Wednesday, December 31, 2008

2009 vos seja bom


© Sandra Bernardo
Alqueidão da Serra, Porto de Mós
21 de Dezembro de 2008



Sandra Bernardo et moi, nous vous désirons une Bonne Année 2009,
que é como diz a rapaziada da Baixa da Banheira quando não anda aos tiros.
(Obrigado por virem aqui – e até já.)


SB
DA

Última crónica de 2008 para O Ribatejo (www.oribatejo.pt)

© J. E. Gageiro
Baile popular em Lisboa, década de 60


Já não há bailes

Nascer português e continuar a sê-lo a vida toda – é como casar repetidamente com raparigas pobres que repetidamente se nos desquitam. Digo: é uma insensatez voluntária, um solecismo autocapcioso, um, enfim, voluntarismo insensato.
Ultimamente, tenho-me sentido algo cansado de não ser espanhol. Ultimamente, no meu caso, significa trinta anos de decepção, que os primeiros catorze até nem me correram mal de todo. O País não reparou no excelentíssimo nadador e no genial xadrezista que eu era para ter começado a ser aos doze anos. A Pátria não quis saber do pianista que, às mãos ambas, estive em casa para ser, só por causa de uma vez em que acertei quatro marteladas num xilofone de lata.
Mas é que, logo em menino, vi porrada entre grandes à porta de bailes esquentados pelo vinho, pela sexualidade e pela pobreza. Era em bairros que só coruscavam quando o sol perdia quilos. Um desses era o meu bairro. Havia bailes no Clube. Eu fui ver. Era a imitação de Inglaterra e de França. Já estavam mortos os Oliveiras e os Silvas da fundação pretibranca do Clube. Eu gostava da música: parecia-me de uma altura a que talvez fosse maravilhoso chegar sem martelar lata.
As raparigas apertavam-se em chitas de pechisbeque e eram de uma aura apenas desmentida pela pobreza dos sapatos, a escassez de unhas e a nulidade da ortoépia. Transitava dos lados do vento algum rumor de sardinhas queimadas pelo rubi do carvão. Um único plátano vicejava oxigénio, balia o sino coruscações brônzeas sobre tanta laicidade. Motorizadas cilindravam asmas tóxicas, à aproximação do mármore clúbeo sangrado a lâmpada e a bilheteira. Uma carrinha tinha trazido os amplificadores. Os vocalistas ladravam um inglês fonético maravilhoso. Os músicos bebiam ginja como toda a gente.
Havia baile e eu era menino. Houve meninos e eu já não bailo. Agora sou só português.

Tuesday, December 30, 2008

Júbilo é um substantivo feminino





O Mundo (im)Perfeito

A partir de hoj'agora, outro blog que vale (muito) a pena seguir: http://omundoperfeito.blogspot.com/

Já está nos Links da Malcata, aqui mesmo ao lado.

Cristalino Vicente - VIII


© Sandra Bernardo
Cabanas de Viriato, 5 de Novembro de 2008


Casa, Souto, madrugada de 30 de Dezembro de 2008


Cristalino Vicente está a dormir na sua cabana. Tem um sonho. Sonha que está a dormir na sua cabana. Angustia-o ver-se dormir. Amargura-o sonhar-se, sabendo-se acordado dentro da cabana mas fora do sonho. Desperta-o o pavor de perder-se entre estados. Sonha que desperta, mas

Ali está o púcaro de folha, ali o toucinho para fritar amanhã (ou agora?, ou ontem?), há sempre as árvores mesmo quando não há vento, o rio nada traz porque leva tudo, dizem que há sítios num barco que são só mar por todos os lados mesmo que o barco esteja em terra, ali é o espelho para que eu recorde que o Outro sempre habita a casa de um homem sozinho, e ali é a porta, e além dela os meus pés, que não trouxe para dentro, e se os trouxe não posso mexê-los, assim metido em lama até à cintura, agora ao peito, à boca, aos olhos,


e então sim desperta de vez e de verdade, seja a verdade o que for.

Monday, December 29, 2008

Cantiga

© Irving Penn
Street Findings, NY, 1999





Casa, Souto, início da tarde de 29 de Dezembro de 2008




O que de nós deixamos
se pareça mais connosco
que aquilo a que nós nos
chamamos

alguém nunca nosso de nós
o diga

e que nos ao menos
sirva
de cantiga.

Rês ao Mar


©
Bill Brandt
East Sussex Coast, 1957



Casa, Souto, início da tarde de 29 de Dezembro de 2008



Parece-me haver horas puras como reses.
Uma noite, vivo uma delas.
Fechado em casa, distingo da vozearia do mundo um som único.
Pode ter-me chegado da costa, vindo do infindo mar.
Pode ser da ânsia do mar.
Também pode ter sido alguém num quintal perto.
Alguém sozinho num quintal perto, na infinda noite.
Alguém, portanto, perdido no mar.

Ouço vozes.
Uma voz é suficiente para estabelecer uma pureza fria: infinda.
As vozes das reses têm essa operacionalidade.
As reses estão fechadas nos quintais.
Pensam nos pátios como se estivessem ’inda nos campos.
As pessoas estão fechadas no mar.
Os afogados estão fechados nas casas.

Coelhos e estrelas,
mulheres estendendo roupa como se vestissem o ar,
domingos e domingos amarfanhados como papéis
(números de telefone imprestáveis, perfis de árvores a lápis),
enguias e sinais de trânsito,
homenzinhos solfejando pássaros de alta-tensão,
cedros com todo o ar de pulmões expostos,
as nervuras orelha-de-coelho das parras,
a fosforescência das crianças sonâmbulas,
o antiguecer das unhas sem volta a dar,
alguém perdido num quintal perto,
a rês infinda no mar único.

Habaneras de Cádiz por Pasión Vega

Sunday, December 28, 2008

Mães Portuguesas outra Vez

© Sandra Bernardo
Alqueidão da Serra, Porto de Mós,
21 de Dezembro de 2008



Casa, Souto, manhã de 28 de Dezembro de 2008





As mães portuguesas nascem primeiro avós,
só depois (não muito) devêm mães.
Mães
da autofagia dos filhos,
da estupidez gregária das galinhas,
do porco solitário,
dos homens-netos a quem admitem o acasalamento
e a degola.

As mães portuguesas sabem de lume como ninguém,
nem aqui nem no estrangeiro.
Elas como ninguém engendram o coração da lareira,
onde as madeiras oliva e pinha urdem o rubi rútilo.

Resistem à saúde do idioma e à moléstia da literatura,
não são nenhumas maricas de versos nenhuns.

Na arca, salgam mantas de toucinho e tranças
de anteriores como elas avós.

Têm com a Mãe de Deus uma diplomacia de clones.

Nada lhes escapa ao almanaque:
cónegos e coelhos, frangos e fregueses,
vasos e veias, rios e frios,
bailes e bules, cidras e hidrocefalias,
câmbios e cambras, juncos e junhos,
ossos e destroços, vinhos e tinhas,
moucos e loucos, manhas e manhãs,
censuras e tonsuras:
nada pode furtar-se às avoengas evas.

À distância, semelham carvão envernizado:
sombras de sombras que confirmam a luz derredor.
De perto, porém, instauram a fixidez do bálsamo,
mãe-múmias urdindo os egiptos de uma eternidade
que não pediram nem amam.

Sofrem de contabilidade e de falta de música.
Rijas como ventos gelados dando em muros,
porosas como chuvas atravessando robles.

Álamos de si mesmas, salgueiros flectidos pelas águas,
murmuram solidões completamente pastorícias.

Dão de comer ao porco para que os homens
lho comam, como a elas.

Formigam na colmeia amarga da missa,
lavam as unhas amarelas dos pés do cura,
alinham o linho sem tomentos nem tormentos
sobre o altar,
perdoam ao Senhor tanto amor pela agonia.

No curro, incontinentes, mesclam ao
sugo da vaca o próprio suco.
Como ela, elas cheiram a couro e a lágrimas pensadas.

Só que fazem o pão como ninguém,
nem no estrangeiro pode o pão ser como o delas.
Estripam com bonomia os passarinhos
apedrejados pela filharada.
Pensam o bacalhau peixe do ribeiro perto,
que nórdico para elas só o brilho da Estrela Polar,
lamparina da Virgem, azeite e prata do Paraíso.

E quando morrem,
nascem outra vez.

E quando morrem,
nascem outra vez,
sempre avós,
portuguesas para sempre.

Saturday, December 27, 2008

Abbey Lincoln - Brother, can you spare a dime?

Patricia Barber - Call me

Para o Almanaque Futuro

© Sandra Bernardo
Alqueidão da Serra, Porto de Mós,
21 de Dezembro de 2008








Casa, Souto, noite de 27 de Dezembro de 2008





E a cada um sua sombra
e a cada sombra cada um.

Vidro movediço, a água dos dias
deita janelas ao ar frio, quieto.

Um almanaque futuro espera
a súmula incontável, chã.

Patas de aranha escrevendo
versos picotados sobre cal?

Cada palavra, cada precisão,
cada fortuna, cada sombra.

Recados do Porvir das Cinzas

© Sandra Bernardo
Alqueidão da Serra, Porto de Mós,
21 de Dezembro de 2008





Pombal e Casa, Souto, 23, 26 e 27 de Dezembro de 2008




I

Espero que a noite troque de lugar comigo.
Farei dela o lugar; ela, o meu.
Espero uma haplologia em lugar do coração.
Tenho (posso mostrar) uma colecção de luz
nesta caderneta de sombras.

O corpo é para queimar devagar na ida ao campo.
Cada março mente verde por todos os poros.
As crianças também mentem porque são felizes
na agonia da vida no campo.
As crianças são todas vinda (e vianda),
recados todas do porvir das cinzas.

E a boca é uma fonte de países.
E trocar de boca é uma noite toda nacional.

Eu estou sentado debaixo das estrelas,
diamantinas gambiarras frias na pulsão.
Os aviões unem os pontos do diagrama,
Deus não está nem deixou recado,
excepto o da cinza.

À beira da noite, qualquer rio murmura derrames
preciosos.
O segredo para não enlouquecer reside na adesão
à tristeza com cartão de sócio.

Planetas rangem nos gonzos como cabras orbitais.
A esta hora, um barco calado singra azulnegro,
sozinho na História e na preocupação das famílias.
(Nenhum marinheiro trocaria de lugar comigo,
porém.)

Outra coisa é a posse de armas.
Outra, o clarão de um verso vindo do e para o nada.

Cambiarei, ainda assim, manhãs.
Não se pode
(poder, pode, mas se não deve)
andar sempre com os cornos dos filhos-da-puta
cravados nos rins.
É preferível dizer cores e laranjas,
absentida a profundidade mediúnica
da palavra.



II

Então a vida levanta-se de ter estado de joelhos,
não se demora muito em pé, mas é bom senti-la
vertical: entre juncos e junhos e ossos e destroços.

O vinho novo cheira já na sala onde o coração arde,
toda a tarde o vento vingou gelos e cedros,
devo ter estado quieto entre mantas, músicas, medusas.

Devo ter estado quieto a minha vida deitada, na sala,
atento à invernia rumorosa dos passantes ideográficos,
dos animais frigidíssimos sem hipóteses de lume.



III

Então certos olhares: lesões vítreas.
A vida é muito mais pastelarias
do que sendas areeiras levando ao mar.
Muito mais.

Um sábado à tarde fechado como um punho de cinza,
ver o primeiro-ministro,
coitado,
e os segundos e terceiros-ministros todos,
coitados,
tão órfãos de si mesmos,
tão arautos das pastelarias iguaizinhas todas
umas às outras,
coitadas.

Ou então não.
Ou então escolher uma música, uma fotografia,
uma atitude, uma embalagem decente para
as próprias cinzas.

Nnenna Freelon - The Meaning of the Blues (obrigado, SSV)

Wednesday, December 24, 2008

Novos Descobrimentos - 2

Casa, Souto, tarde de 24 de Dezembro de 2008



Deus pode ser dito de outra maneira, mas Ele há maneiras que nem ao Diabo lembram.

Novos Descobrimentos - 1

Casa, Souto, tarde de 24 de Dezembro de 2008



É líquido que o sexo oral também vai (ou vem) muito da confiança que se tem c’a pessoa.

Tuesday, December 23, 2008

AS NOSSAS MÃES GASTAM-SE TANTO em DESPAISAGENS E DESPOVOAMENTOS

© William Henry Fox Talbot
Henriette Horatia Maria Feilding, circa 1845


Pombal, 19 a 23 de Dezembro de 2008





AS NOSSAS MÃES GASTAM-SE TANTO

As nossas mães gastam-se tanto quanto as vossas.
Não o sabem elas? Sabem. Nós, que não, fingimos.
São as santas da noite, madalenas marchetando,
mosqueadas, matizadas de frios azuis nigérrimos.
Céus e infernos não revolvem, invernos sim, e terra apenas.

Batem as ruas como cães cólumes.
Não chegam nunca a despir-se de verdade.
Nascem já ferradas de calçado, fechadas de roupa.

A um canto, cantam.
Nascem já tão antigas, que o canto trepa por elas
como se a chuva subisse delas.

Passamos a vida a ensiná-las a ler
o que elas escreveram além de nós.

Além de nós,
cegos.

Nisto do passarmos a vida, dão-se
as despaisagens e os despovoamentos.



DESPAISAGENS E DESPOVOAMENTOS

O último azul falece menos e menos alto por alturas do castelo.
Derradeiras pombas de contraluz coruscam carvão recolhendo ao ocaso não por acaso.

Dei de comer aos animais e deitei-me cedo.
Sonhei com militares muito novos agredindo mulheres.
De noite levantei-me e bebi refrigerante de uma lata verde.
Tenho só estas mãos para o futuro.
Só duas mas tantas, por outro lado.

O nascimento do dia é de uma luz de verniz.
Pugnam as trevas em vão: a luz re-estabelece a ordem.
Encastoadas nas mães verdes, as laranjas olham de olhos de ouro.

Isto é lindo, isto é verdadeiro.

Penso as casas.
Vou devagar pela berma da minha vida.
Vou ali ao café e já venho, lembro-me do feijão verde em casa, estabeleço um caldo delicado (todas as letras de caldo em delicado), duas batatas de pele vermelha, uma cenoura dura, duas cebolas choronas, cinco dentes de alho mental, calda de tomate pelado, cara de porcum salgado, azeite rico.
Recebo no peito o sol muito largo, à varanda.
E a tarde abre-se-me como um país sem gente, sem deus, sem remissão, sem futuro.

A noite, esse deserto de veludo.
Boa para ter frio, para entrar no frio, para ter alguma coisa.
Das laranjeiras, os olhos de ouro fecham-se.
Dá-se a primeira geada, pátina de rendas maravilhosas: as hortas, os despojos das obras, os abandonos verbais: rendas álgidas, puríssimas.

Gosto de ver onde as pessoas viveram.
As pessoas do mundo são todas anteriores.
Não voltarão nem se revoltarão.
Isto agora vai ser assim.

Muros de pedra sobre pedra carreiram o olhar: vales, prados, hortos, hotéis ardidos de frio, incêndios de gelo: tudo bases aéreas da palavra voadora.

Até dos filhos-da-puta tenho saudades.
Isto assim é como ninguém
(nem os músicos)
ter vindo ao baile.

E no entanto a vida é orquestrável.
Há sempre arranjos a fazer.
A passarada é melódica, há harmonia nos quartos ambulatórios da vaca.

Se apesar de tudo a automediocridade não cegar,
é possível amar um pouco.
Amar?

Sim,
amar
de um rio a obstinação atlântica
(a morte na foz, mas atlântica e pacífica),
a feminilidade úbere das balzaquianas lidas
em fólios mal traduzidos da I República,
a povoação insensata de cada coração dado
a biologias e a necrologias e a poesias e a termometrias,
um lírio esmagado de luz contra um céu
também branco,
a roupa que os idos continuam a vestir
sem corpo,
os sapatos que os partidos seguem calçando
sem pés
(e luvas e mãos, e chapéus e cabeças),
a grande possibilidade respiratória
do verso certo na vida incerta,
o esquilo, a lebre, a raposa, o corvo,
esses deuses primevos e derradeiros
visíveis de olhos fechados num sonho,
a lubricidade inteligente dos trocadilhos
ensarilhados a sós no banho,
o banho propriamente dito
(por esculpir na vertical, e a vapor,
o último corpo da nossa vida),
a antonionobreza do luar dando salgueiros
e espelhos de prata a almas de toucador,
a raulbrandura do mar a cores
través a melancolia a preto-e-branco,
a ruibeleza das muitas mortes de deus
durante a única vida do homem único,
a cesarioverdura ortossilabando
o gás das estrelas às ruas descido,
a rodrigueslobotomia das fontes
dos rios e da cabeça,
amar
estas coisas,
sim,
com o último corpo.

Despovoado, último, único corpo
na despaisagem,
Mãe.

Duas crónicas pouco-nada-zero natalícias


1. Rosário Breve nº 83
25 Dezembro de 2008
in www.oribatejo.pt


DO MINISTRO INEXISTENTE

Um dos ministros do Governo (um governo qualquer dum país qualquer) levanta-se todos os dias manhãzinha muito cedo.
Não fumou nunca na vida, nunca se deu nem cedeu nunca a narcóticos, bebeu sempre pouco e mal. O pai tinha uns hectares de pinhal (hoje eucaliptais, claro), uma pecuária e uma tia em Newark – o suficiente para engenheirar o filho, hoje ministro (um ministro qualquer dum governo qualquer dum país qualquer).
Antes de ministro, o ministro comia sopa. Se hoje só lá vai com consommé, é como na Bélgica (uma bélgica qualquer) chamam ao caldo. De broa para croissant, pronto.
Antes de ministro, o ministro era de um partidelho cola-cartazes de esquerda, barba, joan-baez-e-não-voltas, tó-colante e namoradas desvirgens com tranças e cócegas à la simone-de-vou-voar.
Portugal nunca passou pela cabeça deste senhor: nem antes de ministro, nem agora sinistro, perdão!, ministro. Portugal (um portugal qualquer dum governo qualquer cheio de quaisquer ministros) morreu-lhe ao mesmo tempo que o pai de oitentital anos, cheio de saúde, aliás, o qualquer pai).
O ministro só começou a relacionar-se com Portugal porque Espanha estava – e continua a estar – fechada.
O ministro, depois de portugalizado pelos direitos-humanos-base-áerea-dos-açores e pelo cristianismo-marxista que não há, nem é, nem está (mas teresa-calcutá), tornou-se super-ministro. Como super, invadiu logo as estações de serviço do Iraque (ir a quê?), os tais Açores (a cores) e Esposende, aonde Ruy Belo ia ver desaguar o Cávado “a troco de uma imperial”, nótula que fica sempre bem nas vernissages da Casa Fernando Pessoa e nas incursões de Francisco José Viegas à Feira de Frankfurt e nas de Paulo Portas a outra feira qualquer (de um país qualquer).
Falta-me só dizer que este ministro existe mas não existe.
O Pai Natal também não e também sim.



2. Notícias de Dentro nº 4
13 Dezembro de 2008
in www.noticiasdocentro.net


FARTO DE CÉUS E DE PARAÍSOS

Este Governo vende-nos todos os dias e a toda a hora o Paraíso na terra. A rua, porém, purga purgatórios diferentes, muito diferentes, da propaganda oficial. Encerramentos de fábricas são mato. Direitos laborais, está quieto. Mas em Lisboa, curta metonímia de Pátria, está tudo bem. Em Lisboa e na Covilhã, terra do menino-prodígio que é ouro da cabeça aos pés, pode ser que sim, que o Paraíso seja verdade. Aqui, não.
Felizmente, tenho em casa TV por cabo. Vejo filmes e documentários, já não tenho de engolir oficiosamente, e a seco, as lérias, tretas e mentiras oficiais sobre que se sustenta a sombria “verdade” iluminada do costume.
Perdão vos peço se pareço pessimista, mas tudo me empurra para o pessimismo: as roubalheiras dos bancos, as reformas escandalosas dos altos cargos da tribo, a indiferença infecciosa dos titulares públicos, as falsas “grandes obras”, a aldrabona modernidade: nada, nada, nada, nada.
Quem me quiser contrariar, que o faça com argumentos e provas concretas. Mas duvido que, desta massa amorfa de povo, alguma voz se me insurja. O silêncio é de ouro para quem deveria prestar contas em tribunal. Contas e penas nesta terra, que de Céu ando eu farto.

Bruno Aleixo (fonte: www.oregabofe.blogspot.com)

Thursday, December 18, 2008

Crónica nº 82 da série Rosário breve (O Ribatejo, www.oribatejo.pt)


Leonor vezes quinze

No momento em que escrevo, completa quinze anos de vida a primeira e penúltima de minhas filhas.
Não sei (não o sabe ninguém) que lhe guarda o futuro. Sei tão-só que guardas preciso eu ela tenha no porvir.
Receio que os burocratas a queiram matricular em desesperanças que são minhas, não dela. Não a quero triste neste país bonito e triste e nosso. Quero-a pertinaz, contumaz e relapsa na felicidade. E quero oferecê-la ao mundo como se oferece uma flor: indicando-a sempre ao ar, arrancando-a nunca do chão.
Fui buscar-lhe o nome a Camões, mas quero-a segura e calçada sempre que ela for à fonte. O segundo nome próprio que lhe dei – é o que foi de meu Pai. Fiz bem.
O dia dela, hoje, é-me para sempre. Todos os dias dela me são para sempre, que nem tudo é nunca, na vida.
Penso nela quando sorrio à visão de algum dos mil encantos da vida: uma linha alta escarlate de sardinheiras em varandim de mansarda; um gato ao sol com sombra de tigre; um livro aberto ao acaso na página certa; a veia também aberta de um rio; as mãos de minha Mãe acertando o sal na comida; as risadas de novo frescas dos meus irmãos ao pé dos filhos deles (meus também, afinal); e a primeira vez que ela sorriu, lascando-me para sempre o coração e o Camões.
Se hoje, e aqui, mostra pública faço do primeiro e penúltimo de meus mais gravosos amores, é porque sim.
E porque se me azula, sobre fundo de puro ouro, tanta, de quinze anos, verdura: tão formosa e tão segura.

Wednesday, December 17, 2008

Écloga Tríptica de Clarisse Nardo Nómada Gentil com Post-Scriptum mais X Sonetos Bárbaros e Felizes

© Sandra Bernardo
Menina em Fuga
31 de Agosto de 2008, Cabanas de Viriato



Pombal e Casa, Souto, dias 8, 9 e 15 de Dezembro de 2008





Quisera adormecer
como a criança acorda.
à beira de outro tempo, que é o nosso.

Só quero o que não posso.

Jorge de Sena, 8/4/1953,
in 40 Anos de Servidão



Écloga Tríptica
de Clarisse Nardo Nómada Gentil


(E o tempo junta-se a si mesmo como água,
chamado pela terra – como a grávida se junta
dentro da criança dentro dela: e o ar enche-se
de bandeiras vermelhas (negras ao longe)
como gritos de pano, como os primeiros
versos recolhidos pela cabeça cada
amanhecer)


I

A criança continua a ocorrer na pessoa consagrada.
Ribeiros escuros fluem-na eclogamente.
A criança é já pastoril para consagrar a solidão
da pessoa.
Revivescências na criança são da futura pessoa
antecipada.
Ela é radial e cêntrica e receptora.
O crime fervilha nela como um vento no cabelo.
Ela remexe a terra, depois cheira as mãos.
Tem clarões de revelação, que esquece para
sobreviver.
Só depois de morrer é pessoa: consagra-se
de escuros ribeiros, escuros fluidos.
E de éclogas escuras se consagra.

Seguem-se luxos e indigências, poeiras do corpo.
A poedeira morte desova clarões coloridos, níveos.
A vida assobia para o lado, plutarquiza-se, cenografa-se.
Ázima, inconsútil, treda e vera: a vida.
Quantas pessoas terão de ter sido para ser uma criança?
A criança é tê-la sido, impossível sê-la e estar vivo
em pessoa, entre prédios e bairros sociais.
E as ideias são os fantasmas dos acontecimentos.

Azula frios o carro de polícia pejado de primatas.
Já a mulher dos tremoços recolhe ao covil,
onde a aguarda e guarda um falo de palha.
A pessoa ao colo da criança trabalha na retrosaria.
A pessoa ao colo da criança trabalha no banco.
A pessoa ao colo da criança dá de beber aos animais.
A pessoa ao colo da criança está toda cagada das pombas.
A tristeza dá o colo à criança coleccionadora
de intervalos de pombas.

A pessoa não continua a criança senão dormindo.
A pessoa dorme a vida sempre que pode
velozmente.
Fulminam granadas azuis: o gelo da polícia
nas empenas dos prédios comunitários, onde
os cigarros de alcatrão e as injecções de mijo.
Cafés congelados no espaço-tempo, tantos,
um a um na múltipla cidadela única.
Dentro, as famílias não simultâneas:
as pessoas e as crianças em ficções paralelas,
simetrias orgânicas que pensam
contrariamente.

Desce ao palco profundo a pensativa pessoa,
que convalesce do nascimento interrupto da infância,
espumosos os cantos da boca de cavalo contribuinte
taxado a anti-histamínicos e a mordeduras de freio.
Ao longo da avenida marítima enregelam
candeeiros e vulvas de aluguer,
entre futuros ressequidos de pretéritos
e demais janelinhas caiadas em torno.
Perde-se a pessoa da criança – e que ganha?
Não alótropos do elemento carbono senão
os do céu estrelado quando é (era) Verão.
Se, por azar, lhe calha em sorte
alguma, como a poesia, arte vegetativa,
a pessoa perde-se de todo de toda a criança
que ainda é por ela a não ser.
Inútil e ocioso, por isso, escrever.

A criança Clarisse Nardo e a pessoa Nómada Gentil
desavêm-se no poço vidente – o sono frio,
entre bosques projectados pela poalha lunar.
E então eu entro em ela.



II

Que teve a criança de hierofanta,
que se sagrou e consagrou e sangrou em ela?
Éclogas escuras disse algum dia
a pastoras entenebrecidas ante
claros ribeiros álgidos lascados a prata?
Entro para reconhecer em Clarisse a criança,
crescida para Nardo, nómada e gentil pastorinha
e moribunda e nascitura na boca
sumarenta e sumaríssima,
em que as orações estalam dentes
e estrelejam cuspos.

Esta é a única criança – e eu mor(r)o nela
para poder envelhecer, para a fria manhã
de duras artérias: o comércio, a extinção,
as revoadas primaveris de pássaros recordados.

Dois pássaros: um único cativado no espelho
da lagoa.

Nenhuma lagoa.

Então, a segunda-feira bate portas e janelas,
a comunidade merca pedaços de animais,
braçadas de legumes, panos molhados de escarlate
e amarelaçafrão, rebuçados de mentol
que acordam no palato ventanias e lavandas,
estepes e estepes de cavalos degolados no talho,
colares de peixes fluviais atados pelos olhos com vime,
frutas apedrejadas à nascença por homens tortos,
casacos pesados como pesadelos,
cadernos de papel-de-seda sem marca-de-água,
bandeiras negras (vermelhas ao perto),
lacres de sinalização das bocas das mulheres,
sapatos minerais de defunto em trânsito,
louças grossas, calendários com mamas,
peças de bicicleta, lápis azuis de celestino bico,
pastéis folhados como livros,
perucas de calva metonímica,
autógrafos de pugilistas caídos
em desuso,
pagelas do Irmão Doutor Sousa Martins,
da Sãozinha da Abrigada, da Alexandrina de Balasar,
da Santa Clara de Assis, da Sofia Kovalewsky,
da Eva Lavallière, do Bernardo do Marvão,
do Alferes Fernando, dos padres Cruz e Américo,
essas pedrarias engastadas no forro católico
das almas que não lêem o corpo.

Eu bato então a segunda-feira sem Clarisse,
é intensa a minha solidão demandadora,
a criança onde?, aonde a criança?,
range-me de frio a ossatura centígrada,
levo de lado a cabeça como um pássaro pintado,
galinho pela vilaldeia como um tonto,
profeta de ontens debruados a ouropel e a fantasia
(os tomates da tua tia,
ó poeta!) ,
e a falecida criança instala a autarquia
vitalícia das mortandades: a casa sem gente
em cujo pátio florescem o mato e o cadáver do gato,
a esquadra de polícia pejada de soldadinhos desconhecidos,
as grávidas que consagram o mundo à Virgem Maria,
as cabeleireiras pintadas de cor-de-chá-velho,
os cadaverosos reinos da santa ignorância,
a palha sobre que voga o coma pensativo da vaca,
a churrasqueira onde cresta a ave,
os cânticos de Natal ladrados electricamente
pelo altifalante da Câmara,
as jaquetas de padrão aos quadrados,
os pescadores de lixo bolinando sarjetas,
a altitude nevada dos adormecidos,
o leite recordado pelo corpo alheio,
os comedores de batatas, os tomadores de infusas,
alvíssaras de pão em gangrenadas gengivas,
salgueiros e madressilvas pendendo para as águas,
um homem chamado Francisco,
um rio chamado Lena,
Francisco Rodrigues Lobo afogado no Tejo
há anos de mais para ser verdade,
a minha amiga Clarisse afogada de idade
ela também,
eu dentro dela sacudindo o pó ao retrato
(e o mato e o cadáver do gato),
a rapariga carteira sorrindo além,
o motorista dizendo adeus ao agente de polícia,
a espadaúda envergadura da tristeza
nos nossos ombros, escombros,
Leiria e Coimbra e Lisboa quatrocentos anos depois,
depois de quê depois de nada,
Clarisse em Odemira Vila Viçosa Miranda do Douro
Alportel Lagos Olho Marinho Óbidos Santarém,
quantos portugais terão de ter sido
para uma criança veloz.

Recordo
(não é um sonho, não é uma revelação):
íamos por um corredor alto, tocavam música
no grande salão, talvez o Opus Ensemble,
talvez alguma brincadeira do Teatro Experimental do Porto,
tínhamo-nos dado as mãos como gavinhas,
vegetávamos na terra-de-ninguém da
finiadolescência,
o sol palhetava de ouro as janelas enormes,
a música era muito boa, engrandecia-nos,
exaltava-nos como um vento no cabelo,
subia-nos as vísceras às constelações,
o retrato de um bispo guardava rebanho nenhum,
era tudo por assim dizer uma écloga,
uma transparência diáfana,
Clarisse e eu éramos buscados pela ourivesaria
da luz, de terças-feiras não labirínticas,

onde nós agora?, aonde nós então?
Cala-se Clarisse e eu não disse.



III

Sossego agora, ante lembradas águas de esquecido rio.
Falece aos poucos a breve tarde, que frio fogo foi.
Nada me dói, sequer a certeza da incerteza, a vida.
Não tremo nem estremeço de cornadas de cio.
Não, nada do que foi me dói.
Cumpro a jornada chegada e partida.

Há nisto uma frutada aceitação.
Palhas milhas, trigas e centeias bulho, campesino.
Em plena cidade, da aldeia o sino
diz badalim, fala de mim, badalão.

Cruzilhados caminhos guardam alminhas,
da morte-de-homem vigia cruzeiro.
De sendas sendeiro, de barros de vinhas,
eu guardo e toco sem pressa e ligeiro.

Quanta beleza no que perdemos!
Quanta prata, quanto ferro!
Não mais prantearei nem deuses nem demos,
que dentro é a pátria – e adentro o desterro.

Famílias, mobílias, buganvílias,
poalha açafrã das bandas da serra.
E mil pastorinhas (Marílias, Adílias)
tocando ovelhinhas à flor da mãe-terra.

Grácil Clarisse, minha meninice,
nascida da tinta da minha caneta,
és grácil e frágil e mais do que disse
o quanto dobraram sino e sineta.

Amanhã como ontem no mais. No mais
o fulgor dos musgos, dos grilos, do Verão.
Um amor à infância, tantos portugais
para marcar no mapa da ’nha condição.

Sossego. Sossego e aceitação.
O claro rio frio aguando facas.
Num campo, as pensativas vacas.
Perto, a silhueta de um cão.

Saúde e pão. Laranjas e vinho.
Fervente o caldo tomado à lareira.
Recordações esbraseadas sozinho,
p’la frente se estende a noite inteira.

O que não posso, quero, como Jorge quis.
O que não quero, posso, não crer é poder.
Gosto de sardinhas e gosto de anis,
também de galinhas e de feliz ser.

Poucas vezes. Certas tardes, antigamente,
o Verão era uma coisa de família.
Depois, nosso Pai deixou-se – e à gente
mais não restou que alguma mobília.

Conto quilómetros, horas, quartas-feiras.
Clarisse adormece em sedas de som.
Não faz tanto frio, à lareira é bom
tomar a infusa, pensar laranjeiras.

Ovelhinhas e cabrinhas, mondegos de arroz
espraiam-me os mortos da nomenclatura.
A torre dá horas, que a noite dispôs
em rosário de contas que são d’amargura.

A feliz tristeza da gente miúda
preenche as lojinhas de múrmuro esperanto.
Uma criança desenha sozinha a um canto.
Nos valha o Doutor, que Deus nos acuda:
e o Demo nos tome sem precisar de ajuda.

Volvem-se longes as pálidas terras,
igrejinhas sem Deus caiam horizontes.
Um pássaro lê a água das fontes
que tremem de frio em sopés de serras.

Anoitece. Um rubro fulgor fulgura aléns.
Recolhe a pobreza ao pardo tugúrio.
Viver é só ter da morte o augúrio,
um caso de ocaso em meio a ninguéns.

Clarisse veríssima em o meu coração
cinge suaves fitas facundas, sagradas.
No Verão era bom tomar limonadas,
esmeraldino sangue de verde limão.

Passam rios, horas passavam.
A dolente criança a um canto esboçava
o retrato da hora por que ela passava,
como tudo passa – por graça, estavam

vivos ’inda meus mortos. Eu desenhava
então, que ora só já canto.
Não cheguei a aprender qualquer esperanto
– só em português tudo me chegava.

Clarisse Nardo Nómada Gentil,
menino e moça da comum infância.
Do ser a ter sido vai grande distância.
Duas almas são uma – e uma é mil.

De quantas crianças precisarei ’inda
para um velho ser esta segunda-feira?
Vista de lado, a aldeia é linda.
É vila, é cidade, é a terra inteira.

Prometo-me resignação e caldos de galinha.
Leio Rodrigues Lobo, Camões, Figueiredo.
Já não tenho idade p’ra ressentir medo.
D’angústia um nada, em vindo a noitinha.

Por fortuna, Clarisse, mais não requeiro
que do peixe a posta enxuta e salgada.
E de dias ainda talvez um milheiro,
sempre são três anos, conta mal contada.

(Dá-me um perdão qualquer, criança minha,
leva-me a ver os barcos que pontuam o mar.
Paga-me refrescos, que a sede é daninha
e eu tenho tempo, infante, p’ra estar.)

Olha!, a carrinha do minimercado
que traz ovos frescos e mil requeijões.
Dois ciganos rondam, ali mesmo ao lado,
caída andorinha junto a dois latões.

Eu queria o meu rio, mas não posso rios.
Queria um mar meu, mas mar algum é
de alguém quem quer que seja, isto são desvarios,
Jacinto, Bernardo, Joaquim, José.

Clarisse Nardo Nómada Gentil,
a doce menina do amargo menino.
Nisto, das profundas lascadas do puro anil,
toa soa dobra redobra um sino.

Belo livro de iluminuras, ter sido.
Não ser um dia, belo livro também.
Elanguesce, líria, a jacinta-de-água Mãe,
no ido presente, no futuro olvido.

Trigueira, milheira, a loura criança
revive o ter-sido no ser-nunca-mais.
De quantos nomes velhos se escreve a distância?
Quantas terras nossas? Quantos portugais?

Riscos de limão, dulcíssimo azedume.
Zimbro e zoeira e xilogravuras.
(Eu escrevo ao frio, que é meu costume
prosar sensatez. O mais são loucuras,
Clarisse, o amor e as nomenclaturas.)

Pára na rua um cão. Velhote, bonito.
Esquerda-direita, decide e parte.
Quem como ele fosse – e ter arte
p’ra decidir e partir e não ser só finito.

Um finito, senhor César! E um torresmo,
que o Inverno vinga lá fora a cobrar
a um velho novo o outono mesmo
da vida que passa – viver é passar.

Ter esta idade é ser um dos esmoleres
de óbolos crus, de liminares untos.
Ao balcão de César, surgem os assuntos:
assaltos a bancos, e bola, e mulheres.

Meia tarde. Que dia é? Que horas são?
Encarnadas fitas desprend’ o coração
em meio à tarde, que tão fria arde.
’ind ’assim sossego, sem mais alarde.

Sossego e me resigno, que me não persigno.
Tenho pouco deus, tirando os santos,
que são cruzilhados e tontos e santos
– e nem todo o santo é santo benigno.

Viver é mandato a mais obrigado
que a vivo estar, que o ser é morrer.
Sai-se à sexta-feira, há vinho, há fado,
que haja azeitonas, em podendo ser.

Nenhuma cidade, nenhuma York, nova ou antiga,
pôde jamais convocar o luso rosmaninho.
Português é ser nascido em pergaminho,
é ser a turva trova, ser em cantiga.

Quer’ eu da nesp’reira celebrar a pepita
que humílima brota em dádiva pura.
Até a abob’rinha usa ser bonita,
subida ao telhado mirando a lonjura.

Fuzila o cevado seus untos maneiros,
refila o galo vermelhos ciúmes.
Grasna a patareca avó aos carneiros
qu’ invadindo a horta devastam legumes.

Do posto e dito, já vês tu, Clarisse,
o quanto uma língua lembra um menino.
E a écloga feita, desfeita meninice,
’ind ’assim não nega, mas cumpre destino.



Post-Scriptum

A noite veio toda de uma vez como certas
chuvas acordam no coração e no pátio
de repente.
Faz muito frio, nem parece coisa de país
com tanto mar à janela.
Entrei ontem numa pizzaria, havia namorados
quatro-estações de caprichosas maneiras.
Era pelo começo da tarde, domingo acontecia
como a onda da praia se embrulha e solta,
contemporânea de si mesma.
Eu tocava o meu gado interior, que não
é conveniente apascentar em fala pública
nem écloga nem vilancete.
Hoje espero outra hora perto da via rápida.
Gosto de ver passar o mudo carbónico:
os camiões grandes como comboios, os
comerciais de dois lugares com um só tripulado,
as motas varejeiras que assobiam vórtices,
os carros da brigada de trânsito bigbrotherizando
os costumes. Gosto.
Esta noite aperto o corpo dentro de escura roupa.
Tenho Rodrigues Lobo em casa – e Camões
e Antero de Figueiredo: não sou assim tão
pobre.

Tudo está ’ind ’em aberto.
Tomei algumas notas sobre a repetição dos futuros:
o expediente das casas comerciais, a menopausa
da mulher dos tremoços, o curvo ar de corvo
batido do advogado dado ao absinto e ao jogo,
a memória refractária da essencial mentira
do amor, a saudade estival (1970), os versos
escritos por gente que conheço do meu lado da
guerra, o último azul do dia (primeiro da
noite), a frauta pastoril e a medieva frecha,
a cientificamente irrecusável esquizofrenia
de toda a criança, a dolorosa paz que desce
com a música à enterocolite da alma,
talvez Doença de Crohn matando Eça em Neuilly,
Ramalho sobrevivendo quinze anos
a seu amigo José Maria,
o meu lápis em foz de tinta, o sertão que
a solidão é, os grandes planos de avenidas novas
que Clarisse já não conheceu, a vida
a olhar-nos canhota como um pássaro
ante uma lagoa que por não correr não é rio,
os amigos de peito feito ao balcão do senhor César,
a Lua tudo lascando argentinamente,
a mente carburando efervescências sinápticas,
os pés muito frios dos velhos nos bancos da avenida
velha, os guarda-chuvas deles nodosos como artroses,
esta virose de viver em diametral oposição às leis
do mercado,
o pastor Bensafrim e Bernardino e Afonso e
Bernardim, estas coisas na cabeça
como semáforos ou faróis ou presenças barqueiras,
os relatos de naufrágios, os crimes passionais,
as lotarias improváveis, a dodecafonia e a caco sua irmã,
quem acode à lembrança dos ilustres mortos de
enciclopédia? (Plutarquizar é preciso, digo eu),
tenho tempo mas este não é o meu tempo,
pena não ser possível dinamitar as centrais de
televisão, pena não ter o meu Pai vivo
para uma chávena de infusa de limão e uma viagem a
1924, quando o Outono lhe criou a mulher
minha original Mãe, Clarisse ela também
à maneira dela.

Agora o meu lápis volta a ser madeira,
que deito ao rio, a cuja margem acodem
Clarisse e um homem já velho na nova
noite: e não, York alguma nos poderá
eclogar senão em portuguesa língua.



X Sonetos Bárbaros e Felizes

I

Acode ao aspérrimo idioma dos solitários
a bárbara sílaba, a rústica sentença.
Fragas e penedias concorrem ao frasear,
que de crocitos vive, onomatopaico.

Derredor, a História segrega conjuras,
repetidoras de fábulas velhíssimas:
a posse de uma mulher, o gume da faca,
o voador couro do cavalo, a ânsia do mar.

De tudo me sobra senão vago vislumbre.
Useiro de baço entendimento, meu pensamento
come o pão muito ázimo dos lerdos.

’ind ’assim sou feliz cada amanhecer,
vaga diária imitação do nascer,
pois nem tudo é morte em quando a não for.



II

Urde tigrismos a mansa da casa gata,
desperta do sono pelo rumor da folha.
Toda a unta o Outono de mansidões
que, não veras, escondem o brusco felino.

Nenhum pardal ousa e usa no varandim
o poiso ligeiro, sequer por instantes.
Fals’ adormecida, a bela pantera
nem mia, se espia da ave o voo calígrafo.

O frio chegando, ao colo subida. Busca e dá
calor à ossatura de quem, a tendo,
dela é tido, vilegiaturando a vida breve.

Se amo na gata a mulher escondida,
é bem que eu amo: nem toda a fêmea
é p’ra toda a vida.



III

Só quero uma sala mínima. Exerço a espera,
preparo a antemão, sou rapidamente feliz,
sumário e circunscrito a meus órgãos,
vitais todos eles como é de cartilha.

Quero-me mínimo em tal sala. Conheço
longamente o rumor dos livros que subjugam
o coração. Que festim de mortos redivivos,
os autores! Quanto novo nascimento!

Imos sentidos emaranham a voz intestina,
alabastrina voz que assombra inglaterras.
Derredor, a chuva orizicultiva.

Só quero esta cadeira, estas cinzas só quero.
Tenho os retratos deles e deles os livros.
Exerço a espera – eu exerço a espera.



IV

Aprecia comigo a brancura das senhoras
que em chita passam qual fosse veludo.
Começa o século, horas voadoras
consomem senhoras e a nós e a tudo.

Vem tu comigo ver de papel os barcos
de giz bolinando na ardósia da foz.
Temos de nos ser antes que de nós
nem madeiras sobrem de esquifes e berços.

Dos altos pintores, pranchas estaleiras
trepam penedias e construções civis.
Da pedra dos ossos não sobram madeiras,
mas são tão formosos os barcos, o giz.

Do que apreciares, não escondas recado,
que a morte é defronte e a vida ao lado.



V

Tenho tempo para um copo, duas frases,
três terças-feiras, quatro anos,
cinco oceanos, seis poemas,
sete saias, oito noites.

Não tenho um milagre, duas orações,
três pés-de-galo, quatro cruzes,
cinco dedos só, seis dilemas,
sete raias, oito mortes.

Tenho um minuto, dois segundos,
três horas, quatro dias,
cinco décadas, seis milénios,

sete sóis não tenho, nem oito luas.
Tudo tenho e tenho nada:
nem comigo conto para vos contar.



VI

Da porta da rua chegou enegrecida do que chovia
a senhora Madalena, que é topógrafa de infelicidades.
Deu as boas-noites, pediu chá e queijo,
espargiu a camilha da saia, tossiu ao de leve.

Fingiu que a não sentia o senhor Adalberto,
que é marceneiro e viúvo de há muito.
Em aberto segredo muito a ama e deseja,
mas sorte nenhuma, que ela é de respeito.

É bom cá o queijo e o chá bem perfuma
as áridas tardes nossas dominicais.
Senhores e senhoras do lado da chuva

acodem ao sítio, melhor entre os mais.
Eu bebo o meu porto, mordo o meu biscoito,
mas sem sete sóis, nem luas por oito.



VII

Escadaria central de grande hotel, muitos veludos,
levita para baixo Madame de L’Amertume.
A rói dentro tristeza, tristeza e ciúme.
No bar, o dela barão engata miúdos.

Quarteto de cordas emana madeiras,
serve Bastião travessas de chá.
Há dois ou três chulos, idem bebedeiras
e versos de Eliot e de Antonio Macha-

do. Madame L’Amère amarga grunhidos,
evita o marido que se baroneia
e pede ao barman uma dose e meia

de rija genebra em copos compridos.
É cena comum, comum e não rara:
chega ela ao barão, genebra-lhe a cara.



VIII

A dolicocefalia ainda estas bandas não atacou.
Um cancro que outro, é muito normal.
Aqui nos regemos por lei de Portugal,
é triste mas é quanto nos calhou.

Hirsutas queixadas e larguezas de ombros
masculam os bares de tinto paleio.
Sorteios de cegos e casas em escombros
são lusíadas coisas no mundo, que é feio.

Ou então não é, feio não é nada,
o mundo nascido connosco ao nascer.
Às vezes há merda, ele há bargalhada
por causa de um troco ou de uma mulher.

O resto é moral, é uso vezeiro
ser triste por dentro, por fora ligeiro.



IX

Não queira a aranha de gelo constelada
invernar-me a saída na tarde acabada,
não queira. Mereço algum, digo, respeito,
que a tudo dou cara e a tudo dou peito.

Tenho tristeza de açúcares. Padeço, inclusivamente,
do triste pensar mesmo que entristece a gente.
Aos fins-de-semana costumo acoitar
’ma melancolia toda crepuscular.

De resto, o meu Styron e o meu Brandão
ajudam e conjuram o meu coração.
Meu Rodrigues Lobo e meu Soares dos Passos
irmanam rimanços com os meus bagaços.

De resto, o rosto: e tudo é tão simples,
que quero um café e um balão de Dimples.



X

Estas sílabas te trago hoje, outras não posso
nem possuo. Disto fiz – ou desfiz – a vida minha,
que a ela, afinal e final, pertenço,
segundo penso.

Estas às vezes rimas, Clarisse, suponho
tiradas do pensar, assim como num sonho.
A branda tristeza é napoleónica:
uma mão na barriga, que é mole e é crónica.

Não nas leves a mal, Clarisse, às rimas,
recursos são elas das horas mais primas.

(Noitinhas adentro, coração de semeio,
lindo é Portugal, país que, de feio,
tem queixadas hirsutas e trinta mil putas
e marados conhaques que me são cicutas.)

Thursday, December 11, 2008

EU É QUE SOU O TIO DA MARIANA ABRUNHEIRO, A MINHA IRMÃ É MÃE DELA MAS EU SOU TIO E GOSTO MUITO DELA DESDE SEMPRE, POR ISSO EU SOU O TIO DA MARIANA

Estamos vivos
JOEL NETO
Há vinte anos, era assim: um homem gostava de música, gostava de divas - mas depois ouvia Teresa Salgueiro e sentia a necessidade de repensar tudo o que pensava sobre ambas as coisas. Para além da amplitude e da imensa delicadeza, havia naquela voz ao mesmo tempo uma dimensão pastoral e outra urbana que, quando a ouvíamos, sentíamo-nos subitamente de lado nenhum e de todo o lado ao mesmo tempo - e isso, num país que começava enfim a desenvolver-se, virava de imediato uma espécie de biografia de cada um de nós.
Não é exactamente isso o que se passa com Mariana Abrunheiro. Mais sombria, mais intimista e, inclusive, mais sofisticada, a voz de Mariana é mensageira de um tempo novo. Acontece que também nós estamos num tempo novo, todos nós juntos e cada um por si - e portanto Pedro Ayres de Magalhães volta a acertar em cheio.
Depois da saída de Teresa Salgueiro, José Peixoto e Fernando Júdice, os Madredeus (Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade, pois) entram numa nova fase. Passam a chamar-se Madredeus & A Banda Cósmica - e, em vez de Teresa, trazem agora na voz duas cantoras diferentes: Mariana Abrunheiro e Rita Damásio.

Dancemos com gardénias e Ibrahim Ferrer

Rosário Breve nº 81 - crónica desta semana n'O Ribatejo do costume (www.oribatejo.pt)

Animar a malta é o que faz


Telmo Correia, CDS-PP, falta.
Teresa Vasconcelos Caeiro, CDS-PP, falta.
Honório Novo, PCP, falta.
Fátima Pimenta, PS, ausência em missão parlamentar (AMP).
Hortense Martins, PS, AMP.
João Soares, PS, AMP.
José Vera Jardim, PS, AMP.
Maximiano Martins, PS, AMP.
Joaquim Couto, PS, falta.
Marta Rebelo, PS, falta.
Mota Andrade, PS, falta.
Paula Nobre de Deus, PS, falta.
Maria Manuel Oliveira, PS, falta justificada por doença.
Duarte Pacheco, PSD, AMP.
José Freire Antunes, PSD, AMP.
José Luís Arnaut, PSD, AMP.
Mendes Bota, PSD, AMP.
Mota Amaral, PSD, AMP.
Agostinho Branquinho, PSD, falta.
António Almeida Henriques, PSD, falta.
António Montalvão Machado, PSD, falta.
Carlos Páscoa Gonçalves, PSD, falta.
Duarte Lima, PSD, falta.
Henrique Rocha de Freitas, PSD, falta.
Jorge Costa, PSD, falta.
Jorge Neto, PSD, falta.
Jorge Pereira, PSD, falta.
Jorge Varanda, PSD, falta.
José de Matos Correia, PSD, falta.
Miguel Frasquilho, PSD, falta.
Pedro Santana Lopes, PSD, falta.
Rui Gomes da Silva, PSD, falta.
Virgílio Almeida Costa, PSD, falta.

Mas a mim não me fazem falta nenhuma, eu seja ceguinho.

Tuesday, December 09, 2008

Não Sei se vos Disse já das Árvores


© Sandra Bernardo
5 de Novembro de 2008, Cabanas de Viriato


Este poema com árvore(s) é
(só podia ser)
para a minha tão querida e arbórea
Irmã(e) Xelinha

Casa, Souto, entardenoitecer de 9 de Dezembro de 2008




Impressão digital do Deus sem mãos nem filhos,
cada árvore vale por um atestado de orfandade.
Vale-me cada uma a mim, digo, que nada sei
nem de silvicultura nem Dele, nem Ele sabe.

Tenho passado o meu tempo a olhá-las no tempo delas.
Valem-me de muito.
O mais do tempo, ficam à beira da estrada como as putas.
Babujam a noite a partir de seus corações astrofísicos.
Eu olho-as, sabendo-as lenha e ar e cinza e demora.

São de uma primaveração inelutável, fábricas teimosas
de coisas siderais como anúncios de bailes
e pardais.

Casulos nodosos, formigam de braçadas genealógicas
sem outra lógica que a da persistência da seiva.
À sua sombra, as raparigas farfalham chitas e hímenes
lancetados a nácar e a espargo.

As da África tvdocumentarista raiam os ilimites
do deserto, tracejam a negro o amarelo perpétuo
da sede, do casaco dos leões, riscos de ampulheta
no tempo desumano.

As do Caramulo fremem de fantasmas pneumotorácicos,
albergues efémeros de senhorinhas condenadas ao agravo
dos casamentos alheios, dos espirros de sangue, do éter
que deliquesce a fala, bebedoras de lágrimas.

As de Coimbra estão condenadas à infância e à senilidade,
ramos aliás sinónimos. Um rio delas mana, empernador de
lavadeiras e afogador de ciganitos e de coelhos.

Muitas vezes senti sobre elas o compasso do milhafre,
a espuma do avião a jacto, esse giz deixado cair pelos
anjos escolares do meu tempo, os que levávamos a
enterrar no tempo da permilagem.

Muitas vezes senti través elas o mistério simples
dos labirintos verticais (anúncios de bailes
e pardais.)

Muitas vezes senti sob elas o vesúviozito onanista
das primícias moribundas da infância, quando as
meninas se arraparigaram para amulherecer
para sempre.

Tenho uma árvore no quintal.
Pertenço a este cedro, a este soberano de caracóis,
a este mágico sem circo nem volta a dar.
Quando, noite fechada, venho à varanda fumar,
toco-lhe o cabelo.
Ele ronrona e pede-me água,
que lha dou dos meus olhos
sempre.

O histórico, mítico, místico, único, inigualável Dark Side of the Moon só com vozes? A sério?

Aqui, que foi onde soube desta e de muitas outras coisas que, pela música, me/vos negam e renegam o direito à infelicidade:

http://oquevemarede.blogspot.com/

Maria Schneider Orchestra

Monday, December 08, 2008

Imaculada Ronda Columbina, a de hoje


Hoje, por ser o dia que é, a Ronda Columbina vai ser cantada só por mulheres.
A imagem é A Imaculada Conceição, por Bartolomé Murillo, residente no Museu do Prado, Madrid.
O alinhamento musical prevê, entre outras senhoras, Amy Winehouse, Luz Casal, Rosa Passos,
Patricia Barber, Esperanza Spalding, Barbara Hendricks, Regina Carter com Cassandra Wilson,
Robin McKelle, Trijntje Oosterhuis e Anne Sofie von Otter.
Hoje é só uma hora.
Das 20 às 21h00.
Em 87.6 FM e
Por ser ladies' night, os cavalheiros têm entrada gratuita.

Alônzí – Coisas Boas e até Bestiais para Prendinhas e Pedrinhas no Sapatinho dos Pés-Descalços






Casa, Souto, e Pombal, manhã de 8 de Dezembro de 2008



– No fundo, no fundo, sou uma mulher como as outras
– disse-me ela.
E eu confirmei que sim, enquanto lhe fazia o serviço.

Uma coisa muito boa das culturas multimilenares, como a China
(“o comando é Mao”), é a gente entrar nos armazéns dos chineses e encontrar a oitenta cêntimos embalagens de dez lápis muito bons para sublinhar as culturas e os milénios e assim.

Toda a gente gastou já manhãs inteiras a solfejar o primeiro farrapo de música ouvido ao acordar. Aconteceu-me hoje, dia da Imaculada Concepção da Virgem Maria, com o Agosto em Portugal, do senhor Roberto Leal. Mas também bloguei logo a coisa para não ser infeliz sozinho.

Hoje é feriado católico cá na república laica.
E somos todos muito praticantes quando é feriado, pois não somos?

As putinhas casadas gostam muito mas mesmo muito por fora dos livros que vêm nas revistas por mais só 9,99 euros por terem lombadas (os livros) a cores que ficam a matar na única estante do living , logo atrás do retrato do corno com os filhotes.

O Natal é bestial para se perceber a casa pia que Portugal é: um menino nu entre um burro e uma vaca à espera que o crucifiquem não tarda nada.

Um efeito evidentíssimo do carácter nefasto da globalização? Allons-y a ele: a insuportabilidade do James Blunt ser igualzinha às do João Pedro Pais, do André Sardet, do Represas e do Abrunhosa.

Na estação de serviço, uma moçoila de minissaia e blusa mostra-refegos servia-se de gasóile. Azar: gorda como uma gamela de unto, só lhe faltava um autocolante da PROBAR na nádega esquerda.

O desespero a conta-gotas cura-se a litro.

(Depois destas prendinhas-pedrinhas, não hesiteis em, infra, voltar para Portugal em Agosto com os nossos emigrantes. Allons-y!)

Antes que comecem a moer-me a glândula com boas-vontades de Natal, tomem lá Agosto em Portugal e tomem lá Roberto Leal etc e tal

Sunday, December 07, 2008

Casuística Tabágica assaz Portátil para Deletreadores Dominicais


© John Singer Sargent - A Street in Venice (1882)

Casa, Souto, noite de domingo, 7 de Dezembro de 2008



Dá para comprar um maço de tabaco,
dá para dar uma volta enquanto
a bomba não cai, dá para quase tudo,
quase nada.

Uma rua de comércio às trevas da noite de domingo
(em Arraiolos, digamos)
é quanto basta para ligar
o Canadá ao Alaska,
digamos que
o Canadá ao Alaska.

O bater do coração e a temperatura do corpo
é o que se ouve passando à janela
de um lar televisor, as pessoas
apagadas lá dentro.

Não tem mal.
Também não tem mal que a bomba
arranje sempre maneira de cair,

chama-se noite.

E o mal e o bem e a televisão e a temperatura
enformam também a bomba portátil.

Digo estas coisas com toda a seriedade,
até porque tenho para o tabaco,
em princípio dá para ter mais noites.

Isto é um sapato, isto é uma ponte,
isto é uma via rápida, isto é uma vida rápida,
crustáceo não é bivalve, cegonha não é narceja.

As palavras organizam as coisas, um dia
(se calhar de noite) a pessoa nem é precisa.
O infinito é na cabeça, via rápida também.

Deu para comprar um maço de tabaco,
deu para na volta frigir rins com pimenta
em banha de porco, azeite e vinho branco,

dá para uma ou duas chávenas de café
caseiro. Espírito de corpo, espírito de
missão. Tudo muito fácil.

Supor pelas ruas de Arraiolos os viandantes
de, digamos, Singapura. A vela acesa
no imo de cada um, ele há cada uma.

Se chove, cada pessoa a bater as asas pessoais,
estralhaçando a calma e o frio, removendo
as pedras com as garras espessas.

A pessoa infinita no imo da cabeça, frialdades
e degelos concorrendo-lhe ao coração,
à condição jugular, a roupa posta a secar.

Antigamente, os bacalhaus chegavam de barco
como heróis escalados, os aviadores também,
o povo juntava-se muito alegrete e assaz pobrete.

O que acontecia antes do presente era
a História.
Isto não faz mal, está-feito-está-feito.

Se nos encontrássemos, irrigaríamos ambos
alguma coisa, drenaríamos talvez um
canal de comunicação, um bufete de cantores,
uma convenção de dentistas, um sínodo de periquitos,
nada nos faria mal, recorrência enformadora aliás
de uma períscia perissológica.

Mas não nos encontramos: em Arraiolos como em,
digamos,
Banguecoque – vive-se de sombras priscas mui dadas
à soledade e à temperatura das asas.

Que uma indiferença nos suba, qual seiva,
a dar flor e fruto, não tem mal,
enquanto haja para tabaco e para café.

Isto é a ponte sobre a via rápida, centenas
de carros por minuto, cada carro cada pessoa,
se chovesse muito e muito e mais

muito, poderia cada pessoa vislumbrar
corvos de seda a uma contraluz de prata,
guardas e guardas e guarda-chuvas,

não hoje, mas suponhamos que hoje,
rebentada a bomba da noite a frio,
quase no Alaska ou, digamos, em
Montalegre.

Estas coisas particulares na cabeça
perante a indiferença geral.

As Nossas Senhoras Heterónimas do catolicismo
previnem muito mas remedeiam nada,
pelo que há que seguir em frente

para dentro.

Fulminam, cerrando-se, taipais de rulotes de bifanas,
acabou há muito o jogo no estádio,
holofotes cegam-se a si mesmos
como ciclopes municipais.

Da costa do castelo (mental – digamos:
Almourol mental) chega ao coração
o perfume frio das árvores arrefecidas,

crisálidas de gelo, estrelas de gelo,
enquanto a maravilha reconforta
de nada ter importância nenhuma,

para além do momento em que cada pessoa é
tudo para si mesma, não tem mal.

Podendo, inventariar muito, o possível.
Como no anúncio esvoaçando lixo ao vento,
garantir uma divulgação eficaz dos serviços prestados.
(E dentro do coração a condição fito-fármaca,
a exegese hortofrutícola e a total disponibilidade.)

Que no momento do toque a quiralgia
não sobrevenha, a soledade seja fulgurante,
a pessoa sozinha com seu fantasma portátil.

Galgar em íncola linguagem qualquer rio bárbaro,
frechar de ideografias o silêncio mais polar
(o de Arraiolos, o do Alaska),
ter os pés numa ínsua chapinhada de tangerinas,

que alegria.

Abrir na casa fechada o esplendor do lume,
rilhar a gravilha das sílabas, ser lunar
como uma taça de grés cheia de leite.

Dar-me sem ti à gliptognosia e ao léxico náutico,
como qualquer pessoa deverá fazer,
sentindo para tal inclinação,

em Montalegre como no Quebeque.

Meio maço de cigarros já lá vai, dormem pessoas já
em suas refrigérias criptas matridemoniais,
umas menos, outras mais.

Ajudar o fantasma a brilhantes tiptologias, mas
de preferência em não acordados sonhos.
Romper o papel de parede só com a verruma da voz.

Serenidade. Mais léxico, mais serenidade.
Cordura e artes náuticas para domínio terrestre
mais afivelado.

Falanstério unipessoal – a cabeça que avança
dentro, sitiada a cidade original do coração
de dejectos, versos priscos e riscos perversos.

Tudo isto embora dentro, não anoitecer de todo,
crer que a manhã vem aí a lavar louçanias
e vitrais e sarabatanas e cães magérrimos
e cegonhas e narcejas.
Não, mal algum e nenhum bem.

Uma velha dama elanguescendo entre majólicas,
cheia de cólicas, na malária da velhice:
chama-se Sara, Liliana, Bess, Tess ou Alice,

sozinha como um cão que nem cadela se sabe:
megera outrora, agora egéria.

Imaginar isto tudo: recebido ao lume e
escrito às escuras.
(Sem ti ao lume, às escuras sem ti.)

Estas coisas acontecem com toda a calma na cabeça,
como o outono acontece no ano a que termina,
regaço dado à invernia, nunca longe de um rio.

Se há rio ou não em Arraiolos, não o saberemos,
que o há muitos no Alaska e no Canadá,
pessoas é que nem tanto e cada vez menos.

Oh não, mais um poema dominical pela net!

Casa, Souto, entardenoitecer de domingo, 7 de Dezembro de 2008



Aquele senhor ali é tão importante como o que faz.
Não aceita nem recusa nem pensa na importância
seja do que for.

Isto dos domingos tem de que se lhe diga porque
um domingo a sério é sempre o dia de um senhor
como aquele ali.

Basta pensar na hipótese decerto absurda de alguém.
Alguém em casa ao domingo.
Alguém em casa ao domingo como aquele senhor ali.

Visto de fora, o prédio dos alguéns tem janelas do mesmo
tamanho, recortadas todas por dormências luminotécnicas
de televisor e de computador.

Na sala, marido/ou/mulher vê o televisor.
No quarto que foi do filho/ou/filha, ele/ou/ela interneta,
vá lá, poemas.

Eu vim à rua despejar o lixo como aquele senhor ali veio.
Eu trouxe este poema, já está despejado.
Mas ele pensa no que vai fazer em casa na volta, tv ou net.

Lã Di é como os Franceses chamam a Lady Dai (mas para essa também já demos)




Casa, Souto, manhã de domingo, 7 de Dezembro de 2008



Um tal Tales de Mileto não sei quem foi,
como Demócrito não sei, demos o carreguem.
Razão têm os Franceses em chamar dia-mancha
ao domingo,
jornada propícia à melancolia e à autocrítica,
não sei porquê, como não sei quem Tales
nem Demócrito, demos me carreguem.

Sai-se, enfim, pela manhã a tomar café quente
e a ver chover na esplanada
e a fumar egipciamente um cigarro,
antecipando a pressão da bexiga de todas
as chegadas a casa
para almoço
e melancolia.
É do dia e é da mancha, será:
jorna de peditórios cristianíssimos,
para os quais,
como para o de Demócrito,
já demos.

Tenho ali um Camões anotado para reler, o que é bom,
e têvêcabo para o mapling do costume, o que não é mau.
Há comer para as gatas até terça-feira.
Raciono mais do que raciocino, o que é mais ou menos.

Lá fora, no mundo onde chove, os divórcios, o chinquilho,
as pizzarias e as esposas dos médicos tomam decisões
apesar dos clínicos que são maridos das esposas dos
médicos.

Deus dorme pesadamente seu feriado.
Os caixas das estações de serviço, não:
a conversão de Constantino não veio assim de tão longe,
afinal.

Nisto, surgem Heraclito e Anaxímenes,
carregados por inqualificáveis demos.

E nunca mais é segunda-feira.

Saturday, December 06, 2008

M. destas Coisas

© Stephen Shore - County of Sutherland, Scotland,1988

Casa, Souto, entardenoitecer de 6 de Dezembro de 2008

Esse choro inicial de que rezam os obstetras
tem a ver com o clarão da cegueira do início.

Recém-cegos, nascidos para a reiteração
de uma raça sem espécie, de uma espécie
de raça arrasada de si mesma, nascente
para o moriturismo da permilagem de viver.

Cego, vejo ainda o monte fundamental,
de que desasado me despassarei outrora.
Passava em baixo o comboio, o mesmo
sempre, para sempre o mesmo, e cada

recém-vidente merecia já sua escócia
pessoal, seu condado portátil pejado
de pedrinhas e de obstetrícias no mínimo tristes,
deflagrando a noite de dentro das árvores.

Escócias e escórias: o mais da gente, por nós
começando. Ilusão nenhuma, alusão toda
embora. Vejamos, cegos embora: início,
a mãe feita desfiladeiro sangrento, amniótico,

o pai nalgum bar esperando o telefonema
para o número deixado na admissão,
o comércio do mundo seguindo em carrinhas,
entregas, voltas de colarinho e outras

costuras. Ainda assim (que aos cegos é dado
cheirar), o perfume do monte rosmaninhando
até os pequenos cadáveres animais que ensinam
o fim do nascimento: de todo o nascimento enfim.

Nenhuma escassez: montes destas coisas.

De o que Nos não Diria Mr. Anthony Eden mas lhe Digo Eu ante Vós


Organização final de textos: Casa, Souto, tarde de 6 de Dezembro de 2008
a partir de textos de 21 e 30 de Novembro e 5 de Dezembro do mesmo ano,
por esta ordem de aparição




I

Não faço ideia de o que nos diria
Mr. Anthony Eden
se o chá desta manhã aceitasse
connosco partilhar
com sanduíches triangulares de pepino
e biscoitos de canela indiana.
Talvez aceitasse
Mr. Anthony Eden
o chá e a visão do rapaz encanecido já
que nos enegrece as manhãs
tentando vender,
à esmola,
o Borda d’Água para 2009.
Ou talvez folheasse
Mr. Anthony Eden
a edição de
25 de Fevereiro de 1923
do
Jornal da Europa,
que traz a
Tragédia do “Rhona”,
não sei.

Muito provavelmente,
Mr. Anthony Eden
nos não alinharia
o paginado cavalheirismo pensativo de
Giordano Bruno, Descartes, Hobbes,
Locke, Berkeley, Newton,
Hume, Jamess (William, irmão de Henry),
Darwin, Spencer, Henri George,
Byron, Shaw, Buck, dos Passos,
Upton Sinclair, William Pitt.
Decerto não.

Talvez
Mr. Anthony Eden
aceitasse contemplar-nos com
as dualidades maniqueístas
que enformam as humanas:
Stanley/Livingstone, claro;
menos claro, Scott/Amundsen,
pelo que aos Ingleses doeu
a pragmática competência do Norueguês,
salvaguardada embora a dignidade
do capitão Inglês
em sua fatal demanda do
Extremo Sul.
(Póneis em vez de cães é que foi uma chatice.)

UM GRANDE TEMPORAL
NO TEJO NAUFRAGOU UM REBOCADOR
Mr. Anthony Eden
A TRAGÉDIA DO “RHONA”
CINCO GERAÇÕES DE HOMENS DO MAR
Da sua tripulação, de 8 homens, apenas dois conseguiram
ser salvos milagrosamente
Fábricas destruídas em Setúbal.
– Noutros pontos do país também
o temporal causou enormes estragos
A família fundada pelo velho e glorioso capitão
Joaquim Lopes
Mr. Anthony Eden
continua honrando suas tradições
brilhantíssimas
Um bisneto do patrão Lopes dirigiu os trabalhos de salvamento
O acto heróico de Quirino Lopes

A realidade imediata
Mr. Anthony Eden
credita níveis de missão como de submissão:
aos temporais, por exemplo.

O Canal do Suez
(história soez essa sua,
Mr. Anthony Eden)
e a
TRAGÉDIA DO CAPITÃO SCOTT,
também exemplo.

Não faço ideia
Mr. Anthony Eden.

Falar-lhe-ei agora
Mr. Anthony Eden
de Lúcia Damiano
e de esvaídas raparigas ridentes
do meu país memorial
e naufragado do
Extremo Sul.



II

Viva a horas mortas anda Lúcia Damiano
pela cidadezinha que o domingo fechou.
Há corrimento de águas transversais,
há pensões com águas correntes, noutro tempo
já outro deste, anda Lúcia Damiano.

Viver em Paris é anoitecer de ostras e champanhe,
pensava eu em menino, é marcelproustar, não é
Lúcia ser, é ser
outra pessoa. Na cidadezinha portuguesa, tudo é ser
porém. O domingo fecha a cidadezinha, assim
José Maria Eça de Queiroz em Newcastle, Paris.

Viva a horas mortas anda o meu eu Lúcia,
hoje Damiano, domingo (amanhã como nos chamaremos,
como nos chamarão a cada um de vós?),
domingo, na cidadezinha
que não conta (nunca contou, contará nunca)
mas tem pensões: ruas transversais, todas de
correntes águas.

Anda Lúcia Damiano.
La Bande à Bonnot não aflige já, 1911-12,
o sossego prostático dos burgueses assentados: em França
como no mundo. Esta não era, também, cidadezinha
para tal ou tanto. Entretanto, Lúcia, aliás
Damiano, abre-se ao fechado domingo.

Newcastle, Paris, La Havana – e José e Maria
e Damiano, Lúcia. (Em pleno último século,
uma cabeça de efémera idade a efemeridade
pode – e, se calhar, deve – dar-se, havendo
a vida ávida a havida chuva, na cidadezinha, Paris,
no Extremo Sul.

Viva, a hora morta.
Discutem ao balcão do último bar de Lúcia.
Lúcia Damiano ganha em recolhimento.
Albertine foge de avião a Marcel,
feita homem.
Umas entreluzes de Paris, depois cidadezinha,

Portugal.



III

Risadas de raparigas restolham
p’las não ’inda aziagas azinhagas.
A memória é uma aldeia de que o sul é o corpo,
uma aldeia de cercanias só – arredores dos dias.

Como um estômago se arruína um muro,
tais dentes alúi a comum pedra.
Fátuas raparigas, fenecidas, além.
Rápidas, rubras, ridentes: ninguém.

Lumes lunares causticam na boca
a vocação do pó – da terra, da cinza.
Na botica, no adro da capela,
os animais recordam para a frente,

tudo é antanho na cal, a mesma da espuma
da manhã ancestra. Quem, senão eles, poderia
recordar e recortar as raparigas da aldeidadezinha,
os rubros risos azinhagas além,

Mr. Anthony Eden?

Revoadas: equinócios, babas e musgos,
o tempo seviciado de solstícios, tanto musgo,
o tempo desfeito, Albertine Damiano, não
aziago já, que mortos apenas.

Quem, de facto, senão o senhor,
Mr. Anthony Marcel Eden?

Um ribeiro como uma veia fria,
a aldeia mapeando amanhãs bruscos
como chicotadas dadas ontem,
para sempre dadas, esquecidas para sempre,

Mister.

Friday, December 05, 2008

Filmes para Ler


© Helen Levitt – Wise Guy ( New York, 1945)

Casa, Souto, 4 e 5 de Dezembro de 2008 (0. e 1.)
Caramulo, noite de 17 de Janeiro de 2008 (2.)





DIZ O QUE VAI SER ESPECTADOR.0

A meia esquerda está rota num dos dedos pequenos,
a direita também mas menos,
é bom chegar a esta idade com os dentes avariados,
ter tido amantes em serões tresloucados
que hoje povoam as salas de espera do desengano dos médicos,
pensar no casamento da metadona com a beladona
e noutras rimas sem graça nem remédio,
ter sempre a escapatória da colecção de anarquistas anos 60
da Moraes Editores,
respirar a trinta por cento pela pomes pulmonar,
atirar da varanda de trás cascas de laranja ao galo vermelho
dos velhotes vizinhos,
pôr música a tocar e não a ouvir,
por minutos de 2008 viver segundos eternos de 1945,
estar vivo nesse lance que a fotógrafa não deixou
se estilhaçasse,
aumentar os espelhos com os rostos outros do próprio,
medir camadas geológicas de tempo num olhar contador,
vulcaniza-se o rasto nos soalhos de macadame da passagem,
é bom chegar a uma idade e ter a idade à espera na chegada
como uma pessoa amiga no terminal viário,
outras pessoas terão corrido menos, outras mais,
de corridas em círculo vêm os portugais,
New York 1945, Peniche 1986, Figueira da Foz 1970,
amanhã será dezembro na mesma de um qualquer ano
numa vida qualquer, esta por enquanto pode ser,
desde que haja filmes para ler.



FILME.1

Duas pessoas em turismo no inverno.
Não se conheciam antes da coincidência no comboio.
Agora viajam juntas, não há sexualidade entre elas.
Têm idades muito separadas, mas procuram o mesmo:
poder não voltar – ou então, poder não ter partido.
Uma delas usa gabardine nacarada, sobe a gola à boca para que o vento junto ao lago lhe não corte tanto até as frases não ditas.
A outra pessoa tem chapéu, que é escuro e duro e pensativo.
Mais de vinte anos entre os dois nascimentos.
Não tanto separará os dois passamentos.
A pessoa mais velha garante que os gatos sofrem de depressão
pluvial.
A mais nova acredita nisso, que já reparou no olhar deles
às janelas, mas nada diz.
Ambas filmadas de costas, ambas a uma janela alta.
Dá cada olhar para um campo de neve coroado por um lago.
Veados rápidos e gigantescos como cavalos, árvores negras.
Uma das pessoas fala de um sável que devolveu à água.
A outra ouve a palavra “sável” e percebe “saudável”, mas nada diz.
Isto sabe-se depois pelos diálogos, que são poucos.



FILME.2

Duas noites antes desta, comecei vendo um homem que vou
conhecer quando o for dando por escrito.
Imaginou-se-me já a breve casa dele: saleta, banheiro, quarto,
nenhuma cozinha, o tudo em chão de castanho e paredes iguais ao chão.
Come em restaurantes baratos, conforme os dias e as noites.
Vive naturalmente sozinho.
Desconheço-lhe quase tudo: a profissão, o nome, o desejo mais fundo, o carácter (mineral ou vegetal ou animal?) da tristeza.
É de olhos cinzentos quando chove ou se muda o mundo.
Azuis, se floresce a grande rosa amarela do Sol.
O apartamento dele é uma sobreloja entalada entre a senhoria da loja e um sótão fechado para sempre.
Escadas de madeira torcem uma curva do rés-do-chão à porta dele.
Tudo range: degraus e porta e ele.
Há duas noites que me habituo a esse ranger.
No filme, terei de ser eu a falar.
Não lhe conhecerei a voz, disso estou já seguro.
É um homem de que só se conhece o dito pelo feito, não o contrário – e o contrário é o de quase toda a gente.
Digo: quase toda a gente que conheço e que não escrevo.
Digo: sinto alguma alegria; a visão deste (o filme com este) homem, nocturna de origem embora, dá-me alguma alegria.
Por mais irracional que uma alegria seja (dada a vida), não deixa nunca, a alegria, qualquer alegria, de ter, pelo menos, uma razão.
A razão desta é esta: é certo que me arranjei uma companhia.
Não quero dizer que este homem seja meu companheiro, ou eu dele, ou um do outro.
Quero dizer que posso assistir a ele.
Sim, como se ele fosse o ponteiro decisivo de um relógio (mas qual, o da hora, o do minuto ou o do segundo?), ou melhor, como se ele fosse a personagem de um filme sem actor nem de carne nem de osso nem de carreira.
Há duas noites antes desta, ele imaginou-se-me.
Isto é a verdade tal como a posso e possuo, de verdade.
Tinha-me deitado depois de um cigarro indiferente que fumei à varanda.
Não era meia-noite ainda, era bem menos que essa hora lunar, esse limbo de bruxas de chácara, de gândara, de charneca, de granja.
Fumei o cigarro e recolhi-me à imitação do esquife.
Folheei uma revista de maquinaria agrícola, bebi água riscada de sumo de limão, desliguei a luz e esperei.

Falo: de quando ele imaginou que me aparecia.
Duas noites antes desta, ele apareceu em sua sobreloja exígua, uma saleta sem cozinha, um quarto, um banheiro quase inclinado de tão estreito.
Vi-o de dentro da minha noite, a que chamo minha porque lhe pertenço.
Vi-o sentado no centro da saleta.
Só há uma cadeira e só há uma mesa na saleta.
A cadeira é um cubo mutilado.
A mesa é redonda, tem uma terrina com motivos róseos de boa catadura.
A terrina é um falso século-XVIII: falsa como o século e falsa como a contagem dos séculos – no resto, verdadeira, como todo o objecto que não precisa de ser visto para seguir sendo.
Vi-o sentado na cadeira que incompleta a mesa no centro da saleta. Eu quis que ele tivesse entremãos uma revista de maquinaria agrícola: nesse caso, seria ele um sonho de outro eu, o que melhor seria, pois se sonhamos connosco sonhamo-nos para nos esquecermos de todo de acordar.
Mas ele não lia essa revista, que me pertence desde que o meu Pai se dissipou no jardim de mármore.
Vi-o que não lia nada.
Estava ali sentado, aqui sentado na minha vigília, duas noites antes desta.

Uma casa, um homem, outro homem, outra casa.
Mais ou menos o outro, o mesmo.
Vendo chover, o Sol recebendo nos olhos: é o mesmo?
Numa cadeira, a uma mesa, uma noite.
Com leitura, sem nada para ler, sons vivos que de baixo fazem tremer os pés até ao coração, um pouco também o coração, um dos corações que este mundo conserva em saletas, defuntos sons que de cima fazem tremer as pálpebras até ao coração, na saleta como na cama, quase sempre de noite.
Há a noite mineral, há a noite vegetal, há a noite animal.
Veados, neve, um lago.
Só a alba escapa a qualquer destes reinos, por dela mesma ser reino e rainha, que não deste mundo.
Outro mundo o mesmo, entre imagens e gatos repetidos em fêmeas, odiando o fumo e a novidade e o chão de madeira sem tapetes de que urdir a fiação das unhas.
Tudo isto – e a presença do sótão dentro da cabeça, os sons de baixo subindo como um fumo de cigarro à varanda que o vento quebra antes que o fumador perceba a espiral das constelações, ou enigma dos anéis-sete-escravas, ou a raiz de um verso incontinuado.
Ou incontínuo.
Ou incontinente.

Cansam-se os olhos castanhos (pretos, quando chove ou se nubla o mundo) postos na mesa, na maquinaria que preside às mesas, aos cubos incompletos e às saletas, além de a tudo o mais.
Ou menos.
Ou aqueles outros mundos a outros olhos: os mesmos, uns e outros,
como os comboios e os dedos pequenos.