Monday, April 28, 2008

O VENTO SEMPRE ME EXALTOU ALGUÉM seguido de NARRAÇÃO DAS VELAS

The Fairy of Eagle Nebula



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TÁBUA

I. O VENTO SEMPRE ME EXALTOU ALGUÉM
Viseu, Café Mundial, tarde de 21 de Abril de 2008

II. NARRAÇÃO DAS VELAS
Viseu, tarde de 22 de Abril de 2008

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I. O VENTO SEMPRE ME EXALTOU ALGUÉM
Viseu, Café Mundial, tarde de 21 de Abril de 2008

I
O vento sempre me exaltou como por assim dizer um amor.
Mas os ventos e os amores não partilham sequer isso, pois podem os ventos ser, e são, plurais, o amor não.
O café do meu vizinho é de mesas de mármore.
Sento-me aqui a descansar o corpo e a cansar a poesia, chego cedo no dia, volto tarde do trabalho na noite, conversamos o meu vizinho e eu sobre coisas como o vento, sobre o amor não, naturalmente que não, ele tem cinquenta e tais, eu quarenta e picos, não é assunto para nós, já nos passou esse vento.

II
Se ainda amo algo ou alguém?
Sim, mas muito mais devagar do que antigamente.
Nem isso aliás tem qualquer importância.
Trazem isto talvez de bom os anos: a desimportância das coisas e dos alguéns, suas desvirtudes tão das nossas siamesas mais certas incertas certezas como as nossas concerteza.

III
Uma coisa simples para a vida quando a toma a noite, tão simples coisa, tão simples vida: um caldo, um cálido caldo pela ceia, um cálice de vinho, um casaco de lã para que o frio não morda e petrifique o corpo.
Não peço nem posso mais do que isto, avariou-se-me na boca um dente, está frio lá fora, um caldo basta à devida simplificação da vida.

IV
Como simples é cerrar os olhos ao diário outono do sono
e antes de adormecer ser alguém no inverno
o corpo porém entre uterinos cobertores de mãe
pronto para a viagem palavrosa em cerrado abandono.

Entre árvores homens penumbram áleas
mansões adensam o crepúsculo
aves muito brancas negrejam tílias
palpitam das tílias as folhas em fascículo.

Perto rumora um rio. Senti-o correr, plateia minha:
será já a água que corre nos sonhos?
Tristonhos não corram molhados bisonhos
tais sonhos de água chegada a noitinha.

Muito outonamos a vida. O mesmo ao sono fazemos jazendo.
O sono nos chegando a cegar não queira nos ele condenar.
Dormir sempre é um manso imitar
da arte da morte em parte chegando.

V
Já vi Lisboa já vi a vida
ávida idade vi já e vivi
agora quero chegar à despedida
devagar da vida qu’inda não parti.

VI
Não é já o medo
nunca foi
o medo de viver não é já o mais vivo medo
o morrer também não
que me lembre
nunca foi.
É o medo de ter sido sem ter sido
o de morrer sem ter vivido.

VII
Uma póvoa de modos me povoa
eu já vi a vida vi já Lisboa.
Sou um homem de certo destino,
que palavra é (Steinbeck) da escolha feita.
Sou o que em Viseu, à Rua Direita,
olhos olha nos olhos, a chuva a pino.
Futuros defuntos contemporâneos
alinham p’las ruas a vida igual
à de iguais vivos coetâneos
de norte a sul, em Portugal.

VIII
Mais curta é a eternidade
quão mor a idade
e esta daquela não espera
verão outono inverno primavera.

II. NARRAÇÃO DAS VELAS
Viseu, tarde de 22 de Abril de 2008

Não por mais do que nós remotos e mortos deuses
é jogado o que somos, mas por nós. Nós uns
contra nós outros, assim é. Somos
da viva pedra a morta sombra,
passageiros de cada eterna cidade, pois
a cidade fica, de nós se nutre e permanece,
não nós.
Pactuamos com a vida dela conferindo a tristeza.
O pão e o vinho na mesa, na rua sobramos
de alguma luz, cantoneiros do nosso mesmo
ambulante pó.
Quando o sol a uma casa amarelece de particular outono,
ou a outra azula a fachada de azulejos portugueses,
não nos é impossível sentir a beleza e a idade
sem temerosa efemeridade,
pois que belo é, por igual, o olhar
que belas vê ainda coisas em Portugal.
Quem diz aqui, como dirá em outros sítios?
Sabê-lo-emos nunca, que só nós somos
nos que nascemos onde morremos.
E das claras crianças penaremos se tornem como nós
em uma breve idade cuja brevidade
as roubará de si mesmas para sempre
até hoje.
Ainda hoje
estivemos entre nós e nos não vimos.
De um voo de pássaro cidades e aldeias
não vemos, também não.
Cegamos em quartos onde o linho alinha tranças de
desalinhadas avós, em salas povoadas
por retratos mais do que nós vivos, menos do que nós
remotos –e mais que nós deuses.
Vale-nos que entristecemos de mais puro modo
no sono, quando o outono
primacial da vida refloresta a ambulatória ramalhação do
dia,
sendo
noite
em nosso bosque.
Uma volta pela cidade ser-nos-á interior sempre,
jogadores que por dentro jogam,
astrónomos que só dentro a astros e estros buscam,
cançonetistas mudos na ruidosa antemão de comboios,
vedores do já-visto, do vivido-já.

Não mais do que nós podem os deuses o outono.
Civil é o paradoxo do nosso militar coração não
militante. A jusante como a montante, um
rio estivemos todos para ser – e margem fomos
de único lado. Aprendemos muitos, papagaios
de funerais, a repetir que a vida é pouca
e muita a morte, dois dias ela e o carnaval três,
de verd’ouradas penas papagueamos
a inconsútil certeza útil da rotina vital, da mortal
latrina a que, nos mortais restos, somos despejados
em boa paz de quem despeja
e não beija já, como despebeijámos,
a memória do nosso corpo, a trança
da nossa avó, a inclinação pueril de retratados.
Oscilam as praças e as ruas à cotação da chuva,
petrificam pombas pórticos e amuradas:
que tudo ande e nada se mova,
primaciais berços são finais ermidas.

Doura-nos a noite já de precifrontispícios.
Algoza-nos o morto da vida mais querido.
Se é ter nascido ter já fenecido,
olhos de fronte são frente de frontiprecipícios.

Uma palavra mais, poucos mesm’assim seremos
na pista do sal, sumidores de concentrado de tomate,
de peixe afiletado em lata, de crepusculares copinhos
demandadores do perdão de tão vivos ’inda sermos.
Uma palavra menos na circulação pedestre e podógrafa
entre automóveis e candeeiros, sonhando o cesário gás
das ruas e os cavalos eléctricos de um século mudado
em este, vejamos as diferenças nas palavras cruzadas.
É triste nunca abandonar a mãe, nem a casa da mãe,
nem os pessegueiros onde a chuva foi frondosa e quis à luz
fôssemos como ela e, como ela, magros e nus.
Também é triste ser português entre portugueses,
ouvi-los gritar como ventos e lobos e almas nas encruzilhadas
a Deus pedidas ao Diabo dadas. Sermos pátrios
quadrilátera-nos irremediavelmente – e no entanto
isso queremos fomos seremos somos. Não serenos.

Funda, funda é a condição do mal presidente ao bem passado.
Dançam os pobres nas datas festivas da pobreza.
Roubam das capelas o folh’ouro dos lateraltares,
mas nada impede o bem preso e passado ao mal presente.

Chuvas finíssimas expectoram cinzas nos aléns.
A meio termo, febris chaminés fumam a falência.
Não podemos não pudemos fazer nada, paciência:
sóis jubilarão datas por dois vinténs.

Não: deuses nenhuns – nem nós.
Possa o comércio manter vivas as ruas por que
um homem passe, convosco e sem mim, a caminho do fim
de todo o princípio que foi passar e ser com contra vós.

Eu também não podia não tinha já força
para ir resgatar-te à tua meninez
há coisas que ser não podem nem que se torça
no que será o que não é não vai ser outra vez.

Se eu pudesse iria à sombra de ínsuas
que tudo verd’ouram de águas chãs as meninices
buscar-te e, de arte, dar-te, de mágoas novas, suas
aligeiradas amnésias e criancices.

Não posso. Não é que tenha mais que fazer, não tenho.
Não tenho, aliás to digo. Recebo das fachadas a cor
que cinza é, me sobrepassa e subtenho
d’ambulações qual cada delas a menor.

Vale ser-nos o ouro a condição, embora breve.
Granitos marmorizam o memorizado.
O tom do fado deve ser leve, não pesado.
Não pesado o metal-ouro, mas leve.

Esse amor que só na pedra vinga.
Pinga a chuva corda a corda cordato amor.
Não seja a final data um estremor
mas algo que brev’embora ’inda seja.

Dos passos roxos de nossos pais sigamos
a praia efémera ao vento corrida.
Branquejam velas à despedida:
vida nos siga na que vivamos.

Um tempo na nossa cara nos não deslustre
há dias maus há dias meus há nossos dias vossos
é ser triste a condição lacustre
de quem sobr’águas sobrevive ossos.

Não passa longe da catedral
ave qu’eu não sustente a pão
negócio nisto é natural
migalha de carrilhão.

Sou naturalmente sou homem da praça
taça erguera se a tivera
a quem me dera mesmo por graça
um pouco ficar no tudo que passa.

Li há pouco tempo páginas de há muito
tempo escritas agora lidas agora passadas também
escritura e leitura e assim é a poesia minha Mãe.

Já não vou atrás dos gambozinos nem dos eléctricos
que pelo Palácio da Justiça guinavam amarelos.
Não meu é já esse corpo corredor alheio a promissórias.
Não meu sou já eu nem com molho à espanhola.

Meus são os crepúsculos aceites como azeites
mênstruos, astros dolorosodoceados de sangruras.
Aqui dentròlado a repartição das amarguras.
Para mijar, siga os enfeites.

Jogamos isto: uns, palavras; outros, outros ventos.
Todos temos momentos: mas sempre jogamos.
Nem todos velamos. Nem todos narramos.

Eu narro:
Era no tempo em que edulcorava conservante
o flúor do sol no mont’ocidente – e cabras
alegravam a castanho-negro a costa de espargos
e ouriços. Era, direi, 1968, vá lá.
Tudo era então maior do que o Tempo.
Devo ter visto velas, qu’inda hoje me lembro delas.
Dobrava o sino uma vida que depoisagora nem metade.
Mas nisto estou eu já hoje à vontade,
que me não sobra sequer metade do qu’inda dobra.
Era no tempo da senhora Teresa, suas filhas e galinhas.
Perdi uma vez vinte escudos a caminho de lhe comprar ovos.
Voltei atrás e reencontrei esse sant’antónio de vintes.
Milagre foi, primeira vez e derradeira, reencontrar o perdido.
Por uma dúzia de ovos.

Palavra da narração.

Palavra do Senhor.

Esta foi a narração das velas.
Outras se seguirão, antes
dadas à luz bruxuleada de um espírito que mais não quer
que homem devagar ser com palavras formosas e belas
e bonitas e tristes.
E bonitas e tristes e redactoras de um tempo nov’elho.
Há quantos anos quanta gente anda marchando velas?
Inês e Pedro entre elas, Coimbr’Alcobaça, 1361-67,
dois de abril vinte e cinco de janeiro.
Eu vejo vivo daqui grisas cinzas casas e aragens
e mais não posso dar que só tenho de meu imagens.
Não voltarei porém a velhos hábitos só a óbitos
morrer pode ser uma forma de viver mas por escrito
parece ficar o não-vivido nem não-dito por vividito.
Esta foi é e será a narração das velas.
Em podendo, quem puder seja como ela e elas.

ADENDA I – DESNECESSÁRIA ALIÁS – À NARRAÇÃO DAS VELAS

Imenso é o tempo que penso que não penso
ser necessário à adenda de poemas que nada adendam.
Imenso é o campo de laranjeiras como um mar
de ouro coruscado nos além-rios da água do olhar.
Imensa é a Língua Portuguesa, que tudo permite,
menos que lhe ensinem ortografia.
Nem filhacatedráticosdoutoputas.
Afirmativo. Escutas?
Os poemas portugueses do século XXI têm de querer
ser como os de XVI, os de XVIII, os de XX.
Os poemas portugueses do século XXI têm de querer.
Os poemas portugueses do século XXI têm de querer
ser portugueses.
Não têm de obedecer ao lobbyjudeupretobranco.
Não têm de ter conta no banco.
Os poemas portugueses do século XXI têm só
de ser poemas.
Têm, só, de aumentar a vida.
Como dantes será vivida.
E lida.
E o rubi carmim dos teus lábios
a teus dentes perlados encastoado
e os seios farfalhando lácteos outonos.
É mais por aqui
digo eu
que nada sei
mas sei
algumas coisas.

ADENDA II – DESNECESSÁRIA ALIÁS – À NARRAÇÃO DAS VELAS

O tempo pode trazer chuva
a chuva pode trazer tempo
imune estou já a quanto
há tanto me chove.

Não me chove há tanto já
o cheiro puríssimo da mercearia fascista
a que a bacalhau condenava
o tempo de comer a quem trabalhava.

Escusado dar por recusado o tempo
dos blogs das clicadiagonais leituras.
A merda era e é e vai ser: um momento.
As pessoas dão-se a ser oxiúras.

Quem lembra Antero (também nem tanto)?
Mas o Pessanha, quem lembra, quem?
Há ele Miranda e Sá e só portanto?
Quem lembra nomes a pai e mãi?

Mãe era antes assim escrita.
Hoje, por acordo comercial,
querem que a filha-da-pita
seja da puta, afinal.

E o rubi carmim dos teus lábios
a teus dentes perlados encastoado
e os seios farfalhando lácteos outonos.

O tempo pode trazer chuva.

ADENDA III – DESNECESSÁRIA ALIÁS – À NARRAÇÃO DAS VELAS

Os nossos deuses exercem mais sobre o preço do gasóleo.
Quem nos dera exercessem o preço da chuva.
Quem nos dera não vender a alma em livros
que aliás ninguém compra: quem dera os deuses das velas
não terem inventado nem o download
nem a puta damérica.

Os nossos homens exageram os deuses.
Moro bem ao pé de sucessivas catedrais.
Rezam uns de unos outros de corsas.
Mercedes também mas os opéis são bem mais.

É o geral reino da estupidez.
Acreditam em Deus mas bem mais do que os demais.
Aparece a de Deus mãe ’ma senhora vez.
Em maio abris não abres mais.

É o treino do poliglidiota.
É o toyno do carreirimigrante.
É o pobre do Camões: qu’é que foi isso no olho
do cu?
Sou eu e és tu.

É o país das velas minha confissão.
É o país das velas em auto’xcomunhão.
Morreu o cónego Melo, mas há quem leia Ruy Belo?
Morreu o País em não extrem’unção.

Cristo também já morreu há bués da taime
– e nada com isto teria ele, Cristo, a ver com mais nada.
Remotos os deuses, remortos pela calada,
ó meu Senhor Cristo, descei e calai-me.

AGORA UM PORMENOR – UM AZULEJO DA AVÓ QUE NÃO DEIXOU TRANÇA

A face dela morrendo-se viva
e dele o tempo morrendo também
a face do pai a avó sobreviva
e o caldo de lumes lareira de mãe.

A infância dele que eu nunca tive
mas teve quem vive de seu pai também
já da mãe do pai nenhuma e do pai e da mãe
não vive mas vive mas não vive mas vive.

Princípio do séc’lo. ’inda mal a República
tem pernas a andar coisas a fazer.
Eu de minh’avó não sei mata púbica.
Sei só qu’ela andava coitada a ter

filhos do meu avô, condutor de carros
eléctricos do séc’lo mal iniciado.
Na rua tossiam vermelhos escarros
os tísicos menores do menor luso fado.

1880, ele. Ela, não sei. Talvez pouco depois
ela fora nascida p’ra nascer de novo outra vez.
Teve um filho e mais dois
mais cinco e depois uma mais novinha
que morreu no berço, coitadinha.

Depois era uma vez um homem uma voz
não por mais do que nós antes depois.

Nenhum deus.
Tantos deuses e nenhum deus.
Tenho de fazer coisas antes de desaparecer para ser.
O meu avô fez uma casa e filhos.
A minha avó fez filhos e uma casa.
Tudo é tão diferente na ordem sintáctica.
Tudo é tantos deuses na nossa casa.
Tudo é tanto perder tanto ganhar
se souberes escrever.

Escrever poesia é mandar cartas aos mortos.
Os mortos não sabem ler.
Os vivos fazem-se de mortos.

Mas – e os frios?
Mas – e a lenta combustão?
Nenhuns deuses, nenhuns rios.
Nenhuma perdissalvação.

Eu fui a um monte, fazia frio.
Cheirava a espargos, meu breve tempo.
Era a minha vida, era um momento.
Momento-monte, fazia frio.

Depois quero deitar-me.
Tenho vida já, já vida palavras.
Eu era um menino de palavras.
Vi meninos deitados na permilagem, quis saber.

Quando eu era menino, os meninos morriam de permilagem.
Vi-os deitados em caixas brancas, as asas encolhidas.
Tive de aprender a escrever para continuar a vê-los a velas.

Revoadas de crianças não ocorram à lembrança
que ocorrer é coisa não de tempo mas de criança.

Ninguém mais ocorrerá. É o tempo
de nenhum tempo, nenhuma mais alteração.
Também quero deitar-me.
Pode ser no monte
perto da casa da senhora Teresa.

Palavra do Senhor.

Thursday, April 24, 2008

Duas Crónicas - uma com PSD e outra com Salgueiro Maia


A partir de hoje n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt) e no Região de Leiria (www.regiaodeleiria.pt)

Comparações quase revolucionárias mas só quase

Não sei com que mais se parece o PSD do momento: se com uma mulher mal divorciada, se com o actual Boavista Futebol Clube.
A comparação com a desquitada é gira e triste: o partido fundado por Sá-Carneiro, Pinto Balsemão e Magalhães Mota (des)comporta-se hoje como uma mulher descompensada que, louca de amores e desejos pelo ex-marido (o Poder), vai queimando tempo, dinheiro e os últimos laivos de juventude com namorados fraquitos de corpo, débeis de vontade, anémicos de alma e descartáveis como pontas de cigarro em bar de não-fumadores.
Já a comparação com o clube axadrezado é gira e alegre: o que falta ao PSD do momento não é a senhora Ferreira Leite, nem o senhor Aguiar Branco, nem o senhor Passos Coelho, nem o senhor Rui Rio, nem o senhor professor Patinha, nem, muito menos, o clone íncola de José Sócrates, o senhor Santana. Eu sei o que falta a este PSD: é um “investidor” como o que o Boavista ia arranjando para retalhar, mais ainda, a sua manta. Sim, aquele rapaz estranho chamado Sérgio Silva que gastou os seus 15 minutos de fama a escrever “balor” em cheques mais descobertos do que as searas alentejanas.
A Laranja amargou a pontos impensáveis. O País também. A Rosa, símbolo que mal disfarça um punho direito fechado, invadiu tudo o que era, ou estava para ser, do âmbito social-democrata: o clientelismo, o carreirismo, o aeroportismo, o têgêvismo, o acordortografismo, o mariadelurdismo, o asaeísmo, o inemismo, o socratismo (versão rosa do santanismo, mas em sério).
E agora? Não me perguntem a mim. Se eu soubesse, diria. Mas é que não sei. Vai ser 25 de Abril outra vez e eu para aqui sem saber com que se parece mais a revolução cujos cravos deram rosas em vez de pão, como a Rainha Santa: se com uma mãe de mulher divorciada, se com o pai do João Loureiro.



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Salgueiro Maia Sempre


Há trinta anos, vi um homem no centro de uma praça.
Era o que se chamava uma figura de homem: um corpo maciço pedestalizava um rosto franco. Os maxilares emparedavam a firmeza da boca, essa porta sob um olhar de janelas. Cabelo militar, braços amplos em cujo amplexo uma arma podia parecer uma guitarra. Mãos firmes, dessas mãos que tomam para libertar, como as mãos dos músicos. Atrás e perante esse homem central, milhares de figurantes armados aguardavam. Todos tinham a boca seca de expectativa. No centro da praça, no exacto centro da multidão, o homem avançou. Avançou só, como é da vida. Dirigiu-se ao comandante do outro lado. Disse-lhe poucas palavras: as suficientes, as definitivas.
Em torno, o tempo tinha parado: era a eternidade. Por acção desse homem, o sangue não correu para fora dos corpos que esperavam atrás e perante ele. Mercê das palavras do homem, as armas já eram guitarras.
A praça dava para um rio. Também o rio tinha parado, também o rio esperara as palavras do homem. As palavras do homem disseram ao rio que seguisse para o mar. E o rio seguiu para o mar. Havia uma quantidade extraordinária de cravos cor de sangue justificado pela antiga ânsia do mar. No interior das hostes, o rio de sangue era uma profusão de cravos. Bandeiras falavam ao vento multitudinário.
O homem estava vestido de verde. E sangue lhe corria dentro: ele próprio era um cravo. Não posso esquecer isto. Eu tinha dez anos. Foi a primeira vez que vi um homem. Quis logo ser como ele. Tenho tentado.
Com o correr do tempo, esse outro rio, conheci outras gentes, assisti à eternidade de outras praças, soube de outras flores. Tenho algumas fotografias mentais para vos mostrar: a papoila acesa na pastagem; a harpa inconsolável da chuva; uma gaivota de Peniche; uma mulher cercada de filhos como uma oliveira de rebentos; um nadador que se suicidou na América junto a um livro aberto de Álvaro de Campos; a condição imperial de Beckenbauer; o meu professor Elias Faro instituindo a Primavera com uma palavra dirigida aos olhos; um homem falando sozinho numa estação de comboios; a gola de renda de uma morena no Jardim Botânico; uma cadela amamentando um gato; uma chávena almoçadeira debruada a filete de ouro; um livro de Camus lido na sala de espera do dentista; os joanetes do senhor Damião d’A Brasileira de Coimbra; as noites perfumadas de fruta de Alcobaça; os olhos do Adelino; a mercearia da senhora Albertina, em cujas arcas de cereais eu mergulhava os braços avulsos; a enorme cama de ferro onde a minha tia Maria expirou como uma miniatura; a colher de óleo de fígado de bacalhau; o ano em que o União de Coimbra subiu à I Divisão.
Mas no centro desta praça mental, no cerne solar dos dez anos de idade que há mais trinta tento manter, está aquele homem. O nome do homem é Salgueiro Maia.
A verdade é que todos os homens verdadeiros se chamam Salgueiro Maia.
Salgueiro Maia sempre.



Wednesday, April 23, 2008

Aviso

Aviso que amanhã ponho aqui uma data de versos.

Tuesday, April 22, 2008

CARTA A ISABEL LACEDEMÓNIA ASTRA DE ARAGÃO, UM DOMINGO


Viseu, tarde de 20 de Abril de 2008
(fotografia de 19 idem)

Estou fechado, Senhora, dentro do século XXI, não era este o que queria. De quantos passados é feito um único futuro que seja veramente único? Um homem habita-me – estranho animal corredor de ventos, devassador do corpo interior do meu corpo. Se, Senhora, vos escrevo, mais não é que por causa disto – o eterno domingo inclinador de árvores. Recentemente, inauguraram por aqui um centro comercial gigantesco. Rebanhos domésticos, uns dos outros clonados, hordam pelas galerias da megavantesma. As crianças salivam perante electrónicas pueris. Raparigotas e rapazelhos esvaziam a língua portuguesa (a mais estrangeira língua deste país irremediável) de boquinhas-de-cu-de-frango coladas aos tele-imóveis. Autarcocós de outras bandas vêm cuscar o progresso daqui. Estou fechado dentro deste século, Isabel, Senhora. Serei uma espécie de periquito armado ao lírico entalado numa gaiola secular sem culpa nem inocência. Tornei-me um desses homens cuja solidão escurece os domingos pelas margens do rio, pelos parques desertados de crianças, pelas praças que os pombos fervilham de vida alimentar. Estou sentado no meu coração – e tenho de aceitar o meu segundo e último século. Isabel, Senhora, que quer da vida aquele homenzinho ali que raspa a raspadinha com a colher da bica? Que pensa aquela velhota ali de ricaça toilette cuja ida ao cabeleireiro lhe resultou numa granada de laca? Que penso eu? Que quero eu? Passo a enumerar: quero os meus olhos habitados pela água do mar, ’inda que seja preciso chorar; penso que as grandes alegrias, como os grandes vinhos, são para ter com os outros. Sim. É isto. É isto sim, Astra de Aragão, demónia Lacedemónia do meu coração. Também é o desejo vão de não amargurar-me por ninharias. Mas este pobríssimo homem que pela cidade teleporta o azul tristíssimo dos olhos, este pobríssimo homem esmigalha-me o coração em miríades vítreas, em irremediáveis estilhaços de joalharia. A tristeza deste homem é tão formosa quanto a vida: quanto, digo-vos, Senhora, a da tristeza da vida. Estes homens traspassam os séculos. Estes homens azulíneos e pobríssimos são toda a humanidade. Sinto-os como peixes de liceu no frasco de éter da miséria. Eu vou ser um deles: serei formoso, ao menos – e azul será o meu olhar castanho. (Não o podeis ver, Isabel, mas entre linhas reclinei para trás o corpo, quis ver e só vi palavras. Escusar-me-eis tanta cegueira, que aqui e ali pode ser formosa, ela também, esta carta.) E vós sereis todas as mulheres – posto que nenhuma; e, como todas, formosa. O raça do homem mandou vir outra raspadinha, teve a mesma sorte da primeira – como acontece aos mais promissores casamentos. Agora reparo que a velha lacada jasminou de bâton as beiçoletas engelhadíssimas. Deve ser católica não muito praticante: com tanta idade e tantas tintas, deve, Isabel. Vós, Senhora, não: nem católica nem de idade alguma senão da minha. Sereis, talvez, Senhora, Isabel, o tal homem meu habitante, andrógino ser sustentado a proposições vocativas e a empadas de galinha. É domingo: é tão domingo, Isabel. Pelas ruas passa o Tempo a si mesmo seus desertos, sua longa lei inexorável, seu ganho de perdições, seus romances de ninguém. Pelo chão cuspido da gare rodoviária, rosas escarlatam o vento motriz. Churrasqueiras carbonizam aves indefesas. Dobra por nós o domingo seus sinos, suas mínimas mortes decretadas a carrilhão. Sabe-nos a boca a bronze, a ar frio, a pombas e a pão. Cheguei aqui oriundo de uma ginástica de velhos, um deles até já morreu e não pode, derivadòfacto, ser responsabilizado. Tantas possibilidades numa, Senhora, carta: tantas mais que as da vida, Isabel. Jactanciosa fonte de água pulverizadora. Uma terceira raspadinha. E uma empada de galinha. E o tempo domingando as ruas, defecando cinza, falando no vento húmido. Não este é o vosso, Senhora, século. Vestis-vos com a minha alma e tendes frio: clorofílico pranto de salgueiros inêsdecastrais às águas do tal rio de tais, este, homens pontuados a solitário negro: corredores animais do vento: frio tendes: escurecedora, Vós também, de domingos. Passa um casal antigo ao olhar. Vejo-os, Isabel, demandando o cristal: umas palavras preparando o chá, a tosta mal de manteiga molhada, os suspiros involuntários do fôlego do coração, a roupa muito lavada, a passagem deles: o passamento. Habitamos óbitos, não obituamos hábitos: os casais sábiantigos que não se arrebanham na visita dominical (olhai a rima) à nova megavantesma comercial. Tudo o que quero da minha epistolografia, Aragão, é uma produção de clarões. Passo a enumerar: a suspensão de veado, cavalo e D. Fuas Roupinho à beirabismo do Sítio da Nazaré; a borracha vulcanizada do sorriso da velha granadeada a laca; o par-de-mamas da brasileira-de-Avintes cujas cascas vaginais dariam para três marisqueiras ou mais; o azulejo embaciado do domingo; a morenidão da catedral; uma raspadinha sorteada de que vós fôsseis o prémio; uma carta contente. Aproxima-se o amor de um homem como um pronto-socorro do acidente mortal. Versos tombam à mesa desse homem: anteontem de mármore; ontem de madeira; hoje de vidro quebrável como o coração. Vai chover, Isabel. Sinto-o nas pedras. Conheço este rumor: é o sangue do Tempo: chama-se água. Meia-dúzia de moedas nos bastariam para um bife mal passado como todos os passados – e os futuros todos. Numa estalagem de mala-posta, uma perna de carneiro, uma pratada de ervilhas, uma posta de bacalhau, uma pratada de grão-de-bico, um elixir tinto e marrão. E o nosso amor subido ao quarto do primeiro andar, como agora nos motéis que americanizam os coitos, a imitação do amor. Nomear-vos bastou a quanto domingar me queria, ó Astra, uma carta escrevendo. Há futebol na televisão mais logo, os maridos mais discretos velarão do sofá seus clubes, também só lhes faltarão, a meias com as mulheres, vinte anos de prestações ao banco, os filhos e as filhas já exigem tele-imóveis, ipods e não-podes, o diabo. Estes abris de agora é que não já, Isabel, são o que antes me foram – quando nem cartas escrevia nem a isabéis me dirigia. Tenho uma enciclopédia britânica em casa, é uma data de volumes para tantas tão voluminosas datas, às vezes abro o XIV ou o VII e digo-me: – Mas foda-se mas foda-se o quèqueu fiz da minha vida? Fiz cartas. Esta é uma delas. Preparo uma também para o senhor Rui de Moura Belo, que pôs y no próprio mas foi belo. S’eu ainda fosse angariador de seguros, poderia incomodar mais pessoas ao domingo sem ser com poesia. Nos planos de poupança-reforma, por exemplo, o segurado nunca deve entregar à seguradora mais do que o abatível anual para IRS, mas vós, Isabel Lacedemónia, móniamóniademónia, nem necessidade nem cessação nem idade tereis de saber, para quê.
Despeço-me na certeza, aliás prévia, da V. melhor atenção para os actos, que nenhuns factos, expostos. Com amor, apesar do século corrente, corredor.

D.

Sunday, April 20, 2008

Voz para Vós

TÁBUA

I. CHEGUEI PELOS TRÂMITES DA ALEGRIA
Viseu, fim da manhã de 19 de Abril de 2008

II. PERANTE MULHER COM BOLETIM E CHÁVENA
Viseu, tarde de 18 de Abril de 2008

III. RUMO À MARISQUEIRA
Ibidem

IV. ISTOS
Também

V. NENHUMA25VIDA
Mesmo sítio, mesma tarde

VI. TEMPO DE TEATRO
– DECLARAÇÕES UNIVERSAIS DE UM HOMEM DIREITO
(UM HOMEM OU DOIS)
– para ler por dois (ou um só, tanto faz) leitoractores
Viseu, entardenoitecer e noite de 19 de Abril de 2008



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I. CHEGUEI PELOS TRÂMITES DA ALEGRIA
Viseu, fim da manhã de 19 de Abril de 2008

Cheguei pelos trâmites da alegria
a estas ruas sobre que tanto graniza
ruas da negra manhã do meteorológico boletim
e trago comigo a alegria rediviva
minha pobre Mãe pobre
rica tanto de quanto te amamos
nós
os que para as ruas de chuva a Senhora soltou
de seu vivo útero de cor grená.
O rapaz míope serve-me uma taça de branco
o senhor da loja das camisolas pensa à porta na vida
somos três a não ter ido para os mares do norte
Viseu, um sábado.
Comemoro ó Senhora minha Mãe os meus trâmites.
Já não devo nada a ninguém.
Devo satisfações à minha mulher, à casa que fazemosvivemos.
Chove muito negramente lá fora cá dentro
um dia me acercarei do para onde a Senhora vai
perfumes de broa de dálias de farinheira chegarão
a nossos defuntos narizes estou certo que chegarão.
Tenho uma mulher, Senhora Mãe.
Ela organiza os móveis, põe-me pão velho
no saco para as pombas.
Tenho meia-dúzia de amigos dispersos pelos ventos.
Vulgar saudade tenho das infâncias múltiplas da velhice
do senhor Fernando Duarte de sua esposa Dona Alice
octogenários como a senhora, Senhora Mãe.
Ando por estas ruas de casaco castanho.
Sou um corpo gramático quilogramático fotogramático.
Tenho uma língua na boca uma Língua no coração.
Sou um português à chuva pelas ruas, é sábado.
Pode ser tão triste, estar vivo.
Pode ser tão triste, ser português.
Eu estive voluntariamente na praia, paguei e fui.
É provável que nunca tenha voltado.
Eu não sou um caso especial.
As pessoas sentem-se.
As pessoas dão-se a cizânias.
Esta mesa é de madeira, alguém cortou uma árvore
para que vos pudesse escrever, que é dar-a-ver.
Uma divorciada fuma cigarros de mentol.
Os loucos recuperam pelas ruas a Idade Média de Viseu, Lisboa.
Senhora Mãe, como sabe, uma pessoa.


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II. PERANTE MULHER COM BOLETIM E CHÁVENA
Viseu, tarde de 18 de Abril de 2008

Perante esta mulher vos digo que não é vossa
nunca mulher alguma é tão pouco nossa
como qualquer mulher. Não ao homem é dado ter
obter pode ser que sim mas ter não uma mulher.
Olho esta como quem sem bilhete fica à porta da festa.
Ela surge toda ao mesmo tempo como por assim dizer
um cavalo lavado que a chuva toca mas não pode tolher
sequer molhar. Gosto da presteza com que cruza
rápidos números no boletim dos eurotostões.
Como desenvolta apruma à boca a bica
e fica de mão no ar ebúrnea e vítrea e vária
de quantas iguais já vi em anos de diversos
versos.
É de tarde chove muito e muito foi o que ontem
trabalhei como aliás hoje também.
Sosseguei-me aqui escapado ao que chove
as coxas das calças húmidas os lamentáveis sapatos
e o cabelo curtinho e molhado como pêlo de ratos.
A esta como a nenhuma vai homem algum apanhar
lá vai uma lá vão duas três pombinhas a voar
a homem nenhum é dado mais que alguma frequentar
estar é que nunca ser e ter muito menos. São como as casas elas
muitas salas muitos quartos muitos ameaços muitos partos
mas um homem sai por onde entrou
e é sozinho que fica como elas sós,
como só elas sabem assim levantar café e mão
num gesto da mais pura depuração.
Concorrem ao eurotostões por desfastio
previnem-se sempre de roupa para o frio
que a vida faz e são tristes construtivamente
como nós homens não sabemos consecutivamente.


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III. RUMO À MARISQUEIRA
Ibidem

Teremos ainda se não juntos ao menos ao mesmo tempo
alguns setembros. Julho não que os ardi todos na infância.
Importa nada que esquálidos nos sejam os corpos
ao vento levados e lavados e trazidos a vento pelos areais.
Que tudo quanto nos desejo é um pouco de dinheiro
tal que visto cheirado sentido o mar recolher nos possamos
a uma marisqueira onde nos sirvam
algum pescado perfumado de orégãos
algum caldo com coentros
alguma da serralharia crustácea
de fins de domingo fazendo frio já apesar de setembro.


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IV. ISTOS
Também

Isto a que chamamos amor
fotocópia é do que desejamos
a nossa senhora mãe a nosso pai senhor
como deles provimos a eles voltamos.

Isto a que chamamos pensamento
surdo cinema mudo é que não muda
sequer um segundo do mundo por um momento
mor agonia sem mor ajuda.

Isto a que chamamos casa
e abandonar temos como a cães
e a mortos próprios à brisa
e a rimações outros alguéns.

Isto a que chamamos viagem
em tela negra tão total
que do nascido a mesma imagem
reduz projecta Portugal.

Isto a que chamamos lar e eira
este vento fresco na oliveira
esta avó morta ’ind’ à lareira
a vida toda a morte inteira.

Isto a que chamamos bailarina
curva porcelana sem fabrico
meio estatueta meio menina
ela fica eu não fico ela fica eu não fico.


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V. NENHUMA25VIDA
Mesmo sítio, mesma tarde

Nenhuma vida nos perdoará não termos vivido-a.
Bebido-a que seja ou fosse ou fora ou não tenha sido-a.
Nada nem ninguém nos perdoará nós não.
Um vento atravessa a sexta-feira: e nós, então?

Pensa nisto comigo. Isto é o lápis de um menino chegado
ao cais. Pensa os barcos que os meninos vêem de longe.
Pensa na outra banda, a d’além, onde laranjeiras e gado
são sempre além, Mãe, são sempre além.

É o tempo agora – e corre curto, o cabrão.
É o tempo das flores, das ainda-retrosarias
onde comprar o floral elástico
p’ra cuecas de nossas marias.

É o tempo da liberdade toda
o tempo da madurez pré-podridão.
Não é de baptizado nem de boda.
É tempo de não dar tempo à servidão.

Modos que 25dabrilsempre.


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VI. TEMPO DE TEATRO
– DECLARAÇÕES UNIVERSAIS DE UM HOMEM DIREITO
(UM HOMEM OU DOIS)
– para ler por dois (ou um só, tanto faz) leitoractores

Viseu, entardenoitecer e noite de 19 de Abril de 2008

Sou como vós da pátria da noite
da pátria da noite sou como voz.
Ando pelas ruas tiro palavras vivo discretamente.
Sou o homem que é educado ao balcão.
Sou ao balcão o que não ladra nem morde.
Tenho uma colecção muito particular muito jeitosa de filhos-da-puta.
Gosto de comentar a chuva com as mulheres velhas.
Gosto de indignar as pombas chamando-lhes galinhas bonitas
galinhas lindas.
Sou por assim dizer um coirão.
Transporto um pénis um coração um risco ao lado.
Não sou um caso especial.
Também não sou um filho-da-puta
excepto quando é preciso
já tem sido e portei-me magnificamente.
Gosto da redondilha maior.
Da menor também gosto mas é mais difícil
eu acho.
Há versos que ficam dentro de mim.
São versos que me vêm de fora.
Sofro mais do que o meu corpo.
Gosto de alguns vivos falo para alguns mortos.
Às vezes olho-me a mão esquerda como se fosse doutra pessoa.
Eu também sou doutra pessoa.
Eu ando por aí e digo.
Nunca vou desistir vou só cansar-me.
Durmo entre pinheiros numa orla de barragem.
Sou o irmão mais velho dos meus sobrinhos
o tio mais velho das minhas filhas.
As palavras contam-me segredos irrelevantes.
Sou triste mas gosto de fazer rir a rapaziada.
Uso asas nas costas quando digo obscenidades.
Transporto um pénis não é obscenidade.
Faço como vós amor nos sofás que posso
posso e faço amor como vós.
Este é dos tais poemas que nunca leria à minha Mãe
nem à minha Irmã(e).
Não tenho ilusões versos são tintadechinesices.
Tenho sábados domingos não tenho ilusões.
Às vezes há vozes.
Às vezes chego a casa com um poema.
Chego a casa com um poema leio-o à minha mulher.
A minha mulher olha-me a boca como eu olho
a minha mão esquerda
às vezes.
Eu agora não sou um menino sou casado tenho uma gata.
Parte do orçamento familiar é minha responsabilidade.
Eu tenho de fazer isto até o fim da vida.
O fim da vida pode ser pode não ser hoje.
A desimportância disso é um caso pessoal.
Não digo um problema digo um caso digo pessoal.
Gosto de ser educado aos balcões.
Há balcões que me conhecem.
Também só venho quando tenho moedas.
Nem sempre tenho moedas mas as palavras não me faltam.
Daqui vejo a plateia vazia esplanada.
Explanada para nada.
Vivo no corredor dos ventos.
Sou como vós um corredor de ventos
corro os vento como voz.
Já andei tão sozinho como um cão à chuva.
Vi o sol em adros de igreja olhei os campos.
Olhei os lírios do campo fui o sal da terra.
Retinei visões de animais caleidoscópicos.
A lição das estrelas é fria e exacta e correcta.
As estrelas desenham grandes animais.
Nem sempre cedo à tentação das rimas.
Um trecho de rio é quanto me basta para livro.
Todas as letras de rio estão na palavra livro.
Muitas cidades uma só as nossas vidas.
As nossas vidas um dia retratos.
Um dia estas praças sem nós.
Tenho uma opinião respeitável sobre a situação política.
Como poucas bolachas sonho com campos de trigo.
Sofro amores irredimíveis invencíveis.
Olho uma parede vejo vozes nas paredes como retratos.
’inda hei-de ir aos cornos a este e àquele gajo.
Fá-lo-ei delicadamente.
Fá-lo-ei até com pena. Fá-lo-ei.
Tenho uma força que o Tempo cinzentará.
Sou o vosso homem hoje não é o guimarães-marítimo
é o marítimo-braga.
É sábado é a pátria nocturna do sábado.
Antes de almoço caiu granizo pedra saraiva.
Comentei a queda com mulheres velhas.
Olho-as acho-as a minha Mãe repetida.
As mulheres velhas gostam de falar comigo
acham-me parecido com os homens dantigamentedelas.
Eu sou parecido com antigamente.
Uma vez falei com um homem antigo.
Ele percebeu que eu queria falar com outro século.
As mãos dele eram de casca de árvore.
Ele ramalhava.
Ele tinha comprado uma folha de mármore para a mulher.
A mulher tinha-se-lhe ido. Ele nas pastelarias
olha o jornal sem ver.
Ele sabia mais nomes de ruas de mortos do que eu.
Eu nunca vou ser como ele quem tem de comprar
o mármore é a minha mulher conto com isso.
O marítimo ’tá a dar quatro-a-um ao braga.
É de noite sinto-me patriótico vosso compatridiota.
Esta é a minha vida. Gosto de favas.
O meu irmão gostava de favas já não gosta.
As pessoas têm muito a mania de não
gostar de favas quando morrem
as pessoas têm muito a mania de morrer.
As pessoas nem sempre têm a mania de viver muito.
Eu lembro-me homens adoçados pelo pôr-do-sol
trabalhavam muito nas fábricas nos campos
pelo pôr-do-sol regressavam como animais cansados
cansados mas vivos cansados mas adoçados
pelo pôr-do-sol era na minha infância
eu sempre vi homens eu hoje vejo retratos.
Este começa a ser um poema que eu leria à minha Mãe
e à minha Irmã(e) também.
Estou numa cidade feita de pedras devagar.
Se um filho-da-puta me abordar (tentação da rima)
parto-lhe ambos os cornos um com cada mão
nem que seja meu irmão.
Não há outra loucura nisto que a da vida.
Chove tanto hoje velha senhora Margarida.
Comprávamos ovos à senhora Teresa.
A senhora Teresa era uma mulher de duas filhas viúvas como ela.
Tinham reformas vendiam ovos bebiam chá devagar
olhando o monte o meu monte o monte onde deixei
a pele da infância.
Comecei a gostar de livros por me lembrar de mulheres.
Não eram mulheres. Eram senhoras.
Comecei a escrever livros quando mudei de substantivo.
Eu agora faço falas para vós.
Eu agora faço falas para voz.
Tirando os filhos-da-puta ninguém também
vai andar por aí a fazer-me dizer-me mal.
Eu já tenho versos já sou citável e o caraças.
Há pessoas que se metem comigo por computador.
Um escritor inglês esplanava as mãos muito brancas em tampo verde
de mesa de jogar às cartas.
Nem caderno nem caneta só as mãos muito brancas na flanela verde.
Disse eu assim para mim quero ser assim.
Quero umas mãos um tampo verde um tempo.
Quero dormir dentro quando estiver para morrer.
Uma orla de barragem uma sombra de vetustos pinheiros.
Estou a falar contigo.
Fora de nós os nossos olhos-nos-olhos.
A minha cara aproximando-se de retrato.
As velhas senhoras cheirando a continente.
As velhas senhoras cheirando a incontinente mijo de velhas.
Os retratos juvenis para sempre das minhas filhas e das vossas
e dos meus sobrinhos.
Calma.
Ainda posso possuir devagar certas porcelanas
esses objectos que são a família em vez dela
nas mudanças de casa nos tropeções da vida
nos anos atirados fora como cagalhões.
Este é o meu tempo. Pertenço-lhe. Faço
falas para vós para voz de teatro.
Ainda há tempo. Cuidai das avenidas
ao domingo quando a oblíqua luz
vos trestraspassar o coração
esquecei não o pão para as pombas galinhas bonitas
galinhas lindas.
Depois fecharam as fábricas desempregaram os homens
da minha infância.
Viviam calados frente à mercearia.
Olhavam para a vida como pedintes.
A Pátria existia mas não era nada connosco.
Eu fui para a universidade aprender a lamber merda.
Não lambi.
Vim para aqui fazer versos para vós
vim para aqui fazer versos para voz.
Escrevo versos em cafés tutelados por
putas brasileiras de acrílicos colãs.
É Viseu faz-se noite.
Todo o mundo é Viseu todo o mundo se faz noite.
Sou como vós. Sou como voz.
Devagar. Sou como. Como sois?

Friday, April 18, 2008

Pastor de Crepúsculos



Viseu, manhã de 18 de Abril de 2008


I. ONTEM À NOITE

Nada sei de ontem à noite.
Que ontem, que noite?
A nossa vida é tão capaz sempre de não saber nada.
Tão capaz de desconhecer ontens, noites, noitontens.
Pelo chão da rodoviária um vento arrasava arrastava
rosas e rosas e rosas.
Pareciam papéis vermelhos, peixes escarlates
levados pelo vento varredor ao chão de escarros e manchas de óleo
infecto.
Foi isto ontem à noite?
Não sei. Nada sei.
Levanto-me da cama, visto a mole armadura, ponho
o capacete de folhas de oliveira e saio
e entro no túnel dos dias
e sofro pequenas felicidades divisíveis em versos.
Isto é muito à base de imagens.
A chuva fechou o mundo no mundo.
As cadeiras das esplanadas à chuva entristeceriam se pudessem
como nós
dar-se a esse luxo de pobres: a tristeza feliz
de ver chover.
As entradas e as saídas da cidade já fervem
de metálicas moscas ligeiras pesadas, os olhos ligados
como se fosse de noite
e é:
a chuva anoitece as manhãs,
só as árvores e o rio a bebem.
Nos meus melhores anos, fui tão sedento quão
ele e elas,
rio e árvores.
Hoje
(mas que é hoje?)
a minha boca encaixa a prótese dentária
os lábios são-me rebordos de cinzeiro,
as palavras não me são água já
mas torrões de pó, nem pedras sequer.
Só os olhos resistem.
Não os que para fora olham
mas os que por dentro fitam miram manam arrasam
arrastam rosas rodoviárias por gare cuspida e oleada.
Ontem à noite
terei dormido na fímbria de pinheiros
da orla da barragem.
Terei caído subido de peito na constelação
cimàbaixo da minha condição,
à vossa idêntica por natureza.
Cerrei para fora os olhos: e as maravilhas
brotaram de dentro: gramáticas, fotogramáticas,
imparáveis, aladas, plumíferas e plumitivas e desasadas:
e tão antigas.
Muitas imagens de redactora natureza.
Não preciso de uma rapariga ao canto do café
tomando chá pensando na vida
para ver a rapariga ao canto do café
tomando chá pensando na vida.
Na noite acumulo ontens, esse hojes vorazes,
rapidíssimos, perpétuos.
Imagem da mulher viúva do comendador.
O município mandou fazer um busto do grande falecido.
A cabeça do comendador ao alto da pilastra
como a cabeça de S. João Baptista ao alto da bandeja.
Toca a banda, ora o presidente, depõem rosas.
A multidão mínima vai-se embora, fica ela.
A viúva olha a cabeça do comendador, fala-lhe:
Noites e noites de frio, dias e dias de chuva:
mereces tudo isso para sempre, meu filho-da-puta
.
Estas imagens na cabeça: somos, também,
bustos de nós.
A nossa cabeça emoldurando pelas ruas o nosso rosto.
O nosso rosto pelas ruas arrasando arrastando os nossos olhos.
Eu vogo pelas ruas o meu século XIX pessoal.
Mal vejo os carros, o que é delicioso perigo.
Ilustro a insuficiência da vida com gravações:
sons, desenhos a aparo de ferro, versos e versos e versos.
Talvez eu seja tão feliz quão um pássaro alto.
Entrei nisto adentro, neste casaco castanho, neste homem adentro.
Levo comigo os meus: irmãos nas mãos,
os meus homens colhidos e colectores,
cobradores dos meus impostos
dias.
Menos sei do que anseio.
Tento escrever a música imaginosa:
o rápido passarito aceitando-me pão como se mo roubara;
a mulher cambaleando na ponte de pau, pesam-lhe os cestos;
o aborigenismo insolente dos ciganos;
o cavalo solitário no baldio tasquinhando a rala erva;
o dramatismo sossegado dos cafés vazios;
o jornal oblíquo nas mãos do cavalheiro vertical;
a neve respiratória das fontes;
as datas que inscrevem os prédios na eternidade fora das pessoas;
Maria concebida sem pecado original para Portugal;
as estátuas discursando o alto silêncio da Língua;
o café do teatro com falas de serradura pelo chão;
as rasas rosas rodoviárias de vento varridas;
as nossas vidas.
Reverei hoje (mas que é hoje?) o rio.
Ontem serei.

II. HOJE DE MANHÃ – 1

Hoje uma folha de mármore é o tampo da mesa,
amanhã outra de igual pedra será o tempo.
Consolam-me as certezas inadiáveis da vida e da morte.
Gosto de escrever sobre mármore e escrevo,
tenho tempo e tenho tampo.
A outra mesa, restrita assembleia de quatro homens duas mulheres
troca entrecortadas frases cafeínas,
fumam os homens fumam as meninas,
gosto de vo-los escrever a vós,
que por esta hora decerto tereis tomado já
noutro café o mesmo que aqui é servido.
O nenhum sentido de tudo tem todo o significado.
É na mesa ao lado: todos mais jovens do que eu,
que envelheço à força toda com toda a saúde,
mais em mim constante que a virtude, mor dos versos.
Um sétimo chega, narra um acidente de viação:
há quantos anos quantos versos faço o mesmo?
Saem elas a trabalhar nas lojas, demoram-se eles ociosos
(se calhar são poetas também).
Agora reparo que um é barbeiro, não deve ter
ninguém a quem aparar o cabelo como o jardineiro
que às sebes disciplina enquanto pensa na filha doente
ou nas possibilidades do Sporting na final da Taça
ou no não ter ido para a Noruega quando era tempo
– no tampo agora reparo.
Gosto das veias do mármore.
Gasto da carne petrificada do mármore.
Se de muralhas-da-China sitio o coração,
faço-o por ademanes de auto-protecção.
Escoro de vivas veias o mármore pessoal,
tampo e tempo de um homem nascido em Portugal.
Rémoras somos ao tubarão do tempo coladas,
medusas de água vemos ouvimos falar: as casadas,
que manhã tão cedo saem às compras
como eu aos postais e aos crepúsculos e vós não sei a quê, a quem.
Era a poesia tudo quanto queria – e prosaica me é a condição.
Diz-me Lídia que revisite minha Mãe, fá-lo-ei breve
– que tudo é breve quanto faço e posso
e peço e passo.
A um tempo superior persigo
enquanto o quarto final me não encerrar
pastor de crepúsculos.
Redigindo irei tantos tontos crepúsculos
enquanto não.
Irei talvez em Maio a Lisboa
a ver a Mariana o Tejo a Outra Banda
e serei feliz
uma vez na vida
na Cidade
onde como de costume entristeci
os quase três anos que quase lá vivi.
Outros topos se me colam ao coração como pessoas:
Santarém às Portas do Sol;
Parceiros de Leiria às da Lua;
Foitos do Louriçal vizinho de laranjeiras;
Aveiro num café lendo Dinis Machado;
Matosinhos para versos e para vinhos;
Peniche recebendo o luto do mar;
Coimbra com a São Pinto na Leitaria do Raul;
e Viseu ardendo à chuva em mármore.

III. HOJE DE MANHÃ – 2

Passou a manhã passámo-la nós
passou a manhã por nós e nós por ela
entre ela e nós há negociações
da mais ínclita olvidável importância.
Dela e de nós guardará a tarde a maior distância.
Isto para não falar na noite.
Estamos o que somos aqui
embora noutra hora demore como demora
o que somos se calhar o que fomos
mas pomos o que temos sobre a terra
escreveu Ruy Belo perante um
girassol de rio de onor
visto hoje na andaluzia.
Passámos já todos a manhã do dia.
Já de nós esperam horários o almoço a tarde.
Cumpriremos com as mais solícitas solicitações
essas e muitas outras obrigações
entre as quais a de estar vivo perante o que chove
e a neve e a ave e tudo o que vive
ontem esta manhã e amanhã.

IV. HOJE DE MANHÃ – 3

Despede-se desta manhã o pastor de crepúsculos
homem da estatura dos outros como ele minúsculos.
Levantou-se cedo e tudo o que de si quer
é que valha quanto cada ovelha vale e bale
pelos vales da sua poesia.
Tudo quanto quer e pode é cada dia.
Catedral de gelo cada estrela iliba Deus
da herança da tristeza
chamou-lhe ele um dia livro-arbítrio
no átrio de vitríolo de outro verso outro dia outra manhã nocturna
de outro poema atirado à cara
como o vento que nos castanheiros deu e desceu
à terra a exaltar seus anjos
seus pastores.
Faz o pastor muita força com a mão no lápis amarelo
almoçará um caldo de flores da terra
proteica e prometeica e prosaica é sua condição
embora isto seja Viseu+XXI e não
a Grécia-VI
no calendário que Cristo divide e multiplica.
Honra a quem fica
e teima e se obstina em quanto o destina.
Um pouco de sol espera o pastor na face
de feição.
Pela tarde, tudo lhe será tarde
– e tampo e tempo.
Ontem será entre os que foram os que são
e entre eles repartirá como a pombas pão a sua prosaica condição.
De alheias vozes migará vindimará novas uvas e trovas e chuvas.
Reconhecerá ruas e animais e mortos pelos nomes
atento o Pavia à sua inclinação pluvial:
é um pastor de crepúsculos nascido em Portugal.

Wednesday, April 16, 2008

QUEM NÃO TEM GESSO, FAZ OS ANJOS COM CIMENTO




Pelo entardenoitecer de ontem e pela manhã de hoje, devo ter feito um, digamos, breve livro de, digamos, poesia. São XXIV poemas, tantos quantas as horas de cada dia. E em duas partes, como as, de cada dia, diurna e nocturna. A ver.
(A fotografia chama-se Madrugada de 16 de Abril de 2008 na Rua Direita de Viseu.)

PRIMEIRA PARTE

CIMENTO

Viseu e Caramulo, entardenoitecer de 15 de Abril de 2008

I
Acerca-se de nós não o silêncio mas o calamento
mudo cimento que a boca nos vem fechar
como a janelas e a pórticos de desactivadas igrejas
do desactivado deus afinal menor e não ubíquo
nem por luz nem por sombras ubíquo sequer divino.

Traz-nos a idade o outono amanhã
?que importa seja a meio de abril que escrevo?
não colherei a silvestre acidoce romã
não trincarei o pueril acidulado trevo.

Decaem-me os dentes como palavras por demais usadas
tenho ainda camisas que me juvenilificam vá lá
mas já no íntimo estojo o veludo dos órgãos
se me arrepanha me tolhe me faz pensar em
quando corria todo o dia e a noite toda dormia.

Arredo dos meus a sabedoria do que dói
digo-lhes só o que vai ser não o que foi
um homem é um rapaz velho desde menino
e mentir é o meu mais nobre mais poético destino.

Acerca-se de mim não o teu silêncio mas o meu calamento.
Quando for será. Começa aqui. Um momento.

II
Qualquer morte de qualquer criança
é naturalmente uma tragédia à escala mundial
é mundialmente uma tragédia à escala natural.

E no entanto é comédia é o que é
a criança que tivemos de morrer para ser
isto que somos hoje isto tragicamente nós.

III
Venero da paciente árvore a corpulência sentimental.
Não lhe conto os pássaros que os sabe ela de cor
deles salteada.

Honra-me que uma fonte qualquer fonte
cante dela o canto todo para qualquer gente
tanto a que passa e a não ouve
como a que a ouça sem ter de por ela passar.

Vingo-me da vida não dela toda de alguma só
tocando as vivas pedras dos sepulcros
cujas datas gravam o início não o fim.

A todas
veneração honra vingança
toda a vida
disse digo direi que sim.

IV
A noite condecorada de estrelas
abaula sobre nós dela o descomunal regaço
tudo menos maternal.

Tudo cristal.

Luas e sóis contaram os faraós.
Nenhuma estrela terá contado o povo deles.

V
Todos os dias todo o dia atendo o sol
que das minhas noites não quer saber.

À mão de uma criança calça como a ninguém
a luva da filosofia. A ela a solar filologia
já liga.

VI
Nem todos somos só alguns.
Entre nós quem haja de soltar aves por gestos
segui-los-á segui-las-á soltando.
E os que entre nós a sós connosco
conseguimos ser filhos dos nossos filhos
pais afinal da nossa vida
e nós dos mortos que nos amaram.

VII
Não digo que a humanidade mereça as nuvens
o que elas fazem floralmente ao crepúsculo.
Há coisas que não digo
só escrevo.

VIII
Um corpo precisa de outro para a felicidade
espasmódica do costume.
Assim é nas muitas civilizações
digamos culturas.
É a chamada cultura do corpo
hoje muito em voga nos ginásios.
Nos campos nem tanto
que a capela só fecha pela noitinha.

IX
O meu Pai não trabalhava como eu na rádio
mas dava-se a emissões
de que resultámos os filhos.
Todos temos televisões.

X
Sim ando ainda ando por aqui.
Aqui é a pátria a que o corpo deita capital
de sombra.

Conheço sim conheço cantos escurecidos
a que me acorre o corpo para ouvir
o povo falar em formosíssima inconsciência.

Somo aquis para que a futura ausência minha não
possa tanto.

Sim
somo aquis.
Sim
somos aqui.

XI
As pessoas que criaram a música
as pessoas que a tocaram
as pessoas que a escutaram.
Digo que todas estão vivas
não importa
importa-me lá
o século.
São muitas vozes muitas madeiras muitas salas muita gente.
É muita solidão conjunta.
Pensar nisso comove-me como receber o vento na praia.
O vento na praia quando é inverno também é música.
Os reposteiros vermelhos também são música no silêncio das salas.
Sinto que a música me apresenta pela mão
aos que a criaram aos que a tocaram aos que a escutaram.
Sinto que ela me dá o segredo único dessas pessoas tantas
dessa única pessoa multissecular de tantas salas tantas madeiras
tantas vozes.

XII
As casas
pobres jóias no estojo dos laranjais.
Como à distância as amo.
Declinam todas: todas as casas são casos.
Sintácticas, com cães à porta.
São faladas pelas mulheres, escritas
outrora pelos homens.

Abandonadas, são rostos arruinados e dignos
muito mor(g)adias, chamando ainda.

Sei porém que choram de noite, corridas
por gatos, ventos, teias, espelhos.
Mas nunca caem, nem choram, de joelhos.

XIII
Chega a doer-me a perfeição de um cedro.
O natal perpétuo dum cedro chega a doer-me.
Bule talvez no menin’ainda de um homem um cedro
não sei. Sei. Um resto de menino num rosto de homem
recebe do cedro o amor de que tenham sido objectos
e sejam sujeitos ainda homem e menino.
Não é má coisa de saber um fim de tarde
ou de vida.

SEGUNDA PARTE

MAIS CIMENTO

Viseu e S. Pedro do Sul, manhã de 16 de Abril de 2008

XIV
Explosivo e exclusivo o nascer do dia
não é fácil nascer de uma noite mal dormida
não traz a nova manhã o sono da consciência.

Sei no café muito cedo pela primeira chávena
que o velhote do meu prédio não quer dormir
na mesma cama onde lhe morreu a mulher
falta-lhe no tálamo o recordado contrapeso.
Tudo o que de um amor sobra com os anos dobra.

Perante duas chávenas duas mulheres falam
antecipam a chuva e o frio do novo dia
sempre me encantou das mulheres a meteorologia.

Em plena cidade um café de província
nada de literaturas quimeras utopias
uma chávena com café dentro e um homem fora a tv ligada
antes das nove tudo ligado a si mesmo todos os dias.

Uma simples chávena de café uma vida simples
por dentro é claro condessas e ilhas do tesouro
por fora polícias plúmbeos como pombas
e fontes que indiferentemente cantam na surdez.

Tenho a mulher cansada dormiu mal ela também.
Vejo-a cruzar os dias transatlanticamente
dá-lhe o cansaço à noite certas suaves doçuras
de manhã não é tão fácil mas ela vence
nunca vi uma mulher desistir em pleno mar-alto.

Tenho traçado o plano do dia
talvez alguns versos me ocorram
como a um corpo ocorre a chuva que lhe chove.
Com os anos
sabes
volveram-se-me os versos
por assim dizer novos olhos
novos olhos para o dia
novos olhos para a exclusiva tristeza e para a explosiva alegria.

XV
Um dia, vereis, será Verão
e de nossos idos marços não restarão
sequer ossos destroços cujos despojos
a ninguém acudirá lembrar nos dias lavados.

Eu já sei isso sei já que assim será.
Não evito o mínimo frémito de alegria
perante o perdão direi mesmo a redenção
do esquecimento.

Pois.
Não, nada restará destes trilhos
a não ser naturalmente os nossos filhos
eles que naturalmente são , vereis, o Verão.

XVI
São Pedro do Sul
são pedras ao sol
doce a água dos olhos marejados de sal
muito me move o fresco canoro caudal
gosto de ver passar as senhoras que passam
caminho dos legumes do leite do pão.
Quem me dera
São Pedro
não ser este sul que sou tão pouco são
não ser este homem mas
vamos lá
uma destas senhoras que compram
legumes leite pão
e nem olham as pedras que são
as pègadas de Pedro
inverno e verão.

XVII
Enviei ontem ao João
um disco dos Xutos & Pontapés.
Fi-lo por prévio prazer de imaginação.
Não vi mas vejo já dele os olhos de petiz
recebendo carta em seu nome e, feliz,
mostrar aos pais dele, que dele são,
dele o nome na carta segura na mão.

Quando eu era do tamanho do João
isto é do tamanho do mundo lés-a-lés
não havia ainda Xutos & Pontapés
mas havia que eu sabia imaginação.

É mais pequeno que o dele hoje o meu mundo.
Tal não me confunde nem eu me confundo
com coisas assim banais e triviais.
Só sei que dar ao João é dar a Cristo e é dar aos pais.
E já agora também dentro da cartinha
ia para os Xutos qualquer coisinha.

XVIII
Tenho pelas crianças uma espécie de respeito
tu-cá-tu-lá.
Não estou a falar só das minhas.
As vossas
neste aspecto
são minhas também
assim como todos nós os pequenos grandes
somos mais delas que elas
de pai e de mãe.

Sim
tenho pelas crianças uma fé viva em santos vivos.
Se
como hoje
como ontem
como para sempre
vejo uma ao sol da manhã
sinto logo no ar o fio de hortelã
que o fio das crianças cheira sempre a amanhã.

XIX
Também há outros assuntos
claro.
Há o assunto da morte.
Olha para mim cheio de medo nenhum dela
excepto da alheia
a única que me pode doer e dói.

O sentido da vida é a morte.
O sentido da morte é abrir ela
a morte
alas asas a outra vida
não de novo nossa
mas a outra que a si mesma chamará
eu
sei lá eu o que for.

XX
Digamos bendigamos a prístina pátina
dos mil sóis em mil águas engastados.
Digamos um rio ao sol da manhã:
joalharia é de anjos ourives
os vivos anjos da áurea refracção das manhãs
a que chamo ouro por ser pobre mas bem agradecido.

XXI
Ainda não é o silêncio
esse cimento.
Ainda é a vida
seus múltiplos aspectos.
Não é ’inda a febre desenhando nos tectos
fantasmas de rostos esperando o momento

da nossa passagem além outro lado azul.
Além outro lado da alma, do escalpe.
Ist’é a Cervejaria Reis, S. Pedro do Sul,
Rua Além da Fonte, mesmo junto à Galp.

XXII
Toquemos
’inda é tempo
a face da ourivesaria.
É o cristal da manhã rés-vés rés-voz água fria.
Planície da prata da prata do dia.
Fria face dia e ourivesaria.

XXIII
Tudo é vão.
Tudo e todos vão.
Vieram mas vão.
Até os cães ladram
vão vão vão vão.

XXIV
Vimos e vemos que viemos.
Não se perdeu tudo, digamos.
Digo
as manhãs que incendeiam o verão mesmo de inverno
as tardes que se outonam como pálpebras de sono
as noites desertas plenas da fátua multidão dos anjos.
Disse-te recentemente que se tornam pedra os anjos
quando os descobrimos, quase mansos lobos de luz, entre folhagens.
Cerca-nos o silêncio mas falaremos ainda.
Amanhã
como as crianças
na pedra.
No cimento.

Tuesday, April 15, 2008

Contrato e outras linhas




Hoje, fui de manhã à zona termal de S. Pedro do Sul, na Fontinha. Há lá um café bonito à beira do Vouga. Trouxe de lá um contrato em duas partes. Dos outros dias, tenho recolhido em Viseu muita palavra. Aqui vo-las deixo. A foto é do dia 10 de Abril de 2008.


TÁBUA

I. CONTRATO
S. Pedro do Sul, fim da manhã de 15 de Abril de 2008

II. NÃO SOMOS CONTEMPORÂNEOS DE NÓS
Viseu, tarde de 14 de Abril de 2008

III. REPETIÇÃO
Viseu, tarde de 13 de Abril de 2008

IV. TIRANDO O SEXO E O GUIMARÃES-MARÍTIMO, NÃO SEI DE QUE TE FALE
Viseu, fim da manhã e tarde de 3 de Abril de 2008

******

I. CONTRATO
S. Pedro do Sul, fim da manhã de 15 de Abril de 2008

I
Nada me digas que não queira saber,
nada me contes que não possa esquecer.
Posso viver de ti todas as vidas que não saiba.
Não me é impossível ter-te fora de ti.

À beira do Vouga, em S. Pedro do Sul,
tenho comigo os mortos e os vivos.
Devolvo a uns e a outros os versos encontrados
pelo chão, pelo ar e vendo o rio.

Com eles estabeleço contacto e contrato.

II
Que este seja o nosso tempo, ninguém no-lo roube, que dele mesmo se rouba a si mesmo ele. Ouçamos o canto simultâneo das águas, sobretudo quando as não vejamos, pode ser o único mar, os rios únicos podem ser. Sempre por perto as árvores resistirão ao fogo, cinza é a nossa vocação, não a delas. Sinto isto esta manhã – cheguei preparado para a vida e ela não estava, sentei-me ao pé do Vouga à espera dela, pode ser o Mondego como o Pavia como o Tejo como o Ceira. A vida retornará, que não consegue ela resistir à sereia de cada rio, que o canto das águas a cada rio torna sereia – e nenhuma cera pode juncar-nos para sempre os ouvidos, esses olhos interiores que em cada homem cada mulher deixam cantar. Alternam o sol e a neve, não são como antigamente os outonos, nada tem de si mesmo a antiga mente. Como poderíamos nós primaverar os perdidos outonos? Todos fomos já obscuramente felizes – e agora. Agora fazemos como podemos. Eu escolhi as ruas do comércio, pistas de vidro escurecido pelo desejo das coisas por que ambulam os seres mais gémeos do mundo, os olhos tristes que denunciam escassez de moedas nas algibeiras, agora já ninguém diz algibeiras, diz bolsos ou, pior, pochettes. Se me vísseis aqui, à beira do Vouga numa manhã construtora de rápidas eternidades, diríeis decerto que faz este gajo aqui em vez de nas obras ou atrás de um balcão de lotarias ou empadas ou num escritório a escrever números ou assim. Resulta o mesmo, amigos queridos que queridos sois de outros amigos – e todos passamos, queridos ou não, querendo ou não. Uma mãe jovem chama ricardo a um filho como se o menino fosse um aperitivo francês ou algum rei inglês, como se Shakespeare viesse a vermutes a terra de termas. Só aceito o inaceitável, que este seja o nosso tempo, areia a nossa condição, seda o nosso papel voador de papagaios de cana e cola de farinhágua. Temos sim pousados nos ombros os corvos, em vão enxoto os meus com versos bonitos e tristes e para esquecer. Pode de repente apetecer-vos vitela no forno para o almoço, não tem mal, que a tarde sucederá como um outono cada dia, a tarde é o outono do dia, toda a gente sabe isso, se não dizê-lo ao menos tê-lo, cada dia. Na tarde do dia número doze deste mês, por exemplo, perdi um verso a caminho de casa. A caminho da morte outros perderei, como da vida. Mal nenhum: a insignificância perde-se sozinha. Gostaria, naturalmente, de não perder versos. Talvez gostasse bem mais, no entanto, de os não achar. Não nos percamos, ainda não, neste tempo a que chamamos nosso mas a que de facto pertencemos, por contrato.

******

II. NÃO SOMOS CONTEMPORÂNEOS DE NÓS
Viseu, tarde de 14 de Abril de 2008

Reitera-me a manhã a graça do ouro, o ouro da graça.
Passo de pés doentes ao sol da praça.
Vim a ver os homens pobres, as pobres mulheres
de estampadas blusas, medusas, malmequeres.
Deus fez as igrejas e foi-se embora e desapareceu
de casa de seus pais.
Tenho os pés doentes, coxeio rua afora.
Num saco porto pão para as pombas,
as unhas das mãos roídas e rombas.
Já morei rente ao mar e não o via,
a vida como entre montes decorria.
Foi muitos anos depois de me mudar
que entre montes o vim a achar.
Não têm os eus com os corpos contemporaneidade,
a cidade é o campo, o campo é a cidade.
Isto pensa, sente, diz e escreve um eu,
pelo fim da manhã da cidade de Viseu.

******

III. REPETIÇÃO
Viseu, tarde de 13 de Abril de 2008

I
Repito já dos antigos homens
o lento domingo e o lento passo
que rápido aprendi quando adolescia
e o domingo era o dia repetido.

II
Nas rodoviárias se escreve a bíblia dos pobres
sacos em vez de versículos
tantos em vez de santos.
Levam galinhas vivas garrafões vivos
e acumulam no meu coração o velho
evangelho da pobreza remediada contra a morte
deles e minha
por enquanto.

III
Parece-me por vezes o coração
não o que levamos aos médicos o outro
um calendário com mais santos que dias
um coração por assim dizer fora de cardiologias.

IV
Antigamente o pai dançava com a filha
no baile do casamento da filha.
Hoje a filha aceita comer um bitoque
no do pai
outra vez.

V
Tenho dois três quatro trapos no roupeiro.
São o que deixarei do corpo
não os versos.

VI
Um
dois
três
quatro versos.

VII
E há esse tempo que não quero deixar não ainda.
Havia no meu corpo uma saúde de pessegueiro.
Remela de verniz brotava da pele ao sol.
E eu como vós vigorava num vento vegetal.

Passavam autocarros mas qual rotina?
A vida aventureira era acordar.
Dizia-se por graça uma graça a uma menina.
E havendo gente na mercearia era esperar.

Apertam-se-me ora as veias na cabeça.
As fontes dão suíças já nevadas.
Escreverei é certo quanto me apeteça.
Sou gajo p’ra entrar em desgarradas.

Como vós vigoro ainda neste tempo.
Os pêssegos são contumazes relapsos animais.

Ora nem menos e ora nem mais.

VIII
As velhas pelas ruas do meu País
tão parecidas com a minha Mãe
as velhas pelas ruas do meu País
tão iguais cada uma a minha Mãe as ruas do meu País
tão iguais às minhas palavras
por exemplo
o meu País
tão igual ao meu Pai
que me basta tirar-lhe
ao País
o acento do i
e o s
para me tornar filho
do meu País
por essas ruas velhas.

IX
Toda a gente aceita morrer mas ninguém
quer estar morto isso não convém
sobretudo quando ainda se procura trabalho
ou que fazer ou o caralho.

Toda a gente é igual menos na marca do carro
na atitude perante o anoitecer de cada dia.
Toda a gente cedo ou tarde solta o escarro
mas nem toda a gente é gente de poesia.

Que lhes aliás interessaria
o ano mil segundo Georges Duby?
E a máscara de Dylan, o Thomas não o Bob,
que lhes interessaria agoraqui?

Toda a gente aceita centros comerciais
quando quanto maiores que a cidade melhores.
Sempre dá pró find’semana mais
serem as lagartixas do que os aligatores.

Versos ninguém quer. Nem homem nem mulher
vão por erotismos da fala do falo muito menos.
Nascemos é breves. Morremos é pequenos.
Nascemos é breves. Morremos é pequenos.

X
De amantes sejam gemas os poemas
diamantes que não gemas
só poemas só poemas.

XI
Anil clarão azuleja um fim mais a oeste
onde o mar não visto banha equadores.
A gente tem de ter amor que preste,
não pode passar a vida em desamores.

Hoje é domingo. O centro comercial
fechou portões, igreja consumida.
Uma vela ardendo vale a mesma vida
que a vida acenda bem ou mal.

Isto é tudo tão verdade. A verde idade
não mora no corpo que a escreve.
Mas é passeando pela cidade
que a língua leva o corpo leve.

Nenhum quilograma. Quem ama
nem sabe quanto vale a pesagem.
É um anil clarão, domingo chama
à vela a bela anil imagem.

XII
Pressuroso toque em a redondilha virilha.
Temos contas que esperam fora dos corpos.
Não, o meu marido não se mete assimunto nos copos.
Ele é muntamigo dànterior filha.

Eu faço pela vida, ele desfaz a dele.
Assim s’entendemos, renda cada mês.
À noite, os dois nus, a pele co’a pele,
’xotamos o gato e é outra vez

o amor a fazer, ternos empurrões,
os riscos dos dois somando impérios.
Falta-nos a luz, são só apagões.
Acorda a manhã, içamo-nos sérios.

Dia de trabalho, é segunda-feira?
Repito de amantes os antigos homens.
O milho partido oureja nas eiras.
Os homens são velhos, os versos são jovens.

XIII
Hei-de ter fora desta vida um crisântemo
um carro melhor que o teu uma mulher melhor nua
que a praia aonde levas a tua.
Hei-de socorrer-me sempre desta agonia
que melhor que o teu dia é por falada.
Falada e rimada meu querido falada e rimada.
Hei-de ter contra ti um crisântemo e mais nada.

XIV
Haveria eu então de perder o dia
domingo que seja sem dar luta?
Fosse eu o filho da mais puta-maria
fosse como tu o filho da maria-mais-puta.

Não.

Ainda assim eu saberia
não perder este dia
como tu sem saber ser
filho da Maria.

XV
Não voltes tarde a casa não percas tudo
define casa define tudo

cultiva morangos aos borbotões no coração
não sejas burro meu vizinho meu cão meu amigo meu irmão
o tempo é pouco para cultivar sardinheiras
na praça os agriões estão pela hora da morte
como nós
mas tu meu caro dá voz aos agriões
não louves as fraudes não vás a apresentações
de merdas que nada acrescentam
mas tudo apascentam
digo

a poesia de merda dos merdas que nunca chegam a poetas nem a horas
os quistos sebáceos espremidos em suas boquinhas funcionárias
o esplendor dos melões dos colhões e das amoras
o esplendor dos poetomerdas que comem a merda e as secretárias

nada disto te faz conquistador do inominável eu a que chamo tu
nada disto te torna navegador de mares esbracejados
nem subsidia nada teus próprios versos mortos-nados

não voltes tarde a casa não percas tudo
não voltes tarde
não voltes.

XVI
O tempo de uma frase é um minério.
Entrar num café, uma geologia.
Dona Sofia, bom dia, está a tarde fria.
A frase é dita por um homem sério.

XVII
Um dia um de nós faltará
havia cozido à portuguesa e ele esqueceu-se
meteram-no em roupas brancas desencarceraram-no
havia cozido e ele esqueceu-se.

A gente fica na pátria a gente deve às finanças
para os bailes da morte nem cêntimo nem danças
um dia um de nós faltará
será triste e bonito e o sol brilhará.

XVIII
Como um casaco alto
num dia de inverno
seja a palavra que eu deixar
seja a palavra que me deixar
ter sido um casaco
por um inverno.
Alto.

XIX
Volta a casa e sê inicial no domingo acabado
tu e os outros.

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IV. TIRANDO O SEXO E O GUIMARÃES-MARÍTIMO, NÃO SEI DE QUE TE FALE
Viseu, fim da manhã e tarde de 3 de Abril de 2008

I
Ainda há tempo e nada quero.
Sujeito ao sol, dele sou objecto.
Venha o vento a dar o acto
exacto e grande ao que tiro

da vida: um andamento
entre pessoas pobres e casas
como elas pobres enquanto
correm as grandes, exactas brisas.

II
A linha nº 6 é a de Orgens-Santo Estêvão.
Os óculos escuros barricam esta senhora.
Mas eu não espero já que se comovam
nem os ceguinhos nem São Cristóvão a esta hora.

Manhã na cidade: bolsa de luz,
transpar’cida medusa mundial.
Deus é quem dá a chuva. O sol, Jesus.
Viseu, Café Avenida, Portugal.

III
Adventícios e adventistas,
Maurícios e Baptistas,
de todos há por estas ruas.

Snackalmoço, no intervalo,
poema com ovo-a-cavalo,
batata ’scritas duas a duas. .

IV
Vim para o norte num comboio nocturno.
Para a morte se vai ficando.
Dizem os vivos: – Vamos andando.
Na vida fui eu já q.b. diurno.

A boca toda entrapada de seda.
As adocicadas palavras do comércio.
Dou-me todo por tudo e por nada,
não valho un sou nem um sestércio.

V
Os meninos pedem bolos às mães,
comendo crescem por dentro na boca,
não podem saber ’inda quanto amargarão

a presente presença do passado,
quando, perante montras, nas ruas,
as mães já só tiverem estado.

VI

Não sei de que te fale, mas não
é por falta de palavras, não.
É mais por fadiga do coração.

Nos bares a madeira ressuma bosques.
Luz a joalharia estantes de vidro.
Perto, a igreja refulge no adro.

VII
Esqueci-me de ir à igreja pedir qualquer coisa.
Um sinal, um guisado, uma muda de roupa.
Por versos exponho a falta de bolos.

Tenho pão num saco, ’inda ontem
contei p’ra que serve: uma busca de aves.
Pousam na igreja, não me lêem nem ouvem.

VIII
Não, não me esqueci, fui dar de comer ao gato
que ontem me deu a primeira de quatro prosas.
Sim, não, não me faltaram hoje as rosas.

Levei arroz de carne de outro dia.
Tinha-o no frigorífico, arrefecia.
O gato gostou doarrozdasrrosas.

IX
Alguma poesia é de alguma pessoa
a própria profecia.
Digo eu, que a não digo, quem diria.

Mais certo é, ao sol da Praça de D. Duarte,
Viseu, ter arte de pessoa.
Que isto é Viseu, não é Lisboa.

X
Ficarás sozinho em teu vinho.
Portarás pão de pombas, que esmifrarás.
E nunca terás sido mau rapaz.

Estenderás os pés de cera agudamente ao tecto.
Tuas filhas te terão o amor mais discreto.
Teus netos te repetirão a cera e o vinho.

XI
Deus institui que uma parte da água seja para fazer olhos
e que os olhos subam ao que for rosto
e nele constituam a nostalgia das muitas águas
do mundo
as represas as lagoas as ribeiras as baías

e que cada olho com diferente cor do outro
do mesmo rosto
olhe.
E depois é quinta-feira
e a gente
nem sabe para onde
(m)olhar.

XII
Passou poragoraqui um gajo cujo oblíquo andar ou era da vaidade
ou dalgum quisto dermóide incrustado no cóccix,
não sei.

Sei que as pessoas partilham a vida com elas sós,
não sei,
por este andar,
não sei.

Sunday, April 13, 2008

Turismos com Banda Passando em Fado-Marcha

Cinco Hombres Tristes, © Miguel Ruibal (www.miguelruibal.blogspot.com)
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Turismos com Banda Passando em Fado-Marcha


É domingo, acabou a manhã. Fomos cedo às compras, temos amigos para almoçar. É um dia bom. Ela ficou em casa a arrumar o resto da manhã. Eu saí para ir buscar palavras que estavam cá dentro, à espera. Encontrei-as, voltei para casa, estou sentado a revivê-las. Antes de tudo, dei de comer às pombas no Rossio da cidade. Fiz isso. Esmigalhei pão, atirei-o. Depois, fiz o número de circo pobre: abri ambas as mãos, a que escreve e a que lê: elas treparam-me as mãos, comeram dando bicadas nas palmas. Uma mulher fotografou o conjunto: não conheço a mulher, ela ficou-me com a imagem de cruzeta de pombas. De dador de pão, como meu Pai foi. Deixo-vo-las aqui, vãs migalhas, num rossio de luz. Deixai-me apenas esclarecer que a etimologia nos obriga a recordar uma onomástica figurativa: do grego, o nome Crisóstomo. Significa, à letra, O da Boca de Ouro. Ou seja, O Que Fala Bem. Não é o meu caso.


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NÃO MAIS CRISÓSTOMOS
Viseu, fim da manhã de 13 de Abril de 2008

Abandona-nos por vezes a conversa as bocas,
essas borbotadoras de couro.
Não mais somos os crisóstomos, as bocas de ouro.
Somos agora o calado couro das caladas bocas.

COMO O COMBOIO
ibidem

Como o comboio faz que passem as coisas quietas,
escrevo.

À PASSAGEM DA BANDA DA MANHÃ
Viseu, manhã de 13 de Abril de 2008

– Que estranha alegria é esta que me finca o coração com pés de pomba?
– É a filarmónica que passa, meu senhor, daquela banda.
– E por que me toma assim, menina, o insensato júbilo?
– É a manhã de domingo, meu senhor, que parece que não passa.
– Mas passa, minha menina?
– Tudo passa, meu senhor, até eu de ser menina e o senhor de ser senhor.
– E que estranha menina é esta?
– É a alegria, meu senhor.

CARTA CHEGADA DA FIGUEIRA DA FOZ – um turismo
ib.

Quando eu era menino, a praia da Figueira da Foz parecia-me a maior coisa de que o mundo era capaz. Ainda sinto isso, embora o não pense. Gostaria de pensá-lo, mas não posso. Não posso porque a minha Mãe envelheceu como uma flor de varanda a que o raro sol não mais que uma hora acode – e não todos os dias. Muito octogenária e quase cega, está sentada na viuvez. Tem o coração desconcertado pela evidência e pela iminência da chegada da partida. Foi ela quem me deu os verões na praia. Escrevo para que a minha noite portátil lhe traga algum repouso. Faço tudo o que é humanamente possível para anoitecer sem que ela o saiba. A gente teve verões – e perdê-los é o nosso mais recorrente modo de vida. É-me lícito supor que vos sucede o mesmo? É-me lícito, sim. Depois, num antes que se volveu o maior futuro de que o mundo é capaz, fizemos filhos e filhas. Não podemos deixar de plantar na praia essas flores, onde o sol nunca é raro – e, então, poderemos deixá-los lá para sempre e virmos sentar-nos aqui, à espera que eles nos escrevam de coração desconcertado pela grandeza do mundo, da praia, das chegadas e das partidas.

HOMEM QUE VALE A PENA VIR VER A VISEU – outro turismo
(com oportunas e eruditas referências a Ruy Belo)
Viseu, tarde de 12 de Abril de 2008

Vi na cidade um homem entristecido de pobreza: uma espécie de cão erecto, já imune quase à chuva da tarde, à chuva que pela tarde desfia já a noite. Jaqueta de ganga de bazar humanitário, rota calça de bombazina dada. Sapatos cambos, rombos, ósseos, inchados: barcas de andar. Mas de mãos tão bonitas, o sacana do homem, de mãos tão bonitas. Foi na esquina da Homem Ribeiro com a António José de Almeida. Aí o vi – e aí me senti, eu também, portador de ganga, bombazina, sapatos e mãos – mas não tão bonitas as minhas, que cega uma delas por canhota e outra por redactora de pobres.

Vi na cidade de dentro o quão fora pode o olhar de um homem ser. Ser de asilo, gangazina, o cambado olhar. Foi ele alguma vez o bebé de alguém? Amou alguém a alguém para que ele fosse – e viesse? Eu não sei. Isto é um sábado, a tarde queima seu gás frio, abril demora a arrancar a propulsão da primavera, as fontes expectoram pó de água – e este homem ali, por aqui, por aí, ao deus-não-dará.

Vingo na cidade o meu voluntário destino de colector. In urbe homine sum qui hominis lego. Não sei se ainda declino bem. Não tem importância: se não for bom latim, parece latim. Também a poesia parece a vida e não a é. Ele é homem e parece-o. É pobre, ele, e entristece-me, a mim: que se foda o latim.

Ele passou. Correrá agora, pássaro moreno, escuras ruas. A minha possibilidade é fazer dele linhas escritas. Nada sei dele. Mas dá-me ideia que vós, leitores/legedores/colectores, tudo pareceis, dele, saber – in urbe.

Toquei as palavras de novo, de novo olhando uma fonte – olhando um homem. Sei que vai ser da fonte, não sei que vai ser dele. Eu não entro nisto. Eu vejo. Ninguém, no futuro, nos perdoará não termos sabido ver, esse verbo que tão importante era para os gregos. Isto é Ruy Belo, tanto em Viseu-doze-de-abril-de-dois-mil-e-oito como no Monte-Abraão-dezoito-de-abril-de-mil-novecentos-e-setenta-e-oito, a menos de quatro meses de morrer em Queluz-oito-de-agosto-de-mil-novecentos-e-setenta-e-oito. Toquei (troquei) as palavras do homem de palavra(s). Eu não digo que o vero homem de Viseu seja o poeta. Eu não digo isso. Eu realmente

Eu realmente – são as duas palavras finais (mas iniciais sempre, nele) com que Ruy Belo remata (e ele lia jornais desportivos) a Pequena História Trágico-Terrestre (in País Possível). O prefácio desse livro, assinou-o ele em Madrid a 1 de Maio de 1973. Faltavam-lhe sete dias, três meses e cinco anos de vida. Sete, três, cinco: que são os números? A gente não sabe. A gente não sabe quando vai morrer. Vale por isso a vida: não saber números. Deixar que eles saibam por nós. Nós realmente

Na cidade-nos, vi-nos homens-nos.

ROXO LUXO DA TRISTEZA
fado-marcha

Viseu, tarde de 12 e manhã de 13 de Abril de 2008

1
Roxo luxo da tristeza
vela os meus dias vãos
sei de cor por natureza
que os homens são meus irmãos.

2
Dos meses vou apanhando
da cor da cinza os frutos
são-me os olhos devolutos
os anos mos vão fechando.

3
Coisas que eu não sei de cor
nunca as pude aprender
mas vou dar o meu melhor
que pior não pode ser.

4
Ao sol frio eu sou lunar
muito ardo eu à chuva
a tristeza é uma luva
que eu gosto de calçar.

5
Roxo luxo da tristeza
vela os meus dias vãos
sei de cor por natureza
que os homens são meus irmãos.

6
Os rios da nossa terra
são veias que Deus abriu
meus irmãos lhes fazem guerra
muita morte os recobriu.

7
Eu de noite já não sonho
mas passo os dias assim
olhos que na cara ponho
cegas rosas de jardim.

8
Quem dera eu fosse dado
a subtilezas mais finas
braço dado a meninas
a compasso marcha-e-fado.

9
Roxo luxo da tristeza
vela os meus dias vãos
sei de cor por natureza
que os homens são meus irmãos.

10
Uso dentes emprestados
para o fruto proibido
sou de mãe um malparido
marcho marchas canto fados.

11
Rufo nervos bufo amigos
triste sou profissional
que eu nasci em Portugal
dos castelos dos postigos.

12
Do Américo Thomaz
do Caetano do Marcelo
joio do trigo amarelo
maçã podre do cabaz.

13
Roxo luxo da tristeza
vela os meus dias vãos
sei de cor por natureza
que os homens são meus irmãos.

14
São mil anjos bem contados
que a cavalo na luz
trazem novas dos soldados
matadores do bom Jesus.

15
São soldadinhos de palha
da guerra colonial
baionetas da navalha
afiada em Portugal.

16
Muita gente nos cafés
ardendo a televisão
muitas mãos e muitos pés
mas nem um só coração.

17
Roxo luxo da tristeza
vela os meus dias vãos
sei de cor por natureza
que os homens são meus irmãos.

Saturday, April 12, 2008

Uma Sexta-feira na Cidade das Formigas



Viseu, fim da manhã e tarde de 11 de Abril de 2008

A Cidade não é uma nem una, mas tantas quantas as suas formigas. As residentes como as passantes: todas passantes, afinal. Há os nomes dos mortos nas esquinas das ruas, os dos vivos (odontologistas, advogados, esteticistas, astrólogos, professores africanos) nas placas afixadas ao primeiro andar do olhar de quem passa. Há quem venda uma solução imediata, mesmo nos casos mais difíceis ou graves, com urgência. As formigas andam de olhos muito abertos pelas ruas: conferem-se mutuamente as cegueiras. Não se tocam com as antenas: um olhar cego é quanto lhes basta. O Sol marca a Hora, a Hora marca o Sol – mas faz frio nas pistas. Em escritórios, formigas brancas registam os trabalhos, as doenças, as contribuições das formigas negras. É preciso perdoar a todas, negras e brancas, tantas e tão malbaratadas sextas-feiras de esperança num mundo melhor. Amor, amarração, aproximação, afastar, problemas familiares, sorte, dinheiro, emprego, negócios, atracção de clientes, justiça, protecção contra invejas e maus-olhados, doenças espirituais, depressão, impotência sexual. A Lua marca a Hora, a Hora marca a Lua. As cadeiras-de-rodas rodam frente a lojas de sapatilhas. As formigas ingerem doses maciças de vitaminas barbitúricas. Procuram o quente das pastelarias aquecidas a fornos a gás, as formigas. As formigas também procuram a beleza. A beleza difere de formiga para formiga. Quando uma formiga se encontra com a sua beleza, não se sente formiga. Quando isso acontece, a formiga abandona por dentro a Cidade. Estabelece residência à passagem. Não está porém na beleza a vida. Sabem-no as formigas que a viveram. Também não nos livros está a vida. Sabem-no as formigas que lêem. É sexta-feira-dia-onze – e nada conta ter havido uma quinta-dez: como não contará um sábado-doze. Longe, as marés assestam a eternidade da repetição, de todo alheias aos horários dos portos, às matrículas dos cargueiros, às ínfimas angústias das formigas-pescadoras. Os autocarros, vistos do papel, parecem assegurar a condição arterial da vida – mas é venosa a passagem como venenoso é o tráfico. Há fumo da boca das formigas, é ígneo o mineral da sua condição respiratória. Bem podem ser vistas nas áleas & áleas dos corredores dos hipermercados: tossem filhos, rangem carrinhos de arame, lêem os preços das prateleiras mais baixas na esperança de um verso mais acessível, mais arcaico. As mais arcaicas formigas crestomatiam nostalgias sem outra redenção que a do poder de compra da queixa chorona. Na zona da Cidade delimitada pelo recinto da feira, há as formigas que se prostituem mas engravidam e há as formigas que engravidam mas se prostituem. Trabalho à deslocação, presencial ou por correspondência. As formigas também sentem a graça. Não a de foro divino, mas a correlativa: o hálito gélido que mana das bocas negras, os portões escancarados das frias igrejas vazias. As formigas são sopradas pela filarmónica desse deus folclórico, roxo, sardinheiro, esse deus de torrão-de-alicante que subjaz à feira da fé e ao recinto da feira, em torno do que as grávidas poupam para a côngrua e para o vestidinho. Da chuva, todas as formigas sabem o preço. Os ocasionais helicópteros de escolta a alguma vinda da formiga-presidente espantam e euforizam e espalham as formigas-eleitoras, varrem-nas pela Cidade como ventos de velho testamento, o acendedor de sarças, anátemas e perpetuidades demais dos destinos créus. Doenças espirituais, depressão, impotência sexual, fenómenos estranhos, vícios de drogas e alcoolismo, emprego – nada escapa ao helicóptero do vento: mas não desanime. Sexta-feira é dia de boletim no concurso de eurotostões. As formigas filam o bocado nas agências de apostas. Os anjos de pedra persignam as formigas corredoras. No parque da Cidade, fantasmas de corças bucolizam o susto de já se ter vivido a vida, queimada a savana verde de irlandas outras que não esta. Arenques e noruegas branqueiam glaciares de enciclopédia na memória das formigas que nunca foram para o Norte. Exposições de artesanato convocam nas formigas uma lembrança colectiva que não há mas parece bem autarquizar que há. Parece bem, também, aderir à noite da sexta-feira rondando pelos bares ocidentais, onde o tam-elec-tam-trónico substitui a conversação, essa tolice das palavras a trocar. Nenhuma excepção, nisto: pela tarde, as formigas-acne já putinharam pelas lojas de camisolas escritas NewYorkNewYork nos peitos. Ainda há, ainda assim, fontes à luz do dia. As fontes não doem de água (de Tempo) a todas as formigas. Preferem-lhes, aquelas formigas a quem as fontes públicas não doem, os chuveiros domesticados das casas-de-banho das tocas formigueiras. As formigas também se reproduzem sem necessidade. As formigas amam muito, sobretudo quando odeiam. Amam sem necessidade e deixam de amar por razão nenhuma. Cultivam os mortos em pedra, as formigas. Elas, que nós somos, perfumam de aves assadas os quintais traseiros. Devoram peixes como tocadores de harmónica. Usam popelinas, gabardinas, cabinas, benzinas, bombazinas. Portam dentro rios escarlates ligadores do corpo ao pensamento, mas é sangue que lhes chamam, as formigas. Sindicalizam-se cada vez menos por causa das tosses. Ajoelham perante a lei antitabágica de alto-lá-com-o-charuto. As formigas consideram a heteronímia uma maria-vai-com-as-outras. As formigas só vêem o mar quando estão longe dele para sempre. Poucas formigas reconhecem que abandonar o mar é pior do que abandonar uma pessoa. Pior, porém, é quando uma delas, sozinha num bar de hotel, é acossada por um piano tocado. A formiga não pode deixar de entregar-se à doçura desse uivo métrico, esse apelo da selva genética, essa excepção ao mau-tempo. Mais sossega as formigas, do que o piano, a mole gentia das catedrais. As catedrais arquitectam a moral votiva das formigas. A Cidade é o que sobra da Sé. As formigas formigam auto-estradas com o mesmo peregrino denodo com que extirpam percas às barragens em concursos de pesca patrocinadores do orago estival. Atiram automóveis a ribanceiras por dificuldade económica, as formigas, que da causa só conhecem o desespero. Não se sabem ancestrais, nem como o vento repetidas, as formigas. As formigas jurariam que são desiguais, por incomparáveis, os filhos que atiram ao mundo como carros a ribanceiras. A frivolidade não acomete de raiva as formigas, fá-las só sonhar com férias de sonho. Também faz as formigas sofrer por comparação com as formigas da televisão. Cadeiras e cadeiras e cadeiras e cadeiras juncam de baquelite escarlatamarela as esplanadas a que as formigas acorrem para sedimentar a passagem dos verões, sobretudo quando chove. Vale às formigas que um olhar cego é quanto lhes basta, para solução imediata, por mais difícil, por mais sexta-feira.