Thursday, November 29, 2012

Rosário Breve n.º 285 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt



Queres tu, leitor, ser Maia, o Cartoonista?

Esta semana, sonhei que tinha saído o euromilhões ao Maia, O António Maia, O nosso ínclito, egrégio e pátrio cartoonista. Pois foi. Sonhei. Fiquei duas coisas com tal sonho: feliz (por ele) e à rasca (por mim). Feliz, porque sim: um artista de verdade com dinheiro a sério não é todos os dias nem todas as vidas. À rasca, porque o sonho tinha continuação & próximos cartoons, perdão – & capítulos.
Indiferente, ele, à por assim dizer abstrusa e bermuda triangulação de cama (porque afinal, sonhado embora, o bom Maia partilhava comigo & esposa minha o esponsal tálamo), vem-me ele no sonho muito mesmerizante-hipnótico-espiralar assim para mim: porque o sonho tinha continuação & próximos cartoons, perdão – “Daniel, ó pá, porreiro, saiu-me a batelada toda, modos que me vou pirar daqui p’ra fora tipo prà Noruega ou pr’Argentina e de vez, vês, ‘tás-a-ver, só que não quero deixar mal o jornal e muito menos ainda os ainda leitores, modos que fazíamos mas era assim, eu deixo-te umas vinhetas já tudo lápis-coloridas, assim tipo uns cegos a pedir e a dar cavaco, um coelho não porque isso é vulgar mas um gaspar e uma merkel e aquele careca-e-azevedo que fugiu p’r’Inglaterra e o carlos-lopes e a rosa-mota, mais bónus assim a modos que coiso alvarito-da-inconomia, tás-a-ver, tu ficavas com os desenhos e depois só tinhas de fazer, já que não fazes nada, as legendas para os balões das falas assim e tipo e a modos q’o Vasco Santana, olh’ó balão, que era balão e falava ao mesmo tempo, ficava-t’eu muito agradecido, a pontos de que quando cá viesse, se cá viesse ou fosse doido pa’ isso, assim de Buenos Aires ou Oslo, ’inda te pagava umas enguias avieiras e um sável palustre amailuns tintos do Cartaxo e umas talhadas daquele melão espanhol que em Almeirim sabe a independência da Catalunha, qu’é que me dizes?
Disse-l’e que sim. Que remédio. Desde infante que sofro cagufa de meter medo a contrariar sonhos. Daí que escreva. (Até poesia, valha-me o Santíssimo. E boa, valha-me Deus.)
Modos que fiquei com o menino nos braços de legendar o boneco. Por assim dizer. Vamos a isso.
CARTOON N.º 1 – DOIS PEDINTES CEGOS, A e B. Diz o A: “A Merkel e o Vale e Azevedo vieram no mesmo avião.” Remata o B: “Pois é, um mal nunca vem só.”
CARTOON N.º2 – OS MESMOS DOIS CEGOS-DE-PEDIR. Diz o A: o subsídio de Natal do trabalhador é como o Sporting no campeonato. Diz o B (muito compadre): Então porquê? Ri-se o A: A gente sabe que ele devia ali estar, mas não está.
CARTOON N.º3 – OS MESMOS CEGOS PEDINTES MAS COM BATA, GORRO E MÁSCARA ORAL (percebe-se que são eles pelos óculos fumados). Diz o B: Ainda bem que o Gaspar não é obstetra como nós. O A (é a vez dele de ser “compère”): Então porquê? E o B: Porque os bebés já nasciam só com uma orelhinha e menos um terço do cordão umbilical.
 CARTOON N.º4 – Carlos Lopes e Rosa Mota. Pergunta ele: Sabias que o Marques Mendes quis praticar atletismo para imitar o Cavaco? E ela: Ai foi? Não fazia ideia. E ele: Foi, mas teve de desistir dos 110 metros/barreiras porque se aleijava muito na testa.
CARTOON N.º5 – (e penúltimo, chiça). Voltam os pedintes cegos. Ao fundo, uma cruz de santuário e uma trupe de manequins fato-gravata de montra sem cabeça. O A: Ocorre-me que o milagre de sair da crise só levando os ministros a Fátima. O B: Achas que resultava? A: Tentar não dói. Vinha a noite, metíamos os gajos na procissão e lá iam eles. De vela.
Nisto, a minha senhora acordou. Felizmente, o nosso cartoonista já tinha zarpado. Segue-se o diálogo então desenhado:
CARTOON N.º6 – A minha senhora: Tiveste um pesadelo? E eu: Tive. Ela: Deixa, que já passou. E eu: Passou, o tanas. Não sei que raio hei-de fazer ao alvarito-da-inconomia.
Nem vocês.

Thursday, November 22, 2012

Rosário Breve n.º 284 - in O RIBATEJO de 22 de Novembro de 2012 - www.oribatejo.pt



Peço a palavra

Duche tomado, queixo rasurado com pancadinhas finais de loção pós-barba, roupa decente e sapatos não enlameados: eis como todas as manhãs, muito cedo, me apresento ao público regional do café do bairro.
Às seis e ¾ somos pouca gente – e sempre a mesma, para nosso burguesinho alívio. Tenho logo direito, como os demais íncolas, ao nome próprio e a nem ter de dizer ao que venho – que por igual me não variam o baptismo e o consumo. Sento-me à mesma mesa da galeria e cafeíno-me devagar enquanto faço de conta que as não espero. Mas espero-as. E elas nunca me falham, nunca tardam, não deixam de vir jamais: as palavras de cada dia.
São os brinquedos que levo mais a sério. É porque elas trazem pessoas dentro. As palavras trazem pessoas dentro – o contrário é que nem sempre. Sem palavras que as contivessem, as pessoas valeriam menos do que sinais de trânsito numa rua só pedonal. A palavra “Rita”, por exemplo, contém duas dedadas castanhas chamadas “olhos”e um travessão de discurso directo chamado “boca” que emanam “Senhor Daniel, então o cafèzinho a dobrar mesmo como mand’-a-lei, pois atão não é verdade?”. É, Rita.
A palavra “Choupal” voa-me em falso e em vão para uma casa que já não tenho numa cidade que não existe já (os Pais eram a casa, eram eles a cidade).
A palavra “paz” faz-me sorrir por causa do Nobel dado este ano à União Europeia, quando até a Rita sabe (e di-lo sem papas de gaguejo) que “ó senhor Daniel, deviam mas era tê-lo dado aos nossos tribunais, a esses é que sim, ora veja-me o senhor Daniel, o Isaltino em paz, o Valentim em paz, os coisos do BPN em paz, os dos submarinos em paz, os casapiadófilos em paz, é mesmo como mand’-a-lei pois atão não é verdade?”. É, Rita.
A palavra “pedra” não me faz sorrir – por não ser palavra que se ponha nas mãos de meia-dúzia de fedelhos, ainda por cima covardes, que, à frente de manifestantes justamente indignados mas dignamente cívicos, rastilham na polícia uma reacção só cirúrgica no banco das urgências hospitalares.
A palavra “mulher”, tirando a que da particular minha é particularmente continente, é-me já, por má-sina, mais volátil do que a branca cegonha cujo voo caia de alvinitente neve alada os virentes arrozais e os púrpur’anilados céus de Portugal: pois que, à beira não tarda do meu primeiro meio século de idade, já a próstata me as faz ver tão mais formosa’petecíveis quão mais altamente longínquas e mais longemente fora de unhas.
À palavra “esperança” não dou, até por aziaga rima, confiança. O ovo-no-cu-da-galinha não me é filosofia benigna. Será luzinha periclitante ao cabo do túnel do doente terminal. Ou do honesto sportinguista. Ou do crédulo penitente de impenitente e peregrina mania do vai-lá-com-deus. Sou mais do correr do que do fiar-me-na-virgem.
É bem verdade porém que, qual canavial inclinado pela tormenta eólica, tremo o meu bocado à plural palavra que tão singular é: “filhas”. Rosas ambas de alvura a mais nívea, vivo lírio cada uma cujo caule declina a etérea desinência que me levou a ajudar a fazê-las de olhos fechados e braços abertos, fazem-me, agora que deram já as sete e meia, merecer da manhã nova a sagração boa e o bom verniz de estar vivo.
Assim é, pois, que dou por mim cuidando de não atirar, afinal, pedras à esperança, indo em lugar disso com elas, filhas e palavras, um destes dias de melhor sol, a Coimbra rever a casa que era dos meus Pais e que eles eram, sítio onde deveras se aprende o que, em letra e espírito, mand’-a-lei.
Não é, Rita?

Friday, November 16, 2012

Rosário Breve n.º 283 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt




Mas o futuro é que é manchete

Uma coisa talvez muito engraçada que nós, desempregados, temos – é fazermos greve geral todos os dias, por isso bem dispensando nós, desempregados, a chatice do pré-aviso e o cataplasma da data marcada, que marcada bem a temos nós, desempregados, e logo com o destino, que nunca foi pêra doce, antes sim amarga pílula.
Data marcada é por igual essa quarta-feira que foi o dia 8 de Novembro de 1985, vez prima em que o nosso O RIBATEJO viu a luz. Festiva efeméride, que hoje albardamos de anos 2vinte7sete ao dorso muar do tempo que passa.
Ter nascido o jornal foi coisa boa, até porque a extremosa gente da região sabe ler, faculdade que sempre a leva ao pensar. E pensar nem sempre é sinónimo de cefaleia, ao contrário do que as ditaduras têm por garantido e as religiões por anátema.
Como o tempo me não falta senão pela falta que me faz, trabalhando, ter menos tempo, dei por mim na especulação. Não na de capitais bolsistas mas naquela de congeminar coisas do tipo e-se-tivesse-sido-daquela-maneira-e-não-desta-assim? Congeminei eu isto: e se O RIBATEJO tivesse nascido antes, muito antes daquela quarta-feira 8/XI/85? E se? Teria sido o giro e o bonito, avento eu. Já estou a ver as manchetes datadas:
O RIBATEJO, 2 de Dezembro de 1640 – SANTARÉM FOI A PRIMEIRA A ACLAMAR O NOVO REI.
Ou: O RIBATEJO, 19 de Janeiro de 1919 – EXÉRCITO REPRIME REVOLTOSOS À ESPADEIRADA.
Ou: O RIBATEJO, 23 de Maio de 1981 – INSTITUTO POLITÉCNICO DE SANTARÉM INAUGURADO COM MÃO DE MINISTRO – Vítor Crespo fez as honras da casa.
Ou: O RIBATEJO, 30 de Junho de 1984 – EANISTAS CONSPIRAM NOVO PARTIDO EM ABRANTES.
Ou: O RIBATEJO, 15 de Junho de 1985 – TOMAR EANES POR HERMÍNIO – partido de iniciativa presidencial nasce à beira do Nabão.
Não tendo ainda visto a luz do dia nem a da publicidade, natural (e inevitável) seria que o nosso O RIBATEJO não pudesse clamar estas manchetes e se visse, como viu, a entrar vida adentro com um afã de actualidade que por profissional mérito próprio vai levando e mantendo nos tempos que correm. E que correm não se sabe bem para onde. (Quero eu dizer: saber, sabe-se, mas não é boa política estar a amendoar pelo amargo numa ginjinha de festa de anos, que é o que esta crónica afinal é.)
O RIBATEJO aqui está. Prepara-se até para matricular-se num novo ciclo de vida, de que oportuna e mais clara dicção há-de pertencer a quem o dirige, faz e destina. Sinto-me feliz com isso, até porque quinta-feira (ou seja, hoje, 15) vou muito arrepimpadamente almoçar à velha Scalabitas com gente que é pessoalmente boa todos os dias e profissionalmente óptima todas as quintas-feiras. O que quer dizer que é gente boa até no dia seguinte.
No dia seguinte à tal quarta-feira, 8 de Novembro de 1985.

Thursday, November 08, 2012

Rosário Breve n.º 282 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt




Pode ser que saia

Nos antigamentes da “Outra Senhora” era naturalmente à boca-pequena que se murmurava um chiste anti-salazarista de largo espectro de acção perfurante. Tratava-se de determinar com exactidão qual era, de facto e deveras, o número de saias com acesso ao gabinete privadíssimo do ditador. Ao contrário da boa prática tão própria dos mais exímios contadores de anedotas, começo pelo fim, esclarecendo desde já o enigma. Eram sete, as tais saias. Contai-as comigo.
A da D. Maria, criada de e para todo o serviço. Uma.
A do Cerejeira, cardeal-patriarca do regime tão mais católico quão menos cristão. Duas.
O doutor Bissaya Barreto, influente e reservado confidente da tenebrosa aventesma, conta sozinho por mais duas (bi+saia). Vamos, portanto, em quatro.
E as outras três?
As outras três eram todas, e só, do Povo. Do Povo, sim, posto que quando, por absurdo, distracção ou milagre, o Povo lograva penetrar no tugúrio oficial do Salazar, este, histérico de repugnância e eriçado de nojo à vista da comum gente, apalitava-se logo nas aracnídeas canelas e guinchava: “Saia! Saia! Saia!”
Eis que assim temos, pois, as tais sete saias bem contadinhas: se não pela anémica narração minha, ao menos por exacta e pragmática aritmética.
Pronto, esta já está. Já está mas ainda me sobram papel que encher e tinta com que o fazer. É com contada e contida liberalidade que proverei ao devido número de caracteres, para satisfação e alívio do departamento gráfico deste jornal que dá riba ao Tejo e voz com rosto ao largo Vale. De saias, passo a ruas. Tome-se nota: não estou a dizer que é meu travestido costume passar de saia pela rua. Chiça, não. Do tema das saias passo ao tema da toponímia arterial urbana. Isso. Vamos lá então.
Sempre gostei muito dos nomes das terras portuguesas. Tenho até um caderno exclusivo para anotar os baptismos da nossa geografia. Dos nomes das terras e dos nomes das ruas dessas terras. Foi por causa disso que me lembrei de escrever às câmaras e às juntas de freguesia (enquanto elas existem) no sentido de me oferecer como padrinho de vielas, de becos, de pátios, de travessas, de arcos, do que for. Não peço avenidas, nem praças, nem grandes passeios como aquele das Águas de Santarém à Coreia do Sul que ninguém sabe para quê mas toda a gente conhece por quem. Mas adiante, que hoje tenho a pólvora molhada. Exemplo: a rua daquela escola primária que fechou. Proponho que deixe de ser banalmente chamada Rua da Escola. Em lugar disso, que seja Rua Miguel Relvas, por motivos carecas do conhecimento geral. Outro exemplo: a rua onde em Santarém pernoitava, quando alegadamente edil, o senhor Moita Flores. Não sei como ela se chama, mas sei como deveria passar a chamar-se: Rua D. Sebastião. Estão a ver a ideia? Uma campanha esquizóide e algo pulha contra o mouro vadio, uma cortina de nevoeiro e já está: nunca mais ninguém o viu, nem espera voltar a vê-lo.
Termino em apoteótica trindade. Isto é: com três ruas. Duas condições: a) todas as terras do Ribatejo as comungarem e b) o uso da vírgula. A vírgula no nome dessas três ruas é fulcral, como vereis. A figura tutelar que invoco para o triplo baptismo é não mais nem menos do que Pedro Passos Coelho. E todas as ribatejanas localidades, para bom exemplo das portuguesas restantes, passariam a exibir uma tríade de artérias cuja nomeação valeria a triplicar. Desta maneira:
Rua, Pedro
Rua, Passos
Rua, Coelho
!!!

Monday, November 05, 2012

Faz hoje trinta e cinco anos que vi um texto meu publicado




5 de Novembro de 1977.
Há trinta e cinco anos, na página infanto-juvenil do jornal "O Diário", que era dirigida por Oriam (anagrama de Mário Castrim), vinha a lume um texto que ofereci, por justa dedicação, ao meu Pai.
Tinha treze anos. O meu Velhote, sessenta.
Ele gostou.
Também gostou que eu aparecesse assinado com o nome dele, faltando apenas o "dos" antes do "Santos".
E lá vinha o nome da terra, Pedrulha, e da cidade, Coimbra.
Trinta e cinco anos.
Caraças, ainda ontem. 

Saturday, November 03, 2012

O Preço da Chuva (2006) - republicação de algumas páginas - Ó LEANDRO!





Ó LEANDRO!

Esta semana, não sei porquê, voltei a pensar no velho Leandro. Deixem que vos conte. O Leandro era um velho muito velho. Tão velho, que já era velho na minha infância. Era jardineiro, dizem que bom. E bebia como uma nuvem. Tinto, cheio, muito. Ia de autocarro para a cidade. Nunca pagava bilhete. Nem lho pediam. Era uma figura pública: a primeira figura pública que conheci. Para prazer de todo o mundo, insultava todo o mundo com os palavrões mais grossos do nosso idioma. Mas só o fazia quando provocado. Quando não, respirava o silêncio de uma solidão sem tréguas.
Pelo fim da tarde, passava pela minha rua a caminho de casa. Nós, miúdos, escondíamo-nos atrás de um carro ou de uma oliveira e gritávamos-lhe: “Ó Leandro!”. Só isto, mas era quanto bastava. O velho alinhava logo na festa. Punha-se a vociferar torrentes e torrentes de obscenidades a propósito de coisas tão existenciais como, por exemplo e sobretudo, o modo como tínhamos sido gerados e por quem. Claro que, na boca dele, as nossas mães nunca coincidiam com os nossos pais. Era fascinante.
Morreu muito velho na casa do Vale do Forno, entre flores e laranjeiras e cheirando a mijo e a santidade.
Mas ainda o vejo, mais eterno que vivo, ao pé da casa da Cuca. Eu vinha sozinho e despreocupado. Quando dei de caras com ele, o sangue evaporou-se-me do corpo. Ele trazia, como sempre, a tesoura de podar. Nessa altura, eu era de tão pouca idade, que ainda tinha medo. E tive. Nessa ocasião fulminante, tive muito medo. Era ele e eu, sozinhos no mundo. Debaixo do sol ardente que me ilumina sem clemência nem crepúsculo a infância perdida para sempre, só ele e eu éramos, estávamos, existíamos. Mais ninguém. Hora terrível, avassaladora, hora de agonia.
Em puro desespero, com o coração feito num nó de água chilra e as tripas reduzidas à condição de serpentes murchas, pensei num estratagema para evitar que a tesoura dele confundisse o meu pescoço com um ramo de sebe. O estratagema era este: passar por ele e dizer “Boa tarde, senhor António!”. Porque ele era António, não era Leandro. Respirei o mais fundo que podia e tentei. Mas, ao passar por ele, o medo traiu-me. Gaguejei isto: “Boa tarde, senhor Leandro!”... O velho, furioso como um deus pobre, levantou a terrível tesoura de podar e apontou-a à minha cabeça de franganito. Desatei a correr como um TGV de calções. Só parei nesta página. Ao longe, ainda ouço o velho a ralhar coisas sobre a minha Mãe, coisas em que vos peço não acreditem.
Acreditem nisto, apenas nisto: aquele era um bom homem que cuidava de flores. E por tão bem ter cuidado de flores, merece bem, penso eu, a rosa de uma crónica em memória de si, senhor António.

Thursday, November 01, 2012

Rosário Breve n.º 281 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt


Só para pobres

Era uma vez uma casa tão pobre, que até os buracos do telhado eram emprestados.
As pessoas entravam de costas porque não havia como dar a cara a tanta miséria. Era sempre Inverno naquela casa, de modo que se podia ir lá dentro ver se estava a chover. A humidade era tanta, que até os ratos tossiam. Pai, mãe, avó e crianças odiavam-se a uma só voz, roubando uns aos outros até o ar da respiração. Era má ideia morrer ali, talvez porque no dia seguinte nunca havia funeral, mas cozido à portuguesa. Naquela casa, tudo acontecia em câmara-lenta. Uma frase dita hoje só era ouvida dois meses depois, chegando as palavras pela ordem errada e cheias do bolor da demora. Depois, era preciso raspar os substantivos com uma faca para que se não parecessem tanto com papéis rasgados. A vida era uma coisa tão assustadora, que até as crianças esperavam a um canto que ela passasse sem as ver. E mesmo o sol, cujo nascimento, a par da morte, dizem ser a melhor democracia, chegava cor-de-café àquela casa irremediável. O próprio Tempo era outra coisa. Um mês, ali, não tinha trinta dias, mas sessenta noites.
E sem lua eram as noites, pelo que os lobos, sem terem a que uivar, enlouqueciam de mudez. Nas trevas perpétuas, os olhos brilhavam como pirilampos cegos de sal. Enguias fosforesciam no veludo frio do pensamento. Sobre a mesa, o fantasma de uma galinha punha ovos negros. Ao lado, um machado vibrava sem que lhe tocassem. No chão, dormia a sombra de um cão que não estava lá. Um dia, o país onde essa casa ficava, mudou de governo. Os novos governantes eram muito boas pessoas. Muito sérias, muito missa-das-onze, muito cuspifalantes. Resolveram tudo lindamente: Impostos, Justiça e Educação, Saúde, Emprego e Administração, Circo, Tropa e Europa, Comércio, Indústria e Ambiente, Futebol, Andebol e Parapente, Literatura, Ortografia e Saneamento, Agricultura, Previdência e Planeamento, Suinicultura, Autonomia e Vaca Fria – tudo ficou um brinquinho. Visto do céu, o país brilhava de exposições universais e europeus de futebol. Visto de lado, o país exibia um perfil de imperador romano. Visto de costas, o país nem parecia ter cauda. Visto de frente, era isto que vos conto. Pronto, enfim, as coisas foram andando, o totoloto saindo, a pedofilia entrando, o amor cada vez mais lindo, os pombos arrulhando, o eurodólar subindo, o preço do pão baixando, os ucranianos sorrindo, as baleias aumentando. Restava, no entanto, um problema. O problema restante era o problema da Pobreza. Quando chegou a vez da Pobreza, o novo governo comprou um catrapilo assim muito grande, muito poderoso e muito amarelo. Uma espécie de dragão mecânico com S. Jorge a conduzir. Vai daí, o governo mandou arrasar tudo, erradicando de vez essa purulenta chaga social. A Pobreza deixou de existir para sempre. Materialmente arrasada, a Pobreza tornou-se um caso mental.
Era uma vez uma casa, era uma vez um país.
Quem tossir, é rato.