Thursday, June 28, 2012

Rosário Breve n.º 265 - in O RIBATEJO de 28 de Junho de 2012 - www.oribatejo.pt



Código do Trabalho? Qual trabalho?

É a canalhice mais recente da alegre rapaziada que nos (des)governa. A partir de Agosto, o trabalhador vê-se, de vez, relegado à condição de espécime cinegético. Isto é: o empresariado monta a caça ao pato – e o trabalhador faz de pato. A dezena de principais mudanças são todas para pior. Não há uma cereja sequer entre as lentilhas do prato.
As horas extras valem menos metade.
Quatro feriados vão à vida, isto é, à morte.
Menos férias.
Dias de “ponte” obliterados em encerramento compulsivo.
Indemnizações por despedimento abatidas (e de que maneira).
Critérios para despedimento tipo moeda-ao-ar mas só com a cara do patrão dos dois lados da rodela de níquel.
Uma coisa esquisita chamada “bancos de horas” – como se os outros bancos não fossem já o mais imoral valhacouto dos inimputáveis de colarinho-branco. Outra coisa maligna chamada “lay-off”, que é para o pessoal pensar que é o novo ponta-de-lança do Sporting ou assim.
Desobrigação das empresas quanto à obrigação de envio de informações como o mapa do horário de trabalho antes do início de actividade.
Etc.
Sei muito bem qual o motivo de raiz de tudo isto: o motivo de raiz de tudo isto é a pessoa. É o trabalhador. É o português.
Se não fossem as pessoas, a Economia seria uma Arte. Uma coisa de papéis lindos e de números ainda mais lindos em powerpoint. Roçaria a perfeição edénica: de reverberante mar à porta e coruscante sol por cima, um jardim auto-sustentado e nascido só para meia-dúzia de Adões de BMW e duas dúzias de Evas amigas do Strauss-Kahn, do Berlusconi e, vá lá, do Pintarolas da costa lá de cima.
Para os iluminados patriotas do pastel-de-nata e do fraseado ronceiro, vulgo os “coisos” da Economia e das Finanças, as pessoas (sobretudo as que persistem na incómoda mania de viver do fruto do trabalho) são o pior que lhes poderia ter acontecido. Sem Portugueses, Portugal não ficaria atrás de ninguém no rol das nações mais giras & bonitas & modernaças. Já nem estou a falar no operariado que vem de fora por puro masoquismo. Estou a falar dos Portugueses, esses curiosos gentios que não há maneira de se auto-exterminarem de vez, em lugar de andarem a dar cabo de Portugal.
Sem operários, sem agricultores, sem professores, sem médicos, sem electricistas, sem jornalistas, sem juízes, sem parteiras, sem a Rosa do Café – Cavaco seria presidente do Algarve para sempre, Sócrates seria em Paris não menos que um Althusser, que digo eu?, que um Sartre, Coelho faria de Massamá um Caramulo sem tuberculose e sem ponta-e-mola, Portas caçaria sobreiros a tiro teleguiado de submarino – e o Eusébio nunca mais adoeceria e a Amália nunca teria sido deixada morrer.
O meu saudoso Pai repetia muito que “nada é mais prejudicial a quem trabalha do que a presença de quem nada faz”. O senhor meu Pai não tinha, afinal, razão: bem mais nociva a quem trabalha, é a presença de quem, odiando a pessoa porque sim, o português porque também e sobretudo o trabalhador porque já-agora, tudo desfaz.
Até que alguém se chateie e o(s) desfaça.
E não hei-de ser eu, que há mais de um ano procuro trabalho e viste-lo.



Tuesday, June 26, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA -) 22 (outro trecho de 22/6/2010)




Transversal à dos Combatentes, Rua Vilaça da Fonseca (vice-presidente da Câmara e presidente da Associação Comercial, sécs. XIX e XX); também esta, transversal também: Travessa Francisco Arnaut (proprietário – bela profissão -, 1888-1982); belo painel de azulejos sobre a porta do n.º 145 da Rua dos Combatentes da Grande Guerra – com cercadura a cores, representa a Sagrada Família a azul-e-branco e tem estes dizeres: J.M.J. MCMXXX; (subida custosa, encalmada, não rápida); ah, ah, ah, ah! – no pedestal da estátua do Desordeiro, vulgo papa João Paulo II (entre os Arcos do Jardim e a rua Castro Matoso /magistrado/sécs. XIX e XX), alguém escreveu isto:

JOANA
COME


PAPA

IDEÁRIO DE COIMBRA - 22 (um trecho desse dia na Cidade, terça-feira, 22 de Junho de 2010)



Pausa à sombra no Café Abadia. Início da leitura de (mais) um livro de Fernando Namora: Casa da Malta. Tem prefácio do Autor datado da Ereira, Agosto de 1961. Digamo-lo clara e frontalmente: o Namora romancista e o Torga poeta são medíocres. (Escrever/dizer isto do Torga em Coimbra – pode resultar, e oxalá resulte, em indignação e excomunhão coimbrinha; que se lixe, que até – esse sim bom poeta – Armando Silva Carvalho me disse aqui há coisa de três anos, e em plena Coimbra, que “o Miguel Torga não [me] interessa nada”.) Já li muito Namora, isso já. Entretém-me. O Rio Triste até está bem esgalhado. Resposta a Matilde é uma história até bem contadinha. Mas aquela denúncia do Luiz Pacheco lixou-o à fartazana. Nos Textos de Guerrilha (acho que no volume 2, não estou certo já), o Pacheco demonstra à sociedade e à saciedade que o Namora plagiou à força toda o Vergílio Ferreira. Enfim, já morreram todos – Namora, Vergílio, Torga e Pacheco. Eu, como ainda não, vou lendo esta Malta. Nisto, uma boa frase do A. no prefácio:

Nunca se regressa a parte alguma – a não ser quando um homem é já agonia.

Saturday, June 23, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 21 (trechos)



21. LEARNING PERSONAE

Coimbra / Pombal / Coimbra, segunda-feira, 21 de Junho de 2010

And if I try to make my way
To the ordinary world
I will learn to survive

(Duran Duran)

*

(…)

Em frente à casa-de-pasto Viaduto, depois da banca de fruta (para quem sai do Calhabé na direcção da Casa Branca), toalhas de relva concentram as máculas benignas da sombra. A tal sombra atiro pão migado, afastando-me depois para que melros e pardais, sempre na descúnfia matreirinha, comam à vontade e sem ter de agradecer.

*

Nem sempre penso nele. Sinto-o por aí (por aqui, na cabeça rumorosa), vivo e improvável, autor de cortesias e de inoportunidades, mas vivo, improvável embora. Pois, nem sempre penso nele. Acontece-me sentir dele a espessura refractária, a transigência defuncionada, a participação da natureza ao tempo solidária/solitária do homem-árvore na humanidade-bosque. Sinto-me parte da parte que ele é e em que está, não estando nem sendo. Nem todas as ruas nem todos os estios são dele. O Mondego é meu e não é meu – a mesma coisa. O que provavelmente mais do que ele e que eu existe não se chama Eduardo nem Daniel, mas Rua do Xisto, Quintas da Várzea e das Lajes, Gorgulhão, Póvoa de S. Martinho (onde o Rui Pereira Marques), Almegue, Rua Coelho da Rocha, Rua Capitão Salgueiro Maia, Casa Azul, Alto dos Barreiros, Rua Cidade de Salamanca, Bairro António Sérgio, Ruas da Figueira da Foz e de Aveiro, Arnado, Rua Luís António Verney, Couraça de Santa Isabel e Rua Mendes dos Remédios, Estrada de Lisboa, Rua Mário Pio, Avenida Professor Gouveia Monteiro, Olival de S. Domingos e Alameda da Conchada, Rua da Sofia e Pátio da Inquisição, Avenida João das Regras e Choupalinho, Rua das Parreiras, Quintas dos Cedros e do Vale Meão, Rua Nicolau Chanterene (grande artista a que Coimbra muito deve em pétreo memorial), Rua Padre António Vieira, Jardim Botânico, Paço Episcopal, Lapas da Corrente, Praça Machado de Assis, Rua Augusta, Rua Trindade Coelho, Rua Antero de Quental, Rua de Tomar, Rua de Santa Tereza, Ladeira das Alpenduradas, Lomba da Arregaça, Fonte da Talha, Quinta da Nora, Ruas Teófilo Braga e Miguel Bombarda, Quinta das Sete Fontes, Rua da Infanta D. Teresa, Rua Gomes Freire, Rua Bernardim Ribeiro, Travessa do Espírito Santo, Rua Júlio Dinis, Praça dos Açores, Rua Dr. Paulo Quintela, Avenida Manuel Luís Leite, Calçada do Gato, Rua da Mãozinha, Ruas da Caravelha e da Painça, Quinta da Maia, Rua Almirante Gago Coutinho, Casal da Eira e Fonte da Cheira, Rua da Condessa Ameal, Rua Câmara Pestana, Quinta de Marrocos, Brejo, Casal de S. Nicolau e Casal do Trovão, Largo e Calçada de S. Sebastião, Rua do Cedro e Travessa da Liberdade, Ruas Afonso II e Afonso III, Rua Damião de Góis, Ruas Vicente Pindela e Octaviano de Sá, Rua da Portelinha, Vila Pereira, Casa Pequena, Portela da Cobiça, Quinta da Romeira, Quinta da Cruz do Areeiro, Palheiros do Zorro e Carvalhosas – nem Daniel, nem Eduardo.

*

Há pessoas (ou personagens – ou personae) para quase tudo: para desejar biografias anotadas de Sampaio Bruno, para gostar do Atlético de Madrid e do Aliados do Lordelo ao mesmo tempo, para saber o nome daquele que ficou na cápsula na primeira alunagem, para acumular âmbar e ossículos de frango no sótão, para funcionar mal do sótão que preside aos ombros e ao resto do cadáver, para esmifrar uma criança obrigada a pedir nos degraus da Igreja de S. Tiago, para confundir Ângelo de Lima com Michelangelo, para sonhar com a mulher nórdica do Luís Figo a assar sardinhas, a beber tinto, a cuspir na direcção da palmeira de plástico e a dizer caralhadas, para ser das Alhadas, para fazer fisgas fracas com os elásticos das cuecas e figas fortes com os índexes-médios-anulares embolados de ácido úrico, para respigar de sombras de senhoras um suco de meninas, para bater a sesta na Costa de Sagres após litradas de Super Bock, para andar à conquilha no Zavial, ao junquilho na Pateira de Fermentelos e ao chinquilho em S. Facundo, depois da Cidreira/Geria e antes da Pena/Portunhos, para saber de cor as preposições que regem o ablativo latino (a, ab, abs, coram, cum, de, e, ex, prae, pro, sine, tenus), as que tanto podem reger ablativo como acusativo (in, sub, super), na certeza-porém (como dizem os broncos do derivádòfacto) de que todas (mas mesmo todas) as outras regem acusativo-pai-do-nosso-complemento-directo, as que em vez de anotações biografantes de Sampaio Bruno prefeririram de longe saber mais sobre Mendes dos Remédios, as que duvidam sinceramente de que Deus tenha Mãe ao mesmo tempo que negam a existência do Aliados do Lordelo e do Atlético de Madrid pós-Jesus Gil y Gil, para sair incólumes de uma tarde na Lousã, para nunca mais voltar ao Baleal de Peniche mesmo depois de Raul Brandão ter escrito dali o que escreveu em Os Pescadores, para saber que os pais de Raul Brandão também tiveram nome e ofício (José Germano Brandão, pescador, e Laurentina Ferreira de Almeida, mulher de pescador), para se chamar ou Vidal ou Bregieiro ou Sanches ou Gusmão Noronha ou Naphta ou Settembrini ou Manuéis que ou Cid ou Ray ou Purificação ou Norga ou Sumi ou Cheeta, para saber que charcutarias e retrosarias e alfaiatarias e amola-tesouras são da primeva & terminal infância de quem nasceu tarde de mais para ter uma erecção emocional só-por-causa-de-um-iPod, para nunca ter ido a S. Bernardino nem muito querer saber o que isso é de Consolação, para ter andado a fazer cadeiras da Universidade de Coimbra e mesmo assim ler alguma coisa sem ser a Caras, para já ter ido à Nova Zelândia contar carneiros, para ter ido ao Senhor da Serra com Carlos de Oliveira e Augusto Abelaira, as que em vez de uma imerecida hagiografia  de Mendes dos Remédios teriam bem maior gosto em ver definitivamente associado o nome de Jaime Cortesão a S. João do Campo como a Ançã, as que se crispam como franco-congoleses causticados de aguardente-de-cana, para lacar farripas à força de laca de orelha-com-melena a orelha-sem-melena, para saber todas as novidades da Nike e da Adidas mas nenhumas do Código Laboral e da Liga Portuguesa contra o Cancro, para ser infeliz sem peculiares razões demais para tal que as de gostar de tal ser, para amendoinar o que tremoço e tremoçar o que sempre foi azeitona – ou pevide, para preferir Aragão ao Benelux, para expelir tijoleiras de muco pela uretra e mesmo assim ter filhos assim e depois não querer que sejam ranhosos como só podia que fossem, para duvidar de Maria mas não de outra qualquer de quem dissessem diva maternidade, para escrever horas fixas por mentira em ideários e coimbras ibidem, para envergar óculos escuros como capacetes de motard, para exercer a mais vã autocracia – que é a que por desidério imperativo tem o fidelizar gatos, pessoas (ou personagens – ou personae) para ter lido Machado de Assis e nada recordar, pessoas para recordar mas não sem terem lido Machado de Assis, para semear restolhos de vento em eira abandonada mais do que varrida, para se ter apeado em Verride, para invocar S. mas não D. Sebastião, para não vacilar ante a certeza de que tanto o regime vigente na Coreia do Norte como o idem idem nos Estados Unidos basicamente-é-assim, para ter o Torga todo em casa mas nunca ter ouvido o mínimo rumor de António Osório porque basicamente-é-assim, para parecer uma zebra cor-de-laranja excepto na colecção de vinis Cat Stevens da fase pré-Yusuf Islam, para gemer de frio na praia de Brighton enquanto Anthony Hopkins e Graham Greene, de braço dado, tergiversam sem abrir a boca, para morrer, para saber que O Sol Voltará mas só para o António Calvário, para nunca mais ficar em uma antemão de comboios, para de facto quase tudo – menos para ser capaz de eternidade.

*

Um dia também a cabeça arrenda quartos,
também ela partilha frigoríficos, tapetes,
sabões não, mas tapetes, frigorífico, luzes
das escadas.
Uma noite a cabeça não, mas isso só
um dia.

IDEÁRIO DE COIMBRA - 20 (trechos)




20. MÃE INTERNA(DA)

Coimbra, domingo, 20 de Junho de 2010

(...)


São de outros verdes os passos de relva e arvoredo nas tardes largas dos domingos de Junho. Também outro é o aroma das fêmeas.

*

O casal de patos da rotunda que medeia a minha varanda da esquadra da PSP, na Elísio de Moura, é muito bonito. Já hoje lhes dei pão a ambos. O macho é desconfiadote, mas a fêmea deixa-se solicitar muito bem, sendo ela sempre quem primeiro aboca o maná.

*

Por volta das sete e meia da tarde, a chapa do calor amaina, mitigada de fadiga. O vento levanta o tule da saia – e torna-se muito aprazível ambular ao fresco pela Cidade. Tenho intensificado o hábito de curvar-me para recolher do chão os ainda muitos lixos que gente sem civismo abandona. Deito as porcarias (embalagens do McDonald’s, paus e papéis de gelados, garrafas vazias de água mineral, tudo menos dinheiro) no contentor mais próximo e sigo, ao vento e à luz que esmorece.

*

Leituras lentas e agradadas: Raul Brandão e Professor Pedro Dias. Oitenta anos exactos separam A Farsa, que saiu em 1903, e Coimbra – Arte e História, de 1983. Usufruo, aprendo, anoto – cresço alguma coisa, enfim.

*

Eduardo Silvestre Gusmão Noronha prepara, por esta hora, um creme de marisco instantâneo em casa, algures aos Olivais. Não tem mulher nem filhos. Tem uma despensa onde acumula, com rigor arrumado, as comidas, as bebidas, os artigos de higiene e outras miudezas solitárias. Liga nada ao futebol. Gosta de selos e de ir ver o mar aos sábados à tarde. Fica em casa aos domingos – e a casa não tem televisor. Ouve jazz e música antiga pela internet. Lê na marquise, onde dispõe uma cadeira longa e um tamborete de apoia-pés. Tem cinquenta e seis quase completos, falta-lhe chegar ao próximo 19 de Julho, exacta quinzena posterior ao dia de Coimbra e da Rainha Santa Isabel. Depois do creme de marisco com tostas miniaturais e da garrafa pequena de maduro, prepara uma chávena de café-cevada e acende uma cigarrilha de café-creme. Ele também anda a ler Chesterton (A Perspicácia do Padre Brown). Gosta de livros de arte fotográfica, as paredes têm algumas reproduções de E. Smith e outras de Brassaï, entre outros. Deixo-o em casa.

*

Descubro olhos semelhantes a animais fatigados.
Famílias que cirandam açaimadas pela deseconomia dos tempos.
Também me recolho quanto posso.
Pratico alguns versos, imagino nuvens, tento não sonhar quando a melancolia me abate.
Orlo ruas de sombra que pelo chão me duplica.
Mulher com sapatilhas de enfermeira: animais fatigados, seus olhos sem fé nem desespero.
Rapaz ao volante do jipe parado no vermelho.
Um cão solto, duas pombas libertas, um melro.

*

Regressado a casa ’inda noite se não cerrara toda, lá os revi, pato & pata, na relva da rotunda – tão bonitos, tão serenos, tão uma do outro, serenos, bonitos.   

Friday, June 22, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 19 (trecho final) - Coimbra, sexta-feira, 18 de Junho de 2010


© Vanessa Nelissen - In the mirror


Quando podemos nada dever a ninguém, passeamos pelo mais recente Verão perto da grande asma do Mar. Toca-nos (eriça-nos) a salsugem, a respiração secreta dos peixes, o movimento de alga-grande dos cetáceos. Somos apenas (sabemo-lo bem todos, mesmo sem cursos universitários por aí além) ter-sido-infantes. As nossas mães olham-nos, medusas, do fundo do poço-de-olhos de delas água-de-olhar (os limos das décadas, os interstícios de tijoleira em que se enfia a cobra-de-água comedora de rãs, de aranhões). E se nenhum amor, ao menos de momento, nos não condenar a uma vida irrespirável, tossimos meias-frases de esplanada ante a chávena de café, a mordida beata de cigarro, a divorciada que começa as frases todas por é-assim e o aturdimento ante o génio invencível de Camões.

IDEÁRIO DE COIMBRA - 19 - mais coisas desse dia de Coimbra, sexta-feira, 18 de Junho de 2010



Imaginai, vo-lo graficamente peço, hortas frescas nos derredores da Cidade: e gente de meio século vivido sobre elas debruçada em desvelo maternal. Livro verde, folheia-se a si mesma a gorda alface; inchado e encarnado qual abade, jucunda-se o nutrido rotundo tomate; espiral de si mesma, a cebola ensina o ADN e a nebulosa longínqua onde Carl Sagan; intenso de cheira-dedos, vigora viçoso o alho-porro. Imaginai (fazei, portanto, imagens) isso. E não voteis, para a próxima, neste filho-da-puta que lá está.

*

Velhas muito brancas beatificadas pela doença: anémicas, nada cristãs, duras, talos de palha de provérbio chinês.

*

Eu assim: não morrerei antes de dar uma volta pela prisão (itálico justificado pelo recurso a título de Yourcenar, que o buscou em locução proverbial japonesa – curiosidade: que faria ela de uma leitura, que decerto não fez, do nosso triste gigante chamado Wenceslau de Morais?).

Moraes, Pessanha, Cesário, Brandão – somos mais ricos do que (não) sabíamos.

Sena. Osório. João Roiz de C. B. Garção. Vieira. Codax. Luiz Vaz. Fernando António N. P.: muito ricos.

Thursday, June 21, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 19 - ainda de um dia de 2010 (sexta, 18 de Junho), estas palavras conimbricenses



Recordo horas boas: leitura de Proust, Joyce, Mann, Durrell e Lowry. Más, também: muitas. Mais virão, de umas como de outras.

*

Vi uma mulher jovem cujo riso farfalhava saúde mental. Também vi um cão absolutamente pensativo ao Sol que subia o Liceu (da) Infanta D. Maria. Mantive aberta a porta de vidro de um centro comercial para que um casal de cegos passasse sem estorvo. Olhei o carvão vivo de um melro. Já fui incendiado petróleo numa cama de senhora. Avisei já as crianças de fumar ser muito mau, muito mau. Vi o Chico M. ser arrumador de automóveis para sustentar o pó. Famílias eu vi bordando a bolos-de-bacalhau, sardinhas fritas, arroz-de-tomate e broa as humílimas barragens da nossa História Hidroeléctrica. Relance-rápido: a minha Mãe em 1970, com precisamente a minha idade-hoje, semeando gorda bonomia no areal da Figueira da Foz, o meu Pai vindo aos sábados com o título nunca disputado e/ou recusado de Melhor Pai do Mundo – e o Mar da Figueira, fonte não ainda de ânsia, ainda despovoado de ulisses-sozinhos-como-cães-batidos-pela-chuva. Outro relance-rápido: não morrer sem ter vivido.

*

Visão: o senhor Manuel troca uma nota de 5inq0enta euros a uma senhora de fato saia-casaco amarelo-canário-bico-de-melro-com-anemia. Educadíssima, a senhora, talvez jurista, talvez purista, talvez turista, talvez naturista (mas não agora, agora só precisada de trocos para a máquina de vend’automática de tabaco). Que natais os desta vetusta moça, cujo encanecimento lhe reforça a tez rosácea, a labiação elíptica e a correcção absolutamente ortoépica das sílabas que agradecem, a Manuel, senhor, o troco?

*

(Inglaterra e Argélia seguem empatadas a zero [57m29s]. Bem a marimbar-se para isso, este V. amigo.)

*

Gosto muito de que um pedaço de metal recortado se chame rosa-dos-ventos.

*

Percebo a doença fundamental: Viver.
Percebo a cura fundamental:      .

*

Luís Miguel Nava, tão moço, no cemitério de Viseu.

*

O meu limbo é igual ao Vosso.

Rosário Breve n.º 264 - in O RIBATEJO de 21 de Junho de 2012 - www.oribatejo.pt



País(agem) bucarestiana

Sei muito bem que não é com crónicas (e muito menos com as minhas) que se resgata o País do coma induzido em que se (des)encontra. Sei pois. Só que também sei que os golos do CR7 e as novidades picantes do desquite Djaló/Floribella não hão-de ser, como nunca foram, capazes de fomentar o emprego a quem, por cândido civismo, ainda acha que é a trabalhar, e não a roubar, que se ganha a vida.
De igual modo, não me é difícil concertar em axioma que socorrer a banca não visa dignificar o maralhal, bem antes pelo contrário. Encerrar tribunais, centros de saúde e escolas às cegas no Interior é directa ordem para matar a interioridade mesma, reiterando a mania esquizofrénica de que a Pátria se resume aos palermas de Lisboa, à estrada 125 do Algarve e a essa pérola deitada aos porcos chamada Madeira. Ah pois é.
Todos os dias me levanto cedinho como a galinha. Ao espelho do lavatório, raspando a barba chilra e rala que o vento genético me semeou pela chanfradura sigmóide, verifico que aquele gajo canhoto é impotente para despedir de uma assentada a escumalha corruptora e corrompida que lhe proibiu o futuro das filhas, condenando-as, na melhor hipótese, a caixas subassalariadas do Pingo Da-se. Por não ter tusto para after-shaves, chapinho lixívia nos queixais e saio a rever o mundo não admirável e restrito da portugalidade local. É paisagem tristonha, dormente e deprimente.
Romenos manhosos rondam carros estacionados. Algaravia-se brasilês de avenida em estaminés de higiene nenhuma e lenocínio todo. A banca de fruta da Glória da Anunciação exibe cerejas cariadas e melões espanhóis de Almeirim. O barbeiro Teodoro, que é salazarista dos cornos e pedófilo das pernas, tesoura maledicências contra os “comunistas do Governo”. A Genciana Viúva (cujo marido a melhor coisa que fez foi morrer a tempo) amanda-se copinhos de malvasia tinta da alva ao sol-pôr em ademanes de Senhora da Agonia a quem o manto vai caindo à serradura do chão. O polícia Gervásio, que pensava estar a nove meses da reforma, já não está a nove meses da reforma, pelo que dá razão ao barbeiro Teodoro.
De modo que às nove e meia da manhã já estou maníaco-depressivo de todo. Salva-me porém da tentação suicidária a diária epifania da Noémia farmacêutica, cujos jogo de ancas e balcão peitoral emanam optimismos existenciais os mais duradouros. Quando, pela noitinha, recolho a penates, com e como a galinha, à capoeira para vegetar eldorados oníricos, digo à mulher que o dia foi bom, que tudo-está-no-seu-lugar-graçazadeus, que um dia destes ’inda me lembro de lhe trazer cerejas, que ’inda bem que não temos carro, que o que por aí vai de romenos no Governo, ó Teodoro. 

Wednesday, June 20, 2012

Ideário de Coimbra - 19 (ainda no tal dia 18 de Junho de 2010, em Coimbr'ainda)


No prédio alheio que da cozinha-casa-quarto vejo, duas pessoas sozinhas: um viúvo no segundo, uma celibatária no terceiro. Vemo-nos quando nos não olhamos ao mesmo tempo.
Ele lava e estende a enxugar a roupa dele.
Ela lava e estende a enxugar a roupa dela.
Ele passou os sessentas.
Ela ainda não chegou a tanto.
Talvez um e outra procurem uma lareira acesa de gente pelos natais.
Eu não sei.
Pasto as minhas vitualhas enlatadas, cocciono de quando em quando algum creme vegetal com um pouco de unto porcino, avinagrazeito o meu rubicundo tomate com pedrícula de crasso sal grosso, desenfastio-me com pão sem côdea e purgo-me de tanta moléstia nutriente com a humilde malga de chá de casca limoeira. Outras vezes, arredo o apetite até de viver, frugalizo-me com chávena de mistura cevada-café com mais nada. E fumo à varanda com a aura premonitória das viúvas-cortinas que rendam o tule da rua-fora. Devo ser feliz, só que ainda o não reconheci – porque sempre a tristeza deu, sempre, melhor literatura. Confiro, sim, existências. Sou versado nisso. Pego em mágoas de gente (real ou inventada) com a acuidade digital de quem recolhe do chão caquitos de vidro.

(Sangue da minha Mãe na sala e na cozinha. O Fernando limpou tudo, depois contou-me.)

Ideário de Coimbra - alguns trechos mais do cap.º 19, na tal sexta-feira, 18 de Junho de 2010


A claridade das primícias da tarde embaciou-se seu tanto. Parece que o vento refrigerou de alguma cinza o ouro largo de há poucas horas. Não vos digo que seja desagradável, porque o não é de facto. É um pouco como se também o período vespertino seja susceptível de melancolia. Sei muito bem – que é impessoal a Natura, mas o vício da Literatura a estas humanações, aliás risíveis, irrisórias aliás, conduz.

Uma laranja fendida que a ganga torna azul: o cu daquela moça ao balcão do casal senhor Manuel / senhora Adelaide. Empinada fruta mamária, parente dos limões mamários: breves e rijos, decerto capazes de sua citrina seiva pré-maternal. Vinte e cinco, vinte e seis anos – não pode ter mais. Rosto e destino de empregada do comércio, 9.º ano mal amanhado, namoro com o mesmo mecânico-auto há sete anos. Mas formoso assento cuja fofura não é pasto estriado, não ainda, da celulite.

(...)

Coimbr’andando, sem grande ciência de fauna, flora, arquitectura, ornitologia: por aqui me eis e tendes. Levo-me embrulhado em um corpo comuníssimo, um metro e setenta e seis centímetros de água, bactérias, carbono, cálcio e olhos. Menos um quilo do que os centímetros excedentes do metro. Sapatilhas baratas, bombazina nas jambas, camiseta algodoada como uma nuvem pronta-a-vestir. Cabelo decepado curto, nariz grande, boca assimétrica, orelhas não ofensivas. Algum acne, ainda. Barba pouco forte. Aparato de cão batido, corredor-por-fora, senhor de meia-dúzia de ossos mal roídos. 

Ideário de Coimbra - 19 (primeiro trecho)



19. CONFERÊNCIA DE EXISTÊNCIAS

Coimbra, sexta-feira, 18 de Junho de 2010

As pessoas alimentam jardins interiores.
Depois de uma doença, o corpo percebe a paz.
Pelas ruas ando muito em meu jardim.
Maná pobre, comovido maná: dou pão a pombas.
Lados obscuros alunam o ser terreno.
Olho as pessoas, olho-as bem: rodízio de corações.
O zamericanos são muito à base de gente estúpida.
Os idiotas também comem pão.
Duas flores amarelas, pequeníssimas, em interstício de pedras.
Uma mulher coxa parece medir a praça a passo.
Águas furtadas, alma roubada.
Bomba láctea, o terrorismo daquele decote.
Sob o céu em cinza, psicologias emudecem.
Gostar é uma coisa grave.
Obtura-se a anfractuosidade.
Os cervos não são servos.
A terra emana bancas de fruta.
Rubor são de morango em face de menina.
(E miríade de mínimos corações: as cerejas.)
Pintores, em andaimes, da construção civil: pássaros de tinta.
No Utah, estado mórmon, execução de condenado por pelotão de fuzilamento: cowboys de Cristo.
Relicário: retratos de quem amo.
O economicismo é a religião-mor dos filhos-das-putas.
Lisboa está pejada de filhos-das-putas.
Derivando por ruas, exerço o silêncio mais ruidoso de que sou capaz: olho tudo, tudo lendo, lento, ao relento.
Aves do Paraíso: as crianças.
Todas as crianças são filhas de toda a Humanidade.
O teu passado passa-me.
Já vi a luz cegamente sonhada.
Boca daquela mulher: violenta violeta.

Thursday, June 14, 2012

Rosário Breve n.º 263 - in O RIBATEJO DE 14 de Junho de 2012 - www.oribatejo.pt





Quando um homem percebe que envelhece vertiginosamente etc.

É quando até simpatiza com o Rui Patrício mas sabe que o Vítor Damas é que.
É quando a ninfeta de sexta-feira lhe devolve em flash o clarão do rosto da própria filha aos doze anos.
É quando as pantufas beira-cama embolam joanetes autónomos.
É quando chamar “cadeiras” à zona dos rins faz sentido ainda quando as costas doem.
É quando tudo dói menos aquilo.
É quando este padre de agora parece tanto ser filho do outro que esteve cá na paróquia uns trint&tal anos.
É quando pensa que os Pais terem morrido é natural.
É quando os políticos lhe parecem (quase) todos uns cachopitos pulhas que andam a brincar às pátrias.
É quando a cadela de catorze anos lhe lembra a mãe dela e a mãe da mãe dela.
É quando o ácido láctico lhe guincha na barriga das pernas ao cabo de quatro degraus apenas.
É quando “verba” era o plural latino de “palavra” e não ainda cacau, pasta, massa, arame, couve, taco, cobre, carcanhol, guita, pilim, milho, ferro, narta, graveto, papel, bago ou dinheiro simplesmente, Maria.
É quando vê o Ben-Hur e o Pátio das Cantigas como se fosse pela primeira vez.
É quando se escandaliza com aquilo dos árabes mas percebe os judeus.
É quando olha para a mulher e não se lembra do segundo nome dela.
É quando também ele começa a comover-se nos casamentos em vez de desatar a rir-se com aquela comédia da noiva ir de branco quando toda a gente está careca e fartinha de saber que eles antes, ui, mas quantas vezes.
É quando até os gatos vesgos lhe mijam nas canelas.
É quando ele diz faça-me o obséquio e queira ter a fineza à balconista da tabacaria e à senhora dos correios e depois não se apercebe de que uma e outra o gozam pelas costas.
É quando os óculos estão onde sempre estiveram, que é na cara, e ele à procura deles por tudo quanto é canto.
É quando ele se refere ao Camões e ao Eça e ao Pessoa como se tivesse andado com eles na tropa.
E é quando o entardenoitecer de cada dia lhe sugere, em laranjal sanguíneo-poente, que aquele pode ser o derradeiro dos muitos horizontes a que lhe coube deitar vista.
É quando Maria é o tal segundo nome da mulher.
E é quando tudo se torna simplesmente.

Sunday, June 10, 2012

Ligação à Medusa - 66 (linhas finais do penúltimo capítulo, intitulado VÉSPERA DO ANIANO e datado de Leiria, segunda-feira, 19 de Dezembro de 2012)


© DA, Leiria, quarta-feira, 9 de Maio de 2012




Pela Cidade vou sacudindo a lassidão digestiva, que o bom sol da tarde dezembrina faz aliás o desfavor de ajiboiar mais ’inda. Estou capaz de bocejar até a dormir, mas nem por isso menos g(r)ato à luz que estiliza casario e arvoredo e pessoas e curso de água. Dada a crise da hidra-besta do hipercapitalismo, o comércio-natal quase nem se nota (o que não me desagrada, sou sincero). Faço uns quilómetros ainda bons, paro na Rosa um pouquito para meter gasosa, devolvo-me ao labirinto arterial da urbe, de que, como eu, são constantes e instantes as sombras vivas que na minha infância eram futuras – e que agora mais que isto não são: passadiços presentes sem consequência nem importância.
De qualquer maneira, isto é tudo fotografia e música é tudo isto: a sociedade acampada em pedra que um rio circunscreve e um castelo vigia. Podia ser bem pior. Se não tivera para café & cigarros, pior bem fôra, cá fora. Vale-me não ser ingrato às gratificantes gratificações como:

a desta ninfa quarentona à porta da senhora Genciana, musa de si mesma, serena morenidade e circunspecta formosura, sabedora de um simples pé valer o dobro de dois passos complicados, olhos a que a boca sobe palavras mudas, correctíssimo atavio de sedas e lãs sobre o couro que as botas levantam a prumo ao delta genesíaco;

a deste homem pequenito como um botão de cueca tão contente com a sua pochette e o seu fato-de-treino e a evidência da sua vidinha organizada, que é como os botões chamam às cuecas a que estão cosidos;

a do quase súbito entorpenoitecer da luz pelas meras 16h49m, momento em que começa a fenecer o morro ocidental da vista e em que a mortalidade arrepia atalhos rumo à eternidade acabada ontem.
                                                                                    
(E, nisto, vontade de um chá à berma-lareira.)

Saturday, June 09, 2012

Ligação à Medusa - 65 (integral)


65. PINHAS

Leiria, sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

Tinha 29 anos, era um homem, deixou que a vara com que varejava pinhas se lhe escapasse até tocar em um cabo de média-tensão. Electrocutado mortalmente, entrou para a necrocrónica de MELIDES (Grândola).

Simone Costa, 40 anos, com bebé de três meses ao colo. Dois capuzomens assaltam-na quando ao serviço no café da mãe (dela, avó da criança). Ainda levaram 200 euros, os meliantes, mas, de estúpidos como testos de alumínio, fugiram sem o carro. Quando voltaram a buscá-lo, foram reconhecidos e presos. Ainda hoje se fala disto lá por ANTA DE AGUALVA (Sintra).

Um super pequenito do POMAR DA REBOLEIRA (Amadora) foi sitiado por dois bípedes armados de faca e caçadeira de canos serrados, que amealharam € 250 de pecúlio alheio.

(Sim, isto são poemas também.)

MOSTEIROS (Arronches, Portalegre) ficou de caixas-de-esmolas profanadas, de sacrário aberto e com hóstias espalho-vilipendiadas pelo chão do templo, isto na mesma tarde em que, em

MONTARELOS (Portalegre também), alguém espancou e roubou um casal de idosos, mas a

Sé de MIRANDA DO DOURO não se ficou a rir, arrombada que lhe foi uma janela com malévolos desígnios, os quais perpetraram caridade nenhuma às caixas esmoleres da região.

Na alongada e lisbonense RUA MORAIS SOARES (que da Praça do Chile sobe ao Cemitério do Alto de S. João e, dizem, à Curraleira também), um atravessado-sexual que brandia ameaças faquistas a instantes e transeuntes acabou detido, só que, já na esquadra, quando no WC, meteu os 700 euros no cu e (a)cu(sou) os agentes de polícia de lhos terem gamado. Os raios-X desembustaram o rectal ardil.

A PJ não suspeita de crime

(Sim, isto também são poemas)

no caso do homem de 67 anos encontrado morto com/por tiro na cabeça, isto na aldeia de CUBOS (Mangualde).

Prendia um toldo em telhado o operário da construção civil Carlos Azevedo, de 48 anos. Morreu da queda. Em LOUREDO (Paredes).

Encontrada a burra Rosinha, de 17 anos, que, com outros dois animais (um burro e uma égua), fora roubada do CANIL DE SÃO FRANCISCO (Loulé).

Pensão-Residencial sita ao LARGO DE D. ESTEFÂNIA (Lisboa) assaltada em pleno dia. Proprietária agredida na cabeça. Talvez por vingança ou ajuste de contas, servindo o aparato de assalto para disfarçar o verdadeiro intento. Ali perto, nasceu há muito anos Luiz Pacheco.

Os rios CENTEIO e ALVIELA banham a vila de PERNES (Santarém).

BISMULA e RUIVOSO (Sabugal) receberam ladrões de 2100 metros de cabo de cobre. Aldeias ficaram (ainda mais) isoladas.

A IMACULADA NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO DE VILA VIÇOSA é Padroeira de Portugal desde 25 de Março de 1646 (reinado de D. João IV). Tem tal título confirmado desde 25 de Março de 1936 (Pio XI). A celebração litúrgica remonta ao século VII.

*

(Nomes para a Berlim dos anos 20/XX: George Grosz, Anita Berber, Claire Waldoff.)

*

(Enquanto escrevo, a medida da hora torna-se plástica, permitindo a consumação festiva da resignação à força visceral do mundo. As notas que tomei, tomei-as à conta de subsídios por assim dizer geológicos do tempo social. Mas também como versos simples, puros e duros e futuros. Acções e sítios, topos e tópicos: tudo em um Portugal que acontece em câmara-lenta, dissipados os fulminantes e os sustos pânicos dos assaltos, dos ciúmes, dos capuzomens, dos ourives, dos pobres-de-deus deste paìzito sem vontade de memória, desta naçãozeca do cozido, do bandolim e do esterco telúrico maquilhado a verniz-de-unhas. Tudo versos, enfim:)

Na LAPA (Cartaxo) / iracundo sargento /
mesmo reformado / atira a matar.
Fernando Gaspar / em um mau momento /
quis desluisar Luísa / a ex-companheira. /
Luísa Mendão 74 anos / ele 68. /
Amantes há mais de vinte / incluindo coito.

FIAIS DA BEIRA (Oliveira do Hospital).
Gajo deu-se mal, aos 45 anos,
por no corpo levar litrada demasia.
Parado na via, apurado foi portar
coisas de espantar: caçadeira & munições,
mais uma faca e uns bastões.

O Charroco resistiu à autoridade.
O Charroco anda ali por Setúbais e coiso.
Resistiu à autoridade e injuriou-a
e difamou-a e filhadaputou-a.
Levou um tiro no cu que foi um mimo.
(O tiro, não o cu.)
Saiu pelo próprio pé dos calabouços policiais
dois dias depois, não mais.

Custódio Cantanhede é meu nome. Três quartéis de século, a minha idade. Tenho por ali umas terras. Trazia neste bolso que é meu desta roupa que é minha 1730 oiros que meus eram, que os ganhei de vender oito borreguinhos que meus não são já. Dois ferozes capuzomens me bateram e desgovernaram. Se vez próxima houver, caçadeira minha por mim responderá. MONTEMOR-O-NOVO conheço, como a mim reconheço velho. Caçadeira minha, sim. Levarem-me preso não receio. Ela por mim responderá. 75 anos: nada receio já.

*

Confirmação dos humores: palavras e imagens.
Confirmação da luz: vidas e frutos.
Um tempo de mulher, um tempo disto.
Oleiro trabalhando o barro do coração, não morro.

Um rapaz. A lida. A subida. A nitidez.
Os óculos. E raparigas. E uma rapariga. E o jornal.
A insuficiência moral. As grávidas. Os pêssegos.
Páginas antepenúltimas nas cercanias do Mar, um fogo.

*

Na EN 371, perto de ARRONCHES (Portalegre), és (eras)
João Caldeira Vieira, natural de MOSTEIROS
(a de profanadas caixas peditórias eclesiais).
A apanhar azeitonas tuas de tuas terras ias.
A elas, terras e olivas, não chegaste, colhido
que foste em bicicleta e grande aparato
por involuntário camião. Lavaram de ti a via
e a vida. Tudo prossegue, como se nada.
Resistem na rama os negros olhos chorando
azeite.

Em PAREDES, existe uma empresa de transportes urgentes chamada Tartaruga Veloz. Trabalha para ela um condutor natural do Lordelo chamado Nuno Monteiro. Teve azar e teve sorte, o Nuno, porque, depois de ter embatido na traseira de um camião na A62, foi por este arrastado coisa de quatro quilómetros desde Fuentes de Oñoro, Espanha, até perto da fronteira de Vilar Formoso. Os bombeiros de Ciudad Rodrigo levaram uma hora para desencarcerá-lo. Ferimentos graves, sobretudo nas pernas. E estava muito assustado.

Nada mais aconteceu – diz José Morgado, íncola de VALE DE CÃES (Brejos de Azeitão), ante o cartaz que indica o valor da obra como sendo de € 961.372,08 + IVA.
Que obra?
A de infra-estruturação de saneamentos e arruamentos.
Mas o cartaz é de Setembro.
Mas
As obras já começaram – diz a Câmara de Setúbal, apontando o que mexe pela Rua Família Bronze.

*

(Nota-lápis garante-me que o pintainho preto – por ter andado na lama – chamado Calimero apareceu pela vez primeira na TV num anúncio comercial de marca de detergentes no dia 14 de Julho de 1963.)

*

Mais sítios onde por nada ou por outro motivo qualquer: OLIVAL BASTO, PONTINHA  e PÓVOA DE SANTO ADRIÃO (Odivelas); FOZ DO SOUSA (Gondomar); CACÉM (Sintra); CANHA e PEGÕES (Montijo); FERREIRAS (Albufeira); VILA CHÃ (Esposende); ENGUIAS (Benavente); AVELAR (Ansião, antigamente Ancião); UNHAIS DA SERRA (Covilhã); LORDOSA (Viseu); SÃO DOMINGOS DE RANA (Cascais); ALHOS VEDROS (Moita); AIRES (Palmela); VIEIRA DE LEIRIA (Marinha Grande); freguesias de S. PEDRO e da CONCEIÇÃO (Peniche); ÉVORAMONTE (Estremoz).

*

No café que a Rosa superiormente superintende, dois portugueses chalram sobre a criação ovícola. Excedem bem, ambos, os cinquentas – mas é-me possível descortinar neles os moços rubicundos que foram. Medalhões faciais nutridos a toucinho e a generoso, mãos como básculas – ou talochas – pré-artríticas, roupa de vir-à-Cidade. Dizem oiros em lugar de euros. Depois, um deles alteia (para que derredor se oiça e saiba) que não se importa nada de

largar cêín oiros nelas,

nelas, as putas daquela casa-etc-e-tal ali para os PARCEIROS (Leiria).

*

(Por um mês, morei nos Parceiros. Era pelo início do século – e eu sentia-me pouco menos que perdido. Esses anos passaram, vieram estes.)

*

Ainda vendo muito jogo, mesmo assim.
Alquebradas, é certo, as pernas; trémulas as mãos:
mas ainda me sobra por dobra a cobra do fazer.
Disponho fios de tinta por lâminas de papel.
Vieram-me ao mundo, aqui estou, sou Daniel.

Não receio senão a dor alheia ao corpo.
Receio o ardor desse amor-dor.
Nada posso contra ele nem, quase, contra mim.
Já deixei crescer a barba, mas não me assenta bem.
É a velha infantil questão do menino-de-sua-mãe.

*

Os versos livres podem servir a causa da partilha.
As pessoas que não escrevem mas lêem, percebem.
Elas estão nas vidas delas, afloram esta que lhes versa.
E por momentos aceitam a lantejoula pobre

dos versos livres.

(Podem ser. Pode ser
que aceitem a liberdade
com que me ligo à Medusa.
Pode até ser que lhes dê tusa.)

Friday, June 08, 2012

Ligação à Medusa - 64 (integral)


64. DO CARÁCTER PORTUGUÊS

Leiria, quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

Mediterrânico (oliveira) e atlântico (gaivota), mas também pétreo (cabra), ígneo (raposa), anisado (funcho), feudal (fontanário), provincial (ermo-orada), telúrico (coentro), fluvial (olhar), pária (pá-t-ria), vil (tostão), oficial (formiga).

Thursday, June 07, 2012

Rosário Breve n.º 262 - in O RIBATEJO de 7 de Junho de 2012 - www.oribatejo.pt


Volta, Zezé, que estás perdoado

Na canção “Mrs. Robinson”, a dupla Simon & Garfunkel inscreveu a nostálgica acção do Tempo em dois versos que ficaram famosos, qualquer coisa como – “Por onde andas, Joe DiMaggio? A Nação olha para ti com nostalgia.” Joe DiMaggio era estrela maior do “baseball” e apaixonado (até ao fim) pela ex-mulher, a tão doce quão amargurada e malograda Marilyn Monroe. E a que propósito vem isto? Vem a propósito de um relato do Correio da Manhã (CM) de terça-feira passada, 5 do corrente Junho. A páginas 17, fiquei a saber que “Cinco homens portugueses concorreram a um casting para filmes porno: nenhum conseguiu a erecção.
Oh Diabo! Oh DiMaggio! Era manhã cedo, a Rosa fazia 51 anos, ofereceu-me uma por conta da casa à nossa saúde. Escorropichei o cálice enquanto o raciocínio me fazia chegar à conclusão de que a culpa não era dos tais cinco molezas mas sim da famigerada Troika, esse paradigma da disfunção eréctil à escala antinacional.
Por curiosidade, eu tinha estado a ler um pouco antes a edição de 31 de Maio do noss’ O Ribatejo. Dois textos de diferente natureza editorial me provocaram viva e redobrada atenção. A páginas 4, a crónica do sempre excelente Dr. Eurico H. Consciência (intitulada “Claro que a honestidade compensa…”). E, a páginas 26, uma peça de João Baptista, lídimo chefe de redacção do nosso semanário, chamada “Quem tramou o comandante da GNR de Coruche?”. Que pedra-de-toque ligava estes dois escritos? Era a honestidade. E, a propósito dela, a galopante perda de valores sociocomportamentais que fustiga a nossa época. No caso do colunista, duas raparigas de hipermercado ficaram pouco menos que atónitas ante o facto de ele ter voltado a entrar no estabelecimento para pagar dois produtos que por lapso não tinham entrado na conta. No caso da peça sobre o sargento Sérgio Malacão, a exemplar alegoria de um profissional que, tendo seguido as regras e posto a casa em ordem, se vê na contingência de algum processo, quiçá despromoção, quiçá expulsão da força. Recomendo ao leitor a (re)leitura desses dois textos.
Parafraseando a tal canção, “Por onde andas, Honestidade? A Nação olha para ti com nostalgia.” Valores como a franqueza, o profissionalismo, a lealdade e a assertividade murcharam como aqueles cinco que queriam ser êmbolos da indústria porno. Quando mostrei a página do CM à Rosa, respondeu-me ela em suspirada nostalgia:
 – Já não há homens como antigamente…
Homens ainda há, digo eu. A Troika é que nos tem dado cabo dos Zezés Camarinhas, senhora Robinson.