Thursday, May 28, 2009

Crónicas da semana

1. Rosário Breve nº 105
O Ribatejo –
www.oribatejo.pt

Oliveira Quase e Costa

Estou decepcionado com Oliveira e Costa, mas só desde ontem, 26 de Maio de 2009. O senhor ex-presidente (ou presidente ex-senhor) do Grupo SLN/BPN apresentou-se à comissão parlamentar de inquérito, lá isso ninguém lhe tira. Durante 131 minutos, leu uns papéis escritos na cela. Depois, horas a fio, quase respondeu ao que se lhe perguntou. Quase.
A minha decepção vem do “quase”: ingenuamente, confesso ter esperado que o senhor em questão me esclarecesse, a mim pessoalmente, determinados assuntos que me impedem de viver com qualidade.
A saber: o sentido da vida; a existência ou não ou assim-assim de Deus; a analogia da espiral entre a molécula do ADN e a morfologia das nebulosas; Marinho Pinto; a quase absoluta ignorância portuguesa quanto à obra do autor dinamarquês Anders Bodelsen; Manuel Pinho; as farinhas alimentícias; a hora a menos nos Açores; as dicotomias Benfica/Sporting, Wagner/Verdi, Eça/Camilo, Labesfal/Lusiaves, Ota/Alcochete e Marguerite Yourcenar/Marguerite Duras.
Do tudo que ele quase disse, só retive que não percebe nada de golfe. E que terá tido uma inflamação salvo erro na próstata que ameaçou derivar para um daqueles cancros que se metem nos ossos como o frio e a consciência. E que só trata por tu os colegas da escola, o Joaquim Coimbra não e o Dias Loureiro também não.
Anders Bodelsen é o autor de “Tænk På Et Tal”, traduzido para português como “Um Número à Escolha” (edição Livros do Brasil, nº 307 da Colecção Vampiro). É a história do assalto a um banco. O caixa descortinou a coisa antes dela se dar. Preparou-se para a coisa. O ladrão levou dez mil coroas. O caixa surripiou 178 mil sem dizer nada a ninguém. Bodelsen (nascido em 1937) retrata uma certa classe média dinamarquesa (e ocidental, por extenso) dos anos 60 do século passado, gente vulnerável à dissensão moral do materialismo, à dissolução dos valores e à finíssima linha entre a inocência e a culpa.
Oliveira e Costa quase me falou de Bodelsen.
Quase.




2. Este Lado para Cima nº 7
Jornal de Alcochete –
www.jornaldealcochete.com
Correio do Montijo – www.correiodomontijo.com

Pratos do dia

O prato do dia é o encerramento de fábricas. Reportagem: casais casados que trabalham ali há 30, 40 anos. Os dois, homem e mulher. Rua. Há encomendas, mas as dívidas a fornecedores etc. Contactada pela nossa reportagem, a administração não quis prestar declarações. Rua.
O prato do dia é o Cristiano Ronaldo sim ou não vírgula milhões de euros no Real Madrid. O rapaz é que é esperto, o Quaresma nem tanto. O Rui Costa no Benfica, afinal, e pronto, tudo na mesma, lá vão eles passar o Verão a comprar refugo no Brasil. E o Figo em vez do Madail na Federação.
O prato do dia é a minha vizinha Guilhermina, mãe de dois rapazes já crescidotes, divorciada, caixa de minimercado, anda a tirar o 9º ano à pressa e à noite a ver se lhe dão um computador por cem euros para os filhos terem internet, sempre se gasta menos telemóvel.
O prato do dia é o têgêvê milagroso que nos vai resolver o futuro todo de uma vez só, como aliás a Expo-98 também não.
O prato do dia é o Poder Local, essa “conquista de Abril”, essa “democracia da proximidade”, essa “cidadania de bairro social”, esse prato de morangos afinal nêsperas verdes.
O prato do dia é a “Justiça” e seu tropel de avantesmas de toga espingardando-se umas aos outros para deleite do assaltante, do violador, do homicida, do ladrão de cobre, do banqueiro-off-shore, do Vale e Azevedo, de Gondomar, de Felgueiras, de Marco de Canaveses etc. Muito etc.
O prato do dia é a gripe porcina, doença que não é burra, já que tem evitado Portugal como uma pessoa de bem que não quer ser vista em local (tão) mal frequentado.
O prato do dia já não é a Esmeralda nem a Maddie, agora é aquela menina que levaram para a Rússia como se ela fosse o Quaresma ou assim.
O prato do dia é o telemóvel na sala de aula, é a professora descabelada a vociferar virgindades, é a maltosa adolescente a “estudar” em éssémiésse, é a língua portuguesa corrida a pontapé de rodapé televisivo.
O prato do dia é a TVI em todos os televisores de todos os cafés do País todo.
O prato do dia é a blogosfera cheia de poetas e de mensagens em brasilês cheias de esperança e de viagra e coiso.
O prato do dia é a ignorância orgulhosa de si mesma, a demissão colectiva de um aglomerado que nunca soube, nem sabe, nem saberá ser povo, nem público, nem gente.
O prato do dia serve-se frio.



Wednesday, May 27, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (1)






1

25 de Maio de 2009


Somos eus consecutivos.
Perdemos aqui um pouco de cálcio, um tanto de ferro;
vencemos além uma palavra feliz e suficiente como uma lâmpada de rua em pleno Inverno.
Muitas vezes, mãos inquirem seda por nós, enquantomente rajadas de música vergastam o coração auricular da nossa eterna mocidade, essa quando se recebe música.
Uma praça sem gente conspira décadas e pombos, rente à febre do frio que grassa na igreja, atrás da que um jardim infantil atende violadores e portugueses.
Um dos eus quase não suporta tanta felicidade, uma vez dono e senhor da resignação: tinha sido pontual na repartição de finanças, onde declarara rendimentos de um ano qualquer dos da vida.
Um de nós viu esse eu ser um ele: corpo corredor no basalto que a luz expande em camadas para uma insignificação geo & antropológica.
A sexualidade já não hasteava bandeirações eólicas, o pecado, a havê-lo, seria não pensar: isto é: não receber a remuneração em imagens, em música silábica, em hordas ciganas juncando de lixo caminhos de cabras.
Esse eu assim: dorme no meu corpo quando escrevo, quando escrevo uma carta ou uma crónica ou uma ameaça poética qualquer.
Isto é: ou coleccionar diamantes ou escutar Nemésio reportando o susto de Camilo e Ana ante a janela raspada de ramos na madrugada glacial.
Isto, antes da brutalidade terminal, do médico amigo que a um dos nossos eus condenará à morte e à vida, chovendo na tal praça com igreja e sem gente e com pombos.
Recordar para a frente como quando se anda ao vento, com exuberância e exaltação: e feroz euforia, ao vento de comboios e tardes cinzentas como burros tristes: e de boca recortada a celofane no frio, o frio que por vezes parece um país entre onde se está e casa.
Outro dos eus suportando em silêncio no café a presença hipervocálica e hiperbólica de uma mulher bêbeda e portuguesa, avó do bairro social, que arenga bojardas morais sob o heliventilador do estabelecimento, bêbeda de vinho e de moral, ataúde vivo de beatério e bifes de cebolada, monte uivante de varizes retesas de tinto tónico, a garra esquerda enclavinhando um neto de carita envernizada de ranho por assoar, um petiz infeliz de caramelo no nariz, uma segunda-feira de temperatura avariada, nesta vida.
Isto; e a Escola de Mecânica da Marinha em 1959 recebendo a visita do ministro da salvo erro Defesa Nacional, nas escolas desse ano o tifo do século português e a anemia do milénio lusitano e a estupenda Nação cancerígena por-Cristo-com-Cristo-em-Cristo.
Como quando o leitor se interroga que quer tanta treta dizer que não diz, como se esse eu-leitor se auto-impusesse um inquérito absorto, apreensivo, à beira dos nervos da desistência.
Nada a fazer: a fria segunda-feira esparadrapa seus cromos, suas ventilações, seu recado na mercearia, sua frágil farmácia.
Um dos que somos em transe: quase aflito ante a beleza do busto verde-cinza da pomba que caminha como se medisse o chão, tão fortemente bela e sozinha na tarde que declina: sim, por vezes a beleza aflige o coração, nem todos assim somos, alguns de nós sim.
Menos uma hora nos Açores, antes da noite as mulheres resgatam comida dos dispensários, nas casas ainda vazias as faianças estalam rumores vidrados, nos campos de arroz cegonhas crucifixam-se sem outra fé que a da eterna mocidade da música visual, acaba a tarde, a vida não, não ainda, ainda não é tarde.
Ter sobrevivido não era a pior das prendas, sabendo-se o quão antropólogas são as décadas e as segundas-feiras: e o quanta volúpia é preciso gastar para merecer um nome, uma cadeira na barbearia, um telefonema.
O escândalo da morte resulta de nunca deixar de parecer prematura, diz um dos eus acendendo o cigarro, vendo que vai chover não tarda nada, fechando-se no casaco que em boa hora se lembrou de vestir ao sair de casa esta, ou outra, manhã.
E por momentos ninguém morre, nem aqui nem nos Açores, uma criança afia um lápis, uma velha faz-se gelo no retrato alto da janela de terceiro andar (há brasileiros no quarto e no quinto).



Monday, May 25, 2009

Justificação da Menor Parte




Pombal e Casa, Souto, de 22 a 25 de Maio de 2009
(Foto: Barreiras, Redinha, 24 de Maio de 2009)

Os rostos como cravos brancos deixados ao ar amarelo da manhã.
Viver em obra ante rostos como brancas carnações, eu vivo.
Transitoriedade lúcida, matizadas manhãs, uma chávena de café.
Ir ao mercado adquirir vegetais, ver os animais pelas ruas limpas.
Escutar no café os aposentados que refilam próstatas e catarros.



Um sósia do historiador Oliveira Martins pasma de cigarro nas unhas.
Uma senhora de sardas arruiva a atmosfera ao pé da arca dos gelados.
A maior parte não tem justificação de existir”, clama um aposentado.
Morreu ontem João Bénard da Costa, que sabia escrever e cinema.
Um táxi descreve a Rotunda dos Bombeiros, dissipa-se no instante.



Em Évora no ano de 1867, com Eça jornalista de 22 anos de idade.
A 19 de Junho desse ano, fuzilamento no México do imperador Maximiliano.
Mulher vestida de panos pretos (blusa cinza-escura) mascando um bolo.
Cavalheiro de bigode-arbusto analisando a tabela da II Divisão, dita de Honra.



Às vezes, latino, mais do que bate,
o meu coração late um latim canino.
Late bate late bate bate late late late.



A efémera assembleia nutre o tempo comedor no escuro do anfiteatro. Do palco e da pantalha, flúem as sombrias luzes, as vozes eléctricas, as cidades estrangeiras que tocam os peitos breves. Vieram casais e homens sós e apreensivas mulheres e poucas crianças. Fora do teatro, dá-se a cinechuva a preto-e-branco. Dentro, o sábado esquece-se sem dor de si mesmo, atento à carburação da cena. Em plena tarde, a noite privada do sítio é de cordiais fantasmas vivos (ainda) povoada.



Nomes portugueses: Redinha, Vérigo, Presa, Barreiras.
S. Jorge e N.ª Sr.ª da Estrela.
Visitamos um casal criador de cores: pássaros e flores.
Criam cores, que mostram à passagem do domingo.
A mãe-melro tem ninho junto à porta da casa.
A cerejeira alimenta as aves independentes.
O homem fala de quando piloto de táxi-avião.
Come devagar, partilha o tempo-quando.
Regressamos a meio da tarde.
Há animais limpos pelas ruas.

Duas imagens de Portugal no século XXI


Mercado de Pombal, manhã de sábado, 23 de Maio de 2009
Barreiras, Redinha, hora de almoço de domingo, 24 de Maio de 2009

Sunday, May 24, 2009

Caça submarina na banheira?

http://www.youtube.com/watch?v=m12MY8fElIw



Nestes dois sítios, nostalgia com fartura:

http://www.velhosanuncios.blogspot.com/
http://santa-nostalgia.blogspot.com/

Parece que foi ontem

http://www.youtube.com/watch?v=NOUPjEHYFew


http://www.youtube.com/watch?v=9A-z9mccrRI


http://www.youtube.com/watch?v=r6UECReII88


http://www.youtube.com/watch?v=iP3Bj-YHR9M


http://www.youtube.com/watch?v=zX53PVe8Rck

Thursday, May 21, 2009

Com esta, dois anos de crónicas nO Ribatejo - Rosário Breve nº 104

Fluoxetina

A minha senhora e eu andamos a tomar fluoxetina mas não é por causa das tosses, é por causa da crise, mas não é da crise conjugal, que dessa não gastamos, é da outra, a de quase toda a gente menos os do costume, tomamos fluoxetina porque um médico nosso amigo nos disse para a gente tomar e a gente vai de a tomar como se a vida fosse Abrantes, por assim dizer.
A fluoxetina é um medicamento que parece que faz passar a crise, não faz, mas a gente, a minha senhora e eu, não nos importamos tanto com ela, pois parece que lá em cima, nos nossos sótãos cranianos, as sinapses e a serotonina e a dopamina e outras ninas da neura trabalham melhor com a fluoxetina, é capaz.
Levantamo-nos cedinho e fluoxetinamo-nos a meio da caneca de sucedâneo de café com imitação de leite, ainda a caneca não vai a meio já estamos os dois a sorrir um para o outro como se fôssemos monas-lisas, andamos a sorrir o dia todo como se fôssemos catarinas-furtados, quando à noite vou a sorrir buscá-la ao emprego ela sai do emprego a sorrir para mim e para o resto do mundo, que é onde se dá a crise.
A fluoxetina é uma grande invenção dos laboratórios suíços ou suecos, agora não tenho preciso se de uns se de outros, também não faz diferença, a diferença está no sorriso, como qualquer candidato a poeta autárquico sabe, a coisa está no sorrir sempre e avante, mesmo com a crise ou até por causa dela, sorrir e andor, que se faz noite.
Aquela professora de Espinho que aparece na TVI com voz de telemóvel se calhar também precisava de fazer como a minha senhora e eu fazemos, se calhar precisava, ela e os alunos de 12/13 anos por causa do sexo na Antiguidade e por causa da crise e da Margarida Moreira da DREN e assim, se calhar, por assim dizer, aqui quartel de Abrantes.

Tuesday, May 19, 2009

Um pouco antes do modesto Rio Arunca

Pombal, 18 e 19 de Maio de 2009

I

A luz melhora o mundo como um sabão, estou atento.
Um homem de rosto muito lavado, os olhos muito azuis, folheia a agenda pessoal, a anca encostada a um carro na rua.
A existência deflagra como uma granada óptica, toda simultânea na necessidade.
Isto é tudo ver.
Entram no pensamento acontecimentos como fruta, mosca, guardanapo, máquina de fazer contas.
Na noite prévia, senti o rumor de máquinas urdindo a noite mesma.
Trabalhavam com obstinação, prolongavam o tempo atento.
Revolvi-me na cama como um churrasco morno.
Tinha corrido uma parte do mundo, deixado um texto, fora à varanda conferir a camélia, a rosa, o alguidar abandonado pelo jardineiro.
Dentro da casa, a livraria murmurava a espera, os amanhãs datados da leitura que tira o ser do estar.

Agora, os espelhos rápidos fulguram a manhã.
Acontecem velhices ortopédicas nas passadeiras, sombras de chapéu, itens de caderneta, bustos da paulatina necrologia.
Homem de camisa branca com saco plástico verde.
Baldio urbano pintalgado de papoilas, além de que um canavial breve.
Considerar tudo isto como um plano inalienável da Essência.

Na atenção, retornar tudo para dentro: aumentar a História de atributos notáveis e notados e anotados.
Por exemplo: se em Coimbra, da Couraça de Lisboa apreender as linhas que são Santa Clara: mais tarde, referir isso numa conversa ou num poema.

Os vendedores de alimentícios instauram os patamares do dia, visitam pontos vivos no mapa, renovam as existências (o termo não é inocente, é superlativo, é metonímico).

Ramifico-me.

Sem o susto supersticioso da morte, sem outra bagagem que a viagem mesma: travessia e rio trocando essências e identidade(s). (Neste sentido, trabalho a verdade possível em demanda das Leis.)

Não negar a atomicidade pessoal. Saber-se elo do involuntariado, do maquinismo extenso e indivisível. Assistir à vida ávida das mãos. E chamar cegueira à dor como ao prazer.

Ao cabo do corpo, a doença terminal (um dia), processo de refundição e de refundação da matéria. Antes, o durante(s), vórtice e vértice de planos do Tempo, fábrica de linhas.

Agora, a tarde como uma veterania. Pousio e moção, crescimento para o país da noite.

Áscuas: pirotecnia da força de dentro, combustão de carbonos, percepção do Plano-Nenhum da Natureza.
A força de dentro para cima.
Genealogia e arborescência.
Entre-ter as coisas, ser uma delas: entre-ser.
Absorção, digestão, evacuação: processo em obra.



II

Em obra: memória da terminação de Joaquim Agostinho, em 1984, por hematoma epidural, e da de Bento de Espinosa, em 1677, por colapso respiratório. Duas idas vidas vindas, duas velhas glórias repescáveis no contente e medíocre dia-a-dia, esta, por exemplo, terça-feira de 2009.

Não ácida mas placidamente, no curso da manhã, retomando os desenhos de Leal da Câmara (que Aquilino biografou) para A Velhice do Padre Eterno de Guerra Junqueiro: para reconsiderar a sempre actual urgência de anticlericalismo, de combate mortífero à superstição irracional cuja exploração é o pão-da-boca das instituições desumanizantes (os vaticanos, as mecas, as putas que nos querem parir). Placidamente isto, perto da igreja local.

Rio e rito: uma geminação.

Sim, conto com o mau destino de Adriaan Koerbagh e com as demissões de Casimire Périer e de António de Spínola – não esquecendo os irmãos de Witt nem o bebé de Lindbergh. História de histórias, peões do magno tabuleiro que a Língua move nos sentidos necessários. Não sinto obscurantismo nisto, mas uma bela claridade pensativa para além, quase-quase, do corpo.

E assim os nossos corpos servem de contrafortes à serra da manhã. Vivos, mexendo-se, queimando ar para incandescência das células, somos corpos que desenvolvem a trama terra-cósmica: bichos do dote, ervilhas do cesto, peixes rituais que nadam o ser.
Assim vogo em evidência: sinto claramente, colecciono sem leccionar, apre(e)ndo sem pressa nem vagar. Esta manhã, muito cedo, dei por mim emergindo disso a que chamamos sono – e que é a máquina poupando na conta da luz. De imediato, achei-me pronto à defenestração dos lixos benignos que empatam a tremenda soliloquacidade. Tão depressa me surgia possível a ingestão (absorção, digestão, evacuação) de bolachas molhadas em café-com-leite como a escolha entre cursos e percursos paginados pela escrita dos antepassados. Fora da casa, além-quintal, botes e caravelas de chapa e borracha eram outros tantos destinos automóveis rumo à repartição, à padaria, a Leiria, ao estádio, a Portalegre e ao futuro cativo do mesmo dia inaugural. Já tinha morrido um tal Mario Benedetti, poeta uruguaio de que muitos gostam e muitos não. Já tinha nascido algum botão de carne em Coimbra, em Bagdad. Cães urbanos pontuavam ruas de Soure, certamente que sim. Fumei antes do banho, repeti as calças da véspera e saí a conferir as existências que são, deveras são, o meu presépio, o meu circo, a minha pena e o meu encanto.
E o assassínio do presidente Carnot em Lyon deu-se outra vez, a páginas tantas, à passagem pela fachada da Cooperativa Agrícola, um pouco antes do modesto Rio Arunca.

Sunday, May 17, 2009

Um Domingo na Feira do Queijo com Espinosa




Tapéus, Soure, manhã e tarde de domingo, 17 de Maio de 2009

I

Provido de não outro mistério que o simples de estar vivo.
Numa aldeia portuguesa, manhã de um domingo, por o pré-ocaso da primeira década do novo milénio.
Cabala humilde: feira de queijos, cordões de pinhões, peixe do rio, cassetes gravadas em garagens vizinhas de estaleiros da construção civil.
A construção civil da pessoa, a unidade elementar.
Vivendas com painéis de santos, rapazes de boné com marca de tintas, senhoras embrulhadas em chita como peixes de salão, pés encanastrados a plástico de Taiwan, senhores túmidos como acontecimentos roxos, provas de vinhos, infâncias tecnológicas a pilhas rentes a vinhas vãs, muros rebocados a chapisco de talocha, gaiteiros estridentes, flores amarelas pisadas pelo chão, o órgão da missa televisiva ventando frio no café, a pausa rural da eternidade, subespécie.
Engraçada mulher – como um papagaio encarnado, lacrada a sapatos vermelhos, a pele alta de um branco ósseo, articulada, mineral, vertical de saltos escarlates, rubra epifania no corredor da feira, entre queijos, garrafas, matraquilhos, farturas e tremoços.



II

Inumeráveis finitudes pessoais por uma única infinitude.
Uma manhã acabada: como um fruto.
Pensamento, extensão, modo: estado corporativo de tanta alma.
E o coração como um carimbo endógeno.
Afeições em liberdade: pela negativa da superstição,
por amor de Deus.

Então, a cidade acampa o país de si mesma.
Os animais em pasto corredor: dinâmica, nutrição, atenção.
Chapadas gráficas na retina paisagística.
Portugal miudinho, retrato recreativo, poster de associação local.
Queijo silvestre, azeite manso, homens-silhuetas.
Na barraca das cassetes, cor e ruído e mulher infeliz.
Gravatas grenás e colarinhos azuis, cabeleiras ungidas de óleo imanente, ancas malquebradas, rugas, cintos de napa, tabernáculos, cacos de século, lavagem e cal, igreja mínima em postal.
Numerada finitude.



III

Além dos segmentos de tempo (as pessoas, seus corpos geométricos), a feira é necessária, não é contingente.
O instinto a conhece endogenamente.
A humanidade pode chegar a partilhar Deus com os animais, respirando.
Aqui o manto da montanha lasca o vento, a presença sideral do nocturno, os bebedouros frios, os adornos de prata, folclore pobre e crianças aos gritos, autarcas oxidados, probabilidade de aguaceiros para o fim da tarde
(1632-1677).

Nenhuma tristeza, quintais apenas, onde a nespereira e o limoeiro vigoram sua estatuária verde.
Uma família acampada de frangos assados vocifera gargalhadas, cascas de melão, filharada, blusas que estoiram cor, avó encordoada de varizes.

E além-dia, os dias.
E os nomes além-pessoas,
aquém.

Elementos de Fortuna para uma Eudaimonia - alguns podem revelar-se acertados, nunca se sabe

Casa, Souto, 14 a 17 de Maio de 2009



Quanto se não encontra, é quanto se não soube procurar.
Ter chegado não interessa, mas ter partido.
Décadas e segundos partilham a gema ourives da atenção.
E como uma febre fria trabalhando a extensão da praia.

A beleza acorre afogueada como um bombeiro à cara.
Rajadas de vento animam a pueril vegetação domesticada.
Quintais estagiam crianças entregues a avós vegetais.
E o vento dá nas cordas de música do tempo entregue.

As pessoas formigam leveduras margem a margem.
A chuva como uma visita diagonal ao poço das casas.
A organização social marca pontos astronómicos.
E os enterros filindianam cordatos, pluviais.

Estou entre árvores municipais esta tarde.
Sinto-me bem, o ar circula, os cães dormem a sesta.
O Caso Tichborne/Orton e a Vida de Espinosa.
E a humidade das mãos na antemão da insónia.

Informações dentro da cabeça: cuidado com elas.
Voltas da brisa em torno da massa demográfica.
Uma atenção nunca desistente, um ser-dentro-todo.
Respirar é uma olimpíada: estar vivo em gás.

Estas margens anotadas a lápis pelo corpo atento.
O poder mediúnico dos animais entregues ao holocausto.
A derivação linear das águas entr’ervas.
As casadas galinaceamente sem tristezas nem som.

Alguns movimentos orquestrais descrevem.
Do rasto de tanta gente partida pelo meio, nem rasto.
Sublevações celulares comprometem os planos de aposentação.
A senhora dos jornais hipnotiza a demora.

Uriel da Costa: suicídio e razão e solidão financeira.
Grandes talhadas de pão enroupam o frio dos velhinhos.
Lisboa, um fim de tarde, sem horário nem destino.
A penetração do perfume acamando a lembrança.

Grieg sozinho numa sala apagada pensando além-música.
Famílias na Ásia devorando peixes vivos.
Iluminuras e cordéis de couro abarcando gerações impensadas.
Derivações de entrelinhas, toques papilares de azeite, sedas.

Substância: o que é por baixo está no que é no alto.
E a Natureza arte-oficia qualquer deus de serviço.
A eternidade do presente é ser-se a-tempo.
E cortinas voaçando salas vazias menos de mental olhar.

Ética de virtude, florilégio, espírito em guarda.
Vida para felicidade. Instintivo reconhecimento.
Uns pós de ignorância. Domesticação do desejo.
O que é em baixo, o que é em cima.

Thursday, May 14, 2009

Rosário Breve - 103 - in O Ribatejo

Eu, Europeu

Sou pela profissionalização dos peregrinos a Fátima. Também sou pela obrigatoriedade da certificação da qualidade dos carros-vassoura de apoio aos peregrinos e aos ciclistas da Volta a Portugal. Sou pela informatização das bancas de cereja, nêspera, pêssego e laranja de beira-estrada. Sou pelo policiamento da alma e pela cardealpatriarcação do sexo e pela pasteurização dos sonhos e pela dobragem em brasilês da corrupção angolana. Alinho na transcrição dos telejornais para livros de texto da escolaridade mínima com vista a uma ignorância máxima. Subscrevo a beatificação em vida de Manoel de Oliveira e de José Hermano Saraiva. Fervo de sossegada indignação quanto ao que for preciso, como o pilhão, perdão, milhão-de-votos do Manuel Alegre, o empate técnico Caso Maddie – Casa Pia, as gémeas Salgado, o rabo-de-cavalo da porta-voz da PSP para os telejornais, as nóvòportunidades, o Vital Zita Seabra Moreira, a Baixa Geral de Depósitos, o Cancro Português de Negócios, o Cancro Privado Português, o Jorge Jesus no Benfica, a profissionalização das grávidas, a hermanjosénização do Gato Fedorento, a gatofedorentização da Assembleia da República, o Poder Local em geral e o local em particular, o 10 de Junho em Santarém e o day-after no resto do País, coisas assim.
Acho que aquilo no Bairro da Bela Vista era deixar arder. Sou pela profissionalização das noivas ciganas, mas só até aos onze anos. Também sou pela profissionalização do Bernardino Soares e dos dadores de sangue. Sou pelo casamento dos manos Portas com as gémeas Salgado. Acho que, ya!, Os Lusíadas em hip-hop era bué da Bairro da Bela Vista. Sou pela atribuição da Bandeira Azul aos cafés de não-fumadores e ao Presidente-Sombra da República, o professor Marcelo.
Sou, sou.

Wednesday, May 13, 2009

ESTE LADO PARA CIMA - 5 - in Jornal de Alcochete / Correio do Montijo

Quarto fechado sem cortinas

Vivemos tempos pardacentos. Receio bem que o futuro nos julgue gentinha amorfa, indiferente, acrítica e, como o presente, pardacenta.
Os direitos laborais foram cano a baixo, enxurrados pelo desemprego em massa. A liberdade de opinião, por outro lado, de pouco vale a quem, como nós, não tem opinião. Os jornais empilham pequenos e grandes crimes contra a pessoa, a sociedade e o mundo. A ecologia global anda pelas vielas da amargura. A fantasia das crianças é uma invenção da literatura infanto-juvenil de origem nórdica. O Pai Natal se calhar é mentira. E (est)a realidade também.
Se vos pareço hoje peculiar e particularmente amargo, deve ser por causa de ter visto alguma televisão, não sei, talvez. Depois de jantar, adormeci no sofá. Acordei à boca da noite com a digestão atrofiada por um sonho medíocre. Levantei-me debilmente, esfreguei a cara com água fria e vim escrever a crónica: vai-me saindo pardacenta.
Vale-me que tenho ali um livro bom para ler. É policial, tem um enigma de quarto fechado em cujo interior as personagens morrem em menos de duas horas. Está bem imaginado, bem urdido, bem escrito. Serve-me às mil maravilhas para me evadir da evidência da realidade.
Preferia, porém, não precisar de ler para, fugazmente embora, esquecer que existo nisto, neste quintal magnificado sem merecimento pelo sol atlântico. Preferia não chamar pardacento ao nosso tempo. Preferia não adormecer nem no sofá nem na vida.
Amanhã talvez seja outro dia, enfim. Tenho mais livros. Comprei uma couve gorda e viçosa que é bem capaz de dar uma panela de sopa à maneira. Mudei de marca de comida seca para as gatas, a ver se elas tossem menos pêlos enrolados na garganta. Ainda não mudei os pneus ao carro, qualquer dia lixo-me com uma multa que é um mimo. Declarei o IRS a tempo e horas, bonito menino. Ainda não decidi se sim ou não vou votar nas europeias. Fiz recentemente amizade com um casal de vegetarianos. Não professo religião, mas também não atropelo peregrinos de beira-estrada. Porto-me tristemente bem em quase todos os aspectos. Como vós, decerto, também.
Tenho de arranjar uns cortinados para esta divisão. Falta-me uma estante na sala para os policiais. Devia adquirir dois anti-vírus eficazes, um para o computador e outro para a minha vida.
Ainda só vou na página 27, não sei que diabo vitima as pessoas naquele malfadado quarto. O telefone não tocou todo o dia. Ainda não é amanhã. Se vai estar de chuva ou fazer sol, não sei, talvez.

Tuesday, May 12, 2009

Pode Ser Hoje



Pombal, Figueira da Foz e Casa, Souto, 2, 3, 10, 11 e 12 de Maio de 2009



Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.

Derradeira-se o dia, último rio de si, vem a noite tomando posse das coisas, dos breves mundos pessoais.
Os prédios, tostados a frio, são os possíveis megalitos, verticais cavernas da rupestre condição dantes, em menino, mágica.
Carros acasalados farolinam às cegas pela massa cinza, matrimónios motocíclicos criancinham avòzinhas de regresso aos senil’ares, as ruas pupilam lojas eléctricas, onde os manequins esperam a moção impossível.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


Homens caducados obliteram o domingo, o leixões-académica de serviço, as horas derradeiras de cartão, esquecido o jornal a uma mesa despovoada, sobre que fulgura de baquelite o cinzeiro com quatro beatas (duas borradas de bâton barato). Piscam no lombo da serra os moinhos eólicos, hélices de avião nenhum, contra um céu deslavado a aguarrás. A máquina cafeteira silva vapores arfados, envelhecem no mostrador os bolos rochosos que a segunda-feira de pombos comerá.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


Pombos atiram chumbo ao céu pardacento da segunda-feira, um pouco tempo antes de chover. Preparo mentalmente um chá lauto: de Ceilão, com marmelada portuguesa, queijo fundido, manteiga, mortadela azeitonada, anchovas aneladas de cebola e broa e Carter Dickson.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


A mulher-dos-sacos: heterónima da mulher-dos-gatos do bairro-dito-social. Passagem leve de uma leve angústia: ser impossível ler tudo o que foi escrito em todas as línguas. Impossível – como não viver toda a vida toda. Mordedura benigna do chá muito quente. Espectáculo pluvial: varetas de água-aço riscando com força a cinza respiratória, o aturdimento quase feliz dos cidadãos, o guarda-chuva a cinco euros na loja dos chineses, o nanismo dos papa-reformas a trote para a feira semanal, a televisão matinal tossindo alzheimer lusíada e astrologia brasileira,

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


As árvores envernizadas de sol coruscavam a tarde muito ampla, esta tarde que vivemos tão atentamente. Era perto do mar: e o mar é o sítio que se move, é a nação apátrida de todos os olhares. Gente formigava pela avenida, tocava a areia com as patitas apreensivas.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


Lucidez implacável, impiedosa sobriedade.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


Pacíficas pacientes explosões de cinza: as oliveiras. Mísseis lustrais: os eucaliptos. São 7h29 da manhã e já preciso de salvação. Terras com nomes de santos, de acidentes naturais, de permanências do destino, de desejos. Grandes barcos: catedrais navegadoras, vento, água, ferro, tempo. Outono-me este Maio. Meu tempo: meu ferro. Árvore de ossos, meu corpo, atirador de bandeiras cada olhar. Braços preênseis, mãos gramáticas. Olho os mármores que passam: senhoras lacadas como psychés, cães solitários como príncipes, bêbados mansos embrulhados em sedas frias. Estuário, demolições e movimentos de terra, amaragens por conta, publicações e galerias, promessa de tarde nublada para hoje.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.

Sunday, May 10, 2009

MENOS UMA HORA NOS AÇORES




Souto, Pombal e arredores, 28 e 30 de Abril e 10 de Maio de 2009



Tenho por estes dias procedido à angiografia da minha vida.
Gosto de recapturar as linhas opacas, intestinas, cerebrais da minha vida.
O pensamento faz de banda sonora non-stop do nosso filme.




Os campos passam de oliveiras perfumadas de terra
o rio atira pássaros aos beirais do vento pluvial
o comboio leva o olhar aos sem-fins do céu caído
a maior parte das pessoas aperta o casaco mental
a tristeza desenha jardins com pedras macias
florões de ferro guardam gatos e laranjeiras
operários crepusculares rondam os cafés frios
a velha dos sacos monologa cabisbaixos lixos
máquinas sós profetizam o acordar dos sonhos
o amor oxida como um limoeiro de quintal
meias palavras juncam reclamos avariados
a cidade repete-se alta na planície estelar
as pessoas são únicas como a lua
gruas perfilam o anoitecer e a solidão
em celas de cristal bocejam as cinderelas de pano
um homem velho lê prospectos de agência de viagens
animais pensam com o corpo todo na sombra toda
estradas de terra ligam pinhais desertos
os mortos esperam vivamente a revisão dos nomes
uma palavra azul procura uma boca vermelha
a alegria borbota antigamente
escusado trocar o coração por uma ideia.



Ou então



Somos de nós mesmos as margens opostas ao rio do tempo.
Alguns somos amados pelo barqueiro, que não termina
de retomar a vau a travessia. Creia-me, menina,
que de nós somos nós mesmos a todo o momento.



Nos sonhos decorrem as redes de espionagem, as coisas orientais do inconsciente aparelhado de lucidez e de amargura e de pequenos dispositivos fotoangiográficos radiopacos, tristes contrastes etc..
Tudo trabalha para o mármore.
A banda sonora é esporádica, a vida não é esporádica, o filme é esporádico, o cinema não é esporádico.
Nós numa península, ist(m)o que somos.
Somos, vamos, estamos indo, entes, sendo.
Sendas do sendo, ondas do indo.
Índicos, pacíficos, ocidentoccipitais, posteriores, monofásicos.
Marinheiros.
Trabalhadores por conta.



Nos quintais trabalham em vigilância os cães-securitas
só os lobos não passam recibo verde
as rolas explodem de patitas electrogrudadas, altitensas
por mim folheio as horas
sempre gostava de saber que fazem as mãos no sono
as pastorinhas de vidro nos fontanários de diamante
um dia isto não ser Portugal mas um café de aldeia
digo: um dia isto não ser a vida mas o mármore
o telefonema que repõe o futuro o fato cinza o feriado
a volta ao bairro onde os amigos se volveram avoengos
de neocrianças latejando lácteas pelas mãos velhas
o painel das almas azulibrancas purgado a Bach e a lixívia
e a cândidas infecções nascidas todas da bactéria de viver
contrasta no céu plúmbeo a eucaliptação nefelibata
mordedura de café-com-leite-pastel-de-nata
os sábados expressos plásticos burguesinhos horríveis
e a farmacologia e os combustíveis
sou de pequenas súbitas alegrias
a chávena que duplica o café
Dickson Carr e Carter Dickson serem o mesm’único
como idem Cecil Day-Lewis e Nicholas Blake
a teoria do caos na aparente loucura do fumo do cigarro
o prumo a nível do rio pedreiro
as tainhas como tiros de esponja na água dos barcos
tudo isto angiograficamente.



Java e Sumatra e Abrantes e Valladolid. Os camiões como lançamentos internacionais. As estradas esfregadas asperamente, os polícias de trânsito como pirilampos de óculos escuros. Gosto disto, enquanto vivo, em trânsito, entre lobos, vigiado por cães. Nemésio, Sena e Belo, idos em 1978, ano em que Cortázar estabelece subterrâneas correspondências bestiárias, seja isto o que for, em trânsito angiográfico, há uma hora como há três décadas, o mesm’único. Cofragem, betão, a foz do rio oceânico, a ponte, os apanhadores de isco, a madrugada embevecida, as palavras larvando cá dentro, a potência explosiva da bexiga, a nossa vida filada, filmada, propedêutica, mortal, Aspen, Malcolm, Montana, Avintes, Burg bei Magdeburg, tantas vozes, tanto mármore. Eu agora. Sexta-feira fiz 45 anos, sábado fui de carro a casa do empreiteiro receber o salário, adentrei aldeias e freguesias completamente portuguesas, profundamente portuguesas, feias e tristes e portuguesas, para lá ouvi Rossini, para cá ouvi Nick Cave, chovia cinza no ar cor-de-coelho, vi o aparato quieto de um desastre de viação sem feridos graves, voltei cedo para casa, Dickson Carr à noite, Os Crimes da Viúva Vermelha (1935), nº 24 da Colecção Vampiro, o sono aconteceu como uma manta de pálpebras, hoje à tarde vamos domingar ante a película Dogville, à noite vamos jantar a casa de um casal amigo e ovolactovegetariano. Cada vez que se escreve, inscreve-se o que é poesia no momento, amanhã será ou não, não faz diferença, não tem importância, por agora é (o) que é, mais dia menos hora.