Thursday, May 31, 2012

Rosário Breve n.º 261 - in O Ribatejo de 31 de Maio de 2012 - www.oribatejo.pt


Entre polvo e “pobo”

As pessoas acham que EDP é Electricidade de Portugal. Não é. A sigla significa isto: Efectivos Donos de Portugal.
As pessoas acham que a fraude do BPN daria para repor não sei quantos subsídios de natal & férias. Não dariam. Mas seriam “coiso”, para citar o Alvarito ministro do Desemprego, para chegar ao pagamento de mês e meio de salários (sem os prémios) aos efectivos-donos-de-Portugal, mais os penteados da Catarina Furtado na RêTêPê, mais um fim-de-semana a meia-pensão-sete-estrelas em Vila Praia de Zanzibar aos casais Henrique Granadeiro & Senhora / Zeinal Bava & Consorte.
As pessoas também acham que o “pobo” não é estúpido. Acham mal. A maior parte dos Portugueses acha que nunca se vai ver grega. Acha mal. É quando os Portugueses, em vez de Portugueses, se dão ao luxo (ou ao lixo) de ser só “pobo”. Quando se derem por achados, darão consigo mesmos sujeitos ao Duarte Lima chefiando o Ministério da Justiça, ao Vara nas Finanças, ao Isaltino na Procuradoria Geral da República e, por bónus gorduroso, com o Super Silva SMS Carvalho porteiro da Lux e da Kapital ao mesmo tempo, isto se o Pinto Balsemão não comprar o Público entretanto só para fazer pirraça ao Marcelo Rebelde de Sousa.
Entretanto, o Fernando Mendes e a Fátima Lopes (a dos gritos, não a dos vestidos à francesa) dizem mal do Goucha levar injecções vitamínicas para não envelhecer a partir do pescoço. Súbito, aparecem o Nicolau Breyner, o Júlio Isidro e o Herman José muito aflitos a ganir coisas tipo se a RêTêPê desaparece o que é que eu faço da minha vida, estimo bem que tu te lixes mas se a RêTêPê desaparece o que é que eu faço da minha vida.
Lá mais no fundo, porém, onde o ex-povo não toca, Bernardo Sassetti morreu. Era só um pianista, não tocava alto nas feiras, não bajulava vereadores nem corredores nem dava passos perdidos. Sabia e era música. Pouco mais tinha do que quarenta anos. Ouço-o ainda, por vezes, no escuro da minha sala. Desisto da burridade do “pobo”, desisto de acender a luz da sala, ponho Sassetti vivo outra vez e faço de conta que ninguém é dono de mim nem de Portugal.

Tuesday, May 29, 2012

Ligação à Medusa - 62 (conclusão)


© DA, Leiria, 30 de Abril de 2012




62. NA ÚLTIMA TENDA – 25 QUADRAS IMPOPULARES

Leiria, quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011

Homizia-me a memória em corpo-ausente,
torvelinha de pássaros a espiral de labaredas,
há muito me entreguei à vitoriosa perdição
no meu país de conchas vazias naturalmente.

*

A tarde assenta na última tenda.
Parecemos perdidos no laranjal escuro já da luz.
Uma mulher ama um homem e diz-lho e cora.
O homem recolhe as máquinas da noite, pede-lhe água.

*

Sou o que vai morrer em cada amigo doente.
Penso em cada um, penso nas ruas sem ele.
Não inquiro da mariposa a eternidade de quatro dias.
No café as coisas são mais simples, as vidas dançam.

*

Ínclita perfeição orla de branc’azul a barca dos anos.
Vi duas fotografias com o último encontro de três irmãos.
Todos mortos já, ainda porém conversando-se.
Na concha da minha mão o sal da garrafa que os saúda.

*

Um engenho de madeira para águas e farinhas.
Uma laranjeira fronteiriça do Tempo e do Nada.
A vida geométrica dos patos à flor do Lis.
A minha família calada olhando o descer da vela.

*

O sufrágio irrepreensível do matadouro.
A euforia sangrenta da maternidade.
O idioma do ouro.
O relâmpago da idade.

*

Tenho-lhes um amor sem declínio de postigo.
Sou para sempre o infante que os vê passar.
Um dia levam-me e eu não volto.
Uma garrafa e um pouco de pão municiam a espera.

*

A glória de certas pessoas: cabra alta em penhasco.
A bondade de outras: linho lavado em mesa de castanho.
A lareira que outras são: emissoras da palavra precisa.
Todas as que vieram ao funeral da minha Mãe.

*

Um homem ama uma mulher mas não lho diz ainda.
Em Coimbra, a Vila Marini não me vê já passar.
E no entanto as minhas idades são por lá pedra.
Chorar sisudamente é de homem.

*

Jornais motivam recolhas de sangue e medula.
A empregada da papelaria suspira por um camionista.
Jardins japoneses noruegam-se todos à primeira neve.
Viúvas de soldadinhos esperam a última nave.

*

H. Silva Letra, de Vieira de Leiria, 1927.
Raul Brandão e a mulher ao lume em silêncio.
Teixeira de Pascoaes, a montanha.
E Raul Brandão, o mar sozinho.

*

E Wenceslau de Moraes, o cais.
E Camilo Pessanha, o linho.
E António Nobre, a gravata.
E José Afonso, o candeeiro.

*

Uma pouca de maresia no frontispício da respiração.
O ribeiro gerando azenhas (mas interrompo a quadra
por causa do Gabriel, um pequenino mui pequenino
que veio ver que raio de coisa fazia eu, escrevendo ou quê).

*

A vida ainda parece senhora de ser por vezes boa.
Dei um rebuçado, um lápis e um papel ao Gabriel:
três venenos dulcíssimos.
Ele sorri com o corpo todo: desenhei-lhe dois cães.

*

Uma luz celeste picota diamante alienígena.
Carlos V (I de Espanha) era de 1500, já lá vai.
Cometidos são a esta hora crimes imundos.
E mundos novos abrem os nascimentos, os óbitos.

*

Enseadas e ansiedades e enteadas e entidades.
O chinquilho e o junquilho e o pão e o peão.
Orlas e borlas e baías e baias.
Éguas e águas e a série e o assírio.

*

Que uma trovoada de zângãos fervilhe o meu sangue
na hora de me reapossar de ti, caída a manhã.
Que o nosso estremeção-amor de motel beirão
perfume de mancúspias o asfalto dos longes.

*

Uma ínsua húmida coroe o delta do teu nome,
minha querida, antes de nos abstermos de tropelias mais.
Comunicarei às autoridades a tua deserção de minhas agonias,
assim como formularei queixa contra ti e descendente(u)s.

*

Ao bar da noite acodem já as tremendas borboletas douradas
do comércio de avinhados leites e outros fulgores.
Uma espécie de paz nimba o balcão: santidade
do barman, esse apóstata do útero da mãe.

*

Fui dela por umas horas mas paguei o táxi.
Ela levou que contar à sua tertúlia de café-coiffeur.
Eu lavei-me em casa quase minuciosamente.
Telefonei a um amigo, jantámos em silêncio.

*

Por minhas vísceras que te amo de língua.
A morfologia de um sorriso assenta na pobreza.
A pérola chamusca os baldios brancos circunvizinhos.
A prisão está repleta de sacerdotes da lentidão.

*

Agora a noite toma seu cálice furtivo.
Num bosque, sem telefone nem alternativa, seríamos felizes.
Toma, fica com este dinheiro para o táxi,
eu vou ver se me encontro com uma azenha.

*

A esperança é a pachacha húmida dos incautos.
Paris não é uma festa, é uma trabalheira.
Eu podia voltar a trabalhar na construção civil, houvera-a.
Um semestre na Argentina, outro na Noruega.

*

Nasceu uma filha a um casal amigo,
telefonaram-me logo para aconselhamento,
disse-lhes que não podia, que já não sabia
que fazer de tão pouca tinta e nenhum papel.



Sunday, May 27, 2012

De 6 de Dezembro de 2011


Obstinada reiteração te me devolve ainda
a imaginação abespinhada do corpo.
Penso-te-que-me-sentes: na estátua de água
que vaporosamente somos em banhos separados,
ante uma montra com arlequins para filhos
que nos não refizemos outra-em-um.

Isto já não era o amor que ainda é
imaginada obstinada reiterada abespinhadamente.
Um cesto de maçãs tomado de oblíquo sol
à mesa de ambas as separadas cozinhas:
retrato de cada um, freguês de sua frutaria
em longínquos irrepreensíveis irremediáveis
povoados.

Vou ainda pela caligrafia (filografia lhe chamei hoje),
por onde até onde vais tu não sei, nem já saber
quero ou posso querer, podes crer.
E no entanto a terra movia-se galileiamente
como ainda e sempre e para sempre, mais
por vezes do que o mar até, só nós parámos
sem ordem da polícia nem dos tribunais.
É porque não valíamos nem merecíamos mais. 

Atropelamento Mortal (republicação)


ATROPELAMENTO MORTAL

Coimbra, segunda-feira, 13 de Setembro de 2010


Ele pôde, ou podia, haver sido
César, Aquiles ou Ulisses, mas Heitor foi
quem foi, este que morto se achou
ao cabo de poucas horas depois de
nefasto encontro de seu corpo com
instrumento rápido de contundente
natureza, vulgo carro.
Heitor de Jesus da Silva Pereira
colhido se achou e às trevas se
remeteu não ileso mas lesionado
e em muitos sítios traumatizado.
Por traumáticas lesões, por graves,
nasceu causa adequada de morte,
pois que também a morte nasce.
Em manhã de chuva sepultámos a
Heitor, imune já às disfunções
meningo-encefálicas e toraco-abdominais,
acrescidas elas das do membro inferior
direito e de certificada broncopneumonia.
Era filho de Petrónio Manuel
Ramos Pereira e de Carminda Maria
Silva também Pereira. Tinha
21 anos. Nasceu e morreu solteiro,
residente que foi em Cova de Raposas,
Portugal, algures.
Neste gabinete médico-legal o peritei
e dele pena tive, como de todos e
todas. Agora em versos o resumo,
dele porém não logrando o total, pois
que o pensamento não é
mensurável.
Sou doutor de pouca coisa, mas cumpro
quanto me indicou o Senhor
Procurador-Adjunto da República desta
Comarca.
Óbito, pois, certifico de Heitor – e
informação clínica respectiva boletinizo.
Heitor deu entrada, ou o entraram,
em centro hospitalar próprio
a 27/08/1976, vítima de acidente
de viação, vulgo atropelamento
sobre passadeira. Ia só, como todos
vamos e somos.
Veio falecer-se pelas 23h54m do
mesmo triste e fatídico
dia, noite já para ele e para os
que seus, tendo-o tido,
foram.
De evidente aparato era seu sofrimento,
nomeadamente de traumatismo
crânio-encefálico com contusão
cerebral e interpeduncular, hematoma
subaracnoideu, síndrome febril e,
como se não bastara ao infeliz rapaz,
pneumopatia.                                   
Era de cabelos castanhos, cor que a íris
imitava. Normal
estado de nutrição.
Masculino, arraçado de branco e
de idade aparente em harmonia com
a indicada como real.
Cinquenta e um quilogramas, um metro
e setenta e um de altura.
Descrevo agora o exame a que procedi do
HÁBITO EXTERNO:
pouco acentuada me pareceu a rigidez
cadavérica; livores achei, arroxeados,
fixos e abundantes nas posteriores
partes do corpo; sinais de
desidratação sim, pois que se deu a
opacificação bilateral das córneas;
também a putrefacção deu sinais, tais
como a presença de mancha verde
abdominal ab initio na fossa
ilíaca direita; à cabeça, usava o cadáver em
que Heitor se volveu, não
César nem Aquiles nem Ulisses, mas cadáver
de Heitor,
à cabeça pois, dizia, usava
equimose esverdeada peri-palpebral esquerda
na medida de oito centímetros de comprimento
por quatro de largura, cicatrizes
de recente aspecto por a região
zigomática esquerda e frontal
direita, a maior medindo, na primeira,
três centímetros de comprimento por um
de largura; não encontrei quaisquer
sinais de lesões traumáticas no
pescoço; no tórax já, os signos de picadas
me pareceram próprios do cateterismo
de vasos, cicatrizados todos na região
clavicular direita; abdominalmente,
trovei (e trovo) cicatrizes despigmentadas
dispersas, a maior das quais medi
na fossa ilíaca direita, sendo ela
de três por dois centímetros
de largura; ânus e genitais órgãos
morreram ilesos; mais de cateterismo
de vasos sinais encontrei em picadas pelos
membros superiores, que nomeio em
braço, flexura e antebraço direitos; em a face
medial do braço esquerdo, e com medida
de vinte e oito centímetros por cinco idem
de largura, ténue, mas horrífica sempre,
área equimótica esverdeada, sendo-lhe
paralelas algumas equimoses arroxeadas,
destas a maior valendo cinco
centímetros de comprimento;
descrita a área de equimose, mais digo
que sobre ela vi cicatriz
no terço inferior da face medial
do mesmo braço, de também cinco
centímetros de lonjura;
pelos membros ditos inferiores mas que
a todo o resto do ser-corpo
sustentam, removi da perna direita
a ligadura que a envolvia, observando
então equimose esverdeada outra e
com zonas arroxeadas também, medindo
vinte centímetros por dez no terço
inferior; deformidade e anormal
mobilidade claramente verifiquei
no terço inferior dessa direita;
bem ferida ela estava, que duas
feridas contusas a pictoravam,
isto no terço inferior da face
anterior, a maior com dois
centímetros de comprimento e vestígios
de dois pontos; no joelho sinistro,
oito centímetros de comprimento eram
feridos também e
ainda.
Procedi então, examinador, ao rol do
HÁBITO INTERNO:
soube que,
da cabeça,
nas partes moles
(tegumento piloso, periósteo e músculo)
vi sufusões sanguíneas subepicranianas;
nas estruturas ósseas
não encontrei
sinais de fractura nem
na abóbada nem
na base;
tantos anos levo disto
(que me levam a mim mais
do que eu a eles) – e
ainda me comovo (!) ante
meninges como as de quem
Heitor foi,
pois que em reabsorção vi
certa hemorragia
subdural
occipital
e
bilateral,
acentuada porém embora mais
à direita;
na mesma localização,
outra hemorragia,
mas subaracnoideia esta
e, ainda,
cerebelosa,
em reabsorção também;
já no encéfalo, nada de bonito,
assim que o povoavam
hematomas intracerebrais
nos lobos esfeno-temporais
e occipital não dextro,
por esquerdo ou sinistro,
medindo o maior um
centímetro de diâmetro;
mas, ainda
mais,
zonas de contusão em
zona parietal direita e
parieto-temporais
bilaterais;
cerebral edema
concluía do encéfalo
o mau poema;
peso encefálico, quilo e
trezentos gramas;
no pescoço, sim, havia,
na laringe e na traqueia,
muco purulento e
(pobre Heitor,
que mais não comerás,
rapaz)
fragmentos alimentares à superfície
das mucosas;
no tórax,
sinais fracturados não topei
nem em as costelas,
nem em a cartilagem,
nem na clavícula esquerdas;
nas suas irmãs da direita,
porém
(ó doce Carminda, de Heitor
a Mãe!),
presenciavam-se calos ósseos
(não ócios, mas péssimos negócios)
ao nível do terceiro
arco anterior
e dos sexto e sétimo
arcos médios;
circa vinte centímetros de líquido
amarelo-citrino, pericárdico humor,
na pericárdica cavidade e no
pericárdio propriamente
(mal)
dito;
pesava de Heitor o coração
algo como
trezentos e cinquenta gramas
(e com eles, gramas,
terás amado,
que mais não amas);
do coração de Heitor as cavidades
bolçaram sangue fluido
com vermelhos
coágulos e fibrinosos;
palidez moderada presidia ainda,
ainda no coração,
a hemorragias subendocárdicas
em reabsorção;
quaisquer alterações macroscópicas
nas artérias coronárias
não vi;
aorta com discretas
manchas lipídicas;
à superfície das mucosas de
traqueia e brônquios
vi que havia
muco purulento;
livres e vazias
(como de certas, tantas!, pessoas vivas
a vida)
eram de Heitor
as pleura parietal e
cavidade pleural
direita e esquerda;
mortalmente colhido pelo lado direito,
Heitor não pôde eximir dele os
pulmão direito e pleura visceral a
discretas sufusões sanguíneas subpleurais;
discretos focos de antracose;
lobo superior de cor acinzentada e
aspecto condensado;
zona de parênquima não arejado do
lobo inferior, afundando-se,
dessas zonas colhidos,
fragmentos em tina com água,
saída de pus dos bronquíolos
pós-compressão
das superfícies de secção;
estes aspectos todamente apontavam
compativelmente
para uma broncopneumonia aguda;
abundantes eram
congestão e edema
dextro-pulmonares;
tudo idem,
sem consolidação e sem pus,
no pulmão esquerdo,
que valia seiscentos gramas,
menos duzentos, portanto e por jeito,
do que o direito;
do tenro abdómen
as paredes
apresentavam infiltração
sanguínea em reabsorção
nos músculos abdominais e
fascias
da parede abdominal
antero-lateral
direita;
nascido e morto em Portugal,
de Heitor o peritoneu e a cavidade peritoneal
mostravam
atroz infiltração sanguínea dos
músculos retroperotoneais direitos, com
focos punctiformes (tão negros!) sobre
o peritoneu parietal,
correspondentes eles,
ou estes,
a focos de contusão
em reabsorção;
escureceu-se-lhe
e nigerrimamente se lhe punctiformou
variamente
o grande epíplon,
o tudo correspondendo a zona e focos
de contusão reabsorvidos;
em idêntica reabsorção
era do mesentério
a sanguínea infiltração;
lisas eram
do fígado,
que mil seiscentos e cinquenta gramas pesava,
as superfícies exterior e de secção,
mas cujos aspectos untuoso
e cor amarelada traíam
a esteatose hepática;
bílis havia,
mas cálculos não,
na vesícula e vias biliares;
dormia-lhe no estômago,
lhe de Heitor,
cerca de cem centímetros cúbicos
de um líquido de cor verde
(alguma esmeralda derretida?);
a mucosa estomacal
(Cova de Raposas, Portugal)
entretinha algumas
sufusões sanguíneas;
nos intestinos,
negra era a cor da serosa do cego,
o que de dia me pareceu que correspondia
a infiltração sanguínea em reabsorção;
e no pâncreas, congestão;
cem gramas pesava tal acabado pâncreas,
menos cinquenta do que os do baço,
cuja polpa era difluente
e que mostrava, baçamente,
cicatrizes transversais na face externa;
oito gramas cada uma, eram graves
as glândulas supra-renais direita e esquerda,
ambas com medular em desagregação;
de Heitor o rim esquerdo,
valendo cento e cinquenta gramas,
pesava mais vinte do que o direito,
demonstrando ambos lisa superfície exterior,
descapsulação fácil e
palidez moderada
(como pálida e moderadamente
todos,
enfim,
somos
e
vamos
sendo);
estava-lhe vazia, e vã agora, a
bexiga;
bacia, coluna vertebral, medula e
membros superiores
sem sinais de fractura;
mas no
terço inferior da tíbia e do perónio
direitos,
sim,
havia.
Mais e ainda recorri a
EXAMES LABORATORIAIS,
que histopatologicamente analisaram
estes versos e
fragmentos de pulmões e fígado
de Heitor,
de Petrónio como de Carminda
o único
Filho.
Do que anatomopatologicamente diagnostico:
quanto ao
HÁBITO EXTERNO,
equimoses na cabeça e membros,
cicatrizes na cabeça, tronco e membros
e
feridas contusas separadas na perna;
quanto ao
HÁBITO INTERNO,
lesões traumáticas meningo-encefálicas, a saber:
focos de contusão cerebrais,
hematomas intracerebrais,
edema cerebral
e
hemorragias subdural e subaracnoideia;
as lesões traumáticas torácicas eram
calos ósseos nas costelas esquerdas;
as idem idem abdominais eram
cicatrizes no baço
e
zonas de sanguínea infiltração
em reabsorção
no mesentério,
no epíplon
e na serosa do cego;
mais lesões traumáticas, dos membros agora,
a fractura dos ossos da perna direita;
o triste todo foi complicado por
broncopneumonia com alveolite supurada
e por
síndrome de insuficiência respiratória
com alveolite edematosa e
microtromboses septais;
o estudo histológico revelou,
no fígado,
congestão sinusoidal
e,
no pulmão,
broncopneumonia severa direita, com
supuração enobrônquica e bronquiolar e
microabcessos paraquimatosos.

Fui ao funeral de Heitor.
Era de manhã e chovia.
Era de manhã, mas era a Noite.
E, como no Fado – e nunca mais
se fez Dia.