Sunday, April 26, 2009

Estuque



Souto, Casa, tarde de 26 de Abril de 2009



Ela teve o filho de manhã, precisou de beber muita água depois, pensou que precisava de beber até a ideia de água, fazer-se preencher de um riacho de montanha, partilhar as glândulas com os fragmentos minerais que vêm na água.
Trouxeram-lhes flores, botinhas de lã, tiraram-lhes fotografias, o filho era vermelho quando tossia e quando chorava – e de uma brancura inacreditável quando dormia cheio de leite, forrado de flanelas, sujeito já às esferas pensativas da música dentro, a música da água e do leite.
Ela dormitava na luz como um postal dinamarquês, o sol enroupava o vento e o vento mudava a janela de sítio com a ajuda periférica do olhar dela, que a febre elevava a desenhos secretos no estuque do tecto.
Uma tarde levaram-nos, o filho ia acomodado nas flanelas, ela reaprendendo a andar, primeiro até ao elevador, depois ao carro, depois pelos quatro degraus da entrada da casa.
A casa era parecida com a recordação da casa, mas as noites não. O corpo ao lado, na cama, era de arestas duras, irreconhecíveis e desconhecidas. Havia muito mais amabilidade no homem, mas não era o mesmo homem.
O filho subiu nos anos rápidos – e os anos eram rápidos por fora do tempo estancado dentro, o tempo da água montanhosa, o tempo da febre desenhadora de figuras secretas. Fora do filho, ela percebeu que um riacho nunca é todo, que é sempre mais do que pode beber-se dele, medir-se entre o princípio instável, algures numa fenda da pedra, em cima e longe, e a morte viva no mar – e que o mar não pode ser bebido nem contado. E isto não era enlouquecer, era ser, apenas ser, na febre como na sede, na cama solitária rente a um corpo de homem amável e duro e desconhecido.
Pela cidade, os rostos apareciam-lhe como moedas. Pareciam-se todos com pequenos espelhos ardentes pregados pela nuca a uma galeria movediça de arcadas, onde trapos vermelhos escorriam ar sem espectadores.
Viu-se grávida de novo, foi a funerais e a inaugurações de pintura, esteve no Algarve adorando a indiferença africana do azul cor-de-ouro da costa. Numa praceta, sentiu a presença de qualquer coisa que teria sido árvore antes de banco – e subiu ao banco em vez de sentar-se nele. Olharam-na de outro lado da vida, o marido desceu-a, fez-lhe uma festa na cabeça, disse-lhe Calma. E então ela foi voltada do avesso como uma recordação, e eu não conto mais esta história, este estuque.

Saturday, April 25, 2009

Prosa Tanatonáutica



Souto, Casa, tarde de 25 de Abril de 2009



Como uma pessoa castanha de cócoras: o cavalo.
Perto, duas ovelhas mansas como pinheiros e três coelhos bravos como pinheiros.
Tenho recorrido com frequência aos animais para me situar como pessoa neste mundo nesta vida.
Também me tenho dado razoavelmente com a supuração da memória.
Digo: as carteiras da escola, a velhice tornando cimento os velhos, o musgo particular de certas frases raspadas ao acaso das paredes e das pessoas e dos filmes e, claro, dos animais.
Sinto uma vocação invencível de tanatonauta, por assim dizer e para armar ao parvo.
Sou um fumador de água: sou como tu, que queres ser um animal mais que tudo e antes de tudo o mais.
Estou a falar-te da morte com a vida presa às mãos, as mãos como colmilhos muito brancos, muito poroso daquele cimento, daquele musgo particular.

Há músicas a preto-e-branco como a prosa.
Essas músicas conspiram terrenos que depois obrigam a tomar comprimidos, a pactuar com as gambiarras de estrelas que são os deuses estilhaçados.
O nome enche-me – e ama comigo os meus mortos e os meus vivos.
Somos poderosamente um estaleiro de ontens anuários.
Eu sou isso como sou o nome e o cavalo e como tu.

Pensa por exemplo nas pessoas dos romances policiais.
Pensa nelas fumando chás e relvados e locomotivas e talheres de prata.
Deita milho às portas das maternidades.
Exulta-te em privado como o vento faz numa casa violada.
Um esplendor de cêntimos dá para desfraldar bandeiras e gargalhadas.
Tu e eu como ovelhas, como coelhos, como pinheiros.
Somos clássicos mistérios-do-quarto-fechado.
Somos isso e sentimo-lo nas frases a preto-e-branco-e-castanho.

O açúcar sideral da amargura que nos solve nos salve.
Por graça temos ainda tempo a perder.
Gosto muito quando os velhos levam à boca os pais.
Como a boca do cavalo: soqueira feita de dentes, piano, cartucheira de esmalte, destino da erva e de uma que outra flor.
Os animais que houve no tempo dos mortos: a mentira piedosa de uns e outros se repetindo.

As pessoas trocam sinais de luzes, espermas, facturas, números de telefone, sonhos, consultas.
Não conseguem trocar, coitadas, as viagens que fizeram – muito menos as que as fizeram.
Isto não tem mal – é apenas sábado, a esta hora faz-se tarde de mais para alguém que veio para isto e que, não encontrando o que pedia, foi encontrado pelo que não podia.

Esta foi a maneira que pude para te tocar com a doçura possível.
Sou o nauta: o que veio depois, um dos nenúfares de couro, uma das veias vermelhazuis das cartas anatómicas que havia na sala primária e primacial.

Glaciais ao sol: e cheios de pequeninas manias e humanos: nós, nus, vós, luz, a, ante, após, até.
Ter os domingos por conta, os domingos que urdem catálogos minuciosos de naufrágios não só marítimos.
Apear das peanhas os heroísmos e os bronzes, pulverizar a literatura infanto-juvenil, dizer a verdade às crianças


olhem que agora o 25dabril depois passa
etc


ou ser bondoso como o cavalo é para com as ovelhas e os coelhos e como os diamantes são para com a luz de que são a carbonização duríssima e, naturalmente, sideral e solar e glacial e primária e primacial.

Tu viste outras manhãs e como eu não percebeste logo que as barracas da praia eram o tempo fotografado a sal.
Pensa por exemplo no Relógio da Figueira da Foz, no Rochedo de Brighton, no estralejar de saliva da água mordendo os cascos dos grandes navios, nas sombras furtivas de Odessa, na lavanda escandinava, nos salgueiros que fazem a vénia ao rio que bebem, nos homens dos andaimes aranhando e arranhando a cor das casas, nas mercearias das aldeias com uma velha congelada dentro, nas grandes alegrias súbitas de que às vezes uma praça é capaz fora de uma pessoa, na cabeceira que fizeste do ventre de alguém que tenhas amado em nudez fora deste mundo e de hoje, na Praça do Areeiro com o maluco sósia do Ciccio Ingrassia, na areia da praia da Figueira da Foz agora quente por cima nas mãos e já molhada de fresco por dentro nas mãos – e Brighton e Odessa.
O pugilismo deveria ser obrigatório nas escolas porque o coração é um soco de sangue.
A terra soluça para dar roseiras, tu andas aqui nisto há tan(a)to tempo (a arder) como eu.
Se formos por partes, se insistires muito na comparação de tesouros, olha que eu já vi uma raposa.
Eu já vi três corvos numa estrada municipal devorando um cão.
Eu já chorei à chuva para contribuir.
Eu já estive num hotel presenciado de amantes monásticos casados com outras pessoas de outros hotéis.
Eu já removi tábuas, tabiques, panos e taipais e pessoas.
Tem cuidado portanto com os tesouros.

Poços rápidos como nos sonhos sugam fetos, molham o susto de viver com tanta atenção.
Meia dúzia de frases e está o sábado feito pó, soliloquaz, cheio de amor por uma síntese de mármore.
Os nossos irmãos levam os nossos pais com eles aonde quer que vamos: é o sangue.

Por mim, se pudesse, passava a vida a coleccionar capelas e ermos.
Passava a colecção a esmalte e ia mostrá-la nas feiras aos turistas e aos agentes do poder local.
Como não posso, falo contigo de animais e de tesouros e de barracas de praia com crianças algemadas dentro e de mercearias de aldeia com velhas congeladas dentro.

Isto de estar vivo é como toda a gente gostar de fotografar o mar, de dizer adeus aos barcos e aos comboios, de os figos darem leite como as vacas e as mães – é uma coisa por assim dizer vulgar, embora não banal.

Tempo Ainda de Graça



I – Pombal, entardenoitecer de 23 de Abril de 2009
II – Pombal, entardenoitecer de 7 de Abril de 2009
III e IV – Souto, Casa, fim da manhã de 25 de Abril de 2009




I

O dia chega sempre um dia
de ter passado o tempo
de o homem ser filho do homem
de ter chegado o tempo
de o homem ser pai de si mesmo
pai de suas consequências sem alibi
pai dos dias seus filhos
de suas filhas as noites pai.

Alguns homens escalam as montanhas de deus
alguns fretam barcos transparentes no mar seco
alguns bebem mais tal que o cu seja o rosto
alguns reconhecem no cão vadio o filho do homem.

Para não morrer ainda o homem tem de viver já
o homem tem de obrigar a memória a ser futura
o homem não pode ser um condomínio de fantasmas
o homem é seu filho é seu pai é só.

A catástrofe social é sempre individual
a esperança é que é colectiva é que é dos filhos
cada homem é pai da sociedade que não perfilha
a não ser no dia que um dia chega a tempo.

O cão vadio está liberto de deus não da fome
como os dias se não liberam das noites um dia
as leis são legíveis cada homem as escreve a sós
as leis aí estão como barcos secos no mar transparente.

Então sabe o homem que a tristeza é a mãe do homem
que a mãe é para sempre noite e dia
que a mãe é para sempre quem estava antes
à espera do dia em que o filho fosse pai
dela.



II

A graça pode também vir da pessoa que ao lado fuma
uma pessoa em graça tomada pelo que chove
ao lado.
A pessoa ao lado é também uma nave de tempo, também.
É de suaves mortos cumprimentados à passagem
vivos também
mais quando chove e ao lado alguém escreve ou respira.
E ao lado alguém é uma neve do tempo também.



III

O tempo é todo terrivelmente agora
das fontes da cabeça mana a água corredora
as mãos são ainda as pontes preênseis do coração e da cabeça
só que o estômago e as tripas e os olhos exigem coisas.

Hei-de ser alguma vez o homem que pela primeira vez
visita a eternitarde portuguesa das oliveiras?
Amarei ainda alguma vez mais o caminhar do que o caminho?
Trocarei ainda todos os algarismos destas contas feitas de cor
pela inumerável vida?

Que morto me não importará ser se houver de facto vivido.
Vivido terrivelmente e agora.



IV

Era a manhã acabando na própria luz quando a vi.
Contemporânea fluidez da mecânica que não perdoa.

Crescemos para homens para mulheres para gente
e não crescemos para mais altos que a terra sermos
mas da altura dela dentro
húmus reorganizador de caracóis cacos de tijolo
humildes lixos domésticos
brinquedos partidos por quebradas infâncias.

Era a manhã acabando na própria luz quando a vi.
Era esta manhã
tinha chovido um pouco não demasiado uma pouca de água
ouvi longe o rio de carros levando gente crescida
para o matadouro das maternidades
das fábricas
das pontes que unem o nenhures próprio ao nada alheio
das casas de alterne envernizadas a sémen represo.

E agora a manhã é terrivelmente agora que foi.

Friday, April 24, 2009

Rosário Breve nº 100 - O Ribatejo - www.oribatejo.pt

Santidades a dar com um pau (carunchoso)

Então parece que D. Nuno Álvares Pereira vai ser canonizado. Um santo nosso: era o que nos faltava para sermos gente. E se não gente, pelo menos felizes. E se nem felizes, pelo menos menos infelizes.
Este agora santo fez parte da minha escola primária pré-1974. Sempre o considerei uma espécie de ídolo do hóquei em patins: um Livramento de Aljubarrota, por assim dizer. Com ele, ganhávamos sempre a final com os castelhanos. Sempre, embora sempre no mesmo dia do mesmo ano no sítio do costume, essa Aljubarrota que rimava com vitória, não com derrota.
Condestável, estável e conde de não sei quantos condados, varão de desconheço quantas varas: grande dom, grande Nuno. Enfim: brincadeiras com que a gente se vai patrioticamente entretendo nos intervalos da spórtêvê em algum café perto do Centro de (des)Emprego local.
O décimo-sexto Bento da tabela dos papas, mesmo assim, ainda tem muito que canonizar cá com a maltosa. Tem, tem.
Maria de Lurdes Rodrigues (até por Maria, até por Lurdes) já vai merecendo, no mínimo, que a vaticanante pituitária lhe fareje o cheiro de santidade.
Manuela Ferreira Leite também, até por, também, ter já andado pela “Educação” ministerial, esse tugúrio de anjinhos.
Durão Barroso, não lhe há-de faltar muito, se calhar por ter fugido.
Manuel Alegre é certinho na cartilha com aquela novela do “exílio em Argel”, terra de moirama da grossa tão propícia à fábrica tanto de santinhos como de pau carunchoso.
Outro santo inevitável é Joe Berardo, todo o praticante não católico sabe porquê.
Vital Moreira? Alguém tem dúvidas entre nós, europeus?
Vítor Constâncio, sempre: é anátema quase, ser tão santinho entre gafanhotos.
De modo que D. Nuno Álvares é apenas o primeiro a mostrar caminho para Roma e para o Céu.
Eu sei, sim, eu sei que já temos mais nomes aureolados no cardápio celestino, mas eu só aqui estou para vos falar do futuro.
Porque, também, quem neste país acredita em futuro para este país – só pode ser santinho, que é o que devemos dizer quando nos dizem ou D. Nuno ou atchim.

Wednesday, April 22, 2009

Prosa Constitucional

Souto, Casa, manhã de 20 de Abril de 2009



De dia uso o corpo para trabalhar, só à noite me permito a cabeça e alguma coisa do coração.
Devo sobreviver assim longos anos ainda.

Há gente cujo trabalho neste única vida é abrir janelas.
Ando aqui a ver paredes e paredes e paredes.

Não tenho contas a ajustar, não me as permito já.
Estou reduzido a único dia, espécie de eternidade portátil.
Sonhei com a minha terra esta noite: era vertical, a terra.

Um único dia eternamente, longos anos de um dia único como a vida.

Na volta do Verão, reaberto o anfiteatro sideral, aceito a abóbada.
O corpo é todo nave em paragem e passagem, ao tempo mesmo.
As crianças tornam recentes as arqueologias, atiram cor.

Cada animal é uma monarquia absoluta.
Tenho sido republicano por distracção.

Monday, April 20, 2009

Um poema de Alejandra Pizarnik (1936-1972)


Sombras de los días a venir


a Ivonne A. Bordelois




Manãna
me vestirán con cenizas al alba,
me llenarán la boca de flores.
Aprenderé a dormir
en la memoria de un muro,
en la respiración de un animal que sueña.

Thursday, April 16, 2009

Rosário Breve nº 99 - O Ribatejo - www.oribatejo.pt

Coisas que passei hoje

Passei rente a uma creche. Escutei as crianças no recreio: chilreavam como passaritos de bibe. Cada passarito individualizava o Universo.
Vi uns olhos azuis: também universalizavam a individualidade.
Vi o João Paulo G. Está precocemente encanecido. A realidade preocupa-o. Falou-me dos salários escandalosos dos administradores da GALP, dos interesses privados das roubalheiras públicas, das fábricas que fecham o País por todo o lado, de ir para a Suíça no sábado.
Vi uma casa torrada a frio pelo granizo que caía.
Passei por três mulheres ricas e três como os Reis Magos.
Ouvi o lamento fúnebre por um orizicultor afamado do número de amásias que teve, susteve e manteve anos a fio.
Li o nome “Isabel” num poema de jornal, não recordo qual.
Fui diagonal a negro por causa da roupa entre esquinas cinzentas.
Também pensei naquilo dos salários da GALP e no 25 de Abril e no granizo que enregelava as mãos caídas.
Assisti a um incêndio sem bombeiros – mas era só o meu coração sem dinheiro, de modo que não liguei.
Estive numa casa-de-pasto a ouvir falar do Sporting e do Chelsea e dos administradores milionários da GALP e da broncopneumonia de um homem de 51 anos já com netos.
Passei os olhos por uma crónica escrita em Newcastle há 130 anos.
Recebi um telefonema de alguém que, como eu, se enganou neste número.
Estive quase a chorar, mas aguentei-me porque o Liverpool defendeu a sua honra, haja ainda honra, nem que seja de calções.
Ao fim da tarde, a creche tinha fechado, o crepúsculo doía devagar nas últimas montras, as formigas recolhiam às tocas suburbanas, na casa-de-pasto serviam bacalhau, houve referências ominosas ao Porto-Manchester, mas quanto à GALP mais nada, Isabel.


Thursday, April 09, 2009

Rosário Breve nº 98 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt

E. B.

Esta semana, a melancolia recordou-me um caso ocorrido em Coimbra há quase uma década.
Num bairro social antigo de outras décadas mais, uma mulher de rosto de pergaminho amanhecia emoldurada pela janela da casa térrea que era a dela. Parecia-me sempre um pássaro madrugador mas nocturno, aquela senhora de outro tempo. Parecia-me também que pertencia menos à terra do que, digamos, ao céu. Era velha, mas não o digo por isso. Digo-o porque era uma espécie de criança lunar: uma epifania: o bebé feito por dois alguéns do século XIX.
Uma tarde, perguntei na vizinhança. Disseram-me que era uma vergonha o que ali se passava, o que lhe faziam e aconteciam. Vergonha porquê, quis eu saber. Porque a velhota estava demente, que passava frio e fome, que um sobrinho lhe ficava com a reforma toda, que era quase nada, a troco de uma chávena de lavagem de café, duas fatias de pão e duas malgas de sopa por dia. E que há anos a mantinha fechada em casa, a mesma em que eu a via anoitecer a manhã, a mesma onde o gajo guardava as grades e as mercadorias do café-mercearia que explorava no bairro.
Telefonei logo a um canal de televisão e à polícia. Veio tudo, agentes perplexos com a ortografia do relatório, câmara-homem e jornalista. No mesmo dia a levaram para um lar de gente que anoitecia a horas certas.
Antes do telefonema, porém, falei com ela. Disse-me que estava à espera do pai. Que era pastora. Que gostava de andar pelos montes (prédios e prédios e prédios) com as ovelhas (carros e carros e carros). E sorriu-me.
O nome de família dela era Barros. O nome próprio permitiu-me deslindar a impressão primeira que dela me ficara quanto a menos pertencer a esta terra do que a outra dimensão mais alta: era uma menina-pastora, chamava-se Estrela.

Tuesday, April 07, 2009

Já que estamos pascais


Ilya Repin
Procissão de Páscoa na Região de Kursk
1880-83
(clicar na imagem)

Outra de Ilya Repin (1844-1930)

Ilya Repin
Burlaki (The Volga Bargehaulers) 1873
(clicar na imagem para melhor usufruto da obra-prima)

Sunday, April 05, 2009

Um Pensamento Todo

Souto, Casa, noite de 5 de Abril de 2009



Um pensamento nocturno faz-me atribuir as árvores
a mastros de enterrados barcos.
A terra faz de mar não revolto senão de espuma de rolas,
sendo dia.
A capela arde fria na noite marinha.
Sinto-a respirar, ladrar o seu pobre bronze.
O domingo recolhe o vencimento, uma noite no século:
nenhuma noite e nenhum barco.
Navegar, é em casa, à espera.
Nenhum barco toda a noite.

Mais máscaras


© John Gutmann
The Game
New Orleans, 1937

Inquietas

© Helen Levitt
Concerned
NY, 1942


Jovem judia russa emigrante - por Lewis Hine


© Lewis Hine
Young Russian Jewess
Ellis Island, NY, 1905

Menino com boneco e máscara de velho - por R. E. Meatyard


© Ralph Eugene Meatyard
Boy in Old Man’s Mask With Doll
circa 1960

Lam'omens por I. Penn


© Irving Penn
Three Asaro Mud Men
New Guinea, 1970

Beckett / Proust


Dois fragmentos de Beckett a propósito de Proust
(ensaio escolar, Verão de 1930, artigo em
http://en.wikipedia.org/wiki/Proust_(Beckett_essay))


‘Pues el delito mayor
Del hombre es haber nacido.’

Pedro Calderón de la Barca
in La Vida Es Sueño


I

Proust is completely detached from all moral considerations. There is no right and wrong in Proust nor in his world. (Except possibly in those passages dealing with the war, when for a space he ceases to be an artist and raises his voice with the plebs, mob, rabble, canaille.) Tragedy is not concerned with human justice. Tragedy is the statement of an expiation, but not the miserable expiation of a codified breach of a local arrangement, organised by the knaves for the fools. The tragic figure represents the expiation of original sin, of the original and eternal sin of him and all his ‘soci malorum,’ the sin of having been born.



II

The laws of memory are subject to the more general laws of habit. Habit is a compromise effected between the individual and his environment, or between the individual and his own organic eccentricities, the guarantee of a dull inviolability, the lightning-conductor of his existence. Habit is the ballast that chains the dog to his vomit. Breathing is habit. Life is habit. Or rather life is a succession of habits, since the individual is a succession of individuals; the world being a projection of the individual’s consciousness (an objectivation of the individual’s will, Schopenhauer would say), the pact must be continually renewed, the letter of safe-conduct brought up to date. The creation of the world did not take place once and for all time, but takes place every day. Habit then is the generic term for the countless treaties concluded between the countless subjects that constitute the individual and their countless correlative objects. The periods of transition that separate consecutive adaptations (because by no expedient of macabre transubstantiation can the grave-sheets serve as swaddling-clothes) represent the perilous zones in the life of the individual, dangerous, precarious, painful, mysterious and fertile, when for a moment the boredom of living is replaced by the suffering of being. (At this point, and with a heavy heart and for the satisfaction or disgruntlement of Gideans, semi and integral, I am inspired to concede a brief parenthesis to all the analogivorous, who are capable of interpreting the ‘Live dangerously,’ that victorious hiccough in vacuo, as the national anthem of the true ego exiled in habit. The Gideans advocate a habit of living—and look for an epithet. A nonsensical bastard phrase. An automatic adjustment of the human organism to the conditions of its existence has as little moral significance as the casting of a clout when May is or is not out; and the exhortation to cultivate a habit as little sense as an exhortation to cultivate a coryza.) The suffering of being: that is, the free play of every faculty. Because the pernicious devotion of habit paralyses our attention, drugs those handmaidens of perception whose co-operation is not absolutely essential.

Saturday, April 04, 2009

DW em demanda do Paraíso (vai, pelos vistos e ouvidos, bem encaminhado)

Back to the USSR


© Alexander Rodchenko
Ao telefone (1928)

Parks em Banguecoque


© Gordon Parks
Bangkok circa 1967

Tennessee por Penn


© Irving Penn
Tennessee Williams
New York, 1951

Colheita mortal na Guerra Civil dos EUA


© Timothy O’Sullivan
A Harvest of Death
Gettysburg, Pennsylvania
July 1863

Há 34 anos e 11 dias, no Texas

© Stephen Shore
Presidio, Texas
February 21, 1975

Quem se lembra do Caso Profumo?

Christine Keeler
by Lewis Morley
(1963)

Tenho decerto uma Pessoa e um Império

© Sandra Bernardo
Bairro Social S. João de Deus - 19
Pombal, manhã de 3 de Abril de 2009




Souto, Casa, manhã de 4 de Abril de 2009



O império pessoal atravessando lavouras sumptuosas.
Colector de dias, utente da tinta preta da noite para escrever
o império, a lavoura.
Nenhum assunto de preferência.
Assumpção completa da cabeça, de todas as cabeças
em que as pessoas são bustos incendiados.

Numa praça breve, auscultar o coração comedor
das pombas, a cosmogonia das últimas árvores,
dos santos dos últimos dias como nos primeiros.
Contar com isto: que a astronomia sempre começa
por baixo.

O ar de pessoas dos cães que atravessam os mármores,
as galerias comerciais, que cruzam os casais ociosos
dos sábados, aterrorizados por o futuro ser domingo.

Tenho decerto uma pessoa e um império.
Ausculto lavouras sumptuosamente.
Chávenas de café pontuam as folhas das mesas,
a vidraça faz de cidadela astronómica,
sinto a passagem
de Paulo, o dos vidros,
de Gualter, o dos cimentos,
de Teófilo, o das colas,
de Eduardo, o que dá explicações de química,
de Deolinda, que tem por ofício um filho doente,
de Graça, a morena,
de Idília, a do bazar,
de Clara Maria, a dos bonecos de barro encarnado.

Méxicos múltiplos jorram das mantas multicolores,
roupa a secar multiplica nações de segundo andar,
bandeiras humildes que não fazem a guerra,
ciganas secam o cabelo com uma graça de escuros cisnes

– e para a semana terá sido outra década,
noutro século imperial sem nós nem memória de nós.


Friday, April 03, 2009

Era esta Pedra

© Jacob Riis
Pedinte Cego
circa 1890





Souto, Casa, entardenoitecer de 3 de Abril de 2009



Perto de nós as bandeiras da roupa deixada a secar como nós.
As lojas inaugurando por dentro a noite como cubos de luz.
Muitas cidades se fazem uma só numa só vida.

Trabalhei sem importância todo o dia, sinto-me bem.
Há bolo no aparador, café feito de fresco, regressam a casa os animais que instauram a lentidão dos regressos, os pensativos regressos dos animais e das casas e das perdas.

Alguns conduzem carros, outros balem, todos estão vivos e demoram-se.
Era isto que nos esperava, estes ofícios, a confirmação de um punhado de mentiras piedosas, viver e pensar nisso como se pensa numa pedra sozinha numa praia,
no inverno.


Explicações

Souto, Casa, manhã de 3 de Abril de 2009


(I. Por causa de um raio de sol que me tocou a janela)

Suponhamos finalmente que deus existe
mas sem ser maiúsculo
que de uma ovelha perdida mais não passa
um bicho como nós em demanda de um cajado solar
de um chapéu-de-chuva feito de varetas pluviais:

que faremos deste deus igual e insignificante
este pobre deus lanígero e muscular e sanguinário
e sangrento e viciado em igrejas e incensos e mulheres?

O sol é tudo quanto posso para suportar deus
e o diabo por ele.



(II. Por causa de ter dormido bem)


Vi o rosto do Armando José Oliveira dentro de um carro
ao acordar
o rosto de óculos escuros
o cabelo aurificado por um lençol de sol
o sorriso aliviado da outra dimensão
lá onde ele vigora
contemporaneamente para sempre
contemporâneo de tudo
da filarmónica de 1825 por exemplo
da inauguração da ponte D. Luiz
da torre de Santa Cruz de Coimbra
da nova gama de óculos escuros 1991:

de que alívio sorriria o Armando José Oliveira?
Os mortos explicam-se
a gente é que os não entende
o sol sim.





A Cicciolina é danada prà brincadeira, a moça - mas monogamia não é indecente, pois não?

Sócrates processa colunista do DN


"Ver José Sócrates apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte de Cicciolina." Assim começa um artigo de João Miguel Tavares no DN (3 de Março) de que o primeiro-ministro, José Sócrates, não gostou.
Resultado: uma queixa-crime contra o colunista do DN por aquela e outras referências no texto. Sócrates tinha ameaçado com processos os jornalistas que escreveram sobre o Freeport.
João Miguel Tavares foi ouvido no DIAP de Lisboa. Contactado pelo DN, o colunista declarou: "Agradeço a atenção que o senhor primeiro-ministro me dedicou de que não me acho merecedor."


Artigo de João Miguel Tavares – aqui.

Rosário Breve nº 97 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt

(P)(S)(D) sou eu

Tirando 1974, ano em que ninguém governou, e 1975, ano em que o amanhã quase cantou, há coisa de 34 anos que somos desgovernados, alternada e inalternativamente, por um par de jarras de sigla-clone: o PS(D) e o (PS)D. Para este totobola não contam nem o partido dos eucaliptos, que foi CDS e agora é PP, nem a coligação dos rabos-de-cavalo, que foi UDP e PSR e agora é BE, nem o partido da cassete contra-o-grande-capital-e-as-políticas-de-direita. Portanto, a culpa disto tudo é minha.
Três décadas e quase meia de PS(D) e/ou(PS)D: e a culpa é minha. Já não assobio para o lado. Quando raspo a barba, barbeio, olhos nos olhos, o culpado disto tudo.
É certo que tenho alguma gramática, mas nenhum cartão, sequer de multibanco (ou multibando, conforme a perspectiva).
É verdade que possuo dois pares de sapatos, um de pantufas e outro de chinelos de banho, mas nenhum sítio para onde ir.
É real que tenho certa queda para a poesia, mas lugar algum onde cair morto, quanto mais poeta.
A culpa é minha. O senhor Flaubert era Madame Bovary. (P)(S)(D) sou eu: Patego, Sonso, Desequilibrado; Picuinhas, Sentimental, Doidivanas; Portuga, Seminal, Delicodoce; etc.
Quando me casei com esta senhora que hoje me tem, ela não sabia. (Fiz por lhe não contar, que isto de ser burro também tem seus dias não contados. Morrendo, fina-se a burrice que é um mimo.)
O problema é enquanto não se morre. Nasceu-se, nasceu: nada a fazer. É aguentar a coisa, trinar o fado com o fiapo de bacalhau a apodrecer a anfractuosidade dentária, benficósportingar umas minis, chupar o mata-ratos e saudades à prima.
Mas à noite, enrolado na fria lona que resgatei ao espólio da tropa, consolo-me todo de o (P)(S)(D) ser eu.
Eu e tu também, meu culpado leitor: não assobies, que tens espuma de barbear na boca.

Thursday, April 02, 2009

Identidade - procura-se

John Clarence Laughlin
The Search for Identity
number three
1941

Wednesday, April 01, 2009

Pego Devagar na minha Vida com Precisão

Souto, Casa, manhã de 1 de Abril de 2009


Pego devagar na minha vida
falo-lhe na cara
olho-a nos olhos
sei ter-lhe feito duas filhas suaves
percebo alguma coisa de música
tenho cinco mulheres
uma delas é minha Mãe
está doente e velha a minha Mãe
mas não faz mal porque vive
ainda me não fez aquela desfeita
um homem só de quatro mulheres é pobríssimo
e eu tenho horror à pobreza
porque sempre fui rico
bastou-me nascer
de um homem que amou uma mulher que o amava
estas coisas acontecem
um pouco por todo o lado mulheres e homens amam-se
depois ouve-se música
é abril
faz sol
à sombra está fresco
tenho um dia destes de voltar a Coimbra
ver os lilases
ver o rio
tem de ser nesta vida
que outra não haverá
estou hoje muito feliz
tenho o desespero aos pés como um cão fiel
pego devagar na minha amargura
acho-a bonita
sou agora finalmente um homem
demorei anos a matar o rapaz
o pueril rapaz dos versos e dos bailes sozinhos
percebo alguma coisa de datas
tenho uma data de datas na cabeça
nenhuma é do futuro
sei que horas são
às vezes dá-me para ler
outras não
outras fico parado
outras fico devagar
um homem é uma árvore capaz de mudar de quintal
é bom que assim seja
cidades e aldeias mudam na cabeça como paisagens de comboio
o mar ressoa no coração como um alaúde de sal
quando preciso de ver o mar leio Raul Brandão
e a dor passa
não tenho visto as minhas filhas
porque não há Raul Brandão para isso
gosto de quando o café parece um olho preto luzidio
gosto da língua portuguesa ser a única língua do mundo
era a língua do meu Pai
o meu cão amarelo percebia o que lhe dizia
vamos ao monte?
queres comer?
precisas de água?
estas coisas que os pais dizem aos filhos
podem e devem ser ditas aos cães
não vejo por que não

sim
quero ir ao monte
já comi
preciso de água
e
minha vida
preciso de ti.


Ciência e Paciência do meu Amor - seguido de - Endechas sem Escravidão

I. Ciência e Paciência do meu Amor



Pombal, tarde de 31 de Março de 2009


O meu amor sabe, como eu sei, a quanto vão
na praça o tremoço, a fava, a azeitona, a sardinha,
como eu sei ela sabe quão
de pessoa viciosa lábios parecem as costeletas
túmidas no mármore do talhante,
ciente é ela do meu amor por ela, ela
atenta por dentro ao instante de a nuvem
atravessar o sol para a cinzas reduzir o coração
passageiro na rua como no século, sabe-o ela
como eu o sei.

Tem a ciência o meu amor do meu amor por velhos versos
com gaivotas ondulatórias em menor redondilha
asas escritoras / do verso do vento –,
a ciência e a paciência de ouvir-me garantindo-lhe,
quando à noite retoma Ítaca cansada
a minha Penélope trabalhadora,
a partida de Paris de Eça, caminho de Genebra com
a morte nas entranhas
a 28 de Julho de 1900, onde comeu com
inesperado apetite e de onde tomou carruagem
para Glion de Montreux, ante cujo lago
se achou prostrado e quási morto, estado
que veio a cumprir a meio da tarde,
eram as 16h35,
ante o parque que dos Orléans fora,
em Neuilly, França.

Torra, bem no sabe ela por eufonia
(que euforia, não), o crepúsculo roxuras
e laranjadas tintas na linha do amor,
digo, do mar,
que do nosso primeiro andar de três assoalhadas
se não vê com os olhos da cara, só os do coração
o verão,
no inverno
da nossa comum vida já outonal
– e vera e prima,
última nunca,
por enquanto.



II. Endechas sem Escravidão


Ibidem


Roxa rouquidão / de tinta serena
pequena de rosto / de face pequena
doce singular / de idioma breve
tal floco de neve / singular e doce.

A trouxe a ventura / de meu achamento
sem ela um momento / em outra achadura
tal é a vertigem / que ma trouxe aqui
bem fala por si / com prolongamento.

Human’ união / d’homem com mulher
que consigo vão / ’onde se quiser
dolorosa vi(d)a / de temp’ aumentada
quão maila sofrida / mailo bem passada.

Asas escritoras / do verso do vento
bento universo / de casais e casas
areias do mar / da terra areias
belas umas feias / mas todas com asas.