Thursday, October 30, 2008

Rosto, Ressequida Rosa





I
Figueira da Foz, manhã de 27 de Outubro de 2008
(84 anos da Mãe)


Manhã muito cedo passo à beira dos pinhais a cuja beira as senhoras-de-aluguer perdem os nomes para sempre e a virgindade de cada vez.

A solidão é haver gente a mais no mundo, neste mundo – no outro, não faz diferença.

É ornitológica, a solidão do guarda-fios empoleirado no poste: é de alta tensão, dele a solidão.

Símile e símia é do homem do realejo a solidão: tanta gente, um realejo só.

Gregária é a solidão do carniceiro corvo comedor de canídeas carcaças atropeladas.

Costumo ver, tarde muito tarde, as solitárias senhoras-de-aluguer beirando a devassada virgindade dos pinhais. Ao longe, a fábrica papeleira fuma celulose para o mar.



II
Figueira da Foz, manhã e tarde de 29 de Outubro de 2008

Somos pobres, não temos neve.
Temos geada com fartura mas neve não.

O lugar tem uma capela que sobe branca no azul frio da manhã, mas não neve.

Apolos de motorizada e dionísios de bicicleta demandam os ofícios través os campos queimageados fincados no chão pelas estalagmites (ouro e esmeralda) que as laranjeiras são.

Somos pobres, não temos neve.
Temos geada, mas neve não.

Na televisão dizem que neste país só há neve na Estrela e nas amendoeiras em flor, mas, mesmo assim pobres, sabemos que a televisão inventa sítios e fenómenos para sermos felizes acreditando que sim, que florescem as amendoeiras, que uma serra chega a estrela. Mas não.

Somos pobres, não temos neve.
Temos geada, mas neve não.

Postes ambulantes, uiva-nos o vento, lobo transparente.

(Espera!
– diz a cotovia
que nos sonhos fala
mas acordada não.

Espera!
Ainda é a Primavera,
verás não tarda se faz Verão.)

Somos pobres, não temos neve.
Temos geada, mas neve não.

Fomos decerto ricos na infância, essa breve fortuna esbanjada sem pecado nem retorno. Natalícios de tal fugaz eternidade, excursionistas às amendoeiras sem flor nem neve nem estrela nem nada, pois agora

somos neve em pleno Verão.



III
Figueira da Foz, tarde de 29 de Outubro de 2008

Que se passou já,
que vai ’inda passar-se
nestas casas
que nem sonhos meus habitam?

Que mulheres de que homens para que
crianças?

Que estimados animais as correrão
em prisão?

Que sonhos habitarão estas
não minhas casas?



IV
Ibidem

Toca devagar a face esquerda dele,
são mais jovens que tu as tuas mesmas mãos,
não ele.

Habita-o depressa, antes que ele te esqueça.
Antes que dele mesmo se esqueça ele em ti.

Aprenderás à tua custa quão velozes
são hoje as famílias, quão velocíssimos
os casais.

Já não há, aliás, casais, mas
pares.
Nem, aliás, pares, mas
parelhas.

Indivíduos-legos, peças-pessoas,
mecanografias descartáveis
e descartadas
e mecanizadas
e mal agrafadas.

Toca ainda a face dele
(a direita agora)
e despede-te dele
e vira-te
e diz
olá
ao próximo.

E ama ao próximo menos
que a ti mesma,
não sejas parva.



V
Ibidem

Quem te dera uma frivolidade.
Quem te dera abocar o morango químico.
Quem te dera, em lugar de maneiras,
ter ademanes, lenços de pele,
calcanhares não gretados
a partir do coração.

Quem te dera não ter fissuras.
Quem te dera fressuras.
Quem te não dera aquele avô,
estes vizinhos, o telefone verde-
-ranho, quem te dera
a outro corpo, a outra vida.



VI
Ibidem

Dona Julieta de Menezes,
entradota já de idade,
usava sonhar (e sonhava) às vezes
nunca ter dobrado a mocidade.

Sonhava – e era feliz, coitadinha,
Dona Julieta de Menezes.
Um dia, morreu – e, muito sequinha,
foi ter co’s ancestros, todos portugueses.



VII
Alhais (Carriço, Pombal), noite de 29 de Outubro de 2008

Rosto, ressequida rosa,
fluente expositor de vísceras,
mapa do mundo, terra de ninguém
por alguém desterrado habitada,
fonte e foz, tu e ele e nós,
sítio onde a criança jogou às escondidas
e se perdeu,
dela deixando um apenas eu,
a outro qualquer ele igual aliás,
o rapaz,
como nós,
como tu também,
retrato de retrato de rosto de rosto,
romeiro de marias, romeu de romarias,
pano inconsútil e cru,
ázima levedura, bandeira d’amargura,
cartaz para levar sobre o pescoço a casamentos e funerais,
entre cartazes outros mas iguais,
rasto (de resto, resto de rasto) de rasto,
um olho escreve, o outro lê,
juntam-se os dois na boca para cegar de silêncio,
segando palavras
(rosto),
(dobrada a mocidade),
(gretado o coração),
(habitado o outro),
(estimado o animal),
(esbanjada a infância),
(limitado-o-tempo),
(devassada a virgindade),

rosto, ressequida rosa.

Wednesday, October 29, 2008

Recorte-e-Colagem de fragmentos de PREFÁCIO QUANTO POSSÍVEL, de Mécia de Sena, à 2ª edição revista de 40 ANOS DE SERVIDÃO, de Jorge de Sena


Pombal, tarde de 28 Outubro de 2008





Soube-me sempre a destino a minha vida
toda uma vida agora encerrada.
O tempo-limite mais tardio
a data-ano a que o tempo se
expressamente referisse se
igualmente verificasse.
Foi preciosa durante anos
a dificuldade de
praticamente
todos os poemas.
Dentro postos os tempos:
a selecção final,
a servidão:
súmula solícita.
Particular adolescência grata e cruel:
inicialmente.
Completo corpus:
metodicamente,
inevitavelmente.
Transatlântica, longa:
a produção:
anos de perseguição:
ordenação dela.
Meninos,
armas e
bagagens.
Após dificuldades, pareceu-nos
que deveríamos seguir, mesmo
excluindo indicações existentes.

Vastíssima vida, agora
respectiva.

Sunday, October 26, 2008

Três Peças para Montra

Fotografia: © Sandra Bernardo (Coimbra, 21 de Outubro de 2008)





Tábua

I. Soneto Contador
Buarcos, Figueira da Foz, manhã de 21 de Outubro de 2008

II. Poema (com Vento) para Logo
Buarcos, Figueira da Foz, tarde de 21 de Outubro de 2008

III. Instantâneos de Cidade com Rio, a Minha
Fonte Nova, Pombal, manhã de 26 de Outubro de 2008






I. Soneto Contador
Buarcos, Figueira da Foz, manhã de 21 de Outubro de 2008

Passados vivo já dias futuros,
o muito já vivido pouco conta.
Há noites derramadas, dias duros
e é sempre à Lua que o Sol aponta.

E se ora me toma o sono doce,
se m’adentra um domingo sempiterno,
então sonho com quem aqui me trouxe
e com quem de mim veio no inverno.

Por vezes não se vê a lua tal
a que um tal sol aponta apontador.
Há vozes no silêncio visceral
(e nozes ao fundo do corredor).

Futuros vivo já dias passados:
me contam que eu não conto, contador.



II. Poema (com Vento) para Logo
Buarcos, Figueira da Foz, tarde de 21 de Outubro de 2008

Encrespa o vento a água dos olhos
na tarde que o mar vaza por noite.
Céu de sobrolho carregado.
Chicoteadas árvores: nenhum pássaro
à vista: nenhuma terra anunciada,
pois.

A beirais se recolhem os pobres homens,
as mulheres pobres, os magérrimos cães
soletradores da escrita dos caminhos.
Longe, um eucaliptal recolhe azul
à cripta diagonal, vem do mar crescendo
um borrão de irado Pintor, de crespo
deus intemperioso.

Agora não estou a pensar.
A uma janela alta, recorto dos olhos
o escorrimento não voluntário.

Gosto da selvajaria eólica, sempre gostei.
Atendi o telefone, mordi uma fatia de pão,
desejei o mar na antecipação de nunca
(mais) embarcar.

Encrespa o vento etc.
Logo vou ao bar.



III. Instantâneos de Cidade com Rio, a Minha
Fonte Nova, Pombal, manhã de 26 de Outubro de 2008

Os cantores vão a pé pela beira-rio.
Salgueiros pranteiam jacintos-de-água.
Cacos de tijolo etruscam o chão dos hojes.
Crianças ciganas vão ao peixe à toca e às lampreias.

Grandes mulheres lavam de branco roupa de cama.
Senhoras pasmam tais periquitos a janelas.
Rostos alguns rosáceas semelham: trabalhadas pedras.
Algumas casas são cabeças de navios na procela aterrada.

Ingerem açúcares líquidos as andorinhas e os ciclistas.
A minha cidade é portuguesa até de costas.
As pessoas são ambulatórias unidades de queimados.
No carrinho, o bebé floresce de sono.

Maçãs avermelham a banca, glóbulos de polpa.
Uma cascata de cabelo desce a mulher até às ancas.
Os dançarinos desempregados na paragem do autocarro.
Uma pensão empobrece o escritor sem casa.

Num livro, a clarividente cegueira grega das estátuas.
O bronze de pensar, a lata da vida.
Sacas de serapilheira demolham tremoços no leito.
Leitor de jornais com suspensórios compra pão.

Guitarristas e bombeiros ginjam cedo na Irene.
Mulata-se de fria sombra já a manhã.
Rapaz de cabeça quadrada desenha comboios (um fio de baba).
A montante, um naufrágio de laranjeiras.

Mulher assassina um galo para canja de arroz.
Um cão trota, inconsciente feliz da vida.
Periquitam as damas janelares, nádegas contra os retratos.
Um bule de chá branco com cromo inglês azul.

Queijos e presuntos cheiram-se mutuamente como cães.
Mastins mastigam ossos de borracha em pátios de cimento.
As mamas das mulheres instigam a lactofagia.
Púbis tarantulam venenosas comichões.

À porta da farmácia, a santinha drogada.
Polícias levitam como melros de caqui.
De navalha, o barbeiro sonha pescoços.
De borracha, mastins mastigam ossos.

As estradas de saída: infindas caligrafias.
Ponte de pau, rápida sombra na corrente (nossa vida).
Alto, o mosteiro crivado de oxiúros fradescos.
Uma profusão de bolos entre máquinas do frio.

Gerânios cancerígenos e olhares entristecidos.
Bocas onde a febre arde, palavrosa.
Palavra e rosa – e azeitona e pez.
Um adejar de membranas no amante.

Diamante com pedra lunar no mostrador.
Um padre-cruz em argila todo cagado das moscas.
Calções de pano cru na montra ao lado.
Secretas auto-sevícias das mulheres-polícias.

Homem com menino ao colo: dois gigantes.
Cinquentona em calças de ganga: ânfora anacrónica.
Maná de farinha na padaria calorífera.
Prótese dentária rindo-se sozinha como os loucos.

(E antigamente, o meu Pai muito jovem por aqui.
E este rio onde a minha Mãe caiou lençóis.
E eu, que só queria uma maçã vermelha.
Nisto, consciente, infeliz da vida, o cão pára.)

Nos Olhos

A caminho da Figueira da Foz, manhã muito cedo, 21 de Outubro de 2008



Éclogas e mercearias concorrem para o sustento do meu corpo na terra.
Manhãs e noites muito se fundem, azuis onde era de ser brancas, azuis onde era de ser negras.
Os primeiros mortos do dia e os últimos bebedores da noite encontram-se perto do porto de pesca, trocam pastorícias, vêem-se nos olhos.
Os animais rocinam a amargura gelada da erva, emitem bolhas à pele da água.
Um cedro labareda-se todo como uma árvore-de-natal sem crianças.
Roupa estendida recorda os enforcados: todos os enforcados de todos os tempos.
Um pássaro põe-se a apitar como um padeiro apressado.
Estou acordado na contramão do vento, as mãos dadas à estatuária da neve, sinto o rachar da tinta nas paredes das casas, na pele dos rostos das pessoas.
Preciso de um café, entro no salão,
vejo-os nos olhos.

Monday, October 20, 2008

Crónica e Poema

A crónica (Fruto) é a nº 73 da série Rosário Breve (n’ O Ribatejo, www.oribatejo.pt).
O poema é, enfim, o que é.


FRUTO

Quando o dia se acaba todo em noite, tenho por (recente) hábito assistir à epifania lunar das árvores de fruto. Explico-me: elas (as macieiras, as figueiras, as mulheres, as laranjeiras, os pessegueiros) alunam os crepúsculos de uma espécie de gaze mental que só pode resultar ou de maravilha da natura ou de pancada da neura.
Ainda hoje. Subia a pé uma ladeira quase tão íngreme quanto a memória. Levava comigo um saco com pão, maçãs e cavacos de lenha. À minha esquerda, numa eira, uma mulher recolhia roupa do arame. Aos pés dela, ardia de febre ou de ouro uma fileira de abóboras que cheiravam a amarelo forte. À esquerda dela, uma nespereira vigorava como um fantasma benigno. Era de folhas negras, que a noite tombada de fresco prateava, lá está, de um luar de epifania. Entrei no café mais rural do mundo, assentei a carcaça numa cadeira de plástico e mandei de vir de beber. Bebi. Vieram buscar-me passado um tempo, deram-me de comer, vim aqui contar-vos isto – e sei que, lá fora, a instalação da noite ainda não cedeu aos vagidos do novo dia.
Era para vos ter escrito certas coisas que penso quando, nos cafés rurais, o televisor segrega a baba da idiotização do povo. Não vale a pena. Prefiro dizer-vos da insensatez (minha) de pasmar perante as árvores, verdadeiras forjadoras das noites. Nada adianta ao mundo, mas também o não diminui, espero.
Crise económica, aquecimento global, gangs e bang-bangs – nada me interessam. Nem já suicídios de adolescentes que perceberam a (a)tempo que nunca haveriam de ser as catarinas-bárbaras-furta-marães do futuro breve. Nem a insolência da corrupção. Nem zamericanos. Nem os senhores padres activistas de uma espécie de bloco-de-esquerda de altar. Nada.
Interessa-me ganhar a vida. Interessa-me não perder a vida. E é quando a minha vida, por uma noite, se acaba em epifanias lunares que chego a ousar a esperança de o novo dia me fazer dar fruto como uma árvore, pão e lenha à parte.



******


UMA POUCA DE NOITE

Casa, Souto, Pombal, noite de 19 de Outubro de 2008



(1)

ENDURECIMENTO, NOVEMBRO E ALHEAMENTO




Então, a luz endurece e estatela-se no céu já nocturno
e estatelando-se se estrela de esmigalhados astros, um
que outro jacto alto luzindo as invejáveis viagens para sempre
nos alheias.

Em baixo, vulgares carros rumam cegos como carrosséis.
Acabado quase, o domingo os obriga ao retorno a frias
garagens onde, tais igrejas sem imagens, dormirão
como frios cavalos sem memória de pastagens.

Sem uma mulher em casa, pode ser mais difícil.
Bem mais precário pode ser, sem um homem em casa.
Nem perto, a um canto dourado e respiratório, uma criança
exerça a qualidade mediúnica do seu sono premonitório.

Com o rolar de outubro para a valeta de alumínio de novembro,
as albas são mais duras, emaranha-se nos pinheiros a noite,
ciosa da nova hora e do despertar dos homens, das mulheres,
das crianças para sempre lhe alheias.



(2)

AB OVO



Hemos nascido: quanto bastou foi para infantes termos sido.
Alguns, felizes de feliz infância: hoje nada, tudo porém outrora,
esse nascer em um pobre país assim ainda dotador de ricas
infâncias como ovos de si mesmo cheias.



(3)

ANDORINHAS




Andorinhas: de si mesmas andores e santinhas.



(4)

RAPARIGA RINDO




Da rapariga que ao ar cristal torna rindo, guardo para vós
a perfeita dentição, que cotejar apenas posso a gargantilha
de nácar à boca subida para enfeite e tesouro do rosto
e do riso.



(5)

SONHADORES CAPAZES SEJAMOS




Agora vamo-nos deitar ao mar
do sono.
Cada um de nós de sua casa-rocha,
agora se vai deitar.
De horizontais falésias sejamos sonhadores capazes,
de verticais andorinhas riscados.
A espuma nos poalhe de branda nata branca
os corações mumificados pelo abandono
do sono,
diária morte nocturna
a nós deitada.

Saturday, October 18, 2008

SEIS FOLHAS DE LIVRO D’OBRA PARA UMA CONSTRUÇÃO CIVIL DO ENTE



























Fotografias: 13, 15 e 17 de Outubro de 2008




I. QUASE MADRIGAL


Pombal, “Ripa” Café, noite de 15 de Outubro de 2008



Imersos em nevoeiro, esse mar-alto à terra subido, os magnos pinheiros magros sentinelam de costas o nada que (de) fronte os vê. Acorda-se às seis da manhã para nada: para isto: prestar (ou ser) assistência desta gente de madeira imersa em nevoeiro como ela (como eles) negra.
Não está muito frio. Abriram já as padarias-cafés que à ruralidade resgatam a imitação metropolita. Entramos para tomar um café, ter um maço de tabaco para o dia (a obra), contar os minutos até quase as oito.
Chegamos. Os materiais ainda dormem, frigidíssimos: despertamos do frio o ferro e a pedra com o fogo gelado das nossas mãos. Tudo deles nos oferece uma substância onomástica e anónima e colectiva: tintas, trinchas, andaimes (andores), escovas, espátulas, josés, manuéis.
Pago em trabalho (não em ofício) o esquecimento dos pinheiros névoos.
Às onze, o sol abre-se como rosa térmica que é. Uma hora antes, comemos a bucha sentados em baldes fechados, em caixas de mosaicos, descansámos dez minutos, talvez menos.
Agora, ao meio-dia, os pinheiros reverberam como verticais braços marinhos. Um corvo moço telegrafa pedidos indecifráveis. Dois grandes, sabedores da cifra, acorrem e levam-no.
Almoçamos na obra (sentados nos mosaicos hieróglifos): sardinhas em lata, rabos de peixe-ruivo, carne guisada, pão, água: tudo frio, em marmitas de folha e embalagens de plástico glauco. Comemos depressa: gastamos dez minutos a ir e vir, pelo pinhal, a tomar a bica. No café, suportamos o ladrar fiduciário do telejornal. Folheio um diário irrepreensivelmente imbecil. Pulsam-me os pés (as mãos, não.)
Agora são as cinco da tarde, como julgo ter lido algures (mas não importa). As moscas ladraram-nos toda a tarde aos ouvidos e no nariz e nas bocas já cediças de fadiga.
Pouquíssimo antes das seis, lavamos as ferramentas, passamos mãos, antebraços e caras pela água da mangueira grande (serpente verde que dorme em água-terra), partimos, amanhã será outro
ontem.



*



II. OITO POEMAS PARA QUEM


Ibidem



1

O que dormem a esta hora os homens que conheço
sós?
A sós em suas multidões povoadas de sonhos – ou
disto o contrário: deles os sonhos de povoadas multidões – e
de horas como
esta.

2

Dobram os sinos
os corações:
aritmética nenhuma
da dúvida toda.

3

Estrela: breve brilho eterno.

4

Planeio incursões dominicais aos
domínios herdados das publicações.
Aos outros dias não posso, que trabalho tenho
e não incorro: outras obras
me chamam.

5

Terra de cedências e de peixes,
terra de cervejas e de cofragens,
terra de padeiros e de numismatas,
terra de catálogos e de liquidações.

Mar de anuências e de pássaros,
mar de igrejas e de imagens,
mar de derradeiros e de plutocratas,
mar de decálogos e de ramificações.

Água de ausências e de gatos,
água de narcejas e de clivagens,
água de aguadeiros e de vulgatas,
água de análogos e de tremulações.

Fogo de peixes,
fogo de pássaros
(narcejas, mar sejas),
fogo de gatos.

6

Troco a minha vida pelo meu esquecimento.

(Todos o fazemos.)

(Quem?)

7

Gastamos
(quem?)
uma descomunal quantidade de luz
para produzir uma única sombra.

8

Já sorrimos
(nós todos? mas quem?)
em salas povoadas da ausência dos futuros.

Havia gatos de porcelana,
pratos de fruta de barro pintado,
um galo dourava no forno o próprio cadáver,
um limoeiro perfumava o pátio
de uma sabedoria de quarta classe,
perto a igreja rondava suspeitosa
como um polícia vestido de cal,
havia as coisas que são de haver,
enquanto o livro de obra não é só de
dever.

Já mansamente chorámos
(quem?: nós)
em penumbras aluídas de esvaídas ermas casas.
Havia essas eternidades viúvas chamadas
tias,
ginecologias que restolhavam como
trigo ou pergaminhos
no quarto o avô morto ressonava cera,
o limoeiro pàtiava a qualidade citrina do ouro
em decote de moça,
o polícia orava a missa da
proibição,

enquanto o livro não havia nem
nos tanto devia,
mas a nós que
m.



*



III. CASAS ERMAS


Entre o Louriçal e a Figueira da Foz, manhã muito cedo de 16 de Outubro de 2008


Casas mais ermas que planícies.
Como planícies, antigas.
Antigas e devastadas casas ermas.

Deram já sentido aos caminhos.
Agora aumentam deles o desvario.
O desvario, o ínvio deles aumentam.

Beiram a desistência agora, outrora
não: eram vivas, nelas ardiam lume
e pessoas e animais e frutos.

Redutos publicamente furtivos, agora:
como os retratos dentro delas ’inda:
que olham para dentro adentro elas.

Sítios terríveis, terrosos, intocáveis.



*



IV. ESQUECIMENTO


Figueira da Foz, manhã de 17 de Outubro de 2008


Pensei na minha vida como barco.
Esqueci-me de pensar no mar.



*



V. DENTE


Matos da Vila, Louriçal, entardenoitecer de 17 de Outubro de 2008



Tenho-o agora na mão:
inofensivo, finalmente,
o sacana do dente.
Arranquei-mo eu mesmo,
juro pelo mais sagradinho.
De um vizinho,
o alicate trincou por minha mão
quem me mordia noite e dia
– e sem qualquer anestesia.
Morreu, incisivamente, o cão
do canino.
Ente do dente doente: era destino.



*



VI. CASA NÃO ERMA


Casa, Souto, Pombal, manhã de 18 de Outubro de 2008



A mulher saiu a buscar pão, tabaco, feijão, vinho.
Esperamo-la em casa os móveis, as várias aparelhagens que num único rumor imitam e continuam o interior da terra, as gatas que bibelotam esfíngicas, eu que escrevo para não ler nem viver.
No lar, arde o coração da casa, isto é: o fogo que reinstala a metáfora mais que perfeita da vida, isto é: do juvenil arroubo das chamas primeiras à madurez dormente do brasido – até ao encanecer das cinzas.
Na cozinha, o queijo caia-se a si mesmo; maquilhada de colorau, fulge a jóia grená do presunto; o pão lembra-nos que houve ontem, talvez amanhã também – ou ainda.

Saturday, October 04, 2008

CONTAGENS PARA UMA ANATOMIA AINDA RESIDENTE – (e)numerações

Viseu, tardes de 2 e de 3 de Outubro de 2008


(Tenho 44 anos.
Continuo a contar.)

*

(A minha pessoa não conta.
O meu tempo, sim.)

*

Feridas por todo o corpo: larvas
e palavras.

*

Há uma etnografia no coração,
um folclore oleiro nas mãos,
a infância picada de nervos nas plantas dos pés,
o manso boi na água dos olhos,
o figo nas tetas das mulheres,
a seda que o prepúcio sela de seiva na glande,
a flor do cuspo e a da delicadeza,
a bondade hidráulica do baço,
o fígado todo grená como um beijo coagulado,
a porcelana das unhas,
a óssea meia-lua das unhas,
diferença, aflição e agonia das tripas
(por onde começar a morrer),
o, mais que meu, eu-corpo.

E nenhuma alma e nenhuma salvação.

*

Mais bem quis e quero amar-te, ó vénus
doméstica minha, entre linhas e agulhas
cirandando, toda, como é de mulher
próprio, atenta ao labiríntico rumor da
casa.
Bem andou quem Vénus chamou a um planeta,
que planetária é toda a mulher – e toda urbe
e orbe toda.
Sideralmente amar eu quis e quero, daí.

*

O peixe grande que ora assa no parque,
entre árvores e volitivos gatos, oferece em
carbónico perfume do esplendor da sua
natação.
Fixa comigo o que importa, tudo o que
importa: o parque todo, um rio perto,
o sol fervilhando de aves lentas
(enumeradoras da inumerável máquina de crepúsculos),
esse alguém que nos ofereceu este peixe
e este lume e este entardenoitecer
sem remissão nem amargura nem amanhã.

*

Neste instante me guardo.
Componho.
Penso na palavra linho,
que de tão bonita me parece o masculino de
linha:
verso também,
portanto.

Neste instante quase me salvo.
Agora não é tão preciso morrer,
grato, caduco e cadente, a exemplo
das folhas que das árvores sobem
ao chão,
como eu,
se não compuser.

Componho? Mais recolho do que componho.
Tudo em torno fraseia:

o mendigo cuja melancolia é uma vinha de nervos,
as telenovelas barbitúricas para velhinhos de asilo,
o largo castanheiro que apetece abraçar,
os nomes que no campo-santo individualizam o esquecimento,
as portas de vidro onde o nosso rosto nos olha,
o monossílabo cego de uma união carnal,
a iluminura perfeita do ferreiro em sua forja,
o chilrear das viúvas ante o bule de chá,
os escritos sem palavras nas janelas para arrendamento,
a palavra linho e a palavra linha,
a macrocefalia escaravelha do motociclista,
os cães passeando homens ao anoitecer,
a desmesurada tristeza dos fins de festa,
a rapariga vestida de verde(e) lendo Graham Greene,
o figo de uma teta coroado a roxo por baixo,
o promontório que todo o cavalo é,
uma praia determinada noutro ano qualquer,
as rodas dos carros sublinhando as mãos dos bois,
o azul milenar do gelo do Norte,
o coração a sul de toda a melancolia,
a idade dos que amamos volvendo-se madeira,
o caudal de cometas fogueteando a seda da noite,
um poeta na taberna como um bicho-da-sede,
os instantes de guarda,
os frangos expostos e nus como cicciolinas,
os rapazes de cabelo que arde ao sol antes do futuro,
o futuro portátil de toda a criança,
o outro mendigo, afagador de cães e de portas de vidro,
a babilónia aromática dos mercados,
o salitre do idioma dando à costa na boca,
a cotovia castanha dos olhos da nossa Mãe,
o fulgor paratlético dos bêbados cantores,
o azeite que pavia a escuridão,
o teor ambulatório da condição
(qualquer condição),
o imperialismo francês jardinando palacetes,
o olhar abolidor de passaportes,
a gnosia como derradeiro livre-trânsito para a vida,
os cinquenta e quatro quilos de uma adolescente mais leve do que o ar,
a terra vista do espaço e o espaço visto da terra
(as portas de vidro, as portas de vidro),
o milagre de uma palavra justa sob a figueira,
o fadista reumático cheio de ciúmes e coisital,
a prece íntima perante um rio perto,
o perfume de um peixe e do gesto que no-lo deu,
uma galinha cozendo devagar em panela de ferro,
a lenha que a torna molusco e da família,
um bosque crivado de retratos num sonho,
o sonho de uma rainha pobre toda a vida costureira,
o ramalhar dos álamos de cartão no teatro,
a jóia de um cuspo à flor da água,
a lotaria orgânica dos cancros nas melhores famílias,
os bailes d’antigamente, em que o pasodoble e a ginja,
a portugalidade profunda das casas fechadas,
as grisalhas enxameando salões de coiffeur,
os partidos políticos e a visceral filhadaputice do género humano,
os romances de Henry James,
um sino tornando bronze o coração a quem o ouve,
a tardinha chiando doçura nos ossos do lavrador,
os avós clonando amor de amor nos netos,
o florilégio das procissões cheirando à falta de Deus,
como que se (de)volve musselina: a mulher saciada,
as costas do nadador olímpico golfinhando azuis e tejos,
aquelas cornetas compridas dos filmes bíblicos,
o Charlton Heston e a National Rifle Society
e os dez mandamentos e a merda,
a renda vegetal do Japão a amanhecer em névoa,
Wenceslau de Moraes lá, entre rendas,
os desastres de viação cutelando famílias,
os anos roçando-nos como a mato,
os ofícios, os tios, o pequeno comércio, as pontes,
o meu amor inteiriço e mole qual coágulo,
a cona das bebés fendendo a rosa,
qualquer rosa: simultânea pimba e écloga,
a promessa feita ferro na honra da palavra,
o embuste, o sortilégio, a mesa de tríplice pé-de-galo,
a Nicole Kidman lendo Greene, de verde(e),
a fonética ortoépia de David Coverdale,
a argúcia instintiva dos pássaros,
a gordura pré-republicana do último Rei, o Caçador Caçado,
o lhano boletim da morte do Irmão
(também morrerás, sossega, garantia o telegrama),
não nos adoecer o amor quando adoece quem amamos,
o nosso corpo: casa preliminar tanto de morte quanto de vida,
a estirpe bacteriológica do destino,
a cárie azul das fadistas,
as danças tristíssimas no mar-alto dos cruzeiros
(quase todos com muito dinheiro, muito cancerígenos),
o afã rumoroso dos vendedores de bananas,
a tessitura hemogramática dos ramos das árvores,
a árvore pulmonar na brisa do arfar
(pode ser do amar),
saber agora mesmo que morreu o Dinis Machado:
viva o Dinis Machado!, viva o rapaz!,
viva Mister DeLuxe!, viva Austin!,
viva Dinis Machado, viva!,
revivam também a deambulação predatória de António Botto,
a vulva métrica da Florbela Espanca
e a íris de Osíris no lótus do escaravelho
(cabeça-de-boi-cabeça-de-falcão-cão)
e Akhenaton, o apóstata de Amon,
seu longilíneo pescoço de tuberculoso,
seu crocodilo dândi dando o rabo ao sol,
lunar assunto hoje-muit’-em-dia de bares-gay,
viração do vento e luar prateando pessegueiros,
famélicos actores agindo revoadas,
facturas e divórcios azulando rodapés de casas,
e a vitrificada ternura autómata,
ouvindo sinos no bronze do coração,

neste instante que me guarda de toda a salvação.

Friday, October 03, 2008

Crónica e Fotolegenda para O Ribatejo


A partir desta semana, n' O Ribatejo (www.oribatejo.pt), à crónica junta-se uma fotolegenda, em colaboração com a fotógrafa Sandra Bernardo. O título genérico das fotolegendas é Olhos Vivos. Aqui fica a primeira da série, seguida da crónica nº 71 da série Rosário Breve.
******
Olhos Vivos – 1

Fotografia: Sandra Bernardo
Legenda: Daniel Abrunheiro

CONTAS À VIDA

Em um instante de inexpugnável perenidade, eis-nos ante um mortal que, pela mão afundada no peito têxtil, deita contas à vida a partir de um olhar que mais parece um ábaco do que a líquida soma de um par de olhos. Na rua portuguesa, toda a efemeridade é apátrida. Esta (a deste homem) também, mas um pouco menos, afinal de (ou feitas as) contas, do que aquela que nenhuma fotografia resgata ao resto zero da passagem.

******

Rosário Breve nº 71



Fala o Comovido

A maturidade está a tornar-me lingrinhas.
Tudo me comove, mil raios me partam. Juro. Tudo me enternece. E não, nem é de criancinhas loirinhas como as espigas do trigo que estou a falar. É pior. Por exemplo: a velhacaria. A velhacaria comove-me. Como a Pátria está cheia dela, suspeito que os meus últimos anos vão ser mui lacrimejados. Hei-de proporcionar um triste espectáculo, receio bem que hei-de. Estais-me a ver: um tardio quarentão com lágrimas octogenárias perlando de cristal as dioptrias. Triste.
A roubalheira também me derrete todo. E como a Pátria etc. de roubalheiras, estais-me a ver fungando a toda a hora a gota-de-figo dos ranhosos perpétuos. Isto não vai ser alegre. Penso que é da deformação profissional. Durante alguns anos, pertenci a uma classe que, precisamente por ter perdido a classe, se extinguiu. Fui jornalista. Agora sou só cronista, que é um estatuto que advém a uma pessoa quando desiste. Eu desisti. O meu trabalho agora é enternecer-me em crónica numa comoção de última página (mas a cores, vá lá).
Também as figuras por assim dizer icónicas se me transplantaram. A Dama das Camélias e a Rosa do Adro já não me condenam ao pranto. Prefiro-lhes a Eduarda Maio e a Fernanda Câncio. Bernardim Ribeiro, João Roiz de Castelo-Branco? Nada. Nem bucolismo, nem palacianismo. Mais cativa formosura triste me pinga coração adentro um Mário Lino, um Miguel Portas. Em vão recorro aos víveres mentais que há trinta anos enceleiro para nada: Beckett, Nemésio, Sena, Bradbury? Qual quê. A melancolia está toda na pança oleaginosa do Herman, no lustral desentendimento metafísico daquele rapaz que faz “livros”, o Zé Luís, no inequívoco assombro quando chove dos presidentes de câmara-tv, na artificiosa gaguez dos noticiários da TSF. Isso sim, é que é movente e comovente.
De modo que isto me anda assim. A manquejar para velho com nervosas vísceras de passarinho anacrónico. Desconfio que é por ser tão portuguesa a minha condição. Já tentei ser espanhol, mas não consigo jogar hóquei-em-patins nem planificar o futuro.
Não, nem rosas nem camélias.


Duas Manhãs

© Sandra Bernardo (Sé de Viseu, pormenor I)



I

Viseu, manhã e tarde de 8 de Agosto de 2008


Esta manhã acordei de golpe na Noruega.
Não tive de abrir os olhos para identificar a fraude, uma mais no somatório da minha vida.
A fraude e a febre com que as palavras sitiam a minha vida, substituindo-se às sensações: acordar na Noruega ou estar vivo ainda.
Depois (ou antes, ou durante) os cavalos irromperam pela cidade – e não era já a cidade, mas um campo esmagado pela neve, uma neve infinita e negra e apunhalada de abetos, ao longe o olho cego de um lago.
Da rua, chegava música eclesiástica.
Papagaios, como jóias vivas, janelavam o íntimo horror do exílio.
Senti o cheiro a roupa quente que provinha do quarto onde a minha mulher passava a ferro.
Pus-me a ser balbuciado por palavras:
catálogo, comboio, península, arrumador, faia, balde, evangelho, roupa, catálogo outra vez, cavalo, decisão, moeda, frasco.
Deixei-me estar um pouco, aceitando a Noruega como uma criança admite uma festa na cabeça.
A mulher rondou entretanto (entre tão pouco) as outras divisões da casa, então o perfume do café mudou o da roupa, que encontrei pronta e pessoal sobre a cama ao voltar do chuveiro.
Ia pensando na costa marítima, em grandes barcos dividindo o horizonte, sombras horizontais na luz perpendicular, em ramalhetes eléctricos de estrelas de outro estio, que não viverei.
Se pude sentir o frio milenar dos icebergues sob o chuveiro quase a ferver, foi porque, por assim dizer, posso glaciar as fraudes: as palavras que me as instituíram em vida.
Molhei bolachas de centeio no café, restaurei a temperatura do sangue à janela, a que tomei fundos haustos do ar estremecido pela chuva em breve. Ainda não eram as oito da manhã, a mulher pagou-me uma bica no café do centro histórico, perto da estátua toda verde de um rei qualquer e norueguês.



II

Viseu ,tarde de 12 de Setembro de 2008


De manhã caiu-nos uma chuva de caranguejos mínimos.
Infiltraram-se por todo o lado babujando tempo, tempo, tempo.
E o tempo pôs-se a andar para trás como é próprio dele e deles.
Os cigarros cresciam-me na mão.
Os pêlos da cara recrudesciam-me para dentro.
Olhares mudaram de cor e de década.
Estátuas mexeram-se.
Sorriram, tarjados a negro embora, os rostos policopiados da necrologia dos jornais.
As mais velhas pombas enrolaram-se antes do retorno ao ovo.
Casados há quarenta anos, um homem e uma mulher beijaram-se as bocas sem ser por festa.
Os caranguejitos tomaram o bolor das paredes, a pátina das vidraças, sugaram dos olhos das velhas as cataratas da cegueira, reescreveram a baba perdida dos passos e dos paços, treparam as casas brancas que nos largos amparam a História e a Agonia.

E de manhã começa o dia.

Thursday, October 02, 2008

Dez Poemas de Pobre Amor a Portugal


© Josef Koudelka (Portugal, 1976)




Viseu, fim da manhã e entardenoitecer de 1 de Outubro de 2008



1

Era de manhã
um cálice de aguardente que fez e um figo que passou,
artesão de frutos que destila e embalsama.
Homem da cama erguido antes das galinhas,
descido à adega a confirmar o sono perfumado das maçãs
e do cavalo e da vaca.

De lado, como se céu não houvera, instaura-se
o azulejo da alba: repetido espanto,
contadora luminotecnia de quanto falta
para morrer, para ter nascido.

Na cozinha negra, em cima, bule já a mulher:
um ser de fumo que o fogo domina.

Esta é uma história de amor e conjunta solidão
portuguesa.



2

Entre árvores somos
um homem como elas antigo e rumoroso
– ou um cavalo que delas pasta a sombra feita erva verde
– ou alguma criança que nelas lê o último código:
que como elas arderá,
a criança,
em cavalo primeiro,
em antigo homem último
depois.



3

E quanta falta de morrer
e quanta de ter nascido.



4

Sem mulher embora, vivi já no campo,
onde integrei os venenos benignos da terra:
o azeite que mais ilumina quão mais negro,
os laranjais estabelecendo ourivesarias,
o paganismo dos magros cães que o vento açula,
os magros ribeiros engordando o tomate e o gado,
a cegueira táctil dos pinheiros pejados de larvas,
as minhas botas de cavador que nunca cavou.

E as noites iguais ao azeite, mais claras quão mais negras.



5

O local de enco(u)tro
é o amor.



6

Como a floração de pepitas de sal na boca:
clarões de lucidez,
gustativa afinal.



7

Estou sentado a uma mesa de ferro
sobre pedras assente.
Levanto-me, vejo um gato,
remexo as folhas do outono com as mãos
de baixo: as que fechei em botas,
como no ferro me fecho,
sentado.



8

(Pai:)

à chegada do estio de 1978
(abstracção de abstracção: ano e verão: e ter pai),
fomos felizes uma noite
ceando sem pressa.
No pátio ardia de sã febre
a mocidade do pessegueiro.

Não voltaremos trinta anos, nem um ao outro.



9

Era numa aldeia da Beira Alta, tinha-se casado a minha Irmã.
Lembro-me das maçãs e da saúde do frio.
Abriram na terra uma estrada, que de terra ficou.
Recordo o padre a ladrar na igreja contra o 25dabril.
Houve um par de olhos azuis que usava o rosto de uma menina da minha idade para dançar no rancho.
Os burros trabalhavam como homens – e eram, todos eles (soube-o depois), o Platero de Juan Ramón Jiménez.
Depois, tornei-me igual aos homens que trabalhavam a terra e a estrada e a terra – e burro.



10

Neste meu pobre amor a Portugal
entram milionárias coisas como:

o céu lápis-lazúli da Figueira da Foz,
o milho inteiro nas eiras noites inteiras,
o passar do pitrolino na infância,
a muito provável senectude de amanhã, o mar vendo,
as mulheres ainda rolas e peitorais e bosquímanas,
a tabuleta a dizer que há telefone na aldeia,
o celibato essencial da vaca que dá o leite como a fonte dá água,
o rumor dos carros de madeira,
os homens também de madeira junto aos bois,
a inclinação pensativa das dunas,
os largos olhos-de-água dos arrozais,
o mar querendo-vindo-querendo-vindo conhecer a nossa terra,
os relatos iconográficos das santinhas que nunca – oh nunca! – foderam
senão a nossa paciência e o nosso azeite e as nossas caixas-de-esmolas
e os nossos casamentos celebrados à imitação
do mais popular canal de televisão,
as estátuas deste e daquele
quando afinal, ó meu Portugal,
Jorge de Sena e Aristides de Sousa Mendes
e o João Roiz de Castelo-Branco e a Luiza Jorge,
o paul de Arzila e a planura de Minde,
os homens que na rua param um pouco
para ser candeeiros antes do retorno
às casas em que se apagam,
as mulheres que refilam hortaliças e filhos
o dia todo antes do retorno
às casas em que se apagam,
os pescadores fumando sem-filtros sozinhos
no mar colectivo,
a ferida abrasiva da cal quando tudo se nos alenteja,
explicarmos a um inglês ou a um americano onde é Helsínquia
e o que é uma horta e Ruy Belo
e António Osório
(e Jorge de Sena e João Roiz de Castelo-Branco),
este bastar-nos uma piscina para oceanarmos Descobrimentos,
mas não só,
não só ainda que tão sós,
tão cus-de-judas,
tão emprestada ibiza sem marbella nem maravilha,

neste meu amor a Portugal
entra a ruiva fadiga do amanhã,
a nunca vista perdiz que D. Carlos I e Último,
mas o tão famoso Tejo e o pouco reconhecido Douro,
que Mondego é nome de cão.

Penso nos oleiros, eles fazem música com o barro
e eu em Portugal
estou em casa.