Wednesday, November 30, 2011

57. LENDO E VENDO E SENDO, de Duarte Belo, NO NÚCLEO DA CLARIDADE – entre as palavras de Ruy Belo






para o dito Duarte, naturalmente



Leiria, quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

Melhores dias não virão talvez
salvar-nos da carestia anunciada
de de borla morrer e de viver pra nada
a meio da graciosa desgraça do português

como este-aquele ali, que pelas esplanadas
pedincha o cêntimo para a sopa, o tostão pró-pão,
por sua alma de cristão que é para pão,
pela pobreza da minha roupa que é prá-sopa,

isto não é que me comova mas amargura-me,
mais de meia população vive do ar, que não da terra,
o resto vai a pé a Fátima ver a boneca, cura-me,
ó Virgem de louça, da cegueira que nos aterra,

não, melhores dias não virão,
sabeis,
mas não tarda será Verão,
vereis.

*

Cresceram duas mãos de homem
ao cabo dos meus braços de menino:
vou para velho, não mais já jovem
– dizem que é fado, que é destino.

*

Estou aqui sentado entretido a ser português
ao sol morno e manso qual leão saciado.
Eu já nunca mais para sempre vivo outra vez,
é melhor portanto curtir o banco encontrado.

*

Acaba-se-nos hoje o mês
O primeiro Novembro a seguir à vida
da minha Mãe
Não é fácil nem tenro nem terno
ser um órfão descriado à beira
do Inverno.

Sunday, November 27, 2011

Manhã leiriense de beira-Lis, domingo, 27 de Novembro de 2011


© Saul Steinberg


Leiria, domingo, 27 de Novembro de 2011

Despertei com o instantâneo amargo-de-boca de ter sonhado que escrevia um livro apócrifo. Devo, portanto, ter utilizado uma heterográfica (não um lápis) para o efeito. Para me absolver dessa quase auto-traição, pensei em certas pessoas boas e tristes que conheci. Durou felizmente pouco esse transe: já a gata, sempre positiva e coruja sempre, me saudava com o silêncio fito dos grandes olhos dela. Levantei dali o corpo, meti-me em abluções, recorri ao café-com-leite para obviar as circunvalações gástricas e renais e tripeiras que fazem de canalização a toda a pessoa – e fui-me deixando de priapismos & quejandos. Vesti a camisola preta, que guardei com o blusão verde-musgo-escuro. A Cidade, quando dominical e às oito, tinha voltado a ser um campo-santo de adormecidos. Até uma rola ouvi, algures em pardieiro imemorial. Lembrei-me, sem por nem para quê, de que Fernão Lopes escrevia lâmpado para significar o que hoje dizemos relâmpago. Sorri por causa disso – sou dado a consolações sem explicação (que algum sentido terão: o da vida talvez, até).
À face do Lis, numa esplanada sem história e sem audácia, dei-me às matinas com um atraso de três horas, posto que eram já as nove. Amaviosa, a atitude da luz tinha chegado para ser suavíssima montaria. Atirei olhos aos quase-nadas que sempre foram o meu tudo:
uns panos de relva orvalhada a preceito pelos claustros da noite;
a colina, negra ainda do anoitecimento anterior, a que o Castelo trepou na legenda dos séculos (como se para ser a Guernsey de Victor Hugo nenhum);
a detença altaneira do arvoredo à contra-seda azul do primeiro céu da manhã;
outrossim a ordenança sujeito-objectos da vida filmada no dentro da cabeça, esse território medular e palaciano onde uma pessoa é obrigada a viver para sempre;
a atenuação (a anestesia) dos sinais álgicos que resultam de pensar nos mortos e causam o repensar nos mortos;
(a camisola preta muito morna sob o musgo-blusão);
da outra beira do Rio, o cu muito escuro de um cão preto ao cabo do rabo vertical: perfeito ponto-de-exclamação (sorrio a isso, querida);
os patos às gargalhadas de desenho-animado no Lis (corre-lhes a vida bem, aos sacanas);
eu ser um pajem da mordomia do mundo – e o meu papel ser um lápis;
a qualidade póstuma do portal que cada vida foi;
a pouquidade – por muita idade que, embora – de cada vida;
a pousadia versilibrista assentando praça nos sonhos acordados;
a prazia das sombras das árvores como códigos-de-barras que cifram o comércio & indústria dos poetas naturaferidos;
as migalhas de lápis que resultam do afiá-lo com um prazer tecnicista de outra-vez-criança-na-primária;
a puridade do idioma abrindo janelas maravilhosas na empena da vida comezinha;
a importância deste comenos;
e as 9h48m, já.

Está tomado o café, aguçado duas vezes o ápice do lápis, já a catacumba-estômago me pede o bom-trato de caldo & pão. Concedo um minuto terminal ao derradeiro cigarro do maço, que aproveito para visões periféricas em regime de à-la-minuta:
um cinquentão de fato-de-treino pedonalando o trilho aeróbico de beira-rio na companhia do filho do primeiro casamento da mulher;
uma trintona de fato-de-treino encomendando galão & meia-torrada para o pedro-miguel de que é mãe-solteira;
a frescura oxigenada atribuindo um embriagador viço vital à duração;
o fim do cigarro e o anonimato disso.

Saturday, November 26, 2011

Leiria, esta manhã de sábado, 26 de Novembro de 2011 (de um caderno-livro novo que ando terminando por estes dias)


© Duane Michals





Leiria, sábado, 26 de Novembro de 2011



Manhã de bom sol em plena acção.
Também em acção: identidade; permanência; duração; efemeridade. Só isto? Não é pouco.
Também, porém e ainda:
celebração alimentar do corpo (sem oposição a espírito ou alma, abstractas superstições que renego com o corpo todo); instantes (re)jubilações da beleza anatómica (das pessoas, das árvores, das aves, dos rios, de algumas casas, de inesperadas químicas que a luz patenteia por puro capricho oratório, da biologia da morte e da necromancia da sobre/sub/vivência);
hidráulica da atenção;
merencória filosofia da pausa café-cigarro.
Poucas (mas duras, mas férreas) certezas,
como essa de o amor nos solidarizar com a brevidade e a intensidade do fósforo aceso;
como essa de a dignidade ser – por definição, liminar e luminar – incorruptível;
como essoutra de o bom sol matinal consistir em acção.
Que tudo é território.
É território
este cão que na rua aguarda a dona enquanto ela se cafeína ao balcão da pastelaria: animal que fala e diz o mundo a partir da sua brancura reverberante, contrariada apenas (ou sublinhada, melhor) pela mancha castanho-ouro de meio rosto e meia orelha (do lado esquerdo) – afago-o e falo-lhe, digo-lhe sandices mimosas que ele entende com a batuta pendular e robusta da cauda.
É território
a revisão das mulheres da minha vida – ou na – ou pela – minha vida: jardim mais discreto que secreto nutrido quantas vezes pelo merencório pasmo da pausa café-cigarro, sobretudo quando chove a ponto de o mundo parecer mais limítrofe do que a morte e as terças-feiras.
É território
a arqueologia do parentesco: aí (lá) onde o mesmo rápido corpo escritor se lê demoradamente, tão demoradamente e tão do-amor-da-mente.
(E é território
a mente, não a alma, não o espírito.)
Sim, manhã-acção ao sol de Novembro: manh’acção.
Se descrevo, leio. Talvez interprete (no sentido de represento: à maneira de actor-agente-avatar). Já muito descrevi(vi): vi, vivi:
o regime eólico e mercurial das águas que nascem da montanha para uma vocação de mar;
o destino de salmão que todo o rio tem por fado e condição;
a geometria por vezes intolerável de boa das mulheres (carnívora flor cada uma, coralífero diaporama cada outra);
a organização bilharista dos machos humanos pelas salas traseiras dos salões-catacumbas do quotidiano;
o poder pueril e homicida do dinheiro-pelo-dinheiro;
e o cão branco-ouro que me volta à mão para mais uma sessão de carinho autógrafo.
Bela manhã, senhores & meninas.
Vela não vã, que, ardendo, ilumina.
Tela louçã, lustral, cristalina.
Dela, a massa sã adoça as retinas.

Sigamos doravante à tarde rumo, antes do frio lume que a noite há-de ignicionar em (a)manhã. 

Wednesday, November 23, 2011

Rosário Breve nº 234 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 24 de Novembro de 2011



Violar já não é violência nem crime

“Agarrar a cabeça (ou o cabelo) de uma mulher, obrigando-a a fazer sexo oral e empurrá-la contra um sofá para realizar a cópula não constituíram actos susceptíveis de ser enquadrados como violentos.”
Sim, leitor(a), lê outra vez. Sabes o que é? É o acórdão relativo à violação de uma grávida de oito meses pelo psiquiatra João Vasconcelos Vilas Boas (49 anos, do Porto). Condenado em primeira instância a cinco anos (mas com pena suspensa), viu o Tribunal da Relação do Porto anular a prévia decisão do Tribunal de São João Novo. O “médico” foi suspenso por dois meses pela IGAS (Inspecção-Geral das Actividades em Saúde), mas – atenção a isto – pode continuar a atender no privado.
Pergunto eu ao juiz e/ou juízes da Relação do Porto: que miserável estupidez é a vossa? Pergunto mais: sois homens? Sois casados? Tendes a/s mulher/es grávida/s? Percebeis as perguntas?
Já agora: compreendeis que a vossa “decisão” configura um outro crime? Sim, o vosso “juízo” é, preto no branco, mais do que uma mera afronta – por valer menos do que um escarro na vi(d)a pública.
Tal episódio viola-nos a todos. Num tempo em que a “Justiça” se vê escarrapachada em espectáculo televisivo (os duartes limas, os isaltinos, as faces ocultas à vista de todos), tal aborto jurídico não poderia vir em pior altura. É o descrédito total. É um esterco obtuso. É um crime: e um crime que compensa, ao que parece.
Além disso, é uma vergonha para todos os (felizmente muitos, ainda) juízes sérios e decentes em exercício por todo o País. Desde quando é que uma violação não é uma violência apenas cotejável ao assassínio de crianças? Desde quando? É o que fazeis em casa? É o que praticais nos corredores dos tribunais às oficiais de justiça e às mulheres da limpeza?
E ninguém vos julga? E ninguém vos pune? E ninguém é homem para vos dar uns chapos na cara? Tenho a dizer-vos isto: o meu medo de ou por vós é nulo. Isto fica aqui dito, preto no branco. Branco como o vácuo da vossa moral.
E preto como a vossa consciência.

Friday, November 18, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 52 - Coimbra, quinta-feira, 16 de Junho de 2011

52. MOVIMENTO-VENTO

Coimbra, quinta-feira, 16 de Junho de 2011

Em movimento-vento, o ar é bom de respirar, mais a mais quando matizado por esta luz que, filtrada de árvores, é uma luz profana e feliz. Cruzei o Lis – eis-me, na outra margem, ante o meu Mondego.
Não é lingrinhas, o meu amor pela minha Cidade. Quando retorno, sinto-me o que & quem deveras sou: uma das pedras, um dos pátios humanos, uma rosa de cabelo com sapatos e lápis: e presa de uma serena ansiedade que é a pedra-de-toque da consciência patriótica entre ter nascido e ir morrer. Coimbra é a Buenos Aires que posso. Esta tarde, na Rua da Sofia, sinto na nuca quanto me seria precioso que os meus Pais me vissem ir do Terreiro da Erva ao Terreiro do Marmeleiro via Rua do Moreno. O coração na nuca. Derivo para Montarroio, suposto o açúcar da amargura: sou um órfão que é pai: um paradoxo natural, conimbricense, có(s)mico. Sorrio, levitação de perfume sustenta a andarilhança (anda, dança). Polícias, matronas, quiosques, a Bandeira Nacional verdencarnando o azul à teste da sede do município, as pombas matriculando a duração perpétua do burgo, fantasmas vivos nos vãos das escadas de madeira, duas esmeraldas no rosto deste homem esperando o verde-peões da passadeira da Caixa Geral de Depósitos, que formoso verde o dos olhos com que ele filma a realidade que lhe pertence, que o nasceu, que o matará.
Girassóis celebram a monarquia mais absolutista: o Sol de Coimbra. A lunaridade local (sabe-o toda a gente daqui) é republicana e namoradeira. Mas o Sol é de um reinado tremendo. E é à luz que esta mulher tão pobre e tão bonita diz ao senhor da casa-de-pasto que a filha foi passar uns dias de água à Torreira, Aveiro.

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 51 - Leiria, quarta-feira, 15 de Junho de 2011 (completo)


© Louis Daguerre
Estúdio do Artista (daguerreótipo de )1837


51. CONJUGAÇÃO

Leiria, quarta-feira, 15 de Junho de 2011

O ar e a água em árvore se conjugam,
que se faz luz e clarão na sombria terra.
Tudo abre o olhar que a tudo encerra.
Tudo. Só alguns sonhos subjugam
do cidadão o coração sem rebeldia.
E amanhã, como ontem foi, é outro dia.

*

Em menino, descobri quartzo entre as lajes antes da quinta que tinha cavalos ante o Campo. Da Natureza de então, os reinos funcionavam como o ápice da língua, que à palavra babuja em água gramatical. Eu devo ter sido felicíssimo, então: aos pés da oliveira, o panasco, o funcho, o espargo e o fóssil do caracol emitiam a certidão do nascimento perpétuo da terra. Quando a casa tornava, os do meu sangue trompeavam bandarins encarnados sobre alazões e corcéis e tigres mansos como o papel vegetal picotado de santos a pó-de-carvão. A terrina emanava a respiração nefelibata do caldo, o pão estalinhava fissuras que traíam, por rugas, a mocidade do trigo. No eu-corpo aconteciam verosimilhanças, como é próprio das crianças: a integridade moral do Matt Marriott, a lhaneza pessoal do cão chamado Pinóquio, as galinhas altas da Senhora Teresa (chamei Teresa à mais nova das minhas filhas, pago sempre as minhas dívidas, apago nunca as minhas dúvidas), o furor violáceo das madrugadas de Maio, o meu Pai levantando-se às quatro da manhã por causa da majestade da solidão, a comovida cortesia-inês-de-castro dos chorões rés-Mondego, os nomes-em-mármore dos mortos pedindo por-favor-não-me-esqueças-obrigado, os pardais individualíssimos na montra grisa do firmamento, estas coisas que restolham o ex-menino na atabafada tarde da quarta-feira de Leiria.
Iço as minhas pendurezas escadaria a cima rumo a uma loja contrária a esta escrita, posto que, aquela, não esta, de utilidades. Uma espécie de almácega é a pele de água escura com que envolvo as vísceras e estes versos. Estrofo as boas-tardes ao velho senhor e peço-lhe a Luz, ele vende-me uma lâmpada, é quanto pode fazer por mim. Os mortos (não os meus apenas) vivem-me: e comigo demandam & devassam os entrepostos das estações: a Primavera de 1970, o Verão de 1972, o Inverno de 1981, o Verão de 1999 e todos estes outonos que me somam e somem, menino (des)feito homem. Num café, capacíssimo de moscas e atribulações verbais entre técnicos de ar-condicionado e senhores que são proxenetas, aquela furiosa alegria de antanh’outrora reganha foros coevos no meu coração com óculos novos.
Já não estou neste Junho, mas nos outubros mansos que me levavam aos cedros da colina. Além, os silos da Triunfo e a ferrovia, a extensão até à estrada da Figueira, os canoilos de milho e os esparsos rectângulos onde a couve, o nabo, a cebola, a choupana do cavador, o melro bicão (o ouro da boca dele), os ciganos então sem rendimento mínimo ainda, a Vala do Norte fervilhando de enguias, minha Noruega a sul.
Cada Julho eu era atlântico. Revoadas de sal-areia comiam-comichavam a pele aos outros como eu meninos, hoje pré-cinquentões dizimados pela banca e pelo colesterol e pelos matri(de)mónios. Só que eu era atlântico. No Mercado, a Mãe imperava entre as peixe-hortaliceiras, convocando o feijão-verde, a sardinha, a pontiaguda ferrosa cenoura, o polvo estelar como as ramificações bibliográficas-genealógicas, o frango corado rodando no espeto como carrossel de si mesmo, as canecas de café caseiro nos dentros das tendas de louça, o bolo-de-Ançã e a regueifa-de-Coimbra, a estufa de sombra escoltada lá fora pelo sol mais sem amargura de que me lembro.
Hoje, os loucos são menos silvestres, tomam calmantes-placebos, jogam as cartas sem pensar ganhar. Hoje, derivamos na tonsura psicológica do que era para ter sido o futuro mas que de hoje não passou. Quando me descobri no quartzo, soube-me multimilionário da afeição à terra, a partir de que a árvore, a partir da qual a luz, o menino a partir – e a chegar aqui, agora, hoje apenas e até amanhõntem.

*

No amor, o ouro é o ou(t)ro.

*

A senhora chamada Rosa em conversa com a senhora chamada Laura:

– Vi-a hoje na carreira, ainda tem os cabelos pretos. Pretinhos, pretinhos, pretinhos.

E a senhora (cabeleireira agora, mas já foi modista) chamada Laura:

– Essa se deixar de tomar os medicamentos bloqueia.

Entretanto, falei com dois homens chamados Fernando: um é Mendes, o outro é Jorge e Silva. Cortesia, amizade, a volúpia afectuosa da amizade. Às 16h56m, tenho arrecadado o bragal do andarilho: escadarias, lojas, transumâncias, este nó no coração-garganta com que desato o verbo. A Nova Cidade diadema-se, júnica. A minha Leonor tem uma infecção no tímpano. Vou por zonas contraluminosas, abençoado pela respiração e pela qualidade dos sapatos. Um rapaz chamado Rui Fontelas canta no programa tv-espertino da minhoca andrógina chamada Paião, Saião, Raião, não m’alembra agora. “Agora é que vai ser” canta o pobre rapazelho, cabelote compridote, riscola ao meio. (Também só um Diogo Infame – perdão, Infante) é que se lembraria de chamar ao palco o tal Caião em encenação dA Rosa Tatuada do Tennessee Williams, não é? Era.) Ante a máquina fulcral do desejo de fixar cromos verbais na caderneta dos dias mailas suas noites. Nesse, por esse desejo é que vamos.

*

Não tratando senão de cuidar das flores a que pertenço,
fui indiferente às florações e desfloramentos
com que outros brindam as cidades-(v)idas.  
Hei colonizado meus ramerrames verbosos:
de e à passagem, um regueiro de tinta
(e de tinto, vá) terei deixado à her(d)ança.
Não mais e não menos.

*

Não mais me esconjure a celeste roda
que a astros e pessoas dá destino.
Eu já era, porra!, velho em menino.
Não mais me abjure a agreste rosa.

*

É verbal que tuas de delicada louça mãos
infiro, salvaguardada a utente existência.
Minha Irmã, isto é para levar com paciência:
um húmus de filhos, outro de irmãos.

*

Certa ocasião, eu entrava na papelaria para que o perfume dos papéis impressos se me impregnasse na fala. Eu estorninhava, passaricando entre a cúpida resma do Diário Popular e a galeria (então infanto-juvenil, quando então as crianças ainda liam) da laranjada Fruto Real: Edmondo de Amicis (Coração), R. L. Stevenson (A Ilha do Tesouro), Robinson Crusoe (Daniel, hélas!, Defoe) e A Cabana do Pai Tomás (Harriet Beecher Stowe). Esse tempo não me passou. Adquiri certezas livrescas tão duras quão ósseos punhos. Na esquizomonopolar andança, cheguei ao Calvino que era Italo, ao Carpentier que foi Alejo e doido por música, ao tremendo Faulkner que, William, era afinal Falkner de nascimento, à pandórica Woolf (ou Loobo; ou Virginia sem acento na penúltima sílaba), ao senhor finlandês Paasilina, Arto. Água de água (o vento encrespando uma e outra, marino, ladino, menino, destino), uma torrente de leituras sufraga as fragas marginibeirinhas do estar-vivo: gente escrevendo ainda, ainda falando no papel – e tanta dela morta de corpo, caramba, uma pessoa por vezes nem pode querer nem quer crer.
O meu Pai levantando as quatro da manhã.

*

A mão dela instiga as cortinas da casa.
Um vento assoma estas quatro paredes.
A comida dá-se fragrâncias, dormiremos
juntos como pétalas da flor unificada.

É preciso ter uma casa a que chegar ontem.
Os clássicos compendiam os temas fundamentais,
os quais são: o direito a ver estores azuis,
a galeriar sardinheiras e a ser português.

Ela irmana-se da louça antiga que colheu
dos da morte do Pai despojos, uns anos já há.
Esparge panitos, receitas, mnemónicas
(leite, pão, graxa, azeite) que me comovem.

(A casa é ela, claro, é o seu organismo.
Eu ando aqui a pensar num chapéu.
Às vezes, rio-me ou choro ou cismo:
isto de ela em quadras é pôr-me ao léu.)


*

– Ponha-se na rua

– disseram-me o dono do café e o professor de literatura.

Assim fiz e tenho feito e farei.

*

O condor peruano ainda passa:
hammer, nail; sparrow, snail.

*

Eu da vossa não sei nem posso falar
Mas a minha vida é pura e involuntária
Como um rio vizinho de zona industrial.

Eu do vosso nenúfar não falo nem faroeste
Mas ver passar senhoras em galeria
É alegria ainda, alegri’inda para mim.

Eu da Sylvia Plath digo nada já que os bailes
Da minha terra nunca que eu saiba dançaram
De tremoços pasodobles pevides e tanguédias.

Eu nem falo por mim nem por nós
Falo com uma garganta de cidadão breve
Que tanto um dia foi como deixará de ser.

*

Sentar(sentir)-me-ia aqui um pouco mais
Ante a glória têxtil das pessoas pobrezinhas
Que cumprem as gerações leite-mármore
Urbe-orbitais ao empalidecer do dia.

Está fresco, quem diria? Junho não é já quem foi.
Sói é dizer que em Leiria, Maio foi e Junho dói.

Julho etc.

*

Subia eu, em outras dimensão e cidade, a Dias da Silva. Árvores escoltavam vivendas de médicos, solicitadores, professores reformados no bom tempo. Um ar pespontado a ginjas, a barros vermelhos. Uma possibilidade de negar o não-querer-ser. Eu era em Coimbra um autor de canções, J. M., como esta:

Quem sobe ao alto da Cruz
Que de Celas é nomeada,
Sobe ao alto da luz,
Morouços e Cumeada.

Dá-se a pessoa em doce
Clara que é santa de Inês:
Quem será que foi que a trouxe,
Dá-se o recado: 1, 2, 3:

(refrão:)

Vibra Coimbra ligeira,
Eira de mil gerações.
Timbra sem eira nem beira,
Pátria (talvez) de Camões.

(repete refrão.)

E Lordemão, Rocha Nova,
E a Pedrulha até Eiras.
Muito mais sofre quem trova,
Trovam até as carpideiras.

Dá-me a flor d’ Arregaça.
Traz do Tovim o perfume.
E se não for por desgraça,
Não te recases por ciúme.

(refrão:)
(repete refrão.)

(A próxima quadra é falada, volta-se ao canto depois:)

Um perfume de comboios
Como quem cheira, como quem lê,
É como a Mata dos Lóios,
Coimbra-A, Coimbra-B.

Há um sintoma de chuva
Perto de São Bartolomeu.
A Praça Velha é uma luva,
Digo-te a ti, to digo eu.

(refrão:)
(repete refrão.)

Desce a longa do Brasil
’té Casa Branca, traz mais um.
Sai do Norton do Carmona!
Viv’à Solum, viv’à Solum!

Ó pracita Oito de Maio!
Ó coração sacro Jesus!
Ó doce Ferreira Borges,
Ó meu Visconde da Luz!

(Se as putas não s’assustarem,
Nem entrar desassossego,
’inda vou, se me chamarem,
’té à beira do Mondego.

(Etc. e tal.)  

Thursday, November 17, 2011

Rosário Breve nº 233- in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 17 de Novembro de 2011




Bairro Alto vezes 26

Vinte-seis anos depois de nascer, o semanário O RIBATEJO continua a ser clandestinamente composto e impresso furtivamente numa tipografia esconsa do esconso e lisbonense Bairro Alto, um pardieiro que faz paredes-meias com uma taberna de iscas e ginjinhas, tudo com-elas. Tal tipografia e tal taberna partilham com o jornal a obscuridade das corujas e a cautela para com os ratos. Tipógrafo, taberneiro e jornalistas comungam da paradoxal predilecção pelo chumbo nas unhas, pelo fado diagonal e pela bisca lambida. Antigamente às sextas para agora às quintas, o pasquim abandona os calabouços bairroaltinos manhosamente embrulhado em grossa folha de papel-cenário de cor-do-cartão-das-caixas-de-sapatos. Carregam-no com amor e sem rumor para as férreas catacumbas de Santa Apolónia. Daí, faz pouca-terra-pouca-terra até que a terra se faz muita como em alhures mais se não vê nem há. Isto é: chega a Santarém. Vejam o filme: chega de noite às lezírias abençoadas pelo marítimo rio nado em Espanha, sopra vapor o mais cálido nos dedos arrefecidos e põe-se logo a gritar manchetes verdadeiras.
Há vinte-seis anos que anda nisto: apre(e)nde o palco da realidade como Bernardo Santareno, di-lo em palavras ditas como Mário Viegas e fá-lo agir agora-ou-nunca como Salgueiro Maia. Pela manhã, já passou de mão em mão. É lido em vãos de escada, em sentinas públicas, sob dois chicharros na bancada do mercado, no intervalo das aulas da escola primária por professores que sonharam ser os próximos Vergílios Ferreiras e nunca foram, por costureirinhas que nunca serão Beatrizes Costas, por dentistas ulcerados de azedume antimunicipal e por taxistas raríssimos que não veneram Salazar logo a seguir ao Deus dos quinzes-de-Agosto. Dizem as boas-línguas que até nas câmaras e nas juntas ele é soletrado, mas tal não consta de acta de assembleia alguma.
Vinte-seis anos disto: caracter que se faz carácter, linguado que não lambe (à excepção da bisca, entre iscas e copinhos de ginja), aviso notarial para pagar o pão com tulicreme aos escribas, ao tipógrafo e ao taberneiro.
Teimosamente, obstinadamente, incompreensivelmente, continua a nascer e a fazer-se gente com a gente dentro todas as santas semanas do nosso paganismo existencial. O RIBATEJO. Teimosamente forma, porque informa. Obstinadamente diz, porque não dita. E incompreensivelmente é sempre verdadeiro: não por causa desta ou daquela manchete, mas porque, em um quarto de século mais um ano, não houve jamais caracter daquela tal tipografia que se não visse volvido em carácter neste jornal.

Monday, November 14, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 50 (I)



©Anna Kruszewska - Poznański's factory



50. QUATRO INSTANTES 

Leiria, terça-feira, 14 de Junho de 2011

TRÊS DA MANHÃ

Os livros são infinitos, a vida não.
Enquanto disponho da minha, vou por eles – e tenho ido bem. Assim me acontece a possibilidade de devassar glaciares e florestas-da-chuva e cidades portuárias que equivalem a homens solitários parados à chuva. Salas de concerto ricas de púrpuras, damascos, ouropéis e decotes de nata alvíssima; extensões fluviais pespontadas marginalmente de pepitas citrinas as mais áureas; colégios pré-universitários na província especializados em puericultura, necrologia, numismática, sideromancia, urologia histórica, taxonomia e culinária; florações escritas a partir de uma solidão essencial; cemitérios belíssimos subindo colinas não menos; fornos a lenha urdindo o pão solar que locomove a humanidade restrita, mas universal sempre, da aldeia; alpinistas tomando chá em tendas vergastadas pela heróica inclemência do pai-vento; a condição equatorial do diafragma; o olimpismo do coração; a descoberta de que a eugenia só pode ser individual e só pode acontecer na velhice de cada um; minutos tão únicos, que permitem contar (uma, duas, três, quatro, vamos para cinco) as décadas eugénicas; jipes formigando pelo deserto que vale reis os mais solitários na tumba onde se preservam tanto do esquecimento como da lembrança; cidades porto-prontuárias expedindo homens ortográficos em caligrafia pluvial; e Crusoe, Sawyer/Finn, K., Benjy, Raskolnikov, Pierre, Clarice, Leo Colson, Carvalho, a Heidi e o Marco.
Esta madrugada a minha vida cruzará o Lis, dormindo patos e peixes no veludo pobre da água. Andando, de glaciar e trópico em cada bolso traseiro das calças, hei-de eu trotar como um cão escrito. Proscrito, não: não ainda. 

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 49 - Leiria, segunda-feira, 13 de Junho de 2011



49. EVOCANDO DUNAS 

Leiria, segunda-feira, 13 de Junho de 2011

Nenhuma alegria ou tristeza. Apenas matéria, matéria deixada à voragem dos escombros e da ferrugem.

Al Berto, O Anjo Mudo

*

Revelações incandescem sempre.
É numa vida pequena – e não a digo breve, digo-a pequena.
Enquanto não morrer, os mortos hão-de viver.
Quintas dotadas de açucenas & cegarregas, estrelepitar de pássaros, vozes no Campo, mui deserta e maninha é a Charneca.
Num sítio sem a areia estática dos telefonemas mais anónimos: aí, estabelecer gregarismo com eucaliptos & formigas, veios de água & mais areia esboroadora da operária argila.  

*

Passei a vau já eu tanto almegue, que não há-de ser agora que um rio me afogue em sonhos.

*

Cada vida de cada um:
leve breve lebre,
que não repousa
a raposa.
            
*

Também sou capaz de evocar dunas como mulheres deitadas (fora) ao relento do céu e ao relento do mar. Sem alento, ao ar, sou capaz. Uma vez, em pleno meado Agosto, uma borrasca de granizo dizimou da praia a acorrência. O pânico das famílias entornou farnéis, chapéus-de-sol, avós, jornais. Peguei na minha filha (a única que então tinha) sob a toalha, fugi também da gelada impertinência de Deus. Desconheço se alguma vez lá voltei, talvez tenha voltado. Não sei se se volta. Muito talvez, não. Em menino, as dunas afarinhavam-se como cocaína. A areia de cima fervia, mas, enterrando o pé, a de baixo era fria. Recordo isso agora mesmo, calçado na calçada da rua, numa cidade interior sem grande futuro.
O vento esguedelhava a vegetação chã. O ar salgava até a voz, que eu usava, já então, para
evocar
não o ar
não o mar
mas este homem que me faz a barba à esquerda
no tal futuro
ao tal espelho
etc.
            
*

Roxazuláceas, as unhas de verniz desta mulher passante ante (ant, formiga em inglês) o Tribunal de Leiria.
Tarde a dois terços.
Rua e Travessa Dr. Primitivo Lopes, professor que foi do ensino secundário.
Paro à sombra e ponho-me a odiar os cânones. Odeio cânones. Estimo bem que os cânones se fodam. Quaisquer cânones. Depois a coisa passa-me. Depois,
            
*

Limbo: limo: imo.
            
*

Assustam-nos, estas ruínas de histórias.

Al Berto, idem

*

Os clientes mais idosos, cada um a sua mesa, dormitam no Café. Três adolescentes (agora quatro) casquinham os riso-histerismos da praxe etária. Faz frio nenhum, Junho retomou sua vocação de Verão. Um dos velhos levanta-se com ar de pré-cama, é de cabelo pintado a negro-mentira. Segundo velho a levantar-se, este alto, olho-azul-entre-nuvens, tez clara, sapatilhas juvenis que lhe não ficam mal, paga ao balcão, aí vai ele – como tudo vai ou há-de vir, um dia.

Sunday, November 13, 2011

Agora na íntegra, a entrada 48 do ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO




48. CARTILHA  

Leiria, domingo, 12 de Junho de 2011, e início de segunda-feira, 13

O frio vem, depois o fresco, o calor depois, e então o fresco, o frio.

*

Tenho (re)feito a minha vida (des)fazendo cidades.
Os nomes delas não interessam – como também o meu não.
Mas a(s) vida(s) delas sim, interessam – a minha também, vá lá, mas muito menos.
Em uma das cidades, os necrotérios trabalhavam noite & dia, as maternidades muito menos.
Outra delas olhava o mar desde que nascera – como eu e alguns da minha família: os sem-abrigo, os polícias, os carteiros, as costureirinhas e as putas.
Uma tinha virado as costas à montanha porque a neve só lhe queimava as hortas e não chamava turismo algum – como eu.
Abandonei-as todas, uma a uma todas abandonei.
E o meu único erro foi confundir abandono com purificação.

Fazer é menos re- do que des-.

*

Desertam as ruas, os compatriotas. Devasso sozinho as artérias atormentadas pelo laranja público dos candeeiros: só que não há público, só devassa.

*

(Vou agora fazer uma redacção como antigamente: para ninguém e por causa de nada:)

As ruas chamadas Direita não têm de ser rectilíneas. Uma rua é Direita quando leva direito à igreja da terra. Na minha, que é Coimbra, a Rua Direita cumpre o seu papel: uma pessoa vem do Arnado, vai por aí adiante e dá com a Igreja (ou Mosteiro) de Santa Cruz, já Praça 8 de Maio (antigo Largo de Sansão). O problema é (se calhar, até nem é) que, na minha terra, dizer “Rua Direita” é o mesmo que dizer “Rua das Putas”. Vocês sabem, aquela putaria tipo Intendente lisbonense. Uma vez (ele é que a sabe toda de cor) até fiz uma letra para um amigo cantor. A primeira estrofe era assim:

Rua Direita, viela bem conhecida
da má fama e da vida
de quem tem conta atrasada,
eu vou contar a tua história sombria,
mesmo que à luz do dia
sejas desavergonhada.

Muitas vezes cantámos isto em tainadas e cenáculos e borgas e vadiagens e congressos internacionais. Mas, como tudo passa – a começar pelo Tempo –, dediquei-me mais, entretanto e entre tão pouco, a estilhaçar o meu lirismo em lances mais à base de pombas & corvos, esquilos & raposas, tinto & branco. O resultado tem sido o que (não) se vê.

*

Não escrevo para dizer nada a ninguém. Escrevo para que o escrito me diga alguma coisa, alguma coisa que já cá estava dentro (não sei como, mas estava), parecendo porém vir/de/e/ir/para fora.

*

Freáticos como olhos comovidos,
os meus invernos mais antigos
hoje se me dão tão por perdidos,
que verão vos diga não sei, amigos.

*

Não posso (não devo) fazer planos.
Quero crer que alguns pinhais merecerei ainda,
algumas manhãs de noite ’inda tingidas
como tantas, tantas vidas.

Vou mais por carpir possíveis quase-alegrias, linda.

*

Remanesço quanto nasço
cada dia a volver.
– Dona Rosa, um bagaço!
– Pois mais um? – Tem de ser…

*

Afeição, aflição.

*

À varanda (outra varanda, o mesmo corpo), ante os prédios do bairro extinto. Um cão preso deixou de ladrar, talvez esteja doente de tanto ter sonhado com a improvável amnistia
do nascer do dia.

*

Isto queima,
ser um homem
mais vezes a pé
que de pé.

*

Escrevo como se trabalhasse para a luz.
O salário é a noite, todavia, de cada dia.

*

Com mármore pensamos domesticar os mortos.
Infante ingenuidade nossa.
Eles vivem de frinchar-nos as janelas
que os sonhos acabam abrindo-lhes.

Os meus, como os dos outros, não são
nem
inocentes
nem estão,
Mãe,
mortos,
não.

*

Uma pessoa chega ao cabo do istmo,
a Berlenga longe de mais nimba
dela os véus salinos
para inquietação dos corvos,
esses negros noivos
cujo apocalipse é nau
e nunca
nunca
nunca mais.

*

Isto tem pouco que saber:
é ora amar e depois morrer.

*

Também já estive em Lisboa.
Ouvia, como se visse, o pensamento das pessoas.
Pensavam elas assim à minha passagem:

Olha mais um que não conta.

E era verdade.
Digo: naquela altura era verdade.
Agora ainda é, mas menos:
pois que agora, escrevendo,
alguma coisa conto.

*

Estive em Lisboa.
Andava por ali sozinho como toda a gente.
Nas outras cidades passa-se o mesmo, mas em nenhuma tanto como em Lisboa.
Tinha em Coimbra uma filha tão recente como um pirilampo.
Eu estava em Lisboa mas era em Coimbra que andava – e era.
A menina entretanto cresceu.

Não eu.

*

Aos bombeiros já muitas vezes aconteceu darem na estrada com bonecos fluorescentes representando santinhos e senhoras-de-fátima entre os destroços dos mortos encarcerados.
Só não contam nada a ninguém para não estragar o negócio ao padre que lhes benze as viaturas novas de dez em dez anos – ou mais que dez, que nisto do equipamento não há milagres.

*

(Cartilha:)
A. Z. LU. LUA. LUZ.
João de Deus.
João de Jesus.

*

Petiz, eu não sorrelfava o rêgo das mamas das mulheres. Eu não fazia isso. E agora também não faço. Já não vale a pena.

*

Um restolho de andorinhas alvinegreja a minha nova rua à frescura das manhãs. Fumando ao varandim, assisto a essa altíssima natação plumiforme. Fico sempre encantado. Mais do que voar, elas são ar.
(E eu deveria deixar de fumar.)

*

Apronto do meu dia os despojos, tenho um saco, o lápis e o caderno e O Anjo Mudo do Al Berto, como o arroz cabidela tem nele.

*

Antes, porém, permito-me preferir
a sanidade à santidade,
que os únicos santos que (re)conheço
são aqueles que à mesa me deram
lugar, voz, convocatória e atenção.
A identidade não há-de tão má ser
como ser entidade, pois então não?

Acabou-se-me o dia.
Em sorte havendo, a manhã
Amanhã.

Boa noite.
Bom dia,
talvez.

*

Tenho quatro anos, não posso ter mais.
De idade, quero dizer. Quatro anos. Sou o mais novo (muito mais novo) de sete. Morávamos no que a vida sempre foi: um rés-do-chão. Uma ocasião, a família de uma casita perto teve de deixar a avó sozinha em casa. A minha Irmã disse que ia lá dormir para a senhora não ficar sozinha aquela noite. Levou-me com ela, claro. Se eu tinha quatro, ela tinha vinte-quatro. A minha Irmã era – ainda é – a primeira dos sete. Eu era – ainda sou – o sete. Lá fomos. Ou melhor: ela foi, eu levei-me-dela. A casita era de agricultores. Adormeci sem memória, como só aos quatro anos. A minha Irmã trabalhava num escritório. Levantou-se cedo, aconchegou-me à garganta a fímbria do lençol, deixou recado, foi. Acordei ainda o galo não estava rouco. Dei por mim sem ela. Dei por mim sem ela numa casa que não era a nossa, numa cama que não repeti e numa alva que não volta. Foi o meu primeiro desespero. Cheguei-me à janela e esmurrei a vidraça. Foi o meu primeiro sangue.
Desde então, as vezes que tal me tem acontecido.

*

Sendo tão pouco o que queria,
nem sabia que queria o que não sabia.
Daí que não cria.
Daí que nem queria nem quis.
Nem cri.
Nem fui, ou serei, feliz.

*

Quando às árvores comparo a minha vida,
as casas abandonadas mais tristes cotejam
– e parecem – seus exilados mortos.

Dito de outra talvez mais sensata maneira:
o pessoal morre, não deixa herdeiros,
as casas ficam por ali enquanto o município
não.