Sunday, October 28, 2012

ANTES DO REQUIETÓRIO - 52 - manhã de domingo, 28 de Outubro de 2012


52. DUAS MISSAS BREVES

Leiria, manhã de domingo, 28 de Outubro de 2012

I

Quando vejo os velhos, é como se estivesse no desembarcadouro da gare. Ferroviária ou marítima. É ver os que estão de partida. Nunca como ante eles sinto a espessura do termo passageiros.
Entre os velhos, há os que nunca se desmatricularam da vida tida por simples, esses que se ligam à terra para quanto sempre lhes coube e houve. A vida interior do hortelão, percebes? Esse músico vitalício ligado ao solo por via das partituras vegetais. Em coro e a solo, derredor, seus animais. Bucolismo tonto, o meu. Nada me interessa se meu, se alheio. Não se trata do elogio do asceta, do pária, do apátrida, do associal. Trata-se do homem com suas couves, sua leira, sua água em profundidade freática, seu porco salgado em arca, sua metafísica de vinho contado para todo o ano.
Temo não lograr vir a ser um poeta desses mas tão-só este homem que entre pastelarias julga preferir Maeterlinck a Claudel.
Porejam luz fresca os azulejos da manhã: a esmalte azul moldurados, arvoredos e chaminés negoceiam em placidez a civilização. Um cunho primitivo salva-nos do horror possível da desatenção. É possível sozinhar sem desespero a instância do país matinal. Ou assim: é possível viver todo-só de humanidade agarrada ao corpo como um cheiro de cozinha à roupa.
Ao menos partilho isso já com os velhos. E contigo – que és aquele tu a que sempre me dirijo quando parece mal gesticonversar sozinho, à maneira do espelho-da-barba.
Percebo, percebes (perceberás?), que isso a que chamam Morte é um telefonema que nos fazem enquanto somos quem atende o telefone e não (ainda não) o assunto dele.
De modo que todo e tudo o restante são a vida, não é?, a vida – que uns se limitam a levar vivida, ao passo que outros levam a transformá-la em vida.
(Talvez te tenha rezado alguma coisa, não sei bem, ora-me tu a mim agora.)

II

Encostado fumando devagar a um dos pilares da galeria já tomados pela luz directa da manhã. Absorvo e assimilo o sol no corpo como o giz recebe e apre(e)nde dos dedos do menino primário a caligrafia. Olho o quadro, que repito nos dias través as estações: a área desportiva obsoleta já à nascença, a veia viva via-rio que a escolta de árvores ri de brilhos ridente-brilhantes, homens e rapazes numa coragem de calções trabalhando-se tónico-oxigénico-musculares, mulheres-da-erva rumando a capela alvinitente, alvidúcida, cegas do Deus da mesma rotina com que enxundiam o porco, esmadrigam os filhos, esborcinam os púcaros, esnocam as oliveiras e esgarçam a si mesmas, o sempiterno cão público vadiando sua leonina privacidade, o cardápio de possibilidades sexuais as mais inclementes que a falta dominical de táxis adensa nos homopeões de pochette à cata de rapazinhos de mochila,
mas tudo porDeuscomDeusemDeus
ao Sol,
que o Mesmo Um e Outro são,
ide,
que
ite missa est. 

Thursday, October 25, 2012

Rosário Breve n.º 280 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt


Hospital Toyota

Aqui há tempos, um incómodo persistente no joelho direito levou-me a procurar um edifício público onde por enquanto ainda vão aceitando coxos provisórios que pagam impostos. Não se tratava, é verdade, de uma dor incapacitante, mas era das peremptórias, daquelas que, como o Toyota de antigamente, ameaçam ter vindo para ficar.
Porque todos somos paramédicos do nosso próprio corpo, não me foi difícil perceber que parte da caminhante algia era filha natural de remotas patadas recebidas, há muitas décadas, no decurso da minha breve, gloriosa e irrelevante passagem pelo futebol distrital do tempo dos pelados e dos bufetes de balcão de contraplacado com carrascão traçado de gasosa de pirolito mesmo à beirinha da cal viva dos recintos. Outra parte da maleita, quiçá mais determinante e bem mais determinista, vinha daquilo que a todos nos leva: a oxidante osteoporose da idade, cujo inexorável divertimento resume um ex-moço a um emaranhado de arames locomotores cuja maleabilidade vai dando lugar, com o tempo, ao desengonço roberto das marionetas úrico-artríticas. Uma tristeza de sapatos, enfim. Lá fui portanto ao hospício.
No vidrofone das inscrições, uma arara de trufa oxigenada quis saber o que é que eu tinha. Eu disse-lhe que vinte euros. Ela disse que sim e botou-me o nome no computador. Eram elas as oito da manhã. Quase à hora de almoço, um rapaz alto de fato-macaco azul assobiou-me que o seguisse. Segui-o. Disse-me ele: “Vá-se orientando pelas placas conforme o seu caso, ó chefe.
Uma placa dizia: QUEIXINHAS. Entrei. A seguir: HOMENSSENHORAS – CRIANÇAS ATÉ AOS 35 ANOS. Fui pela esquerda (coisa que sempre faço nas eleições com o mesmo resultado do joelho). A seguir, LETRAS – CIÊNCIAS – NOVAS OPORTUNIDADES. Comecei a desconfiar o meu bocadito. Como já li qualquer coisita de Fernando Namora, fui pelas LETRAS. A esperança de topar com a simples indicação ORTOPEDIA abandonou-me de vez à visão da bifurcação seguinte: NEOGARRETTIANOS à esquerda e SIMBÓLICO-DECADENTISTAS à direita. Aí, comecei a ladrar-me baixinho uma tosse de obscenidades relativas às progenitoras dos escritores de placas. Ainda assim, manquejei pelos imitadores de Baudelaire. Lá dentro, era pior: à esquerda, ORTOGRAFIA DE 1911; ao centro, ORTOGRAFIA DE 1945; à direita, ORTOGRAFIA NENHUMA À MODERNA. Por essa altura, já quase o joelho me não doía, ao contrário da alma. Peguei no telelé e roguei à Senhora dos Aflitos, vulgo minha mulher.
Desandei dali por portas não lidas nem contadas, até que cheguei a um corredor de lúrido néon crepuscular ao cabo do qual a minha esposa me esperava com aquele sorriso todo mãe que as mulheres afivelam à boca desde meninas. Atrás dela, todavia, três portas gritavam maiúsculas.
A do centro, PS.
A da direita, PSD/CDS.
Mas a da esquerda dizia uma coisa simplesmente maravilhosa: SAÍDA.
Estava porém impedida a duplo aloquete.
Que eu saiba, ainda está.
E eu também ainda lá estou, bambo da perna e marreco de toda a esperança, sem sequer a mínima de um pirolito ao intervalo.

Friday, October 19, 2012

ANTES DO REQUIETÓRIO - 37 - III - Leiria, tarde de sexta-feira, 19 de Outubro de 2012 (foto da mesma data)





37. PEDRA E ’SPUMA

Leiria, tarde de sexta-feira, 19 de Outubro de 2012

III

Aí o temos, o fim da natural luz da jornada.
O fim é natural. A Natureza não é final.
Não é ainda o frio, não é já o calor.
Comprei pão.
Na iminência do regresso a casa (meu recomeçado reduto final também), faço ’inda por recolher um pouco do mund’humano.
Três homens idênticos à idêntica humanidade, mesa ao lado dextro. Tomam os três whisky do bom com um, dois dedos de água lisa. Os três salvam o País. Estão na fase doutrinária do encopanço. Um é de óculos crespos, testa abrindo clareira alta. Outro é vasto como uma dorna, casaco encarnado de lã, coxas continentais, sapatos um bocado reles. O outro é do tipo bancário wanna-be-banqueiro. Mas o whisky é de boa marca, deixemo-los falar.
Derredor, a progénie é típica do entardenoitecer:
um casalito de cores cinzas de mãos mútuas e comovidas umas com as outras;
uma rapazita de semblante espertote folheando revista que não lê;
um rapazote de axúndias que o abonacham, de uma bovinidade delicodoce no falar, bigodito bistrado, fuliginoso, semeado ao vento;
uma mulheraça de pé, pernas mola-da-roupa juntas à cinta por os arames fartos da cueca ampla.
É, alfim, um mundo bonito. Ainda bem, posto que único. Vede comigo:
com a mão esquerda ocultando a boca, um rapaz de jaqueta cor-de-pombo telefala imóvel. Ri-se, a mão vibra. É corado, rubicundo: talvez de falho bombear seja dele o coração físico. É quase magro de mais. Nem formoso nem hórrido: um tipo como eu e como tu, não andam propriamente por aí georgeclooneys a dar com um pau.
Entretanto, a espertota da revista adquiriu companhia: é uma dríade de bom cabelo lacado, de que o quieto verniz fulge ilusória dinâmica. As duas já conversam. Fazem-no baixinho e em compenetração – não custa lobrigar que é de efebos donzéis feito o assunto delas. Junta-se-lhes uma terceira, cuzito magro, varetas tíbias, disúrica talvez, ar de quem por melomania tem tão-só o toque da Nokia. Mas, enfim, moças: bonitas portanto, por mais inócuas.
Entrementes, o trio whiskeyro dá-lhe forte no malte. Comemoram os respectivos desaniversários de 364 dias. Fazem bem. Suspeito-lhes esposas amaras, avaras, secas e ínvias. O tempo e os casamentos não vão fáceis, tirante o meu.
Achega-se agora ao café e à página um mote veramente interessante: uma gansa volumosa de carnadura apertada em boas gangas, claras redondezas pró-matriciais não há-de tardar muito, se acaso não desovou ossos já. Sei que se chama Clotilde porque assim a apodou a do casalinho de cinzas. Boa para namorar aos domingos, como dizia um ex-amigo que tive no século passado. A Clotilde fuma daqueles cigarros que a Adelaide do Adelino fuma também, uns assim para o branco, o comprido e o fino, acho que aos dez em cada maço. Gosto das botas da Clotilde: de cabedal caçador, tipo medieva sala-de-armas. Nunca saberá, a coitada, a feliz, que me perde.
Não perco eu mais nada: já os ácidos me revoluteiam o odre gástrico, que toda a tarde enferretei de café bem torrado. Faço a verdade de conta: que nada é comigo, pelo que ensaco os pertences papeleiros e as ferramentas lápis-tintureiras, pelo que pago, pelo que vou para casa, onde as pequenas plantas, em pequenos vasos, ajardinam o lancil banal e feliz da cozinha, cuja janela abre para a rua leiriense em pleno, valha-nos Deus, século XXI.

(E ao chegar a casa a notícia da morte de Manuel António Pina. Viva Manuel António Pina.) 

Thursday, October 18, 2012

Rosário Breve n.º 279 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt


Susana M., senhora nossa conhecida

Chama-se Susana M. e é caixeira de farmácia. Tem um filho que praticamente herdou sozinha de si mesma, contada e descontada a irrelevância do masculino concorrente que com ela, há vinte e oito anos e nove meses, o co-gerou antes de fugir (todos os homens fogem, por esta ou aquela razão, por nada ou por tudo, a torto e a direito). O menino nasceu rijo, pondo-se de imediato, de goela escancarada como um tenor, a berrar vida, pelo que também de imediato começou Susana a pagar-lha.
O infante fez-se rapaz, o rapaz entrou no ensino superior, ninguém sabe por nem para quê. Dez anos depois, ainda lá está, superior e por ensinar. Susana paga.
De novo só na comezinha realidade quotidiana, Susana cumpre o horário de trabalho de tão lavada maneira quão lavado é o branco da bata profissional com que ao balcão transparece, qual anjo compadecido da carestia dos medicamentos com que os pobres vão adiando a morte e a saúde.
Do salário, cada fim de mês, a caixeira liquida prontamente a renda de casa e os serviços que à vida privada dão dinamismo: água e luz, gás e lavagem das escadas, dízimo evangélico e quota duodécima da Associação de Senhoras que Não Dizem Mal Umas das Outras. Aos sábados à tarde vai ao hiper, onde se demora pouco e de onde regressa com os despojos triviais das comuns precisões: detergentes para roupa & louça, água mineral, uma caixa das médias de bombons, pescada congelada, feijão-frade de lata, ovos, leite condensado, comer para o pássaro, comer para o inevitável gato de todas as mulheres sós, velas aromáticas de cabeceira, revista TV, pudim em pó, biscoitos de canela e sopas instantâneas daquelas cuja imitação de marisco nunca deixa de lhe despertar no palato a obstinada nostalgia das férias de um Verão improvável à face de uma toalha de areia estendida à vista do mar do Tempo perdido. Na caixa, Susana caixeiramente paga.
Aos domingos, permite-se o luxo sensato de dormir duas horas mais, que pela semana vai descontando em clareiras de insónia. Acumula saldo no telemóvel: os recarregamentos periódicos obrigatórios empilham valor por gastar à razão directa dos telefonemas mudos que não faz. Todos estes anos, saiu e deitou-se um par de vezes com um médico quase local que fumava mais do que interessava, depois com um professor de Castelo Branco que era tímido e dotado de apostemas de acne como uma cartografia de pus geodésico, finalmente com um artista de stand de automóveis que era casado mas se esqueceu de lho dizer. Nada, enfim, nem de muito grave nem de premente notação cartorial.
Susana foi das raríssimas pessoas portuguesas que não integraram o rebanho de ir ver o Titanic: de amores afogados, sabia ela o suficiente para se poupar à descoroçoante evidência de tudo na vida descambar, mais cedo ou mais tarde, em naufrágio – e sem que algum ice-Adamastor de gelo-bergue seja preciso mandar vir pela pantalha espantalha dos sonhos filmados.
Preveniu a tempo (tinha o filho onze anos) o cancro da mama esquerda, de que se fez arrancar sem hesitação nem remorso. Só depois telefonou à própria mãe a contá-lo, evitando a hipocrisia das lágrimas da velha, um crocodilo de cera que nunca lhe perdoou ter parido antes do casamento que aliás não chegou a contrair.
Ao deitar-se, acende a vela perfumada, abre a caixa de bombons e esquece-se de si e do mundo com um livro fácil de literatura top-de-vendas.
Em casa, Susana M. dá de comer ao pássaro e ao gato como, nas respectivas repartições, dá de comer à Segurança Social e ao IRS. Tem gato, pássaro, finanças e reforma em dia.
Por tudo isto, é perplexo que vos confesso o meu absoluto desconhecimento quanto à razão pela qual o ministro Vítor Gaspar a odeia. A ela e às Senhoras que Não Dizem Mal umas das Outras, muito menos, e quanto mais, do Governo. 

Monday, October 15, 2012

Quatro sonetos investi eu na manhã de ontem, que dominical foi


TRÊS SONETOS VIVOS E UM PÓSTUMO

Leiria, manhã de domingo, 14 de Outubro de 2012

I

Jaspe e hulha e ouro e lama e trabalhos
em do mundo a cercania se conjugam,
jogando preciosos ’té à morte sem atalhos
seus jogos onerosos que à sorte subjugam.

Retalha o esterco as nucas não lavadas
do capcioso povo sujo e peregrino.
Ele é do mundo muito o desatino,
muito e atroz e lerdo. As mãos atadas,

não quer, parece, o nefando populaço
mais que a benta côdea, menos que o rijo bagaço.
Trabalha o ouro, que em lama se lhe paga.

Hulha e jaspe, não: sim unha e chispe,
Alcides e Conceição ao veste-e-despe,
Eva triste e triste Adão que o Tempo apaga.

II

(Eça itálico: todas as palavras são dele, à colagem minha:)

O viço, o tenro brilho, o rumor germinante
da graça poética e da verdade humana
que, abandonadas a corujas e fantasmas,
às estamenhas da penitência sucediam.

A vida inteira, e até a morte, era uma festa.
Como as ondinas ensinam formas da graça,
batendo vai ligeiro o voo a fantasia.
A cada instante o homem adquire, largo,
o dom divino do riso, antigo sorriso
tão celebrado, lânguido e húmido.

Poetas que parecem mortos ou de ferro,
deixando as faces mudas e frias: inerte,
sua face é triste, material, íngreme.
Singela alegria: como o Sol faz às flores.

III

A pergaminhas filactérias procedendo vou
través a manhã cantora de prata ao sossego.
Febre muscular me guia da mão o osso,
(a que, dextra, escreve, que a sinistra fuma).

Incha de boa seiva a ortónima terra,
que a meu País dá nome doce e conforme.
À pastelaria acorrem as burguesas lesmas
que votam Cavaco e mil-folhas: e depois?

Depois é o cursivo soneto quase feito,
de lado olhado o flanco do domingo.
Calor nenhum e um quase-frio

velam à vez a natura parda em voragem.
Ínclita, íngreme, sobalça-se, solerte,
a certa morte, Pergaminho meu e nosso.

IV

As minhas ovelhas são todas de papel e tinta.
Faço de cão que as guarda e dá ao pasto
do Tempo, que a toda a tinta enxuga,
a todo o papel rasga – e sem balir ou valer.

Os meus cães são todos sonetos mal acabados.
Faço de ovelha que os teme por responso
ao remanso sem nome dos dias nomeados
que ao cautério do Tempo secam calcinados.

Pastor que deveras devera escrever a cajado sua serra
me sinto e vou sendo, a lápis latindo.
Vim ao pão, fiquei um pouco, meio-dia é quase,

a casa chegando ao calombo cincharei devagar.
Cozo umas batatas e um peixe amanho,
que na sala comerei pensando-me rebanho. 

Saturday, October 13, 2012

Já agora,e a modo de compor o ramo, um pouco da tarde de hoje também


METE-AO-FÍSICO

Leiria, tarde de sábado, 13 de Outubro de 2012

Deitei-me ontem a bem pouco usual hora: passavam trinta e uns poucos mais minutos da uma. O meu Irmão Fernando veio dormir-nos a casa. Levantei-me aquando ele, passava um quarto das seis. Dei-lhe o desjejum, vimos um episódio gravado de NYPD Blues enquanto lhe não ligavam a vir buscá-lo. Vieram, e ele foi, pelas sete e cinco. O trabalho (modelação cerâmica, em que ele é mestre) era perto de Fátima, aquele logradouro de monges e de mongos nacionais onde os descontos da Superstição arrastam companhas às campanhas da hiperparódia da Fé. Já não voltei à cama, preferindo flanar pela sala com uma chávena generosa de café-com-leite muito quente. Vesti-me em condições olimpicamente razoáveis e saí. Fazia um frio delicioso. Aderi ao casaco como a ornitológico frouxel. A madrugada era mais clara e mais lavada do que a tarde viria a ser. Todavia, pouco conheci da tarde útil, já que, havendo empratado ao meio-dia uma ração de grão com toucinho, se me melaram e remelaram os panos-de-boca do teatro óptico. Quer dizer que fui sestear como um odre – ou como um ogre, talvez. Passabraseei bem três horinhas de morte emprestada, redimível à reforma da letra do acordar. Para minha contrariedade metafísica, tinha fome. Nem fragmento de verso, colado a pasta de cuspo, me acudia ao beiço. Queria pão com queijo e café forte. Satisfiz esse (este) animal que não lê nem escreve. Depois, antes que a modorra pós-prandial me adornasse de novo a barcaça, voltei a sair.
Aqui estou.
Penso no que há-de ser o jantar, que o grão acabou, ai não que não acabou, ao contrário da versalhada, que disso há sempre fartura e sobejo.

Esta manhã de sábado, 13 de Outubro de 2012


28. E AGORA AS ACTUALIDADES

Leiria, manhã de sábado, 13 de Outubro de 2012

I

Só quando deixa de o ser me interessa a actualidade. Este caderno-livro, os que o antecedem e os que talvez lhe sucedam, são, pois, de uma hodiernidade espúria. Colecciono actualidades que foram. Vivo esta com a lucidez do fósforo – mas só o cheiro a queimado deveras me interessa, atrai e recompensa.
No saco, uma agenda trago para inscrição do Ano dos Anos. Notas exemplares de Janeiro 1 a Dezembro 31 – devassando séculos, obras, pessoas, fontes, pontes, montes, o diabo-a-quatro-pintado-a-sete.

II

Uma mulher alta e larga e branca como um móvel de leite. Lê o jornal da manhã enquanto pequeno-almoça um bolo seco e uma chávena de chá verde. É desejável: a carne abundante segura-se a boas cordas musculares. Ela cuida-se. A cor não natural do cabelo é compensada por uma higiene clara, irrefutável. A três quartos transparente, o vestido (listras horizontais violetas sobre campo de mármore) entrevê o elástico forte do soutien. Tinha aliás de ser forte: o balcão do peito abre dois globos maduros de peremptórios mamilos, o tudo pesando muito grama. Ancas fantis, apuradas, capazes de aparar um ventre de acordeonista veterano. Pés claros também – e utentes de bons esfoliantes, posto que os calcanhares não se encascam de cera, o que é raro. Ah, os olhos. Olhos de mulher de cinquenta anos: 25 cada um, portanto. São aloftálmicos: o mesmo é dizer que diversamente pigmentam as íris: cinzurazuis com joaninhas pinturando pontitos de carvão molhado, por assim dizer. A gaforina, isabelada qual videira americana-outonal, merecia volver à natura cromática, que suponho de claro castanho – mas reincido na evidência lustral da lavagem a sabão nosso, do azul-branco. Gentil, oferece-me o jornal, saciada dele. Agradeço-lhe quase muito, de mais quase, sorri-me, regressa à mesa dela, em cujo tampo floresce já a rosa gritante da revista de modas e figurinos. É quando me é dado fixar a quartapisa do vestido que a usa: barra de um roxo forte, violento quase, traço que seria de um catolicismo brutal não fôra a peanha obstinada das coxas. Louvaminho-a, turibulo-a, incenso-a? Sim. Ornamento-a, atavio-a, enfeito-a? Sim. Colaço de seu corpo lácteo e grande se me sente o escrever, o que aliás se nota sem esforço. Ao entregar-me ela o jornal, sofri eu dela a manação almiscarada. Tão cedo ’inda na manhã, já ela cheira a floresta nocturna, sua chuva, seus lobos. Suponho-lhe (decerto com acerto) angustifoliado o delta púbico, seja: de folhas estreitas, coerentes, solidárias, amariçadas – mas desbraváveis a doce custo sem amarugem alguma (quase). É mulher de uma actualidade de ensejo. Actualidades assim, sim, sempre me interessam, até porque à beira, eu também, dos cinquenta anos, a ginestesia me venha sabendo mais e mais, cada vez mais e mais de cada vez, a ontem.  

Thursday, October 11, 2012

Rosário Breve n.º 278 - in O RIBATEJO de 11 de Outubro de 2012



Apotegma com morte de mãe

Há coisa de três anos, na freguesia de A., um rapaz já descriado matou a mãe, cortou-a aos bocados e guardou os despojos na arca frigorífica. Talvez a ideia fosse i-la repartindo por ermos pinhais e aterros limítrofes, às doses e às meias-doses, em sacos plásticos devidamente hermetizados. Ó cenagosa trama! Ó camiliano enredo! À terrível hora primeva do crime sucederam-se noites brancas e dias negros – que é o que sempre aliás acontece na vida, mate-se ou não a mãe e almoce a gente ou não.
A vizinhos e conterrâneos, quando por eles inquirido do paradeiro da senhora, o matricida enviesava a resposta, deixando suspeitar à descúnfia que o mais certo era a malcomportada ter fugido para parte incerta com algum homem incerto também.
Nos entrementes, conseguintes & doravantes, o desnaturado continuava a frequentar na sede do concelho uma daquelas licenciaturas instantâneas de electricista que dão o 12.º mais 300 euros/mês e papéis já preenchidos para o mestrado do rendimento mínimo e para o doutoramento do desemprego. Até que.
Até que alguém da terrinha, ardendo mais do agudo querer saber do que do grave intuito justiceiro, alertou a polícia, que, munida de alvará de devassa e de mandato de espreita, lá deu com os bocados maternais que restavam ainda na cave, onde a arca zanzurrava de indiferente, inclemente e eléctrica mansidão.
A defesa calhou ao meu mui querido amigo João M., causídico de bom-nome na praça a quem, por sorte ou escassez dela, o ofício estende muita vez a passadeira encarnada do sangue rural. O doutor João M. tentou a inimputabilidade do cliente, resultante, a seu técnico ver, do evidente avarianço do arguido ao nível da corneta. O colectivo não foi porém na fita, condenando-o a um cúmulo penal de uns tantos anos, dos quais, naturalmente, se verá livre daqui a uns poucos.
O miolo da crónica não está, todavia, nem no desenlace dito, nem no crime maldito (ó cenagosa!, ó camiliana! etc.). Está numa conversa sussurrada entre o advogado que defendia e um colega que, adjuvando-o, o ouvia. Falavam eles da progressiva dessocialização e da voraz penúria existencial e financeira que foram tomando inapelável conta do menino-de-sua-mãe. Ainda em liberdade, restaurando-se de restos víveres, a água tinha-lhe já sido cortada e a luz ou também já ou estava para sê-lo. Neste ponto, o colega do meu amigo saiu-se com esta assim:
“Pá, estou mesmo a vê-lo à porta dizendo ao fiscal da EDP: – ‘O senhor por favor não me corte a luz, que a minha mãe fica pior do que estragada.’”
Claro: o meu amigo João teve de fugir do salão de juízo para expectorar no átrio estrepitosas gargalhadas de caçadeira. Quando, na semana passada, me contou ele este burlesco apotegma, eu soube de imediato que tinha a crónica feita. Ou quase feita. Quase – porque me faltava só aquela qualquer-coisinha chamada moralidade. Já não falta. Já cá mora. Já cá canta.
Nós fazemos todos de mãe.
O País faz de arca.
Mas o vilão da história não é o matricida.
É o fiscal.
É o fiscal porque, mesmo não chamado por ninguém, nos não larga nem a campainha, nem a vontade de nos estragar tudo.
Almoce a gente ou não, filho.

Wednesday, October 10, 2012

We Stood Like Kings - Berlin 1927 - Akt I

http://www.youtube.com/watch?v=0xY4HGLtAqk&feature=related

Wednesday, October 03, 2012

Rosário Breve n.º 277 - in O RIBATEJO de 4 de Outubro de 2012 - www.oribatejo.pt


Da esTSUpidez toninha e do antídoto para ela

Diz-me que coleira trazes ao pescoço, dir-te-ei que espécie de cão trazes ao(s) pé(s).
É o que me ocorre considerar à vista dos “especialistas” a que recorre e de que se socorre o nosso primo-ministro para decidir coisas mínimas como chá sim ou não ao desjejum e upa 15 por cento de desempregados upa upa. É o caso do esTSUpido-mor chamado Borges. Ou Toninho, para os amigalhaços de colarinho branco de cujo monturo irreciclável a sua triste figura emana como um miasma febricitante.
Nimba-o a aura equívoca dos predestinados ao disparate grosso, à aleivosia malsã, à dispepsia moral e à tendência para engelhar. Lacra-lhe a testa o ferrete irremovível da abstrusidade a mais córnea. Os bracinhos, mexe-os por arames, cujo oculto títere é esse papão da nossa sopa de eternas crianças chamado Capitalismo Selvagem. Os pés dele são botos e calcinados do uso excessivo da alcatifa eléctrica, para além de esburacados de zagalotes auto-infligidos. A boca, de que surdem os tais tiros direitinhos aos pés dele e aos pés do patrão dele, é uma fenda má que só apetece beijar com babas de cianeto.
É destas pardas eminências que devemos todos livrar-nos de vez à viva voz, antes que elas dêem de vez cabo de nós.
Ao inócuo Sampaio, mandámo-lo para Guimarães aforrar um balúrdio à conta da “cultura” boa para papa & bolo de espanta-parolo.
Ao católico Guterres, mandámo-lo a ser bonzinho no meio das tendas da caridade ao vento de restos do deserto do quintal traseiro da ONU.
Ao rotundo Soares, não o mandámos para lado algum porque ele já lá foi pelos menos três vezes no avião presidencial que a gente pagou, paga e há-de pagar.
Ao inapreensível (ou inimputável) Sócrates, mandou-nos ele de Paris saber que a Sorbonne não é nenhuma Lusófona ainda mas para lá caminha à mecha toda.
Mas a este Toninho, que, que a gente saiba, ninguém elegeu fosse para o que fosse, mandamo-lo para onde? (Sim, leitor, eu sei que resposta se te configurou, cerce e mortífera, na tua boca calada de mirone de última página. Concordo contigo, sempre te digo.)
Ontem à noite, abordando as primícias desta crónica, dei por mim acidulando sentenças talvez desmoralizantes do tipo: “Deveríamos todos ajoelhar-nos ante o Passos Coelho. Porquê? Porque ninguém muda um pneu furado de pé.” Ou aquela que descobria que o Guterres vai voltar a ser nosso Primeiro: como foi para os Refugiados, mais dez milhões não hão-de fazer grande diferença ao santinho. Ou aquela ainda que assentava que é mau gastar o Tempo a Gaspar o futuro.
E à guisa de epílogo, aquela mais confiante e mais combativa que reza assim: “Quantos mais passos na rua, menos coelhos na toca.”
E é claro que quando digo “coelhos”, também digo “toninhos”.
O que é preciso é que seja depressinha.
E de vez, chiça.