Friday, September 28, 2012

Penso não ter perdido de todo a tarde de hoje





N.º 94, TALHÃO M

Leiria, tarde de sexta-feira, 28 de Setembro de 2012

I

Paz e apatia,
coisas tão diferentes como
a diferença
que vai de um
eu
a seu
mim.
Não desdenharia porém ser apático, algumas vezes.
Agradável, muito agradável: finos impactos do começo de chuva – no espelho-de-água em círculo da praceta, na Cidade a nenhures.

Também que não tanto as coisas, mas a partir das coisas – e até às coisas: as palavras que as coisas deixam ser.
Exemplo: escrevendo

COMPANHIA DE NAVEGAÇÃO

para ser(-se-sentir-se) ocidental em viagem, quieta esta embora.

Cardial a nenhures: a Cidade, a Pastelaria, a Burguesinha televisual e sua maleta pejada de cosméticos calmantes.

As coisas que as palavras deixam ser coisas.

Por exclusão de partes & inclusão de artes.
(A xávega, por exemplo.)

Lápis-tinta, papel-caderno: receptação em dimensão crítica – seu-real-valor-e-conspícuos-derivados.

Michael J. Fox, coitado, cheio de Parkinson como uma faia ao vento.
Acaba de morrer Andy Williams (Moon River).

Entedia quanto entendia & estendia o dia todo.
Quem? Ele é à escolha.

Mas tudo sem aflição e sem agonia: tão-só fantasia,
isso sim, ia, ia.

II

Correio da Manhã, 28 de Setembro de 2012

Bebé enterrado sem despedidas

Foi um enterro como nunca houve nenhum no cemitério de Marmelais, em Tomar. Rápido, silencioso e desoladoramente solitário. O recém-nascido morto pela mãe, em Figueiró dos Vinhos, foi sepultado, terça-feira, ao final do dia, 25 dias depois da sua morte.

Por: Helena Silva
  
A minúscula urna foi transportada por um funcionário da funerária e, no local, presenciaram o acto dois funcionários do cemitério. Não houve lágrimas, nem despedidas. Nenhum familiar se deslocou ao cemitério.
Foi uma coisa muito triste, muito chocante”, afirmou Paulo Besteiro, um dos coveiros do cemitério de Marmelais. Pai de dois filhos ainda pequenos, contou ao CM que ficou de tal forma perturbado com o caso que, no dia seguinte, foi, ele próprio, colocar um pequeno ramo de flores na pequenina sepultura. São essas as únicas flores que ostenta.
O menino não chegou a ter nome. É o número 94 do talhão M, que o cemitério reserva às campas das crianças.
O corpo do recém-nascido esteve, nestas últimas semanas, no Instituto de Medicina Legal de Tomar, desde que a mãe, Alexandra, de 27 anos, foi detida pela PJ e confessou a morte do filho, bem como de outros dois, nos últimos anos, em circunstâncias idênticas.
Entrou em trabalho de parto e, assim que o bebé nasceu, colocou-o num saco de plástico, asfixiou-o e escondeu-o num guarda-fatos do seu quarto, na casa onde vivia com os pais.
A família assegura não se ter apercebido de nada, nem sequer da gravidez. Os familiares também não reclamaram o corpo do recém-nascido, que foi a enterrar depois de submetido a vários exames periciais, num funeral social.
Alexandra está presa preventivamente no Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos.

III

Esta ideia de o passado ser ao largo em profundo:
irresgate do mundo havido em combate corrente,
vão do mais vácuo vazio, que é o da gente
ensimesmando estreita a flor do mundo.

O menino não chegou a ter nome.
É o número 94 do talhão M.
O cemitério o reserva e o some
na campa de criança qu’inda geme.

IV

Logo à noite há-de ser que voltem a casa os pedreiros
de dia às costas dado a fazer casas aos outros.
Não é que esteja frio, mas faz frio pensar, às vezes.
Pensar o que não pensam os pedreiros em cas’ à noite.

Eu sempre fui dado à alegria das grandes chuvadas insensatas.
Corria na infância o meu monte, nem futuro havia.
Tudo então se resumia, p’ra minh’ alegria,
a ser, depois da noite, o mesmo perpétuo dia.

Esta manhã despertei uma hora mais tarde que de costume.
Senti-me logo como se houvesse sido roubado.
Dissipou-se-me porém depressa o azedume:
pela casa a mulher urdia já o dia renovado.

Engoli um bolo, chavenei-me um leite,
senti que ela me queria a barba bem rasada.
Fiz-lhe a vontade para seu deleite:
num minuto, nem pêlo à vista e mai’ nada!

Ela foi, fiquei-me eu, depois lá fui
encher pelos cafés versos e cinzeiros.
Disse adeus ao Tó, ao Zé e ao Rui
– e esperei pela noite dos pedreiros.

V

Tenho felizmente declinado muito convite.
Aborrece-me todo o aborrecimento que não seja meu.
O meu tédio interessa-me mais, felizmente,
que o de quanta (superior a mim, evidentemente)
gente (muita, infelizmente muita feliz gente)
que por aí anda a desaborrecer-se aborrecendo
a outra de ela não muito pouco nada diferente.

VI

Meto uma cerveja no estômago como a manso projéctil
em culatra individualizada: uma só, que o tempo,
assim de parda doçura pré-pluvial, também mais
não pede, café e chá sim, a chuva aguardando.

Não está frio. Acho até que nunca esteve tanto não-
-frio na minha vida, que já não é curta.
As coisas rodam a roda de si mesmas, zodíacos
inofensivos bocejando urgências de ilusão.

Rodam à roda a-roda-a-rosa de si mesmas, as
coisas-rosas. A única coisa preta que aquele homem
branco ali tem, é o par de sobrancelhas arbustivas,
tudo de resto se lhe vai encanecendo em pó.

(Passa) um rapaz que parece um pífaro:
magrinho, comprido e cheio de buracos
decerto da traça –
ou da (passa).

Fila breve no multibanco de ao pé da farmácia.
À frente, o manco (o Zé, o da Anastácia).
Ao meio, a Marlene, futurista sem Marinetti.
E, derradeiro, o Tó Pantene, artista da trótinéti.

A brasileira das cinco passa a caminho do pós-colonialismo.
O polícia Anacleto consulta o pulso barbudo
a descontar o tempo do turno que tanto o demora
horagorademora como, menos a morte, nesta vida tudo.
O rico decote da Juliana vem farfalhar suas natas
à bandeja inox da mesa de alumínio,
do ócio fazendo o tirocínio,
a bela farta Juliana já de fim-de-semana.

Que conste, ninguém morreu no bairro ’té agora
– e já deram as cinco e mais dezassete.
Passa o Chico, o mafarrico, em sua veciclete
a dar-dalar-pe-pe-la-dar à desora.

Aqui felizmente ninguém suicida recém-nascidos.
O mais que fazem, é lardaterceiridadear os velhos respectivos,
coitados, que, já mais pergamortos que minhosvivos,
esperam ’inda renascer dando vagidos.

Torto em combate, Monsieur de la Margot
espera comece o filme no cinema que fechou.
(Onde era o cinema, é hoje a iurdcoisa dos dízimos:
Cristo à Zé Carioca e milagres para símios.)

Alexandra, 27 anos, três bebés sufocados à nascença.
Santa Cruz do Bispo, prisão de Matosinhos.
A gente nem sabe o que sente ou o que pensa.
(Entre a Rita e a farmácia, há uma boa loja de vinhos.)

Faz frio pensar às vezes, sim.
Estas coisas no jornal como se nada se passasse
ou fosse.
Trate cada um de seu jardim.
Se não tem que comer, que o trabalhasse
ou foda-se.

Milhões deitados à rua por toda a Europa:
de pessoas.
Por causa de
milhões roubados às pessoas de toda a Europa:
em euros.

Eurovegetativos:
menos os mortos do que os vivos.

Sua Excrescência
o
Residente da Ré Púbica

Sua Obsolescência
o
Primo Sinistro

Descem a cueca
Arrepanham a túnica
E toma lá merda
E aqui vai disto.

Até que.
Até que algum dia alguém os foda
em nome individual pela malta toda.

(Entretanto, chove talvez em Marmelais,
cemitério breve ali em Tomar.
Número 94 – nem menos, nem mais.
Nem nome ele tem. Nem vai precisar.) 

Thursday, September 27, 2012

Agora à tarde, há bocadito


DO ATLETISMO SEM MESTRE

Leiria, tarde de quinta-feira, 27 de Setembro de 2012

Propicio-me a loucura mansa e amestrada: coleccionando alfabetos-topónimos, pensando-sendo-sentindo-indo uma Inglaterra-que-já-não-há, esbracejando sal & lodo entre Dover e Calais, o índex esquerdo anilhado de matrimonial soci’ansi’e’dade.
Ouço-me dizer, sem abrir a boca, ist’assim:

– Tanto foste, que não volto.

Agora-hoje-como-ontem é não poder ser,
nem por cinco segundos-décadas,
um pouco Ian Ogilvy,
um nadinha Roger Moore.

A minha obra literária
parece-se às vezes de mais
com a vida
sobretudo quando a vida
é como a tarde a seguir
a se ter almoçado bacalhau
por demais salgado
que é quando a vida e a obra
fazem sede e se faz(em) tarde.

Não sei quantos de nós sofrem(os)
(mas nós – quantos uns somos
um a um a nenhum?)
desse cansaço sem atletismo
de estar vivo só porque sim
ou
pior ainda
então
por que
não

então então então tanto

fomos
que não
voltamos

correr corremos
’té que estejamos
sem sermos
senão ermos.

Como dar um saco de bolos ao pensamento
e uma malga de chá aos sentimentos
que
por plurais
não valem um:

assim é a minha alegada obra supostamente literária
assim a minha vida provavelmente mais vivida
que viva
assim o meu atletismo
sem mestre
nem estro
sem mastro
nem astro.

Acendo o cigarro
apaga-se a tarde
vai acontecer chuva não tarda
não tarda água arde
na ponta do cigarro
é já o ar da cor do tabaco apagado
vai-se embora a D.ª Lena
(15h34m)
fica-se a D.ª Rita sua filha
gosto muito de acender lume quando chove ou quase
acho que toda a gente gosta
mesmo a que não fuma.

Agora tenho de ir ali a comprar-me um caderno
talvez um lápis também embora tenha muitos
por estrear
luxos simples de quem tão pouco quer
que quase nada lhe parece o dobro
de quanto precisa.

(E agora: um restolho de folhas térreas,
dá-se a chuva, já corre a brisa.)

Rosário Breve n.º 276 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt



Eu quero mas é que o Milton Friedman se lixe

Dizia-se antigamente que: "Não há dinheiro, não há palhaços." Agora é por causa de certos palhaços que não há dinheiro.
Parece que é muito difícil a certa gente perceber que não é taxando o já de si escasso rendimento do trabalho que a luz ao fundo do túnel se põe a brilhar com menos debilidade. É taxando precisamente, por exemplo e por falar em luz, a macrocéfala e tentacular EDP, que é afinal quem deveria responsabilizar-se por essa e por outras lâmpadas. E as PPP, as malfadadas (e maçónicas) furadoras dos “túneis”. E as gasolineiras, à entrada e à saída dos mesmos.
Também parece difícil admitir que o sentido da vida não é viver para trabalhar mas trabalhar para viver. Rapando, raptando e rapinando os emolumentos básicos às famílias, inibe-se o consumo. Inibindo o consumo, é o próprio Estado quem sofre: porque deixa, por exemplo primeiro e maior, de receber tanto do capitoso IVA, que lhe está para o mealheiro como o bafo para o bofe.
Os salários pequenos e médios não são (de modo algum) o maior encargo das empresas. O que mais pesa às empresas são os custos da energia, dos combustíveis, das matérias-primas e secundas, da distribuição. Não há nenhum Milton Friedman que me convença do contrário. Não há nenhum liberalismo de compasso, esquadro & powerpoint que me faça abjurar desta certeza segura, prática e quotidiana. Nenhum judeu de Wall Street me tira disto. Nenhum cafre nepótico das ex-colónias afro-brasileiras me arreda o pé disto. Nenhum chinês de gravata de loja-dos-trezentos me recicla maoísmos em contrário. Nenhum árabe dos poços negros me torce a orelha a isto. Nem nenhum alemão me grunhe que o “arbeit macht frei” (“O trabalha liberta”, como cínica e genocidamente estava inscrito – pelos alemães – no pórtico de um tal sítio chamado Auschwitz), porque eu quero que os alemães e o “arbeit” à maneira deles vão mas é às nêsperas verdes de galochas roxas.  
“O poder, tal como o sagrado, parece uma graça exterior de que o indivíduo é o suporte passageiro. É recebido por investidura, iniciação ou sagração. É perdido por degradação, indignidade ou abuso.” (Isto é de Roger Caillois, in O Homem e o Sagrado.)
Ora, os ditos “liberais” de agora (promotores, cultores, inseminadores e recebedores da crise tão artificialmente global como globalmente artificial) serão tudo menos sagrados. Degradantes, são-no. Indignos, são-no. E abusadores – terá ainda alguém dúvidas de que o são também e sobretudo e porque a gente deixa?
Trabalhar para viver não é nem um luxo nem uma maluqueira. É, ao mesmo tempo, um direito e um dever. Mas viver do trabalho dos outros sem com ele, trabalhando também, interagir no sentido do viver comum – é obsceno, é nojento, é indigno e é inaceitável.
E a verdade é que nem os palhaços ricos nem os palhaços pobres têm já graça, muito menos daquela de que falava Caillois. Ou Zaratustra por ele.

Wednesday, September 26, 2012

Hoje de manhã, cedo sempre, quarta-feira, 26 de Setembro de 2012


ESTA MANHÃ SEM NOVIDADES MAIORES

Leiria, manhã de quarta-feira, 26 de Setembro de 2012

I

O corpo fecha-se no sono, abre-se à chuva forte da noite cerrando o mundo de vias vivas a horas mortas. Acontece a paz longamente adiada. A vela atira rosmaninho em fogo. A cerração das pálpebras deixou arrefecer o chá. O braço não demanda na cabeceira o cigarro mas o frasco da água, a que o limão atribui na boca um rastilho de quintal-pomar.
Quando o corpo logra escapar a seus quilos, mortos & vivos barafustam no filme do sonho. Procedem todos à sua higiene terrível. Imaginam-se a cores, mas são surdos. Sabem-se mudos, mas não a preto-e-branco.
Redivivo por conta própria, o corpo torna-se um eu lento à primeira hora. A chuva nocturna lavou quase tudo. O céu nem parece de repetição. A ponte circunflecte o rio como se pela primeira vez. Ao azul-ferrete do Verão extinto sucede o azul-de-aguarela da infância escolar.
Dá-se então a cumprimentação, é-se servido de café e tabaco, procura-se um sentido novo (uma vida nova em folha/página) no jornal. Não vai ser fácil, não hoje.

II

De Marrazes para o resto do mundo, sem cuidar de atirar as pernas à ressaca do caminho feito. A mulher que enegrece a tinta-de-corvo o cabelo parado na luz da manhã. O cavalheiro que estaciona o Renault com expressão de Fittipaldi frustre. As flausinas frívolas palhetadas de extensões capilares e frias e magras como torneiras. Os abençoados cães públicos de privada cosmogonia.
Em Coimbra, a mesma coisa sem tirar nem compor.

III

Quieto périplo municiando as esperas (as esferas) consecutivas.
Uma caçadeira de palavras desfechando fumos.
Rostos incandescentes nas madrugadas vivas.
Cintos, sapatos, algoritmos inúmeros.

Sétimo-selo, profecia nenhuma, hidromel.
Tiros ao longe lascando pedreiras.
A pólvora disto cheirando na pele.
Isto repetido gerações inteiras.

A paz aos pés da mulher sozinha.
Uma lasca de sol frechando o quarto.
De sal um grãozinho ao ápice da língua.
Lírios de Alenquer & cordas de esparto.

Quando pela casa povoo de corvos
a areia de pombas deixadas a sós,
sei-me não ciente de amores novos,
que de antigos sim a uma só voz. 

Tuesday, September 25, 2012

Tarde de ontem, manhã e tarde de hoje, terça-feira, 25 de Setembro de 2012


© DA, Leiria, 27 de Maio de 2012




10. ÁLEA-HORA

Leiria, tarde de segunda-feira, 24 de Setembro de 2012

Alisto-me no rol sozinho da hora, não preciso mais do que da hora minuto a minuto, nem de uma hora das outras de sessenta minutos dos outros preciso, preciso tão-só da hora-instante, momen’instan’tânea como a chuva e como o sol e como a lua e como aquelas árvores além todas de uma vez em álea, álea-hora não alheia.
Não me dedico a criar santorros nem coisas deusas dessas. A única mi(s)tificação a que procedo – é a da minuta do minuto, a acta do perpétuo contra a autoridade do efémero. Isto é nada, isto é fortuna. É o que puder.

11. DESCIDA GERAL

Leiria, manhã de terça-feira, 25 de Setembro de 2012

Descida geral da temperatura de Norte a Sul do País: prevista, anunciada e cumprida. Céus menos cristalin’ítidos, também. A manhã remoça-se sempre, é verdade, dona de infinita cosmética. Significa que as janelas ainda abrem laranjeiras e que as veras rosas-de-todo-o-ano são (serão sempre) as mulheres.
Há quem sofra disto de a Vida não ser sempre Verão. Eu não. Devo ter sorte, nesse aspecto. Agrada-me que o mundo pareça retrair-se em pensamento, que semelhe ponderar o que anda, ele-mesmo, a fazer no mundo.

12. UM TEMPO ASSIM

Leiria, tarde de terça-feira, 25 de Setembro de 2012

I

Sobreviemos no Outono
Sobrevivemos ao Verão
Subvenientes do Sono
Que é a nossa condição.

II

Tal a pomba se alimenta do chão, assim
nós.

III

O nada não é portanto a ausência das coisas
mas a do sujeito.

IV

A Língua mostrando-nos acém,
dizendo-nos isso assim:
carne, breve pó, luz só nossa, além,
além-longe-álea, adeus, sim?

V

Chove, finalmente chove no mundo, que por tal
volta a parecer-se com o mundo de quando a
Mãe me esperava em casa a horas civis,
mundo-portal da casa-dos-vivos manejando
chávenas, dedais, tesouras, escovas, lápis,
chove-se a fibra agreste quase ao ar-livre,
as ruas, açuladas do quase-gelo, tremem
como crianças longitudinais deitadas,
há muito tempo que esperava isto, em casa
o porte do chá espera como uma mãe-termos,
uma Mãe
termos,
não temos,
olha o que chove.

VI

Olhados campos molhados sendo mundo:
podemos ser – perten-ser – deles.
Quando, de dentro do casaco, olho a possibilidade:
vejo-a (m)olhada, em evasão-encontro.

Poeirada de água: pluvial primeiro, fluvial depois.
E então: uma só maneira, que é ser vivo.
Quanto homem primitivo se ergue na voz
deste Basílio electricista estralejando a seda

do chapéu-de-chuva à porta da oficina,
batendo as plantas das botas no cimento verde,
atirando palavrões grossos como punhos

ao aprendiz que, a um canto, a cabeça
aureolada do candeeiro amarelo-torrado,
pensa como voltar de motorizada a casa com

um tempo assim.

VII

A esta hora as praias desertas agora.
A esta praia as horas agora desertas.
O deserto espraiando ora a hora,
agora as coisas mais incertas.

Monday, September 24, 2012

Esta manhã de segunda-feira, 24 de Setembro de 2012, tem sido ist'assim



ANIMALÍNGUA

Leiria, manhã de segunda-feira, 24 de Setembro de 2012

I

Munificência de cômoros a esta hora claros: festão de rendas da geada, sagaz calafrio dos ossos.
Nenhuma represália & nenhum infortúnio.
Equidade & clemência – isso sim.
O nardo & o jardim.
Junco em carmim.
Palor do crepúsculo renascente: cortina içando-se proscénios – e cada renascimento (a)o dia é uma veterania.
Alvejam os emblemas vivos da realidade: ciprestes, salgueiros-da-Babilónia vulgo chorões, primeiras mulheres que se espera alguém ame com decência e rotina.
Nenhuma fetidez deletéria & nenhum feltro nojoso.
De boa flanela fresca é o gibão de ar-luz  da segunda-feira, cuja madrugada choveu boa cópia larga de água.
Equânime arbítrio da mão-que-escreve: por tudo quanto seja ali sem sair daqui.
A atenção como eloquência.
Transmuda-se tudo para igual se devir.
O devir acima de tudo.

II

Ter com a Língua (e, por extensão, para com a Vida) a mesma naturalidade dos animais para com seu próprio corpo – projecto felicíssimo me parece esse.
Como a natural cadela branca que quis agraciar-me com inesperada saudação à matina fresca e branda: deitou-se-me aos pés esplanados, coça-se agora com minúcia e método. É uma veterana eficiente, parece-me. Humanamente, terá os seus cinquenta e picos anos. Boa lã clara algo torrada de ouro lombar. Mansa como um pêssego ou entardenoitecer de praia.
Apetece-me tê-la perto, num quintal de casa térrea com poço e limoeiros, uma cama para ela na casa-de-lenha entre ferramentas que iria, eu, aprendendo a manejar para culto, fruto e usufruto do maná da terra.
(Isto dos poet’ontos urbanos armados em sachadores de minhoca & caco-de-tijolo tem sempre a sua ridícula, inofensiva inocência.)
Ela acaba desistindo do nosso projecto de vida comum em cenário aldeão. Substitui-a um cão preto maior que come o resto do pão das pombas pelo passeio da avenida-língua-minha-vida.   

Friday, September 21, 2012

Mais duas coisas daquela quarta-feira, 29 de Agosto de 2012


Uma cabeleira feminina a que dá o sol
(agora mesmo, na rua nua)
oferece-me o mais rutilante cinemascope.
É de acobreados fios d’oiros loiros.
Tem qualquer coisa de pinha-ananás,
não sei dizer bem, uma coisa assim.

Está no corpo dela como uma capital num país.
Preside-se a si mesma como apeada gaivota.
Breve desaparece na tarde longa.
Desfere uma praça, dissipa-se por esquinas

não verbais já, para mal verbal deste inconclusivo
retrato.

*

Consola-me amar nos animais a mais naturada memória.
Aprecio deles a amoral franqueza, que retine olhares
Tão expressivos como paisagem arbórea a tinta-da-China.
Reproduzem-se infinitamente como edições clássicas:

a gata-Morgadinha-dos-Canaviais,
o cão-Amor-de-Perdição,
o periquito-&-a-periquita-Os Maias,
o tigre-na-jaula-Amadis-de-Gaula.

Talvez por isso eu não goste de jardins zoológicos:
por me lembrarem livros que nas bibliotecas municipais
ninguém quis ler, nem dali levar para casa.

Esta manhã, pelo fim oficial do Verão


© DA – Branco até Azul – 17 de Maio de 2012





Leiria, manhã de sexta-feira, 21 de Setembro de 2012

Acaba pelo calendário oficial o Verão, mas o tempo, ou a ocasião, não é ainda de recolher à beira-lume do lar a soprar a taça de chá, a de-vagar o Virgílio, a tostar a fatia de pão ao rubi do brasido. Ainda não é ferro ir ao rio demolhar as pontas caminhantes em nudez recatada, recebendo as correrias brisas refrigérias través as faias. Quando ele todavia havia ’inda, o Outono, assomando, assumia o Tempo todo, que, arrestando-se, se não sumia, antes parecia guardar o anjo da infância interditando-lhe a secagem e a distância.
’gora, não é já assim, (a)gorada a idade. Ao um-e-vinte do Setembro, a estiagem devém de si mesmo bastarda, até que toda se consuma e arda em perveniente geada. Já no roupeiro chia do casaco o couro a querer-se portado às portadas de ouro do caduco folhedo.
À hora prima, resiste a noite a falecer-se em alva – e pela casa aquietada o Desadormecido mano o primevo éter da vigília, cuidando em vão não tropeçar na mobília.
Mas um pouco de Virgílio, outro de Poe, uma pitada de Daudet e outra tanta de Prévert – e seja o que o DiaboDeus quiser.

Thursday, September 20, 2012

Três coisas de 29 de Agosto de 2012







PRÉMIO POR OBJECTIVOS

Leiria, tarde de quarta-feira, 29 de Agosto de 2012

I

O objectivo de cada dia é ganhar para ti o mesmo dia,
chegar a casa com simples & boa nova de existires,
fundamentar de ti as décadas da nossa história vulgar
e feliz.
Grandes extensões de água medeiam o teu ser continental,
reflicto eu sem pressa entre arvoredos e dunas oxidadas
de tanta espera, que
alguma vez, como sabes,
tinha de nos ser – e agora é e é esta,
desta vez.
Vês?
Acredito no bom ano passado-futuro como acredito
na verdade da flora, na franqueza da terra &
na simpatia da senhora dos Correios
que a esta carta para ti dá vazão &
prioridade.

Quanto a todo o resto,
se alguma coisa te presto,
estás à vontade.

II

No tempo das tâmaras natalícias saíamos ao frio,
éramos muitos então e nada receávamos,
não nos admoestavam a pobreza nem o cio
estávamos gente e nem pensávamos

que outras vidas viessem conspurcar as nossas simples,
não era ’inda então como agora tem de ser,
celebrámos os vint’anos com uma garrafa de Dimples
e um punhado de nozes bem boas de roer.

Depois vieram as neves, as primeiras mortes
da nossa povoação sentimental,
fomos prà tropa, tirámos às sortes
quem faria da Natália a metade conjugal.

A mim, não m’ela calhou: acabei no remoto desterro
de um qualquer nenhures Algures chamado.
Bebi muito vinho, cometi muito erro,
mas já tenho mais que um livro publicado.

III

Ao lado da minha poesia têm andado muitas muito painças
gajas boas de milho, mas sem aleivosas obscenidades.
Pego-as verbalmente (só verbalmente) em pinças.
Louvo delas as carnudas qualidades.

A minha Senhora, ao cabo de me ler, torce um pouco
o nariz bonito e desconfiado. Não é que não ache graça,
a minha Graça, a tais versejações de manso louco,
mas de quando em vez atira-me as oftálmicas e, por pirraça,

desafia-me a trocá-la por elas, as gazelas, as beldades.
Finjo-me de pronto escandalizado – e grunho assim:
Como provera eu a cambiar-te, ó pura beleza, ó monstro d’arte?
E ela, apaziguad’amansada, dá-me o melhor do seu jardim.