Tuesday, May 31, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4. DIÁRIO DE UM DIA (fragmento 7) - Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011





W. Eugene Smith
The Walk to Paradise Garden
1946
© The Heirs of W. Eugene Smith


Vejo daqui dois meninos.
Devassam o Tempo sem a menor hesitação.
Donos inscientes de seus mesmos destinos,
são,
da humana flora,
a mais límpida floração.
Que bonitos são!
Que formosos humanamente!
Princípio ambos da demais gente
que com eles partilha a condição.

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4. DIÁRIO DE UM DIA (fragmento 6) - Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011

Vejo daqui dois meninos.
Devassam o Tempo sem a menor hesitação.
Donos inscientes de seus mesmo destinos,
são,
da humana flora a mais límpida floração.
Que bonitos são!
Que formosos humanamente.
Princípio ambos da demais gente
que com eles partilha a condição.

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4. DIÁRIO DE UM DIA (fragmento 5) - Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011

Somos ausências mais e mais presentes.
Somos presenças mais e mais ausentes.

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4. DIÁRIO DE UM DIA (fragmentos 2, 3 e 4) - Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011


A um canto do salão, mulheres tomam café pós-almoço: chilreiam graçolas muito feminis: quase parecem felizes. São empregadas de limpeza, caixas de hipermercado, costureiras, ajudantes de copa.
Ao outro canto, reformados batem o marfim do dominó. Intervalam as partidas com copinhos de ginja e/ou de anis. São clones uns dos outros. Não parecem felizes nem tristes: parecem(-me), sim, almanaques borda d’água: ou árvores decrescentes.

*

Meto caminho às pernas, o sol incendeia-me os arrumos traseiros do corpo. (Produzo sombra, portanto, mesmo quando não escrevo.)

*

Panos frescos (as sombras; não a das pessoas, mas as que casas e arvoredo projectam pelos flancos da atenção corporal) apaziguam o viço solar do primeiro dia da Primavera. Depois do (pouco) trabalho do dia (uma segunda-feira), recolho-me a pensar-sentir por escrito o cenário mundial em versão conimbricense. Sinto falta Dela.

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 4 (fragmento 1)



4. DIÁRIO DE UM DIA
Coimbra, segunda-feira, 21 de Março de 2011
À criptografia do Inverno segue-se já a claridade (a clareza textual) da Primavera.
Não sobreviveu ao Inverno, a minha Mãe; a minha Mãe não conhecerá a Primavera (sempre nova) deste ano (e dos próximos).
Escrito isto, deponho a mão (a mãe) escritora no tampo (no tempo) da mesa – e espero.
O quê, não sei.
(Sei.)


Thursday, May 26, 2011

Rosário Breve n.º 208 in O RIBATEJO - 26 de Maio de 2011 - www.oribatejo.pt


Casar com a F(MI)rancelina e com a Ana DesGoverno



Há duas mulheres com quem eu me casaria ao mesmo tempo sem olhar para trás nem para a frente. São de Celorico de Basto, mas mesmo assim lograram a fama e o desproveito. Chamam-se Francelina R. e Ana Maria C. Foram condenadas em Santarém por dezenas de burlas e demais falcatruas feias, como aquela de drogarem a comida e a bebida a um velho amoroso da Ribeira de Santarém chamado Agostinho S.P.
E por que me casaria eu com estas duas aves não raras? Porque tal equivaleria a casar-me, de uma tiroleira assentada, com o desGoverno do “engenheiro” e com o FMI. Pois, tal como aquelas duas jeitosas, não praticam estas duas não respeitáveis nem respeitadas instituições não dezenas mas milhares de figurativas inoculações de benzodiazepinas económicas, financeiras, apocalípticas, manhosas, pró-amnésicas e o Diabo a quatro pintado a sete com zero à Esquerda e à Direita?
Ser casado com a Francelina e com a Ana Maria ou matrimoniado com os aparelhos clienteleiros desGoverno /FMI não me parece em nada – em absolutamente nada – diverso. É tudo uma questão de escalas e desproporções. Preferi-las-ia, porém, porque elas nunca fizeram ao emprego, ao ensino, à saúde, à justiça, à ortografia, à comunicação social, à moral, ao ambiente, ao poder local, à ferrovia, à rodovia, a Portugal e às muitas mais vias da vida individual e colectiva o que o “engenhoso” e o tenebroso Fundo (muito fundo) Monetário contranacional já fizeram, fazem e vão continuar a fazer.
No fundo (muito Fundo), amo-as. À Francelina e à Ana. Tenho a certeza, aliás, sobretudo nesta altura, de que Passos Coelho, esse paradoxal transmontano de Massamá, também as amaria, se o coração dele, à maneira de um tal Alberto Caeiro, as sentisse pensando.
Os nossos filhos (meus e da Francelina e da Ana Maria) só poderiam chamar-se Furto Miguel, Burla Vanessa, Droga Maria, Amnésia do Patrocínio, Roubo Micael e Zé S. Eu sei. Mas sempre haveria de ser um casamento melhor do que aquele que neste momento pratico, que é nenhum, à imagem triste e à triste semelhança do nosso futuro português, até que a morte (em vida) nos separe.

Wednesday, May 25, 2011

Rosário de Isabel e Dinis seguido de Outras Florações por Escrito - 7



7. MUITO BEM

Leiria, sexta-feira, 1, e sábado, 2 de Abril de 2011

Por alguns dias, como, durmo, amo e quase não escrevo ou leio. Vogo. Dias solares e noites justas. Uma espécie de tepidez psíquica – uma coloratura de emoções que roçam o impensável, isto é: a sensatez, a maturidade, a calma, o vamos-ver-e-fazer-por-isso.

*

Às 19h23m, um lento e perfeito entardenoitecer de Primavera. Árvores, amplas como vestidos de baile, ali em frente, amplas, amplas. Um talho, uma igreja. Uma frutaria, uma senhora carregada de laranjas como uma laranjeira ambulante.

*

Às 21h58m, a Noite é principesca. À varanda, na companhia de um cigarro. Faço por ostracizar as amarguras que entornam o coração e que, não raro, o tornam mau, capcioso, falível, retroactivo.

*

Vêm-se-me chegando os dias, as noites e os anos do recolhimento. Aceito-o. Desejo-o, aliás. Esta noite, é com Chopin: depois dos concertos números 1 e 2, um nocturno, dois estudos, dois scherzos, uma valsa e oito mazurcas. Bem, muito bem.

Rosário de Isabel e Dinis seguido de Outras Florações por Escrito - 6

 6. PARDAL DA FALA

Coimbra, segunda-feira, 28 de Março de 2011

Perdoa-me / doa-me o perdão
de ter esbanjado o coração
por esses pátios-mulheres
tão desabrigados nos anos
por ti volvidos e perdidos.

Isto é um poema de amor,
isto é um homem a dizê-lo:
e gardénias e montras de figurinos
e desenlaces-laços e destinos,
querida – isto é como a vida.

Doa-me, tal que me não doa,
o perdão: uma pessoa, sabes, erra,
um homem é um bicho da terra:
Sacavém, Abrantes, Amarante, Lisboa
– etc. O amor não existe,

refaz-se. Em tardes como hoje pluviais,
digo-te eu ainda um pouco mais:
uma latita de pasta de atum, uma broa
(Sacavém, Abrantes, Amarante, Lisboa),
perdoa-me, que me não doa o coração.

Do resto falamos quando a segunda metade de um
chegar finalmente a casa, a
que agora volto pela primeira vez.

*

Um dia de chuva por toda a Coimbra destes dias. As pessoas entarameladas de humidade como pardais da fala. Eu ante este fogão frio, finando-se com vagar este Março. Este Março (dia 3) da morte da minha Mãe. As horas fechadas como punhos: taquicardíacas, por assim dizer. Faço por pensar em prosa – mas é que a rosa me toma, licorosa : e então a craniana bola iço ao aço da chuva, que miro em guardado silêncio-imo. Olho a ganga dos cus das mulheres (elas fazem-nos o mesmo: é lirismo), emborco o teor do meu cálice, vou-aqui-vou-ali – e nem do sítio mental saio, que a vida não está nem para excursões nem para amendoeiras em flor.

Tuesday, May 24, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 36 (conclusão) - Leiria, segunda-feira, 23 de Maio de 2011




Continuo vivo na antemão dos comboios.
Galerias lavadas por mulheres estrangeiras existem à flor das catacumbas de superfície da Cidade.
Olho os já raros campos lavrados por preciosos animais: homens, éguas, mulheres, bois, ferros, organismos do pranto gerando plantas e mais preciosos animais (nem menos).
Olho muito, envelhecer permitiu-me essa arte mais interior do que (se) pensa.
Vi a montanha, vi o ribeiro: recebi o ribeiro, recebi a montanha.
Haustos profundos invernam-me os sonhos desamparados de cada noite, faz hoje precisamente 25 anos que o meu Irmão morreu, eu continuo vivo, na antemão.
*
Também é verdade que acabei por razoavelmente desplanificar os veios principais e principescos da minha quotidianeidade. Fui por esses ramais, colhi a flor do absinto – e sinto muito se alguém deixei (o)fendido à passagem. Nada disto, como a Poesia, tem deveras importância. Em tabernas-chão-de-tremoço, pratiquei a quadra, a sextilha e a melancolia. Saindo, mirei as esquadrilhas-rolas, asas-de-Portugal no céu-Internacional. E de cada vez que de mim conta não dei nem fiz, fui quase-quase feliz.
*
Um trabalho que eu pudesse subjugar,
uma orla marítima anisada pelo suão,
uma rede secreta de funchos e espargos,
uma senhora de mansa ignição na noite,
um tempo de guarda de anjos iniciais,
uma raposa em chamas na infân-distância,
os nossos amores alfabetizando a indiferença,
a sintaxe do gelo lida pelo sol-da-meia-noite,
Shackleton, Peary, Magalhães e o da Gama,
um homem como eu sozinho na cama,
uma explosão de andorinhas nas águas residuais do olhar,
um adro colonial sem remorsos nem consciência,
uma cerveja fria em ponto-morto,
falcatruas versilibristas como a presente
(a Vossas Excelências muito obrigadante),
um destino viário-(não vário)-diário,
um anoitecer-atacador para botim-memória,
uma bela amizade perfumando (o) nanismo,
uma mulher-porta-aviões contra o japão-indivíduo,
o sol tíbio desta segunda-feira inconsútil,
o espairecer lúdico de idos-amados olhos,
a trança da avó numa caixa de papelão
(por morte da Mãe guardadora dela filha),
a criança destinada ao trabalho do ócio.

Monday, May 23, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 36

36. RENITÊNCIA E VISCO
Leiria, segunda-feira, 23 de Maio de 2011

Cada um/a encontra-se só adentro sua cabeça. As idas vidas e as noites mal dormidas desencontram cada um/a da outredade desejada ninguém sabe já porquê, para quem. Como se os tantos dias perfizessem uma só noite. Ontem à noite, num largo de Leiria, dei por mim assimilando o orvalho de diamantes, digo: as casas iluminadas de olhos quadrados na noite, as pessoas encerradas nas casas, nas cabeças. Depois sonhei alguns filmes pouco aprazíveis com pessoas que já não prezo nem desprezo: fantasmas renitentes, apenas, larvas ainda no visco das sinapses, frutos mais da má digestão que da mágoa moral que subjaz a continuar vivo. Prefiro os patos fluviais e as pérolas verbais, as caras de bacalhau e as brisas do entardenoitecer. Anestesiada a Revolução, o mais é assistir aos cinquentões praticando corridinhas-sapatilhas contra o cancro e outras más ideias de Deus, tais como o Uganda e a violência doméstica e a pedofilia de hierarquia católica. Estas coisas pensam-se sozinhas, chegam a não precisar de um/a para volver-se escrituras. E é terça-feira amanhã – como ontem também foi, nada a fazer, nem a temer, nem a desejar.  

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - entradas 34 e 35

34. LETRAS PARA MÚSICAS




Coimbra, terça-feira, 17 de Maio de 2011




Ínclita luz por um ar de trovoadas
abrange até os farrapos dos sonhos sós.
De natural maravilha, as ansiadas enseadas
fazem pandos arrais de todos nós.




Peculiar, grácil, até obsoleta quase,
trigueira, fria, a frágil fonte
mana das profundas que, na base,
se estendem ao sustento do horizonte.




Esmerado esmeril talha a pedra da hora,
o mais é ser vivo e ’star e nunca ir embora.




*
Os meus assuntos são quase neutros, indolores quase. Além dos homens e das mulheres, interessa-me sem doutoramento ali aquela oliveira de cabeleira de avó, acolá aquela casa vazia com ar de cão aguardando os donos.
Tenho lido pouco e olhado muito. As jornadas sobre-e-justa-põem-se em conformidade com a ampulheta mental: que da cabeça tomba ao coração, esmigalhada a areia da passagem.
Uma rola, uma pomba, um melro, um pardal: unidades do Todo-Um, trepidações surdas do Grande-Voo, factos plumitivos não estéreis, que por penas escrevem, escrevoando.
Os meus assuntos nem a mim dizem respeito quase: aguardo ao amado balcão a trovoada que a oriente se junta e adensa – e parece até que pensa.




*
Só é vã a vida, não a necessidade de pensá-la. Um chão de pó de tijolo, a bossa ornitológica do peito da mulher, a impermeabilidade da couve à chuva, o mercúrio rolante das feiras populares tão apensas à depressão, a fábrica abandonada, saqueada, roída e ruída, um frasco guardando para nada o xarope da Mãe ida, pés de crianças azuis filtrando uma piscina, bebedores em solilóquio balcões-a-frio-noites-a-fio, dálias gladiolando estreliciamente roseirismos, tudo isto certa tarde de incerta terça-feira, em Coimbra, pela certa.




*




Eu era das mulheres a vã criança grande,
não meus os aposentos, nem elas afinal.
Algumas tinham casas com quintal,
outras fenestravam-me, vã de




todas elas mais filho que homem.
Passou-se isto era eu mais jovem.
Ser-se marinho não é ser marinheiro.
Disse-m’ uma um dia: – Daniel Abrunheiro,




as lojas não vivem de versos,
os filhos não vivem de versos,
as fábricas não vivem de versos,
os amores não vivem de versos,
os cafés não vivem de versos,
os bichos não vivem de versos,
nem árvores nem flores vivem de versos,




: e aqui interrompi-lhe a lida
e disse-lhe assim: – Minha querida,
então não vivem.




Sou ainda a vã grande criança
que tão nada tem, Mãe,
quão a tudo alcança.




*




(O que procuro:)




Certos olhares que tornam azul o ser visto.
Certas cabeleiras em cascata de luz-sombra.
Esfarrapada cal de casas em colina-longe.
A sossegada ânsia do mar-a-sós.




(O que encontro:)




O nácar negro do palato do cão.
O limoeiro fazendo-se ferro ao frio.
A desactivada ferrovia para nenhures.
E um pacote de açúcar sem colher nem chávena.





*




(Uma música:)




Mancúspides selaminam ao ocaso
Ao acaso hemistíquios se corroem
Doem nas céspedes o grão e o azo
Muito concorre a morto o vivo homem.




Flamínias não deslevam o trazido
E toda se jacinta a impureza
O mal não é a morte é o ter vivido
De costas para a vida com certeza.




Os reflorões ourives marsupiam
Daustrálias in-remotas sem remédio
Então estão elas tristes e nem piam
E nem repiam se lhes dá o tédio.




Dancecafetaria-me qualquer dia
Rimbomba a pomba romba toda chumbo
O gumbo é fervido-ferveria
Cadeira executiva em nave-jumbo.




Silbertas lanceolam acidúricas
Té risca de filete alvasino
Tomai cuidado cuco do menino
Às vezes dão-m’ assomações fúricas.




Sem cospe não retorque alfa & geme
É estreme o saudosismo-pascoaes
De manhã é quando a mão-copo treme
Reteme leme-leme chovendo mais.




*




Talvez te não interesse agora-ou-já-ou-nunca o mural a fresco de quanto te concorro em tinta permanente. Acho isso perfeitamente natural: há que ser normal, moral e de Portugal.
Mancúspides selaminam etc.




*
Penso em acasalamentos fornidos pelas agências oficialíssimas de propaganda-tosquia-que-se-faz dia:




Rommel / Montgomery
Bush Pai / Bush Filho
Jorge / Mécia / de / Sena
Figueira da Foz / Buarcos
Lufapo / Estaco
Luftwaffe / RAF
Cesário / Pessanha
Sá Carneiro / Freitas do Amaral
Sá-Carneiro / Fernando Pessoa
Mãe / Pai
Atlético Clube de Portugal / Clube Oriental de Lisboa
França / Indochina
Bélgica / Congo
Scott / Amundsen
Gungunhana / Mouzinho
PedrInês
Rainha Santa & Vila Lemos.




*




(A mão da mãe do meu menino
em o seu menino pousa, lousa.)




*




(Ele chega ao quarto-casa, as coisas esperam dele o toque absorto, o nado-nada-vivo-morto.)




*




Acaba-se de si mesmo o dia-órbita,
já a leve-tule-brisa se cortina.
De si a vida é madeira & térmita,
que lhe juro que é – e é, menina.





35. F. DA M.




Adões (Coimbra), sábado, 21 de Maio de 2011




Aqui estou, cá perfeitamente sinto
a força pressurosa
(pressa, rosa)
das coisas.




Sinto-me-te.
Sabes, a mente dentro,
toda a noite.




Sou um homem sem Mãe.
Ninguém pode pelas ruas dizer-me
ou amar-me
ou chamar-me
filho da Mãe.

Thursday, May 19, 2011

Rosário Breve n.º 207 - in O RIBATEJO de 19 de Maio de 2011



Sobre uma boa notícia

Fui convidado, por ocasião do 30.º aniversário do 25 de Abril, a integrar uma antologia poética com que a Garça Editores quis assinalar a efeméride. A obra foi apresentada em vários pontos do País. Por boa sorte minha, calhou-me a sessão de Santarém. Por melhor sorte ainda, a apresentação decorreu no jardim daquela que, a partir do pretérito dia 17, é a Casa-Museu Passos Canavarro.
Foi numa tarde de sol. Recordo bem a ocasião, assim como não esqueço os rostos suaves e civilizados das pessoas circunstantes, a começar pelo anfitrião, Dr. Pedro Canavarro. Da Alcáçova, a luz e o ar incomparáveis da Lezíria chegam a ofuscar a efemeridade da vida. Agora (ver edição anterior deste jornal), aquela Casa fez-se Museu, isto é, tornou-se memória viva. Os benignos fantasmas de D. Afonso Henriques, de Passos Manuel e de Almeida Garrett por ali palpitam ainda em fosforescência histórica, política e literária. Gostei de saber.
Um povo sem memória é um povo sem futuro. Os acertos, as falhas, os factos, as utopias, as espadas e as penas do passado são outros tantos marcos paradigmáticos com que podemos (e devemos) balizar aquilo em que o presente constantemente se torna: o futuro. Ora, é com instituições como a Fundação Passos Canavarro – Arte, Ciência e Democracia que a dita “província” se alcandora sem pejo à dignidade memorial e à identidade venturosa de há tantos séculos.
Santarém e o Ribatejo são absolutamente incontornáveis na História de Portugal. Mas não apenas da História que colecciona e enumera pretéritos. A História é, ela própria, uma espécie de Grande Lezíria: compete-nos aproveitar a luz dela para ver em frente.
Vivemos tempos que consubstanciam a massificação da ignorância orgulhosa de si mesma, da idiotia intelectual promovida a insígnia do carreirismo. Exemplos como o da Casa-Museu Passos Canavarro são raridades que deveríamos apreciar pensativamente: e se a regra fosse isto, isto que Pedro Canavarro e a sua família, dando o que é particularmente seu por direito, tornam comum, aberto, democrático e filantrópico?
Hei-de lá voltar: e mesmo que esteja a chover, hei-de certamente reencontrar no jardim aquele sol de quando o 25 de Abril ainda fazia anos.


Tuesday, May 17, 2011

Rosário de Isabel e Dinis - entradas 33 (completa) e 32 (fragmentos)

33. ROLA

Leiria e Adões (Coimbra), segunda-feira, 16 de Maio de 2011

Uma rola num poste muito alto: olha o mundo em torno, o mundo cujo tamanho ela amplifica à dimensão do céu. Vejo-a levantar a parábola do voo, desaparece além do prédio amarelo. Tento não olhar o poste a partir de agora – porque o sei sem ela: como tantas vezes me tem acontecido.


32. POMBAS E ESMOLAS DA FALA COMUM  (fragmentos)

Coimbra, quinta-feira, 12 de Maio de 2011

Sabe-me a boca a fim de tarde,
a vital outono mortal que arde
no lugarejo Coimbra chamado.
Sequer estou virado a fado,
apenas tristonho e quase cansado:
a luz é porém toda, em ar de

ouro muito branco de casas e colinas,
à passagem de senhoras (antigas meninas)
pela do Brasil, Solum, Casa Branca,
o olhar sangra cor que nunca estanca
o primevo daltonismo das varinas

de outros tempos-instantes idos.
Andam por aqui os bem e os malparidos,
a minha terra de Maio, materlocal,
uma quinta-feira em Portugal,
sabe-me a boca a fins vividos.

*

O pão meu tempo: migalhas mentais,
do ouro dos trigais pálido imitador,
que o mais é pelo pátrio idioma
todo e só amor.

*

Da circunstancial senhora lembro o pé branco,
a boca gostadora de mariscos e malvasias.
Lembro-me de, numa praça, de um banco,
assistir ao essencial nada dos dias.

Do circunspecto cavalheiro peitoral ressalvo
o apuro comendador, o colarinho alvo
e do semblante o emblema de idiota formado.
(Há por Coimbra muito exemplo deste gado.)

*

Já recebi esmolas mas nunca as pedi.
A minha vida tem dias – e está, como
todas, por um fio sideral.
É o que faz ser pobre em Portugal.

*

É na fala comum
que o amor de dois
se faz só um.


Thursday, May 12, 2011

Rosário de Isabel e Dinis - 31


31. CALAMENTO

Coimbra, quarta-feira, 11 de Maio de 2011

Eu calei-me, eu disse nada.
Está onde a fonte da minha vida?
Nem tudo culpa a bebida,
que eu calei-me, eu disse nada.

É P'ACABAR, É P'ACABAR - FINAL DA ENTRADA 30 DE Rosário de Isabel e Dinis - Coimbra, segunda-feira, 9 de Maio de 2011

Se eu quisesse contar uma história, teria
de tê-la.
Tenho-a.
Não preciso de revivê-la.
Escrevê-la
é quanto me basta.
Esta:
era uma (outra) vez.

*

Era uma outra vez um homem de casaco verde ante uma catedral. Ele deu sementes a pombas, estava de costas no sonho de outro homem, aquilo parecia coisa com a qualidade-BBC, que é como os parolos de cá, por causa do Nicolau Breyner, chamam às coisas dos ingleses que estudaram em Oxbridge ou Camford. Era dessa vez. Eu não estava nem propriamente a dormir (coisa que já me aconteceu), nem propriamente acordado (coisa que nunca me aconteceu).

*

A pessoa só mora onde se demora:
isto é, na cabeça, coração chamada
pela figurativa atenção respiratória
aurículo-ventricular
de facto intitulada
lar – ou memória.  

*

A pessoa é criança sempre mas arma-se em velha desde que lhe não permitem ser adolescente – ou apenas pessoa: ou apenas gente.
Conheço todos os casos assim: e nem sequer estou a falar de mim, mas da comum humanidade que viceja e emurchece adentro as portas de qualquer aldeia e de qualquer cidade.
As mães vivem contra a morte, é certo, mas os pais vivem na própria morte mesma, na falta que vão fazer nos móveis de repente velhos, nos chinelos-de-quarto amolgados pelos joanetes invencíveis do ex-atleta de fábrica, pelo chapéu incompreensível dos casamentos, pelos suspensórios que já cervicais não sobem ao prumo da cabeça.
Mas também pode ser que, Leonor, uma criança em pessoa nos, Teresa, aconteça. E que então – e aí – nada mais seja (que sempre foi) ou apeteça.

*

O amor não físico entra por uma espécie
de espécie de vê de cortinas:
no meu caso, muito sol, muito adiante:
duas meninas.