nem rejeição nem nada mais – senão um bocejo mal acordado ante o que os faróis despem sem acordar: o stand de usados com bandeiras murchas entre pinhais apagados, o bar-restaurante aberto 24 sobre 24 à beira da rodovia sem trânsito desde que abriram a circunvalação variante, a Lua, até a Lua, que a nublação encerrou na torre como mal comportada infanta.

Friday, February 15, 2013

Ontem, 14 de Fevereiro de 2013, a última de quatro composições vespertinas


Trabalhou ele hoje já algum proveito
Ao espelho do barbeiro reiterou o vazio
A tarde ardeu qual fósforo a direito
A noite o faz sobrinho d’ó-tio-ó-tio

De bandas fluviais a brisa impera
Ao zénite ascende a lunar escrava
Ele ’inda há muita gente que não se lava
A esperança é o avesso da espera.

Em casa as coisas ressumam fidelidade
Nos nichos os santorros apodrecem
Diáfanas gazes à visão adormecem
E dão clarividência à muita idade.

Ele hoje não faz mais senão esperar
Que a esperança não doa ao peito içada
Ao espelho do barbeiro ele soube nada
E tudo já sabendo passou a estar.

Thursday, February 14, 2013

Rosário Breve n.º 296 - in O RIBATEJO de 14 de Fevereiro de 2013 - www.oribatejo.pt


“Esquentamento” só para a semana

Tenho sobre a banca de trabalho dois documentos que aparentam não ter nada a ver um com o outro. Um deles é recente: trata-se do discurso do bastonário da Ordem dos Advogados na cerimónia de abertura do Ano Judicial. O outro é antigo de 101 anos: trata-se da Cartilha de Higiene e foi produzido pela Imprensa Nacional em 1912 para o então Ministério da Guerra. Era (e ainda é) minha ideia descortinar afinidades entre textos aparentemente tão díspares. Prometo fazê-lo na crónica da próxima semana, já que outro tema se me intrometeu ao barulho. Na realidade, dois outros temas. Ambos têm a ver com a edição da semana passada do nosso O Ribatejo. Essa edição de 7 de Fevereiro do corrente ano traz duas coisas que sobremaneira me agradaram. A páginas 3, na rubrica Pergunta da Semana, os três leitores que responderam à pergunta que o jornal lhes punha (e que era: “O que acha da remodelação do Governo?”), fizeram-no gloriosamente. Nem mais nem menos: gloriosamente. O leitor Nuno Almeida disse: “Remodelação? Onde? Não se viu nada. E cada vez mais é preciso haver uma remodelação mas é do povo, renovarmo-nos, exigir um novo modo de estar na sociedade, visto que da classe política jamais isso acontecerá.” Certo. Certíssimo. Por seu lado, o leitor Gustavo Faria disse: “Acredito que a presença do ainda ministro Relvas e a recém-nomeação de Franquelim Alves são ofensivas.” E faz a apologia da necessidade de reconhecidas capacidades profissionais e de cidadania aos governantes. Certo também, certíssimo também. Finalmente, o leitor Eurico Costa tem um piadão quando diz: “Devia acontecer ao Governo o que se está a passar no Sporting: limpeza geral.” Devia pois. Ai não que não devia. Os meus mais sinceros cumprimentos a tão desassombradas palavras dos três leitores.
Outra coisa que muito (mas mesmo muito) me agradou na referida edição do nosso semanário foi a coluna de Arnaldo Vasques. Vinha na página 10 e tinha por título “Carnaval em Azóia de Cima”. É um texto muito bem escrito. Espero que os leitores tenham o bom hábito de guardar os jornais para memória futura. Recomendo o mais vivamente que vão em busca desse texto. A descrição é um primor. Aquele “casario branco” é perfeitamente visível “encosta acima”. Os adjectivos casam na perfeição com a realidade que musicam e pintam. Uma delícia de prosa: do “roubo” dos vasos de flores pertencentes aos “quintais das moçoilas casadoiras” à “água em caudal que enche os tanques dos lavadouros”. A crónica, em ademã de exercício da memória, é muito sã, muito afectuosa, muito clara. Senti que deveria homenageá-la em discurso directo meu. A ela, crónica, e ao seu Autor, Arnaldo Vasques. Aqui fica o registo. O registo e a promessa de para a semana vos dar conta do que me veio à ideia ao ler a discursata do Marinho Pinto, por um lado, e o cuidado que os soldados nacionais de há um século deveriam ter com os “esquentamentos” resultantes da ida às “meninas”.
Até para a semana, portanto. Sejam felizes até lá – e a partir de lá também. 

Saturday, February 09, 2013

UMA MANHÃ CLARAMENTE PORTUGUESA


UMA MANHÃ CLARAMENTE PORTUGUESA

Leiria, 9/II/2013, sábado

Sim, é uma manhã claramente portuguesa. A luz é toda. Dos lados da Taberna Lagoa (fundada em 1930), o Rio faz bem só de ser olhado. As aves regurgitam saúde no azul muito branco. De manhã, amandei-me uma posta de bacalhau desfiado, alhado e azeitado em punheta. À tarde, há União de Leiria-Marrazes no estádio. Um homem lê A Bola murmurando labiações soletrantes. Passa de BMW o Rodrigues da farmácia com a amante. No Lagoa, um solitário de botas de cavador trincha um belo pedaço de orelheira amaila uma meia litrada de roxo. Três rapazes do chá-mon enrolam mortalhas de papel-bíblia com tabaco-de-onça marca Águia. A Noémia da confeitaria coça uma mama distraída enquanto se prognostica a irremediabilidade do amor contrariado que há tantos anos nutre pelo Pascoal dos plásticos, que nunca s’há-de separar da mulher, aquela bisca, aquela manilha, aquela sota. Cato pão esmifrado na relva dos pardais: tinha, como eu, o pão, envelhecido em casa. Ando à luz – e dou por mim sem pensar nos meus amados mortos há mais de meia hora: um recorde olímpico. Sou o de blusão verde-ranho pela beira-Lis. Sou o contabilista de instantes inofensivos. Ao contrário do que vaticinava o meu Professor Elias, acabei por não salvar o mundo. Em compensação, apascento sílabas que querem ser quilovátios. A vida é bonita do lado esquerdo. Pensar que um dia as moléculas se rompem para se tornarem outras corporações. À noite, no Louriçal, há noite de fados com a Cristiana, filha júnior do João Portulez. No mostrador, um naco de presunto ensina ao olhar a púrpura emoldurada a ouro-ranço. Uma mosca dura como um fragmento de botelha patanisca-se em mármore. Há coisas que podem e devem ser ditas, Noémia. Não me chamo Pascoal, sou tão-só feliz à beira-Lis – e sou, claramente, sou, por minhas voz & vez, um matutino claramente português. 

Thursday, February 07, 2013

Rosário Breve n.º 295 - in ORIBATEJO de 7 de Fevereiro de 2013


Antes cavalo nos relinche, que asno nos Ulrich

A revista Forbes ulrichou recentemente a filha do presidente vitalício de Angola como primeira mulher afrobilionária. E isto dá-se, vergonhosamente, ao mesmo tempo que a UNICEF, sempre boazinha como o padre Melícias e a senhora Maria Barroso desde o susto da avionet’UNITA  do filho na Jamba, se propõe outra vez pedinchar por aí umas migalhas de milhões de dólares “para” (mas é mentira, como tudo o que faz esta espécie de gente) as crianças subnutridas da malograda Angola. O que eu digo à UNICEF é que os vá pedir à Isabelinha. De volta. Que os milhões, um dia, devem desmilhõenar-se de volta a quem os criou.
Belinha por Belocas, acontece portugalmente à custa dos carneiros que Isabel Diana Bettencourt Melo de Castro Ulrich (pois, Ulrich) foi re-ulrichada por Cavaco a 9 de Março de 2011 como “consultora” da Casa Civil da Presidência da República. Já o era desde 2006. Ena de carreira! No Diário da República, a profissão da senhora é “funcionária do PSD”. É demasiada profissão, digo eu, para merecer DR. Porra.
Ou chiça.
Franquelim, ali da Linhaceira, Tomar, foi agora ulrichado secretário de Estado do Empreendorismo por essa có(s)mica evidência de Nada (ou Nata) chamada Álvaro. Vem, o Franquelim, da SLN, esse esgoto por onde se escoou em alegre im(p)unidade a cenosa cloaca chamada BPN. Se o pastel de nata é cake-cream, o cream compensa.
Ou então vou eu descalço sobre silva(s) de Tavira a Valença.
A 3 último do corrente, no Público, Jorge A. Fernandes citava um economista espanhol chamado Molina. E, parafraseando o bom e saudoso Dinis Machado, o que diz Molina? Diz esta admirável e contundente verdade: “A classe política é uma elite assente num sistema de captura de rendas que permite, sem criar nova riqueza, desviar rendas da maioria da população.”. Contundente. Sim. Mas. Inútil.
Inútil – porque tudo demonstra que o que se diz à classe política não entra por um ouvido para sair pelo outro. Porquê? Porque o som não se propaga no vácuo.
O problema é a vida ser agora.
O problema é aquele verso de Jorge Fazenda Lourenço: “(…) que nada ter depois é pior que não ter nada.”.
O problema é termos mais carneiros por metro quadrado do que a Nova Zelândia.
O problema é termos deixado que nos ulrichassem o 25 de Abril.
O problema é sermos precisos dez milhões de sem-abrigo para sustentar um único Ulrich.
O problema é que o que ontem era República hoje ser Reprivada.
Quando deixaremos nós de ser um estábulo manso de carneiros da Nova Zelândia a que qualquer besta de pasto vem acertar as horas de pulso-Rolex? A que horas é que o pastor dos carneiros vem, sustentado pela ordenha do Estado, conferir-BPI a hora da ração?
A que horas acertaremos enfim a hora da razão?
Ou, alvalademente falando, quando é que seremos dez milhões de sportinguistas a correr com o Godinho que não querem o Coelho de ninguém?
Eu sei o que diz Molina. Mas esse é espanhol. Estou mais para adulterar um provérbio asiático, fácil de perceber até para o resto dos dez milhões de carneiros que não são asiáticos mas vivem entre Tavira e Valença. Assim:
Se vires um pobre, não lhe dês peixe algum; dá-lhe o Ulrich e ensina-o, ao pobre, a amanhar.
O Ulrich.



Monday, February 04, 2013

INTERVALO



INTERVALO

Leiria, 3/II/2013, domingo

1

Em banco de pau ao sol pactua-se bem com o fresco da manhã fria. Pouco demora a hora (ora mais, que envelhecer é o principal dos meus trabalhos). As manhãs são o içar do prumo, que o meio-dia nivela, a tarde desfralda e a noite guarda na caixa. A obra é testemunho e testamento. A minha, também. Grandes viaturas de passageiros (mas quem não é passageiro?) estateladas ao sol no parque largo: como se caídas de uma rodoviária sideral. Uma pouca de terra estendida ao azul, pingado já o sincelo. E no pátio ao lado da taberna, a feminil laranjeira, noiva de ninguém.

2

Tudo o que me resta do passado é o próprio corpo.
Com ele escrevo intentando não ser, tão-só, corpo tão só – sem nem passado, quanto mais presente.,

3

O trabalho fosse varrer praias no Inverno. É como estou na Língua – e o que faço nela. Há muito não tenho um cão. Comigo, é o dicionário que ora anda pelas ruas. Ele me late seu latim, que em Português lambo e aproveito. Nisto, foge-me o cão prai’afora: e eu sem saber com que letra chamá-lo.

4

O paradoxo é a disfunção eréctil crescer tanto.

5

Tenho ainda alguns dias, talvez anos.
Penso isto ao sol, entre gente que não conta o Tempo, mas que o Tempo desconta.
O Tempo numerado, enumerável – mas inumerável.
É a maior vocação que me conheço, esse Sacana.

6

Tanto julgo não ter sido mau jovem,
quanto espero não ser apenas um bom velho.

7

Parece que um gajo me disse assim da minha terra:
– Pá, a Pedrulha não é Coimbra.
Eu não tinha dito que era. Eu tinha dito que era em.
Respondi-lhe com justo vinagre que:
Ó meco, ao contrário de ti, a Pedrulha sempre é a norte de alguma coisa.
Foi como tê-lo mandado ir cagar a sul de nenhures, que nunca mais o vi.

8

(A verdade é que há muita coisa e muito alguém que nunca mais vi.) 

XELINHA - 4 DE FEVEREIRO DE 2013





NOS 69 ANOS DA MINHA RICA XELINHA



O fruto do trabalho da árvore é o fruto mesmo.
A árvore não recolhe o fruto do seu trabalho.
O fruto que recolhe a árvore é o frutificar em si.
E antes dele se paga:

em flor.

Sunday, February 03, 2013

Da tarde de hoje, domingo, 3 de Fevereiro de 2013





I

DANTE
VIDA NOVA

Leiria, 3/II/2013, domingo

(…) conversar c’os mortos,
Quero dizer, c’os livros (…)

(CORREIA GARÇÃO, Sátiras, Sobre a Imitação dos Antigos, vv. 128-129)




Em Vida Nova (trad. de Carlos Eduardo de Soveral, ed. RBA, 1994), Dante Alighieri (n. Florença, talvez Junho, talvez 1265 / m. Ravena, 1321) expõe-se-nos em prosa. O narrador comete sonetos  também em forma pura, que divide e nos explica.
Ama uma Beatriz, que vem a morrer, talvez, ao mágico número 9 (de Junho de 1290).
O narrador diz-se de quase (também) nove anos de idade quando a viu, primeira de e entre todas, pela vez prima.
“Levava traje de nobilíssima, singela e recatada cor vermelha, e ia cingida e adornada da forma que convinha à sua pouca idade.”
O Amor (maiúsculo, divo) não mais o largou.
Dias, visões, divisões e versos sucedem-se como páginas vitais: mas o livro é o mesmo sempre, como para sempre o Amor mesmo.
O profeta Jeremias empresta-lhe(s) o latim abonatório (e venatório):
“O vos qui transitis per viam, attendite et videte si est dolor sicut meus” – “Ó Vós todos que passais, detende-vos e vêde se há dor igual à minha.”
Pergunta-se o Amante se “os nomes resultam das coisas nomeadas”.
Responder-lhe não sei, pelo que prossigo até uma página maravilhosa – aquela em que, perguntando-lhe um amigo que raio tinha ele, pois tão merencório (ou macambúzio) ao mundo (a)parecia, esta resposta lhe foi dada:
“Pus os pés naquela parte da vida além da qual se não pode ir com a intenção de regressar.”
Noutra página, o narrador/sonetista assim incide:
“O rosto mostra a cor do coração.”
Vão-se mais e mais depurando (ou purificando) os amáveis versos amantes, a ponto de a prosa mesma os sublimar. Por exemplo assim:
“(…) o Amor não existe por si como substância, antes como um acidente na substância.”
Morta a Amada, redivive o Amor – mas não sem que a visão de certa dama que o via já violáceo (ou “purpúreo”) de tristeza o atraísse. Grave desconcerto, o dele: sabia-se chorando Beatriz mas também olhado piedosamente por Outra, a quem ele desejar começa a. Ora, tal não pode ser. Diz ele que é “vil”.
Daí que olhos e coração e alma e o diabo.
Vale bem a pena transcrever aqui na íntegra o soneto, em que o imo poético se vê todo metido às onze-varas da camisa cujo pano é agarrem-me que eu vou-me a ela e vivo-a.
Vem o soneto na coerência de uma nota proémia, esta:
“Deste soneto estabeleço duas partes em mim, conforme eram divididos os meus pensamentos. A uma delas chamo coração, isto é, apetite; à outra, alma, isto é, razão; e digo como uma e outra falam entre si. Que seja apropriado chamar coração ao apetite, e alma à razão, é assaz manifesto para aqueles aos quais me agrada que o seja. Verdade é que no soneto anterior tomei o partido do coração contra o dos olhos, o que parece contrário ao que digo no presente; digo, por isso, que entendo aí coração pelo desejo, pois que maior anelo era o meu de recordar a minha gentilíssima amada do que ver esta outra dama, embora já sentisse algum desejo desta, apesar de ligeiro.”
O malandro.
Posto isto, o soneto, que é de bonita claridade:

            Pensamento gentil que vos pertence
            amiúde vem a estar comigo,
            e fala-me de amor tão docemente,
            que faz nele consinta o coração.
            A alma diz então: “Quem será este
            que vem a consolar a nossa mente,
            e é de virtude tão potente,
            que nenhum outro deixa estar com ele?”
            E o coração responde: “Ouvi, alma cuidadosa:
            é este um novo espírito de amor,
            que traz até mim os seus desejos;
            a sua vida, e todo o seu valor,
            flúi desde os olhos da dama piedosa
            que se afligia com o martírio nosso.”

É o que ele vem depois a referir como “versário da razão”.
Digo eu que “adversário” também, sem risco de falhar muito.
É já pelo cair do pano do livro. O narrador (em “vulgar”, por oposição ao latim que o impediria de chegar em bom apuro de significação a maior público) sente em si “uma forte imaginação, pela qual me parecia ver a gloriosa Beatriz com aquelas vestes sanguíneas com que me apareceu na primeira vez; e aparecia-me jovem como nessa altura.”
Traições do muito querer, que nem o escrever volve menos fantasiosas – bem antes pelo contrário.
Comove ouvi-lê-lo assim:
Comecei então a pensar nela (…)”.
Acabam-se-lhe-&-nos as páginas de Vida Nova.
Em suspense ficamos todos quando, no acume, ele nos revela ter tido “uma maravilhosa visão” – de que, sacana, nada mais revela. Diz-nos, tão-só, que estuda com dignidade para conseguir “dizer de Beatriz o que não foi [ainda] dito de mulher nenhuma.”
Garantido (pelo menos a mim, que com ele passei bela e beatrizmente a hélia tarde de domingo) é que, pela mão de Alighieri, nada jamais fica a ser como Dante(s).