Friday, January 29, 2010

Rosário Breve nº 140 - www.oribatejo.pt


Sonhei com o Sá Pinto

Acordei hoje a bater mal do capacete por causa de ter sonhado com o Sá Pinto. A boca sabia-me a murros, a lábio rachado, a dente esgalhado. Vacilante, periclitante, olhobelenensizado, dei os bons-dias à esposa (à minha, não à dele) num português liedsonizado, isto é, pôko légáu. Não vos conto nada: o resto do dia tem-me sido de mil-e-uma tremuras, um raio de uma travessia mal acordada pelo deserto da cagufa. É que galhetas, para mim, só as do azeite e vinagre.
Já me não bastava a certeza de que os impostos vão aumentar sim-senhores, ao contrário do que nos mentem pela televisão. Já era pouco que o senhor Taxeira das Finanças continuasse à frente das contas do país que vai mais atrás. Já não valia pouco que o sibilino e insuportável Sílvio Cervan diga que é do Benfica, quando eu é que sou. Já parecia que não dói a certeza-certezinha de o Santana Lopes ser muito menos uma eminência do que uma iminência, naturalmente parda. Já não era chato que a Vanessa Fernandes ande provavelmente a pensar em desistir do triatlo para concorrer a rainha de beleza de baile paroquial. Já custava pouco que “homem público” e “mulher pública” tenham passado a sinónimos em género e em número.
Sonhar com o Sá Pinto, caramba: isto nem ao Menino-Jesus se deseja nem perdoa. Mas eu sonhei, saberá o Diabo por alma de quem. Um dia destes, ainda sonho mas é com a Dulce Pontes aos berros, como é costume dela, na varanda. Ou com a Mariza a equilibrar um requeijão na couve do penteado. Ou com o Lobo Antunes a dar beijinhos na careca do Saramago. Ou com o Padre Melícias a ser pobre como Cristo. Ou com o Engenheiro Belmiro a pagar salários de gente às caixas dos hipers dele. Ou com o Manuel Alegre presidente mas de alguma associação de bombeiros involuntários. Ou com o Sá Pinto outra vez.
Com a minha pouca sorte e a natural batidela do capacete, até aposto que ainda sonho que sou do Sporting e que o Sílvio Cervan, só p’ra me moer o bestunto, também é.

Thursday, January 28, 2010

Nove Volutas de Fumo


ETAP, tarde de 28 de Janeiro de 2010




1/


Fazer por não deixar que a mordaça vingue mais do que a boca – é a obra dele para hoje, em plano como em acto. Entre pessoas, na tarde com sol, ao colo das horas involuntárias, ele retoma os fios e as navalhas, um pouco assustado e um pouco corajoso. E amanhã, se amanhã? Terá de aprender pela vez definitiva o-que-é-no-que-está. Plano e acto, portanto – e reciclagem de estar-em-ser. Velocipedias mentais escalam a lucidez como o aturdimento. Compreender, ingressar, aproveitar, assimilar, redigir, passar, chegar, contar – linhas de força que o tornarão parente dos elementos: um ser mundial, mesmo que para nada. No fundo como no alto, é a morte: matrícula autora da vida, território intemporal que concede a perene contemporaneidade e a mágica ubiquidade. A mordaça ata o desespero à boca – não pode ser. Transitada a mocidade, gastos os anos médios em que a presença em discotecas não é anacrónica ’inda, a idade final não raro tende a confirmar a magreza das gerais obras da humanidade vulgar. O fascínio desmistifica-se. A crença dilui-se. A esperança é um luxo senciente. As alternativas são socialmente escassas. Daqui, o cultivo da couve como o do verso, o da carpintaria como o andar de bicicleta. Se se for pela anatomia, o mundo é grande. Se ele palpa o seu corpo, sabe-o poroso, melindroso, impertinente, mas leal também – e único veículo. Ele está no corpo que o é, hoje e amanhã, se amanhã.


2/


Volutas de fumo marcam a sudoeste uma habitação de gente com animais e algumas máquinas. Conheço de vista casa, pessoas, bichos e também maquinaria. Tenho andado por terrenos sem esperança nem projecto, andar por andar, os olhos vendo, a boca guardando palavras nas mãos. Excelentes ramagens de magníficos arvoredos ajudam-me a pertencer em vivo. Esta casca que me transporta, esta consciência que me veicula: frondosos desertos. O eu-corpo: também máquina, também bicho, também gente, casa também e também fumo.


3/


Habitação dentro de habitação, o pensamento é um engenheiro destruidor dotado de sensibilidade. Forja de si mesmo uma poesia astuta e redundante: uma carapaça roçadora de elementos. Pessoa é o que se pensa, em sua casa mesma: glândula, hemocirculação, vilosidade, hexâmetro, cantata, fiel-de-armazém.


4/


Quando um eu se escreve ele, é o pensamento a forjar-se-o-me.


5/


Às vezes, como um baque profundo na arca óssea, uma vista plan’alta sobre a vizinha cosmogónica: uma noite pespontada de espirais, o olhar de um cão, o corpo a prumo sobre marco geodésico, a simultaneidade dos amantes, dos comerciantes, do depois com o dantes.


6/


Às sete da manhã, ao livor genesíaco que amedusa o quintal, a criança renasce para a exploração do antigo maravilhoso: estar viva ao mesmo instante das coisas. Lá dentro, na casa, há já um retrato da criança. O olhar fotografado é fiel, mas o corpo reforma-se cada manhã, provindo da noite involuntária. A criança dispõe, no quintal, de cartões, chapas, chão, logradouro, ar, silvas, embalagens, destroços de humanidades milenárias. A criança começa a ser futura pela arqueologia. A língua é já a ferramenta desencadeadora de imagens. A criança é a língua que a diz. Uma dedada de terra pode por ela ser caminhada. Rumo ao monte, pelotões de oliveiras sentinelam o mundo, português no caso, da criança. Uma vinha abandonada por morte do senhor que a erigia: flamas rubro-doiradas. Um lance de sílex: diamante de fingir, faca percutora, o que a criança quiser seja. Rumor de cavalos em quinta próxima: e volutas de fumo tracejando o mapa vertical da casa. Além do seio (a colina), a linha ferroviária. Depois, o Campo, cuja glória recorre a faias, olmos, amieiros, robles, laranjeiras, choupos, salgueiros. Sangra um ribeiro além: veia de frígida prata. Uma fonte mana sob riscos vivos (pássaros). A criança é toda brandura de pés em musgo. Uma figueira, louca de açúcar, explode um pouco acima do tanque onde se diz foi encontrada morta e triste uma mulher sem nome nem família de cá. Cascalhos, saibros, areias, pedrículas, fósseis de cavalos-marinhos, húmus estiolado, urze, giesta, trevo, rosmaninho e dejectos caninos: olhos e pés a caminho, criança veicular recuperada pela escrita dele, que nunca mais será criança enquanto não puder ser deveras velho. Cedros de eterno perfil aprumam-se em labareda verde-negra. Rastilhos de sexualidade animal perfumam o descobridor. O descobridor é a criança. A terra não cessa: acaba um dia, mas nunca cessa. O terror do futuro ainda se não anuncia. Talvez a linha de fábricas que escurecem os adultos. Talvez a imponência dos silos comedores de horas, em breve anos, logo décadas, uma vida. Ainda é agora, nove e meia da manhã. A criança colheu figos, laranjas, amoras, uma maçã baixa. Bebeu da fonte. Não cobiçou a euforia aérea dos pássaros – porque a criança não cobiça, está servida, andando, de seu mesmo voo. Linhas perspectivam a materialidade da luz retratista do mundo. Gloriosa, facunda manhã que a escrita pode fingir apenas. Um pouco triste, se se pensar nisso – coisa que a criança não faz, absorta como segue pensando em casa e na mãe e no estranho costume de embalsamar o olhar em fotografias tiradas pela língua portuguesa.


7/


Gosto da austeridade das nuvens sobre o austero nada do mundo. Embutida no corpo, a jóia relojoeira do coração conta-lhes a brevidade perene. Linhas e cabos riscam de humanidade perspectivas de céu. Sei sempre extrema a unção fluvial. Conheço a introspecção das abluções, ao renascer cada dia para uns metros mais e mais umas horas e umas nuvens mais.


8/


Não fora a dor insensatamente criada e valera pouco o viver ensimesmado em convulsa febre: qual dos outros a habitação, tal nosso o casebre.


9/


Carolina Joaquim, 80 anos, Charneca da Cotovia, Sesimbra, mortalmente atropelada.
José, 52, suspeito de pedofilia, Bairro do Viso, Porto, preso.
Rapariga, 17, comboio de ligação Portela de Sintra – Mem Martins, assaltada.
Homem, 51, Peniche, conduzia com 3,42 g/l álcool/sangue.
Rapaz, 15, Carregado, ladrão por esticão, identificado.
Grupo de três homens, violento, assaltante de carrinhas de tabaco, em bairro da Vialonga, Vila Franca de Xira, capturado.
Paulo Romeu, 40, Soalhães, Marco de Canaveses, ferido em acidente de viação, teve alta.
Abílio Rocha, 31, mesmo acidente, morto.
Também mortos, mesmo acidente: Leonel Sousa, Carlos Alexandrino, André Queirós e António Barros.





Wednesday, January 27, 2010

Linhas de Jean, a.k.a. Mrs. Taggart

Pombal, tarde de 27 de Janeiro de 2010



E se o coração nos fica como a mulher doente e escocesa do polícia Taggart? Que o fique, mas na vida não perca interesse nem respectivos juros. São difíceis as circunstâncias – mas mais teme quem mais treme. Temer o circunstante é nada activar para o demover. Honesto estudo e dedicada (e delicada) atenção subsidiam a vivência-sobre, que é melhor do que a mera sobrevivência.
Quanto posso – bem, é isto. Assim activei, primeiro, DO QUASE NADA DE TUDO ISTO, e depois NARRAÇÃO DO ANTES QUE ERA, e depois TENTEADOR.




*******



1. DO QUASE NADA DE TUDO ISTO


I/


O que se sabe disto tudo é quase nada,
a aquarela solar (m)olhando os campos,
a existência transtemporal, porque senciente, dos animais,
as tabelas horárias consumindo corpos e máquinas,
o vento folheando árvores como a livros bons.


Manufacturas de madeira vigiam os rios,
ao longo da vida uma mão mal cheia de sal,
julgo ter-vos falado de semelhantes coisas antes
para que depois, se não alguém, algo me lembre,
nem que ao de leve, uma quarta-feira.


A aquarela solar me olhando, os campos
pautados por altas notas de aves,
o murmurar do fio de água aos pés do trevo,
a carne do musgo perfumando a criança,
além de estampas eidéticas mui formosas outras.


II/


Território de química areia, o pensamento
tem emoções como as casas prateleiras,
sobre que louças e publicações exercem
a disponibilidade de uma coisa que tanto
pode ser a memória como o desejo.


Muito ruído se consome em linha de espera
para o silêncio terminal que afinal abençoa
a pessoa – tanto assim é no insone
preto-e-branco dos sonhos como nas tardes
estádias de uma festa sem alegria interior.


Prospector de remediações avulsas para o mal
sistémico, o relógio cardíaco inventa muito e
mente talvez mais, embora a verdade
e a justiça o sustentem em, apesar de tudo,
alguma graça, alguma piedade, algum silêncio.


III/


A um pobre consola a tangibilidade dos elementos,
que apreçam em alta o ter-nascido, por mais baixo.
Flâmulas de ouropel abonitam o rio dorsal,
exemplo que a lunar argentinidade segue e confirma.
E sei tão pobre quão antes vos disto falei.


Formosa redundância, respirar e viver ao tempo mesmo:
serenada a consciência territorial, a dedicação
ao tesouro público do ar conforma a paz pessoal,
quando se vai ver que barcos chegaram à pátria,
ou que pátria nos sobra em merecimento de barcos.


Com propriedade, o idioma releva e revela
as cerimónias rituais do comer e do beber,
do ler e do escrever, do querer e do querido ser,
do respeitar num animal o poder telúrico,
numa praia a vigília do oceano.


IV/


Vascular, cerebral, acidental, toda a pessoa espraia
suas águas com mais ou menos verba, com verbo
sempre porém. Esta condição activa redime a
da pobreza cosmogónica decorrente da impossibilidade
de entender o tudo do grande nada que incorpora.


Papéis coloridos e doses de vinagre alternam
em seu figurativo coração, da pintura mexicana
aos proletários dizimados dos anos 30/XX
e de todos os outros, digo, anos/séculos, da poesia
moçambicana aos chás calados das senhoras suecas.


Vilegiaturas valetudinárias escoroçoam magmas,
se um vulcão for pensável a tempo, se uma
biologia afectuosa consolar nem que apenas
quinze dias de uma existência de-cabo-a-rabo,
poupadas algumas moedas para pão e cigarros.


V/


Lances físico-químicos esborratam o magnífico
firmamento, que os tristes insistem em reduzir
a deus e a necessidadezinhas domésticas,
da pulga do cão à virgindade suspeita da
vizinha, essa cabra-do-monte etc.

Gurus e citaristas podem beatlezar-se q.b.,
mesmo assim alguns de nós nos sabemos
pouco menos que nada ante tudo o mais.
Ressalva-nos a salvação oratória da grande
música, quando sentir é pensar pelos ouvidos.


Em isto, solta-se a boca, a qual
diz rio, diz semeadura, diz oboé,
diz soalho, diz macieira, diz filtro:
e os ditos repercutem no geral funcionamento
do comércio, que inclui a vida, essa cabra-do-monte.


2. NARRAÇÃO DO ANTES QUE ERA


I/


Era por uma tarde doirada acabando-se,
eu seguia devagar por trilhos do campo,
o fumo tomava em névoa o mundo,
em a casa um animal me esperava,
havia lenha guardada e pão e fruta e café.


A oriente o rio vogava de seu particular céu,
além dos canaviais um rumor de aves tremia,
a casa era de madeira e segurava o chão,
viver era uma distracção bonita e inofensiva,
as botas conferiam a raiz das coisas.


Depois da ceia breve, era tempo de subir aos cristais
que o pano negro alteava diamantinos,
a pauta molhada ouvia-se fluvial,
as pedras sinalizavam o arrefecimento do mundo,
não era outono ainda nem tarde já.


II/

Mas depois foi
agora.


3. NARRAÇÃO DO ANTES QUE ERA


Tenteado tenho a minha vida como as demais,
cidadão do desconhecido vórtice abrasado de frio,
isto é, o mundo e seus arredores autárquicos.
A cabeça feita máquina vocabular, instigo
fartas siderações em torno, à maneira um
pouco talvez do semeador que já não espera, nem
desespera já, viver o próximo estio.
Algum tempo os nomes são pedra, cinza que o
corpo veio para ser e será. Isso mal não tem. Importa
passar além da frialdade das tardes januárias,
quando a enregelada ave não canta nem conta.
Tentear porém conta – e canta.

PELOS PARQUES SE QUEIMA A INFÂNCIA JÁ SENIL COM CHAPÉU


© Jules-Alexis Muenier - Les Cheminaux (1986)




Souto, manhã de 27 de Janeiro de 2010



O horizonte é uma linha de cavalos os mais formosos
As árvores são pensativas agora inclinadas pelo vento de estampa
Olhos deitados são os lagos à passagem dos viajantes
Cidades devassadas por gente que procura não procurar
Indivíduos mais depressa silhuetas que pessoas
Toda a cristandade se apoia em mentiras nada piedosas
Quem tem juízo cultiva caladas rosas
Revoadas de lixo trazem o outono possível aos pés
Pelos parques se queima a infância já senil com chapéu
O soneto quinhentista peninsular não é para aqui chamado
A gente quer viver mas não sabe como nem porparaquê
Ele há aflições viscerais que o passamento volve propedêuticas
Nas lojas chinesas as velas não são espíritas são a cêntimo
Senhoras velhíssimas parecem naperons com os sacos das compras
Se chover fica-se em casa folheando um fascículo do antiguegipto
Dá-se muito pão ao canário para que o peso o não deixe voar
Que raio pensarão agora as árvores estampadas de vento
Nós pensamo-las e o rio as reflecte e o tempo passa e não procura.

Tuesday, January 26, 2010

Em Imitação do Mármore

Souto, noite de 26 de Janeiro de 2010







Que memória genética involuntariamente trazemos agarrada ao sangue? Transmitir-se-nos-á, ou não, a ansiedade própria do amor que algum antepassado sofreu? Se alguém vos foi antes feliz, por que o não somos? É muito funda, esta humanidade portátil nossa. Falo daquele que construiu uma casa com a mulher a que ele quis pertencer. Falo daqueloutro que ao lume do lar juntou o fogo dos seus olhos. E daquela que quis filhos de um homem que não era dela nem era de ninguém. E daqueloutra que acendeu velas numa igreja quando chovia e quando o mundo era quase tão triste como o de hoje. É tão monástica a nossa de cada um solidão. Não estaremos nunca preparados para a doença que prostra as crianças e as fecha em caixas brancas com embutidos dourados. Nunca somos nem seremos nem fomos principescos como os animais. E no entanto é interpretar sinais o que desejamos: a nuvem em cujo torno a tarde reverbera, o milagre da laranjeira, a poderosa covardia que é a mais íntima e a mais leal das nossas irmãs, um velho que uma vez vi dotado da perfeição das árvores, um sonho em que sorrimos a quem nos sorri por nos desejar bem e muito. E não é loucos que estamos ou somos quando, tão nítidos, tão clarividentes, os nossos mais amados mortos juncam e infestam o tom da voz e o traço do gesto dos nossos vivos mais amados. Reanima-se em nós um século que não poderemos viver antes da nossa de cada um morte. Quando estou acordada dentro do sono, somos-te. Balcões amurados sobre um trecho de rio seriam tudo quanto nos pertenceria em a glória da pobreza. Tu viajaste de comboio quando adoecemos, a febre vossa nos pagou o bilhete, as janelas fotogramavam a vaca e o cavalo e a ovelha e o cão no prado, a silhueta da extinta fábrica, um raio de sol obliquando o terror do amor por alguém que nos não quer e não vais ter de mim. E os nomes com que imitamos o mármore? E os talhões de soldados abatidos que só pudemos esquecer por termos morrido, também nós como vós, à nascença? Oh sim, profundas casas como poços molham de enguias os nossos olhos e as estrelas que nos perdem, que são os olhos do Senhor, seja o senhor quem for-
mos.

O Sentido da H. do P.

Souto, noite de 26 de Janeiro de 2010



Como um peixe denuncia o mar, interessa-me quanto e como a tristeza anuncia a pessoa. Muito para além dos constrangimentos sociais, da merda sistémica das religiões, da sexualidade industrializada, a pessoa interessa-me – e a tristeza dela também e sobretudo.
Estudo e escrevo nesse sentido: o sentido da humanidade do peixe.

Quatro para a Espera





Pombal, tarde de 25 de Janeiro de 2010

1

Assim como as laranjas são os olhos da laranjeira, assim a claridade de um rosto é toda água colorida por olhar.
Nada me custa esta verificação (esta versificação) ao sol fresco da segunda-feira, começada a tarde de Janeiro. A oriente, dardeja ouro a imitação da montanha. Penso num amigo doente sem saber porquê. Além, a residencial, além o hotel, aqui agora o rio de pobres desta cidade desengraçada.
Há uma laranjeira em o meio do meu caminho solitário. Outras houve na minha vida, em outro século. Gosto de laranjeiras. Acho-as uma recompensa. Na infância, pertenci a uma figueira com nome: a Figueira da Carmo, não sei de onde lhe vinha a graça fêmea, era o nome que tinha. Emanava figos capitosos, de uma ardência açucarada que algumas mulheres seivam pelos mamilos quando ciosas. Nem todas.
Saí a ver o sol reinstaurando o mundo destas bandas. A sapataria de preços populares, a shop erótica, a pastelaria deprimente, a petisqueira onde o brasileiro que matou a mulher à facada deve ter bebido muita cerveja e muita cachaça em celebração do exílio e da loucura, as coisas do mundo que por tolice enumero em cadernos para ninguém.
Assisto agora, com delícia, ao homem distraído que almoça carne assada no forno com lâminas de batata dourada no molho e arroz solto ao gosto da pomba com aparas de chouriço crestado. Bebe uma pouca de vinho em sorvos pensativos. Agora ele conversa com um aposentado alto, que enverga boa roupa de escuro azul e calça sapatos embolados de joanetes. O meu sossego é de uma experimentada angústia, em absoluto delicada como eu, quando colorido pelo sol.

2

Na rua que a sombra tomou ao cabo do meio-dia, é bom arder de frio ante as pessoas que passam. Uma senhora mais nova do que eu, lá vai ela, de blusão acolchoado castanho, botas de salto, pernas saudáveis, cabelo de castanho natural. Dois cavalheiros falam de um cão que há-de vir do veterinário. Um deles parece gostar muito do cão. Ainda bem, penso.
Ao ar fresco, o cigarro é a fogueira possível. Às vezes, a proximidade do comboio trepida a atenção à passagem, à velha eterna efemeridade da passagem. Surge então um ror de vocábulos: duas mulheres falam de uma terceira que é de casamento muito infeliz. O homem bebe e bate-lhe quando consegue acertar-lhe. Sorrio escuramente à informação, que é de largo espectro de acção humana.
Quantas vezes terei derivado pela falta disto? Digo: estar vivo na antemão dos vocábulos que a tudo informam e enformam, tais: a mulher violentada, a mulher acolchoada, um cão amado, uma figueira com nome de mulher?
Muitas vezes.

3

Um senhor chamado Jaime lê o jornal do dia. Gorda aliança o anela à esquerda. Clareira capilar ligeira, resto da cabeça bem conformado de farripas grisas, maduras, dadas ao respeito público, níveas, outonais. É cumprimentado por um cavalheiro que veio a comer um pires de dobrada esparsa em feijão branco.
Estes senhores são do meu tempo. O meu tempo é nosso – e é este. A esta hora, casas arruinadas sustentam ’inda ferrugentas árvores de fruto, riscos de pedra traçados por crianças octogenárias. Ao menos eu, eu compreendo quanto digo por escrito. Por exemplo:
– Andava eu na Primeira Classe (não na dos comboios, mas na da Escola Primaria), levou-me o meu Pai a casa de um cliente dele que era das bandas de Aveiro. Suponho hoje que não seria longe de onde o Eça passou temporadas infantis. O almoço era leitão em honra do meu Pai. O filho da casa andava na Quarta Classe – e recordo com cristalina e absoluta perfeição como tal estatuto me pareceu invencível: andar na Quarta!
Depois sou este agora, com mais escola e menos cristalinidade.

4

Espera.
Caramba, é o meu tempo.
Quando se soluça, soluça-se em entrecortadas
linhas.
A força animal dos homens argentários,
o encosto feminil da economia doméstica,
a invencível saturação existencial dos domingos,
o Schumacher guarda-redes alemão não ter sido
expulso tendo feito o que fez, em 1982, ao
Battiston, coitado do Battiston:
tudo é catalogável em remanescente efeito.
Vigor, glicínia, gardénia, cisne, multibanco:
remanescentes efeitos à borda da Vala do Norte,
de um dia a morte.
Espera.

Dezasseis na Esfera do Ex-Menino


Rilke em 1902



Pombal, tarde de 23 de Janeiro de 2010

1



O menino fez-se silhueta adulta de café.
As circunstâncias tornaram-no dedutível nos impostos.
Fizeram-no cidadão.
O menino não tem quaisquer hipóteses de não ser gregário.
O café e a repartição de finanças são creches para ex-meninos.
Na Coreia do Sul, a coisa é a mesma.
O Universo Possível agrega adrede ex-crianças que alugam a carne à fábrica de canhões,
A Atília, o Josué, o Carlos Chuva, a Man’ela Pernalta – duas ex-meninas, dois ex-meninos.
Eles não são cientes (mas não importa que não) de que o Menino Jesus se esteja nas tintas para a Poesia Portuguesa do século XXI, a qual, convenhamos, é sobretudo ex-meninice a rebater na tecla do erotismo pós-divórcio etc.
O ex-menino caminha pelo acesso descendente à cidade, há prédios novos a ocidente, estão todos à venda, já os pintaram, canalizaram, electrificaram, sinalizaram.
O ex-menino fala de futebol africano com os ex-meninos construtores de prédios, pintores de prédios, canalizadores de prédios, electrificadores de prédios, sinalizadores de prédios.
O ex-menino fala de futebol africano com eles mas pensa nisto assim:
COMO SERÁ DIZÍVEL ESTE SÁBADO A ESTE MATIZ DE LUZ?



2



Este sábado a este matiz de luz
durante a duração da minha vida.
Este corpo com lápis na voz.
Estes prédios novos, esta avenida.



Tinta azul fecha o corpo da cooperativa agrícola,
à passagem os camiões abrem as europas.
Fecha-se o coração em copas,
agra fervilha a vesícula.



O corpo da mãe é cidadão de amor extinto.
Altaneiro castelo reina pradarias.
Tabaco ao balcão, à mesa o tinto:
a vida tem noites, a vida tem dias.



3



Um revoar de aves outonais sulca o coração,
não é fácil ir pelo parque depois da chuva.
O corpo circunvizinha coretos apagados,
de segunda a sexta é mais fácil esquecer.



Lojinha de pronto-a-comer para celibatários,
notícias do filho da vizinha luxemburgado.
Gesto gentil de sob o loureiro frio,
à passagem, qual ave outonal, do corpo.



Maravilhoso ror de pessoas devindas sombras,
imitadoras de faca & viola em viela & caca.
Estupenda portugalidade da solidão bruta,
à taxa de 21 por cento em descontos.



Leiria cresce para charcos adjacentes,
Peso da Régua doura pílulas amargosas.
A rádio a tudo liga, no escuro dos carros.
À direita corta-se por laranjais pretos.



Diz-me, Paulo R., se a perfumada tarde de maçãs
alonga ainda as nossas áleas-vidas
em decurso ininterrupto quais cinemas
de íntimo glandular embaçamento?



Na Suécia, diz-se, tem-se vagar de carpinteiro
na solidão dos grandes frios, desertas as ruas.
Em Portugal, digo-o eu, o calor é de fornalha
mas não a terra a quem a trabalha.



Brune-se de antiguidade a madeira corporal,
alemães revestidos de pret’encarnado vogam
no ar da História dos Velhos Burgos, enquanto
as avós portuguesas coam azeites e netos.

Um coração revoa de outonos tantoutras aves.



4



Não pudemos, mãe nossa de ninguém, guardar lição
de intempérie nem caligrafia propedêutica.
Socráticas são a ironia e a maiêutica
mas é que, mãe, arrulha rolas o coração.



5



O lindo amor de quem se ama é bonito
como, diz o povo, os coisos a bater no pito.



6



Circunstância agradaprazível da minha vida, o ritmo
insular da Língua assola circunvalações
acólitas de si mesmas, aos trambolhões,
em ínsuas-ilhas-ínsulas-e-istmo.



7



Vem, Madalena, colher a vagarosa rosa
da tarde finada, vem.
Madalena, os guisados sem cebola o não são.
Assim sem Madalena é o coração.



8



Um fio de azeite é cometa em escuro quarto.



9



Amador esquecível da liberdade e da história,
atrevo calado e puro lavras temíveis
de glicínias e perduração. Se louca amargura,
muito bem. Da Coimbra em este canto anódino,
a manha embraia e tece a esquissa –
da mama luciferante, o circo da Histeria,
quem há dever-se.



(Decalcomania poética sobre Rui Knopfli,
de I. Proposição, in O Escriba Acocorado,
Moraes Editores, Lx., 1978:



“Servidor incorruptível da verdade e da memória,
escrevo sentado e obscuro palavras terríveis
de ignomínia e acusação. De pouca ternura
também. Na penumbra deste recanto anónimo,
a aranha sombria entretece na quebradiça

baba lucilante o fabrico da História
que há-de ler-se. (…)”)



10



Eu de ex-menino-em-menino-inda sabia já
a mentira genérica dos reis sobre os homens
embora homens.
E então?
Então, só a concertada filhadaputice oblitera
a involuntária asneira de haver nascido,
em pior,
de algum, de homem & mulher,
amor.



11



Ele tinha de seu o respirar – e muito era
quanto tinha, ainda assim.

Como domingo à tarde em um cinema, a Língua
o sentava escuramente ante a luz.
Buda, Jeová, Alá ou Jesus – o não socorriam.
Alguns poetas sim.



Duíno, o Castelo, esse homem tremendo no papel.
Seiscentos gajos antónios, um que é daniel.
Emanuel. Rafael. Miguel. Arcangel.
Ele tinha de respirar o seu.



12



Comandita de nervagruras
cedeu pólipo a mor toranja.
Pratos do dia, ruibarbo e canja,
vinhaça em taças as mais escuras.



Selénica sede mas não social,
agrofilinagem a tanto o grama.
Lençóis lavados em suja cama,
pensões malapostas doitoportugal.



13



O menino tem hipóteses de não ser Gregório.



14



Antigamente o Sporting de Espinho, o Bazar do Porto, o Varzim Sport Clube, os Gelados Rajá e aquilo dos áugures, isto é, a Vida, isto é, Missão: Impossível.



15



O pai é um homem parecido com a ausência
de todos os outros.
Não é assim o vosso?, pergunto
eu.



16



Esfera armilar e valvular,
o coração físico é uma bomba.
Às vezes s’iça, outras se tomba,
esfera valvular e armilar.

É com esta maltosa que temos de alterar a ortografia? Qual ortografia? De que Língua?

Repiiblica de Angola


Empresa teixera Duarte

A Sua Exeel6ncia Encampdo Gem1 Paulo Fialho Grupo de Obra .

A.C.V #

' .

Tendo enconta a c a r e d a l i escolar do ano lectivo 2009 para

2010. Ministkrio da eduqiio em colabora@o com as suas parceria esta

datada arealkqiio das prova finais para o mi% de Novembro 1 2009.

Nesta order ideias no desilance da situa@o o Institute do MCdio

Industrial de Luanda (IMIL) pgramou e colocou em disponibidade dos

alunos a realiaqiio das provas fkais que ted lugar no dia 16 do corrente

mEs em referhcio.

De cordo corn artigo 155 da Lei geral de trabalho vigente ou seja

venho mui ~speitosamentes olicitar aos meu dignos lider desta direc*,

para dispensar-me neste period0 de prova que inicirra no dia datada em

referhcia e terminara no dia 23 .

Serto que a digne infomaqk sex5 de suma lideral, pmp6nho a

subistitui@o de urn l i c k nesta iimte de trabalho at6 dia 24 ou a data a sere

descrhkda pela Direc@o de Obra .

Refireme tamMm que penso mui-ingarecidamente as rninhas

cinceras disculpas e mesabilidade comprien* por park dos meu

superiores.

Sem outro assunto demomento

Subus Escrexo-me

Luanda, aos 10 de Novembro de 2009.

Sunday, January 24, 2010

Procrastinar É Mau


© Eugénio Moreira (1871-1913) – Auto-retrato circa 1900




Souto, noite de 24 de Janeiro de 2010



Toda a pessoa é contemporânea de seus erros, por mais pretéritos. É comum condição dos viventes. Vou resgatando-me dos meus pela ilusão franca da literatura. Volvem-se os erros imagens verbais. Assim sobrevivo. Desempenho urbanidades com um coração de facto rural. Estudo muito – e muito silenciosamente. Meia-dúzia de livros na vida que resta – não é mau. Enquanto as glândulas não pifam, não é mau alinhavar as costuras desses livros esquecíveis. Alguns temas são-me, mais do que preciosos, incontornáveis. Restabeleço a igualdade da minha pessoa com eles, digo: o Tempo, a geminação Vida/Morte, o Corpo, Comida/Bebida, Música, Rio/Mar, Cromia, Dia/Noite, Língua Portuguesa. Posso insultar em plena glória obscena: já o fiz, voltarei a fazê-lo. Há sempre o perigo da felicidade, por outro lado. É tarde de mais para não ser feliz. O hábito da pobreza trouxe-me a prodigiosa liberalidade dos elementos: uma rua deserta ao alvor, dar de comer a um animal sem dono nem casa, um V migratório de aves altíssimas, as cegonhas do Louriçal, o chapéu de Afonso Duarte, a dicotomia Yourcenar/Woolf, um raio de sol rasgando o cartão pluvial da adolescência. Procrastinar é que não é já possível. Em Braga, terminava o Outubro de 1986, estive num café que entra num poema de João Miguel Fernandes Jorge. Sei que um Natal houve em que Ruy Belo correu Peniche à procura de um livro de Alexandre Herculano, não sei qual. Sei que Herculano é o Lado-B de Pompeia. Que a Yourcenar adoptou o norte-americano Maine para se resgatar do Grande Escultor. Que a obra de Chaplin é imperecível. Que nenhum religião é suportável nem credível ante a leucemia infantil. Que a obra de Bach não é perecível. Que o amor perece fisicamente como um fruto abandonado. São coisas que sei. Aprendi a escrever para ser. Isto é verdade. Não tem de ser lido pelo lado confessional. Não tem sequer de ser lido. Faço por entrar nas coisas, no sentido delas. Um Rodrigo Emílio. Um Eugénio Moreira. Um Manuel Bandeira. Um Carlo Levi. Um Alphonse Daudet. Um Georges Duhamel. Um Friederich Dürrenmatt. Um Juan Ramón Jiménez. Um James Hilton. Uma Jane Austen. Uma Mercè Rodoreda. Um J. K. Jerome. Um Robert A. Heinlein. Um Ray Bradbury. Um Rodrigues Lobo. Uma Daphne du Maurier. Um Malcolm Lowry. Uma tarde solitária perto de um rio. Uma choupana resistente ao vento pluvial.

P.C.C.C.E.C.


© Henri Cartier-Bresson – Xangai, 1949





Souto, tarde de 24 de Janeiro de 2010



Cavaleiros crepusculares anunciam as destruições humanas em curso
São assassinos poentes a soldo da selvajaria institucional
POR CRISTO COM CRISTO EM CRISTO
Apreciável indiferença mana dos televisores dos cafés rurais e urbanos
As pequenas vidas querem lá saber de lagoas apodrecidas ou de genocídios
A branca capelinha alvejando ao alto da colinazinha é q.b. de metafísica
Os brancos os pretos os ruços os ciganos os gays os contabilistas tudo é gente
POR CRISTO COM CRISTO EM CRISTO
A puta da religião putifica fartamente a já natural estupidez da espécie
400 milhões de totós com turbante vão-se ajoelhar ao pé do calhau cúbico
Aqui na parvónia os chinelos de borracha fluorescente pedestram pa’ Fátima
O empregozito na secretaria a quinzenazita no Algarve
A moralidadezita do pintorzeco de garagem
A divorciada que se mete a escrever versos na internet
O malcasado que se mete a escrever versos na internet
Muito verso da porra há na porra da internet
POR CRISTO COM CRISTO EM CRISTO
A password é Cristo o hardware é um calhau por cérebro
Cavaleiros crepusculares de fiat-uno cagam as ruas todas de lixo mental
Não haver maneira de mandar tudo e todos de vez à puta-que-os-
Em-má-hora-pariu
POR CRISTO COM CRISTO EM CRISTO