Wednesday, August 29, 2012

Rosário Breve n.º 272 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt


Do massacre sírio da RTP

A terça-feira da semana de regresso do nosso jornal amanheceu murganhada: a poalha humedeceu até a memória a uma pessoa, oxidando-lhe-me as ferrosas articulações do pensamento redactor. À hora a que redijo, o trânsito da avenida parece sofrer da inconsistência material dos objectos quando sonhados. Uma espécie de torpor amiúda mais ainda os projectos individuais, os colarinhos das camisas e essa vaga coisa em lá-menor a que, à falta de melhor palavra, chamamos Destino.
Resgata-me todavia da aquosa melancolia a salvação óptica da beleza das senhoras, isso que a chuva, em vez de renegar, antes reitera. A duas mesas de distância da minha chávena e do meu lápis, um fêmeo espécime muito ruivo celebra o aparato de carnaval da própria formosura: pintalgada de avelã a esmeralda de cada olho, decote do tempo mais-que-perfeito ao modo dos verbos de antigamente, ancas de viola cingível à mãozada e pés iluminados por dentro como saibro de aquário, o todo dela resultando num verniz pessoal, transmissível e ve(ne)noso.
Enquanto ela comenta para a dona do Café que o Relvas quer fazer da RTP-1 um submarino e da RTP-2 um sobreiro (ao que a D.ª Lena lhe responde que “esse fulano está para o serviço público de televisão como aquela velha espanhola para o restauro da cabeça de Cristo”), divirjo dela a atenção para fixá-la, à atenção, na rapariga da farmácia, pouco mais idosa do que a mais antiga das minhas filhas: um cravo moreno. De costas para o meu leitor, ela parece confirmar do âmbar o milagre estagnado da resina. O estatuto dela chega a ser perigoso, de tão parecido com o da minha mulher, essa santa de bairro ante que irremediavelmente me genuflicto para sempre. Chama-se Genciana, a farmacêutica moça. Pelas dez, 10 e picos, vem ela esfumaçar seu cigarrito de filtro fino branco e rechupar sua biquita fervida. No preciso momento em que vos faço relatório de sua (dela) epifania, conversando vai ela com uma mulherona tão avantajadamente larga e gorda, que só lhe falta uma data de mar por cima para ser outro Titanic. O falatório delas é sobre esse hóquei-em-patins das luminárias parolas da nossa literatura: se em vez do Nobel para o Saramago comunista não teria sido mais acertado tê-lo dado ao Lob’Antunes doutor. (Eu tenho opinião sobre o assunto, mas reservo-me-a.)
Nos entretantos, o chuvisco desistiu. Concentrado qual polpa de fruto cinzento, o ar da respiração raspa abafos eléctrodos. Estar vivo parece trabalho difícil, minucioso, molha-tolos-e-todos. É então que duas moçoilas, ambas de uma capilaridade cabeçal de louro químico, vêm cristianorronaldar e ritapereirar frivoleiras de lixo social à la TVI. A mais alta semelha um gafanhoto de arame. A mais curta é da natureza pogonófora dos rodilhões de pêlos que juncam e entrançam os ralos dos lavatórios municipais. Nenhuma delas me borbulha a derme poética, pelo que rodo a câmara lapiseira para a esquerda-baixa do palco-café, zon’área em que, a Deus Graças, vem existindo um torpedo grácil Rosa Maria Emanuel de sua (dela) graça, 33 aninhos: um Cristo feminino. Aprecio dela (e vo-la mostro, que sou só ciumento quando me dá na corneta dos dias sem crónica ribatejana) a labiação frutada, a axila tenra, a articulação mola-da-roupa das pernas rijas e boas, os sapatitos verdes mentolizando-lhe as estremas brancas em apuro rosado de cosmético esmalte.
Escoar-me-ia dela, para vosso circo deleitoso, mais photomaton, não fôra ser hora de vos fazer envio da crónica. Pago o gasto, apago o gesto, desarmo a tenda e rumo ao computador da casa, tugúrio em que, dominatrix, a minha mulher quer saber se sempre fiz a crónica e sobre quê.
Evasivo-me mentindo-lhe que desta vez não é sobre gajas que não são ela, que ando preocupado com os massacres na Síria, que o Júlio Isidro e o Zé Rodrigues dos Santos ’inda ficam mas-é no desemprego por causa do Relvas, esse bestunto capaz de em dois tempos, ou canais, obter equivalência à BBC para a RTP que Deus já tem.
A mulher aquiesce e remunera-me com uma pratada de bacalhau à Gomes-de-Sá, que é um mimo com azeitonas pretas e um copázio de tinto velho dO Ribatejo.

Nesta manhã de quarta-feira, 29 de Agosto de 2012



DA IDADE DAS CONCHAS

Leiria, manhã de quarta-feira, 29 de Agosto de 2012

I

Às vezes a vida permite-se voltar a ser muito cedo.
Uma fatia de pão alvo e um vento de livros compaginam a hora.
Um animal de cabeça amarela assombra a galeria-café da Rita:
vestido preto justo e breve, redondeza traseira a mais firme,
belos olhos pretos cintilantes carbónicos magoados de alegria,

mamitas florais abalconando a dianteira de sardinheiras vivas,
rubra boca de gelado desdém para com a fealdade alheia,
passadas de nívea espuma ao tempo corredor matador,
euforia sucinta de meu lápis.
Já a moça passou, olho para a garrafa de cerveja, assim lhe digo:

ó cerveja da manhã, ilustra-me a página devedora
de poético reconhecer, qu’inda são tão cedo o dia & a (v)ida & a ida.
Sob um céu de azul-azulejo lavado a água de sabão
te invoco, de ti implorando a paz gástrica e algum verso
bonito,

não me deixes sozinho com os meus amados mortos,
lessons in the family ecoam-me repercutidas cisternas orais
quando a aurora se amenina fina no ecrã da janela,
à que saúdo com manso vigor ao piano da nossa Língua.
Se isto não for loucura, não vale a disciplina, não vale o martírio-

-lírio-gladíolo-gardénia.
Cresço para a morte qual animal sensato, as árvores
da minha vida emolduram a tela fluvial da solidão
desbaratada, são hoje três as pombas que vieram à mão
do pão, deu-me a D.ª Lena mãe da Rita três fatias

de alvo pão barrado a versos do cedo que voltou a
ser.

II

Sou o rapaz dos corvos.
A manhã babuja um azeite, o de existir.
Inauguro caledónias versilibristas porque posso.

A manhã é o meu temp(l)o.
Se voltar a menino, voltarei amiúde a miúdo,
os olhos molhados de musgo do Dezembro.

Escuta, querida: há festa na aldeia,
o padre repimpão repimpa o carão encarnado
atestado de carne de cabra e vinho de espicho,

os gaiteiros rufam estrépitos pagãos,
compro-te fritos de açúcar, ofereces-me uma ginja,
quando o Outono vier nos achará nus

à luz portuguesa, pão e fruta sobre a mesa.
Turvos corvos nigérrimos em os meus ombros.
Escombros de escoradas vidas idas

apertam o lápis na minha mão,
é rude não fruir da tristeza o licor pensativo,
tenho a idade das conchas

mas desempreguei-me do mar,
à tarde tentarei de novo não envelhecer tanto,
não enegrecer de vez antes da hora do chá.

Ontem, terça-feira, 28 de Agosto de 2012, pela tarde


Alberto dos Santos Abrunheiro pintado em azulejo por seu irmão Daniel



CARAÇAS DO ALÉM

Leiria, tarde de terça-feira, 28 de Agosto de 2012

A terça-feira de Leiria decorrendo vai com a humanidade do costume. O Abreu acaba de sair da Rosa com a mulher, hoje para satisfação dela só bebeu três branquitos, é um consolo ver a Fátima feliz, são bons rapaz & rapariga.
Já por aqui não anda certa andorinha de saia que fazia limpezas e, dizem, se prostituía para comer, vestir & calçar. Dizem-na uns em Campo Maior, outros que em Setúbal, no Luxemburgo quase todos.
Dou ’ma marrada de boca na cerveja nova e penso logo de seguida no destino talvez feliz de Somerset Maugham – não sei porquê e se feliz mesmo também não sei.
Barcos a vapor, daqueles de grandes rodas laterais sôbolos rios que vão: estou daqui a vê-los desarvorando espumas afora sem mim dentro, desde & para sempre.
O sol não se mostrou hoje a si mesmo: murcha é a panda vela da luz cristã.
Eu estava em casa a ouvir o senhor Bach quando o telefone tocou como se já não houvesse ontem: era a minha Irmã, tinha novidades antigas, dessas amarelecidas que só Ela sabe reverdecer.
Liverpool, a portuária, não conhecerá jamais a poesia que pude na Rocha do Conde d’Óbidos.
Também já sei que nunca irei à Jamaica – e que nem perco o sono por causa disso.
A Selma Antunes escreveu que gostaria de que a morte do avô fosse uma pessoa, tal que pudesse vilipendiá-la à força toda: se não era um verso, vale bem por um.
Estas coisas escritas têm a força da irremediabilidade.
Estas coisas escritas têm a força da irremediabilidade, da vergôntea, do funcho quando infantes todos, dos livros de História fazendo mover-se os grandes e os pequenos Mortos.
A terça-feira de Leiria desfaz-se gente que vive à semana anos a fio, pulverizada pólvora ao rastilho do calor quando faz calor, do frio quando faz frio.
E nós?
Vamos ser felizes onde e contra quem?
Diga-me a senhora de sua viva voz,
Mãe.
O meu Tio Alberto guardava em mala de cartão castanho notícias recortadas da insensatez do mundo. Foi o bicho humano mais solitário que conheci. A cabeça dele era uma rosa de pedra. O sabão e o desamparo habitavam-na-no a meias. Vimeava cestos. Acabou no Caramulo, longe de tudo e de todos como desde/para sempre. Não me é possível resgatar esse Agosto de há trinta-e-dois Agostos. Morreu sozinho como um cão dado à decência. Mínimos despojos dele confirmámos do Tempo: ceroulas remendadas ad infinitum, o pente gasto, a muleta axilar, o sapato cambado e único, tinha de pernas uma – porque ninguém usa dois corações. O meu Pai falava dele. Se calhar agora fala com ele: tanta igreja por aí vemos, que alguma há-de ter razão quanto ao caraças do além.
Não assim será, minha Mãe?

Monday, August 27, 2012

Mais uma desimportância paragrafada do tal dia 7 de Julho de 2010, quarta-feira que foi, no IDEÁRIO DE COIMBRA (-34)

Um melro habita a Rua General Martins de Carvalho (1844-1921). É sempre no meu regresso ao Quarto-Casa. O senhor general Martins de Carvalho não habita a Rua General Martins de Carvalho, não pode. O melro pode. Já lhe dei pão. Quando o melro quer, o melro não habita a Rua General Martins de Carvalho. O senhor general Martins de Carvalho, por seu lado, também tudo pode por nada poder querer (1844-1921). O melro é de 2010, 7 de Julho, dei-lhe pão agora (21h39m).

Coimbra, 4ª feira, 7 de Julho de 2010 - IDEÁRIO DE COIMBRA - 34 (trecho)



Para explicar o papel do Poeta João de Deus na dissolução do ultra-romantismo luso, Teófilo Braga cita o Shelley prefaciador de Prometeu Agrilhoado:

Um grande poeta é uma obra-prima da Natureza, que deve impor-se e se impõe necessariamente ao estudo de outro poeta.

Não é má (re)citação. Nada má. Grandes ou não, poetas ou não, gente houve que ficou lacrada nos esmaecentes sobrescritos do Tempo: Anatole France, Rouget, Rostand, Lemaître, Balzac, Michelet, Comte, Baudelaire, Gautier, Loti, Baroja, Zola, Meredith, Dostoievsky, Shakespeare, Doyle, Flaubert, Chateaubriand, Byron, Maxime du Camp, Laclos, de la Rochelle, Ronsard, Gomes Leal, Ibsen, Dumas (Pai e Filho), Camilo, Strindberg, Unset, Björnson, Suderman, Ponson du Terrail, Montépin, Jousserandot, Hugo, Coppée, Prudhomme, Prévost, Lavedan, Lourrain, Castilho (coitado, Teófilo “cegou-o”), Leopardi, Lamartine, Marx & Engels. Nomes-lápides respigados da leitura do voluminho de Teófilo com concurso insidioso da minha memória sem pragmática nem utilidade, são lápides-nomes condenados, como todos e como tudo à consumpção bem mais do que à assumpção. Outros nomes? Conheço. Conheço um Joaquim Álvaro da Silva Ferreira. É homem de olhos claros como uma alvorada mal paga, uma alba sem segurança-social. Serve de extensor humano das mangueiras de uma bomba de gasolina. Delicado – e delic(i)ado da maravilha de estar vivo, de ter filhos da mesma mulher, de o deixarem (pagando) habitar uma choupana de fila singular de tijoleira num bairro dado a colômbias pós-coloniais de  moçambiciganos subsidiados pela “Esquerda”, não ele, que trabalha por não ter etnia alguma senão esta: ser tão Joaquim e tão Ferreira como Henry foi James e Anatole foi France e João de Deus foi. E não tarda nada é noite, é Noite.

Hoje de manhã, segunda-feira, 27 de Agosto de 2012


O céu de Marrazes às 6h52m de hoje

REMORSOS E PERSPECTIVAS MATINAIS

Leiria, manhã de segunda-feira, 27 de Agosto de 2012

De volta ao convívio da vida acordada desde (muito) pouco depois das primeiras seis horas do dia novo – para isto: um céu baixo, húmido, que em boa hora decidi suportar com a ajuda do casaco. Uma lentidão nas coisas, um cenário de cores amortecidas, pardas, involuntárias: paleta ou plétora que mais triste me resultaria não fôra a couraça da literatura.
Devo ser o único homem visível de momento na praceta. O resto da momentânea humanidade local é assegurado por sete mulheres e um bambino mimado que, justamente aliás, se considera o centro do mundo – como eu deverei já ter sido (não em vão: faz esta tarde 36 anos que me meti de bicicleta à frente da carrinha da Aljan conduzida pelo assustado Fernando “Músico”: tíbia e perónio direitos quebrados e expostos, mais pancada jeitosa na cabeça, a qual parece, até hoje, nunca mais se ter remendado em condições).
Uma senhora em artefactos de couro castanho que lhe assentam bem: sandálias e carteira-tiracolo. Blusa tipo caqui, fazenda verde-azeitona por calça. Reúne-se-lhe uma perua alta de cabelo amarelo-laboratório-chimico, camisola às listras horizontais castanho-creme, olho aguado azul, peitoral irrelevante e insalubre.
A empregada de turno é educada e ascética: entreolhos vincado de ruga filosófico-prático-pessimista. Corpo-vareta em magreza de guarda-chuva fechado. Atende ao balcão uma freguesa que veio ao pão – esta, de seu lado, é uma ruiva natural cuja cabeleira jorra em cascata para as costas bem tratadas, atingindo e molhando a cinta perfeita.
Às 9h26m sinto fome. Desarmo a tenda e torno a casa sem remorsos nem expectativas.

Sunday, August 26, 2012

Ontem à tarde, sábado, 25 de Agosto de 2012, Leiria



DESCAMPADO COM CICLISTAS

Leiria, tarde de sábado, 25 de Agosto de 2012

I

Fanada a manhã, diáfana sobreveio a tarde. A Cidade espera o contra-relógio do penúltimo dia da Volta a Portugal em Bicicleta. Da galeria da Rita vai dar para ver os ciclistas em último esforço pela Avenida.
É deveras uma tarde muito pura, dessas que vale a pena viver sem pensar em valores, penas ou vidas.
Mesmo assim, do outro lado da festa, perto do rio, sinto a passagem de uma pessoa pass(e)ando (pessoando, portanto) a própria infelicidade, a qual, sendo dela, parece ser ela a levá-la pela trela. Passepessoando a infelicidade como a um cão. O cão a levá-la. Mas talvez não seja infelicidade, talvez se trate de solidão – não são o mesmo. O cão da infelicidade e a cadela da solidão podem ser irmãos ou concubinos – mas diferem.
Os ciclistas vêm chegando: heróicos, quase todos sem número. Trazem o vento consigo. São filhos de alguém todos, pais de alguém alguns. A pessoa-cão ao pé do rio não os espera nem olha. Procedendo vai à sua íntima volta portuguesa, ao esplendor da vigésima-quinta etapa de Agosto.

II

O alto arvoredo beira-rio celebra a fulminandiamantes o matrimónio sol-vento. Assisto a essa paleta viva, desnudado de grandes semiologias. A meu modo, celebro quase tudo. Saí de ao pé do gradeamento, tirei já fotografias a um que outro ciclista, mas não pude evitar a recordação de quanto o meu Velho gostava de ciclismo, recolhi à Rita, tenho direito à minha cerveja e ao meu caderno, esse (este) cemitério-de-elefantes.

III

A uma ronda de castelos procedo sem sair daqui-dentro.
Nunca estive para turismos que não escritos.
Não, eu não brado por aí, por aí não and’eu aos gritos.
Turismo é por cá dentro, a tempo do atempo do Tempo.

Da negação Dele também, por força do seguro amor
que ossificou esta roulotte que a nenhures vai e sou.
Para nada conto, mas sou contador:
vou contando ciclistas (o 41 ’ind’agora passou).

A uma fronda de rios sucedo sem m’ir dali-fora.
Não, cá não se vive sem gafanhotitos.
Sim, eu briso o que li, o que li aos bocaditos.
Sou isto sem centro, a destempo do intempo do Tempo.

IV

Milénios há que o muito mar areniza as arribas.
Isto é tudo um esfarelar, até a luz é poalha.
A terra fuma-se, sabe-o bem quem cedo se levanta.
Somos afinal o bornal de quê para quem?

Aquela velha está viva, a minha Mãe não.
Estranhei sempre que aos pobres legassem o ouro das praias.
Isso – e o cinema das sombras dos pinhais na estrada.
Isso – e a eterna première da Lua estreando estrelas.

Vem a idade de ver com nitidez o descampado das coisas.
O melhor é vir vindo ao mesmo Café, sempre te sabem o nome.
Se com o de teu Pai ele coincide, pois então melhor, faz sorrir.
E sorrir, com a idade, é pelas horas da amargura

ao preço-da-(ch)uva mijona.
(Milénios há que o muito mar
etc.) 

Saturday, August 25, 2012

Colagem António - Pedro - & Inez






PATRICIPEDRINEZIANAS

Leiria, tarde de sábado, 25 de Agosto de 2012



Matam Inez a Pedro, que matar manda dela os matadores.
Círios na noite de Coimbra a Alcobaça: a Morta é Rainha Viva.
António Patrício estagna para sempre esse amor além-Tempo.
Os cursivo-itálicos seguintes são uma colagem de instantes de Pedro, o Cru.

Comidas de sol, em gamas mortas: e o que tinha de suceder,
lá sucedeu. Entra uma aragem, como um gesto da noite
adormecida. E anda
na Morte. Vem tão
tarde! A tira de mercúrio
do Mondego, além, a
escorrer lua.
Nunca foi tão noite.
O luar está mais loiro, cor
de trança.
Como uma fé simples.
Que venham sem algemas. Para poderem falar,
para terem gestos.
Tínheis ao pé de Coimbra os
vossos paços, tinha olhos para nós
a sombra.
Um adeus de lento.
Como o espectro de uma
rosa branca, como uma lua de gelo
no crepúsculo.
É um entardecer de outono. Os últimos planos
estão já numa penumbra de
oiro frio.
Choveu.
Cheirava a terra.
Era bom.
Os passarinhos,
é a hora deles.
Adeus ao sol,
mas com os olhos cheios
de sol.
Era um esperecer, um ir-se
embora.
Para eu o ver ainda nos
teus olhos.
Que devagar Deus levou
aquela flor.
Tinha passado.
Matara tudo.
Dormir de dia, fugir
ao sol, porque sabia que o sol canta melhor que
os rouxinóis.
Havia um não sei quê que
nos transia.
O lugar da execução e o
da fogueira.
Dentro de mim em sangue
e lume.
Ela com
mil vidas.
Duas vezes os
seus dentes.
Tomara eu que o vento
se calasse.
A impressão de
coisas frias.
Sem o olhar, o
meu destino.
Seja o que for. Luz.
Bebi-me.
Dá-me.
Têm pouca luz
aquelas flores.
As mãos que
alumiam, tremem.
Perdoa.
Sou eu.
O nosso amor saía do desejo – como sai uma
pérola do mar.
O teu cheiro como
um corvo.
O céu e a terra
escutam-se.
São dois abismos
a beijar-se.
Um silêncio místico.
As vossas mãos são familiares das
coisas santas.
Nem lhes buliu
a Morte, as jóias
da Morte.
Adormeceu com ela a
vida toda.
Há-de passar por entre círios?
Muda,
muda muito.
Ides ter
rosas vermelhas.
Núpcias das árvores e das nuvens.
Como em vida, a dizer assim:
como um piloto cego vê o mar.
Com os olhos que
não dormem.
A carne é também uma janela para
a dor.
Saudades são as promessas que nos faz
a Morte.
Mãos que criam mundos
e são aconchegadas
como ninhos.
Que se fazia leve,
que fugia,
como a sombra recua ao vir
do luar.
Eu vou a pé: carrego os
meus janeiros.
Vem crescendo na névoa e
no silêncio,
num grande espelho embaciado,
sem memória.
A cada tule de névoa,
uma coroa de ouro, um
grande manto, um
fresco esmaecido
de fantasmas.
Tudo sabe que a Morte anda
no souto.
As nuvens caem no vale
como mortas,
sem a luz das tochas.
A noite em que a saudade
se fez carne.
Todo o povo encantado
da saudade.
Pedi-lhe que fosse ela a
tua mãe.
Porque é que o silêncio das criaturas
não consegue falar como o
das coisas?
É uma janela que dá p’ra além
do tempo.
Que dizes
tu?
A névoa, em
tules lentos.
O que Deus sonha, o que O
faz triste.
Só porque amei, estou
entre vós
mais só do que o pobre mais pobre do
meu reino.
Sou um gafo do amor,
lepra divina.
Sou um pastor doido.
Vou a tanger pela noite à Ovelha morta.
Para entender estrelas, o melhor é
viver como elas a
arder sempre.
O resto
é pouco.
É nada.
O olhar que mais vê e
o olhar da vida – são
um espelho em face
d’outro espelho.
Querer saber é um impossível triste.
Os teus olhos de
alão meigo.
Não sei porquê.
Foi assim sempre.
A tristeza faz rir.
Tu és bela de mais: p’ra
durar pouco.
Falei enfim uma vez pela
boca deles.
Pobre! Pobre
de ti,
como eu,
um irmão meu.
Dá-me pão.
Não posso mais.
Estou a cair.
Dêem-lhe vinho.
Podeis crer.
Esta noite é um
bom espelho.
Fumos de árvores.
A névoa agora espectraliza tudo,
os olivais que nos cruzaram.
O ar, todo o ar, cheirava
a urze.
Parece que tudo isto é já passado.
Nem eu sei se Alcobaça ainda existe.
El-Rei saiu às trindades de Coimbra.
Há sete anos.
Já a terra o esburga,
o imaginário,
o baldaquino.
Adivinhava em sonho os
nossos filhos,
as pálpebras cerradas,
transparentes,
de seda.
Quando estou triste – disse ainda.
Nos olhos dela
a Eternidade,.
A hiena que o
cio ensandeceu.
Formas vagas de árvores imóveis.
O céu que nos longes – sonha luz.
Todas as luzes se apagam.
O vento! O vento!
Não vêdes como está
perdido n’Ela?
Tremulava das agulhas à raiz, como
oirado de lua.
Cada coisa olhava a sua imagem: já não
havia terra: só
espelhos…
Mesmo o ar era um espelho
de âmbar
em que o luar se mirava,
se sumia.
A fadiga faz das lajes um
bom leito.
As colunas guardam, apenas se ouve o repicar
dos sinos.
Como água duma fonte noutra fonte.
Como a luz na luz.
Uma noite de pedra sobre esta alma.
É o primeiro serão da eternidade.
Lembro a face da terra em que te amei.
Vejo os campos de Coimbra ao luzir d’alva.
Quando fecho os olhos, vejo-a sempre:
dir-se-ia que forra as minhas pálpebras.
Hiena triste.
O teu corpo de amor tão
grande e belo.
Vivia com o teu corpo na memória.
O teu sangue era o meu vinho.
A tua morte, o meu pão.
Pedro.
Inez.
Cúmplice das coisas contra mim.
Eu sei a morte como tu.
O homem-Saudade, o rei-Saudade.
Oirava de pensar.
A fugir de mim mesmo como os meus galgos.
Toda a terra viveu a endoidecer-me.
E o sono não vinha,
nunca vinha.
Nos pântanos d’argento.
De além da morte e além
da vida.
Vivo
com ela.
Bendito o lobo
em mim.
Coimbra foi como
uma mãe.
E rio e choupos,
e olivais e paços,
vozes de sinos,
é tudo, tudo feito
de reflexos.
Só ela vive do meu reino agora.
Só guardo nos meus olhos o Mondego.
Eu não tinha um irmão.
Ninguém comigo.
Fui ter com ele – o meu
amigo de água:
as suas águas tinham sede como a areia.
O sol da terra é irmão do teu cabelo.
O pomar dormia.
Eu cingia-te.
Só o silêncio andava a perfumar-se
no pomar.
O teu olhar.
É o ar da minha alma.
É um turbilhão de estrelas.
O vento de luz
da eternidade.
Não volta mais.
Nunca mais volta
em vida.
Quereis algum cordial?
Esperemos.
Consentis, meu senhor, que
vão deitar-se?

Esta manhã de sábado, 25 de Agosto de 2012






PÃO COLUMBINO E OUTRAS MIGALHAS

Leiria, manhã de sábado, 25 de Agosto de 2012

I

A chuva nocturna perfumou de terra a pedra do meu bairro em manhã. Por a ilusão de instantes, anda-se aqui por além no monte que sobreviver soube à tempestade. Voltamos portanto a viver na aldeia. Em vez de carros, tractores. Em vez de cães encamisolatrelados, cães sem roupa e sem maneiras. Em vez de instituições de débito, o crédito largo das penedias rendilhadas de urze. Em lugar do horário, o calendário simples frio-calor que rege o semeia-colhe. (Um café, Rita, que isto demora a arrancar.)

II

Não têm decerto um dedo de gordura, as trancas da rapari’ganga que veio cafeinar-se cedo com um homem irrelevante a tiracolo. O sebo não a conhece. Está na força dos seus 24,5 anos. Cabelo forte, nem longo nem breve. Uma quase-masculinidade na evidência do seu carácter peremptório. Fuma mais por convicção do que por vício: uma espécie de fé que dá lume a si mesma. Mamas suficientes, que um catraio fraldado há-de abocar qual a troféu bífido, no porvir inelutável. Suponho-a encarregada do escritório de pedreiros do pai, mais do que ele vera patroa: aquela tez semicerrada de quem sabe muito bem ao que andam os engenheiros da Câmara e de quem sabe muito-ó-fininho o que rege as manias-de-artista dos arquitectos. Gosto dela.
Faz-me pensar que era para uma mulher assim que eu deveria ter conseguido o filho que já não farei (madeira, madeira, madeira!), não para uma dessas malucas do Teatro que, em vez de na Barrinha de Mira, gastam mas-é o Verão em festivais alegadamente celtas.

III

(Já cá tenho, na galeria do Café da Rita, a minha pomba. Às 8h58m, decido baptizá-la: Virginia – sem acento no segundo I por causa de ela ser decerto do clã Woolf.)

(E às 9h23, ida Virginia, surge o companheiro dela, que naturalmente é Leonard, para comer as sobras da fatia de pão migado que a columbina mulher dele para ele guardou.)

IV

Aprendo no jornal a existência de uma espécie de medusa chamada Caravela-portuguesa (Physalia physalis). Vive de envenenar peixes pequenos e camarões. Fez ontem interditar três praias da Costa de Caparica (Almada), as de Moreno, Sereia e Hula Hula, depois de ter “contactado” uma menina de sete anos na Morena. Diz-se que é de maior frequência no mar-alto do que junto à costa – mas.
Dá-se por ela no Pacífico, Atlântico e Índico. A parte do corpo que fica à superfície marinha parece uma vela (daí o Caravela onomástico) e chama-se pneumóforo. Entre este e os tentáculos, acumula pólipos, a sacana. Os ditos tentáculos podem chegar aos 50 metros, o raça do bicho. Afiança-se ainda que, após o indesejado e involuntário contacto com ela, o vinagre ajuda a aliviar a dor. Com o tomate, o pepino, a cebola e a alface também, digo eu.

V

(Confio que o que escrevo cada dia venha a ter, um outro dia, valor psicográfico. Não sei é por nem para quê. Nem por que confio.)

VI

A pena que tenho de as manhãs acabarem!
Sobem de mais a própria redoma, ou campânula, e estilhaçam-se ao cabo da limitada aventura aeróstata.
Não é ’inda o caso, porém: são as 11h04m do sábado.
Há ainda tempo no Tempo.
Virginia & Leonard estão alimentados.
Ofereci-me dois cafés e um quarto de barra de chocolate avelanado.
Li bem o jornal, folheei até o suplemento-revista a cores de luxo, cujas gajas, por mais frívolas, sempre coçam um bocadinho a próstata babosa a um quase inocente pré-cinquentão.
Chegado é todavia o momento de desarmar a tenda matutina.
Em casa, proceder ao périplo useiro e vezeiro: manuscrito abonando o lado esquerdo da secretária, infodactilocompor a manhã (escre)vivida e aquecer mais café, que o chocolate se acabou como a manhã.