Thursday, July 30, 2009

Rosário Breve nº 114 - O Ribatejo - www.oribatejo.pt


O da Joana


Temos à porta o mais estúpido dos meses, Agosto do freguês. A pimbalhada aborígene, de chinelos de napa e pêlo no sovaco a mandar farpas de cheiro, boquiabre-se perante as novas rotundas dos últimos onze meses mandadas rasgar pelo cacique local.

O Tony anda por aí a fazer carreira com o filho, o Miguel com K. Diz-se que a gaiata do Bloque de Esguelha, a Joana Amaral Dias, esteve e está vai-num-pé-vem-noutro para ir brincar às meninas deportadas no recreio do partido daquela figura celebrizada em pau por C. Collodi, o mesmo que mandou o Gepeto ver se em Bruxelas lhe arranjam alguma Marinha Grande.

O poeta de Águeda, o ex-era-para-ser-PR, ainda lhe deixou vago o lugar na Assim-boleia da Abúlica. O Tony continua por aí com o filho. O Arlindo de Carvalho, inesquecível e esquecido ministro da Saúde do Cavaquistão, foi resgatado da dormência da reforma por causa de não sei quê a ver com aquele que foi precedente do Spórtãe como o San Tanga, o Roquette das lentes fundo-de-garrafa.

O Tony não vai, mas se fosse cantar a Londres, ainda cantava mas era para o Valium Hás-de-Vê-lo, a julgar pela plateia VIP-vaporub de cá da estriqueira.

Falando agora de coisas não propriamente portuguesas, na Madeira andam aos tiros aos zepelins. Mas o balão maior ainda está por abater já lá vão uns bons maus trinta carnavais de todo o ano. Assim sendo, isto por cá é o da Joana porque já chagámos a Madeira. Amaral ou amoral, Tony ou Mickael, a prioridade não é o futuro, é fazer um Pavilhão Atlântico em cada parvónia para o filho do Tony cantar à luz dos briquetes-allumés da quarta geração de alcochetes, mais rotunda aqui mais Joana Amaral Dias acolá-lá-lá.

Posse e Pessoa

Souto, Casa, entardenoitecer de 30 de Julho de 2009



Com o tempo, a pessoa refaz-se árvore.
Os dias a inclinam à condição que sobe.
A pessoa leva água dentro para ser madeira.
Numa tarde de chuva é útil ver um barco para perceber.
A natureza da pessoa tende também ao minério.
É possível que uma rosa de pedra a explique.

Ao rápido vagar aí tem a pessoa a vida:
urdume de cristais, de falhas geológicas,
de torrentes de neve, de lobos pensando sós,
de maravilhosas colecções de louça azul, de balões,
de crianças que não temem nem recriminam,
de árvores refazendo-se pedra rosária.

Vibra o Verão total na água dos olhos,
o mar parece um truque de cartolina.
A pessoa dá-se ao vento como uma folha
de livro. Perto da pessoa, outra pessoa
inclina-se em chuva, que a fará chorar?
Nesse aspecto, a cidade é toda florestal e plúvia.

Olha os despojos do Avô: barcos em molduras,
castão de bengala, o camafeu da Avó, um recorte de jornal
eternizando o terramoto do ano em que nos nasceu
o Pai: e folhas de livros. E fragmentos de louça
azul, um pião, um pente, um cardeal de chumbo,
um frasquinho amarelo com água-de-Lourdes.

Torna o Inverno da pessoa os vidros e as rendas.
Alguns tempos 'inda por viver, em madeira.
Cabe à pessoa bifurcar sendas, guardar lenha,
reunir os cacos dos dias mais antigos, as bonecas
de faces brancas como o Sol olhado no rosto,
as palavras mais preciosas da mocidade pura.

- Espera - diz a Voz que a pensa -, espera!
A pessoa aquieta-se no pórtico da casa, ela espera.
Passam na calma as tipóias, os aviões, as folhas
dos livros, as estrelas, um mais outro e outro outonos.
Crianças, arbustos 'inda, fremem ao pacato ocaso púrpura.
E jasmins como rosas querem ser pedra.

Também eu espero, tenho dias.
Já coisas hei guardadas.
Estão ainda inteiras e boas.
Umas são azuis, outras verdes.
Vou guardar este frasquinho amarelo.
São coisas úteis para te perceber - e ter.

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (24)

24

Pombal, entardenoitecer e noite de 28 de Julho de 2009

Os motores de rega cantam aos pés do milho no Campo.
Traços de tinta preta, de castanha também, atiram as aves no Céu.
Vejo pessoas dentro, corações mecanográficos pulsando a Terra.
Não faço ideia que vida seja a das pessoas dos países sem Mar.

Gaze branca, quase ar, veste as raparigas do Verão.
Esta felicidade aqui dentro cala-se e vê o Mundo.
Dizer: António Pedro Lopes de Mendonça.
Mas depois, em torrente, dizer também: Camões.

Camilos (Pessanha e Castelo Branco), Herculano, Garrett -
e Nemésio arrolando: "Fr. Agostinho da Cruz, Bocage,
João de Deus, Antero, Gomes Leal, Cesário, Nobre,
(...), Pessoa e ainda mais." (Nemésio, Conhecimento de Poesia, p. 74).

Ter isso no corpo, esses e outros nomes na Solidão.
Alguma vez voltarei a outonocer por bandas do Botânico?
Sim, voltarei: nomes dentro do meu corpo, olhados Dentro.
Vogar na felicidade coruscante de sol entr' Árvores.

Couraças, ermos, palavras que amo e chamo, lezíria, Gândara,
charneca, granja, chácara, fazenda, quinta, Rancho,
monte, colina, fraga, cabeço, viela, ruela, travessa, Praça,
circo, tinta, alfageme, tiracolo, recipiente, magnitude, Lençol.

A costura das mães perto do fogo domesticado sobre negra Pedra.
Os motores de rega, como ralos, serrando o ar verde do campo de Milho.
O trabalho das visões especiosas no que se supõe Dentro.
Beleza e constante negociação do detector consigo Mesmo.

Quer dizer: detecção constante, constante trabalho em Mundo.
Língua, rede neurónia-silábica (constante, até em Sonhos).
Excelência do coração figurado como destino Turístico.
Geometria, zoologia, meteorologia, optometria, Cosmogonia.

1999: Verão: homem encruzilhado, caçado em cheio pelo Si.
Que estio foi esse Verão para que outros Homens?
Contemporâneos de anacronismos: o que(m) estamos, Somos.
Sincrónicos do Ter-Sido no A-Ser Por-Vir.

Costumo redecorar a minha casa com tatuagens a Lápis.
Cumpro objectivos (Van der Graaf Generator, Gentle Giant,
Focus, Edgar Winter Group, Natalie Dessay, Alfredo Kraus):
horas de café & tabaco, em silêncio alto de Campanário.

Digo: em casa, Pessanha, Leite de Vasconcellos, Rodrigo Emílio,
Musil, Baudelaire, Collodi, Isabel de Toledo, Codax,
a Alorna, a Staël, Chessman, Capote, Döblin, Dürrenmatt,
Mosley, Carr, Fo, Tevis, Kawabata, Malheiro Dias.

Ou digo: chávena azul, vinagrete, louçania, lhaneza, Esperanto,
colóquio, estratego, rama, módulo, semanário, Satisfação,
caldeu, copta, assírio, aramaico, hitita, fenício, cretense, Anatólio,
neanderaustralastronauta, belga, manchego, gaúcho, Quacre.

Combato a falsa diafaneidade dos simplórios (discurso Incluído).
As malhas palavrosas podem e devem surgir em Ímpeto.
Nada contra tratá-las, metrificá-las, alindinhá-las, Nada.
Mas o jorro tem funções, sacia necessidades, é de Homem.

Aqui sentado, mas atento ali, chapinha a água lodosa no Casco
do barco longe & imediato, tange o vento o sino pequeno da Aldeia,
assim tomará a língua de Sol a mesma realidade Sublunar,
nas bibliotecas os leitores-térmitas patinham em Casulo.

Labiríntica racionalidade da Cartografia venosa nos Corpos.
Silêncio e sofrimento em alguns lares súbito Descarnados.
Aumento das receitas sustentado pela presença do Navegador
endinheirado de torna-viagem por ocasião e Efemeridade.

Numa associação recreativa de antanho, noites de findos, afinal, Invernos.
O moço preparando lume para sardinhas e pimentos no Parque.
O do acordeão, o da viola, o dos chapéus, o da fruta, o da Sãozinha.
Os peixes vermelhos no charco glauco, frio, antigo de Mais.

Famílias utilitárias, proverbiais, comedoras de Arroz-de-Tomate.
Pessoas belgas e canadianas e malaias e Húngaras.
Ruas que um músico toca com as mãos como um Pintor.
Um cavalo fulminante, visto de repente, em couro, em Vento.

Um cigarro vendo passar os carros, as criancinhas tão Rãs.
Doçura da noite durante que é possível não dizer de Dentro.
Autarcia essencial da existência, a bordo de um corpo com Língua.
No tempo do Tempo, ágora e agora, ermo, povoação, Luzes.

As histórias que idiomatizam as crianças na Noite.
A música do vento nas canas, vitrificada a lagoa de Lua-Grande.
Astros, crianças que os olham em bêdê e com o coração Muito
puro, muito consorte da fundamental felicidade de (ainda) Viver.

Pele que permite toques do mundo, pele guardada ao Ar.
Couro humano, diário couro nocturno, nauta, Astrofísico.
Couro-corpo, cavalo-cavalo, gaze-bruma, vestido de Verão.
Utente de invernos, verbalidade da incisão, Combate.


UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (23)

23

Pombal, tarde, entardenoitecer e noite de 27 de Julho de 2009

Hoje pode chamar-se 27 de Julho de 2009, mas parte dele-dia é 11 de Novembro de 1953, data com que Vitorino Nemésio assina Situação de Garrett (em Conhecimento de Poesia, Editorial Verbo, Lisboa, 1970, pp. 71-79).
É uma prosa lustral, a do Professor.
Açoriano ilustríssimo, escritor maior, toda a gente diz que excelente professor (como a minha ida professora Lívia Múrias - RIP - do Liceu de D. Maria, que foi aluna dele em Lisboa), poeta de bom cheiro, está sepultado na minha terra-matriz, Coimbra, lá no alto de Santo António dos Olivais.

Às vezes o amor sai-me pela boca como uma música.
Não tem sido sempre assim na minha vida.
De qualquer maneira, o amor é melhor durante a vida.
Falamos com músicos e com marinheiros, escutamos do carpinteiro e do mecânico de automóveis as frases que derivam de estarem vivos como todos.
Sabemos que nem todas as bocas atiram amor.
Eu pelo menos sei que é assim porque o lado mais comezinho da vida abrange os filhos-da-puta que não amam ninguém.
Vale-me não ser filho-da-puta (e meio) senão para os filhos-da-puta.
Não tem sido sempre assim na minha vida.

É agora o tempo das garças e das brancuras, quando despertamos vivos para a vida atenta, enquanto.
Tudo pulsa poder, a cor, o verbo, a pulmonaridade exposta do arvoredo, a fragrância tão humana dos contentores do lixo.
Pirogas e brigues e trenós sulcam neves e torrentes e marés, velhos homens zarabatanam os frutos venenosos da recordação com o sopro das meias-palavras.
Mas as garças e as brancuras.

Quem de nós não está por vezes tão sozinho dentro da cabeça como uma paisagem não vista de mar batendo na falésia?

Tinha vindo ter connosco a mocidade campeã de tudo e mais alguma coisa, acabou vingando a íntima respiração.
Em carrinhas, músicos vão entre vilas vender a poesia que podem, levam-se no circo mesmo da primeira arte, depois voltam para casa, aceitam um lugar na administração pública, deixam-se de versos ingleses, vão em Agosto ao Algarve.

Tenho tido alguma coisa a ver com isto, a vida.
Às vezes o mar bate-me aos pés e eu faço de rocha alta.
Outras vezes, o amor sai-me pela boca como uma música.
Então, sinto-me poderosamente e fremo e faço com que o corpo bandeire, as mãos sulcando o cabelo, o coração exercendo oxigénio e genealogia, garças e brancuras.
Isto tudo entre nós, para nosso currículo.
Quando estudava latim, regressava de casa do explicador (o saudoso Dr. Moura - RIP) pelo inverno das ruas anoitecidas, a minha mocidade integrava o curso e o corso das instituições, dos bairros, das maravilhosas ruas tocadas pela solidão, os rubis de néon do pequeno comércio, a maravilhosa cabeleira alta do Jardim Botânico, o destino para sempre académico do amor mais escrito, as couraças que a chuva aluminiava de uma pátina feita de anos, muitos anos, todos os anos, e eu sabia que a Gália Transalpina se dividia em partes três, penso que ninguém me tinha morrido, penso que do crepúsculo o brando clarão me enchia de um amor matricial por Coimbra e pelo mundo inverosímil do corpo que é moço e não pode ser procrastinado mais, garças e brancuras, descendo e subindo a Rua do Brasil, tocando com as asas a Santos Rocha, uma amargurinha precoce e boa por a Arregaça, e S. José, e o Cidral, e Santo António dos Olivais, onde sepultaram Nemésio.
Ainda passo por S. Teotónio, ainda estou dentro da sala de cinema com a rapaziada da minha terra em quê, 1978, The Song Remains the Same &c.

Claro que agora sou feliz porque escrevo
Claro que agora sou feliz.

Mas não difiro do herói atlântico que vagueia em terra pela vida com uma atenção inquebrável e fulgurante - assim como uma estrela toda diamante.
Penso que não difiro do homem que, sozinho no lagar, trabalha à noite nas suas coisas de homem, apetrechos que fundamentam a casa onde a mulher e os filhos, em cima, desenvolvem fogo sobre pedra, a mulher separando legumes com uma minúcia de florista, os filhos mesmerizados pela televisão de Lisboa, o homem no lagar consolidando instrumentos para os ainda-dias que vão seguir-se, rios, garças e brancuras.

Ou os anos de Magnus Mills, o ex-condutor de autocarros, a juventude suíça de David John Moore Cornwell, a inspiração deliciosa em C. W. Ceram, a ingenuidade do Capitão Hastings, os gémeos poemáticos de Fernando Quiñones, Horácio pastor-operário, e garças e Dylan Thomas e brancuras e Lowry.

Quando, pelo entardenoitecer de um 24 de Dezembro, comprámos um S. Pedro de barro, eu e o meu irmão mais velho, o Carlos, integramos (ainda, no presente histórico) o curso e o corso da multidão comercial. Isso é simultâneo do mais que há, se o escrevo - e escrevo-o.

Olhai comigo os protestos tractorizados dos agricultores em Montemor-o-Velho, terra onde uma noite senti a passagem de uma mulher muito bonita e muito grávida chamada Clara, dela os olhos também claros alagoando a escuridão (tinha faltado a luz eléctrica, os músicos de baile tinham de esperar, eu era um deles).
Clara voltou depois de volkswagen à vida dela, se houve outros bailes não sei, deixei de tocar, regressei a casa e integrei a administração pública da minha vida privada e escrita.

O mais também é seleccionar atitudes cognitivas, assimilar as pequenas psicologias de café, as metafísicazitas de balcão, onde o carpinteiro, o Correio da Manhã, o mecânico de automóveis.

Na Sibéria, o abalo telúrico faz cair neve das ramadas.
Os animais dão a voz a trenos, a angústia dos animais toca humanamente a terra.

(Querias anoitecer em Bergen, eu sei.
O remédio é ir pela de Guerra Junqueiro, subir à Conchada, descer a de Aveiro, passar ao Still, saudar o João Carpinteiro - RIP, paz à alma dele, coitado -, levar o latim no falar onde e para onde for, isso sim.)

Foi o que levei, coisa de quase um mês, ao Noventa, na Fontela.
Mondego e comboios urdiam passagem e permanência.
Eu fazia vibrar materiais em duro trabalho.
Corria Maio.
Maio correu.
Num lento repente, dei por mim à flor de outra hora, a hora do senhor Albertino, o pai do Tó-Zé Monsiú, que casou com a filha mais nova do senhor Branquinho mas depois correu mal.
Era perto da entrada do Inverno.
A vida cheirava a tractores e a estrume, a pastilhas de glicose com jogadores de caderneta e a abóboras-meninas.
O senhor Gil, pai do Victor, cumpria os horários com uma rigidez religiosa.
O senhor Rendilho - RIP - suportava a calma da velhice na casa da esquina da do Leitão com a da Casadinha.
O Toninho Plástico e eu achámos a carteira dele no chão, era de noite, fomos devolver-lha a casa, de onde trouxe a visão dele sentado em silêncio às escuras.
Eu passei.
Ramalhetes de margaridas estrelavam, já garças e brancuras ainda, as mãos perfumadas de ter ido ao Campo.
Nenhum paradoxo nisto: nisto, filme apenas.
É que regresso às casas da terra matricial enquanto envelheço por outras aragens.
É a força do agora, o poder escritural, a íntima bíblia.
As famílias operárias, de costas coladas ao tempo como os cromos-jogadores da caderneta, instauravam a comunidade.
Na noite em que houve programa de fados, velas, vinho e cigarros acampavam nas mesas de alguns mortos ainda vivos - que todos RIP: o senhor Augusto Gonçalves "Marreco", o senhor Rogério Velindro, o senhor Ernesto Soares, o senhor Ernesto Lucas, o senhor Fernando Pratas, o senhor Daniel Abrunheiro, o senhor José Gomes, o senhor Manuel "Gago", o senhor Flores guitarrista.
Cristo continuou a morar na igreja olhando o Campo.
Quando nos juntamos sob o estandarte dos milhafres e da Senhora da Piedade, das estrelas e dos pardais, corremos o risco de amar tudo pela boca.
(Gostaria de conseguir partilhar tudo isto: porque é tudo tão belo na minha cabeça - e eu gosto de partilhar a beleza; e as garças; e as brancuras.)

Armários metálicos de cor verde de ambos os lados do corredor fechavam literaturas maravilhosas, que recordo com um ligeiro aperto no coração - queria aqueles livros, colecções completas de revistas especializadas, brotérias e presenças e águias e searas novas e tempos e modos.
Nunca vai acontecer.
Por outros livros e outros periódicos, enfim, tenho ido e revirei vindo, sendo, lendo, vendo.
Um caso flagrante em Sciascia na aranha do quiosque do Mercado.
Cortázar e Calvino também.
Fui adquirindo-os sem angústias tolas.
Já giro o meu tempo sem a toleima da eternidade a bater-me nas canelas e nos dentes, aliás em parte acrílicos desde o dia 17 de Fevereiro de 1981.
Trouxe o Sciascia comigo para casa, outra vez e tantos anos depois da primeira vez.

E que era esta sombra aérea, além da do meu coração?
Ave grande que o Sol ofuscava, neve ou nave ou ave descomunais?
Eu não sei, sinto.
Era a luz - e depois uma mancha grande; como quando o mar muda de cor por dentro.

S. Pedro de Moel, Pedrógão, Vieira de Leiria:
Óbidos, Olho Marinho, Serra d'El-Rei;
Geria, Cidreira, S. Facundo;
Portunhos, Pena, Ançã;
Fail, Parada de Gonta, Molelos;
Sargento Mor, Adões, Trouxemil;
Antões, Outeiro Martinho, Guia;
Pinhão, Don'Ana, Zavial;
Achada, Santa Catarina, Tarrafal;
Fonte do Areal, Capitão Cadete, Misericórdia Antiga;
Filipes, Casais de Além, Borda do Rio;
Convertidas, Trás-das-Eiras, Lameira do Saramago.
Major Alvega, Ene 3, Garth;
Matt Dillon, Matt Marriott, Wes Slade;
Cuto, Califa, Heidi;
Pai, Mãe, Irmãos;
milhafres, pardais, garças:

Tudo branco.






http://miguelruibal.blogspot.com/

Tuesday, July 28, 2009

Raridade: Page e Plant em versão Cure!

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (22)

22

Pombal, entardenoitecer e noite de 22 de Julho de 2009

Anda magro o Verão como magras andam as vacas.

Economia e meteorologia casaram-se cedo e a más horas.

O lirismo existencial segue muito vivo segundo o Correio da Manhã do dia:

homem de 20 e poucos anos colhido mortalmente pelo Intercidades junto ao Fogueteiro, ontem de manhã;

violador de 16 anos achado e detido em casa, no Casal de Mira, Amadora;

cinco encapuzados com caçadeiras assaltam e agridem um empresário na Carvalhosa, Paços de Ferreira;

Oliveira e Costa, do BPN, denuncia amigalhaços das off-shores, entre os quais Arlindo de Carvalho, antigo ministro da Saúde do Cavaquistão;

junto ao nó de Donas da A23, Fundão, despiste de ligeiro mata dois e fere três;

Viseu, três homens que cultivavam e traficavam droga já não traficam nem cultivam por causa da GNR local;

perto, em Lamego, um gajo de 21 anos e 119 charros foi apanhado com a idade e com o stock;

Lisboa, também um gajo, também de 21 anos, mas coca em vez de chá-mon (13,23 gramas dela);

um morto e um ferido grave após colisão de dois ligeiros na EN328, Setúbal;

homem de 49 anos retirado já cadáver das águas da barragem do Monte Clérigo, Almodôvar, em princípio sem indícios de crime;

irlandês de 40 anos caçado momentos depois de roubar por esticão mala a uma senhora portuguesa na Avenida Tivoli, Vilamoura;

disfarçados de turistas em chinelos e calções, pelo menos quatro mânfios gamam pertences em quartos de hotéis e apartamentos de Albufeira, Algarve;

cinco dias, cinco assaltos: toxicochico de 32 anos dizia-se portador de SIDA e apontava seringa mais faca, um pouco por todo o lado;

agente da PSP do Porto, que duas vezes emprenhou entre 2002 e 2005, vai receber 21 mil euros, mais retroactivos, em subsídio de turno e patrulha de que estava a arder desde então;

viva a vida, enfim e portanto.

Monday, July 27, 2009

Da Pessoa Plena de Imagens - IX e X (conclusão)

IX. DESINSTRUÇÕES MANUAIS

Fragmentos de instruções para qualquer operação desnecessária:

forma muito prática de estar por cima;
levando por cima da cor oportuna;
tecnicismos perdidos pelo manual;
aspecto medular sempre excepcional;
deitar o Pai de uma forma só;
o Pai ser só, mesmo de luvas;
evidência para ficar mais tempo numa cidade marítima;
banir formações por tentativas;
introdução destrutiva sempre com título
(mas não herdar tudo, não herdar tudo);
síntese não lembrável é antítese;
manter inconsciente a impermeabilidade;
pretender é tanto afirmar como querer como fingir;
esperar, em quase o caso, intervenção médica;
o assunto todo (a vida toda) pode estar todo (toda) no pormenor;
posição lateral de segurança para salvar John Bonham ou o Pai do João;
objectivos à vista do inconsciente;
adequação devidamente técnica de quaisquer métodos;
motivação dos sujeitos passíveis de inscrição meteorológica (e epigráfica, epigráfica);
recorrer se possível ao Comum Didacta (o Senso);
mostrar slides, fica sempre bem e distrai e atrai;
videogramar interacções, se as houver (os sonhos, as meias-palavras, as meias-tintas);
se possível, autoconfiar-se os outros (mostrar-lhes fragmentos dos sonhos, dos poemas);
gerir, comunicar;
aprender pequenas coisas laterais à sessão, guardá-las em casa.



X. PLENA A PESSOA

Agora plena de imagens a pessoa como a água, o céu na boca.



Da Pessoa Plena de Imagens - VIII

VIII. EM CANTO

Sentimos do cantor o trabalho que o trouxe à ribalta.
Ele viaja, reconhece nas cidades a igualdade do quarto de hotel, a mesmidade das refeições mornas tomadas com o jornal frio, o caderno de letras, o caderno de folhas descartáveis para recados à produção.
Então, na noite, halos laranja, verde, azul, vermelho.
E a voz que sai como se de outro corpo outra vida, transfigurando a música passiva da plateia, onde vivem as ribaltas baixas.
Cria-se um tempo hermético, diferente da duração da canção.
O código fechado bate as asas furiosamente.
Há partilha, o que perturba e alivia.
O cantor é todas as pessoas: o cantor é a singular multidão de um.
Sentimos do cantor as possibilidades celestes da terra.
Arrancados à gravidade física do corpo, viajamos pela espiral da voz, do éter do corpo do cantor, da sua ciência, da sua tremenda humanidade.
É como num sonho, mas com som.
E depois há aquela sensação de, fugaz embora, irmandade pessoal para com a plateia, nós.
Efémera assembleia, as pessoas do público participam pelo tempo do recital num a-tempo que bonifica o ter nascido para morrer, extintos finalmente canção e cantor e os
halos laranja, verde, azul, vermelho,
negro.

Da Pessoa Plena de Imagens - VII

VII. IMPORTÂNCIA

Não tem assim tanta importância.
É apenas a vida, a beleza dentro da cabeça.
Há coisas com formas além do espaço, quando se tornam palavras para ser tempo, ou nuvens no céu, a mesma coisa.
Por exemplo, Rio.
Quando sacudimos de nós o que não temos de herdar, a vida melhora instantaneamente.
Se, por exemplo, as festividades nos parecem postiças: em tal caso, evitá-las, levitá-las, trocá-las em tal caso por o recolhimento mais cedo.
Na casa estão os apetrechos cuja lide enforma a pessoa depois social.
Nada tem assim tanta importância, porém, não esquecer isto.

Sunday, July 26, 2009

Da Pessoa Plena de Imagens - VI

VI. ROMANOS

Inscrevem tabelas de reis com números romanos.
Das pessoas que foram, sobra obra, nem sempre.
Como escreveram, se escreveram, não sei, sei poucas coisas.
Consola-me perceber hoje o mesmo Sol que os fez sombras.

Fátuas multidões içam-se às ruas da cidade, que comigo partilham à passagem pelo mundo, pelos lados do castelo, pelas vias empedradas.
Entre vivos e mortos, todos vivos, na condição de alguma memória, nem que em romana numeração.

Da Pessoa Plena de Imagens - V

V. RECONTAGEM

De manhã, a saúde faz a recontagem da herança: as árvores do mundo, a ala de casas, a estrada cor-de-tubarão, o contentor do lixo, a bandeira vermelha com a marca de gelados, os breves relvados das vivendas de emigrantes.
A cozinha exsuda café fresco, que é preciso soprar no bordo da chávena mais azul. Há aqui um corpo que vai recomeçar. E com ele o mundo possível. Possível e suficiente: há suficiente céu, bastantes árvores, razoáveis livros e lápis para o dia todo.

Da Pessoa Plena de Imagens - IV

IV. GOTA

Água para ser vidro em o frio da manhã.
Renda vegetal descendo pensativa ao chão.
Frutos que o chão toma, cavalos perto.
Gota de água a orvalhar o perfil da folha.

Da fábrica de tijolo, hoje morta, a chaminé subindo.
Caminhos de branca pedrícula, pontuados das cabras.
Tema do coração comum ao do olhar: viver:
saber vias benignas, onde houver fruta e ninguém.

Nos campos aguados, longos invernos foram.
Homens e mulheres formigaram em vão talvez.
Quando hoje topamos a gota, a História afinal topamos.
Vozes dizem nomes que partiram além-do-mar, vozes sem conta.

Já não acreditamos nos cantores da televisão.
Ganhou óxido a tabuleta dos correios à porta da mercearia.
A Vala do Norte não tem já peixes nem enguias, morreram todos às trevas químicas.
Atiraram-lhe carcaças de frigoríficos como entulho.

Minha igual vida vossa: visão de campo, pela manhã.
Frio no mundo, beleza ainda assim sendo cristal.
Notícia de astronautas, memória de operários.
Range a tabuleta, cai ao chão, para frutos, a gota.



Da Pessoa Plena de Imagens - III

III. TUDO APENAS A V.

Isto tudo é apenas a vida, a nossa cabeça durante a vida, as pessoas que andam a pagar casas, os velhos que se entretêm nas salas-de-espera dos consultórios, as roubalheiras amorais do sistema, o meu amigo João fazendo o penso ao Pai terminal, a ponte que leva e traz e fica, o clarão da cidade chegada de rio a mar, de onde pulsam as ourivesarias e as raparigas e os relvados e os fontanários e as torres e a zona desportiva para merendas, o aroma dos assados a carvão galgando muros e pituitárias, as testemunhas-jeovás de evangélicas sandálias de napa com meias e uma fadiga antecipada do Paraíso, os pintores muito urbanos muito amigos de vereadores e de chefes-de-secretaria e das respectivas mulheres com quem copulam a pastel triste, é apenas a vida a penas, as lonjuras deitadas do mar subindo o ecrã do horizonte, o rubi-sim-não-sim-não do farol-a-vermelho-a-verde-a-vermelho-a-verde, o trânsito invisível do suicida entre (ou em) nós rumo à notícia e à polícia e à malícia do diz-que-diz, as fontes que cantam a limpa tragédia do tempo em cristal contador, a mancha heliográfica do bosque, a espiral sexual dos carnívoros com possibilidades financeiras, as lojas com roupa tão bonita, conservas alimentares tão bonitas, raparigas tão pedúnculos de flores, maços de tabaco preciosos como brinquedos coloridos, jornais gordos de novos, comedores de bifanas que arrotam a tinto traçado de gasosa, apenas a vida e nada mais que a vida, a verdade não é para cá chamada, verdade é o quiosque crepuscular, a existência digital das varandas, as velhas damas que me parecem sempre rosas de pano, a frontaria da câmara municipal reticenciada de pombos também municipais, o que se desce até à Rodoviária (e tudo isto ser várias cidades em uma vida apenas, Coimbra, Viseu, Peniche, Lisboa), aquele cantinho onde tão bem grelham as pôtas, e a nossa cabeça, nuvem de bolor em céu de pedra, de terra.

Da Pessoa Plena de Imagens - II

II. PESSOAS DITAS POR HOMEM

Havia no meu tempo um homem que dizia pessoas pela boca, mas não só, era um homem capaz de marcar um lugar de referência a ponto de lugar e entardecer serem ele, por exemplo sentando-se ao fim do dia numa cadeira do pátio do minimercado, o meu tempo era passar por ele e cumprimentar o entardenoitecer que ele era no que estava.
Esse homem morreu, disseram-mo por telefone, eu morava noutra cidade, preparei as coisas e compareci no dia seguinte ao funeral, tomei café na Paula do Turco Cabeça-de-Cavalo, abracei os dois filhos do homem que entardenoitecia o lugar e as pessoas dizia.
O meu tempo é o que há para deixar escrito o dito, o meu tempo torna-se mármore com uma facilidade bestial, continuo topógrafo de paragens de autocarro, de fábricas fechadas, de campos agrícolas formigando de casais velhos e cães meio devolvidos à condição selvagem.
Esse homem que nós estamos, agora por escrito, é.

Da Pessoa Plena de Imagens - I

Pombal,
entardenoitecer e noite de 24 (I a IV)
e manhã de 25 de Julho de 2009 (V a X)

I. DIGO A PESSOA AO ENCONTRO

Digo a pessoa profunda que à superfície ocorre em cada gesto.
O Verão escoa-se pela luz mesma de que se cria e dissipa.
O Estio é alto, é de bandeiras vegetais.
Por um momento, não conta nem conto que no Outono eu seja um pouco mais feliz talvez, menos mortal um pouco.
Eu ando agora pleno de imagens, como a água que passa com o céu na boca.
Noite adentro, ouço as árvores que despertam, que se maquilham de Lua, que apanham do chão a própria sombra e a vestem em túnica lunar, maravilhosa.
E a minha casa é de ruas de cidade feita, que à noite passo visitando as montras, as alas de adormecidas pombas (como o pequeno comércio adormecidas), os fontanários suspensos, as mínimas babilónias dos adormecidos e a agência do Banco de Portugal.
A rapariga que é uma flor presente no ar da cidade, deste lado do papel: f(r)onte ambulatória, graça viva que enternece à passagem os aposentados da porta da barbearia.
Fervilhar de vida em palavra, como o jovem José Leite de Vasconcellos (entre e durante Ucanha, concelho de Tarouca, 1858, e Lisboa, 1941) das fracas mas gentis Balladas do Occidente (1885), assim dele sabendo (vendo-o, lendo-o) no dia 29 de Setembro de 1878 em Castro Daire (poema Adeus), no dia 2 de Dezembro de 1879 no Porto (soneto Scienza Nuova) e no dia 23 de Junho de 1881 nas Caldas das Taipas (À Vista do Campo).
Como tanto jovem devindo defunto, epigráfico para um outro que jovem vai deixando de ser, pensei.
Mas pensei sem fazer doer a vida dos outros.
Quero alcançar um degrau que aceite o assentamento comendo um pêssego ao lusco-fusco de um dia saudável e fatigado.
Digo esse degrau, esse homem sentado nele de fruto entre mão e boca.
Agora um menino viaja na minha cabeça, ei-lo que guarda os nomes das ruas, os das pessoas mais antigas do lugar (estesia puríssima, epigrafia puríssima), as cores dos cães, a posição dos vasos nas janelas, o ouro estendido do milho na eira do senhor Arménio Canário, o Lagar Velho, a torrente de pedras em lenta descida rumo à Quinta dos Canaviais.
Eu sou esse infante e outro vendo-o (lendo-o, escrevendo-o), escrito serei no futuro por ele.
Sou a viagem, também.
Muitos anos, outras cidades no papel, conheço pessoas, algumas das quais são mulheres.
Nós somos a humanidade disponível, a humanidade possível través Canaviais.
Merecemos a paz, merecemos viver entre árvores.
À semelhança do amor, a decência da nossa vida ilumina jardins, suspende fontanários, pátios ilumina, estações de correios, cafés, litorais, miradouros.
Não cederemos mais à pornografia dos onzeneiros, dos falsos diplomatas da Fé, dos algozes da Finança, dos imitadores do Fado.
Cidade, minha noite, minha casa, aldeia nossa, dele.
Tudo é nosso, a começar pela morte limpa.
Chama-se decência, a paz.
Pareço envelhecer bem: troco ilusões por minutos à beira de um rio verbal, súmula de ínsuas, açucenas, cegarregas e cimalhas, a pessoa colectiva do idioma, os relâmpagos de música que fustigam com tanta doçura, os recados que é preciso aviar (ir aos ovos à senhora Teresa, pagar ao senhor Rodrigues alfaiate, dizer à senhora Fatinha que a filha telefona hoje sendo as nove da noite que faça favor de vir cá a casa atender a chamada), esquecer a ausência dos pais dos amigos em parte certa (o pai do João Portulez está para morrer em breve) entre os brancos muros ao alto da colina última a oriente da aldeia, murmurar carinhos humanos às gatas, atender os deuses egípcios à luz do candeeiro da sala portuguesa.
O que dissemos - é a nossa etnografia, José L. de V..
Os jogos verbais com que matizamos as cores que os outros trazem agarradas ao corpo, essas frases tão importantes que, afinal, nos sinalizam entre duas datas, sob um mármore.
Que importa se amo sem importância quanto vivo?
Já passou a dos Canaviais, cheguei à cidade marítima, comprei fruta e brinquedos na Praça, fui ver os barcos, conhece os perfis de quem passava caminho de suas vidas como a minha passantes.
Já adquiri amigos, que reconhece nas afinitudes colossais do pormenor: as bandas dos 70, as relações amoradeiras, os pais deles, os pátios olímpicos que cultivaram quando eu passava ao Lagar Velho junto à eira do senhor Arménio Canário ou à Casadinha ou à Costa ou ao Vale do Forno.
Se, por exemplo, escreve um poema, faço-o por necessidade testamentária.
Partilha a brevidade vital a que nem os reis logram furtar-se - e conheço que é eterno o teor alaranjado do crepúsculo que me antecedeu como o do que me sucederá a ele.
Escrevo ao encontro disso, dele.

Saturday, July 25, 2009

Um Olhar Uno - fotografias de Sandra Bernardo em exposição no Bodo 2009 de Pombal

VIAGEM

Senhora de meus anos, aguardo ao Sol a minha hora lunar.

Criei filhos, deixo netos, levo-me a ser de novo filha.

Um Olhar Uno - fotografias de Sandra Bernardo em exposição no Bodo 2009 de Pombal

REVELAÇÃO

A Mulher é o que não pode ser ocultado:

nem com trapos, nem com violência, nem com fome, nem com esquecimento.

A Mulher é o mais revelado futuro do Homem.

Um Olhar Uno - fotografias de Sandra Bernardo em exposição no Bodo 2009 de Pombal

SINONÍMIA

A força da Mulher é a Obra.

Escultura e pão são sinónimos:

sinónimos femininos, claro.

Um Olhar Uno - fotografias de Sandra Bernardo em exposição no Bodo 2009 de Pombal

UM MOINHO É UMA FORMA DE BARCO

E o barco é no céu que navega.

Ou isto do mundo é tudo mar?

Azul de ar, azul de mar, azul de navegar,

de navegar.

Friday, July 24, 2009

SANDRA BERNARDO EXPÕE(-SE) NESTE BODO

QUANDO EM COIMBRA, VISITAI O CHOUPAL, EM VISEU A SÉ ou Entre as Mãos e as Aranhas, Cavalos Correm os Músculos do Rosto

Estádio Olímpico da Pedrulha ou Quintal da Casa de meus Pais

(em 7 de Junho de 2009)

QUANDO EM COIMBRA, VISITAI O CHOUPAL, EM VISEU A SÉ

ou

Entre as Mãos e as Aranhas, Cavalos Correm os Músculos do Rosto

Pombal, entardecer e noite de 23 de Julho de 2009 (com ADITAMENTOS da tarde de 24 por ocasião da dáctilo-composição final)

A superfície das águas é acessível por os olhos dos outros: o crespo mar dos verdes, a lagoa fria dos azuis, o molhado pardal dos castanhos, em os negros a noite dos rios.

Os animais apresentam também esta humanidade, esta paleta.

Certas cabeças têm algo de estrela, atiram-nos em cosmos a pessoa que trazem dentro.

Entre as mãos e as aranhas, ninguém deixará de reconhecer a irmandade que as clona.

Cavalos correm os músculos, assim gaivotas todas sal patinham pela língua à boca da praia.

Fenómenos como tais são notícia quotidiana da nossa vida, a qual quotidiana é também.

Muitos microrganismos trabalham em profusão em prol das condições. Se mais sensível sou a receber a fremência do vento nas árvores, não significa que despreze a maré dando nas madeiras pintadas de nomes de santos e de netos, por esses cais merencórios do meu País. Algumas cores, fusão de animais e nomes de gente-mármore, concurso da memória em toda a base de raciocínio, vigília da gramática, correnteza de janelas com vasos vermelhos.

(O NOSSO OLHAR NA RUA – JANELAS – VASOS VERMELHOS – MULHERES – JANELAS)

Sempre um rio, a palavra rio por ele sempre, como nunca um rio declinando a nossa atenção, a tua vida, tua sombra entre macieiras vigiadas por corvos e ciganos e leis da cidade e lavadeiras.

(QUANDO EM COIMBRA, VISITAI O CHOUPAL)

Quanto tempo te viverei?

Quanto tempo te viverás?

Entende-me: se fundo músculos, cavalos, pardais e lagoas, se refiro barcos e firo marés, se estou vivo à margem do teu rio: se o vento nos dá as árvores e nos abre as ruas, se já não temos medo, se nos amamos em vida.

Vítima marítima, coração terreno nosso.

Fogueiras como rosas rubras ajardinam a noite dos acampamentos, tomam alimentos quentes os bárbaros acampados além dos canaviais

(OS PÉS DOS CANAVIAIS METIDOS NO RIO COMO OS OLHOS DAS PESSOAS BÁRBARAS),

sem que os toque a parafernália de papel dos poetas e dos cobradores de impostos.

Antigas feiras frias luzem de crianças

(CADA QUINTAL ESTAGIA UMA CRIANÇA OLÍMPICA PARA NADA)

antes da tristeza

(AS CRIANÇAS ANTES DA TRISTEZA AS CRIANÇAS ANTES DA TRISTEZA),

espíritos-santos de louça encarnada

(O NOSSO OLHAR NA RUA – JANELAS – VASOS VERMELHOS – MULHERES – JANELAS)

debruada a dourado entre carrosséis, churrasqueiras portáteis onde a Mãe verifica se o frango traz ou não duas patas e bêbados de furiosa alegria popular, esses sim tristes

(AS CRIANÇAS ANTES DA TRISTEZA AS CRIANÇAS ANTES DA TRISTEZA).

Fabulosos caminhos-de-ferro levam ingleses de colecção-vampiro a campos verdes patrocinados por árvores descomunais, que solares seriam se tanta névoa não fosse a condição natural da Grande Ilha.

(MAS A GRANDE ILHA É A INFÂNCIA)

Entretanto, em outra actualidade cavalheiros maduros aborrecem-se educadamente ante cálices de anis

(CAPILÉ PARA AS CRIANÇAS OLÍMPICAS, ANTES DA TRISTEZA, ANTES DA TRISTEZA),

na praça calçada clocam as mãos minerais dos cavalos, fumo surge de dedos apontados ao céu, uma mulher traz peixe à cabeça, o último polícia pensa numa mulher casada por razões económicas com um pouco de amor à mistura.

Documentos enraízam a disciplina, a ordem de trabalhos que vivos a mortos faz suceder em harmonia, algum pranto ou alguma indiferença embora na transmissão da estafeta.

Saúde amarela é a das janelas acesas

(O NOSSO OLHAR NA RUA – JANELAS – VASOS VERMELHOS – MULHERES – JANELAS)

além das que ocorre a tragicomédia da festividade familiar, o código de humor que é o ADN de uma casa

(QUALQUER CASA QUALQUER CASA QUALQUER CASA QUALQUER CASA QUALQUER CASA QUALQUER CASA QUALQUER CASA QUALQUER CASA QUALQUER CASA QUALQUER CASA),

a espessura do Avô, a Mãe capital, o xarope de groselha

(ACABOU-SE O CAPILÉ ESTA TARDE),

a pastelaria profusa de manufactura caseira, a grande ave assada devagar em forno a lenha. Pátina de geada açucara os relvados corridos ao longo pelos viandantes isolados da cidade

(QUANDO EM COIMBRA, VISITAI O CHOUPAL)

(QUANDO EM VISEU, VISITAI A SÉ),

cujos corações aldeões são o motivo da filosofia, dos preceitos domésticos

(A MENINA VAI ESTE ANO PARA A UNIVERSIDADE, O SENHOR BARBOSA ESTÁ COM UM CANCRO),

do pentagrama tragicomediográfico, das leis e da higiene.

Rubis altos em veludo de montanha

(A NOITE A NOITE A NOITE A NOITE A NOITE A NOITE A NOITE A NOITE A NOITE A NOITE)

marcam os casarios eólicos, a labareda horizontal da raposa, a cor dos olhos da raposa de dura água feita, a mágoa interior de tudo não ser presente a um tempo descritor.

Muitas vezes, na nossa solidão comunitária

(OS NOSSOS MERDOSOS CASAMENTOS, OS NOSSOS FILHOS DE OURO, O NOSSO FUTURO GALINÁCEO, A ÁRVORE GENEALÓGICA E AS OBRAS COMPLETAS DE JÚLIO DINIS ENTRE TUPPERWARES DOS ANOS 70 QUANDO AS SENHORAS FAZIAM REUNIÕES PARA OS – tup - E AS – obras jd - VENDER)

somos todos formigas de corredor de hipermercado, por onde projectamos a avaliação, o desejo, a posse, a medida, a decisão. Muitas vezes, não fundimos a nossa infância

OLÍMPICA

com o Sol que faz, a galeria de refrigerantes

MAS ACABOU-SE O CAPILÉ, AGORA SÓ LÁ VAMOS COM GROSELHA

com a manhã dos laranjais – mas está tudo lá, a partir das circunvoluções cerebrais

BRAIN DAMAGE BRAIN DAMAGE BRAIN DAMAGE BRANCO DAMASCO BARCO DAMASCO.

Freiras e leitores conciliam os olhos com a cera, a boca com a madeira, as mãos com o couro, a pele com o bolor. Momentos eternizados pela música

O CHOUPAL NÃO VOS PARECE UMA ESPÉCIE DE SÉ NATURAL?

ajudam ao movimento das instâncias íntimas. Cabeleiras em chamas bifurcam Paris, Oslo, Vancouver, Rosário, Port Arthur, a Cidreira.

AJUDA-ME A PÔR CORES NISTO TUDO FORA DE NÓS.

A PÈGADA - de Jacques Armand Cardon (obrigado, Patricia Damiano)

Thursday, July 23, 2009

Rosário Breve nº 113 - O Ribatejo - www.oribatejo.pt

Sonho de uma Manhã de Verão

Manhã muito cedo. Primeira fímbria de luz azul-cinza. Clarim do galo. Chilreio vegetal de passaritos. Rumor de brisa nas oliveiras, no pessegueiro do pátio. Do chiqueiro dos bacorinhos, o aroma são da cama de estrume e lavagens. Despertamos. A rádio passa Fausto Bordalo Dias. Bons-dias. O locutor diz um poema popular: “Ó penas, não venhais tantas, / Vinde mais poucas e poucas: / Vinde mais bem repartidas, / Dai lugar umas às outras.”

Levantamo-nos. Ao lume, café feito de fresco. Fatias largas de pão de centeio. Manteiga, marmelada. Uma tira de toucinho encarquilhada na sertã. Um pepino crucificado em sal. Uma maçã poderosa como um reactor de açúcar. Hoje não há Lopes da Mota nem Freeport. Ajudamos o padeiro a carregar de lenha o forno artesanal. Hoje não há Dias Loureiro nem Arlindo de Carvalho. O peixeiro buzina sardinha a estalar de prata viva. Compramos um quarteirão dela. Nada de Oliveira e Costa, nada de fazer o 9º ano com 373 negativas. As nossas mulheres riem-se no quintal, algum disparate nosso as faz rir enquanto encestam o pimento, a alface, o tomate, a cebola. Não, hoje nada de siglas, PGR, PM, PR, PSP, GNR, PJ, ME, OA. Nada de Marinhos, de Bibis, de Linos, de pessoas que ficam cegas por terem ido ao hospital. Já o carvão arrebita rubis no meio bidão deitado. Soltamos o cão da corrente, deixamo-lo ir marcar de ureia tudo quanto é couve e poste. Nada de Sócrates com cheque para o dentista, nada de brasucas de terceiro escalão para o Benfica, nada de histerias farmacêutico-grip’A, nada de donas-Brancas por tudo quanto é lugarejo, nada de senhoras-de-fátima fosforescentes em tabliers forrados de pêlo sintético. Abre-se um clarete levemente agulhado de moscatel, serra-se a boa broa, lança-se os dados de uma mão-cheia de azeitona retalhada. Nada de sangue homossexual nem de sangria hetero, zero de risco ao meio do mais-que-Deus-ubíquo Dr. Francisco George, nada de volta do PCP à clandestinidade por ordem do Bokassa da Madeira. Alegria sem Alegre. “Quem a mim me ouvir cantar / Cuidará que estou alegre: / Tenho o coração mais negro / Que a tinta com que se escreve.


Nota: a excelente imagem do "Bokassa da Madeira" foi colhida n'A Esquerda da Vírgula, com a devida vénia.

Vi um homem que viu outro que viu o mar

http://viumhomem.wordpress.com/

A partir de agora já imediatamente, aqui nos Links da Malcata

Nisto que Digo, Não

© Garry Winogrand

New Mexico, 1957


Souto, Casa, noite de 22 e tarde de 23 de Julho de 2009

Nisto que digo não procures, peço-te, um sentido plano como nos artigos notariais, mas uma música se puderes, ou, se puderes, um filme.

Sob um molhe de madeira entrando mar adentro, noite na praia do tamanho do firmamento, por exemplo.

Noite que digo sempre cada manhã, onde o amor arranja sempre maneira de entrar como a humidade, adentro o mar os barcos.

Nada de complicado, o que um homem se diz invocando a pessoa de vidro perante.

Revistas que eram do jovem quando breve homem de outro século juncam as caixas de papelão pelas sombrias zonas da casa adulta, catálogos, horários de comboios que não passam já senão través algum sonho, algum campo.

Muito mental é a criança dura como o milho e como o sol amarela, essa que sobe à boca quando no café cumprimentamos e do tempo que faz falamos.

O senhor Smith tem um quiosque de cigarros e magazines e caramelos de café e lotarias, foi recrutado e respondeu, desembarcou na Normandia em Junho de 1944, foi um overlord como os outros, hoje cigarros e magazines e caramelos de café e lotarias.

Um homem é de uma mulher e do que cultiva sob o céu carregado de electricidade e de anjos e de tantas tormentas quantas pode.

Eu sou do lado da voz nisto que digo.

Uma vez, era Outono, fui por um monte muito grande, levava um bornal cheio de papéis por escrever, não teria, quê?, mais que doze anos, a vida era geodésica, o meu Pai era vivo, além as fábricas formigavam de máquinas pessoais, cartões de chumbo arrolavam os grandes céus da infância, o comboio ia e vinha como uma mensagem direita ao coração, era quando deveria ter começado a estudar para engenheiro químico, agora é tarde.

Os meus amigos já foram todos à tropa, já se casaram e descasaram e compram jornais e brinquedos e sapatos e carros, moram todos longe até deles mesmos, as minhas amigas também, algumas perderam-se nas respectivas carreiras profissionais, uma está a fazer um doutoramento em salvo erro hermenêutica, outra tem um cancro, outra mora na Figueira, outra casou com um amigo meu chamado Smith.

Nisto que digo, eu não, realmente não.

Wednesday, July 22, 2009

Por que Carga de Água



Pombal, anoitecer e noite de 22 de Julho de 2009



Chove mas é Verão, a noite veio de águas como os infantes que rompem as mães para nascer.
Julho é comentado nos cafés por ser brando, nada parecido com o incêndio de outros anos, em outros cafés.
Estive a ver as águas batendo nas árvores da rua, nos candeeiros que as contam uma a uma pela noite.
Não, não parece Verão, antigamente o calendário não tinha ’inda sido rasgado pela poluição, eram mais naturais as coisas.
Viver acontece mais e mais fora do horário nobre, é certo, mas pode aproveitar-se a rua para fumar um cigarro à beira da chuva enquanto não chega o mês dos emigrantes, dos foguetes, do catolicismo pimba, das merdas patrionacionais do costume, pode uma pessoa dar-se a ler o Nemésio prefaciador de Merícia de Lemos e/ou comentador sucessivo de Supervielle e Valéry.
Uma pessoa pode muito no pouco que quer.
Para mim, uma carga de água dançada pelo vento chega-me bem para tesouro de uma noite, ao cabo de um dia calado.
Não está frio, é agradável circular pelos corredores sem tecto da cidade, agradável descobrir uma que outra rara silhueta procurando fugir do que chove e da poesia e da lucidez e da hora.
Bruscamente o Verão não é passado, vou na voz, farfalha a árvore farta de água, nada parecido com o incêndio de nascer.


DOS JORNAIS DE 22 DE JULHO DE 2009






Barça oferece 75 milhões por Ibrahimovic
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Manuel Alegre despede-se da AR
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Alvalade havia-se reforçado
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Evelyn garante que foi educada
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Lopes da Mota reclama
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Arlindo de Carvalho não pode contactar
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Ana Jorge afastou hoje a hipótese
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Armstrong cada vez mais longe
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Eriksson é o novo director desportivo
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Pai não sabe onde está
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O défice saltou
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53 crimes de abusos sexuais sobre menores
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Santa Maria abre inquérito
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Um grupo de soldados carrega o caixão
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Que o Homem rume a Marte
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Banca não confiou nas previsões
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Um em cada dez doentes internados sofre
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Mais treze casos de gripe A
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Um par de cornos infantis
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Homossexuais impedidos de dar sangue
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Encontros online na Europa
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Tenham muito medo
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Havia massa crítica
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Pina Bausch inédita
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João Semedo entregou hoje na AR um requerimento
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Deu voz à Nouvelle Vague francesa
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Jardim diz ter quebrado o tabu
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“Estou-me a rir”
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“Sou como uma velha meretriz”
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Louçã considera ter “todas as condições”
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Teixeira dos Santos não reconhece
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Carlos Cano sempre vivo

Galas em lugar das Supremes

Com Tachins Tapar Trenos (poema estaminal embrionário)



Souto, Casa, entardenoitecer e noite de 21 de Julho de 2009

Foto: Mata do Casal Galego, 27 de Abril de 2009





Um dia fica-se sem pessoas em pessoa, há-de restar pelo campo a indiferente ira do vento, a maresia frutícola que pinta pássaros nas manhãs mais despovoadas de que nem memória houve. Circula pela abadia do céu a grave nuvem, a nuvem monástica, dedada descomunal de intocável mão, quando se não sabe mais o menos é chamar humanas às coisas. O rapaz que vai ao lixo sente bem os pés no chão, o toque da brisa ao fim do dia que se acaba em noite, o aroma dos pessegueiros frutando o mar do ar, tanto ar. Podia ser o Outono, entanto. É outra coisa, um avião traça a giz uma longitude altíssima, pelos subúrbios da razão florescem as qualidades verbais da luz nas casas, nas árvores, no trecho de mercúrio que o ribeiro é. Não é vadio já o coração, mas sedentária víscera recolhida ao tugúrio da boca, por onde fala, na volta do lixo. Hoje, tiras de toucinho muito finas enrolam tâmaras, as sílabas saem meladas do confronto com a introspecção da ceia, durante que se lembra isto e aquilo, vagos projectos de não ceder todos os quartos à infelicidade, à desistência muito menos. Das câmaras pulmonares sobe uma corda de som, é uma palavra dirigida às cortinas da sala, que ondulam escutando-a, sob que passam as gatas e as moscas, não demora muito a noite colectiva que o indivíduo marca como a um papel estudado. Estar num apartamento em Uppsala e decidir não sair, ficar em casa com uma revista dedicada a coisas como a periodização literária, os enigmas aztecas, o comércio de peles e peixe salgado em reencontrados anos do idioma. Não seguir, portanto, pela estrada que liga Heby a Sala a Avesta a Hedemora a Sater a Celorico da Beira a Sátão a Falun.

Lá no fundo (fundo alto: como o céu) do corpo está a célula estaminal embrionária, atómica deusazinha repetidora de si mesma como a má poesia. Eu, que não saio já nunca de aqui, viajo por ela a cantos (todo um cinema verbal sempre – Heby, Celorico) que são mundos eventuais baseados em casos verídicos mas inverosímeis e vice-versa:

com um cachorro preto pelo Botânico da minha terra, há mais de vinte anos / o animal gostou da largueza do sítio / claridade verde de muita árvore no ar, ar-ár-vores / pares de namorados e velhos seres aposentados pontuavam os recantos e as vias / as árvores estrangeiras falavam já então vento português / aos pés delas os nomes em latim, as origens do exílio / alguma água escurecia-se como sucede ao vidro na noite e ao olhar no vidro / eu ia dar o cãozito, irmão daquele amarelo com que fiquei dos dois que nasceram da minha cadela, ao dono de um snack-bar na Combatentes da Grande Guerra / prolonguei um pouco a companhia dele / andámos os dois por ali / depois saímos do Jardim, passámos o Seminário, entrei no snack e dei-o.

Com tachins tapar trenos, assim a minha vida escrita. (Como a de muita gente, não há especial especialidade nisto.)

Tuesday, July 21, 2009

Na Varanda, o Crescer das Plantas

© Minor White

Road and poplar trees in the vicinity of Naples and Dansville

NY, 1955

Souto, Casa, tarde de 21 de Julho de 2009


O colo do fémur aparece por vezes onde menos era esperado, também não é comum esperar que o colo do fémur isto ou aquilo e assim ou assado. Alterações genéticas, investigações no pensamento, manipulação clínica, tudo bate as asas no ar das nossas histórias pessoais, parece. Um homem de boné encarnado cultiva legumes numa leira emoldurada de choupos, num canto do País. Andou por França, Suíça, Bélgica e Alemanha alguns anos, voltou há alguns anos, ficou, tem dias em que pensa nos lagos gelados que viveu nesses tempos, agora isto esquisito no colo do fémur da mulher que cá o esperou estes anos todos. Em Almada, uma mulher de quarenta e dois anos considera-se gorda, está sentada num banco alto de balcão, bebe uma laranjada sem gás, sente-se um pouco enredada pela melancolia. Na varanda, o crescer das plantas fá-las povoação. A sombra de um homem novo mancha a estrutura de chapa da paragem do autocarro, à noite neste sítio há quando chove putas recolhidas que gostam de reggae e de rebuçados de café. Perdeu-se qualquer coisa da qualidade de viver, não haverá muitos que o saibam definir, muito menos justificar. Em pranchas de madeira pintadas de cinzento, perto de alguma nova urbanização, crianças mexem as pernas no ar. Uma noite de há muitos anos, fui com um sobrinho ver uma música que dava no Teatro Gil Vicente, havia famílias na plateia, hoje desfeitas talvez e talvez refeitas em outras, talvez. No Hospital Pediátrico, a hematologista saía do turno a chorar sem poder conter-se por causa da leucemia ser infantil também, recordo isso, recordo como isso provava o total absurdo de Deus, deixai vir a mim as criancinhas etc., parece que estou a vê-la com os olhos cristalizados postos no chão. Subi a Sereia, ouvi exercícios de piano descendo de um terceiro-andar à rua, alguma menina desfolhando o tempo, nunca a vi, o tempo sim e o que ele desfaz que toca, ouvi a música e passei como tudo passa. Semanas, empenas, estearinas, azeitonas, escunas. Escamas, poemas, limas, glaucomas, escumas. Em La Valetta são 15h34, mais duas horas do que nos Açores. Fess Parker, a madurez do vinho, a estrela de madrepérola que desce o peito da cantora muito branca. Uma hipótese de eternidade é serem os mesmos agora os pássaros que foram outrora, assim o Sol, o fémur, o crescer das plantas.

Nós e a Figueira e Outros os Mesmos da Foz





Souto, Casa, fim da manhã de 21 de Julho de 2009

(Fotos: Figueira da Foz, manhã de 12 de Maio de 2009)

Era do lado do mar que vínhamos, nós ou alguém por nós, feitas as contas podia ser quem fosse o que fôssemos, no fundo andamos todos ao mesmo como à superfície, assim é. A idade faz-se gente dentro de nós, cada um é o outro que poderia ter sido, do lado do mar correm e ocorrem coisas às outras pessoas dentro de cada um. Por mim, desinteressa-me ter virado à direita à saída da Casa Rádio, alguém o terá feito à esquerda, um perfume de cebola frita acudiria talvez de trás da Caixa Geral de Depósitos ou de em frente ao Jardim, é igual e é assim. Um cigano velho vigiava os moços pescadores à linha da tainha, já alguns barcos murmuravam a luz granulada que depois nos postais fica a ser tempo, como os anos passam a gente passa. Outros homens que eu ainda não era um de cada vez torneavam as praças como sombrias formigas, debaixo do Partido Comunista eram a Nau e o Cubillas, depois o vento folheava páginas de outono nas árvores todas que o município fazia crescer com a humidade da manhã. Além da Jacques, a família Navarra mirava o bolor das janelas, de manhã bebiam café-com-leite, à tarde comiam cachorros e bifanas no Bicho, à noite recolhíamos cedo à pensão e dormiam uns e outros não. Labaredas pessoais tinham ardido sobre as areias do Farol Velho, as barracas de feira-popular zuniam como dores de ouvidos na luz muito decadente das leituras sós, interessa-me nada termos morrido de vez em quando sem ser por leite nem por amor, comprava-se um gigante e ia-se ao colo da melancolia até Santo António ou à de Macau. Cheirava a pastilhas de mentol e a prepúcios estrangulados, ter sido futuramente outra pessoa entre os mesmos ombros não pode hoje incomodar-vos mais que de costume, o Johnny Ringo é o Johnny Ringo da vida, muda a gerência mas o corpo parece o mesmo, em frente a tanto mar, tanta areia. Os espanhóis frequentavam as mercearias com sabedoria, chapéus de palha entrançada seriam de fita azul o menino rosa a menina, a bandeiramarela avisava o vento lambedor de axilas e virilhas, a tez foi queimada em doçura, os morangos da Praça atiravam recados ácidos ao palato, bolas e baldes e colchões e ruivos e bananas pintavam a infância já senil de vós todos. Fui uma vez com o homem com nome de mês à Paulistinha 2, os dois comeram gambas e beberam duas imperiais cada um, a noite vinha crescendo como uma toalha sobre as madeiras, nenhum de nós é agora metade dos dois porque um morreu e outro acaba de sair pela esquerda da Casa Rádio.