Thursday, March 31, 2011

Ideário de Coimbra - 138


© Jacques-Henri Lartigue
My Hydroglider with Propeller
1904


138. DIFEREM OS MIASMAS DOS MOSTOS


Coimbra, terça-feira, 28 de Dezembro de 2010


I


Diferem os miasmas do Estio dos mostos da Invernia,
que o digo eu hoje, vivo, em mais um dia
olhado e molhado, aberta a garra da tarde fria.
É terça-feira – e, derredor, são lentos a fadiga e o suor


de quantos, sobrevivos, a lenha buscam do passamento.
O frio que faz, faz frio o Tempo, a tempo
da formal abstenção moral de juncos e canaviais,
automóveis, padarias e todas as coisas demais.


II


A esperança é uma pré-embalagem de felicidade,
este ano não gastei a que a 1 de Janeiro de 2010 me coube
em sorte – ou falta dela. Talvez 2011, se
lá chegar, me recompense um pouco, se


o mesmo 2011 chegar, não sei. Os agentes económicos
amargam hossanas ante os micros da têvê,
rigores superlativos se anunciam ao limiar
de imaginários nevões que a vida adulta conhece.


III


Esse tempo que cruzamos em ricto móvel,
do lado da colina humedecem-se as casas orientais,
as árvores singram a verticalidade possível,
as nossas mães não voltam, não dizem nada.


Um duplo plano de estrelas sagra as mãos da pessoa,
rege-se o vidro, o linho, a nomenclatura citrina.
Telefona-se em mor e prol da menina,
há sempre porém alguma coisa que é boa.

IV


Não sabem o que dizem nos flancos as carrinhas
de transporte de valores seguros, não sabem.
Fora dos apartamentos pasteurizados, os casamentos
equivalem molemente ao poder do Outono.


Não sabem. Valores seguros? Os crisântemos
acontecem roxovermelhamente em sagração,
os cães transportam, eles sim, no casaco do corpo-couro
a segurança possível, ter nascido, que é ir morrer.

V


Falo-te agora da brevidade permanente das lojas,
os sonhos das pessoas que à função pública não quiseram,
ou puderam, penetrar, desses rapazes que
optar tiveram entre literatura medieval e
técnica de electrocanalização, disso te falo, que
conheço os andros e os meandros da economia
destas ruas, que todas perfazem meunosso
País. Pê de pais e de país, pê de
Portugal,
cujas laranjeiras arrefecem a neve das
em flor amendoeiras à
excursão de pobres
morredouros
de pontesdentrerrios.
Falo-te agora de uma patrícia portugalidade
cuja derradeira acepção passa pela brevidade
sempiterna dos caixeiritos de ourivesaria,
dos aprendizes de alfaiataria morenos
e contumazes, breves todos e todos como
ninguém e nenhum, pois que todos
algum.
Se isto te trago à trama, confia
na simplicidade de métodos,
de métrica e de,
Portugal!,
tristeza.


O resto é pão e vinho sobre a mesa.


VI


Nótulas e bosquejos da história-pátria buscados
podem ser, antoniosergiamente embora, ou ainda, em
nossa contemporaneidade. Isto é tudo entre-
-rios: digo: interamnense tudo. Entre Tigre
e Eufrates: digo. Entre ontem e amanhã,
digo também. Ou tudo música, que escrever,
também, é atirar canções de tinta a
papel surdo-mudo. Entre Douro e Zêzere:
digo: e me não, ou nem, ouço.


VII


A elementar visão física das pessoas acontecendo
ou – ai-que-ontem-sendo –
faz-me um bem também elementar:
confirma-me a sociedade, os preçários,
os precários custos & tustos de quem resulta
do vago amor de casais
operários uns, vários outros,
gente tudo
e
tudo agente.
Duas raparigas no café, uma das quais
empregada de mesa dos senhores
que grelham peixe e fervem brócolos
contra a insensatez matricial do
leite-do-peito.
A outra, mais envile-envelhecida, ralha
café-de-cevada-e-meia-torrada-sem-manteiga
– e é pouco meiga.
(Ontem como hoje:
digo:
já disse.)


VIII


Cultivo a amizade como um hortelão de couves
sonha rosas.
As madrugadas são frias, as noites também,
os dias acontecem como ecrãs de plasma
pespegados à parede da tarde.
Mas o meu coração não arde, não,
senão de arritmia, que a falta
de juízo torna convulsa.


IX


Uma noite de vento, quanto eu amo
uma noite de vento.
E quanto sou amado por o vento
de uma noite?
Uma noite de vento é quanto peço
e passo.
E passo ao vento
de uma noite,
uma vida.
Tu não?
Não todos
assim?
Não todos assim
vento-entes?

Monday, March 28, 2011

Ideário de Coimbra - 141- Pombal, terça-feira, 4 de Janeiro de 2011

141. ROSÁRIOS ÓSSEOS E PRETÉRITOS FUTUROS

Pombal, terça-feira, 4 de Janeiro de 2011

Não me parece ilícito supor que vós viveis horas a certas minhas homólogas: dedadas de cinza em rosários ósseos, ou algo assim, que mais bem me não ocorre dizer. Ainda hoje, um pouco antes da hora do comboio. Do tear celeste provinha uma fiação pluvial que impunha o seu, dela, respeito. Cinza, dedadas de poalha, o céu de Inverno esmigalhado em diamantes frios. Ao balcão de um bebedouro de homens, tasquinhava-se ossículos de frango, sorvia-se o cálice espirituoso, roía-se a broa cujo milho foi já filho de melhores dias. Voltou a acontecer-me: encontrei uma carteira de homem com documentos (naturalmente) pessoais. Entreguei-a num sítio de referência e confiança (a farmácia da vila onde me encontrava de/à passagem). No tal bebedouro, indaguei se conheciam o nome correspondente ao perdedor da carteira. Conheciam. Telefonaram-lhe, disseram-lhe que coiso & tal na farmácia etc. O homem veio. Um aposentado da CP. Agradeceu-me com toda a cortesia. Depois, um revisor (da CP também) contou-me histórias da revisora vida dele: perdidos & achados & devolvidos & agradecidos em comboios. A chuva, entretanto, redobrou músculos. Geral era o panorama de cristal: um ar-aquário de peixes respiratórios. E a vida passa-se nisto, nada, aliás, ilicitamente.

*

Dizemo-nos coisas parecidas com o pretérito dos futuros: rodas (ou rosas) cosmogónicas que amassam (e afagam) as frases como os pedreiros que paredes criam no ar. Róseas crianças travessam suas, delas, tordesilhas plenipotenciárias. Há uma uni(di)versidade constante nas idas & vi(n)das. As pessoas passam, acontecem como clarões lentos, são animais brancos pela paisagem de chumbo. Tipo assim: isto agora era o Inverno em que te amei, quando alguém teu (vosso) vivia ainda, depois (mas antes, durante/s) o Verão exercia dele o magistério brutal, tantas vezes quantas vezes pueril, feroz porém sempre. Os bons anos volvem-se cartões panegíricos, avós esmaecem-se retratos-gatos, a alcateia económica tritura o ossobuco da esperança, não é fácil estar e ser vivo ao mesmo tempo.

*

Quem dera ter sido vivo sem favor
na antemão futura cristalina.

Friday, March 25, 2011

Rosário Breve n.º 199 in O RIBATEJO - 25 de Março de 2011 - www.oribatejo.pt



Alvíssaras para o peão


A selvajaria desenfreada dos combustíveis não me afecta muito, até porque ando a pé com a obstinação peregrina do fatimista mais militante e mais fervoroso. Combustíveis? Se nem carro tenho…
Ando a pé pela Cidade. E sou recompensado por isso, não duvideis. Ainda agora. Ainda agora, colhendo de um friso de galerias de rua a frescura dérmica da sombra (que a Primavera começou com uma força de Verão anunciado e precoce), vi uns olhos de mulher abençoados pelo mesmo azul do dos painéis do Mercado de Santarém. E a água daquelas retinas aniladas só pode ter sido roubada ao Tejo de antigamente, aquele das cheias e dos avieiros e da adolescência de Bernardo Santareno, sim, aquele que Almeida Garrett mirou ao colo de pachorrenta mula. Já o cabelo dela, bem, o cabelo dela era um incêndio disciplinado à força de invisível laca e visível desejo de tornar cada pobre homem em bombeiro. Já por aqui vedes o tipo de alvíssaras que aufiro ao mandar galps & restante quadrilha homóloga à fava-rica perambulando com asas de borracha vulcanizada por essas ruas e praças.
Claro que não escapo, também eu não, às outras metástases do cancro económico que estes senhores insuflam com a mentira de a culpa ser dos iguais a eles lá de fora. Claro que não. Mas quanto a combustíveis, estamos falados.
Ante a demais aflição destes dias (que gerou cerca de dez milhões de sobrinhos, já que anda tudo ó-tio-ó-tio), e como não subscrevo qualquer religião nem me genuflicto ante qualquer credo, quando preciso de deuses, vou ver os arvoredos; quando preciso de deusas, vou ver as aves. Mas depois vou mas é a um bar, amando uns copos para a guelra e o fervor oratório passa-me logo. A crise não passa, mas para mim, por instantes e decilitros, passa.
E não há gasóleo que me faça aceitar gelo no whisky, nem gasosa no vinho, nem ginjinha sem elas: elas, as tais de olhos cor-de-mercado-de-Santarém.

Thursday, March 24, 2011

Ideário de Coimbra - 135 - Pombal, sexta-feira, 17 de Dezembro de 2010



Harry Callahan
Detroit - 1943 - © Estate of Harry Callahan
http://www.masters-of-photography.com/


135. A MINHA LEONOR COMPLETA OS PRIMEIROS DEZASSETE ANOS DE VIDA

Pombal, sexta-feira, 17 de Dezembro de 2010

Às 13h04m, a minha Leonor completa os primeiros dezassete anos da vida dela.

*

Recitações de Uma Breve Carta para um Longo Adeus, de Peter Handke:

- (…) com o falar desaparecia o lado sério das coisas.

- (…) e no entanto este dia passou tão depressa como os dias nos filmes de vampiros.

- (…) ele queria ultrapassar a natureza, para se tornar, como observador, mais interessante do que ela.

- (…) porque sabia tão pouco de si próprio, que a verdadeira natureza não lhe dizia nada.

- (…) e como também a fantasia era insuficiente, juntava a todas as coisas pormenores especiais, como se fosse um edital da polícia. Estes sinais especiais substituíam paisagens completas, relações entre as coisas, destinos.

- (…) enquanto em voz baixa fazia lembrar aos embriagados o seu estado, o que podiam ser e o que tinham esquecido (…)

- (…) O que foi na realidade? De que é que se tratava? Que tristeza? Então não estava tudo acabado? Não queria pensar nisso agora, só sabia que tinha de partir em breve.

- (…) “Estou completamente separado da vida”, disse-nos ele mais tarde no bar do seu hotel. “Ela só me surge como termo de comparação para os meus estados de espírito. (…) Actividades do dia-a-dia, como, por exemplo, pôr o chapéu, andar nas escadas rolantes ou comer um ovo quente, eu já não tenho consciência delas, elas corporizam mais tarde, em metáforas, a minha situação actual.”

- (…) Sozinho consigo mesmo, sentia-me a mais.

- (…) Aproximei-me de todas as coisas possíveis e perdia logo o interesse quando estava perto das coisas.

- (…) Seria esta estranha piedade um sinal de que eu me podia envolver nas coisas mas não nas pessoas?

- (…) Tinha de haver uma relação qualquer com alguém, que não fosse apenas pessoa, fortuita e única, em que a pessoa não pertencesse ao outro devido a um amor forçado e mentiroso, mas uma relação bem mais necessária e impessoal.

- (…) Perdi-me ao contemplar a fatia de limão que estava na borda do copo. Depois fez-se noite de repente. Indeciso, andei pela rua, atravessei para o outro lado, voltei para o mesmo lado.

- (…) eu mexia-me no elemento estranho como nos pensamentos de outra pessoa.

- (…) “E se sonhamos, esquecemo-nos. Falamos sobre tudo, por isso não fica nada para sonhar.

Monday, March 21, 2011

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – fragmento final da entrada 133, datada de Coimbra, 14 de Dezembro de 2010

As árvores da minha rua acontecem pássaros.
Eu sou o gajo do casaco que pode ser.
Às vezes os carros tocam-se, as pessoas
nem tanto, os estacionamentos são o que são.

Eu digo as ruas de Dezembro, eu dig’ as luzes.
Eu ando aqui-aí sem ser por nada.
As árvores da minha rua esperam (a)o frio.
E eu também, eu juro qu’ eu também.

Isto é tudo quadras populares.
Isto há-de ser tudo carnação.
Voz do sangue, voz de nada.
Voz de nada, voz-lápis de nada.

Friday, March 18, 2011

Rosário Breve n.º 198 - in O RIBATEJO de 18 de Março de 2011 - www.oribatejo.pt


Epifania

O televisor do salão da Associação Recreativa tem o som desligado, mas o ruído das imagens é colossal: filme das manifestações do passado dia 12. Gerações e gerações de pessoas enrascadas e absortas, mas lúcidas e capazes de dizer “Não!”. Milhares de corpos com almas dentro contra a escumalha imoral em que o nosso País se retrodegradou. Comove-me sem lágrimas, tal epifania. Tenho feito o que e quanto posso para me juntar a tal rio. Uma mulher pode tornar-me feliz, um trabalho pode dignificar-me, um poema pode abrir-me um balcão de sardinheiras ao sol, uma jornada de chuva mansa pode juntar-me o coração ao cérebro. E um País capaz de dizer “Não!” pode tudo. Pode tudo até que lhe digam que sim.
Levanto-me devagar da cadeira, vou à porta espreitar as duas laranjeiras do pátio vizinho, cumprimento e sou cumprimentado por homens em fato de trabalho. Há iscas, panados, bolos de bacalhau, filetes de pescada, torresmos. Há vinho. Há gente. O meu País ainda tem gente.
Retorno ao meu lugar, escrevo-vos com a serenidade possível coisas bonitas e tristes e activas e militantes.
Também direi “Não!” sempre. Nunca vergarei o espinhaço. A um canalha chamarei sempre canalha. E vígaro. E corruptor corrompido. E foco de pus. E gânglio infecto-contagioso. E ferida moral. E canalha outra vez.
E depois dir-te-ei a ti, meu/minha/leitor(a), que sim. Porque és tu quem vale a pena. Tu, filho/a de teus pais e pai/mãe de teus filhos. Tu que trabalhas porque não sabes roubar. Olha, olha, também estou na televisão. Sou uma das vozes ensurdecedoras no ecrã que certos canalhas gostaria de desligar de vez. Sou um dos rostos. Um dos pares de braços. Tu és aquele/a que segue a meu lado. E eu gosto de trocar água contigo: e ideias para amanhã.
Agora, vem daí ter comigo. Estou sentado à mesa que fica ao pé do candeeiro de pé alto.
Há iscas.

DOIS SONETOS COM AMADA DENTRO



Coimbra (Casa Branca), quinta-feira, 17 de Março de 2011

1. SONETO GRÁCIL, GRACIOSO E DE GRAÇA

A minha amada é macia como um tigre manso.
Ela dulcifica, até, a sombra que atiro ao chão.
Eu por ela ando & com ela danço.
Eu já não desando, agora já não.

A minha amada é um rio iluminador da terra.
A minha amada é o eliminador da solidão.
Exacto: agora já não, eu danço ora a guerra
que a paz me traz, levantada do chão.

O mais que digo é também verdade:
ela é o tigre que a insensata cidade
não sente nem viu – nem nunca sentiu.

Eu sim, que parvo não sou.
Sou a cria do tigre – e por ela vou,
que dela eu venho: e manso e macio.

2. JUNCO


O junco do meu amor inclina o vento verde.
Trata-se de uma declaração, esta, oficial.
Eu queimo idades, q’o tempo me arde.
A minha Maria é de seu Daniel.

Trago o coração nas mãos como um talhante.
Respiro acordado na sombra do sono.
É primaveris que hemos avante,
embora o real se chame Outono.

Falo-a. Digo-a. Sigo-a. Exalo-a.
Tremo-a. Quero-a. Espero-a. Temo-a.
Ou então, isto para que se perceba, amo-a.

E então tod’eu vibro em anunciação.
Ela tira o roupão, descerra o pijama:
e diz que me quer – e diz que me ama.

Thursday, March 17, 2011

Ideário de Coimbra - 127

127. PERTO-E-AO-LADO-DE-MEDALHÕES-DE-LUZ

Pombal e Coimbra, sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010

Ao lado, perto, medalhões de luz: caras masculinas. Os olhares vitrificados no televisor, as bocas dizendo futebóis, moscatéis. É pela sexta-feira, acabada a manhã. A manhã foi clara e frígida. Houve porém Sol por ela. Gosto de reviver esta luz de Dezembro matinal. Entre Coimbra e Pombal, hibernei com lucidez. Também o gelo lucilava pelos campos – e quando assim é, observo e tento fixar esses elementos fotogramáticos que me jubilam. É quase não precisar de viver, isto de olhar com lápis. Agora, a um balcão sossegado, entre homens que comem e vozeiam. Isto não é Paris-1900, é Pombal-2010. Como seja (como for, como é), a realidade eviscera-se em perpétuo baile trevas-auroras. Corpos jovens fervem electricidades progenitoras. Velhos seres rondam palácios que as er(v)as estiolam. Estes homens almoçando a sexta-feira mesma, às vezes os telemóveis tocam, eles atendem ou não, entra-se na tarde para o (c)ordeiro naufrágio do costume. Suponho (não: antecipo) já as brisas frias das cinco, cinco e meia, seis do entardenoitecer, lá, em Coimbra, onde a sombra que o dia deu à noite se une para ser una e única. E agora, Maria?
Eu respondo: agora, a monologante víscera pulsora de matérias, o coração, ou em vez dele o idioma, esta maneira de subir vermelhamente à cara, onde cada homem se faz cartaz de si mesmo: balcão que ladra e remorde. Essência. Progresso andarilho do ser que pára em circunstância, desejando talvez o Trocadéro onde só pode o Cardal, Montmartre por Agorreta & a Formiga volvendo-se Elíseos Campos. Não Nice, mas Pelariga. Não Cannes, mas Barrocal. Isto de vir a Pombal uma sexta-feira de Dezembro: este trânsito nem ínclito nem soez, pessoal apenas, apenas isto.
Aflúo à concatenação de temas volantes: Watergate, Caso Profumo, Sá-Carneiro/Camarate, Euro 2004/Portugal, Cinema Europeu, Novas Tecnologias: iPod, iPad etc., Timor 1999, Violência Doméstica, Sem-Abrigo, Crise Económico-Financeira 2010, Moda, Festivais de Música. E vou ser feliz entre caras, homens, casas derruídas por esses Campos do Mondego que perco e perco e não esqueço e não esqueço rumo a Oeste, onde os casais e os taludes e os gansos e as notícias que tornam no imediato pretérito o futuro. E olho as roupas dos homens sentados ao balcão (em Z, os corpos à direita; em S, os à esquerda): e vejo textilmente os cuidados ínfimos/íntimos das mulheres que (os) têm. Bombazinas, gangas, flanelas – e que vejo? –, sedas até. Também o pintor/pintado da construção civil é todo cor, mancha, borrão, dedada, cor, cor, cor.
Cor inaugura coração (a palavra). Cor-cara: cara-ção. Esta hora, estes homens brandamente recebendo a tarde que à noite se/os entregará. E eu aí, não sei se estás a ver.

O Ribatejo em papel virtual e novo formato gráfico em papel tradicional

http://www.oribatejo.pt/pdf-inteligente/

Wednesday, March 16, 2011

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 126

126. FUNDIÇÕES

Coimbra, terça-feira, 30 de Novembro de 2010



Funde-se a Grande Lâmpada (o Céu) e a chuva revisita uma terra que é tão dela quanto da luz. Fui às compras merceeiras ao Pérola: cenoura, 29 cêntimos; cebola, 32; batata branca, 59; nabo branco, 1.14; alho seco avulso, 77; lata de cerveja Super Bock, 59; atum em posta Duna, 1.32; filetes de cavala em óleo vegetal Maná, 1.09; salsichas Izidoro, 52; feijão branco cozido, 55; ovo Vitaovo Classe M (meia dúzia), 69; toucinho, 1.03; farinheira tradicional, 89; linguiça tradicional Fricarnes, 1.98; cotovelinhos Napolitana, 62; esparguete Duna, 56; cuscus Napolitana, 29; couve-coração, 70. IVA às taxas de 6, 13 e 21%. Total em euros, 13.94. D: 30/11/2010 ANGELINA. HORA: 10:37.OBRIGADO PELA VISITA.VOLTE SEMPRE.

*

DEITA-SE-ME-LHE

Deita-se com os anos de vida tidos.
Os anos ondulam-no vertebralmente.
O longo da noite abre-lhe a avenida interior.
Lixos e pérolas deflagram-no em instantaneidade.

Ele é o homem que já não quero ter na
minha cabeça.
É outro, que não posso querer ter.
Digo: que viver.

Glicínias, gardénias, gladíolos, gloríolas.
Fontes manando cristal-flúx por pedras.
Relances mulheris (flancos, cuspos, mãos na lonjura).
Exemplos santos (tantos) de alheias (alheadas) vidas.

Deglutições mecanográficas de máquinas registadoras.
Gás-interstícios de estrelas ao coalho de Deus.
Casais como dedadas de giz na serra que perdi.
Perdi tidas vidas, não mais que me deitando.

Ele vigora flacidezes espíritas (mortos moles).
Poucos carros nas imediações, polícias desquitados.
O Quarto-Casa deita raízes ao ar da terra.
Eu sou o que olha os pulsos e os expulsos.

Na antemão da manhã os corvos anilam-se.
É muito belo estar vivo noutro corpo,
querida.
Os moinhos de Gavinhos oferecem-se aeróbios.

Desço às profundas das Bermudas por azoto.
Sonho com já irreais passadas noites (de cristal).
Prospectivo uma fonte final, uma sede saciada.
Não é dormindo mas acordado que desejo nada.

Nada enseja, ele, em dele o santuário.
Corpo que menino foi, moço ora de nadidade.
O tudo da Cidade lhe merece relicário.
E relíquia é o tudo-nada da Cidade.

A(v)en(ida): a parte posterior da cabeça em chamas.
O que já amaste, o que já não chamas.
A flor óssea da horta craniana.
Sejam muito felizes – e bom fim-de-semana.

As orelhas criam lã, os velhos partem sós.
As pessoas montanham-se (serram-se) a sós.
Sofrem por vezes do terror da voz
que nunca eu, mas tu, eles e vós, nunca nós.

Veleidades, varíolas, varrasquices, vilipêndios.
Antes de viver: gente esperando comboios ou marés.
(Isto vinha tudo nos compêndios.) Dorme: escreve
versos, vê-te como és. Enorme no nanismo, solipsista,

querido. Às vezes, as gardénias corvoam.
Atroam de branco os ares lilases.
Os jacintos-de-água enfermam as pateiras.
E a riqueza de viver até nas lapelas se nota.

Vidigueira, Portel, Oiã, Santiago do Cacém.
O mapa é venoso na toponímia arterial.
Ele deita-se-me só, no só-Portugal.
E a caça às raposas é pólvora infiel.

Conhece-te-me a mim-si-mesmo, tu-ele.
O amor dos pais justifica angolas súb(d)itas.
Uma flor da horta perfuma a calidez.
E a rapariga sonhada sorri no escuro.

(Escreverei quanto não puder viver.)

(Escreverei enquanto não puder viver.)

Um amigo meu grafa foto-árvores.
Ama ele esses animais que vegetam.
Que vegetam da-luz-sintetizadores.
E a química dos astros o alabastra e lastra e lhe basta.

Avental, o meu coração é a tua maçonaria,
Maria.
Deito-me ao relento lento do vento interior.
E se sonho, são filmes sem pré-produção.

Impérios sol-nascentes em rubra franja.
Valor essencial da dança soliloquaz.
Sonhas com a submersão, a cor preta do Mar.
Morar ao pé do quartel da polícia, (exer)ser-se só.

Em 2003, em 2014, ontem & amanhã.
Municipalismos, planos quinquenais.
Homens deitando-se ao mar em sombras.
Um aquecedor eléctrico, um e-mail por abrir.

Onde antigamente cartas, um e-mail por abrir.
O sono-de-ser, o acordar na morte-gladíola.
Um filete lilás debruando o sangue.
E a partida dos barcos na noite-manhã-noite.

A esta distância, o Mazda floresce toxifumos.
Lisboa floresce como um cancro de luz.
Na imaginação dele, pessoas há felizes.
E a mostarda e os narizes.

Fui ao funeral de/por um amigo.
Tinha falado com ele poucos dias antes.
Ele estava mais vivo do que eu-mais-ou-menos.
É triste ter estado vivo.

Agora, o gelo agora nas ruas encalmadas.
Summer-parties, mansfields & wo(o)lves.
Água de açúcar na falta do dente.
Hei-de ir visitar esse gajo.

Parafernália de botões amoniacais.
O homem deitado no homem-noite.
Na paleta da vida acontece o único branco ser vinho.
E um resto de borbotões acode bolha-sangue.

Sê, deitado, o velocípede-me, o fugaz.
O fugaz gás das estrelas, o lapso dos estios.
O meu amigo Fernando, uma vez na vida.
O pretérito dos morangos na boca adulta.

Isso e ter filhado a paternidade mesma
que na vigília escura o brando branco sono igneia
a calma de ter sido só no futuro outror’agora.
E a praça toda pedra-flúx no cristal.

Ele na cama celibatária sá-de-miranda-se
e co’ a calma caem-se cadentes as doentes aves
de tetraversos inconsúteis à razão directa
dos tempos-espaços-amendoins & bagaços.

Que pena (verdade?) as pessoas morrerdormirem-se-nos.
Em Novembro, a vida foi Dezembro choupalino.
E tudo isto desde menino.
Viver-acordar-se-nos, que pena, -nos.

Fala-me mas é das cheias d’antigamente.
Alhandra, o Campo do Bolão, a infância
comunista do meu senhor Pai, Buarcos,
a vibração vítrea de outros estios-tios

agora frios. Vertebrais no corpo-corno, duro.
Puro, só ora o futuro.
O morango na língua februária, verde,
vária e febre.

O homem torna-se avô de si mesmo perdendo
os filhos, as filhas.
Repreenche os garrafões de soro (sono) só.
E a vid’avenida conquista (enquista)

foros de Cidade. O mais é corpo coçando
alma. Vibráteis brisas enfunam o rosto.
Películas vítreas encebolam o pranto:
pode um homem dormir sozinho jamais?

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 120 (fragmento)

120. TER P. DE SUA MESMA M.

Viagem Santarém-Tondela-Coimbra, sexta-feira, 19 de Novembro de 2010

Quero sair de mim como quem sai de casa manhã cedo manhã fresca e por uns dias se desabita sem dor nem ressentimento de si.
Uns dias é quanto peço – mas não posso ainda.
Mais cais do que barco, espero em pedra.

Monday, March 14, 2011

Foz

Quem de si mesmo faz ou fez foz, fez ou faz o que fiz.

Sunday, March 13, 2011

Rosário Breve nº 196 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt

Abaixo o futuro!




O futuro é mais alguns passos, algumas ruas mais.
Nenhumas certezas, tirando a do declínio (a da declinação, portanto). Isto é certo e é comum e é global – porque o futuro é mais certo do que o passado.
Faz sorrir quase, escreviv’imaginar coisa assim na véspera nocturna de uma Terça-Feira de Carnaval mais.
Não causa pena, tal implacabilidade da Lei. É apenas humana, por conseguinte rosa irrisória. É como a calendarizada boa-vontade de cada Natal: nem pena nem ternura nem dor (peculiar) nem solidariedade.
Lê-se um dos clássicos russos, dedica-se o domingo à pesca fluvial, vai-se à igreja ouvir a monotonia de um homem castrado que se paramentou para beber vinho e comer farinha redonda em nome de um deus improvável como o euromilhões, fala-se de bola e de histórias de cornos e de dívidas.
À flor da terra, crescem como ténias as vias-rápidas dos sucateiros, as circunvalações dos boavisteiros, as veias alcatroadas onzeneiras que levam de sítio algum a nenhures.
Dos endividados, os apartamentos comportam mais margarina do que manteiga – por causa do preço da chuva e do do pão.
E o sal das bocas cresta o exílio do mel, que não o do mal.
No ano 2011 d.C., isto segue sendo assim em frente – e para baixo.

Sunday, March 06, 2011

Obrigado


Agradeço profunda e comovidamente todas as mensagens (muitas, tantas) que por diversos meios me foram chegando por estes dias amargos.
Bem hajam.

Thursday, March 03, 2011

A minha Mãe morreu, viva a minha Mãe


Hermínia Leite dos Santos
27 de Outubro de 1924
3 de Março de 2011

Tuesday, March 01, 2011

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 175



175. UM SÓ VERSO

Coimbra, segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011

A minha Mãe – outra vez nas urgências.
Insuficiência cardíaca, foi o que nos disseram. Que tontos, os médicos: como pode ser insuficiente um coração daquele tamanho? Se ela nos morre, não posso voltar a nascer. Mas não, não sinto medo. Os olhos dela são feitos de água nascente. A luz do dia abençoa-me. Eu sei: tenho por conta uma vida mais bebida do que vivida. A Senhora queira desculpar. Tenho-lhe feito versos como se a Senhora fosse minha namorada. E é. Tenho dormido na sua cama. Às vezes, o dia acaba-se-me como um filme: então, pego no meu corpo e deito-o na sua cama. Durmo cercado de retratos. Comove-me tanto, a boneca que a senhora deitava entre as suas almofadas viúvas. Aqueles lençóis não estão, não ainda, mortos. Alongo-me neles em pele de rosas. Que tontos, os médicos. Trabalhei hoje um pouco, fui cordial para com as pessoas, é tão bonito ser bem educado. Depois, fiquei outra vez sozinho – é a minha vida. Três homens estão ali a falar de política laboral. Gosto de ouvi-los: parecem-me felizes e tristes como gente nascida. Os sentimentos são velocípedes. A vida é rápida, mas a existência não. Sinto um amigo como a um livro. A asa delicada de uma chávena fina: uma gentileza que nos dizem. Cercado de retratos que a Senhora juntou em rosa. Sonho com laranjeiras em frémito eólico. Vejo cães negros e cegos rondando as cercanias da Estação Velha, passam pelo ponto do cais onde a Ti’ Maria vendia arrufadas. As pessoas tornam-se tigres domesticados, a economia torna-as assim. Gostaria de poder escrevivificá-la mais, Mãe. Eu tento. A Senhora torna-me nascente. E eu gosto de nascentes – e de fontanários e de carrancas de chafariz e de cursos de água rumo ao mar. Vi um menino sentado em mochila azul. Terá oito anos, é bonito, é um menino. Está à espera do autocarro. Ele significa isto – a Beleza da Vida. Falo com ele por aqui. Não, não sinto medo. Um homem é um homem é uma árvore é um retrato é um verso é um filho. Que tontos, os médicos.
Calibro o meu sangue através de certidões memoriais: as solidões estremes do meu Tio Alberto e do meu Irmão Fernando e do meu primo Zé Arménio e deste Vosso fiel servidor, os cães todos que tive e de quem fui, o meu Professor Elias Rodrigues Faro, algumas raparigas que despi contra os mandamentos da Santa Igreja Católica, as tardes atlânticas da Figueira da Foz em 1988, em 1970 e em 2010,

e telefona-me a minha Irmã Xelinha,

As notícias não são boas, filho, a Mãe

é a nossa Mãe, piorou, talvez metástases hepáticas, não se sabe, a Mãe, me, ama-amei-a-Mãe.
Estou sentado sozinho num café em Coimbra. Tenho 86 anos, idade dela. Três homens não falam já de política laboral. Ninguém fala. É um filme surdo-mudo-a-preto-e-branco. O cinto da minha vida tem presilhas de água. Uma senhora, morena como uma recordação estival, preside a um carioca de limão. Não, não sinto medo. Sinto apenas tudo. Sou o rapaz que não renascerá, este homem de canadiana numa linha de comboio desactiva para Lousã nenhuma. Um subproduto da Língua Portuguesa anterior à CEE. Um filho da Nação, pois por que motivo não? Talvez alguns versos, agora:

O teu cavalo pode não correr muito mais,
negro no verde dos Campos do Mondego.
Descansa, Mãe, que estou em sossego,
e nunca é agora, depois é jamais.

Eles casaram-se no mês de Julho de 1943. O noivo coxeava, a noiva era tão jovem como um clarão de buganvília. E assim se formou a minha família.
Que tontos, os médicos. Nem capazes são de garantir a condição fundamental de um gajo ser filho de uma mãe de Portugal. Eu sei: o cavalo cardíaco tem direito ao seu cansaço. Eu sei. E um gajo, direito ao seu bagaço. O problema está todo no amor. Nunca há problemas fora do amor. Só há questões, quezílias, incompreensões, desfamílias. O problema está todo no amor. Uma pessoa nunca deveria ter sido amada no futuro. É uma questão de política laboral. Jardins ingleses, filigranas porcelânico-chinesas. Tentações visuais do mar, quando uma pessoa é ainda infante. Aquele querer-ir, sabes?
Agora, repara: estes minutos como vergastadas de bronze. Estas horas sucedâneas, como te hei-de eu dizer, o Professor Elias Rodrigues Faro. Quando fui feliz, já havia laranjeiras acesas como lareiras. O coração bate em dislexia. Preferiria, eu, a afonia. É triste estar sol e o céu ser azul. Os cães correndo as ruas, as raposas demandando os coelhos pelas encostas nascentes das serras. Ser/ter nascido é triste. Uma pessoa encontra-se – e é que não encontra grande coisa. Depois, um gajo pensa assim: mas Rembrandt, mas Pink Floyd. E depois fica só com uma cultura tipo geral, tipo Diário Popular anos 70/XX, é pouco. A Mãe.
Talvez alguns versos, agora: uns versos? Não. Um só:

Que tontos, os médicos.