Thursday, February 28, 2008

CRÓNICA ESCURA seguida de NÃO MUDAS IMAGENS

Hoje, duas coisas:
Crónica Escura, nº 41 da série Rosário Breve
(n'O Ribatejo, http://www.oribatejo.pt/, esta semana)
e, ainda, uma coisa armada ao pingarelho poético chamada
Não Mudas Imagens.
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Crónica Escura

Há vinte meses que todas as manhãs, muito cedo, entro num determinado café. Não só o tónico cafeínico me lá chama. Também a luz natural que ingressa pelas vidraças altas e a imaculada higiene do estabelecimento são de uma força convocadora que me reforça o hábito. O sítio só tem um senão: é a luz automática do cubículo da sanita. Odeio profunda, visceral e totalmente tal engrenagem.
Ainda por cima, aquela geringonça de que vos falo, para mal dos meus pecados e extrabílis das minhas glândulas, tem o irritantíssimo desplante de se apagar cada dez segundos. Um gajo de olhos muito abertos de esforço e zás!, não se vê nadinha. Lá tenho eu de esbracejar como um doidinho para que se me faça luz. De modo que a metáfora única desta crónica se me volveu inelutável: é que esta manhã (sentado no tal sítio, às intermitências como um pirilampo monstruoso) tornou-se-me claro, às escuras, que tudo aquilo (o exíguo cubículo, o trono de louça e o apagão regular) em tudo equivale à vida portuguesa: pois não nos embrulham diariamente em trevas aqueles que nos mandaram sentar no frio de calças caídas aos pés? A resposta é, triste e apagadamente, afirmativa.
Sim: quase todos nós fazemos o serviço (qualquer serviço) do lado avesso da luz, pelo que nos resultam obscuras tanto a necessidade (qualquer necessidade) quanto a satisfação (mas qual?) dela. Fisiologicamente regulares mas moralmente arrítmicos, dirigimo-nos quase todos, sem sairmos do sítio, para o mais claro cataclismo cada vez que procuramos às apalpadelas o autoclismo. Trata-se, deveras, de uma espécie de autocataclismo que, ao fim e ao cabo, nos confirma a linhagem e nos apaga o futuro, cada dez segundos.
Quem diz cada dez segundos, diz cada acto eleitoral. E como não somos um povo eleito mas eleitor apenas, adivinhai comigo o que, sentados na louça e seminus no negro breu, acabamos sempre, rangendo os dentes e cerrando as vistas, por eleger.
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Não Mudas Imagens

I

Do horto da fala emergem vocábulos:
tubérculos da voz remaminescente.
Poetas e asnos partilham estábulos
e açordas (farinhas) da fala da gente.

Papagueiam em ramos passaritarbóreos,
caganetam silvos de prata ramagens.
Uns são viriatos, outros mais sertórios,
mas todos, enfim, não mudas imagens.

II

Não mudas imagens.
Gritam, escuras, as visões à claridade.
A todas recebo como a voragens.
Meu mais fundo tempo, minha vera idade.

Desde velho menino vejo dentro.
O mundo de fora mal pouco m’ importa.
O que a chuva cola, vem o vento e corta.
E eu entro de fora, coração adentro.

III

São espelhos os copos, turv’ acidulados.
As estantes espelham de vidro a vida.
Já andei nas obras, já cantei uns fados:
por cinco euros à hora ou uma bebida.

No estreito largo que a vida me é,
eu tomo e retomo – queres uma, ó Zé?
Depois, devagar, retorno ao futuro:
levo um dedo ao cu, coç’ um oxiúro.

IV

Ou então não, então das rosas o fulgor,
das grand’ árvores do parque, a oriente,
um tal umbroso maná, que é feliz ser gente,
que é bom estar aqui, igual e diferente.

Ou sim, então, da montanha a imperial
catadura serrada pela Lua tão triste e total
e a tanta altura, que parece até desmesura
o fulgor feliz da rosa humana e pura.

V

Senhora da capucha negra pela álea
que de floresta é domesticada:
dela a pobreza tanta parece que encanta
a pobre natureza, virgo devassada.

Negra dália, virgo viúva.
De costas a vejo, sem retorno indo.
Contrária à vida, avesso da chuva,
é feia a pobreza, mas o verso é lindo.

VI

Uma boca amarela nesta solidão:
é do belo melro, negro campeão
do parq’ arvoredo defronte à casa
a cuja varanda estendo uma asa

que é preta caneta de voo rasteiro
de pateta poeta daniel abrunheiro,
nem melro nem belo, sequer campeão,
uma boca amarela nesta solidão.



Tudo no Caramulo,
entardenoitecer de 27 de Fevereiro de 2008 (I)
e manhã seguinte (II a VI)

Wednesday, February 27, 2008

Alguns Segredos entre Homens


© John Gutmann – The Artist Lives Dangerously (San Francisco, 1938)

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Alguns Segredos entre Homens


(0.
Escrevo homens que não são homens mas palavras.
Eu também não sou um homem sempre.
A minha palavra não faz a diferença entre os homens.
É uma vida que seria perigosa se passasse da palavra.
Não passa.
Passa de si mesma, tão-só e tão só.
Da palavra, não passa.)

(1.
Vem, vem daí, não saias do sítio a que chamas teu
mas a que pertences como um móvel a uma casa,
uma árvore a uma berma, um peixe a um açude,
vem, fica e vem, mexe-te como uma estátua,
gira os olhos para o sol e cega de cal termonuclear,
passa a vida nisso, nisso que te passa a vida,
na mais terna tetraplegia, às quintas há cozido,
podes sempre dar uma passeata pelos hipers-zipers,
vem ter comigo à minha paragem, costumo, como tu,
não ser para que me deixem estar, faz muita falta aqui,
não sei, qualquer coisa movediça, uma visita,
um ramo de flores brandido por uma noiva violenta,
um elixir contra a caspa, a caspa que é, como sabes,
toda a neve que podemos, um lenço de fina cambraia
que nos bebesse, cada um as suas, cada um em seu lado,
as lágrimas, faz muita falta aqui, digo, uma tosse,
qualquer coisa expectorante como a poesia e a confissão,
vem, não mexas uma palha que o burro está atento,
não troques de cortinados que a vizinha não aprova,
os nossos bairros são sossegados como os concílios
daqueles homens estranhos com penicos cónicos
enfiados nas cabeças, gostaria de te falar dos homens
que escrevo, que nunca vi nem jamais verei,
parecem-se, como nós, tanto com mortos, tanto,
e no entanto movem-se como dizem que a Terra,
se viesses, experimentaríamos ali a nova casa de bifanas,
tem uma rapariga mamária ao balcão, o decote suado,
as mãos vermelhas, as unhas amarelas, os olhos aguados
de um castanho que pertence às litografias com nesgas de rio,
digo-te isto em verso por me faltar dinheiro para telefonemas,
de modo que a coisa vai, mas fica, em poemas.)

(2.
Z., meu caro amigo, escrevi-te outro dia uma carta
que me saiu, perdoarás, rimada. Era de sandices bem farta,
tal carta despudorada. Contava-te eu de imaginações
que, rés da noite, me incham de erectores sangues a glande
e os colhões. Tinha, calcula, a ver com pensões, onde,
às secretas de nossas legítimas, embarcávamos ambos
em fendas mui abissais e mui marítimas. Tolice tanta,
que dela desisti pronto, rasgando-a cerce, ponto por ponto.
Perdoarás esta, Z. amigo, que daquela fala.
A tua mulher não sei, mas a minha sonha com um magala.)

(3.
Desejaram-me felicidades, como se fora plural a felicidade.
Não pela primeira vez mo fazem, o que tristemente me dá
para rir. Tudo, aliás, me dá para o rir e para o tristemente.)

(4.
Não é que seja, A., tudo mentira.
Nem o ser poderia, que nem tudo é tudo verdade.
Vejo passar autocarros pesados como horas
e como anos cheios de gente dentro a caminho
sei eu lá donde. Mais do que a mentira, a verdade esconde
seu íntimo motivo, que é matar-nos de seriedade.
A isto porém não ligues mais do que ao resto.
Quem acreditaria que um menino, há setenta anos, traçaria
o índio seu pai num chão de estrada?
O sol, então, ardia o dia.
E o menino, desenhando, mentia.)

(5.
Daqui, sigo a pé até aos correios, passo pela banca de fruta,
compro cigarros no quiosque daquele a quem morreu ou fugiu
a mulher, aquele da mancha roxa na cara, depois vou cheirar
o peixe à praça, gosto de ver as espadas do mar, gosto muito
há muitos anos, há muitos anos que dou esta volta sem fazer
mais nada nem mal a ninguém, na volta do correio trago versos,
que escrevo à mesa daquele café pequenino onde uma vez
namorámos através dos versos de um poeta muito mau e muito
importante a quem o município deu todas as medalhas que tinha
e que todos os natais escrevia um poema ao Natal, à noitinha
vou um instante a casa ferver um knorr, tomo o caldo e depois
volto às ruas, já não há correios, nem quiosque, nem praça, mas
há sempre as ruas, há sempre a noite.)

(6.
Amei sim, amei um homem.
E não, eu não era uma mulher.
Era um dos filhos.)

(7.
No outro dia, manhã muito cedo, fui ver um rio.
Cheguei-me lá e deu-me a sensação de estar sendo
visto por ele, de ele me dizer assim:

Eu passo mas fico, tu não.

Eu não.)

Caramulo, início da tarde de 27 de Fevereiro de 2008

Tuesday, February 26, 2008

Memórias Regressivas


Mão.
Caramulo, 1 de Fevereiro de 2008.




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Somos apenas boca. Quem canta o coração
distante e são que entre as coisas mora?

R. M. Rilke, Schöneck, Setembro de 1923





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(Talvez os versos sejam corpos veiculares da memória regressiva. Tenho quase tantos versos quantas regressões. O vice-versa também há-de ser verdade. Sigamos, pois.)

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Tábua

I. Sem Dúvida
Caramulo, fim da manhã de 26 de Fevereiro de 2008

II. Clara Idade
Caramulo, fim da manhã de 22 de Fevereiro de 2008


III. Genealogia
Caramulo, entardenoitecer de 20 de Fevereiro de 2008

IV. Emboragora
Caramulo, entardenoitecer de 20 de Fevereiro de 2008

V. O Pássaro – Um de Novembro de 1981
Caramulo, noite de 20 de Fevereiro de 2008

VI. N. V. e N. P.
Caramulo, tarde de 15 de Fevereiro de 2008

VII. Dísticos Muito Eficazes para Mandar Deus à.
Caramulo, tarde de 14 de Fevereiro de 2008

VIII. Bela Barriga Branca
Caramulo, tarde de 7 de Fevereiro de 2008

IX. Mais Cinco Venham
Caramulo, tarde de 6 de Fevereiro de 2008




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I. Sem Dúvida
Caramulo, fim da manhã de 26 de Fevereiro de 2008

Somos homens e mulheres, estamos por aqui.
Há em torno árvores: respiram Tempo como pedras.
Sabemos que um rio passa e fica, algures.
Somos homens e mulheres: mal ao rio nos comparamos.
Algumas casas parecem-nos emoções petrificadas.
Sobrevivemos mais remediadamente quão mais desamamos.

Homens e mulheres concorreram-me o tempo genealógico.
Agora o meu nome é todo feito de seus esquecidos nomes.
De seus esquecidos nomes, da cor de tantos olhos,
das estrelas apeadas que suas mãos foram.
Sinto tal herança com precisa e preciosa nitidez.
De nada me vale no escuro, tal vão património.

Já tive dias.
Hoje habito o mesmo dia – quase sempre de noite.
É feito de um punhado de areia: algumas datas.
Um cão ruivo atravessa a estrada.
Nunca saberemos aonde se dirigem os animais:
a que íntimos redutos, a que redutos inexpugnáveis.

Uma mulher jovem, muito gorda e muito bonita, na mesma estrada.
Também desconheço os aondes dela.
Não terá trinta anos: nem para trás nem adiante.
Somos homens e mulheres com veias de mármore.
Caminhamos lapidarmente.
Falamos epigraficamente.

É tudo não formoso. Não digo viver. Digo dizer.
É tudo tão formoso e inútil: o que dizemos.
Vulvas que palpitam corações.
As latas de conservas nas prateleiras das mercearias.
Os cães ruivos elegantes como mulheres gordas e lindas.
O Sol na pele das mãos muito lento, muito lentas.

Mãos de homens, mãos de mulheres, mãos de irmãos.
Estrelas enferrujando à luz óxida.
E quando um dia nos parecermos tanto com os retratos não nossos?
Entardece a cidade, coalhado o desumano ouro das igrejas.
Cães um pouco mais rápidos, cristais e flanelas.
E a doçura letal dos parques arrefecendo na noite como pessoas.

Nunca reparastes que vamos perdendo dúvidas?
Não digo as dívidas, digo as dúvidas.
Devo ter vivido estes versos noutro sonho doutro eu.
Em um mesmoutro dia, arrefecendo os parques.
Uma lâmina de rio, como um ruivo cão passando.
E como todos nós lapidar, datado, alhures, fluvial.



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II. Clara Idade
Caramulo, fim da manhã de 22 de Fevereiro de 2008


1. Fui Esta Manhã

Fui esta manhã tomado da clara idade do Sol.
Do velho casario ressumava a húmida corrupção.
Era muito cedo – e a geada cristalizava o arrebol,
muito bonitos eram o cedo e a sedução.

Fui comprar comer para a gata.
Em torno adejava a fraca vida.
Fumando fui eu indo à arreata
de mim mesmo por as Escadinhas de Santa Margarida.

Parece a serra pedra em cinturão.
Azulam lá do alto siderações.
O vento vem mentolar a respiração.
No parque há, de folhas, estremeções.

Uma senhora corcundava, de negro manto,
de mil portas e hortas costumeira.
E eu falo sozinho – digo que canto,
mas não, falo sozinho – a vida inteira.

Fui esta manhã
etc.

2. Mal Bem

De teu mal me não queiras constante
nem por bem.
Eu nunca falo para a vida, mas adiante:
nem por o mal nem por o bem.

3. S. N., T. D.

Dormi bem. Toda a noite recebi, em profusão,
de sonhos o ramalhete não sonhado.
Cedo acordei. Na crua hora, a comunhão
pronta tomei da língua e do falado.

Não irei hoje à cidade. Eu fico aqui.
Às vezes (mas depende da vontade)
vou à cidade, hoje não, que a vontade
é nunca ir, porque já fui e tudo vi.

Vi o que depois não sonho. Até prefiro
dormir de pé entre paragens.
Rebenta um pneu, parece um tiro:
desligo a têvê, farto de imagens.

Tenho trabalho à tarde, comprei comer.
Já pus a água ao lume: minha vida.
No estar vou entretendo eu o ser.
E já sonho nenhum, tudo dormida.

4. Entre as Coisas, Mas
Caramulo, tarde de 22 de Fevereiro de 2008


Pequenos cartões coloridos entre as coisas.
Entre as coisas não coloridas: as vidas.
Eu afirmo nunca falar da vida – e
não faço outra coisa: nem outra vida.

Tenho, como toda a gente, uma importância barbitúrica.
Já só subo aos telhados como antena de televisão,
não por ser gato.
Tenho versos: muitos: muitos
pequenos cartões coloridos.

Visões acorrem, discursivas como comboios.
Vêm do vento breve, do frio vento palavroso.
Eu não ando para aqui a engonhar.
Eu vou no comboio – e fico, sempre.

Tudo é sempre uma antemão de comboios, esses rios de ferro.
Pastelarias fulgem folhados de fria luz,
longe.
Tudo é tão apeadeiro na nossa escol(h)a,
não é? Sim,
mas.

5. T.

Venderam-nos como destino a decisão.
Fizemos mal, digo eu, em o comprar.
Destino não é para adiar.
Só decidir é qu’inda dá tesão.

6. R.

Tive um lamiré de vida de quarto arrendado
em Lisboa.
Não era já a vida – e eu queria ainda
que fosse.
Tudo era pouco depois.
Tudo era pouco, depois.
Recordo desses anos a saudade viva
como uma ferida
de uma filha
viva
noutro quarto
noutra cidade.
A gente acumula-se
soma-se
some-se
a gente dá
resto zero
a gente dá-se
a zeros
e
a
restos.



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III. Genealogia
Caramulo, entardenoitecer de 20 de Fevereiro de 2008


Sim
o que sou dos que antes me foram
dei já de mim.
A dádiva é de livro
que não de contabilidade.

Homens e mulheres
anteriores todas e todos
me foram antes
em linha não legível.

História sem contador
a da viva mortandade
involuntário amor
esquecida vontade.

Certa cor de olhos
certo lar de lume
incertos rapazitos
hábito e costume.

Sim
o que serei daqui a pouco
na linha
de assim-assins
uma rubra maneira
uma atenção aos limoeiros
um cuidar de estradas
um homem
e
uma mulher
e
outra
e
outra
vez.



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IV. Emboragora
Caramulo, entardenoitecer de 20 de Fevereiro de 2008


Agora já não é para esperar.
Agora é para mudar de casa e de dentes.
Agora já não dá para ensinar
nem p’r’aprender, de sãs maçãs, pêras doentes.

Um marulhar de olival quero ventoso.
Da fímbria litoral ’ma maresia.
Um peixe assado que cheire, maravilhoso,
ao que nos cheira o mar de noite e dia.

Agora já não é para levar.
Nem poemas nem telefonemas.
A gente tem uma boca. Tem
uma língua? Então agora a gente diz.

O tempo é só este.
O tempo é tod’ oeste.
Uma hora numa horta tendo morangos.
Um raio de luz solar num chão estrangeiro.
Um repicar de sino sério, éreo, soalheiro.
E uma cassete c’ uns fados e uns tangos.

Agora é toda a hora.
Vam’ lá embora.



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V. O Pássaro – Um de Novembro de 1981
Caramulo, noitede 20 de Fevereiro de 2008


Agora ele vai morrer.
Agora já está: não é já.
Agora ele é um que me tuteia.
A vida toda.
A morte toda.
Agora é aquele dia inscrito no título.



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VI. N. V. e N. P.
Caramulo, tarde de 15 de Fevereiro de 2008


Nenhuma virgindade promete o céu de todos.
A todos dado, de satélites furado, ri-se baixo.
Escala de esfera não sideral ainda, ele ri:
de nós, de nosso formigueiro medo do pluvial mijo.
Um gajo aqui em baixo a dar de literatura grega.
Uma gaja aqui em baixo a fazer pela vida na gare.
E o céu, menos zero de moral, em ademanes de gozo.

Tenho visto igrejas com pessoas assustadas dentro.
A terra assusta-as, o comércio assusta-as.
Assusta-as a clara inteligência do barqueiro.
Assusta-as a clara inteligência do carpinteiro de barcos.
Nenhuma, nenhum, nada promete.



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VII. Dísticos Muito Eficazes para Mandar Deus à
Caramulo, tarde de 14 de Fevereiro de 2008


1.

Quando uma noite o corpo que fomos já não,
de dia seremos ’inda sombra pelo chão.

2.

Vasta é, de Deus, a ignorância.
Mais que a Dele a nossa, que O criámos.

3.

Chegamos a casa pela noite, descobrimos doentes as crianças.
Não o estão: são-no, pois que como nós crescem.

4.

Fingirmo-nos vivos entre os que o estão, não.
Antes tal ante mortos que, vivos, são.

5.

Mui perto está, por vezes dentro, o inimigo.
O amigo só é, não é de estar.

6.

Uma hora contente que nos caia, uma só.
Do céu nos não cairá ela, nem Dele.

7.

Um manual de linguística inglesa e a Hélade por dez euros.
Cá se fazem, cá se pagam.

8.

Areia da praia entre dedos correndo.
O que te roça, conta-te.

9.

Conta-te.
Não conta contigo.

10.

– Então mas o senhor vem pràqui mandar o Senhor à merda?
– Sim, mas não é o seu.

11.

– Então mas o senhor vem pràqui mandar o Senhor à merda?
– Sim, mas não é o senhor.

12.

Insistamos na tranquila amargura dos fins de tarde.
Insistamos na tranquila amargura dos fins.

13.

Insistamos.
Se estamos.

14.

Somos.
Fomos.

15.

Nós fomos.
Vai Tu.



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VIII. Bela Barriga Branca
Caramulo, tarde de 7 de Fevereiro de 2008


1.

Pode ser temível, a beleza.
A beleza da cidade, na tarde ao Sol, é temível.
Também é temível.
Se me comove a visão das bancadas de fruta à porta
das mercearias? Comove, sim, muito.
Um rapaz vem pela rua: vejo-lhe o rosto já
adulto, já temível, triste já.
Ando por aqui.
Há muitos anos ando.
Um homem antiguecendo na praça desflorada pelo
Sol: sua roupa pobre, seu olhar ainda atónito como
de criança que se perca dos pais.
E no entanto ele é belo e poderoso: está vivo ao
Sol e é temível.
Respira ainda – como se profanasse.
É como o amor feito sozinho.
Eu caminho.
Devasso as ruas que o comércio abre e fecha.
Olho os brinquedos, as barras de sabão, os púcaros
de folha, a áspera vassoura, as revistas que
fotografam mulheres impossíveis, os cadernos, as
toalhas de lotaria, os chás na montra tesos
de pó, os soutiens vazios, os óculos cegos,
os dentífricos sorrindo sozinhos para alguém
que os óculos não vêem.
Daqui a pouco, entro naquela loja, compro dois
quilos de trinca de arroz, procuro pombas e
dou-lhes de comer. Posso fazer isso.

2.

Branca de barriga de peixe é a minha senhora.
Duas esferas de azul-marinho confirmam o mar: os olhos.



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IX. Mais Cinco Venham
Caramulo, tarde de 6 de Fevereiro de 2008


1. Conselho

Ama do teu corpo longamente a brev’ idade
É um bom conselho, este que te dou não a mim.
Mais vida terás em minutos não contados que na vida.
Uma flor é uma flor, um jardim é um jardim.

Às portas da tarde, aflora a branca luz guardiã.
Os monumentos esquecem-te, não queiras saber.
Se a História te formigou doenças e contribuições,
ama-a longamente também – e manda-a foder.

2. Manada à Luz

Lapidreja a luz, laminada, nossa vã lã
ao longo de ruas vácuas, dardejadas.
Nunca mais é ontem nem amanhã,
muito ladram cadelas paridas, acabadas.

Das cascárvores cai a tinha folheada.
Pedripassaritos fisgam cantos roucos.
Sou eu mais quatro homens: a manada
não deixa que, uma vez, sejamos poucos.

3. Exclamação

Em quieta vila vou a vida desossando.
Aqui não passam carros, não passa nada.
O Tempo passa, caça e vai ficando.
A luz é amarela; a Lua, prateada.

É tão bonito viver a vida-vila!
É tão bonito ser de Portugal!
O ponto d’exclamação é uma pila!
Invertida, mas pila, afinal!

4. Comparação

Um dia destes, temos, leitor, de comparar
as nossas, tua e minha, colecções de fisdeputa.
Eu tenho tantos. E tu tens quantos?
Temos um dia destes de cotejar.

Eu tenho um, tu tens algum?
Eu tenho dois chamados bois.
Tu tens uns tr~es, digo eu, talvez,
que são só um, contando os dois.

5. Do Caraças, de Postal

Deve ser do caraças, ser triste.
Ser de uma terra estrangeira no próprio corpo.
Pertencer a uma nação parecida com os nossos olhos
deve ser triste, ser do caraças.

Portugal deve ser triste, se (de) lá fores.
Deve ter praias debruadas a azulouro.
Coisas bonitas – e de postal.
Deve ser triste e do caraças, ser de postal.

Código da Estrada

As nossas vidas eram
para ser pássaros
mas são árvores.
Não.
Árvores, não.
Placas de trânsito, antes,
à beira de uma estrada por que
não passam carros.


Caramulo, madrugada de 26 de Fevereiro de 2008

Friday, February 22, 2008

Quinze Quadras Ferroviárias

Estas quadras decorreram-me da viagem de 20 de Fevereiro de 2008 à minha terra. Fui e vim de comboio. Acho sempre muita piada a que os transcursos se volvam (de)cursos – e, então, discursos. São, enfim, apenas linhas, quatro a quatro.



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Quinze Quadras Ferroviárias

Vou com o corpo través o nevoeiro de comboio.
Taludamos árvores arteriais na espessura.
Ambos temos janelas: de que as casas perdidas,
de fora revistas na viagem unívoca.

É na manhã muito cedo, não na vida.
A noite provisória do túnel faz pensar.
Um clarão de água arde, ontem chovida.
Nutri a sabão o cabelo, manhã muito cedo.

Na fortuna do tempo, nossos rostos pobres.
Eles e nossas siamesas tristezas.
Casais mínimos caiam os campos insones.
Deveríamos ter partido – e só chegamos e não bastamos.

Uma leira nutritiva de flores de comer:
couves, cardos, pedras, lama.
Fábricas derruídas aluem genealogias.
Abandonaremos este comboio e toda a gente.

Queria o meu corpo entre madeiras vivas.
Queria que dele fosse a boca viva.
Ter um pouco de tempo para ele,
um sítio no mundo a que dar o nome.

Uma linha azul aos pés de uma casa.
Uma taça de fruta respirando cor.
As vozes furtivas das madeiras dos móveis.
E a narrativa dos tapetes na casa vazia.

Imaginadamos, como fetos, na luz amniótica.
Das estátuas recebemos a desumana perenidade.
Perónios racham, tíbios, as canas do andar.
Ainda há quem queira envelhecer como árvore.

Bebe café com leite, anda, um bolo-de-arroz.
Essa feroz alegria de animal amador é tua, corpo.
Vocabulárias andorinhas em cabos de alta-tensão.
E parelhas de senhoras sem leitura por pastelarias.

Dói-me aquela, como um dente, fábrica abandonada.
Esmeraldam arrozais por linhas de água.
Montes imprimem dedadas escuras no céu baixo.
Vem-me o corpo pedir agasalho, alguma ternura.

Somos nós no meu corpo de que sou.
Finco dele as palavras apeadeiras:
pipipapiações de pássaro velho, na manhã
muito cedo, não na vida.

Concedamos-lhe, legitimadores, alguma ânsia ultramarina.
Um baldio de lembranças é uma coutada.
Atribuamos-lhe uma menina.
Uma bonita e triste, coitada.

Deus gosta de assembleias garrotadas de gravatas,
não de ruas de putas com gatos e cascas.
Deus não gosta nem de nós nem das estátuas
de cera que Lhe erguemos em séculos vazios.

Recebemos as pancadas do leite.
Deitamo-nos ao caminho como redes ao mar.
Barquitos trôpegos na corrente sanguínea.
E telefones tocando depois de arrancados da corrente.

Jardins alamedam canteiros de almas.
Toca o rio sua única nota, caminho do mar.
Anjos espreguiçam as asas molhadas.
Foi isto que viemos buscar.

Isto nos veio apresar.
Versos mandibulares e putas e gatos e cascas.
Se puder ser, merendaremos um dia.
Nos não bastaremos, tarde na noite.

Thursday, February 21, 2008

CANÇÕES COM SERES VOADORES

Abertura

A poesia é uma dimensão paralela à vida. Tem muito de
esquizo, quando é verdadeira. Isto é: quando é sincera. Não digo que sincera em relação à vida, mas a si mesma. Costumo aqui pôr versos. Sou um tonto manso, portanto. São linhas inócuas. Mas fazem-me falta, porque se me impõem. Ainda ontem, indo a Coimbra, abri a boca. Primeiro no cadeirão terrífico do dentista. Depois, pelas ruas. Bordando a pé o meu Mondego, tive de ir anotando redondilhas menores (na medida quinta e no valor…). Era uma canção. Com ela inicio a publicação, hoje, de coisas paralelas: versos, enfim.

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CANÇÕES COM SERES VOADORES

1. Com Gaivota


Gaivota que voa / pura ao vento brando
branca pura boa / para meu encanto.
Ave singular / solidão perfeita
deita cal ao céu / que à terra enjeita.

Asas escritoras / do verso do vento
rima delas luz / com o mesmo momento.
Sempiterna ave / una repetida
voa e não vai / que não vem da vida.

Voa o pensamento / qual gaivota branda
se mente que vai / fica e não anda.
Minhas mãos pedestres / são asas cortadas
voam rés da terra / tristes e fechadas.

Palavra suave / que a tristeza adoça
um peito de ave / um peito de moça.
Aquoso olhar / aguada sede
magoada nele / que um voo pede.



2. Com Andorinha

Andorinha pedacito / d’ardósia comovedora
peitilho de senhorito / jaquetilha de senhora
vem aqui ao meu cantito / um minuto uma hora
é inverno estou aflito / não tarda te vás embora.

Andorinha aviadora / que me deste por proscrito
preta ave siadora / cor dum vocábulo escrito
poisa aqui sê regedora / de meu mudo canto dito
poisa aqui recebedora / que eu não falo que eu não grito

andorinha pedacito.



3. Com Senhora Nua

Um clarão branco / que respira
que morangos pulsa / projectados
um tecto que dá / um céu que tira
azeileite da verdade / e da mentira
fundas fendas brechas / tangos fados.

Mineral loba / diamantina
topáziolhos / coruscando
lunar dourada / e argentina
desnudos pés / ’mante menina
cristal a face opalina / olhos cerrados tudo mirando.

Se puderes / não a tenhas
a não retenhas / se puderes
que mulheres nuas / são aranhas
são aranhas / são mulheres.



Datas:
1. - Coimbra, fim da manhã de 20 de Fevereiro de 2008
2. e 3. - Caramulo, fim da tarde de 20 de Fevereiro de 2008

Tuesday, February 19, 2008

Adieu, Robbe-Grillet

Disse-me hoje um jornal que morreu o romancista francês Alain Robbe-Grillet.
Li dele uma coisa chamada Les Gommes (tradução portuguesa: Entre Dois Tiros, da Livros do Brasil). Lembro-me de ter gostado muito. Foi há uma data de anos, mas recordo a diferença desse exemplar, porventura máximo, do nouveau roman.
Fica o sinal.


Caramulo, noite de 19 de Fevereiro de 2008

Friday, February 15, 2008

Ao Menos a Vossa - nº 39 da série Rosário Breve

Como sempre, n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt). A partir de hoje, 15 de Fevereiro de 2008.
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Ao Menos a Vossa

A minha vida e o Nicolau Breyner são iguais: sempre a mesma coisa. A minha vida é sempre a mesma. O Nico também, sobretudo quando faz de actor a fazer de Nicolau Breyner. Até nas siglas, caramba, são iguais. Ele é o patrão da NBP e a minha vida também NBP: Não Bala Pena.
Vingo-me de ambos vendo, do balcão da Genoveva, pela tardinha, o Portugal no Coração: parece a RTP Memória em directo. Lá está ele, claro, o NBP da minha vida, mais o Carlos Mendes e o Paulo de Carvalho a falarem dos Sheiks, mais o Mike Sergent com o Tó Zé Brito. Ainda não apanhei lá o Zé Cid a fazer de D.Sebastião do Quarteto 1111, mas não há-de tardar muito. O Tordo e a Tourada, claro. A Simone e a Desfolhada, pois. O fadista suinicultor do PPM que é primo dum duque que devia ser rei e ainda não pôde. O Júlio Isidro com um papagaio ao ombro e um papagaio com o Júlio Isidro debaixo da asa. O Zé Hermano Saraiva a falar de Cinema, o Alberto Martins (que é o nosso Cohn-Bendit) a pedir a palavra ao Zé Hermano ministro da Educação em 1969 e o Manoel de Oliveira a fazer História pelo simples acto de respirar. O Eusébio e o Trio-de-2-Odemira. A Maria Vieira a contar anedotas de anões e o Vítor de Sousa a dizer poesias de anões e a Ana Bola sem Herman. O Herman também sem Herman, há q’anos. O Nicolau Breyner cheíssimo de Nicolau Breyner. O Diogo Infante a fazer de Ruy de Carvalho. O Ruy de Carvalho a fazer de Palmira Bastos.
Até parece escrita por Moita Flores, a minha vida, tão igualzinha ao que ele escreve ela é: uma vida-ferreirinha, uma existência-távora, uma falsidade-alves-reis. Mas isto não é argumento. Isto é a só a minha vida, a qual, já se sabe, NBP.
Espero que a vossa B.

Wednesday, February 13, 2008

Música Óptica Muito Útil em Alguma Beira de Algum Lago



Para a Sofia, claro

A música mora ’inda à beir’água.
Toca o Sol ainda, velho ourives pianista.
Altas notas de música e graves: as árvores.
Estar vivo, que fortuna, algures no auditório.
Ter, que fortuna, uma boca e poder calá-la.
Isto dos olhos serem ouvidos, que fortuna.

Como um olho deitado, o lago.
Ele olha o céu: dá-se-lhe, recebe-o.
É um pouco como se o escutara.
Um olho deitado de água escutando o céu.
O vento que inclina um pouco as not’árvores.
Como beijar em silêncio algumas mãos.

Como, de tranquila tão, for’a’amargura contente.
A água cheia de música, d’órfãos deuses plena.
Alguma prístina ondinha babujando, muito bemol.
Algum furtivo rastejar por as folhas caídas,
tal rasgão de teclado-éclair, sombriamente.
Alguns de nós, que de vós fomos, ouvindo.

Ou vindo, não de vós já, nem já para nós.
Nenhuma dor já e já ardor nenhum.
Uma remansosa música, em dela vez e dele.
À beira, o céu descendo a que se ascenda.
Bordoadas de ouro ’ind’antes da noite ser:
quem as ouve não se vê, por fortuna.

Viagem Coimbra-Caramulo,
tarde e noite de 13 de Fevereiro de 2008

Monday, February 11, 2008

Mesmo Assim

Crónica nº 38 da série Rosário Breve,
como sempre n’O Ribatejo,
desde 8 de Fevereiro de 2008
(www.oribatejo.pt)
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Mesmo Assim

Quando nasci, o País era todo CDS.
Mesmo assim, havia mais sobreiros do que submarinos. A vida era como a televisão de então: a preto-e-branco, só aceitava que a ligássemos umas horas poucas por dia. Mesmo assim, naquele tempo vergonha era sinónimo perfeito de honra e de dignidade.
Não, não tenho saudades desse tempo. Juro que não. Por um lado, porque todo o nascimento é uma propedêutica da morte. Por outro, porque uma vida rápida é sempre preferível a uma morte lenta. Sim: quando nasci, os mortos andavam devagar pelas ruas, todos a fingir que viviam. Agora sei que só os sobreiros e a vergonha existiam de verdade. E sei, agora, que já nem eles. Nem ela.
Pareço-vos hoje carrancudo, tristonho, pessimista, desconstrutivo? Pois pudera: agora, a televisão funciona o dia todo, mas a vida não é menos cinzenta. A democracia é uma falácia ignóbil. Os autarcas são reles. Os professores não lêem. A Justiça é de uma paraplegia de caracol. A Saúde é uma vergonha que rima perfeitamente com indignidade. A Banca é chefiada por heterónimos do Ali Babá. E há muito mais submarinos do que sobreiros.
Mesmo assim, vivo feliz. É certo que a minha felicidade é tão parola como a vossa, por ser dotada (e datada) daquele binómio pobrete-mas-alegrete do País-à-la-CDS.
Enquanto não quisermos outro, é mais do que mesmo assim: é assim mesmo.

Wednesday, February 06, 2008

Versos de Grande Utilidade para os Pobres (com recurso ao Borda d’Água para 2008)


Versos de Grande Utilidade para os Pobres
(com recurso ao Borda d’Água para 2008)

I

Uma só fotografia possuo do Anjo
do Relógio da Catedral de Chartres:
nada tenho, tirando
todo o tempo do perfil de pedra do Anjo.

Devolvemos à pedra o que nos esculpe
ela, não nos devolve ela o tempo
que consumimos para nos consumar.

II

A minha pobreza é tão quão a tua
de extrema dignidade. Virá a noite.
Mais somos tidos do que temos: é a verdade.
Têm-nos as folhas que o vento dança.
Têm-nos as árvores que folhas têm ao vento.
Têm-nos as linhagens: homens e mulheres
de que perdemos os nomes, que não o sangue.

Sou muito feliz na pobreza extrema
e extremamente digna.
Aluem-se-me os dentes, esfarrapa-se-me a língua:
não o idioma nem o sabor.

Espero-te enquanto espero
que te seja, felizes, feliz
a pobreza extrema.

III

Hei-de ir um dia a tua casa
tocar os teus objectos
e a tua vida simples.

Régio é todo o real,
pobre embora.

IV

Vê lá tu
quão pobremente amamos.
Amamos dos outros
nos outros
o que eles não são
o que eles não podiam
nem puderam
ser.

É tão feliz a nossa pobreza.
É tão pobre o nosso amor.

Vê lá tu
quão nos é vital
o amor
com que nos amam
ainda
os nossos mortos.

Eles amam-nos
deitados
como amantes.

Quando vou a tua casa
sou um de nós
que nos amamos
e somos pobres.

Uma só fotografia
tenho tua.
Não tenho dinheiro
para ir a Chartres
ver-te
mas
amamo-nos
vê lá tu.

V

O sistema nacional de saúde do meu país
só é capaz de organizar eternidades
como a do amor pelos mortos.
Eles vingam-se amando-nos.
Somos pobres pelas ruas
mas somos muito amados
patrioticamente
nacionalmente
sistematicamente.

VI

Dizemos tantas vezes

É a nossa vida.

Nunca dizemos

A vida é nossa.

VII

Se queres, reza comigo por
O Verdadeiro Almanaque
Borda d’Água
e contigo comigo seremos
devidamente bissextos:

um dia mais.

VIII
(palavras itálicas todas do Borda d’Água)

De natureza metódica
transplantar para viveiro
em local definitivo.
Lavoura de nascidas em Janeiro.
Propriedade de Santa Ângela de Folinho.
O ano bissexto é justificado
porque a Terra demora.
Porque a Terra demora,
foram cercados de mitos
domingo
S. Hilário
e
o amor como o primeiro
(ocaso às 17h 25m).
Gostam da tradição
acima de tudo
S. Gonçalo de Amarante
Shakespeare
alface romana
e sabóia.
Contribuinte nº 500090564:
se o escolhido não estivesse de acordo com o casamento,
era obrigado a pagar uma multa de respeito.
Epifania.
Semear.
Vacinar.
O sol nasce: o primeiro dia:
dia internacional.
Manuel, iniciando-se,
onde for possível.
Será algo melancólico,
cavalar.
Contra as doenças rubras,
S. Ildefonso.
Em 1582, o Papa Gregório XIII decidiu.
Morreu por
uma multa de respeito.
Os seus amigos com cautela: Preta,
Chumbo, Ónix, Lótus, Jasmim: em relação
a quanto tempo faltava,
Todos os Santos.
Não há luar.
Planeiam as suas vidas ao
transplantar para viveiro ou
em alfobres bem abrigados.
E não como de costume,
na Escócia.
Mozart,
sê verdadeiro contigo próprio.
Tempo húmido,
agindo sempre moral e legalmente,
tão certo como após o dia
vir a noite.

Nótula:
o poema I é da noite de 30 de Janeiro de 2008;
os restantes são da manhã de 6 de Fevereiro de 2008.

Monday, February 04, 2008

Contador

Aconteceu-me há minutos. Vinha a subir a avenida. Ia pelo lado esquerdo. Do outro lado, subindo também, parou um carro. A condutora pôs a cabeça de fora e disse:
- Bom-dia. O senhor é que anda a contar a luz?
Disse-lhe que não. Ela agradeceu e seguiu.
Eu queria ter dito que sim.
Caramulo, manhã de 4 de Fevereiro de 2007
(aniversário da minha irmã Xelinha)

Saturday, February 02, 2008

A Noite em Breve – capítulo 18


Com a Didi e o Pinóquio, no pátio, antes de 1970
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A NOITE EM BREVE – 18
ou
Coruscações no Imo de Sombras
(uma portugalidade delével)


18
Caramulo, entardenoitecer (prosa) e noite (versos) de 1 de Setembro de 2007

Setembro aí está: fruto dourado.
Vivi meia tarde bem vivida: lentas e preciosas horas de rearrumação da biblioteca, em casa. Livros que já nem me lembrava de ter, coisas muito antigas como um fascículo mensário da I Guerra Mundial. O que tenho, de Julho de 1918, é uma riqueza de prosa e uma fortuna de imagens. Publicado na altura em que a refrega se virava contra os Alemães, é um fascículo revivificador de gosto pela História. Também encontrei um Cisco Kid, desenhado e contado pelo grande mestre argentino Jose Luis Salinas (1908-1985). Horas boas. No pátio lateral, depois, fiz festas à gata, rapariga esparramada ao Sol, seus olhos esmeraldados pela luz inteira da tarde.
Por capas e lombadas, a enumerável maravilha inumerável de autores e títulos: London, O Apelo da Selva; Montalbán, Os Alegres Rapazes de Atzvara; Eliot, The Waste Land; Shepard, O Verdadeiro Oeste; Oliveira, Uma Abelha na Chuva; Herculano, O Bobo; Tomeo, O Castelo das Cartas Cifradas; Nemésio, Quatro Prisões Debaixo de Armas; Anderson, Winesburg, Ohio; Rendell, Corações de Pedra; Le Carré, A Paz Insuportável; Beckett, The Complete Plays; Stendhal, Maudit Soit l’Amour; Zola, L’Assomoir; Simenon, L’Âne Rouge; Guareshi, O Camarada D. Camilo; Sciascia, O Contexto; Woolf, As Ondas; Cortázar, Rayuela; Veríssimo, O Analista de Bagé. Maravilhas: como um poema intocável.
Olho a biblioteca – e distingo dela, perfeitamente, o rumor das vozes, a ânsia dividida entre chegada e partida, a descomunal solidão dos colectivos, os retratos tirados a preto à noite branca de cada ser, cada um com seu nada que tudo vale, a vida e a morte e a vida.
Em torno, o silêncio da vila favorece o rumor dos livros. Por ter sido árvore, todo o papel estremece à presença vozeada do vento sitiando a casa, raspando as vidraças (esta imagem de ramos raspando vidraças, herdei-a de Nemésio escrevendo sobre Camilo com Ana Plácido numa edição didáctica do Amor de Perdição).
Camilo, Eça, Aquilino; Castro, Vergílio, Bragança; Yourcenar, Flaubert, Rimbaud; Greene, Maugham, Le Carré; Fitzgerald, Faulkner, Dos Passos; Calvino, Alvaro, Soldati; Dostoievsky, Tolstoi, Tchekov; Pasolini, Mishima, Kawabata; Brecht, Mann, Doblin; Rodoreda, Mendoza, Molina; Camões, Pessoa, Belo. Uma só vida.
Na rua, escalando o ar, penso na casa, no quarto onde o corpo alonga a imitação da morte antecessora de todo o renascimento, na divisão de louça onde a merda e o sabão partilham a pele, na cozinha repartida pela voracidade do fogo e pela memória do frio, na sala suspensa pela luz da varanda virada ao vale, na habitação dos livros onde as estantes novas albergam o sono acordado de mortos e vivos.
E sustentando tudo isto (o pensamento na casa), o pensamento da casa) está a música: Grieg, Baker, Rollins; Nougaro, Brel, Ferré; Verdi, Strauss, Paredes; Serrat, Andion, Stratos; Page, Plant, Lord; Marceneiro, Hermínia, Amália.
A música desemaranha sendeiros, abre azinhagas na luz verde, instaura aquários para que a pessoa ouvinte volte ao primacial estatuto de peixe uterino. Águia feita de ar, água feita de ar – a música repõe a cristalaria sideral ao alcance humano, nos quartos sós das pensões como nos salões multitudinários da euforia imperial, na savana como na nocturna viagem de carro a caminho de alguém amante e de ninguém.
Pela têvê da pastelaria, o United e o Sunderland vão empatando a zero no sábado inglês. Experimento ler os nomes dos jogadores como se de autores: Yorke, Nosworthy, McShane, Eagles (mas este é música de hotel californiano), Chopra, Wallace, Rio, Scholes, Brown (padre chestertoniano: também dá), Collins, Saha. A brincadeira dá este resultado: jogo a alinhar duas equipas de autores: Vivos contra Mortos. De camisola roxa e calção negro, os Mortos: Cervantes à baliza; Codax, Vian, Capote e McCullers; Cesário, Tolentino e Strindberg; Caeiro, Moravia e Fo. De camisola amarela e calção verde, os Vivos: entre os postes, Marías; McEwan, Gräss, Myrdal e Roth; Bernhard, Osório, Rivas e Carvalho; Fuentes e Carpentier. De modo que em 4x3x3 os Mortos (sempre mais agressivos, mais acutilantes, mais vivos) e em 4x4x2 os Vivos (mais resguardados sempre, mais inquietos, mais tácticos).
A evidente criancice deste jogo repousa-me o humor. Ninguém vive facilmente, ao contrário do que por aí se morre. Não vivo com facilidade. Vivo, até, contrariado, digo-o bem. Mas às vezes a mais madura das minhas idades retorna em força – e ela chama-se Infância, esse país de antes dos livros e das amarguras paginadas. Essa pátria de cores no país a pretibranco que era o meu, o nosso.
Recordo a mortalidade infantil da minha infância. À época, ainda a permilagem não era a maquilhagem estatística do pouco. As crianças morriam muito, na minha infância. Recordo a segundo e última filha do senhor Veríssimo, dois dos três filhos do senhor Morais, o segundo e último do meu primo Mário Chato, alguns dos Cucos e a irmã do Augusto do Bairro de Nª Sª de Fátima. Se só recordo a morte? Não. A vida também me recorda.
Recordo a Fatinha e a Mila do senhor Zé Claro, padeiro da terra e nosso vizinho. Eram meninas. Brincávamos nas escadas do prédio, brincávamos no quintal, brincávamos no monte. Não o sabíamos (felizmente) então, mas era no Tempo que brincávamos: pois que éramos miniaturas do futuro. Havia um cão entre nós – o mais inteligente e mais bravo cão do mundo, de seu nome Pinóquio. O cão pertencia à família Claro, mas quando pais e filhas se mudaram da Lameira do Saramago (hoje Rua 1º de Maio) para a Rua 4 de Julho, o Pinóquio ficou connosco. Depois, aconteceu mais tempo – e o cão morreu de velho. Não morreu connosco: sentindo o animal a autoridade do último apelo, foi ter sozinho à porta da padaria, no alto da aldeia-bairro, e entregou-se ao primeiro dono pela vez última. Tenho uma fotografia em que ele vive: lindo e lúcido como uma estrela. É no pátio, estou com a Didi, menina vizinha também, irmã do Tito e filha do senhor Morais e da D. Odete.
O meu problema é simples: tive uma infância feliz. Tão feliz, que a minha literatura de adulto é um embuste. Uma falsidade. Uma falsa idade. Uma salsa. E uma coxa valsa. Deveria ter seguido os preceitos, cumprido os requisitos, mantido a profissão de mestrescola de adolescentes. Não deveria nunca ter vindo para isto: para coleccionador de falsidades literárias e de folhas verdadeiras que umas às outras se não conhecem por causas de erros meus, má fortuna e aguardente.
Assim, o suicídio ritual de Mishima e o assassinato obsceno de Pasolini concorrem-me com a morte à facada do Paulo Casimiro, no prédio da Cabeleireira pelo filho da Cabeleireira, e com o número taxativo de crianças defuntas da minha infância. A vida também me concorre.
A vida também me ocorre – de longe (no Nunca, nome favorito do Tempo) me acorrem a casa, para Sempre, os senhores e as senhoras formiguinhas pretas em arena de papel: os autores, as autoras: a rumorosa gente. Tudo isto tem explicação: nos anos 70 do século passado, um gajo chamado José Antunes Ribeiro motivou a edição de um livro chamado O Poeta Faz-se aos 10 Anos. A editora para que trabalhava esse senhor ainda existe (o senhor também, aliás): Assírio & Alvim. O livro em situação foi coligido por uma professora chamada Maria Alberta Meneres. Era a colecção pedagógica de trabalhos poéticos de crianças alunas dela. Enormes crianças, grande livro, magna docente: o livro é uma maravilha. Ela levou-os a transgredir a linguagem dita objectiva do dia-a-dia. Ou assim: potenciou o natural de cada criança, legalizando-lhes a metaforização e convocando-lhes a efabulação. Então, um menino escreve (digo de cor; de coração, portanto):


O Amor é
um pássaro verde
no alto azul
da madrugada.


Porra: eu era da idade dos meninos e das meninas de Maria Alberta Meneres e de José Antunes Ribeiro. A minha vida futura (isto, agora) foi fixada, a calendário e esquadra, na leitura desse livro inesquecível e oblongo. A 5 de Novembro de 1977, na página infanto-juvenil de um jornal chamado o diário, que um tal Oriam (Mário Castrim) pulsava, vi publicado um poema próprio chamado As Quatro Estações. Era eu armado em Vivaldi neo-realista. A desimportância e a efemeridade disto sinonimizavam a minha vida e a minha morte – mas ficam escritas, que até a brincar gosto de armar ao sério.
Depois, vieram a sexualidade, o emprego, as responsabilidades e a decadência nacional, na linha da da europeia, do Benfica. Em Maio de 1981, recolhi do monte um pardal pequenino que não tinha cauda-leme. Vivemos juntos seis meses, até ao dia primeiro de Novembro: o meu irmão Fernando deixou aberta a porta do quarto onde hoje vive sozinho – e um gato matou-me o pássaro da minha vida. Hoje, tenho uma gata e só aceito pássaros azuis por escrito, que o meu era castanho e preto e branco e lindo como uma criança das da permilagem, essa doença que levou tantas no ocaso do sacrossalazarismo.
Isto, é, natural e inevitavelmente, a solidão. Já tenho a velhice toda pronta: sei do que vou lembrar-me quando de tudo o mais me esquecer: um pássaro, um cão.


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Pelo País esvaziado (até, ou sobretudo, de mentalidade, até de idade mental) campeiam os imbecis, os vãos, os burros e os obtusos. As autarquias são democráticas como o pão dos cagadónaldes é pão. As caixeirinhas de hipermercado floribellam com condes imaginários que serviçam nas obras. Os doutores arregimentados pelo regime doutoral seguem os ditames do futuro Presidente da República, Aquele que não Dorme para Ler Livros, o arregalado que não vale um peido e fala como uma bufa. No Algarve, só criancinhas inglesas é que desaparecem, que as outras estão todas na Madeira a fazer de pupilas do Senhor Reitor. E o velho Eça, vivo em minha casa antes da enterocolite (que lhe diagnosticou postumamente o doutor Gaspar Simões) que o levará em vão a procurar o milagre suíço da neve, do leite e do oxigénio, ri-se desta merda toda porque o cu dele nunca aceitou agrafos de alma.
Mais para além, porém, mais para canto, entretanto, ocorre-me a possibilidade de tudo cumprir ainda o ideal zénite que levou ao nadir dos dinossauros e do tigre-de-dentes-de-sabre: a Extinção. Está bem, está correcto assim. Digo: se nestas mesmas páginas recusáveis e irredimíveis evoquei o funeral – de um velho em Antuzede cujo nome me não ficou –, que coisa, afinal, fica? Os publicados? A Woolf encheu de pedras os bolsos e afogou-se. O Vasco Graça Moura conhece as repartições todas. O Eduardo Prado Coelho estoirou como a jibóia queesmoía e deixou de esmoer, como aquele padre de inícios d’O Crime do Padre Amaro, que isto de escrever em pastelarias tem que se lhe diga – e eu digo (em blog, que é modernaço e fica bem para abrilhantar a punheta, cuja não é sempre com mulheres). Parece má-língua portugalóide: e é-a. Sabeis, blogueitores, a que coisa assisti eu no quasoutono de 1996? A isto que segue.

Era em Lisboa, no Teatro da Cornucópia. Era a antestreia da representação d’A Margem da Alegria, poema de dois mil e tantos versos dum tal Ruy Belo (de cor: 1933-1978). Estavam lá os tachos da Cul(atr)ura e o estagiário do jornaleirismo. Eu fazia deste último. Falei com Teresa, a viúva do Autor. Falei com o cornucópio Director/Encenador/Luís Miguel Cintra. Falei com Nuno Júdice, tendo-o confundido, aliás, com Gastão Cruz, mas depois pedi-lhe escusa. E falei com o senhor Eduardo. Curiosidade: o dito (hoje defunto) ficou exactamente na cadeira da plateia à minha frente. Isto é a verdade-verdadinha: adormeceu passado um bocado, a peça/oratória era maravilhosa, dos versos à representação, mas qual, adormeceu como uma veia lenta, pousado no próprio lípido, um nenúfar de banha estimulado ao contrário pela contraluz e, enfim, pelo teatro. Vi-o dormir, ouvi-lhe o doutorado ressonar – e pensei no meu país sem maiúscula. E disse para mim – e cumpro: de coelhos em prados, só o Jacinto, que o resto nem sinto. Enfim, que a morte lhe seja mole como a vida lhe terá sido. Isso – e o Mário Soares a fazer de resistente nas horas vagas do Manuel Alegre, esse grande Torga-C (o original já fazia de B q.b.).

Ou então, para que um rio se transtorne correndo de jusante a montante, Dinis Machado. O homem de Molero. Esse livro que Óscar Lopes, tão bem, 25dabrilizou na Literatura Portuguesa: e mais o Molero só saiu em 1977. Não, nada a ver com as concessões solipsistas de Eugénio de Andrade. Não, nada a ver com a umbilical comichão do Torga otorrinomontano. Não, nada a ver, enfim, com os sonâmbulos chupistas. Nada, enfim, com a pulhice macrolisboeta do país pequenino todo, sobretudo o dos livros, que o outro país não me interessa nem este tremocinho. Tantos circo-instantes, carago, porra. E não, também nada a ver com o Porto, que nisto de Literatura entra mais em casas de putas pagas a chá de rolha para arbítrios-não-livres de futebolanço. E muito menos a Coimbra-coimbrinha dos sucedâneos torgais. (Mais a ver com Setúbal, onde o MM Bocage fez a cama a Luiz Pacheco por vintemérréis).
Safôda, digo eu – e digo bem.


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Setembro aqui está: um fruto vivo, de ouro, polpa de prata dando a noite. Na montanha, as estrelas sobem as penedias. E pássaros azuis consumam a noite, alongado o corpo, gato, num dos quartos da casa.


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Não faz a vida mais do que dela a obrigação,
mantendo-me vivo enquanto mais nada não.
Colectores de pasta de fígado em colherinhas,
frequentadores somos de circunstâncias comezinhas.

Átrios de hotel, sanitários de tasquinhas
– tudo nos socorre em recomicções mais ligeirinhas.
Somos Portugueses camonipessoanos
(e até, más-línguas dizem, queirozianos)
andamos na bamba corda ingrandecidos.

(que isto é mistura de agrad’aparecidos,
cotões do bolso embolorecidos,
filhos-da-puta malparidos).

Resto é contrato: faço-não-faço,
pagas-não-pagas-um-bagaço,
Infante e coisa, Camões e tal.

Mais a Europa prà nossa tropa,
ter jeito e peito prà cachopa,
maizeuropa e pretugal.



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Se voltares a casa, volta com a tua idade.
Não disfarces de preto cartas vermelhas.
És irmão morto, daí que a qualidade
da volta pode, no que semelhas,

enganar os pobres (os que ficaram)
sem ti, sem coisas que ficar
– que pode o pobre, p’ra s’aguentar,
inventar vidas que não vingaram.

A tua vida. A tua morte. Nessa manhã,
facturas houve não descontadas,
que a vida é tudos e é nadas

que contam zeros, nadas e tudos.
Andamos de ti tristes, sisudos,
por idosas casas, tudos e nadas.