Thursday, September 30, 2010

Rosário Breve nº 174 - www.oribatejo.pt


Nome (para o) colectivo



Estamos reféns de uma corja de bandalhos. Tenho outras maneiras de dizer o mesmo. Seguem-se elas. Já.
Somos um alfeire sequestrado por uma quadrilha. Vivemos como récua por conta de uma vara. Rebanho que teimamos em ser, trepa-nos pelas canelas uma ninhada ignóbil. Sabeis de que tropa vos falo, claro. De que malta. De que chusma. De que bando. De que choldra. De que ádua. De que matilha. De que ninhada. Claro que sabeis.
Mas sabeis também que aqueles de que vos falo, esmifrando-nos embora os bens, não lograrão nunca extirpar-nos a condição de pessoas de bem. Podem secar-nos o pão, interditar-nos o trabalho, molestar-nos a saúde, injustiçar-nos os direitos, analfabetizar-nos os filhos, corromperem-nos as famílias, emporcalhar-nos as ruas, evacuar-nos as aldeias, atoleimar-nos de bola, senhoradefátimar-nos as mentes, casamentogayzar-nos de pósmodernidades balofas, redbullzar-nos de avionetas para tolos pasmados de corneta no ar, tonycarreirar-nos até que zumbamos, relinchemos, zurremos, chasqueemos, pissitemos, cuculemos, grasnemos, cacarejemos, cucuriquemos, ronquemos, grugulejemos e regouguemos. Poder, podem. E vão continuar a poder enquanto permitirmos que possam. Só que há duas coisas: eles vão continuar bandalhos. E nós vamos continuar alfeire, que é o nome colectivo dos porcos de engorda.
E se isto não é grunhir com razão, não sei o que o seja.

Friday, September 24, 2010

Rosário Breve nº 173 - www.oribatejo.pt



Sedução de tua mesma senhora



Posso ajudar-te, ó meu masculino leitor, a dizer o que dizer deves da e à tua mesma senhora. Assim: Nasce do lado do rio a água dos olhos da minha dama. Azul, verde e negro participam dela a coloratura castanha. Dela, o peito incha lactações tremendas. É de pés alados, ícaros não: que o Sol poder não pode derreter a marmórea cera caminhante. Unhas lavadas e lavada boca de morango bífido. Ancas potras, coxas excelentes – e um ar suspenso de meio lábio, como de quem quase se lembra do meu nome. Até às compras é bela, o belo incêndio do cabelo entre detergentes, legumes, vinho de cozinha e toalhetes húmidos. Húmida sim, ela toda, quando firma o olhar fluvial no nada que sou, a ela cotejado quando a olho. Bonita como um azulejo. De linhas que ao caule da gardénia dão imitação naturalíssima. E fragrante e flagrante como uma manhã de sol: tal senhora, aliás minha, é pires de açúcar deixado à janela para formigas que pássaros quiseram ser.
De tudo isto, ó meu leitor masculino, retirarás aprendizado e tença. Diz-me depois, te o peço, como correu com a tua, depois de isto lhe haveres dito.

Friday, September 17, 2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 15 - fragmento 9

A minha vida já foi uma sala-de-ser, é hoje uma de estar de onde levaram os móveis, os retratos, a carpete, o sofá comprido para os sábados à tarde, a jarra da hortênsia e a chávena-almoçadeira que o Mário C. deu à minha Mãe. Está bem assim: quem não vai a Praga, acaba sofrendo-a em minúscula.

Rosário Breve nº 172 - www.oribatejo.pt



Olarila, maravilha

Às portas do Outono, é como um pedinte invernoso que o País bate a aldrava. A muito poucos foi dado usufruir do Estio as douradas euforias.
O rolo compressor da Corrupção, a tetraplegia da Justiça, a desumanização da Saúde, a idiotia obrigatória da (des)Educação, o letargo da Economia, a continental falcatrua da Moeda Única, a macrocefalia terraplanadora da Bola, as garraiadas maçónicopusdei da Banca, a sordidez vampiresca das Grandes Obras Públicas, o assoreamento maninho das Pescas, o despovoamento genocida da Agricultura, a criadagem da Comunicação Social, a roubalheira impune das Finanças, a mentira manhosa da Formação Profissional, o preço do Bacalhau, a maltosa das Farinhas, a inocência do Padre (perdão, do Carlos) Cruz, aquela Casa ser mais uma pia do que Pia, os dez milhões de poetas que infestam o Facebook à hora de expediente, o treinador do Sporting nem sobrancelhas ter quanto mais hipóteses, a canalha que carteliza as Gasolineiras, a impunidade do Tubarão e o vais-de-cana-ó-Carapau, a frivolidade da gentalha que alvarmente escouceia pela Pantalha Televisiva, os bem-dispostos-por-profissão da Rádio, o Fado Monárquico-Marialvo-Tauromáquico, a vacuidade da Moda, as abencerragens do Pimba e a ponte de Constança já nos não trazer às Portas do Sol – tudo isto e estes todos tornam o País mais pedinte e mais invernoso.
Mas tirando estes e tirando isto, é um sítio maravilhoso.

Wednesday, September 15, 2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 71 (I)


© Clarence John Laughlin - Anatomical Cascade (1940)


71. ATROPELAMENTO MORTAL (TRÍPTICO)



Coimbra, segunda-feira, 13 de Setembro de 2010


I


Ele pôde, ou podia, haver sido


César, Aquiles ou Ulisses, mas Heitor foi


quem foi, este que morto se achou


ao cabo de poucas horas depois de


nefasto encontro de seu corpo com


instrumento rápido de contundente


natureza, vulgo carro.


Heitor de Jesus da Silva Pereira


colhido se achou e às trevas se


remeteu não ileso mas lesionado


e em muitos sítios traumatizado.


Por traumáticas lesões, por graves,


nasceu causa adequada de morte,


pois que também a morte nasce.


Em manhã de chuva sepultámos a


Heitor, imune já às disfunções


meningo-encefálicas e toraco-abdominais,


acrescidas elas das do membro inferior


direito e de certificada broncopneumonia.


Era filho de Petrónio Manuel


Ramos Pereira e de Carminda Maria


Silva também Pereira. Tinha


21 anos. Nasceu e morreu solteiro,


residente que foi em Cova de Raposas,


Portugal, algures.


Neste gabinete médico-legal o peritei


e dele pena tive, como de todos e


todas. Agora em versos o resumo,


dele porém não logrando o total, pois


que o pensamento não é


mensurável.


Sou doutor de pouca coisa, mas cumpro


quanto me indicou o Senhor


Procurador-Adjunto da República desta


Comarca.


Óbito, pois, certifico de Heitor – e


informação clínica respectiva boletinizo.


Heitor deu entrada, ou o entraram,


em centro hospitalar próprio


a 27/08/1976, vítima de acidente


de viação, vulgo atropelamento


sobre passadeira. Ia só, como todos


vamos e somos.


Veio falecer-se pelas 23h54m do


mesmo triste e fatídico


dia, noite já para ele e para os


que seus, tendo-o tido,


foram.


De evidente aparato era seu sofrimento,


nomeadamente de traumatismo


crânio-encefálico com contusão


cerebral e interpeduncular, hematoma


subaracnoideu, síndrome febril e,


como se não bastara ao infeliz rapaz,


pneumopatia.


Era de cabelos castanhos, cor que a íris


imitava. Normal


estado de nutrição.


Masculino, arraçado de branco e


de idade aparente em harmonia com


a indicada como real.


Cinquenta e um quilogramas, um metro


e setenta e um de altura.


Descrevo agora o exame a que procedi do


HÁBITO EXTERNO:


pouco acentuada me pareceu a rigidez


cadavérica; livores achei, arroxeados,


fixos e abundantes nas posteriores


partes do corpo; sinais de


desidratação sim, pois que se deu a


opacificação bilateral das córneas;


também a putrefacção deu sinais, tais


como a presença de mancha verde


abdominal ab initio na fossa


ilíaca direita; à cabeça, usava o cadáver em


que Heitor se volveu, não


César nem Aquiles nem Ulisses, mas cadáver


de Heitor,


à cabeça pois, dizia, usava


equimose esverdeada peri-palpebral esquerda


na medida de oito centímetros de comprimento


por quatro de largura, cicatrizes


de recente aspecto por a região


zigomática esquerda e frontal


direita, a maior medindo, na primeira,


três centímetros de comprimento por um


de largura; não encontrei quaisquer


sinais de lesões traumáticas no


pescoço; no tórax já, os signos de picadas


me pareceram próprios do cateterismo


de vasos, cicatrizados todos na região


clavicular direita; abdominalmente,


trovei (e trovo) cicatrizes despigmentadas


dispersas, a maior das quais medi


na fossa ilíaca direita, sendo ela


de três por dois centímetros


de largura; ânus e genitais órgãos


morreram ilesos; mais de cateterismo


de vasos sinais encontrei em picadas pelos


membros superiores, que nomeio em


braço, flexura e antebraço direitos; em a face


medial do braço esquerdo, e com medida


de vinte e oito centímetros por cinco idem


de largura, ténue, mas horrífica sempre,


área equimótica esverdeada, sendo-lhe


paralelas algumas equimoses arroxeadas,


destas a maior valendo cinco


centímetros de comprimento;


descrita a área de equimose, mais digo


que sobre ela vi cicatriz


no terço inferior da face medial


do mesmo braço, de também cinco


centímetros de lonjura;


pelos membros ditos inferiores mas que


a todo o resto do ser-corpo


sustentam, removi da perna direita


a ligadura que a envolvia, observando


então equimose esverdeada outra e


com zonas arroxeadas também, medindo


vinte centímetros por dez no terço


inferior; deformidade e anormal


mobilidade claramente verifiquei


no terço inferior dessa direita;


bem ferida ela estava, que duas


feridas contusas a pictoravam,


isto no terço inferior da face


anterior, a maior com dois


centímetros de comprimento e vestígios


de dois pontos; no joelho sinistro,


oito centímetros de comprimento eram


feridos também e


ainda.


Procedi então, examinador, ao rol do


HÁBITO INTERNO:


soube que,


da cabeça,


nas partes moles


(tegumento piloso, periósteo e músculo)


vi sufusões sanguíneas subepicranianas;


nas estruturas ósseas


não encontrei


sinais de fractura nem


na abóbada nem


na base;


tantos anos levo disto


(que me levam a mim mais


do que eu a eles) – e


ainda me comovo (!) ante


meninges como as de quem


Heitor foi,


pois que em reabsorção vi


certa hemorragia


subdural


occipital


e


bilateral,


acentuada porém embora mais


à direita;


na mesma localização,


outra hemorragia,


mas subaracnoideia esta


e, ainda,


cerebelosa,


em reabsorção também;


já no encéfalo, nada de bonito,


assim que o povoavam


hematomas intracerebrais


nos lobos esfeno-temporais


e occipital não dextro,


por esquerdo ou sinistro,


medindo o maior um


centímetro de diâmetro;


mas, ainda


mais,


zonas de contusão em


zona parietal direita e


parieto-temporais


bilaterais;


cerebral edema


concluía do encéfalo


o mau poema;


peso encefálico, quilo e


trezentos gramas;


no pescoço, sim, havia,


na laringe e na traqueia,


muco purulento e


(pobre Heitor,


que mais não comerás,


rapaz)


fragmentos alimentares à superfície


das mucosas;


no tórax,


sinais fracturados não topei


nem em as costelas,


nem em a cartilagem,


nem na clavícula esquerdas;


nas suas irmãs da direita,


porém


(ó doce Carminda, de Heitor


a Mãe!),


presenciavam-se calos ósseos


(não ócios, mas péssimos negócios)


ao nível do terceiro


arco anterior


e dos sexto e sétimo


arcos médios;


circa vinte centímetros de líquido


amarelo-citrino, pericárdico humor,


na pericárdica cavidade e no


pericárdio propriamente


(mal)


dito;


pesava de Heitor o coração


algo como


trezentos e cinquenta gramas


(e com eles, gramas,


terás amado,


que mais não amas);


do coração de Heitor as cavidades


bolçaram sangue fluido


com vermelhos


coágulos e fibrinosos;


palidez moderada presidia ainda,


ainda no coração,


a hemorragias subendocárdicas


em reabsorção;


quaisquer alterações macroscópicas


nas artérias coronárias


não vi;


aorta com discretas


manchas lipídicas;


à superfície das mucosas de


traqueia e brônquios


vi que havia


muco purulento;


livres e vazias


(como de certas, tantas!, pessoas vivas


a vida)


eram de Heitor


as pleura parietal e


cavidade pleural


direita e esquerda;


mortalmente colhido pelo lado direito,


Heitor não pôde eximir dele os


pulmão direito e pleura visceral a


discretas sufusões sanguíneas subpleurais;


discretos focos de antracose;


lobo superior de cor acinzentada e


aspecto condensado;


zona de parênquima não arejado do


lobo inferior, afundando-se,


dessas zonas colhidos,


fragmentos em tina com água,


saída de pus dos bronquíolos


pós-compressão


das superfícies de secção;


estes aspectos todamente apontavam


compativelmente


para uma broncopneumonia aguda;


abundantes eram


congestão e edema


dextro-pulmonares;


tudo idem,


sem consolidação e sem pus,


no pulmão esquerdo,


que valia seiscentos gramas,


menos duzentos, portanto e por jeito,


do que o direito;


do tenro abdómen


as paredes


apresentavam infiltração


sanguínea em reabsorção


nos músculos abdominais e


fascias


da parede abdominal


antero-lateral


direita;


nascido e morto em Portugal,


de Heitor o peritoneu e a cavidade peritoneal


mostravam


atroz infiltração sanguínea dos


músculos retroperotoneais direitos, com


focos punctiformes (tão negros!) sobre


o peritoneu parietal,


correspondentes eles,


ou estes,


a focos de contusão


em reabsorção;


escureceu-se-lhe


e nigerrimamente se lhe punctiformou


variamente


o grande epíplon,


o tudo correspondendo a zona e focos


de contusão reabsorvidos;


em idêntica reabsorção


era do mesentério


a sanguínea infiltração;


lisas eram


do fígado,


que mil seiscentos e cinquenta gramas pesava,


as superfícies exterior e de secção,


mas cujos aspectos untuoso


e cor amarelada traíam


a esteatose hepática;


bílis havia,


mas cálculos não,


na vesícula e vias biliares;


dormia-lhe no estômago,


lhe de Heitor,


cerca de cem centímetros cúbicos


de um líquido de cor verde


(alguma esmeralda derretida?);


a mucosa estomacal


(Cova de Raposas, Portugal)


entretinha algumas


sufusões sanguíneas;


nos intestinos,


negra era a cor da serosa do cego,


o que de dia me pareceu que correspondia


a infiltração sanguínea em reabsorção;


e no pâncreas, congestão;


cem gramas pesava tal acabado pâncreas,


menos cinquenta do que os do baço,


cuja polpa era difluente


e que mostrava, baçamente,


cicatrizes transversais na face externa;


oito gramas cada uma, eram graves


as glândulas supra-renais direita e esquerda,


ambas com medular em desagregação;


de Heitor o rim esquerdo,


valendo cento e cinquenta gramas,


pesava mais vinte do que o direito,


demonstrando ambos lisa superfície exterior,


descapsulação fácil e


palidez moderada


(como pálida e moderadamente


todos,


enfim,


somos


e


vamos


sendo);


estava-lhe vazia, e vã agora, a


bexiga;


bacia, coluna vertebral, medula e


membros superiores


sem sinais de fractura;


mas no


terço inferior da tíbia e do perónio


direitos,


sim,


havia.


Mais e ainda recorri a


EXAMES LABORATORIAIS,


que histopatologicamente analisaram


estes versos e


fragmentos de pulmões e fígado


de Heitor,


de Petrónio como de Carminda


o único


Filho.


Do que anatomopatologicamente diagnostico:


quanto ao


HÁBITO EXTERNO,


equimoses na cabeça e membros,


cicatrizes na cabeça, tronco e membros


e


feridas contusas separadas na perna;


quanto ao


HÁBITO INTERNO,


lesões traumáticas meningo-encefálicas, a saber:


focos de contusão cerebrais,


hematomas intracerebrais,


edema cerebral


e


hemorragias subdural e subaracnoideia;


as lesões traumáticas torácicas eram


calos ósseos nas costelas esquerdas;


as idem idem abdominais eram


cicatrizes no baço


e


zonas de sanguínea infiltração


em reabsorção


no mesentério,


no epíplon


e na serosa do cego;


mais lesões traumáticas, dos membros agora,


a fractura dos ossos da perna direita;


o triste todo foi complicado por


broncopneumonia com alveolite supurada


e por


síndrome de insuficiência respiratória


com alveolite edematosa e


microtromboses septais;


o estudo histológico revelou,


no fígado,


congestão sinusoidal


e,


no pulmão,


broncopneumonia severa direita, com


supuração enobrônquica e bronquiolar e


microabcessos paraquimatosos.



Fui ao funeral de Heitor.


Era de manhã e chovia.


Era de manhã, mas era a Noite.


E, como no Fado – e nunca mais


se fez Dia.

Tuesday, September 07, 2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 69

© Harry Callahan - Detroit (1943)



69. OUTRA VIDA TERÁ OCORRIDO



Coimbra, segunda-feira, 6 de Setembro de 2010


Os que morrer vão nos não saúdam.
Brandura é a de seus corpos delicados.
A leve ave à fresca brisa acomete,
estendais de sombra atoalham os chãos das ruas.


Se agora rosas eu disser, a quem nas direi?
A tinta verde acometo a Noite e a Cidade.
Se eu agora disser rosas, a quem nas direi?
Olha as pessoas morituras tão caladas,


abespinhadas tão em suas colecções de moscas,
seus netos, seus sobrinhos vadios sem instrução,
suas melancolias portáteis como gravadores de cassettes,
as pessoas que não saúdam, que vão morrer

em vão.

*


Matiz, íris, palimpsesto e ira:
relojoeiras peças de meu imo-mecanismo.
Eu era um dia moço em Tavira.
E noutro eu era puro paroxismo.


Ou não era. Ou era tão-só quanto eu podia.
Tavira? Matiz? Ira e retina?
Eu era, olá!, eu era um dia.


*

Outra vida terá ocorrido entre árvores outras,
a outro Sol e a Chuva outra.
Outro mundo, ex-naveg’ocupante destoutro Corpo.
Agora sei que sim, assim, uma segunda-feira.

Saturday, September 04, 2010

Quatro Quadras quase Soltas - seguidas de Olhos e Outros Arredores com que a Mãe (versos recentes para o Ideário de Coimbra)

QUATRO QUADRAS QUASE SOLTAS


A poderosa angústia sorvedoura
do melhor que a vida tem no dia-a-dia
– el’ é quem faz pasto e lavoura
no campo que nós somos em porfia.


******


Inspector sem múnus da irisada vida,
que de mim farei, que me desfaço?
Do temporão leite ao serôdio bagaço,
que de mim farei, que me não refaço?


******


Por ’mor da vida que me for restante,
a paz devo fazer c’a já (viv)ida.
A vida que sobrar será bastante.
Ávida, há vida que m’é devida.


******


Tu, que inexistes, és quem sabe
das ribas do dia as cinzas rasas.
O rosto da Mãe: quanto nele cabe?
A ave, a árvore, a terra, as casas.


******


OLHOS E OUTROS ARREDORES COM QUE A MÃE


Olhos que a terra embacia de ramas,
jóias de água de nascentes morientes,
olhos que olhados tu mais amas,
jóias da Mãe fulgindo decadentes.


O peito quase exausto arfa ainda
o magma que meu Pai mais desejou.
Já seca ’stá a seiva, mas seiv’ ainda.
E é linda ainda a fonte que a brotou.


Fui ver quem ela foi – e o que trago,
é bem quem ela é, sempre será.
Os s’ores vivam à vontade, ’tá tudo pago,
que o mais, enfim, ao menos se verá.


Unhas e dedos repetem da gente
que ela gerou sabendo que gerava.
Tão parecidas são, tão parecidos!
Conceber é parecer quem amava.


Hoje choveu sobre as mais velhas ramas.
Fui pedir a senhoras que a deitassem.
Dei ’ma nota de euros, tal que a amassem,
a olhassem como a olhas e mais amas.