Thursday, January 31, 2013

Rosário Breve n.º 294 - in O RIBATEJO de 31 de Janeiro de 2013


O amanhã de Hegel a partir de uma cabeleireira

Costuma vir aqui à Rita uma cabeleireira muito bonita a que os insensíveis podem chamar gorda mas eu não. O que ela é, é de uma pujança sumarenta. Discretamente a aprecio, sobretudo quando bebo a conta, que é quando a mente se me evade de própria vontade à grave lei da gravidade, parecendo então flutuar na superfície lunar. De abundante bunda andante ela é, deveras e de facto. Mas – aquele rosto fotografa-se a si mesmo, de tão clara gravura o mesmo é de e em si. Os dentes não são menos do que perfeitos marfins rendilhados. Os lábios valem ambos por um bífido tratado da arte de recortar. As pestanas pulsam sedas lubrificadas a óleo de noz doce. As orelhas parecem poucas, por só duas e de tão porcelana. E os olhos escurecem discrições do mais virginal pudor, atenta a qualidade pluvial desses charcos.
A sul do rosto, as mãos, assim papudinhas, pedem brinquedos masculinos, que eu aliás tenho. O bom seio aponta-a ao futuro, que risonho largamente a merece toda. De diáfanos tules revestida, odalisca-se sem esforço à fantasia do retratista acidental em que me converto cada vez que a marro, perdão, narro. Sucedeu ontem com ela uma coisa muito engraçada.
A coisa com ela muito engraçada ontem sucedida foi que, folheando ela o jornal em distraída solidão (nunca, felizmente, a vi acompanhada), se dela soltou a seguinte exclamação:
– Ó caraças do meu Sporting!
Foi inevitável: nós, homens de esplanada-galeria, desatámo-nos a rir como perdizes benfiquistas ante a falência do leonino perdigueiro. Ela ficou a modos que embaçada. Isto, primeiro. Mas depois também alinhou na perdigotagem hílare. Aquilo passou.
Esta manhã, ela voltou. Vinha mais bonita e mais atrevida. Até nos bom-diou, a sacanita. O colo vinha-lhe enfunado de uma gaze roxa à Senhor-dos-Passos que não só lhe ficava a matar como nos matava, a nós homens de galeria-Rita. O amplo seio, de uma turgidez fasta e nefasta, inchava de seiva respiratória e esplendente de carnação a mais moranga. Levíssimas sandálias ourejavam dela os pés muito brancos, muito alados, muito capazes da mais etérea volatilidade. O todo da figura grassou entre nós, través e a nós cada um, o aplauso cardíaco-eufórico da arritmia. Parecia até que a cor houvera mudado à manhã do dia. Ofertara-lhe eu sem desperdício a fortuna do borboto em cotão do meu bolso. Só por ela deixara eu, avelhentados os dentes, o serrilhar onicófago. Sim, juro. Mas ela nem me conhece nem me reconheceria d’ébano entre homens claros.
Ela virá amanhã, confirmando na vi(n)da a tese tripartida de Hegel: ontem/tese/hoje/antítese/amanhã/síntese. Na mesma será bonita por mais um dia. E nem sabe que o seu cabeleireiro aparou cabelo a uma crónica, o que só em beleza a prestigia.
E amanhã será, por síntese, ó Dalila!, para este insensato Sansão, um outro dia.



Wednesday, January 30, 2013

AMADO AMATO - antologia poética de celebração dos 500 anos sobre o nascimento de Joaquim Rodrigues de Castelo Branco (Amado Amato)


Acabo de receber dois exemplares desta Antologia em honra poética de Joaquim Rodrigues de Castelo Branco (Amato Lusitano) pelos cinco séculos do nascimento do médico judeu. Participo, a convite do organizador Pedro Miguel Salvado, com um texto duplo na página 38. Este aqui:


DUAS DISTRACÇÕES PENSATIVAS DE AMATO LUSITANO TOMANDO O CHÁ JÁ FRIO


Essa ocasional bondade de algumas pessoas
saltando-nos à cara como um gato furioso:
quanto me comove tal negação do Deus dos padres,
da moral que nada quer do físico nem de físicos.

Vivi a minha vida, estou hoje talvez morto
mais do que nunca, dada a medicina das máquinas
e a vigília perpétua da igreja ao fundo da rua,
a que as almas acorrem agradecendo milagres
que eu prescrevi, precavi e tratei como um homem.

Mas essa ocasional bondade,
essa galinha viva no cesto,
esse Isto é para si, Doutor, não me queira mal,

quanto me move e comove,
morto embora.
Ou talvez não tanto assim, valha-me Deus.
Ou um gato me valha.

*

Uma fúria de aranhas ou de abelhas
me volvesse cínico, não clínico.
A superstição mais crédula me creditasse,
não o honesto estudo nem a encanecida ciência,
essa paciência inútil, por filantrópica.
Mas se de Júlio César a Gália Transalpina
se divide em partes três, já o humano coração,
havendo-o algures, em válvulas quatro se
divide.

Divide.
Antes unisse.

Thursday, January 24, 2013

Rosário Breve n.º 293 - in O RIBATEJO de 24 de Janeiro de 2013




Homem-do-fraque à Presidência já!

Se o Brasil teve como presidente um Silva que era Lula, nós vingamo-nos mantendo um Silva que é choco. Choco que faz correr muita tinta, ainda por cima.
Tu, leitor desalmado meu, ris-te, mas olha que a metáfora cefalópode é triste. Esta que te escrevo é crónica feita de pé desde as sete da manhã na fila do Centro de (des)Emprego cá da parvónia. Já daí vês que mais me corrói a bílis do que me rói o gozo. Se comigo recuares em espírito datado ao tempo do famigerado Cavaquistão (quando os dias eram loureiros e de artes limas), saberás que foi então que, por superior desmando e a córneo imperativo da vaca estúpida de Bruxelas, o então primeiro-ministro assinou de cruz a destruição, por abate, da frota pesqueira e da safra agrícola íncolas. Nem o Tenreiro da Outra Senhora nem o mefistofelismo alucinado do Barreto desta se atreveram a tanto, ó leitor! Perdoar-me-ás ou não (sinceramente, também não quero saber se sim ou sopas), mas não consigo ser compassivo nem deixar de cuspir no fósforo que me queima a alma e o bolsilho dos cêntimos. Em qualquer ajuntamento folclórico, perante um vulgar grupo de cavaquinhos, nunca deixo de sentir que aquilo é mas é um grupo de bêpêénezinhos. Se eu mandasse, a Presidência da República seria entregue ao homem-do-fraque, não a um homem fraco, não a cúmplices acatadores e persignados e genuflectidos do ataque mais intolerável aos direitos mais básicos e mais inalienáveis da dignidade de todo um povo. Se fosse para viver de joelhos, eu seria guarda-redes de hóquei em patins, não sei se ’tás a ver…
Sim, se eu mandasse, poria o BPN todo na prisão sem que a vaca tossisse ou ficasse feita ao bife. MECA é o que o chamo ao duplo mandato presidencial: Mumificação Em Curso Acelerado de uma responsabilidade que era suposta como de salvaguarda da Constituição, que é (ou deveria ser) Lei Fundamental por ser lei e por ser fundamental. Mandando eu, o Mexia da EDP teria de vir a Santarém explicar ao pessoal a estranha dendroclastia precoce do município local, que abate árvores em vez das devidas moitas e das endividadas flores. Chiça, que a indignidade também cansa, pá!
Ouve-me: eu sei que não é possível carochinhar a qualquer actual ou pretérito desgovernante a história da Branca de Neve e os Sete Anões sem que ele, ao espelho, queira saber onde estão os outros seis. O velho Cícero bem prègou no deserto pré-bíblico quando assentou, com admirabilíssima concisão lapidar, que “não há honra onde não há justiça”. O ricto mandibular de Cavaco não sinaliza suavidades analgésicas de ter lido o anticatilinário orador romano, bem o sei eu. (E sim, señor Presidente, os Cantos de Os Lusíadas perfazem a dezena.) Pois. Mas é que para a reforma dele trabalhou mais de meio século febril e fabril o meu senhor e saudoso Pai, a quem, ao cabo de uma vida de honesto e perfumado suor, escarraram no rosto a esmola de 27 contos até que a morte o tratou por tu, pá.
A 21 de Abril de 1977, leitor, ficas a saber que, em palestra na SEDES, António José Saraiva depunha que “no caso português, para dar um exemplo, uma política de austeridade só poderia ter como resultado uma diminuição dos empregos e o desaparecimento de empresas.” 1977, ó leitor! Há 36 anos que o caminho é claro como água lavada. Na mesma data e na ocasião mesma, o mesmo AJS assentava com todo o acerto que “a sociedade de mercado é incompatível com quaisquer valores, excepto um: o valor monetário. Tudo o que o favorece é bom, tudo o que o contraria é mau.” Pois é, pá, pois é, povinho. E de que nos vale que, oito dias depois (a 29/4/77, no velho Diário Popular), o co-autor (com o grande Óscar Lopes) da melhor História da Literatura Portuguesa invocasse a “máxima kantiana segundo a qual todo o homem deve ser tratado como sujeito e nunca como objecto por qualquer outro homem”? Diz-me tu, ó leitor, que também és sujeito e não é aqui que hás-de ser tratado como objecto. Olha que até uma figura oblíqua do Bloco de Esguelha (Daniel Oliveira) deu na mouche quando, lapidar e concisamente também, se referiu ao inenarrável “ministro” da “Economia” como figura “que se comporta como uma criança num velório”.
O trocadilho supra da lula e do choco, leitor, merecerá de ti, talvez, que passes o jornal ao amigo que a teu lado bebe café e resmunga indignações de café também. Talvez. Mas repara no quanto chove lá fora para comigo concluíres, em irmanado acerto, que a diferença entre o mau tempo, de um lado, e o desPresidente e o desGoverno, do outro – é que na verdade só o mau tempo mete respeito. 

Tuesday, January 22, 2013

A minha Mãe a falar (e eu com ela) no dia 22 de Janeiro de 2013



(xácara nova)

Não ficarás imune nem às anémonas nem aos erros cometidos.
A vida é muito bonita quando já passou.
A vida é muito mais bonita quando não se passa nada.

Benditas sejam, Filho, a tua aguardente & a tua demora.
Pensas em mim, sou a tua Mãe, dúvida nenhuma nos resiste.

Junta lenha, junta pão, junta-te a quem te quer e não perde.
Perder é mau vício, Filho, perder é mau vício.

A começar, Mãe, pelo de perder Tempo.

Isso, Filho.
Vejo que te fizeste homem.
Agora,
adeus.

Sunday, January 20, 2013

Trabalho do dia 8 de Janeiro de 2013, terça-feira que foi




SEIS TRÊS VEZES CADA VEZ PARA FAZER-ME TUNA CADA VOZ

Leiria, 7/I/2013, segunda-feira

I

Tenho sabido desconhecer com pertinaz valentia o que aí vem.
Uma pessoa nasce, o corpo faz-se homem, o coração nem tanto.
Apurei razoável técnica no atirar pão a pombas, entretanto.
Entretanto e a tantas, que de pertinaz contumácia são elas também.
Ao meio-dia e qualquer coisa telefonei já ao sobrinho Ca’litos.
Fez-se ele outro homem, trinta mais cinco contam seus dele os anos.

O que aí vem:
este cão dourado esperando, vivendo só cada dia só;
a ambulância em sossegada marcha regressando de serviço;
o bigode do senhor polícia pensando no jogo de sueca sábado próximo;
a reuma-pneuma da senhoria cheiinha de euros na Caixa;
a manteiga liminar do pão do amor fatiado em dois corpos.

Não desconheço tudo, que o olhar exerço bem, só que verbalmente.
Anoto com minúcia o desmando convencional dos elementos mundiais.
A minha rua, que foz se faz em avenida, basta-nos bem por cosmos.
Sempre bastou.
Aos anos que assim estou/sou.
Periferia é o que posso trazer da Poesia.

II

Falei com as filhas, uma só de cada vez por enquanto.
Não pude ainda organizar para elas o espectacular ágape.
Sumos e torradas para todas ambas, uma vez na vida os três.
Tenho dado pão conjunto a outras pombas.
Um homem é um homem, há que municiar provisões.
Os meus Pais morreram, as ainda me vivem.

Portanto:
a chegada de luz no rosto em sombra deve versejar.
Versejar-se, não: o próprio não conta, sua criação é que sim.
Não é que com isto defenda o estruturalismo abiográfico.
O que defendo, é o que não ataco mas acometo:
o amor invencível, a ligação invencível, a invencível perda.

Chego-me ao balcão e, porquinho-da-Índia, grunho delicadezas.
Um copinho de doce, uma locução meteorológica, um aleluia português.
Nêsperas & damascos, botas-de-borracha & charcos, hesíodos & plutarcos.
É a terça-feira que todas as segundas profetizam à primeira.
Não é difícil.
Difícil – é não saber desconhecer: mas isso eu sei. Ou hei.

III

Pássaro não seco, sumarento antes, congregarei meus benévolos fantasmas
em mental diáspora por vezes livresca embora mas não sempre.
Linhas e linhas de montes montando a geometria afinal una:
quanto basta a que cardíacas cordas se façam tuna.
Da pessoália fernandina, a prazenteira tríade não era
um pacote de cigarros / uma chávena de café / um romance policial?

Era. E não só tal era, claro que não, mas isso era.
Penso por vezes nessa ilha-de-vozes Fernando chamada.
Penso nele como em Pessoa que se conhece na rua, mas dentro não.
Ele tirou o circunflexo ao O para se um dia na vida em vida publicado em Inglês.
Coitados dos Ingleses, coitado do Crowley, que Maugham parodiou
e cuja mansão o Jimmy Page comprou.

Vou a Pombal amanhã? Vou hoje?
A decisão cabe ao meu avatar literário.
Uma taça de sopa, as migas de um resto de pão, uma atenção
prestada ao acumen de que Poe faz a distinção
abdutiva.
E que o resto do dia, Pombal ou não, se viva.

IV

Que o que aí vem, novidade seja – não no falar mas no escrito.
Falar – é tipo Otelo Saraiva de Carvalho.
O escrito é Poe, é Pessoa, é Kafka, é Joyce, é Proust – e é agora.
Agora é a síntese de enquanto-há-tempo.
Não é queimar uma revolução, é fazê-la.
Uma pessoa entende esta sextilha como um recado já não futuro.

Agora, agora – é quando ela chega, assim de verde-preto enroupada.
É como se ser e aparecer tão bonita lhe não custasse nada.
Uma rosa de dentes em piano é sua dentição de marfim,
a mim o quase-ébano dos lábios me custando carmim.
As senhoras rodam em falas de salão, o chá bule-se a si mesmo.
E não sei que seja, se a beleza não for sempre cataclismo.

Dou um recado em cinza desta tarde, que luz foi a que pôde.
Ao tempo tudo concorre, acorra nada embora porém.
Eu sempre soube disto, eu juro que sempre soube.
Era portanto no tempo em que a minha Mãe,
desertada de filhos entretanto crescidos-idos à vida,
à ávida vida, dizia:

V

Seria preciso que não percebera de tua senhoria o mando
para que regular coubera minha presença mandada.
Isto, bem no sei, foi tudo espera mais que nada.
E agora os dias são mais que amanhã, d’aves um bando
que a gente coleccionou de quanta ave amestrara.
Recorda tu: praça-dos-táxis, Coimbra, ao Calhabé:

andava eu então sabendo o que da própria Mãe a morte é.
Moedas sempre poucas, mas tal riqueza de esperar,
qu’inda hoje em triplas sextilhas sei recoleccionar
essas horas-de-chuva, esse verão-de-ervas, quando, no Café,
um telefonema podia, por poema, valer a leitura,
toda a leitura, toda a secura, toda a espera afinal procura.

Sou ainda esse gajo, esse almocreve doido por lápis & azeitonas
que por Lisboa rastejou perfumes de mal-lavado.
Era na Rua de S. José. As putas mais masculinas e boazonas
deixavam pelo chão as roménias e as ténias do esburacado.
Espera. Tu agora não respires. Atende. A gente agora compreende.
Maravilha de aqui ao pé: vai estalar: é no Calhabé: vais-me telefonar.

VI

Se eu escrevesse: OLHA, MORREU O ALVES DA PASTELARIA;
ou se: COME METAFÍSICAS, Ó PEQUENA DE CHOCOLATE,
ninguém senão de mim se riria (mais do que leria ou Leiria),
dada a crua ignorância do dislate.
Mas no entanto o Alves morreu
– e, graças-ó-caralho, o Alves não era eu.

Eu só preciso de me não mandarem versos as pessoas que não são versos.
Tenho a caixa electrónica do correio cheia de poemas-lidl.
Eu não sou a caixa-de-exclamações-do-Continente,
aí-ó-foda-se!, aí-ó-gente!
Eu sou, de facto, um poeta-de-pastelaria
mas não sou nem o Alves nem morri (nem seria agora que morreria).

O tédio não me mata, só me refracta ou retrata, nem me retracta.
O facebook é porreiro porque, a cada música que não compus
e lá-nele meto, pareço tê-la composto e ser um gajo bestial.
Não sou. O que se passa, é ter-me o tédio nascido em Portugal.
O Alves do Pessoa é outro gajo: espreme por aí muita borbulha
que eu, sendo da Pedrulha, não pus. Nem pus, nem acne. Nem Tabacaria.

TRÊS SONETOS PARA ASSESTAR O FIM DO DIA

I

Percebo da juventude a vontade aérea.
Não má é coisa tal, que eu já não tenho.
Sobretudo, e sobre tudo, sobrevoa a via venérea
dos mortos que amei e que mantenho.

E de vivos, tu, nada? De vivos tudo,
que deles tudo vivo, como se família
me fosse o sobrevoo sobre tudo
o que é morto e vivo e caco de mobília.

Sim, percebo da juventude o arejar.
Do meu melhor lápis lhe dou o afiar
e o papel do caderno nunca é de menos.

Ainda ontem, que vi a Fátima ao passar,
disse-l’ eu assim: Ó Fatita, ó arejar!
Há muito a conheço: desde pequenos.

II

Pela morrinha matinal serás bem-vinda
a renascer preclara em tua luz.
A noite já não é, a noite é finda.
(Salvação-porra-caralho-ó-meu-Jesus!)

Dos pés que trazes frios para a cama,
os toques são ligeiros de pardal.
Encosta o gelo leve a quem te ama,
qu’inda bem que tudo ora é conjugal.

A meus que amo fora de mulher,
o amor não confundas, que o mesmo é:
um querer ter, e tê-lo, e nele crer
e sempre ter sido como hoj’ ele, a nosso pé,

diz que sim, que teu Pai é vivo, q’ o laranjal
é na Rua das Pedras (a da Bruxa), Guia, Portugal.

III

Ramura de lílios trouxera coisa pouca
marujo que abrevindera doutrasbandas.
A não merecia Maria, de tanlouca;
merecia, e as teve, sesmaritimandas.

Luz dazeite vingara vinagrencómio.
Corria carrodebois que mui gania.
Atão mazist’é ora manicómio?
Não, qu’isto é duro ouro-ferraria.

Diz-me: Vens cedo tu p’ra casa tua?
Dizes-me: Eu vou e vou vestida e toda nua!
Ó céus abreviados de meus torrões não costumados!

Ó véus transdecerrados de meus crus antepassados!
Diz-me: Vens cedo tu p’ra casa tua?
Dizes-me: Eu vou e vou vesporti e toda tua!

SE TE NAMORAREM AO CABO DO TEU DIA, TU OUVE

A pessoa que chega ao fim do dia de trabalho é uma pessoa que se fez boa.
Não há que dizer dela a não ser que chegou, que (se) partiu mas chegou.
Se chegou, foi suficiente: e isso é coisa boa, a mais boa
que há a dizer de uma pessoa.

TENHO SONHADO MAIS

Tenho sonhado mais que de costume.
Percebo na incongruência que toda a gente morre mas eu também.
O amargo do sonho é isso não me fazer espécie alguma.
O amargo de acordar é ainda ser espécie.

Quando ao fim de cada dia falamos do que de jantar,
eu sei que não estou sozinho, vivi já num quarto-renda,
eu não ando aqui só no pátio-das-cantigas-do-chapéus-há-muitos,
eu às vezes digo arroz-de-feijão, eu às vezes digo ruy-belo.

Acordo do corpo, os pés mexem-se como lulas autónomas.
A boca estala babas acumuladas.
Eu às vezes pareço sinceramente um velho sinceramente.
Outras vezes acordo, dou pela roupa no sítio, não se passa nada.

O borrão da quinta, o borrão da tinta, a ínsua de larangineiras:
terras de Pais, idos-idos-não-olvidos-e-isto-por-uma-ou-duas-
-gerações-inteiras. Tinteiras.

Tenho sonhado mais.
Olha,

esta noite

Thursday, January 17, 2013

Uma brincadeira de hoje, quinta-feira, 17 de Janeiro de 2013


De narração rima outra se me não antolhara
a necessidade, que esta.
Era, disse, pela manhã, e eu havia fome,
mas que comer, nada.

Telefonei, claro. De duas partes, dois partidos
do coração amigos m’acorreram socorrendo as partes.
Os três fomos, como se ambos só dois,
a comer: e foi lauta almoçarada

que feijoámos com carnes e de vinho pichéis
pressurosos, atento como de madeira suave
o pão estaladiço e mui morno.
Melhor é o ter amigos que ser corno,

isso é.

Rosário Breve n.º 292 - in O RIBATEJO de 17 de Janeiro de 2013


Em palaciana levitação

Em uma espécie de suspensão nos próprios sais: assim me sinto e ando. Como num dia de temperado inverno que o sol esclarece de quando em vez. Como nos sonhos da noite, que me (a)parecem tecidos e bordados pelas fragmentárias penélopes do pensamento sem lápis à mão nem mão. Sem luto, às vezes. Sem luta, às vezes. Uma “suspensão”, disse eu? Digo – uma levitação. Mais de olhos que de pés na terra – confesso.
De cada dia, as solicitações comezinhas da vidinha: fechar sempre a gaveta das meias, descer rebordo e tampo da sanita, mudar finalmente o arrancador do néon da cozinha, ver se é hoje que Cristo volta à Terra, agora que o mundo acabou a 21 de Dezembro passado.
Também se pode tomar o dia por palácio, resultando curial habitá-lo em domínio. Nem todos os dias é possível apalaçar a mutualidade corpo-vivo/horas-mortas. Mas, levantando-se cedo a pessoa, a evidência do Tempo é a mais reparável: em reparo como em reparação.
Na volta, reconquistar a casa, os países que cada casa, para ser Casa, deve dispor em domínio & dominação: sítio do pão, altura das louças, guarda dos livros, sarcófago das roupas, disposição territorial-operatória das máquinas, alfobre das velas, das conservas, dos sapatos, dos instrumentos de limpeza, do cinema não tão mudo quanto isso dos retratos.
Não por regra mas premeditada excepção, apanhar uma bebedeira impune e republicana à deputado(a) de agora – mas uma cardina tal, que, caindo ao chão, seja preciso apanharem-me à colherada de entre os escombros do figurativo hemiciclo pra-lamentar do chão. Na ressaca, verificar que Cristo não volta porque não existe, a necessidade dEle é que sim, à maneira do pobre com fome mas sem pão, pois que o alimento não é anterior à necessidade de o encontrar em criação. Adiante, porém. Aproveitar o retorno à sobriedade para escrever um par de versos, guardá-lo e partilhá-lo. Este par de versos: “Tenho sabido desconhecer com pertinaz valentia o que aí vem. / Uma pessoa nasce, o corpo faz-se homem, o coração nem tanto.”
Entrementes, fazer tudo e mais alguma coisa por não deixar que a íntima hialurgia rache de vez e de repugnância ante a sordidez engravatada dos “senhores à força / mandadores sem lei” que telejornalmente evangelizam a urgência de a humanidade deixar de estorvar os números, acabando sim com a miséria mas pela fome, que a um pobre morto nenhuma esmola se deve, a bem da Nação.
E, finalmente, sossegar a interior procela com a bonança da II.ª Ode Olímpica de Píndaro: “Das nossas acções / justas ou injustas, nem o Tempo, pai de quanto existe, / pode conseguir que não tenham sido praticadas, / nem pôr-lhes termo. O olvido poderá surgir, / se houver sorte.”
Sossegada enfim a procela, pois, abrir em pleno os estores do olhar ao sol do dia, que, ao contrário do Messias e do néon da cozinha enquanto o arrancador da lâmpada não for mudado, acaba sempre por voltar de jeito a iluminar a santa e palaciana paciência do meu leitor.


Friday, January 11, 2013

Rosário Breve n.º 291 - in O RIBATEJO de 10 de Janeiro de 2013 - wwww.oribatejo.pt



Águas, pontes e ladeiras  

Ao quarto dos ainda poucos dias do novel ano, parece ter-se demitido de administradora-executiva da Águas de Santarém a senhora que dá ao mundo por nome Marina Ladeiras. À data em que escrevo (terça, 8), não sei mais grande coisa. (Minto: sei, mas sou só cronista, pelo que as minhas pizzas, por e para exemplo, pago-as eu de meu bolso.) Desconheço, por exemplo, a posição oficial do multipresidente Ricardo Gonçalves, que ao que sei até anda de carro próprio as mais das vezes. Mas conheço em mim uma suspeita. Esta aqui: a de que Marina nunca deve ter lido Gaibéus, fundamental, documental e monumental obra do também monumental Alves Redol. Não deve. Eu acho que ela, Marina, deverá muito coisa, mas que tal não deve.
Se o houvera feito, teria talvez (ou não) reconhecido na gesta humílima dos trabalhadores de todo o País (que acorriam ao Ribatejo, a pé e sem os quase 800 euros de representação, a dar braços às safras sazonais das planas lezírias de tantas águas ainda não municipalizadas) um exemplo absolutamente maior, desses que é impossível não ter em conta, primeiro, e não seguir, depois, até porque mísera criação não é vergonha; vergonha é, podendo, não mostrar boa criação.
Por outras palavras: Marina, investida de tão graves e de tão honrosas responsabilidades públicas, houvera de sentir-se gaibéu também ela: se não pedestremente Cascais-Santarém, ao menos trabalhadora, por conta própria embora, da coisa que é pública. E em carro dela, cujo não uso acabou sendo, afinal, jeitoso motivo para “desmoitar”, também por ela, e em boa hora, o executivo das coisas scalabitanas.
O gaibéu verdadeiro pode ser cascalense e não ter de vir a pé. Mas. (As conjunções adversativas são o diabo: “mas” implica, por triste contraste, uma “moral”, coisa de que não acuso a dita senhora). Mas, portanto, isto de usar, ao contrário de um Ricardo Gonçalves, um carro que não é próprio para uma viagem que é para os outros, nisso queimando combustível de alheia factura e nisso via-verdejando portagens que nenhum gaibéu tem deveras de pagar, é marinar ladeiras só a descer, que o desmando a nada sobe senão à dívida. (E nisto de dívida, de tostão a milhão deu Moita sobeja lição.)
Será isto, talvez, mesquinha e comezinha inveja minha. Será que não há-de ser: acho historietas destas um abuso, cujo uso me leva à fundamentada suspeita de que o melhor desta anunciada demissão corresponde, ao fundo como à(s) flor(es), ao, por assim dizer, “desmoitar” a que se propõe o supradito Ricardo Gonçalves.
A Coreia do Sul parece mal em qualquer regimento de maçaricos que não tem de ir combater à Ásia um Afonso de Albuquerque que já não há. Levar o marido sim ou não é coisa de felicidade conjugal em que me não meto, até por acreditar que o cônjuge se desembolsou a si mesmo a chatice do bilhete. A questão continua, porém, gaibéu.
Servir o público não é usar calça-preta-camisa-branca como quando os criados de mesa não eram ainda empregados da mesma. É um trabalho como outro qualquer, excepto no não ser privado. Privada, em verdade mo repito, é a evacuação corporal das misérias da digestão. Público é o simples ter nascido: ao curso de ladeiras ou atrás de moitas. Indiferente isso é, que a morte a tudo equaliza.
Alves Redol continua porém, embora, vivo da silva não cavaca. Escreveu e inscreveu gente que, demandando trabalho, o encontrava, o praticava e o merecia.
Na Coreia do Sul como nas lezírias, cujas águas, de todos sendo e para todos nascendo, em forma e firma de do Ribatejo deveriam ser, não da afinal irresponsabilidade de uma mão mal cheia de boys e girls que nem nunca leram Redol nem sabem a quantas águas vão as pontes que, por direitas, nunca de ladeiras foram feitas.

Monday, January 07, 2013

SEGUNDA DAS DUAS ODES EM 17 + 3 - entardenoitecer de 7 de Janeiro de 2013



Leiria, 7/I/2013, segunda-feira

SEGUNDA

Enquanto o tempo (de vida) permite, subir ’inda alguns sítios.
Dar uma volta no azul pelo verde – pode ser dito assim.
A boca-de-cena na noite ardendo casas iluminadas.
Na saleta de uma, edições de luxo: História, Ecologia, Filatelia.
Noutra, a cozinha brilha no branco – mas ninguém é nela.
Parece tudo apagar-se – menos o tanto branco da divisão.
Parece tudo muito tempo – e depois nenhum.
Uma manhã como uma enseada límpida: típica manhã-alhures. 
Isto de deixar morrer os mortos tem de que se diga.
Largá-los na completude, naquilo para que Éter é a melhor palavra.
Ver no centro comercial as famílias, a gordura delas pelas praias.
No grande Campo, as choupanas das alfaias, os cães que as dormem.
Se deveras o Além, gostaria de re(a)ver o meu Cão Amarelo.
E os escuros homens portadores do meu nome, que escurece.


Na dúvida, ser amanhã terça-feira, segui-la.
Segui-la como a uma mulher por conhecer, na duna.
Abrir bem as mães, perdão, as mãos subindo ’inda.

Sunday, January 06, 2013

Entardenoitecer de hoje, 6 de Janeiro de 2013



DÍSTICOS MONOLOGAIS

Leiria, 6/I/2013, domingo


Recebo dos elementos a verdade que lhes é possível.
Mentira, ilusão, aparência, véu – coisas são que eu crio, não o mundo.

Escurece a polpa do ar: a madurez da luz paga-se em noite.
Numa cidade em que não nasci é que devo fazer por renascer.

Cuido do interior jardim nem sempre com boa arte.
Visito mais do que (sou) visto, também e ainda.

Uma nudez assola o moribundo: embrião de novo.
A noite dá-lhe vinho a provar: nem já doce, nem amargo já.

Bruma. A luz coalha-se bruma na visitação da Senhora.
A Senhora é a Noite, viúva do Dia, não amarga e não doce.

Thursday, January 03, 2013

Rosário Breve n.º 290 - in O RIBATEJO de 3 de Janeiro de 2013 - www.oribatejo.pt


Aguarela portuguesa com brinquedo verde


O vento faz-se sentir, altera (redispõe) a paleta dos elementos mundiais, entre os quais ele mesmo.
Uma senhora com duas crianças, uma já andarilha e falante (Mariana), outra que é Eduardo e que de carrinho-rodas é trazido e levado. O Eduardo só crocita, por enquanto. Passa-se isto numa praça a que a manhã estendeu a todo o diâmetro o linho do sol. O Eduardo atira fora um pato de plástico verde. Sente-se manietado, quer livrar-se da tira de lona que lhe cinge diagonal o peito brevíssimo. A Mariana lambe em delícia o creme de um pastel maciço que o açúcar polvilha de átomos de luz branca – como acontece ao firmamento nocturno cada Verão, quando a suprema tela, isenta de nuvens, logra acesso óptico à poalha diamantina em miríade esterlina. Em poucas manhãs, será Ano Novo. A mãe não é já criança, não todavia velha já. É uma Isabel como tantas isabéis de por aí: um vaso de que brotam flores pueris.
Em o entretanto de tudo isto, o vento vai mudando as cores à aguarela: encrespa-se de castanho o verde rio, azulam-se as árvores de sentinela ao céu agora âmbar, trotam, muito gendarmes, os cachorros vadios ora tocados a cor-de-rosa e a amarelo-torrado. Quase álgido, o ar movediço torna a respiração um maquinismo benigno. Não é difícil nem precário entrever as longínquas praias desertas: estendais de ouro comum ao giz volante das aves marinhas, às eróticas dunas configuradoras de ancas feminis e às crespas fragas paredando o que é terra em desfeita de mar.
Mais perto do lápis, Isabel, Mariana e Eduardo terminam sem estrépito a vinda à pastelaria. Saem os três da presente dramaturgia. É quase meio-dia.
A uma mesa de tampo azul-ferrete, um rapaz de quase cinquenta anos urde sonetos difíceis e ilegíveis. Tem no bornal publicações amarelecidas de outros sonetos de outros rapazes a outros ferretes azulíneos postos. Este não comeu bolo. O pastel que lambe – é o da Língua Portuguesa, essa viva confeitaria de tantos açúcares. Ao primeiro dos dois tercetos (onde se começa dando a litotes poente da composição quatordécima, como é sabido), distrai-o a volumetria lípida de uma matrona brasileira que faz do próprio telemóvel um altifalante em tejadilho de carrinha de circo. Adiposa como uma bochecha esmurrada, não parece sentir o envolvente-vento-que-vem-vindo nem pertencer ao mesmo mundo circunspecto do Eduardo, cuja ex-mesa aliás ocupa. Atabafou-se a tropical willendorf de flanelas moles como véus de lamas sobrepostas. É de olhos bonitos e boca feia, orbes mamários de trémula gelatina em bandeja de contralto-castafiore, mãos aduncas de quem sofre não o pão mas o ganhá-lo.
Dez minutos mal contados pós-meio-dia, ergue-se o sonetista. Lesto como se não suporia, acocora-se à base do pilar da galeria. Cata do chão certo pato verde que dele foi há meio século quase, quando a Isabel dele era viva e as pastelarias eram mais raras, mas nem por isso menos as aguarelas que o muito crocitar entretanto lhe/vos veio (a)ventar.

Tuesday, January 01, 2013

BOLETIM - 31 de Dezembro de 2012


© Jonathan Monk
As Yet Untitled I
2010




Leiria, 31/XII/2012

BOLETIM

I

Luxo para mim e luxúria minha,
à matinal brisa não arrepio.
Estou nela tão bem, não sinto frio,
nem minto ser eu tal a andorinha

que a céu aberto escreve suas asas,
primaveril rainha superiora às casas
do pobre burgo baixo, coitado, humano.
Acaba-se hoje e quase aqui o Velho Ano.

II

É esta ainda a força respiratória,
esta ainda a grafia credora do mundo.
De senhoras a pulsão venatória,
da ave solta o risco alto e profundo.

Da galeria as colunas (arbórea pedra)
atiram arcadas curvadas e capitéis.
Por elas fenece (fenece mas medra)
o absorto velho, ex-criança sujeita às leis

do nascer-um-dia-um-dia-já-não.
Procura e trova a pomba a seu pão.
Um carro da polícia, manhã muito cedo:
’inda dorme o ladrão, não há que ter medo.

III

Enamora-se o velho efebo de dados passos
que a não voltar passam, nem mais voltarão.
Coisas que nunca foram, ora são. A oração
por que permaneçam delas os cunhos e os traços

não cabe. Sabe o efebo envelhecido isto de cor.
Nem teima. Nem insiste. Resiste ’inda, p’lo melhor,
a licorar-se de falidas idas tidas ternuras.
Hoje, tudo água-d’olhos. E nas mãos, tremuras.