Monday, August 31, 2009

Instruções para Bocejar em Concertos ou em Esposende


Souto, Casa, noite de 31 de Agosto de 2009

(desconheço o Autor da fotografia e a datação da mesma)

Tenho a consciência disponível como um trapo de cozinha. Penso que foi em Ovar o acidente com o carrossel, feridos mecânicos, nenhum morto. Aquelas tardes ante o repuxo luminoso abrindo caminho para a Régua lá foram à vida. Voltas cheias de sensatez pela margem direita do Pavia, depois de duas ou três ou mesmo quatro igrejas, também. Sub-instância: por aqui. Modo, atributo. Facilidade, trapo móvel, esparadrapo. Não, Ovar não, Esmoriz, Esmoriz sim. Aquele homem de olhos castanhos igual a um pardal, um busto de pardal cabeceando ao frio da manhã avenida a cima a baixo, pronto a enfileirar na galeria dos gessos mais anónimos. Perto dele sempre, pátios tomados pelo panasco e pela silva, entre pedras que contiveram gente, alguma dela académica. Estive em Esposende e em Vila do Conde, nesta vida. Em Santiago do Cacém e em Queluz. Em Benfica e na Reboleira. A estátua do Bispo devorador de criadas imaginárias, a felicidade ranhosa dos misantropos, o vórtice-vela dos mortos-de-cera. St. Ives de Cornwall, as pedras roendo as águas e as aves, as velhas duras como músculos de velhas, duras como ser verdade que a inteligência e a sensualidade estão ligadas como aves a árvores a mais aves mais árvores. Dias e esplendores, nenhuma interrogação grave. Despedidas serenas, entre S. Pedro de Moel ou do Sul, dá o mesmo, ou Vieira de Leiria, a ridícula casa com telhado para neve em frente à praia de Pedrógão. Atitude entre pinheiros, merenda breve de frango assado e tiras de queijo, fuga em pleno tufão de granizo, os cetáceos hidráulicos fumegando na linha do mar, outra tarde sem aviso. E a caminho disto-agora, todo o cuidado é pouco. Aves, abelhas, velhas, ovos. A Plath, o Lowell. Canteiros com flores cujos nomes declinam o vento em sílabas, criancinhas absortas como juncos, castros e ínsuas, os clássicos descascados como cebolas, ler em cozinhas, bocejar em concertos, decotes sardentos e lufadas de pó-de-arroz, em Ílhavo também estive, não pensei a tempo de Vagos, de Carromeu, de Vilamar, de St. Ives. Um homem preenchendo uma gabardina parda, de passagem em revoada pelo outono final de uma praça, transidas de frio as colombinas sem comida nem passado, a domesticação das vozes maníaco-deprimidas a caminho da farmácia ou do bergantim, do lobo-do-mar ou das meretrizes espalhadas pelo leito da avenida como despojos de coral. O Garção, o Miranda. Em Tavira e em S. Bernardino.

Sunday, August 30, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (46 - Final)

Viseu, 8 de Março de 2008




46

Souto, Casa, madrugada de 31 de Agosto de 2009



Agosto acaba, vai-se embora o mês parolo.
Este diário, parolo também, também acaba.
Já penso (n)o livro de Setembro.

Escrevo para não morrer tanto - ou ainda: um pouco antes de amanhã.

Assim já era a 26 de Maio deste 2009, assim segue sendo, um pouco mais, consecutivamente.

Friday, August 28, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (45)

Souto, Casa, madrugada de 29 de Agosto de 2009





Ambiciono o relógio secreto dos gatos, pequenos budas amendoados e vivos oráculos da selva imemorial ao ouro dos crepúsculos.
Receio bem que a criança-em-mim seja um velho.
Ainda desejo um rio, um sítio de visões verbais, uma hora atlântica, um estar acordado sem fazer mal a ninguém.
Tenho muitas coisas porque nada possuo.
Culpa nenhuma de amar a medula espinal da minha cidade: rio triste de empregaditos do comércio, doutores estúpidos como folhas-de-flandres, cães maravilhosos sem deus nem mestre como na canção.
Sim, fundas máculas herdadas (o versilibrismo é hereditário): hoje, ao espelho raspando o rosto, dei nos olhos com o olhar do meu Pai e com o olhar dos homens dele, o Pai do Pai, os Irmãos do Pai, os Filhos do Pai.
Durou uns instantes, depois a água fria lavou e levou tudo.
Vejo nomes, também.
Assisto a caligrafias, é interessante: tudo é escrito.
Uma manhã, vi uma árvore vermelha de sentinela a uma casa verde.
Vi com estes que a terra há-de beber.
Vi também um caminho de pó bordando ligeira colina, era decerto manhã muito cedo, havia patos-mandarins de perfeita geometria (diedros, pensei, mas não sabia, a palavra bastava), não sei se já andava se não andava ainda no Liceu, eu via coisas com o corpo todo, era engraçado estar vivo e ver e ler.
Depois a noite fez-se hoje, é hoje há muitos anos, há muitos ontens, às vezes é difícil, o instante engelha-se como papel, o meu rosto também, por onde eles olham.
E sem o pecado da minha fundamental cegueira, da minha pessoal estupidez invencível, as raparigas conversam nos bancos traseiros dos carros com a pele, geram esquinas na biografia, umas são caixeiras de farmácia, outras tiraram geriatria, quase todas sonham com o Canadá, não sei porquê.
Poderoso é o mar esquecendo gerações, o indiferente mar que espera em pura eternidade, sítio antes da escrita, leitura de monstros irremediáveis.
Certa vez, fui a um convívio de trabalhadores, havia viola, ferrinhos e acordeão e bolo de laranja e febras e vinho e laranjada, as décadas correram través esse cenário, o meu irmão Fernando vestia uma camisola azul-escura, estou a ver isso.
A noite agora, o poder mediúnico (único, único) dos gatos, a caligrafia sem repouso desta espécie de dor, não sei.
Bolas verdes de árvore-de-natal, diedros e didascálias, nomes e medos, carros que buzinam dentro de ravinas ou sonhos, tremendas apogiaturas silábicas, bosques nefandos, virgindades de carácter e bacalhau com natas da Senhora Emília.
Ambiciono a cartografia do átomo planetário, como suportar a morte dos amados, revelar-te maninhas coisas por graça.
Quando algo em mim se fez à estrada sem bilhete, vastos laranjais ardiam de açúcar para as bandas do Sul, longos cabos de alta-tensão vibravam cifras já desumanas, os animais adoeciam e ensinavam o morrer, carrinhas verdes levavam tudo, bananas, remédios, pás, operários, escovas.
Eu podia ser outro, se não me barbeasse - ou se não tivesse aprendido a ler.
Uma senhora, dinamarquesa e viúva, faz chá em casa dela, ouve Berlioz pela telefonia, pensa coisas minuciosas sobre a igreja, a filha estudante em Toronto, a saúde declinante da mãe dela.
Ainda desço a Rua dos Navegadores, ainda cheiro os jardins abonados da parte da cidade onde explorei a vacuidade dos domingos, essas terríveis épocas da História.
De dois em dois anos, lá descem eles de Santa Clara com a Rainha Santa ao colo, as famílias balem farturas por tudo quanto é canto, eu dissipo-me na Avenida Navarro, dou que fazer às sombras com uma tristeza muito poderosa e bastante portuguesa.
Então os animais douram o campo de visão, os bailes ronronam de amor operário, há foguetes-de-lágrimas, para Oriente pulsa a redoma de cristal das criancinhas divinas, os comboios partem para a cidade marítima, um terror delicioso toma-me as vísceras.
Tudo isto é de uma natureza desimportante, o que sempre alivia.
A função entrou, o ofício vigia, o corpo dá-se a tréguas que muito bem entende, tudo é literatura - e nada importa.
Beleza e pinhais, muita lucidez, comoção epigráfica ante as normandias heróicas e anónimas das famílias laboreiras, decifração e paz mental, orlas e escumas, uma vida litoral.
Sim, os animais douram a vida crepuscular - e são públicos e secretos como a Lua.
(Sei que isto é uma ladeira.)


UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (44)

Souto, Casa, noite de 28 de Agosto de 2009





Que engraçados são os fátuos fantasmas de cada um,
medusas de água em água semelham pelo coração,
desfeitos já os pequeninos desejos que os fomentaram.

Tenho os meus. Tu os teus terás, é humano, como humana
é esta caixa de ressonância dos tristes, a língua-pátria,
campo queimado com carroças, cães, elegias e ciganos.

Não saio de casa para que passeiem os fátuos,
no Café da Pernambucana fui feliz devagarinho,
muito gostavam os meus fantasmas da chuva a dar no mar.

Distraí-me gravemente na vida, é o que é, foi o que foi,
solto hoje versos para pagar tanta desfactura,
que engraçado ser como tu, campo de medusas.

Altas torres incendiadas crepitam pinheiros e pedras,
casalinhos de citroën ambulam 1976 afora,
pelas bermas se oferecia o belo melão, o pêssego carnudo.

Depois uma pessoa cresce nos ossos como musgo, torna-se lenta
e grave, dá por si mesma num café de Leiria contando moscas e sílabas,
ouve falar de um crime, comenta as legislativas.

Escusado demandar a poetas sentido para a vida,
o amor é mais que vidro delicado - e a solidão
é grave e material como um ferro, uma boca.

Há documentos dentro do coração, Espinosa polia lentes,
Herculano e Pompeia pouparam tempo, vale-nos
um Sherwood Anderson, uma ida calada ao rio.

E um dia um poeta será seus versos só,
maluquinho inofensivo como o bêbado da aldeia,
o professor primário, o senhor padre, a senhora que dá injecções.

Quando digo fantasmas, digo Setúbal, a Arrábida,
o cantor sem contrato folheando álbuns amarelos,
coisas assim da patriágua das medusas.

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (43)

Souto, Casa, entardenoitecer de 28 de Agosto de 2009





A pessoa levanta breves voos sob a estelar joalharia,
gados ideais apascenta em solidão pensativa,
recados telefónicos trazem-lhe óbitos e nascimentos,
as esquinas da cidade vibram harpas de chuva.

Não muito voa a pessoa senão quanto pensa,
havia domingos filarmónicos de coreto,
avoengas crianças pareciam milagres de chita,
senhores de chapéu-palhinha urdiam sonetos infuturos.

Arrozais vivos pulsavam cegonhas e rãs,
hoje as fábricas quebram-se como mãos,
há 'inda vocábulos amados no contador da sala,
flores fazem-se papel à tinta da luz.

Isto é quanto posso na pessoa que me coube,
para isto me engendrei sem, receio, grande cuidado,
tenho muita pena das pessoas que perdem pessoas,
muita pena do pequeno comércio e das estrelas também tenho.

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (42)

Souto, Casa, tarde de 28 de Agosto de 2009





Aqui posso ser 'inda um pouco mais, o tempo
ajuda, máquina amarela urdindo as casas e as gaiolas,
as existências são pobres sob as estrelas, entre sinais
de trânsito e apartamentos à venda perante tísicos
jardins, quem deixou aqui este resto de catrapilo?,

vou indo e levando e trazendo, o pequeno comércio
anseia pelo futuro como as criadinhas-de-servir
antigamente por magalas e farfalhudos gendarmes de giro,
levo 'inda quanta sombra posso ao pó dos caminhos,
nunca uma simples mata me deixou de ser maravilhosa,

uma rosa é 'inda o meu incêndio nuclear favorito,
juntando vou devagar os meus despojos, uma chávena,
uma caixa de fósforos, uma colecção de cromos, um jeito
por assim dizer vocação para fixar a doçura inútil
dos sonhos acordados como cães acorrentados a bidões,

meia-dúzia de palavras mais e estou feito, um cão
aumenta a tarde passando sua magistratura castanha,
frequento odes e elegias como outros senhores as putas
e as vereações, firmo a minha alegria furiosamente,
já vi lagoas e caleches e gente só ante cais de madeira,

pura pedra assenta a criança admoestada pela poesia,
um dia será de novo dia de pão de cinza, de rosas
de mármore, muitos anjos acorrerão ao sal dos olhos
para ser tule e gaze e popelina e terileno,
a criança subirá a chuva convocatória em ominoso monte,

vale dentro do pensamento a liberdade invencível, aqui,
na casa amarela atirada às estrelas pela força da luz,
castanho passa o senhor cão, as lojas fecham às sete,
então calamo-nos todos um pouco imitando o cais,
à excepção da água que canta nos canos o rio preso.

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (41)

Souto, Casa, tarde de 27 de Agosto de 2009




O coração é um dos meandros do Outono.
Sinuosa matriz de ribeiros é o coração.
O mundo existe verdadeiro só no sono.
Não morrer ainda hoje é a suma condição.

Thursday, August 27, 2009

Rosário Breve nº 118 - O Ribatejo - www.oribatejo.pt

Mundo-cão

É-me inevitável: de cada vez que se aproximam eleições, solto-me aos cães.

Faço assim: pela calada da noite, vou à varanda e sobressalto com perguntas retóricas a canzoada que dormia em pura inocência. Tipo isto: “Vocês voltam a votar no mesmo?”. E os cães: “Não, Não, Ão, Ão!”.

E eu: “Que é que vos falta?”. E eles: “Pão, Pão, Ão, Ão!”.

E eu assim: “Mas então os políticos são ladrões?”. E eles: “São, São, Ão, Ão!”.

Acendo um cigarro e rio-me baixinho, escarninho, contentinho da minha triste vida. Depressa volto à carga, claro: “Mas ó sacos-de-pulgas, almas dum raio, vocês acham que eles se dão bem uns com os outros?” E eles: “Dão, Dão, Ão, Ão!”.

E eu, felicíssimo e melancólico: “Será possível que eles vão continuar a gozar c’a gente?” E eles: “Vão, Vão, Ão, Ão!”.

Aproveito-lhes o ditongo nasal ao máximo, naturalmente: “Hão-de eles continuar a ser mais do mesmo p’ra pior?”. E eles: “Hão-de, Hão-de, Ão-de, Ão-de!”.

Isto com gatos não (ão, ão) resulta, já aviso, não vá o meu leitor, não tendo cão, querer caçar com tareco. Nem com canários, cágados, sogras, baratas e/ou outros bichos de estimação. A verdade é que só lá iremos soltando-lhes, a eles, os cães. Fume-se ou não, tenha-se ou não varanda.

O que é preciso é que tal caravana deixe de passar, ao menos impune. Mesmo que a nossa, aliás legítima, indignação perca a cedilha. Nem resignação nem persignação, ó mundo-cão!

(Eu sei, eu sei: isto depois passa-me, passa-nos a todos. Depois de lá repostos “eles” como mandadores deste vira-que-tira-e-torna-a-tirar, voltaremos todos a coleccionar cêntimos para demandar nos tristes hipermercados da modernidade as marcas-brancas dos pobres-de-espírito.)

Mas, enquanto não, “Não, Não, Ão, Ão!”.

Tuesday, August 25, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (38-40)




38

Souto, Casa, tarde de 24 de Agosto de 2009

O Tempo toca a minha casa como uma criança das antigas se levava em frente uma roda.



39

Souto, Casa, 25 de Agosto de 2009

Mira aqui serena a vida das plantas e das nuvens,
toca a pele da luz à face do ar já outonal,
o nosso país é a sul da vida, é Portugal,
para onde pessoa vais pois é de onde vens.

Por mim, faço por ter mimosas as horas
as mais circunspectas no tempo que se desfaz,
nem mais lobrigo razões ou demoras,
é preciso viver sendo bom rapaz.



40

Souto, Casa, madrugada de 26 de Agosto de 2009

Algumas coisas da minha vida em andamento?
Assinei uma petição contra a barbárie marialva das touradas.
Revi o contrabaixista Henri Texier no vidro da têvê, vira-o em pessoa no palco do Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, no ido Julho/1980, ao lado do meu malogrado Amigo João da Bininha, com o guitarrista Christian Escoudé e o violinista Didier Lockwood.
Fiz um poema de oito linhas, 4 + 4.
Alimentei as gatas e cocei-as - bem coçadas e bem alimentadas.
Leio Salvador Espriu, Antero de Quental, G. K. Chesterton e Joseph Conrad - mais vale bem acompanhado do que só.
Telefonou-me o João S. Pinto, talvez Coimbra em Setembro nos reúna - boa perspectiva.
Está fresco lá fora, vou defender-me com um caldo de carne e cebola benzido de azeite.
A madrugada já se abriu como uma toalha de linho escuro sobre o altar do mundo, não andarei na noite por aí, o candeeiro sobre o lado esquerdo como o coração - e como o coração aceso, os livros também abertos, generosos dadores de outras vidas outros sangues, pistas no Tempo, cifras que a imaginação lê e segue nas horas sozinhas.
Vi e ouvi o Geraldine Laurent Trio - bem boa música: "Lester Left Town", eu não.

Dou-me bem revisitando visões sobre o campo, sentado no muro de pedra argamassada a terra que já então se esboroava, olhando o campo e a moldura de amieiros e choupos, as linhas de água subindo devagar ao firmamento de paleta crepuscular, a polícia vinha pouco ao bairro, no fundo éramos aldeia como há séculos vínhamos sendo, os nossos mortos aprendiam depressa o latim e o mármore, a Senhora da Piedade sempre pálida e azul sempre, já então me sentia tocado pela melancolia pluvial até quando não chovia, isso não tinha nem tem mal algum, era e é apenas assim, cada um para o que nasce enquanto não morre, do campo chegavam os casais cultivadores pela Costa ou pelo Val' Forno, chegavam perfumando as ruas de terra verde, carregavam pertences e joalharias que hoje identifico como repolho, batata, couve, nabo, cenoura, cebola, alho, hortelã, oiro.
Dou-me bem não precisando de olhar para seguir vendo o campo, sentado de pedra no muro de terra, trabalhavam 'inda as fábricas, movia-as a coragem quotidiana e anónima de quantos regressavam a casa fatigados e prontos e humanos e justos, homens e mulheres que de vez em quando morriam de vez em quando nasciam, eu juntava as minhas letras e sabia-me destinado a ser pessoa, condição afinal terrível por inevitável, à porta do senhor Amaro juntavam-se os melros de calções que todos éramos, o Armando Torres viria a morrer alcoolizado desde menino, achavam graça a embebedar o menino e embebedavam-no, ele cresceu o que pôde e aprendeu a embebedar-se sozinho, quem o diz a ele diz a outros como eu, não é fácil não andar de calções pela vida que veio depois, esboroando-se.

"Daremos um último nome a cada coisa,
quando velhas recordações façam quase uma nova criação."

(Salvador Espriu, A Pele de Touro, XXXVII)

Contra os sacanas, não contra os touros - contra os sacanas das touradas

Ide e assinai: http://www.petitiononline.com/petition.html

Ladies Only Night






Souto, Casa, tarde de 24 e madrugada de 25 de Agosto de 2009





Tirei hoje o dia para Senhoras.
Uma delas é a Senhora Primavera de Praga, não muito mais do que eu nova.
Outra é a Senhora Nina Simone, rapariga de 70 anos 7 anos toda a vida.
Dona Melancolia tem cativo seu lugar também em a minha bancada: Agosto murcho a assenta contrarrevolucionariamente.
Beatriz ou Isabel d'Este, uma das duas ou ambas, a um balcão de pedra me soltam não rosas mas os cães.
Ouço falar a Senhora Fábrica onde trabalharam os mortos da Senhora Minha Infância.
Senhoras não minhas Ginevra dei Benci e Cecilia Gallerani, que de vós?
Onde a Senhora Mãe do Menino Daniel James Morcombe, pobre vencedora da Lotaria da Ópera, onde a Lenda-em-Vida Mahalia Jackson, onde as estrelas emaranham a desconcertante Humanidade Feminina.

Para estas e por outras Senhoras escrevo, no fundo como à flor da pele convicto afinal de que todas são Uma - pois que a fundamental ignorância de um homem à de todos os homens resume.

Do Bochechas

Isto é capaz de ser engraçado como leitura de fim de Verão:

Monday, August 24, 2009

CONTRA A BARBARIDADE MARIALVA DA TOURADA, ASSINAR PODE AJUDAR

http://www.petitiononline.com/touradas/petition.html

Soneto dos Particulares Outonos com Cão


Souto, Casa, tarde de 24 de Agosto de 2009
Foto: Sandra Bernardo, Louriçal, 11 de Agosto de 2009





Ela ajuda os outonos particulares a enredar as janelas
vivemos por ela e eles a publicidade mais privada
ao lume das casas arrefentam as sombras amarelas
se saires não voltes tarde na noite em madrugada.

Um deles de nós pensa cabisbaixo o chão da festa
na farmácia lhe perguntarão ao que veio
perto um cão de rouco latim por uma fresta
espreita quem passa pela rua ao lado ao meio.

Tempo não de sonetos nem de nada se lhes pareça
seguimos ainda assim a tercetos finais de cabeça
rumo à glória humilde da festa dos dias.

Não é longe o mar nem longe a vida que nos esqueça
havemos de ter cão e festa quanta nos apeteça
ela enreda outonos amarelos em janelas frias.





Quando o telefone toca (sempre duas vezes)


Adaptación de un popular Ringtone de nokia convertido en Fuga por Vincent Lo.

Oystein Baadsvik sopra Piazzolla


Let's enjoy the best Hungarian brass quintet with Oystein Baadsvik!Recorded in Budapest at 27.02. 2009.

Sunday, August 23, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (37)

37.

Souto, Casa, tarde de 23 de Agosto de 2009

Não é este um tempo de nem para sonetos, mais de coisinhas e cozinhas será e é e tem sido, não devo, juntando cosmos a ética, fazer cosmética.


A seguir

http://bearalley.blogspot.com/
Muito interesse tem este sítio: livros, comics, autores - à la british.
Também a partir de agora nos Links da Malcata.

O Polvo

O Foder Local, esse quisto, perdão, conquista de "Abril..." - a partir de hoje nos Links da Malcata.

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (36)

36.

Souto, Casa, tarde e noite de 22 de Agosto de 2009

Foto: Ibidem, 14 de Março de 2009

Vozes femininas trabalham ao sábado por telefone.

Trabalham em vendas (em tentativa de vendas).

Uma quer que digamos coisas da qualidade da água da rede, se aceitaríamos em casa um inquérito, confessa-nos que ganham à percentagem por contacto.

Outra diz valores existenciais sobrevindos do cartão de crédito, de como a nossa vida (e a dela) mudaria(m) se tivéssemos um.

É um sábado, a manhã acabou, não tarda é domingo o resto da vida.

Água e crédito.

Andamos todos ao mesmo.

Ter trocado a vida pela verbalidade dela – biografia possível e (im)provável.

Sedas lambendo a pele: a brisa de sob as cortinas da sala. Canetas deitadas como paus de canoa, espólio de alguma riqueza pessoal: velas, sabão, Bertrand Conway e Agostino Casaroli nas estantes, tripé da máquina fotográfica dela, uma reprodução de Klimt, uma pagela (“Não desapareceu… Vive em Cristo!”) do Professor Doutor Elysio de Moura, a Lempicka e o Hopper, o milénio já vulgar da atenção.

(…) e sábio é aquele que se limita a registar as relações das coisas.

lá diz o Oliveira Martins prefaciador dos Sonetos Completos de Antero de Quental.

Entretanto, guardei um farrapo de cor mais que flava fulva ruiva: um traço entre o laranja e o sangue, a oeste.

Não quero saber sempre da (ou: nem sempre à) estupidez de tão substancial parte do mundo.

É o que há.

Guardo aqui dentro, o mais decentemente, qualquer resq’indício de amargura.

Bebe-se café, fuma-se um cigarro, não se vai engrossar a horda de parolos a lugar algum.

(Isto das carapuças tem muito a ver com as cabeças.)

Plácidas que não ácidas horas torna(n)do adentro com Júlio Dinis, Fialho d’Almeida (a quem o grande Eça, em confissão a Nobre, terá castigado a inveja maledicente e rancorosa com o epíteto de “ignorante”), Trindade Coelho e Antero de Quental – mas também – pois por que não ? – com Algernon Blackwood, H. G. Wells, J. D. Beresford e Gerald Bullett. Uma espécie de paz.

Pelas frinchas mentais, o sopro informativo dos incêndios na Grécia, a libertação de um líbio famoso de uma prisão escocesa, a derrota em casa por 1-2 do Sporting com o Braga, dedos de eleitores cortados no Afeganistão por talibãs ex-amigos do Zamericanos, brincadeiras da fauna humana, morte do actor português Morais e Castro (o cancro levou um advogado dos pobres e dos irremediados).

Reforcei o corpo com calças, vem fresco da varanda, mui moderado é o Verão que se vai escoando pelo tempo corredor.

Assimilei algumas palavras na jornada do sábado:

APOJADURA – aumento intermitente de leite às mamas das mulheres e dos animais;

ALFARIO – cavalo saltão, brincalhão;

ATRO – negro, escuro, funesto (fúnebre);

ACRIDOFAGIA – hábito de comer gafanhotos;

BOLEAR – dar forma de bola a, arredondar, apurar (o estilo);

COALESCER – juntar, aglutinar;

DERRIÇO – maçada, impertinência, chacota, namoro, pessoa que se namora;

EIVAR – contaminar (físico, moral), impregnar;

EIVAR-SE – decair, começar a apodrecer.

Depois era o Verbo.

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (35)


35.

Souto, Casa, tarde de 21 de Agosto de 2009

Este mundo funde-me Laurie Anderson e Antero de Quental, e incêndios de açúcar controlados sob o adstringente nome de dióspiros, frutos de Zeus, e as portas e as janelas da percepção exercida pelos gatos quanto à realidade líquida, e o comboio que leva saudades para Hendaye, Azeitão & Setúbal, Nine & Braga, Bonnie & Clyde, fazendo-se medusa a mão em água-de-sabão, estas ramagens verbais no lugar da cabeça alquilado pelo coração.

Se calhar, o desprezo mudo é um ingrediente precioso e fundamental da receita da felicidade.

(Pens’enti isto agora, deixo-o escrito.)

Saturday, August 22, 2009

Suponho que era mais ou menos isto assim-assim que estava na ideia, se não de Galileo Galei, de Antero de Quental ao menos

Sinead O'Connor & the Chieftains- The Foggy Dew


As down the glen one Easter morn
To a city fair rode I,
Their armed lines of marching men
In squadrons passed me by.
No pipe did hum, no battle drum
Did sound its loud tattoo
But the Angelus' bells o'er the Liffey swells
Rang out in the foggy dew.

Right proudly high in Dublin town
Hung they out a flag of war.
'Twas better to die 'neath an Irish sky
Than at Suvla or Sud el Bar.
And from the plains of Royal Meath
Strong men came hurrying through;
While Brittania's Huns with their long-range guns
Sailed in through the foggy dew.

The bravest fell, and the requiem bell
Rang mournfully and clear
For those who died that Easter-tide
In the springing of the year.
While the world did gaze with deep amaze
At those fearless men but few
Who bore the fight that freedom's light
Might shine through the foggy dew.

And back through the glen I rode again
And my heart with grief was sore
For I parted then with valiant men
Whom I never shall see more
But to and fro
In my dreams I go
And I kneel and pray for you
For slavery fled
Oh, glorious dead
When you fell in the foggy dew

Deep Purple Live in Bilzen (Belgium) 1969 "Wring That Neck"

Ele há maluqueiras muito boas

Ella com Joe Pass

Thursday, August 20, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (34)

34.

Souto, Casa, tarde de 19 de Agosto de 2009

(Foto: vendo televisão em casa, 10 de Março de 2009)

Quando fui menino, já (vi)via os cães (solitários, um por um à sua vida) ao longo da via-férrea.

Soube logo que uma porção grande do meu futuro seria (comendo nozes num monte) recordar cães sozinhos ao longo da desolação férrea.

Assim é para mim a vida, de facto.

Hoje não estou aqui para desvelar a angústia desses seres primitivos, que me incluem, incluíram sempre.

Uma pessoa atém-se à arte que lhe é possível.

É um círculo traçado a giz vermelho.

É como posso dizer.

Trata-se de uma ciência menos bibliotecária do que inconsequente (por irrelevante).

Sudários verónicos.

E estatuárias únicas.

Cobriram com um lençol os despojos do senhor Manuel G., a bicicleta que trazia pela mão tinha sido projectada para longe como uma aranha seca, ele pôs-se a atravessar a linha depois do comboio passar, não pôde aperceber-se de que a primeira composição ocultava outra em sentido contrário, escaqueirou-se como sanguinolenta porcelana, o senhor Manuel G. do país mundial da minha infância.

Sentado na sala em penumbra, entre macios panos, aumentando a biblioteca da minha vida com a inconsequência sem relevo da minha vida: peixes, palavras, pedras, pássaros, cães e vias-férreas e bicicletas atiradas longe.

O som das palavras como rouxinol:

rouxinol, levedura, embate, botúlico, retroviral, similitude, curvilíneo, florescência, apinhada, túnica, ática, acribologia, livresca, rícino, celeiro, borne, Markov (m. 1978), restauro, bote, periclitante, anta, cocção, Salústio, fúria, fuga, Verânio, motel, sanção, canção.

Anos disto, para isto: reputação e refutação: para nada.

Ruas depois estradas, molduras silvestres bordando litorais revertidos a pedra vertical, ao longo da que bolores mínimos, sombras pintadas a água álgida.

Wednesday, August 19, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (33)

33.

Pombal, tarde de 17 de Agosto de 2009

Do país da tarde chega o azul derradeiro.

Margens tocadas de ouro franjam o quadro, de que borbotam um rio e seus íncolas: peixes, pássaros, pedras, palavras.

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (32)

32.

Souto, Casa, madrugada de 18 de Agosto de 2009

(mais Lisboa, 27 de Setembro de 1996)

Na cidade de Lisboa, recebo da editora Cotovia a oferta de um exemplar de Arte Poética – O Meridiano e Outros Textos, de Paul Celan.

É no dia 19 de Setembro de 1996.

Completo a primeira leitura do volume no dia 1.º de Outubro desse ano.

Redescubro entretanto, quase treze anos depois, dois textos que lapijei na folha-de-guarda final do livro.

Estão a lápis e são datados ambos de “27-9-96”.

Não têm título.

I

É infinito o que não pode ser contado.

Por números ou palavras, o que resistir à contagem e à narrativa é infinito.

Infinitas, as areias.

Infinitos, os bichos.

Os golpes de vento atravessam as costas do espelho dos números.

Infinitas, as gravatas.

Infinitas, as esplanadas.

A própria morte, que o não parece, está sempre a acontecer e não pode ser contada.

E, para todos, é só uma.

II

Uma ocasião, vi um homem de fato correcto sentado na encosta de um monte a comer nozes.

A minha juventude teve logo o sobressalto da clarividência: decidi, ali mesmo, que a minha profissão adulta ia ser aquela, comer nozes num monte.

Ser adulto e correcto dentro de um fato.

E, tendo família, comer nozes como se a não tivera.

Havendo sol, como se o sol não queimasse.

Nada por trás nas costas, nada.

E tudo pela frente – o campo, o regadio, as linhas-férreas, os silos de rações, as oliveiras portuguesas.

De joelhos flectidos, levantados e separados.

Entre eles, o saco (de papel) já só com metade das nozes.

São textos do tempo em que eu ia a pé da Rua de Santa Marta à do Quelhas.

Passou.

Passei.