Thursday, June 30, 2011

fragmento de repente

Já agora à sombra exerço
o remanso que meu Pai usava
quando era lindo e vivo e branco
e a vida a viver se acostumava.

Rosário Breve n.º 213 - in O RIBATEJO de 30 de Junho de 2011 - www.oribatejo.pt


Dito com os nervos

Só num país miserável é que um centro de saúde obriga os respectivos utentes a medirem a tensão na farmácia mais próxima, digo-o eu com os nervos.
Só um país infecto é que obriga um ex-primeiro-ministro a ir de fax estudar filosofia em “francês técnico” para Paris-de-França.
Só um país vazio é que dá tanta atenção a um acidente de automóvel tripulado por “celebridades” vácuas.
Só um país irresponsável é que tem no calendário uma época de incêndios tão certinha como a morte e os impostos.
Só um país bovino muda de ortografia como quem não muda de preservativo.
Só um país com 860 quilómetros de costa mata as pescas, Aníbal.
Só um país com tanta terra e tanto sol aniquila a reforma agrária, Barreto.
Só um país sem uma pinga de sangue nas fuças admite que a família do derradeiro director da PIDE possa processar um teatro e gente de bem por causa de uma peça que relembra os crimes torcionários da polícia política criada por esse morcego eunuco que se chamou Salazar.
Só um país sem cuecas nem parte da frente se abstém de tudo o que não seja o emprego da sobrinha, a cunha da cunhada, a fuga ao fisco, a escolaridade sem esforço, o empenho do anel, o garrote do dedo, a mariquice a tiracolo e a mãe que o teve atrás de uma moita.
Só um país inimputável é que aceita esperar 15483940593847 dias por uma cirurgia que tantas vezes significa essa desprezível diferença entre a vida e a morte.
Só um país irreciclável é que tem de trocar tampinhas de garrafas de plástico por cadeiras-de-rodas.
Só um país sem lei nem moral nem ética nem toga nem nada é que não investiga, não esclarece e não pune uma corja de candidatozecos de dentro a juízes de fora que copiançam à fartazana em testes “amaricanos” tipo nóvóportunidades.
Tenho por isso, Zé, de te dedicar em bom francês este fecho de crónica: Je ne crois pas du tout, mon petit rien, que tu sois capable d’entendre l’acceptable minimum d’un Althusser, d’un Greimas, d’un Foucault, d’un Camus, d’un Kierkegaard, d’un Schopenhauer, d’un Nietzsche, d’un Marx ou même d’un Tony Carreira version camembert tipo serra-da-estrela. Sais-tu pourquoi, pá ?
Parce que, la-haut, à Paris, on n’achève jamais des cours au dimanche, que é como quem diz ao domingo.

Wednesday, June 29, 2011

Rosário de Isabel e Dinis - 8 -


8. UM EXACTO MÊS DEPOIS DELA

Leiria, Pombal, Coimbra, domingo, 3 de Abril de 2011

E num ápice-fósforo deflagro a ignição da manhã, breve o fugaz lume-gás que, não tarda, tarde se faz.

*

Tarde, pois. Domingo. Ainda em Leiria. Sol. Um favónio fresco. Lentidão provincial e vazio provinciano. Meia dúzia de carros, uma quase vintena de pessoas adultas, algumas crianças liofilizadas: uma espécie de apagão existencial em forma de bocejo. Nada, enfim, exclusivo da Cidade do Lis – Coimbra e quejandos burgos (não mestres) hão-de, por estas horas paraplégicas, estar pelo mesmo. Eu até gosto, porém. Agrada-me esta imitação da paz a que a patrícia parvónia se dá. Domingo, não se pensa tanto nos bandalhos desgovernantes, no pauperismo (a)moral das instituições, na tábua-rasa da prosperidade, na porca da corrupção. Não se pensa tanto? Pois – nem sequer se pensa. Sente-se o favónio, a branda brisa que suaviza a Maria-Elisa-amailo-seu-António, a ampla tenda solar reinaugurando o arrebol de corninhos-ao-sol.

*

O Tempo das estações ferroviárias: a Ele volto vezes sem conta. É totalmente humano – porque, como todos nós, é capaz do vazio. Cronometrado à microbiologia do instante, cheio de seu mesmo vácuo, Ele regurgita a mulata que lê em voz média-alta ao filho a revista que traz o Cristiano Ronaldo; Ele empareda os restantes corpos expectantes na volumetria transparente do glacial vento da noite de Abril; Ele não perdoa, como não condena. Mas conta.

*

Ou o Tempo dos cafés noct’endomingueiros: essoutro vazio: a jornada da semana que acaba mal começou, à Lua Velha. Substância das primeiras moscas da Primavera, resistentes ao frio e negro-ametistas-artistas-ameríndios. Eu num café desses, um destes domingos, um destes finados domingos de anunciação nenhuma e nenhuma epifania. Já a passagem da meia-noite trai a datação deste-capítulo-deste-caderno-deste-livro. Não faz mal.
A canasta jogada a um canto por dois parceiros operários de aldeias circunvizinhas. Rapazes fumando sob um cedro imponente. Delicadezas violáceas subindo fumaças lilases no vidro-gelo de já-abril, um exacto mês depois da minha Mãe.

Rosário de Isabel e Dinis - 5 - Coimbra, terça-feira, 22 de Março de 2011 (conclusão)



Renasço eu agora depois de me teres sido.
Estou na Cidade, não sei quanto demoro ainda.
Aprecio dos cafés a higiene física e as fábulas mentais.
Ando por aí, como sabes, eterno neófito.

Lavoisier e Madame Curie vigiam as matérias,
Telémaco e Sancho cultivam cães os mais fiéis.
Comigo nem sempre são, as coisas, sérias:
acontece muito aos daniéis.

*

Os pobres que não são de Veneza vêem Veneza
pelo televisor da Associação, domingo à noite.
Sentem-se gondolamente felizes: mas d’água,
olha!, os chapéus dos barqueiros, olha!,
que bonito é cear-se frango frito!

*

Penso para a frente o dia.
O dia também me pensa, mas um pouco menos
do que eu nele – como acontece aos pares
de assimétricos amor & dedicação.

Saturday, June 25, 2011

Rosário Breve n.º 212- in www.oribatejo.pt - 23 de Junho de 2011

Ao que chegámos


Chega-se por vezes a uma mulher como ao fim de um dia de Verão. Emoldura-se-lhe o rosto com ambas as mãos, agradece-se-lhe o ter ela nascido-nos. Não longe, uma fonte acetina de som a respiração das árvores, crianças lápiscoloram pátios, um avião a jacto traça o giz altíssimo do crepús-azul-culo, um viúvo à varanda pensa na mulher a que pertenceu como um fim de dia, um fim de Verão.
Dos nossos filhos chega-nos por vezes o telegrama de um mimo, uma película-diamante de amante-água-de-olhos, um recado feliz como uma concertina, um pássaro molhado horizontalando a chuva, uma hora na praia, um fruto encarnado em mesa atoalhada a branco.
Um cão (um simples cão) chega a ser retrato da galeria familiar, companheiro fidelíssimo do nosso coração ambulatório e da nossa emigração mental: e desse cão os olhos ambarinos humanizando-nos as passadas com que todos os dias viassacramos o périplo venerando de Nossa Senhora da Solidão.
Quantas vindas uma vida é? E quantas idas? No remanso finalmente sereno da jornada, engendro esta música em sonoro azulejo: porque só o amor pode salvar um homem do descalabro de estar vivo sem uma mulher, um cão, um filho ou um Verão.
O resto conta muito pouco e quase nada: a fealdade autista dos desgovernantes, a idiotia seguidista dos acólitos, a superstição institucional e acarneirante das religiões (todas elas), a aguadilha maninha de tanto assessor-ascensor, as discursatas moralizantes dos rapa-o-tacho, as dívidas colossais dos anões camarários, os poluidores dos rios e a RTP.
Na antemão de a mão (re)pousar o lápis, o que é isto, o que é isto? É um rumor de fonte, um alarido álacre e colorido de crianças em pátio, a respiração abnegada da nossa de cada um mulher – e um cão só nosso, por uma hora só nossa, numa praia que é de todos, sob o giz-a-jacto do derradeiro azul, do derradeiro Verão.

Friday, June 17, 2011

Thursday, June 16, 2011

Rosário Breve n.º 211 - in O RIBATEJO de 2de Junho de 2011 - www.oribatejo.pt




Palavras (pouco, nada) loucas

Trago hoje à colação um livro intitulado “Palavras Loucas”. Autor: Alberto de Oliveira. Que sejam eles, Autor e livro, a apresentar-se:
1- “Viu em seguida que a sua terra não era composta de maus, mas de ignorantes passivos.”
2- “Viu que os cavadores morrem na inconsciência absoluta de quem é o culpado da sua miséria; e que a corrupção de alguns, em vez de se fundar na corrupção de todos, se afunda apenas na ignorância de todos. É como uma casa onde há ladrões, mas não se dá por eles.”
3- “(…) neste ciclo humilhante e miserável para Portugal, de crise sem grandeza, de fome sem tragédia, de agonia sem desespero, pois toda a gente se deixa escorregar no pântano sem gritar alto a sua miséria, sem tomar atitudes que, ao menos, se lhe não salvarem a vida, lhe salvem a memória.”
4- “(…) tédios, fraquezas de ânimo, prenúncios de emigração, fomes no Douro, ruas de Lisboa cheias de mendigos, uma raça que apodrece, um povo de marinheiros idealistas que tropeçou ao dar com terra firme.”
5- “Somos um povo místico e supersticioso, atacado de febre das grandezas, e dela morrendo, como um poeta doido, vestido de sedas velhas no meio de um presépio de cabras.”
E:
6- “Nascer inteligente é má estrela, meu amigo – a não ser quando se nasce também mau.”
Pronto. Seis (ex)citações bastam. No rodapé desta crónica, lá no fundo mais fundo desta página terminal, ao meu leitor darei algo mais (e definitivo) sobre este livro. Entretanto, esclareço, claro-clarinho, que considero muito mais fácil superar a crise do que encontrar um polícia em Abrantes; ou um médico de família em Alpiarça; ou um republicano em Salvaterra de Magos.
Crise? Começou em 1143, este nacional túnel (ou túmulo, para cúmulo) sem luz nem ao cabo nem ao rabo. Somos o povoléu das sardinhas municipais e dos endividamentos assados. Nascemos mal, vivemos bonzinhos e morremos pior: não porque o queiramos mas porque nem querer sabemos.
Rodapé? Este: o ano da primeira edição de“Palavras Loucas”  é 1894. Sim, século XIX ainda. Basta, todavia, deslocar o “I” do centro para o cabo (e o rabo) do “XX” para dar “XXI”.
E todos sabemos que este nosso XXI é um 31.


Wednesday, June 15, 2011

Monday, June 13, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 5 (fragmento 5) - Coimbra, terça-feira, 22 de Março de 2011


© Garry Winogrand – Untitled – 1950s

Dizem que a primeira máquina de costura era toda
em madeira, agulha incluída: como a minha vida
que (se) foi, querida, afeição minha tão alta.
Salvam-me de freiras & santorros estas opiáceas
sabedorias – mas ele há dias
em que Deus me faz (ou marca) falta.


Às dez e vinte cinco de terça-feira, 22 de Março,
exerço sem encomendado fervor a posologia
da minha ambulatória e sedentária melancolia.
Um clarão de madressilvas mentais filma-me o olhar.
Pessoas de idade avançada avançam cada dia
mais devagar, mais devagar.

E eu, eu penso em ti – e em ti; e em ti; e
sem ti; e além de ti.
As mulheres da minha vida tomam chá num salão
para trezentas pessoas, portanto doze tiveram
de ficar à porta.
Tenho mudado de tálamos e de cidades como

se de camisas.
Mas depois do que hei sido me renascerás,
que muito primei por acontecido bom rapaz.
Não sou já um menino, mas meu mesmo destino.
Andei na escola, joguei à bola – e tive paz
até às 10h30m de 23 de Maio de 1986.

Aconteceu-me: fodeu-me a morte de um irmão.
E desde então que me sabe a pedra o pão.
Escrevo versos que quisera mais amnésicos que analgésicos.
Mas já sei que a mão que escreve
a pensar antes da cabeça se atreve.
E nem pensa que me deve alma, tinta e coração.

Sunday, June 12, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 5 (fragmento 4) - Coimbra, terça-feira, 22 de Março de 2011




Será depois do que fui que me renascerás
em alguma frase corrida pelo vento de Maio,
sob a tília maior da praça por onde
os divorciados atrelam cães tristonhos contranatura.
Nenhuma igreja me dobrará cavernosos bronzes,
pois que me perdi de Deus nas pregas
da cultura geral e nos entrefolhos da poesia.


ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 5 (fragmento 3) - Coimbra, terça-feira, 22 de Março de 2011



Como ser saudável é não pensar na saúde, ser feliz é merecer sem saber, e sem querer saber, que coisa, a felicidade, seja essa.
Penso isto devagar na manhã quase ociosa, viciosa de se viver.
Eu devo ser saudável, pois que estou vivo.
Deveria fazer por não pensar nisso.
Mas as sinapses juntam as cerejas que querem, uma pessoa sujeita-se a ser cesto.
Deixo andar: o meu único dogmatismo é a demanda da Beleza.
Sinto-a desde sempre, à Beleza, como uma construtora de pessoas.
Após o coito patermaternal, é à Beleza que (muitos de nós, não todos) devemos o renascimento e a recomposição diários.
Um pouco de gramática, um pouco de música, um pouco de matemática, algo de arquitectura, um roçar bancas de fruta pelas calçadas infestadas de costureirinhas diligentes e rápidos carteiros: Beleza, Beleza, Beleza, Beleza, Beleza.
(E também não pensá-la, mas recebê-la, à Beleza – em beleza.)

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 5 (fragmento 2) - Coimbra, terça-feira, 22 de Março de 2011

Um debrum de mágoa orla o coração
apesar da magna manhã solar primaveril.
Uma mágoa mais, mais uma anunciação,
uma que outra iguais a mais mil.

Saturday, June 11, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 5 (fragmento 1) - Coimbra, terça-feira, 22 de Março de 2011


© FJ , s/título
Serra dos Candeeiros, Agosto de 2009

5. ADORMECI MUITO TARDE, ACORDEI MUITO CEDO

Coimbra, terça-feira, 22 de Março de 2011

Adormeci muito tarde, acordei muito cedo hoje. A minha vida (ou o conjunto dela) tem sido exactamente ao contrário: adormeci cedo e acordei tarde. Talvez não de mais – mas tarde.
Acordando, resgatei-me de um pesadelo cujo enredo envolvia uma figura que repilo inexoravelmente. Fui beneficiado por um esquisso de texto que aproveitei para a próxima crónica nO Ribatejo (a sair sexta que vem, 25 de Março de 2011). Qualquer coisa assim:
               


(…) quando preciso de deuses, vou ver os arvoredos; quando preciso de deusas, vou ver as aves. Mas depois vou mas é a um bar, amando uns copos para a guelra e o fervor oratório passa-me logo. A crise não passa, mas para mim, por instantes e decilitros, passa.


Não é mau de todo: perder-me de um pesadelo para renascer bucólico e pagão. Ou alcoólico e cagão – sei lá.

Thursday, June 09, 2011

Rosário Breve n.º 210 - O RIBATEJO - 9 de Junho de 2011 - in www.oribatejo.pt


Pepinada

Depois das vacas loucas, das galinhas com nitrofurano na corneta e dos porcos engripados, eis-nos perante mais uma comédia irresponsável: a dos pepinos espanhóis que afinal são rebentos de soja alemães.
O cagaço colectivo no seio desse po(l)vo estranho que dá pelo nome de “União Europeia” dá-se às mil maravilhas no húmus do obscurantismo. O consumidor médio, desinformado, susceptível e vulnerável, ingressa logo na pepinada e embarca sem pensar na histeria euromentirosa.
Tenho algumas coisas a dizer sobre isto. Uma: vacas loucas, sempre as houve – basta ir a uma casa-de-alterne. Outra: galinhas estúpidas também – basta verificar o número de abstencionistas nas passadas eleições legislativas. Estoutra: porcos ranhosos é redundância – basta apreciar os barões e os tubarões dos famigerados “mercados” financeiros internacionais.
Agora, quem não tem culpa é o desgraçado do produtor do fálico pepino e do testicular tomate. A irresponsabilidade dos arautos da bactéria atinge foros de criminalidade. Sensacionalismos deste calibre podem servir para aumentar a publicidade no intervalo dos telejornais, mas a mim não me convencem nem um bocadinho.
Eu sei por que motivo esta historieta pepineira veio ao de cima: é porque o futebol está de férias. Como é preciso manter-nos bovinizados, nada como uma manhosa conspiração multi-sanitária à escala teutónica.
Quando é que chega o dia em que os vulgares produtores e os ordinários consumidores deixarão de ser encarados como cifras FMÍsticas ou como larvas acéfalas tão facilmente esmagáveis pelo Banco Central Europeu?
Quando é que voltamos a ser pessoas? Não somos fungos. Não somos nódoas. Não somos caracóis. Não somos fardos de palha. Somos os que vieram depois das duas guerras mundiais. Somos os tolinhos da “democracia”. E seremos nada enquanto não quisermos ser tudo.
É por isso que sei muito bem, mas não digo, em que sítio do corpo é que lhes mandava meter o pepino.

Wednesday, June 08, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4. DIÁRIO DE UM DIA (fragmento 19 - CONCLUSÃO) - Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011

Recordo da infância os elefantes enciclopédicos p’los campos de couves da portugalidade nada tropical de Portugal.
As mercearias vigoravam.
Era bonito receber estrangeiros, tartamudear francês para anglófonos holandeses que vinham ao peixe frito, à curiosidade antropológica dos estéreis filhos do salazar estéril.
A vida como seminário sem latim (ou mim) contemplação.
A vida que nos não contemplava.
Agora as estações-de-serviço eram bombas.
E as bombas explodiam nos taunus, nos capris, nos fiats-650, nos austins-850, nos vóquessóles.
Era a infância, era não ter nada para recordar senão nos sonhos.
Na infância, recordei em sonhos isto:
um homem de quase 50 anos,
recordando num caderno
o futuro de ontem.
Posso garantir-te,
como tu aliás já me garantiste,
que isto é quase nada – e apenas triste.

*
Fechar-me em casa, deixar crescer as unhas, a barba.
Ter casa, ter um fecho, ter saída.
Ter uma vida, ser um homem dentro da noz.
Mudar de óculos, de barba, de baba, de voz.
E de vós.

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4. DIÁRIO DE UM DIA (fragmento 18) - Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011

O vento venha que a pele receba em fresco.
Uma coisa epidérmica de ver barcos, algo assim.
Uma rima gráfica na retina, uma matina,
um limoeiro chovido por mim.

Saudades Dela.
(Falo da Mãe, cada um com assuaminha.)
Pôs-se a manhã mui amarela,
mui azul pela noitinha.

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4. DIÁRIO DE UM DIA (fragmento 17) - Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011

Se de um dos cantos da minha boca florir de repente um tumor de gerânios,
far-me-ás o favor de não pensar em sexo
mas em ternura a mais cristalina,
menina.

Pertenço à obrigatoriedade fiscal do coração.
Este é o meu livro novo antigo, a via latina
que posso.
Não posso ou peço mais do que esta/isto.
O resto será trabalho do Mefisto – ou
coisa tal.

Nasci em Portugal.
Certa ocasião (já os Beatles trabalhavam no duro),
o futuro começou a acontecer-me qual
metástase do dito Portugal.
Havia vacanças no Verão,
margarina, sal e pão,
a Mãe era então viva, movia-se:
e no resto da família vivia-se
como se nada nem ninguém fosse morrer.
Ora, o que tinha de acontecer,
digo,
era isto: sobreviver.
Para futuro, é duro,
meu amigo.

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4. DIÁRIO DE UM DIA (fragmento 16) - Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011

A minha Mãe tinha nada
Nada tinha o meu Pai
Sai da história desgarrada
A balada que aqui sai

Ele era mais da tristeza
Ela à mesa quanto tinha
Era honra de princesa
De princesa pobrezinha

Havia umas laranjeiras
Mas do pátio da vizinha
Há coisas que são certeiras
Como ela que foi minha

Ele nunca foi à tropa
Coxeava, era elegante
Ela sempre foi cachopa
E mulher mas adiante

Vieram filhos, vieram
E vieram para estar
Que o ser que sempre foram
Vieram daquele par

Hoje a gente assenta a campa
De tal duplo casamento
A vida é um momento
Que ao nascer se adianta

Nisto dizemos também
No soluço de um ai:
Obrigado, nossa Mãe
Obrigado, nosso Pai.

Tuesday, June 07, 2011

Rosário de Isabel e Dinis seguido de Outras Florações por Escrito - 43


43. ROSA PÉRFIDA

Coimbra, sábado, 4 de Junho de 2011



A depressão é quando o passado se põe todo a cheirar a futuro como uma rosa pérfida.
A alegria é quando o vento entra casa adentro sem ser preciso abrir a janela.
A tristeza é ríspida.
A alegria é rápida.

Thursday, June 02, 2011

Rosário Breve n.º 209 - in O RIBATEJO de 2de Junho de 2011 - www.oribatejo.pt


Vejam bem

Aos 47 anos, não era para admirar: a minha optometrista demonstrou-me que os meus olhos padecem de hipermetropia e presbiopia. O olho esquerdo acumula estas moléstias com um assinalável véu astigmático. Quer dizer que troquei os óculos de leitura por umas cangalhas de lentes progressivas para o resto da vida. Sou, portanto, hipermétrope, presbita e astigmata. Paciência: a idade e as fadigas deram-me as duvidosas mas indubitáveis prendas do “olho curto”, da ovalação da córnea e da formação de imagens atrás da retina.
Quero porém deixar claramente expresso, sem pretender dar nas vistas, que nada disto me impede de ver com toda a nitidez que Sócrates nunca prestou nem presta, que Passos Coelho não presta nem nunca prestará e que Paulo Portas foi, é e será imprestável. Não há desfoque físico que me impeça de ver tudo isto com a mais cristalina, reverberante, nívea, luminosa e iluminada clareza.
Podem ser turvas as minhas escleróticas, pupilas e córneas; pode o meu humor aquoso ter conhecido dias bem mais solares; pode qualquer das minhas íris nunca mais irisar com olhos de ver; pode o humor vítreo estar estilhaçado como nunca; pode o nervo óptico andar mais nervoso do que vidente; pode o cristalino achar-se, até por melancolia, mais turvo do se calhar merecia; podem a retina e a coróideia ter chegado a este ponto algo torpe da insuficiência de acomodação tão própria dos presbitas. Podem, podem.
O que não podem é impedir-me de continuar a ter os olhos abertos. Eles estarão cansados, tristes e a funcionar mal no mundo das volumetrias luminoplastas. Eles, os olhos, estão. A vista está. Mas a visão, não. Olho com dificuldade, mas vejo perfeitamente.
E o que perfeitamente vejo é que Sócrates nunca prestou nem presta, que Passos Coelho não presta nem nunca prestará e que Paulo Portas foi, é e será imprestável. Dia 5 de Junho, na posse dos meus óculos novos, não terei qualquer dificuldade em ver de onde venho e para onde quero ir. Os meus leitores verão, naturalmente, o que quiserem ver. Porque ver é ser, não é olhar para o lado.
O mais que recomendo é que, em vez de vistas curtas, se lembrem da canção que dá nome a esta crónica. Porque “não há só gaivotas (ou milhafres) em terra / quando um homem se põe a pensar”.

Wednesday, June 01, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4. DIÁRIO DE UM DIA (fragmento 15) - Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011

A minha sombra é a factura da luz que gastei sem ti – e sem mim perto, perigosa, rosa, luminosa
mente
perto.

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4. DIÁRIO DE UM DIA (fragmento 14) - Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011




Que as púrpuras me arroxeiem venosamente.
Veneno me seja a lilás-língua.
Que não mais, ou tanto, eu viva à míngua
entre o demais povo, a demais gente.

Que um florentino me troque rupias.
Que um veneziano sedas me troque
por de coração filigranas, tal que a sorte
milhões me não dê, mas melhores dias.

Que felizes sejam os meus amigos,
perdoados por idem os meus castigos
de culpas que infante hei cometido.

(Ouvi dizer, ali na pastelaria,
aquela a que acorro ao nascer do dia,
que o cancro não vem sem uso de Deus:
diz que cada um tem os seus…)

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4. DIÁRIO DE UM DIA (fragmento 13) - Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011



Viste tu alguma vez um cavalo à chuva
num pasto sem homens?
Se sim, viste-me.

Viste tu alguma vez à chuva um cavalo nu?
Se sim, veste-me

tu,
leva-me a passear aos domingos do resto do coreto da vida,
faça-chuva-faça-sol,
égua minha.

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4. DIÁRIO DE UM DIA (fragmento 12) - Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011

E então, sem aviso, a Beleza doma-me: porque me dama: lance de luz oblitera águas-passadas-sob-pontes, todo eu fervo de serena indignação ante a oxímora evidência da Luz ante a Existência: 21 de Março outra vez, Coimbra ainda – e este plano caleidoscópico dos pintores de Deus trabalhando as empenas da Tarde. Ai, que tanto Sol Azul! Ai quantas laranjeiras cegando a Pobreza-Ouro do viandante! Ai quanto Portugal em cada pedaço de lixo pelo chão! Ai que porra!

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4. DIÁRIO DE UM DIA (fragmento 11) - Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011




Acho graça a que chamem Dia da Árvore ao dia de hoje. Para mim, todos o são. Mais do que isso: todos os dias me são árvores. Eles ramificam todos. Todos eles ramifrutificam. Eles ramifrutipassarificam. Eles ramifrutipassarisombrificam. Acho graça.

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4. DIÁRIO DE UM DIA (fragmento 10) - Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011

Iremos juntos e ambos a comprar giletes frescas para a casa nova – e talos de alho-francês, manteiga, madalenas de molhar no chá à Proust, um tapete de anti-derrapagem para o polibã, algum vinho transmontano de áspera e madura condição, lápis em promoção quantidade-cêntimos, caras-de-bacalhau, uma capa amarelo-torrado para o sofá da sala-de-estar-e-finalmente-ser(mos), um sabão azul-e-branco, uma prenda para a Alda, um espremedor de citrinos, dois pares de atacadores para as sapatilhas dos nossos ociosos domingos enamorados, uma litografia de gladíolos e estrelícias, um corta-unhas niquelado sem ser dos chineses, a silhueta de um cavalo sonhado por ti na infância do teu Pai, uma embalagem de detergente de máquina para roupa clara (que a escura se nos acabou, finalmente), uma braçada de agrião, um queijo do Sul, um saco de sal, um frasco de café solúvel, uma decisão matrimonial insolúvel, um disco de música alemã como deve ser, spray para (ou contra) as moscas que assediam a carne exposta de tanto amor, uma noite com vocação de manhã, um papagaio vivo e roxo e coxo e intempestivo, uma lata de aguarrás para purificarmos os azulejos do painel que fixa comuns os nossos corações um do outro clonados, uma fotobiografia de Florentino Ariza e outra de Fermina Daza em volume uno-duplo, uma lata de sebo para as botas com que vou ao monte quando-não-estás-nem-voltas-tão-cedo-por-causa-do-teu-ex-marido-etc., uma lâmina de sílex para raspar as vilosidades-intersticiais-da-memória-dobrada-intestinais das minhas tantas ex-mulheres, uma pasta-medicinal-Couto para ver televisão com os dentes a preto-e-branco, qualquer loção alcalina prò-menino-e-prà-menina, um limão que a verd’amarelo substancie o mamilo e o coração, uma garrafa de bagaço para eu usar com as botas ensebadas de ir-ao-monte- quando-não-estás-nem-voltas-tão-cedo-por-causa-do-teu-ex-marido-etc., aquele disco do Frankie Miller chamado Full House (aquele da canção Be Good to Yourself), uma data de pombos e uma lata de lombos de cavala e outra de pêssegos-Steinbeck da Grande Depressão, uma outra garrafa de bagaço para quando eu precisar da exumação dos meus mortos pessoais sempre que estiver sozinho mesmo contigo dentro de mim, uma lata de dez cigarrilhas para não comprarmos cigarros, uma pagela do Padre Cruz para que as velas saibam arder de cor, um baralho de cartas para adivinhar o passado, sementes douradas para o papagaio, um gato-criança para brincar com as cascas das sementes no chão e com a inquietação do papagaio lá em cima, dois anéis de ouro-branco para uma aliança-de-ouro-antigo(a), uma sombra-chinesa-a-vermelh’ópio, um frasco de espargos muito brancos, um postal da Brazileira-do-Chiado-em-Pessoa, uma folha A3 em branco para eu deixar por escrito em branco a propósito do que vivi sem ti, um fotograma rapidíssimo de gardénias para a Virginia Woolf a caminho do rio com os bolsos cheios de pedras, a liquidez (a liquidação) definitiva dos olhos do cavalo (qualquer, todo o cavalo), os campos provinciais da Inglaterra que já não/nunca mais/haverá, um clarão da solidão norueguesa, o prato azul da minha infância (vermelho, o do Fernando; o amarelo, o do Jorge; verde, o do Rui), os nossos Pais no Limbo, uma escova branca para os meus dentes terminais na tua/nossa casa inicial, uma latita de anchovas anti-cardíaca, a impressão digital do teu olhar na minha alma, o sortiflorilégio inca com que sacrificaremos o passado lunar ao futuro mais heliocêntrico, uma lata redonda das grandes de cavalinhas, uma cartilagem de beluga para o papagaio mordiscar nos intervalos dos ataques do gato, um manual de primeiros-socorros para extremas-unções, uma quarta de papel de manteiga para apontamento do dominó dos reformados assócio-recreativos, amoniacal para os mosaicos higiénicos, uma luva rugosa para espalhamento do reino epidérmico-lipídico do duche, uma barra de chocolate fibroso, para mim uma coisa daquelas de cola-gengivo-protésico-dental, para ti uma assinatura de duas rosas vermelhas e diárias entregues em casa via portador motorizado (nossa-casa-nossas-rosas), um frango-do-campo, um tetrapak de vinho-branco-de-cozinha-que-em-tempos-mais-precários-até-a-champanhe-sabe, uma romã abridora de rubis ourive-relojoeiros, um cardápio de trevas primevas recontadas no intervalo dos coitos sorridos gota-a-gota, o pico do Evereste em dêvêdê sem legendas em brasilês, as costas rebrilhante-negro-lucilantes de uma carocha disfarçada de corvo rasteiro, outra garrafa de bagaço ainda para quando eu etc., uma frase dita à hora de pagar à senhora-caixa relativa a quando eu não era ainda este cão batido pela chuva – e o meu receio único de nos termos esquecido de alguma coisa: ou de alguém.
(Sabes tão bem quanto eu que o esquecimento não se compra: mas paga-se, Isabel.)

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4. DIÁRIO DE UM DIA (fragmento 9) - Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011

Não chegarei já a Rennes nem a Cannes.
Fico por aqui uns anos (quantos?) mais.
Libelularei meus particulares charcos quietos
(que ele há muitos pelos meus portugais).

Não chegarei já a Toulouse nem a Brest.
Etc.

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4. DIÁRIO DE UM DIA (fragmento 8) - Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011

Uma mulher horrível, esta que acaba de entrar no Café até ora quieto e calado. É de teor raivoso, a tristeza-queixinhas dela: o malandro do marido, as malandras das filhas divorciadas e recasadas e amantizadas, os coitadinhos dos netos de avulsa e múltipla semente masculina. E todo o Café tem de saber o que / o quanto ela sofre, ela, a faneca oratória, mil raios caíssem que a partissem.