Monday, July 30, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 27 (fragmento) - Coimbra, segunda-feira, 28 de Junho de 2010


© Saul Steinberg



Volume, ergonomia e ameaça – tudo apresenta este descriado já corpo de rapariga (quê?, dezanove, vinte anos). Namora aquele rapaz ali, o de cabelo preto escorrido em farpas (gel’ongitudinais, umas, oblíquas outras) e ruído cós de calças em aparato de mostr’elástic’à-cueca. Mas a moçoila é de facial saúde camoesa, de pré-lácteos mamilos, nédia e folhosa qual empada, unhas dos pés envernizadas de cor-de-vinho-do-Porto (tinto), comissura labial em fina sangria, olho esquerdo pequeno e castanho, o direito também, sinal natural na face esquerda evocando Versalhes e amásias do Luís que foi XIV, rapariga (enfim) para engordar de muitos lípidos e um par/ou/trio de crias em futuro não remoto. 

Thursday, July 26, 2012

Rosário Breve n.º 269 - in O RIBATEJO - 26 de Julho de 2012 - www.oribatejo.pt





A Casa do Trinta-Diabos

Há muitos, muitos anos, havia um homem que chefiava uma quadrilha de ladrões de estrada. Ninguém conhecia o nome verdadeiro dele. Mas a fama do chefe dos ladrões acendia tanto o terror na noite e nos corações, que se tornou conhecido pela alcunha de “Trinta-Diabos”.
Não havia automóveis, nem aviões, nem rádio, nem televisão. Havia o Sol e havia a Lua. E havia a casa do Trinta-Diabos, que só um dos ladrões do bando sabia ao certo onde ficava. Era para essa casa que o ajudante do Trinta-Diabos levava as malas e os alforges com o produto dos roubos.
Os salteadores operavam de noite. Preferiam as carruagens que, a horas mortas, se arriscavam pelas amortecidas estradas dos bosques. Depois do assalto, os ladrões desatrelavam os cavalos das carruagens e fugiam com eles. As vítimas ficavam ali até que Deus voltasse a lembrar-se delas.
O povo dizia que os ladrões comiam os cavalos roubados depois de lhes terem bebido o sangue misturado com cinzas de oliveira. Mas isso não era a verdade. A verdade era que os ladrões vendiam os animais em feiras de gado, que naquele tempo eram legais porque ainda nem União Europeia havia.
Foi por causa das feiras de gado que o bando foi detectado, preso e desmantelado. Todos foram metidos a ferros no cárcere – todos menos o Trinta-Diabos, que nunca ia às feiras, preferindo ficar em casa a contar e a recontar as moedas de oiro à luz do azeite.
O ajudante do Trinta-Diabos, de modo a aligeirar a pena de degredo para África com que o ameaçaram, confessou a localização da casa do Trinta-Diabos. Os polícias pegaram nele e, numa noite de carvão apagado, partiram em busca do sítio e do terrível chefe da quadrilha.
Quando, cheios de cautelas, arrepios e suores-frios, chegaram ao local indicado pelo delator arrependido, a casa não estava lá. Foi em vão que o atónito criminoso jurou e voltou a jurar que era ali e em nenhures senão ali. Chorando baba, sangue e ranho, gemeu que só podia tratar-se de algum milagre infernal. Que só trinta diabos no corpo de um poderiam mudar de sítio uma casa tão grande como a do seu antigo chefe.
Os agentes da lei não acreditaram nele e mataram-no ali mesmo em fúria e por vingança. Enforcaram-no num castanheiro e abandonaram-no ali à podridão em sinal de aviso ao Trinta-Diabos.
A casa nunca foi descoberta. Mas o povo sabe que ela só pode continuar a existir – e algures na mesma serra. Em noites invernosas, quando o frio torna a solidão tão material como uma pedra, há quem veja, lá longe no manto negro da serra, uma luz de azeite tremendo como uma estrela maligna. Mas quando a manhã volta, os cães e os homens nunca encontram a casa no sítio da luz.
Se esta história é verdadeira? Claro que sim. Todas as histórias são verdadeiras depois de escritas e contadas. Sou o bisneto do Trinta-Diabos. Minha Mãe foi a única filha da única filha dele. Ao lado do papel onde escrevo estas palavras para Vossa ilustração e entretenimento Vosso, brilham ainda, à luz agora eléctrica, as moedas de oiro que o Trinta-Diabos nunca pôde gastar por não ser capaz de sair de uma casa que não existia.



Thursday, July 19, 2012

Rosário Breve n.º 268 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt


Por mim, está na altura

O Estado é maior do que o País, o País é maior do que a Pátria e a Pátria é só do tamanho da Selecção da bola, a qual, por aliás meritória e nacional coerência, perde sempre nos momentos decisivos, à imagem de Pátria, País e Estado. Tirando isto, está tudo bem.
Está bem o corrente Verão, cujos quase-40 graus centígrados amanteigam a luz e entorpecem o ar de uma textura sedativa, narcótica, soporífera e estupefaciente em tudo idêntica à da prosódia sí-la-ba-a-sí-la-ba do sr. ministro das Finanças.
Está bem o Facebook, inçado como anda de “revolucionários” que carregam muito mais vezes no botão do “gosto” do que botam os olhos & as mãos & os pés & tudo nas ruas-manifs.
Estão bem os retalhistas de botijas de gás, cujo consumo disparou (ou explodiu) desde que o pessoal, em vez de cartão, começou a ir com elas, mais isqueiro, ao multibanco.
Estão bem os pintores da construção civil, os quais, a 5 € à hora, já ganham mais 77 cêntimos do que os enfermeiros por igual fracção de tempo de trabalho.
Estão bem as senhoras que pela berma das estradas alugam a sacudida imitação do amor, já que os alegados filhos delas se reformam todos cedo e bem.
E estão bem os e as que morreram antes desta edição do jornal estar no prelo, imunes que ficam, finalmente, à envergonhada pobreza imerecida e à angústia de terem criado as filhas para isto, sendo “isto” o andarem elas, pelas bermas das estradas, alugando a sacudida imitação do amor em prol dos filhos etc.
Eu acima disse “tudo bem” – mas não é verdade. Ele há excepções.
Estão mal os pedófilos, porque as crianças acabaram e já ninguém está para fazer mais.
Estão mal os incendiários, porque já ardeu tudo o que havia a arder, a começar pelo futuro.
Estão mal os mestres-professores-Bambas-Karambas-Makukulos, porque a Maya cartomante não arreda os pezunhos da SIC (e sempre é de borla, embora não acerte uma prà caixa como o Sá Pinto).
E, se não mal, também não há-de andar grande coisa esse manso avatar da “tranquilidade”chamado Paulo Bento, cujo onze supostamente nacional já nem uma Betesga ganha, quanto mais um Rossio.
Isto tudo que digo há-de ser verdade – a não ser que alguém da Rádio Renascença se lembre de pôr o senhor ministro das Finanças a fazer os relatos dos jogos de Portugal contra a Troika. Porque, com esta a dormir, de certeza-certezinha que ganhávamos. E porque, a dormir, tudo e todos somos da mesma altura.
Até que decidamos que está na altura de termos e sermos de outro tamanho.


Tuesday, July 17, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 26 (conclusão) - Coimbra, domingo, 27 de Junho de 2010


© Henrique Medina (18 de Agosto de 1901, Porto - 30 de Novembro de 1988)


Pessoa em carta de Lisboa, 5 de Janeiro de 1914, a Teixeira de Pascoaes:

Passo a vida a adiar tudo – e para quando?

*

O que mais surdamente pretendo – é não prota/nem/anta/gonizar o livro que, queira-o ou não, sou. Agonizar também não quero. Ambiciono a paz e a indiferença – mais o que resulta da fusão de ambas. Quero muito isto: ficar escrito em paridade com o inefável e o redundante. Ao cimo, enfim, duas datas no peito de mármore. Ao fundo, um rumor de raízes obstinadas, voluntariosos vermes e meia-dúzia de versos justificando as ossadas e as surdas pretensões que nutri em vida.

*

 Trabalho ora com bons materiais: perfilados como de moedas, os rostos das pessoas. A economia delas: o que gastam sobre a mesa, se sim ou não arranjaram as unhas a pagar, o calçado que as leva e traz, os óculos e as minuciosas parafernálias afins. São estas fragmentações que me dão trabalho – e eu nunca voltei o rosto ao serviço.

*

A felicidade é compósita, é elementar a tristeza. (Penso isto mesmo.)

*

Outras vezes, acode-me desejar compor os versos das canções que novas Sereias cantassem para desespero novo de novos Ulisses.

*

Que poderia ser isto, minhas filhas, em nosso redor
– senão o manto-de-mágico das estrelas no veludo tão alto da Noite que cruzais dormindo em transes de açúcar?
– senão a bondade infinita dos olhos dos cães e das vacas e das mulheres que os homens amam para que filhos e filhas?
– senão três, quatro árvores atoalhando de sombra de escuro linho a clara relva que grita verdes?
– senão um homem banal a escrever versos de domingo no Café de todos os dias as noites todas pensando nas filhas?

*

Além, minha cabeça adentro, os legos humildes do casario ao colo da serra: como crianças de cal, cabelo vermelho, olhos que o sol doura como a janelas. De que para não precisar de ser feliz preciso? De coisas cabeça afora. Mas: impõem-se os recados gráficos de cercanias a que falta um centro – como se a S. Martinho do Bispo e a Lordemão faltasse, centrípeta, a Torre da Universidade.

*

Vai Junho acabando. Outras coisas vão começando. Amanhã, reabre a casa-de-pasto Viaduto. Ontem, falei um pouco como pessoas que não eram eu. Na cama, sentia os carros subindo a Avenida. Hoje é domingo. No Nosso, a vozearia de um aldeão alcoolizado (marca feirante), de tez enegrecida pelo courato do esterco, incomoda. Não é o álcool dele que incomoda. É ele. Agora ladra que é de Figueiró dos Vinhos. O pessoal a ver o Argentina-México e o fulano a etilizar o cenário. (A propósito, e aos 25m da primeira parte, injustiça arbitral: golo de Tevez em fora-de-jogo conta na mesma.) O tição bebedolas, Dieu grâce!, foi-se embora. Resta, ainda assim, um maduro parvalhóide que noutro dia (durante o jogo Espanha, 2 – Chile, 1) por aqui apareceu estupidamente com uma estúpida vuvuzela. Ainda cornetou aquela merda, mas impuseram-lhe respeito. Hoje, está sem a corneta merdosa que o marketing do Mundial sul-africano criou, mas é como se tudo o que diz e vocifera fosse vuvuzelado na mesma. Amanhã conta 28, este Junho que quando quer arde, quando não quer emana frescuras quase frias. Penso na minha Mãe. Na cama, como quando fez os filhos e como quando (n)os pariu. Por estes dias, tem ela, do lado esquerdo, a Vida deitada; do direito, deitada a Inominável. E eu, que tenho quanta saúde não mereço, faço por ler livros, por escrever um e por não andar por essas ruas soliloquando gestos de doidinho letrado. Vai a Mãe acabando: que me interessar pode o começo de outras coisas?

*

(No frigorífico, restos de sopa de feijão-verde e de esparguete com calamares. Julgo que uma sobra de creme de ervilhas também. Mortadela, ainda. As verduras acabaram, os pickles também. Apetece-me peixe com batatas cozidas, mas não há alho para benzer esse casamento do mar com a terra. Quando finalmente for à mercearia, hei-de convocar: uma lata de metades de pêssego em calda; um pacote de margarina e outro de banha de porco; um frasco de espargos e outro de cebolinhas em vinagre; tomates e agrião; mais batatas; peixe; carne de porco salgada; leite condensado, uma latita das pequenas para turvar o chá; dois pares de palmilhas para as sapatas; uns chinelos de borracha como aqueles com que os brasileiros já saem calçados das cavas uterinas das mães; pão-de-forma ensacado às fatias; alho e cebola e tomate com fartura; e um lápis.)

*

Pessoa em carta a Armando Cortes-Rodrigues, datada de Lisboa, 4 de Outubro de 1914:

Há dias passava eu de carro na Avenida Almirante Reis. Levantando os olhos por acaso, leio no cabeçalho de uma loja: Farmácia A. Caeiro.

*

Como o que ontem fomos o não sabemos já,
desconhecemos o que seremos no amanhã que será.

Monday, July 16, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 26 (outro fragmento) - Coimbra, domingo, 27 de Junho de 2010

DA, Leiria, 11 de Abril de 2012





Desconheço se a Vida é de consumo mínimo obrigatório, se de consumo obrigatório mas mínimo. É, enfim, consumo. E obrigatória. E mínima.

*

Estilhaçada a redoma de cristal da infância, desflorada a rosa da tarde, ao menos a julgar pelo relógio (15h37m) é tarde na minha vida.

*

Quintais suburbanos, uma criança solitária por cada. A montanha, longe para sempre, não mais que um fumo azul debruando o horizonte da criança e da solidão que ela já exerce, suburbana do mundo. Nas noites sem polícias nem ladrões, as estátuas trocam de jardim alvoroçando o sono dos melros, indignando as dálias, entrando neste verso. Nos sanatórios de fim-de-linha(gem), os velhos & as velhas descuram-se finalmente da mente e do final, imunes ao Tempo e ao Amor e à Solidão e às Fezes. Cada criança suburbana por cada solitário quintal iniciou já a contagem para este mover de estátuas, de dálias.

*

Nas tumbas de pedra das catedrais,
bispos e reis (e soterrados operários)
nem dormem já, que o pó não dorme.
E o esquecimento é enorme.

*

Espanejo de floral rama de laranjeira por vezes a minha vida podógrafa. Não se trata (não já) de leccionar crianças ou de coleccionar amores. Trata-se de deixar escrita uma cor que aliás nem vi, uma ave-árvore autuando a eternidade de uma tarde (uma eternitarde), algo assim difuso mas uno na minha cabeça-coração. Ainda assim, deveria arranjar um emprego melhor.

*

Conheço tão bem como toda a gente (séria) que chamar genial a Pessoa é como chamar água à chuva. Em carta ao poeta Mário Beirão datada de Lisboa, 1 de Fevereiro de 1913, ele assim:

As ideias que perco causam-me uma tortura imensa, sobrevivem-se nessa tortura, escuramente outras.

E adianta:

V. dificilmente imaginará que Rua do Arsenal, em matéria de movimento, tem sido a minha pobre cabeça.

Conclui o parágrafo:

Toda uma literatura, meu caro Mário, que vai da bruma – para a bruma – pela bruma…

*

Se as andorinhas fossem amarelas, esta menina de blusa amarela seria, em perfeição, uma delas. É filha deste casal aqui, vêem, este que lancha tantos bolos e tantas coca-colas. Todos chinelam de borracha, todos de calções. Por causa dos calções, os refegos brancos e moles das coxas da mãe enrosquilham-se magmas de banha seguros a custo pela pele. Por causa dos chinelos, os dedos dos pés do pai apresentam uma grossura de maneiras e um duplo pentagrama onicológico de esterco que escreve travessões no soalho-caligrafia do Café. Mas é por causa daquele amarelo da filha que, não sei porquê, pensei em andorinhas. E que, em andorinhas pensando, foi nela afinal que pensei e penso.

Ideário de Coimbra - 26 (fragmento) - Coimbra, domingo, 27 de Junho de 2010


Antero de Quental, representado numa "estátua viva". A Questão Coimbrã nas ruas de Lisboa.
© Inês Antunes



Em carta datada de Lisboa, 12 de Novembro de 1914 a Álvaro Pinto (da direcção da revista Renascença Portuguesa e secretário de redacção da revista A Águia), escreve Fernando Pessoa assim:

Compenetrei-me celularmente da absoluta inutilidade de qualquer esforço e da ridícula incongruência do acto fundamental de escrever – expor aos outros cousas que ou são opiniões ou sonhos, como se as opiniões, quando por acaso alguma acção têm, fizessem mais do que perturbar para fora dos seus saudáveis e naturais instintos os pobres cérebros humanos; e como se o destino lógico e nobre dos sonhos não fosse ficarem apenas sonhados dentro de nós, sem a ousada imperfeição de serem expressos. Não podendo ter a maravilhosa e natural saúde de não ter opinião nem sonhos, esforcemo-nos ao menos por adquirir a artificial saúde da renúncia.

Pobre Pessoa, jóia raríssima imersa e ignota num charco de rãs-integralistas, sapos-lusitanistas e girinos-saudosistas. Nem lusitanismos nem integralismos poderiam perceber, sequer de esguelha, o drama estático O Marinheiro. Acrescente-se “apenas” isto: que já a 8 de Março deste mesmo 1914 Pessoa, de pé, sobre uma cómoda alta, recebera a visita mediúnica de um tal Alberto Caeiro, guardador de rebanhos

Já Teófilo, a páginas 100-101 da op. cit., cita, a propósito da chinfrinada da Questão Coimbrã (Bom Senso e Bom Gosto), uma excelente intrusão (tão actual, infelizmente) de Cunha Belém, autor do folheto Horácios e Curiácios:

A facilidade com que entre nós se fabricam as reputações literárias, a impunidade com que se adormece à sombra dos colhidos loiros, o deleite com que tanto os grandes como os pequenos ouvem reciprocamente o canto da sereia denominada elogio mútuo, a má-fé ou nímia condescendência na crítica literária, são decerto a principal origem da astenia que apresenta a nossa boa literatura.

Pois é: a trampa é antiga. Do século XIX ultra-romântico do Castilho cego e do deslumbramento revolucionário do Antero suicida – ao nosso XXI, nada de novo debaixo da cloaca. Hoje, os chicos-zés-viegas, o VGraçaMoura (vero Pinheiro Chagas da nossa idade), os peixotos, os possidónios, as pedrosas, os manéisaroucas, os pivôstêvês – tudo é genial por destinal ou asneal de asinino. Bardamerda, enfim, que no país “literário” só a estupidez, o compadrio, a putaria, o piercing e a infecta madalena que os/as pariu a todos/as são vernáculas.
(E isto numa língua que deu um Nuno Bragança – quem?, um Miguéis – quem?, um Sena – quem?, um António Osório – quem?, um H. Silva Letra – quem?, um Wenceslau de Moraes – quem?, um Soeiro – quem?, um Luís Filipe Costa – quem?, um Fernando Pessoa – quem?)

Escrito agora mesmo no Café da Rita


Leiria, segunda-feira, 16 de Julho de 2012


Supõe-me, ó menina, neste real: uma avenida urbana, um café pequeno, familiar, de bairro, em que me conhecem o primeiro nome e me sabem o hábito do consumo diário. Pela língua do macadame, procissão de viaturas comerciais. Pelas arcadas corredoras que galeriam a fronte dos estabelecimentos, peões avulsos andando a & à vida. Crê-me, porém, que, estando aqui de facto, não é deveras aqui que sou – porque é numa quinta sem máquinas que me desejo. À virente ardência da massa vegetal embebida em luz, recebo a dicção das frases brancas que os muros parecem – como locuções de cal. Um regato vem serpentinando fulminantes de vidro em chamas. Clarões de japoneiras quase de todo ocultam o solar. Limoeiros, pereiras-de-inverno e laranjeiras acirram a fragrância mental, que a profusão de flores mais obriga a ser pulmonar. O jasmim quer de ti falar-me a mim. A balsamina sonha com a menina. Só não é recinto: porque o muito céu muito azul todo a tudo franqueia sem mesura mas com mesuras gentis & gentílicas. (É verdade que passa agora mesmo pela avenida uma ambulância dos Voluntários locais a uivar – mas a Quinta resiste e r-existe.) Folhagens emaranham diademas latentes & latejantes. Silvas cuidam cobras brilhantes ao esmalte solar. A respiração majora a vida dos perfumes, fulgura badanas do nariz, atenua a combustão da melancolia profissional. É tudo um sendal, um veredear, um azinhagar, um álear. Iridesce a joaninha zumbindo a vermelho-pinta-preta sua dela puerilidade mesma. Tudo aparece, nada perece. (Dão porém as perto-de-meio-dia, tenho de tornar a casa a preparar o caldo, levo a Quinta velada a um instante periférico do outro olhar – o verdadeiro – com que te olho: e que mais não é, por mim, menina, que jasmim e balsamina.)

Sunday, July 15, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 25 (conclusão) - Coimbra, sábado, 26 de Junho de 2010



Finitos embora, toca-nos por vezes a graça,
nem tudo que corre nem sempre não pára,
escuta e olha e vê.
Lares se fazem, contrafazem, desfazem
e refazem em outros, mescladas em
outras as pessoas mesmas.
Sempre lograram contemporã existência,
que essência não, a sarjeta com o casino,
a casca de batata com a filigrana.
Por mim, mais sempre cifro que a decifrar
dou, que me até por vezes sucede
saber do que, e a quem,
falo.

*

É uma questão de sobrevivência, versejar. Um gajo mete-se a isto na púbere roupagem – e quando dá conta de si e do que em que se meteu, está tramado: sem poder viver disto, para isto vive. Isto significa: um achado silábico, um jur’assino futuro, um tilintar de cores, uma cegueira com GPS. Não poderia não podê-lo, versejar. Agora já não. Parece que estou daqui a ver o Antero no peitoril da janela, como o memorou Gonçalves Crespo, o Pessoa a almoçar no Restaurante Pessoa, mediante empréstimo de J(oão) C(orreia) de O(liveira), o Vergílio a fumar cigarros para-sempre-até-ao-fim, a besta do Pina Manique a encarcerar gente como se fosse, o Pina, um clone analéptico do McCarthy do zamericanos. Sim, é sobreviver, isto. Não direi, disto, que é apenas isto, nem tudo isto. Sim, no fundo como à flor disto – isto é indiferente. Mesmo a tragédia vertiginosa-lenta de Scott Fitzgerald, de Poe, de Pessoa, de Lowry, de Gomes Leal, de Céline, de tantos ante quem o futuro (agora-isto) só pode indiferenciar nada de coisa alguma. Tenho a minha Mãe doente de tempo. Coração, sangue, sinapses, rins, olhos – pretextos-janelas para o Tempo entrar devastadoramente naquela casa-corpo que me deu nascimento mercê jaculatório amor de um homem hoje morto, ontem mortos, morto há dezasseis anos, dois meses e dois dias. Adiante e siga: finitos embora, toca-nos por vezes a graça, a pulcra graça pueril da Beleza, a uns por coplas, a outros por cópulas: a tudo e todos assiste o direito de algum-pão-algum-circo-algum-poeta-Juvenal-e-juvenil. Sim, Juvenal se chamava, também, um jogador da CUF das minhas primícias lúdicas. E então? Que mal nenhum pode tal (Juvenal) trazer isto à humanidade? Vo-lo recito, de Pessoa, que ’ind’oje à tarde o li – parece que do ano primo de meu Pai, 1917 – isto:

O meu espírito vive constantemente no estudo e no escrúpulo de deixar, quando eu despir a veste que me liga a este mundo, uma obra que sirva o progresso e o bem da Humanidade.

Quatro minutos para as zero. Fatigada doçura nos olhos, óculos incluídos. Ferve a caneta já um pouco. Como terá suportado Macau Pessanha tantos anos? E Pessoa, o viver? Três minutos para as. Dois minutos para. Um minuto. Zero.

Entardenoitecer em Coimbra há dois anos (fragmento da entrada 25 do IDEÁRIO DE COIMBRA, intitulada PESSO'ANTER'ANDANDO e datada de Sábado, 26 de Junho de 2010)

20h44m. Entardenoitecer. Delidas, esmaecem da jornada as tintas. Acinza-se o que azul esmaltou a convexa concha, frúem o fresco as aves derradeiras. O burgo range de uma preguiça capitosa, copos de cerveja semelham velas de oiro nos altares das esplanadas. É quando viver ainda não custa. Tilintam de sombra os plátanos, começa finalmente endurecendo a goma das acácias e o visco das raparigas. Se ao menos pudesse ser que, a hora finda, fosse logo a alba! Pré-saciada, porém, a Noite espera ’inda um pouco até coroar-se rainha do hemisfério que em partilha nos coube. E depois (agora) – é tudo Dela, a começar pela nossa vida.

Thursday, July 12, 2012

Rosário Breve n.º 267 - in O RIBATEJO de 12 de Julho de 2012



Cigarrelvas

De irregulares mas constantes tempos a tempos, sofro de um bom, benigno, benévolo e benfazejo convite para almoçar. Vem o convite de um destes três rapazes: ou do Artur, ou do Leonel, ou do Licínio. Somos momentaneamente felizes os quatro: o Artur, que é bancário, o Leonel, que oficia e revê contas, o Licínio, que é administrador hospitalar, e eu, que não faço nada.
Ao reencontro, abraçamo-nos com mais ou menos discreta efusão, assentamos as nalgas nos lugares certos (no sentido dos ponteiros do relógio, Leonel, Licínio, eu, Artur) e começamos logo a insultar-nos uns aos outros com a maior brandura deste mundo a propósito do vinho que há-de ser, se as azeitonas prestam ou não, se o queijo de Idanha é ou não melhor do que o endógeno do Rabaçal, se a empregada de mesa marchava ou não marchava e com qual de nós.
Lautodeleitamo-nos de seguida com algum monumental cozido, alguma escabrosa feijoada ou, hélas!, alguma delicada cabeça de corvina grelhada cómilfô. A conversa, natural e inapelavelmente, deriva de imediato para os três únicos assuntos possíveis a quatro almoçadores já maduros e já outonais: a) gajas; b) futebol; c) Relvas.
Quanto a a), já se sabe: mais é o ladrar do que o morder.
Quanto a b), que o Proença árbitro lá teve o merecido prémio de roubar tanto o Benfica e que o Cristiano Ronaldo é que come tudo o referido em a).
Quanto a c), o pio pia mais fino e o fio fia mais a pino: é que, na generalidade, o plenário afina pelo diapasão de o Relvas desafinar tudo quanto nos ensinaram que era o fado.
Particularizando: o Relvas matou, pela segunda e última e derradeira e definitiva e perpétua e vita-mortalícia vez, o Monsieur de La Fontaine.
Monsieur quem? De La Fontaine, o célebre e celebrado autor de fábulas imortais como a da Cigarra e da Formiga (autor ou recontador, aceitando que a história original pertence a Esopo). E matou-o porquê? Matou-o porque demonstrou que, afinal, a Formiga não tinha razão nenhuma, que trabalhar todo o Verão da existência para ter que comer no Inverno da vida não leva a lado nenhum; e porque a Cigarra é que a leva direita, só tocando e cantando em vez de andar por aí armada em parva a vergar a mola e não cuidando do honesto estudo, nem da invernia, nem da aposentação, nem do final desamparo minuto a minuto (des)contado desde que se nasce.
Em termos de b), portanto, o c) dá nisto: La Fontaine, 0 – Relvas, 1.
Acho que não preciso de esclarecer os meus leitores: sabeis bem do que estou a falar, bastando-me apontar-vos o que o Negócios Online publicou terça-feira passada. Isto: Miguel Relvas viu o seu currículo valorizado depois de ter transmitido à Universidade Lusófona que tinha sido presidente da assembleia-geral da Associação de Folclore da Região de Turismo dos Templários, entre outros elementos do seu percurso profissional.”
Acabado o almoço, o Artur vai trabalhar, o Leonel vai trabalhar, o Licínio vai trabalhar e eu, que não faço nada, venho para o café da Rosa e “arrelvo” uma crónica que, se não me dá para o cigarro, dá de cigarra. 

Saturday, July 07, 2012

Ideário de Coimbra - 24 (conclusão) - Coimbra, sexta-feira, 25 de Junho de 2010



Objectos acumulados sobre a mesa, fundindo as respectivas personalidades:


o bloco-notas & a disponibilidade mnemónica;
o cinzeiro & a omnivoracidade escatológica;
a afiadeira & a obstinação recapituladora;
a chávena vazia & o utente de serviços públicos;
o telemóvel & o silêncio primitivo.

*

Uma sala branca. Cadeiras azuis. Tampos das mesas aos quadrados cinzentos e brancos. Porta entreaberta sugerindo um corredor silencioso como via de claustros. Rumor de água invisível dos flancos da atenção. Consciência perorando, arrumando-se como lhe é possível.
Passagem: noção radi(c)al dela.

*

(Fim de manhã. Não permitirei que a penúria financeira seja capaz de impedir-me de escreviver.)

*

Uma mulher de saco com cerejas.
Outra mulher, rosto de morte-da-bezerra.
No meu queixo barbeado, um risco de sangue seco.
Confiança nos Antípodas, aqui só inquietude.
Tempo de ossicalcificação mental.
Sou um movimento que espera,
uma espera que se mexe,
uma cereja num saco.

*

Encontro não combinado com o meu Irmão Fernando nO Nosso Café. Assuntos: a Mãe, o Desemprego/as Expectativas/as Perspectivas/a Falta Delas. A (des)economia das nossas vidas pesando mais do que os anos. Mas irmandade e fraternidade, no nosso caso, rimam de facto e deveras.

*

Esta espera interior, esta estranha acção dos mecanismos neurovolitivos. A “selecção natural”, como me acaba de dizer o Fernando. Desprezo pela sociodeficiência voluntária. Rejeição do jugo pré-conceptual, mesmo algum de cariz familiar (espécie de imerecida ancestralidade obstinada, presente, asfixiante, irracional e irracionada). Esta interior demora: pele de pele, vida de Vida. Corpos jovens residindo numa dimensão paralela/mas visível a olhos-nus/à nossa – mas nossa não já. A poesia ante a realidade: uso de gabardina no Estio. Nos estabelecimentos-bebedouros-da-Noite, mais co(r)pos: penetrando os sacrifícios, cotejando estátuas-de-jardim nas esplanadas, devastando gelados, folhados, granizados, gins, amendoins, rosquilhas, salsaparrilhas & ingentes aguardentes. Esta íntima demora, este morango cardíaco, esta ressoante e ressumante humanidade toda intestina. Falo-Vos de vós adentrando-se sem partilha maior que este crescente de unha que acabo de roer. Uma vida: mel & pus. A um momento lúcido corresponde a percepção da não-gravidade de quase nada. Gomes Leal, por exemplo: cara & coroa de si mesmo, o Gomes da mais completa/abjecta prostração material & o Leal leal ao sonho dos salões do terreal paraíso nobiliárquico. O pelo sonho é que vamos do pobre Sebastião da Gama na Candidinha de A Farsa de Raul Brandão, mas em versão ódio. Estas coisas, estas elucubrações ao tempo genesíacas & apocalípticas. E, ao cabo como ao fim, não-graves.
Espero, sim, por dentro, a consumpção e a assumpção. Agora sou todo já tão-só palavrinhas. Manuais de conversação, breviários gramaticais, cadernetas corocartográficas, sinapses (v)ideográficas do Sul da Hispânia quando os Mouros repousavam o alfange e deixavam dormir as mulheres, Althusser antes de estrangular a dele num acesso de loucura toda sináptica, os gajos em Oxbridge cheiinhos de erudição exegética, de prisma hermenêutico e de paneleirice mal recalcada (o estudante muito louro, muito velocipédico través o extenso relvado gelado na calafria manhã de cinza), o toucinho viático, saudades deste e daquela, o perfil pai-natal daquele homem hirsuto de neves barbibigodeiras, Marlowe escanhoado (um deles dois, ou o detective de Chandler que bebia ou o coevo de Shakespeare que também), José Rodrigues Miguéis como guarda-redes desta quadra de hóquei-em-patins: Hemingway, Faulkner, Fitzgerald e Dos Passos; adversários: guarda-redes Jorge de Sena, em campo Upton Sinclair, Sinclair Lewis, Steinbeck e Caldwell. Estas coisas já sem gravidade, sem dor já nem remédio. Um poema, portanto –

*

Queremos o que ter vamos
Uma outra vida iluminando uma frase
Que sabe pérsicos os pêssegos
E a boca por primeira das três fontes da cabeça.
Teremos o que querer não vamos
A guarda do cipreste
O coração fátuo-fogueteiro
A estrelícia em vão enamorada do cravo
E uma revolução toda cagada pelas ruas futuras.
Julho não tarda aí nem tarda a ir-se embora
Certo Novembro recebemos uma carta transparente
Tinham proibido as ínsuas e as perdizes e os selos
E tudo aos de então pareceu agora como nunca mais.
Falai-me V. de meu insensato primo
Que à mulher insensatamente desamou
Depois de lhe feitas as filhas e as malas.
Contai-me não salteada a história ponderosa
De quem pinta dos ricos as mansões
E das mulheres a roxo as vistas.
Na mente do suicida, falhei a vida
Mas a morte me não falha,
A terra a quem a trabalha.

*

Sim, espero dentro esse dia já ontem.

*

Fitzgerald, pág.ª 87, perto do final da história intitulada Tarquínio de Cheapside:

O hóspede voltou para ele um rosto pálido como pergaminho, no qual dois olhos perturbados ardiam como duas grandes letras vermelhas.

Friday, July 06, 2012

Um fragmento dos primeiros minutos de sexta-feira, 25 de Junho de 2010, em (Ideário de) Coimbra


Minutos poucos depois da meia-noite, no regresso ao quarto-casa, esta evidência:

À noite, muito femininas, as árvores recolhem do chão as sombras que durante o dia estenderam aos pés umas das outras – e sobem-nas à cabeça, como mulheres antigas a cântaros, para enegrecer – ou em negro serem o que são: filhas da Luz, mães da Treva.

Mas depois passou-me – e passei.

Ideário de Coimbra - 23 - três trechos de Coimbra, quinta-feira, 24 de Junho de 2010


© Asca S.R. Aull – Wall Street


A solidão confere invisibilidade ao seu portador. Uma espécie de força, também.

*

Cerro os olhos para subir a esta falésia povoada de ovos de aves marinhas. O veludo-eléctrico azula o mar de um verde novo todo cinza, giz, âmbar e nácar. Os ventos reorganizam a cada instante a altura e o mundo. A praia é uma tiara infinitesimal. O ar satura-se do cheiro vivo dos peixes, dos crustáceos, dos barcos e dos bivalves. Sentir-me-ia feliz, se alguma coisa pudesse sentir – mas não posso, pela razão de que tudo é belo de mais para ser negociado pela razão. Não sinto sede sem fome – nem isso sinto. Sei que estou vivo, mas não tão furiosamente como quase sempre antes desta escalada. Então, cadeiras de café crescem de sob os ninhos onde os ovos se dissipam. A agreste vegetação cimeira da falésia cede corpo e terreno ao soalho de mosaicos pisados e repisados por gerações de cafeinómanos. O Sol tem agora lustre – e as nuvens coalhadas aos ombros do mar volvem-se ponche, anis, laranjada, batatas fritas, maços de tabaco, calendário, relógio e Há Caracóis. Devo ter-me aberto os olhos – mas à felicidade, não.

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Possibilidade de uma descoberta, na Noite: a de que o nome genuíno das pessoas não é aquele que está mecanografado no BI, na carta de condução, na cédula militar, na licença de porte de arma e/ou afins. Não – essa mecanografia onomástica é o anverso do nome vero, primo e último. O genuíno está nos olhos e no olhar que produzem o rosto.

Aquela senhora não é Magda. É mulher para se chamar isto: Cansada de Servir Bolos e de Ter Amado mais a Minha Filha do que ela Me Amou.

Aquele rapaz não é Anselmo. É rapaz para se chamar assim: Gosto mais de Filmes do Vietname do que de Estudar Gestão mas Tem de Ser.

As cercanias do nome pestanejam, sobrancelham, sublinham a água-de-cor-que-fala-e-diz.
Acho ter firmado isto, esta Noite. 

Thursday, July 05, 2012

Rosário Breve n.º 266 - in O RIBATEJO de 5 de Julho de 2012 - www.oribatejo.pt


Gravura Estival


A brisa fervilha nos álamos de beira-rio. O resultado é um rumor de fritura mui amável e benevolente para com a respiração e o uso da vista. Ferve fresca a tinta verde do arvoredo. Expele o momento vespertino tremendas belas-artes de águas fortes em pi(c)toresco amplexo. É, ou parece quase, veleidade campina. Perto da ponte, uma rapariga oferece ao sol o decote macio, de que avulta o seio branco como uma rosa de neve. Caminha com uma elegância de manejadora do chão, embaixando de gentileza a família que a deu à Cidade e ao Mundo. Dois pardais catam a relva com zeloso brio & brioso zelo. Além, uma criança usa o morango da boca para absorção de um belo gelado de nata & avelã. Deitada ao comprido no banco de públicas ripas, a figura jacente de um pobre-de-Deus que reconheço de andar esmolando pela gare rodoviária: dorme sem pressa como um budista chegado ao nirvana do zen. Um cão cor-de-camelo-torrado lambe sem pudor as próprias reentrâncias pudendas à sombra do pórtico do mercado do peixe. Em convexo azulejo, o firmamento pulsa nuvens com a mesma infantil fofura do algodão-doce da feira popular. Dois polícias ainda jovens reverberam o atavio higiénico dos uniformes e o lustro impecável das botas, que brilham como estilhaços de luz marinha. Perto da fachada tão formosa da agência do Banco de Portugal, um altíssimo casal nórdico emana radiações louras como um trigal (ou um relâmpago) de ouro. De bandas do Jardim-Parque um velhote colhe na boca o esguicho de prata viva do bebedouro. Estar vivo na hora equivale a um juramento cumprido – ou a uma promessa feita com lealdade. Nos Correios, um pai beija o filho de colo nos olhos enquanto espera a vez mecanográfica. Um ajudante de farmácia veio fumar à rua, incendiando de alvura a bata lavada de fresco ontem à noite pela mãe, o que me faz pensar na minha quase sem dor e sem remédio. Quando finalmente chego ao café onde, todas as terças-feiras, uso montar banca escritória da crónica para-vós-&-só-para-vós, descubro com comedido espanto que a crónica já me vinha escrita nos olhos em hora boa e sossegada gravura que o Estio deu a mim, às minhas amaviosas leitoras e a um que outro másculo leitor a quem os arroubos da fraca & leviana poesia, como a que é minha, não ofendam nem as moles vísceras nem as tímpanas ópticas, que o Estio, como aliás a vida, é breve sopro, efémera chama e carburação asinha.