Friday, December 28, 2007

Mocidade Portuguesa - crónica nº 32 da série Rosário Breve (in O Ribatejo)

A partir de hoje, 28 de Dezembro de 2007, n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt).

Mocidade portuguesa

A mocidade portuguesa ainda existe. Só que já não é maiúscula e já não anda por aí a fazer a saudação fascista em uniforme meio escuteiro meio soldadinho. Basta-lhe continuar portuguesa para ser minúscula. Ao redigir “mocidade” em vez de “juventude”, sei bem quanto me arrisco a levar ferrete de salazarento. Já aviso que não mereço isso, apesar de ter feito a escola primária toda antes daquele remoto ano em que o Natal também foi a 25 mas de Abril. O meu Pai só comprava castanhas assadas se viessem embrulhadas numa folha do “Avante!”. Por isso, vou continuar a chamar mocidade à mocidade como faz o meu cantor António Calvário.
É uma questão de língua. Portuguesa? Não exactamente. A mocidade de hoje já não fala nem escreve português, mas portuguéssémiésse. Eu axo k s. Vcs axam k n? N tãe mal nenh1. É axim.
Que a mocidade hodierna confunda o Pentecostes com o Pinto da Costa, vá lá. O que já lá não vai, porém, é pensar que só há duas profissões: a de cantor pimba e a de futepimbolista. Por causa do Euro 2004, todas as moças portuguesas querem tornar-se numas flausinas de sucesso como a Nelly Furtado. Já os moços, entre “música” e bola, só admitem duas variantes: ou serem o Mickael Carreira do Manchester United ou o Cristiano Ronaldo do Pavilhão Atlântico.
Sei perfeitamente que tudo isto é execrável paleio de “cota”. Ainda bem. A minha própria mocidade acabou no dia em que troquei os Jethro Tull pelo senhor Johann Sebastian Bach. Quem diz Bach, não escreve Bax. Escreve com maiúscula. Tão haver?

Monday, December 24, 2007

Feliz Natal, Já Agora

Amigos, amigas: que a vida vos seja mais feliz do que o Natal.

Friday, December 21, 2007

Duas crónicas para O Ribatejo

Na edição de hoje, 21 de Dezembro de 2007, d'O Ribatejo (www.oribatejo.pt), não uma mas duas crónicas: Para Aquecer (série Rosário Breve) e Carta ao Menino sem Pai.

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Para Aquecer

Uma das modernices que ainda não chegaram aqui à vila é o Aquecimento Global. Aqui está frio. Manhã muito cedo, ajudo os vizinhos a descongelar os cães por esses pátios. Os pastores fazem fogueiras pela serra para que as ovelhas articulem passinhos de boneco a pilhas. Antes que seja tarde, faz-se noite. Juntamos os ossos ao balcão da Gracinda, empinamos umas cachaças anti-oxidantes e entorpecemos na contemplação das ancas soporíferas da Gracinda, cujo marido está no Brasil há catorze anos a telefonar que já vem.
Cai a noite, queima-se lenha. As casitas parecem velas trémulas pelo presépio espúrio da encosta. Nas trevas, os corvos zunem como cabos de alta-tensão. Estilhaça-se a Lua em fragmentos de vidro, cai em neve. Rangem as árvores como móveis de gavetas cheias de pássaros hibernautas. Como a noite é sempre a mesma, nunca mais há-de ser natal – nem novo o ano.
Por causa dos telejornais, trocámos os carros por comida enlatada. Quando as conservas se nos acabaram, trocámos as televisões por mais sardinhas e mais cavalas e mais sangacho de atum. À cautela, vamos por esses chãos quebrando míscaros com uma barra de ferro que outrora ramo de árvore foi. Comemo-los temperados de urze e geada à roda das fogueiras locomotoras de ovelhas.
O artesanato local é à base de gatos, que o frio glacial torna estatuetas vivas por dentro e rijas por fora. Os nossos filhos foram estudar para Águeda e fizeram como o marido da Gracinda. Se calhar, já somos avós e não sabemos: até porque, sem televisão, não temos acesso aos programas da manhã, que vivem à custa de velhinhos comovidos.
Pode ser que, um dia, os dias voltem. Já não digo os nossos filhos, cujo destino é partir: à vida e ao nosso coração. Já não digo o marido da Gracinda, que se calhar é feliz na favela. Mas digo que pode ser que volte o movimento perpétuo dos cães e das ovelhas, entre cinzas de fogueiras tornadas obsoletas pela feliz chegada do Aquecimento Global finalmente Local.
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Carta ao Menino sem Pai

Pai Natal, tu dantes chamavas-te Menino Jesus e não eras um velho de barbas brancas com ademanes de administrador anual de uma central aeroviária de renas. Não te vestias de vermelho-coca-cola. Eras um Menino maiúsculo, não um passador de bandas largas.
O Menino era um dos frutos mais dourados e adorados de Dezembro. Tu não. Tu começas logo em Outubro a espreitar das lojas para fora, assediando a molécula consumidora do cristão e o átomo cristão do consumidor. Não te vais embora nem nos desamparas a loja até que Fevereiro te bata a bota. Suporto mal o teu sotaque americano de invasor de países e de lares. Deve ser por te pareceres tanto com um atleta do “wrestling”. Cheiras a hambúrguer de celofane que tresandas. E a tua obesidade não provém da bonomia, mas da maionese. Perdoar-me-ás a frontalidade, mas é que para mim não quero nada. De ti, quero eu dizer.
Se ainda te chamasses Menino Jesus, e deveras O fosses, talvez quisesse. Para mim, para a região, para o País e para o Mundo.
Falta-me o número 117 da Colecção Vampiro, por exemplo. Isso e um fim-de-semana no Alaska com a Shania Twain. Não sei se é pedir muito. O mais certo é que seja. Se não puder ser nem o Vampiro nem a Shania, traz-me ao menos um par de botas-de-elástico, que os anos me vêm tornando numa espécie de conservador de seminário que não chama freiras às pipocas.
Para a região e para o País de onde te escrevo, ó meu Menino, peço-te coisas tão mais pragmáticas quão menos simbólicas. Que os rios não amanheçam alcatifados de peixes mortos. Que a água das torneiras não fumegue de arsénio. Que os donos das fábricas não as façam falir à pressa para que a miséria seja mais lenta ainda. Que a música pimba passe a estar prevista no Código de Processo Penal. Que o jornalismo sirva para algo e não alguém. Que o bacalhau não venha pré-demolhado. E que o novo “acordo” ortográfico não seja tão crioulo como e quanto ameaça.
Quanto ao Mundo, enfim, ó nosso Menino, faz com que não seja criança. Nem infantil, nem global. É diverso, o Universo. Não deixes que seja só vice-versa. A única arma de destruição “maciça” (eles querem dizer “massiva”, mas não sabem) é a relação dólar/barril de crude. Eu sei que tudo se resolverá, de vez, quando os pólos se derreterem. Mas não é coisa boa, isso.
Não é isso coisa boa porque, acabado o gelo e derretida a neve, não terei Alaska nenhum para dois dias natalícios com a Shania Twain. Com ela ou, sem ela, com a leitura do número 117 da Colecção Vampiro, ó meu Menino sem pai.

Thursday, December 20, 2007

Um Capítulo Cortado que o Não Era, Capítulo

Hoje são apenas 20, apenas Dezembro, apenas 2007.
Há coisa de uma hora (apenas também) publiquei neste Canil uns versos que já lá vão. Não deles quero falar (nada tenho a dizer deles que neles não tenha dito). Quero dizer isto: o próximo texto que aí vem (diz-se infra, na linguagem bibliotecoisa) foi composto em apenas-Março deste apenas-2007 das nossas vidas. Surgiu-me tal prosa no mesmo caderno em que, desde apenas-24-de-Novembro-de-2006, venho perdendo tempo, tinta e coisa à custa de uma história com homens e anjos à mistura. Para tal história, este texto não contava nem contou. Dele capitalizei, ainda assim, alguns recortes prosaicos, assim a modos que azulejos verbais. Venho, aliás, fazendo o mesmo com cadernos (muuuuuito antiiiiiigos) que em casa me socalcam paredes a partir de alcatifas. Pode um homem roubar-se a si mesmo? Pode. Se for homem. Cá vai disto, com vénia à vossa paciência e ténia ós puta-que-os-pariu que fazem da arte vida em vez da vida arte.
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O Botânico, todo nimbado de clarões, fosforescia a poente, de todo alheio à miséria de tanta felicidade. Ia ao Pratas comer sandes de cavalas e beber vinho traçado com gasosa. A noite levantava-se das calçadas, reiterada pelos monumentos e contrariada apenas pela mocidade arqueológica das palavras. Inversa como uma pérola caída a um poço, a Lua rangia como uma prata de tabaco. O coração já era esta coisa irrígua. Era já como todos os homens: um saco de vísceras apertado em cima pelo olhar.
A primavera, por tardia, entrechava um lance de rio num aparato lúdico que não mais, nunca mais, deixou de comover. Não tinha, como agora, a quem dizer isto. E não havia saída por onde a vida entrasse.
Depois da taberna do Pratas, sobrevivia à descensão de vielas e couraças e recolhia à Brasileira, de onde, àquela hora, haviam já desertado os fantasmas benignos que comparam todos os hojes a todos os ontens. Um tipo professor de matemática, sósia quase perfeito do Oliveira Martins historiador, resolvia, sem recorrer jamais às soluções, problemas de palavras cruzadas, que tirava da pasta de couro em recortes de jornal. A Brasileira era povoada de outros sósias muito razoáveis: de Lenine, de Einstein e de Carlos, o Príncipe de Gales contra quem se casou Diana Spencer. A Guida bocejava ao balcão de pastelaria e tabacos. O senhor Damião, de crânio lustral e duas excelentes bossas na testa clara e alta, separava pretas de brancas na bandeja de moedas, recolhendo numa lata que fora de café as espórtulas colectivas. Entrando, boanoitava toda a gente antes de chegar à mesa do costume, a do canto esquerdo, onde terminava o balcão da Guida. Permitia então que florisse a pétala tóxica da poesia. Não comia muitas gajas nessa altura, nem nas que se seguiram.
Era novo como o mundo. Mas foi então que o insensato amor pelos livros tornou impossível amar a vida como ela às vezes até merece. Uma vez, a essa mesma mesa de café, o jornal vivia de uma peça sobre Hemingway. Uma fotografia do escritor encimava a página. Era amarelo, o fundo da foto que revelava aquele leão branco e mitográfico. Foi inevitável desejar passar a vida em montes e por valados, como supunha que passava Nick Adams, comendo alimentos enlatados, como Nick Adams de facto comia. Era a alba da perdição: perdia a vida de vista, recebendo em troca um cinema fechado. Se hoje vida e livros seguem elipses separadas, por outra razão não é que a do desejo invencível de carne enlatada. Começar a marcar os autores por que se trocou a vida: por que se trocou a realidade – mais bem dito.
Deixar de ver pessoas. Nunca mais ver pessoas. Toda a gente deviera personágil. Mexiam-se – mas eram de papel. Diziam – coisas de tinta. Quando o Lennon morreu, por exemplo: uma cassete caída ao chão. Sete anos antes disso, o vizinho do NSU tinha sido morto pela canção mais famosa de Roberta Flack. No ano seguinte ao lennoncídio, Carlos e Diana matriculavam-se num casamento infeliz, como quase toda a gente. Estas coisas assim. Nos quintais suburbanos, nespereiras atacavam-se a si mesmas de raquitismo, dando depois à luz meia grosa de pepitas de um ouro ferrugento sob um céu de esmalte côncavo. Estas coisas assim.
Na Bertrand, ao lado da loja de fotografias, subidas as Escadas do Gato, os livros cheiravam a livros da Bertrand. A Colecção Dois Mundos steinbeckava a troca da vida pelo papel-e-tinta. A Colecção Vampiro simenonizava e agathava toda uma galeria feliz de mortos indolores reumanizados pelo manso alcoolismo de Monsieur le Comissaire e a esparsa misoginia do belga de crânio ovóide baptizado Hercule. A Colecção Forma danielfilipava linhas que não precisavam de chegar ao fim da linha para ser finais. Chomsky e Schaff surgiam das bandas de Almedina.
No Pinto, ovos verdes; no Mijacão, bifanas – vitualhas que frigiam a língua com uma lhaneza exclusiva e esconsa de pardieiros de rés-do-chão. Descendo as do Gato, à esquerda era o Pinto e à direita era o Correia Corre-Pouco. Dos pipos, escumava a beberagem roxa de iniciação à dessaburração da tristeza. Iscas de fígado de porco e sardinhas fritas cantavam louvores ao alho, à folha roubada ao loureiro sinalizador de todo o portal de vinho, ao vinagre e à cebola. Torresmos rechinavam como olhos cegos de profeta assando ao sol do deserto, mas é possível dizer que recordavam, antes, unhas torradas depois de roídas, também. Aí foi começado, sem no saber, o urdume do arquétipo de um tal António Tomás, a quem coube tão-só aguardar pela demora.
Iam os livros a esses locais encantadores. Os homens do lixo apareciam para a sopa servida em malgas de folha inox e conversavam sobre os filhos que queriam na universidade, um dia. Um engenheiro hidráulico empregado na Câmara, cuja cabeça inflava a forma, a consistência, a tonalidade e o efeito do bago de uva, expectorava recordações revolucionárias pobremente traduzidas a verre-de-trois do Maio de 68 parisiense. E tudo isso foi de ingerir e aproveitar como bênçãos mais que iguarias sólidas e líquidas. Se apenas agora, de tudo isso, uma recordação redactora redige e recorda, não se perdeu, como António Tomás Jesus Duque também não, pela demora.
Coelhos perfumados de espargos não eram mortos por caçadeiradores. Não. Viviam nos montes de Nick Adams além do quintal do meu prédio e não acabavam dentro de conservas. Por esses montes era verificável por outra razão a pulsão da lua nos cedros.
Os animais – só os animais sobreviveram aos livros. Só eles se mantiveram reais, espessos, existenciais, únicos. Permitia – vezes de mais, talvez – que ousassem plasticinar o coração, pisado de mais as nervuras vasculares da mioleira. A mulher da cabra somava duas cabras, aos olhos e ao meu lápis. O pastor pontificava sobre uma nuvem de lã com patas de que caganitavam azeitonas de estrume. A senhora do caniche era nervosa dentro de seu colete de fecha-barriga. A menina da foca era sensual como uma punheta de olhos fechados. Só os perus eram mortos a bagaço e à facada, quando sobre eles se abatia a voraz ternura dos natais.
Interessava sobremaneira António Sérgio entremeado de Conan Doyle e Júlio Dinis. Maria Alberta Meneres franqueara, de par em par, as portas ímpares da poesia. Era já o coleccionador coleccionado. Sentia o roçar dos anjos.
Tantos anos depois do casamento mortífero de Carlos contra Diana, não foi possível evitar a tal “desordem eólica dos livros dos outros”. Daí que tenha resultado improvável negar a emoção perante o que escreveu Julião Quintinha a propósito de Teófilo Braga: que, muito perto do fim, o velho vivia, como um pobre terminal, de cubos de marmelada, bagos de arroz e café chilro. A mesma comoção avassaladora (a mesma assamara, enfim) ao saber que Wittgenstein mecenizou parte substancial da herança em favor de Rilke. Por ser eidética, a leitura filmou Cardoso Pires, a bordo da nau de Lisboa, coleccionando os dizeres, os gestos e as manhas dos morning drinkers de Santos, de Alcântara e da Rocha Conde d’Óbidos. E Eça procurando o nirvana intestinal na asséptica Suíça, perdido por Ortigão como Watson perderia Holmes no desfiladeiro ao lado. Ou Mann (Thomas, não Heinrich) datando de 1900 uma Montanha Mágica que era, de facto, de 1899. Pouco depois, Pessoa, enxovalhado de camisa, rogaria ao barbeiro matinal que lhe fosse a buscar aguardente na garrafinha preta. Freeling, depois ainda, viria nivelar Maigret com Macbeth – e era uma exaltação, sentir essa justiça, essa reparação. Como se as árvores de nome em latim do Botânico dissessem:
– Fizeste tudo mal, mas está tudo bem.
Não digo que fosse precisamente então, até porque não foi – mas é possível dizê-lo agora: que se tornou tão evidente quão inelutável a urgência de devir arquitecto e I. e J. e L. e A.
Caramulo,
tarde de 20 de Dezembro de 2007 (intro)
e noite de 14 de Março de 2007 (capítulo cortado)

Vossa Senhoria Minha



Que a soberana solidão dos gatos
senhoria se torne destes versos
varridos do ar tais epifanias
da vida desunhada minha.

Que a triste bonomia assista
a estas estrofes tidas em silêncio
enquanto a circunvida
de geada teias tece.

Muito me ocorre, pouco me sucede.
Sou, como somos, vão e exposto
à roda dos conventos,
à rosa dos ventos.

À chuva as laranjeiras respiram
vapor de ouro o mais pobre:
assim quisera eu à chuva
respirar de ouro pobres versos.

É muito bonita a poesia.
Mal não faz a quem bem
conhece o vão: da vida,
das escadas, a exposição.

Soberana solitária arte
é a dos versos no Inverno
primevo vitalício
dos parados corredores

como vós e eu. Ainda
não comi nada hoje, só
preciso do ar frio tomando
água de parados peixes.

Os gatos gostam de peixes
como os versos também.
Derredor circunda a corcunda
vida sobre versos.

Tácteis maravilhas digitais,
linhas estas da pobreza.
Um pão é uma rosa,
varra o vento esta mesa.

Varra a mesa este vento
de versos, de rosas, de gatos.
A si enternece mesmo
o próprio com versos.

Conversas de circunsilêncio
demoram a hora soberana.
Passa-se a hora a semana
como a vida em vida passa.

É muito bonita a vida
senhoria nossa. Invernosa
o mais das vezes, é rosa
se em estrofes proferida.

Tenho-me num casaco preto
como o pátio que da Lua
sobra. É obra
viver viversos.

Aranha e estrela, a mão
que escreve. Poços de vidro,
olhos que lêem: assim
sós são os elementos

vossos e meus. Ainda
não vivi nada hoje, só
um clarão de laranjeiras
través a chuva comum.

Estou na demora da hora.
Estamos, somo-vos. Somo-las:
horas e demoras, rodas
de vento, meninos expostos

como meninas, vós e eu.
Em vãos de escadas em vão
esperámos o grande amor,
a lotaria grande, a rosa.

Passam gatos como horas.
O mesmo gato, a hora mesma
própria dos próprios nós:
eu e voz.

Tornam-se-nos ventos lunares
álgidas águas dentro
de que peixes dormem
como versos acordados.

Gatos gastam luas
íntimas deles soberanas
e senhorias e solitárias:
assim a vossa voz minha.

Casa alguma põe o poeta
dentro como a estrofe.
Disse-mo hoje a vida
que não vivi ainda.

Temos tempo. Ou ele
nos tem mesmo e próprio.
Corrido parador como
um peixe ele é, gato.

Que minha a vossa vida voe
a esmo imprópria, pura
e soberana. O mesmo
varra, digo, estes versos.



Caramulo, há bocadito, tarde de 20 de Dezembro de 2007

Wednesday, December 19, 2007

Está Frio Lá Fora Como às Vezes





Cheia de medida
lhe parecia a presença nocturna das coisas,
e como um espaço triste ele se expandia por sobre elas.

R.M. Rilke,
Descida de Cristo aos Infernos
(Paris, Abril de 1913).
Tradução de Paulo Quintela


Está Frio Lá Fora Como às Vezes
...................................................
Está frio lá fora como às vezes acontece cá dentro.
Ouve-se um raspar de mãos de cão sobre pedra.
As casas fecham a cara aos rostos da rua, aliás nenhuns a esta hora.
Uma lua vigora como soro azedo.
Longe, tanto pode ser a voz do mar como a dos carros.
O mundo preside a todas as ausências, todas as faltas, todas as perdas.
É assim que tem de ser.

Podemos espectrar pelas áleas minerais da hora.
Está frio na água que se torna pedra com filhos dentro nadando.
Veios de sal são bocas aqui pousadas outrora.
O vento arrasta a cauda alta pelas alturas vitrificadas.
Respirar é um trabalho duro e mal pago.
Restos de papel de sol ficaram agarrados aos muros.
A noite acontece toda cá dentro. E tudo é fora, ao frio.

Um cheiro são de lenha em lar acesa vem pela rua.
Arde aromático o fogo humano.
Pedra e ar, casa e fraga, cão e pessoa:
inumeráveis algarismos às estrelas sem conto.
Entre árvores, estendem ramos de sombra as estátuas,
olhadas pelas árvores petrificadas, figurantes.
Inflamadas senhoras, e fátuas, umas e outras.

Devemos derivar no mundo.
Facto ou linguagem, o mundo tem de ser.
Atira-nos o frio para a vida e os cães.
Não é a voz do mar, longe. É a dos carros.
Exercício da atenção ao cabo de anos seguros pelo rabo.
Espinhas de peixe, pombas catando pão pelas lajes.
Aproveitar na noite um papel de sol, escrever nele.

Texto:
Caramulo, noites de 17 e 18, manhã e tarde de 19 de Dezembro de 2007
Foto: Caramulo, tarde de 5 de Dezembro de 2007

Monday, December 17, 2007

Árvore do Anis entre Árvores




I

Quer’ eu da sozinh’ árvore a’ utonomia
que solidária é parte de bosque.
Quer’ eu del’ a noite e quer’ o dia,
qu’eu sou mais um a menos de tod’ os que,

ant’ uma ave, árvore ou mulher,
’inda um eu q’ ainda é e quer.

II

Não sabia os nomes das árvores.
Tenho a casa e o corpo cercados por elas – e não lhes sabia os nomes.
Saí de casa com o corpo todo (já o fiz muitas vezes).
O corpo e eu fomos descendo (há anos que o fazemos juntos) pela álea folhada a ouro ruivo.

Havia um homem aparando sebes.
Parei junto dele, fui apontando cada árvore.
Ele foi recitando cada nome de cada uma.

Joaquim Pereira.
Maria Laranjeira.
Leonor Figueira.
Teresa Limoeiro.
Carlos Oliveira.
José Abrunheiro.

III

Longe que andes, sejas e estejas, não deixes
de usar-me os olhos para ver quanto te dou:
estas ruas despovoadas, o pássaro de grito
náutico no mar convexo do céu, a árvore
que desde manhã anoitece, o cão magro
pensando sozinho entre muros.

Nada me é tão próximo quanto a tua distância.
Ando por aqui, o casaco preto sobe-me dos joelhos
à garganta como uma agonia portátil.
Mas está tudo bem, repara, a noite conta histórias:
vê o vento dando nas árvores, essas ínclitas e inclinadas
pessoas vegetais que não andam mas são e estão,

como tu não.

IV

As mulheres dançam contabilidades, mercearias.
Por vezes entregam-se um pouco, ele há dias.
No mais, resistem e existem em dura glória.
Delas o credo reza a história.

Não conheço mulheres. Conheço o vidro.
Sou de uma hialurgia fidelíssima.
Lembro de Dulce a irmã, puríssima,
tão cedo ida, tão tarde sido.

Sou do tempo da permilagem. Escrotos
mal ensacados procriavam
bebés magrinhos que se ausentavam
da rua e dos casebres sujos e rotos

como bonecas de partir o coração.
Partiam as mãemulheres, em minha opinião.

V

Não, Mãe, não tenho nem muita nem pouca pena
de me não ter tornado no herói que, menino,
prometi ser.
Sou um homem que entristece sem ruído nos cafés.
Comove-me ainda, sim, não a visão mas a lembrança
da rosa púbica das mulheres malbaratadas
de solidão.
Cavalos e corvos aprisionam a luz negra
e os meus olhos.
Exalta-me o vento nas árvores – já não posso
combater essa alegria.
Sei, Mãe, tão poucas coisas. Tão poucas,
que escrevo versos para não perder tudo.
Se o meu Pai aqui estivesse, pagar-lhe-ia
um quartilho de água mineral
para que lhe voltasse a água aos olhos
que tanto tempo sem nós lhe secou.

Só sou um criminoso quando amo.
Às algemas da memória entrego as mãos,
a redactora como a solitária.
Algemado entre árvores, esperando o vento,
Mãe.
Cavalos de ar escuro com corvos às costas
fremem, doentes de desejo, ao longo de áleas.

Quando vivia nas cidades, Mãe, tudo era pior.
Fustigava-me a voz tóxica dos carros.
Doíam-me as torres onde encerram crianças e cães.
Só gostava dos bailes: ateneus pejados de putas
latinas escarafunchando dentições e pasodobles,
de machos lustrais de caspa envernizados pela icterícia
e de velhas tão velhas, que os tremoços
eram salgados a carbono-catorze.
Ainda assim, devo ter sido feliz: pouco
escrevia, então.

Raparigas gardeniavam ruas perfumadas
da passagem delas.
Rapazes sulcavam a nado o rio perpétuo,
o rio que nos ensinou o desejo de morrer,
como ele, no mar.
Lia Correia Garção, aprendia a ser usado
pelo coração.
Nas noites de estio, as estrelas pulsavam
como duras flores minerais, da fábrica de bolachas
chegava a mensagem doce que pacificava
os sonhos.

Não sei que raio fiz de tudo isso.
Resta-me o vento nas árvores
em mínimo e último alento
de heroísmo.

VI

Há ainda um resto de lenha, de vida um pouco ainda.
A casa enobrece-se de heráldico bolor.
Mandíbulas de frio cerram-nos os ossos, linda.
Não creio que outro alguém fosse melhor.

Era apenas, ’inda há pouco, a pouca vida
que do caderno gela a pura vontade.
Eram os mesmos ossos, à partida,
por avenidas frias da cidade.

Eram as rimas. Eram os reclamos luminosos.
Era tudo ter sido e repetir-se.
Maravilhosas putas e chulos maravilhosos:
deles e delas vir-se e parir-se.

Será portuguesa sempre a agonia litoral.
A’ mendoeira em flor, a árvore do anis.
Dizer de cor que se é triste e portugal.
E bendizer os pais e o país.

Há ainda alguma fruta ao balcão.
Peixe calcina zinco lavatório.
P’la magra rua passa o magro cão.
Primeiro Viriato, depois Sertório.

As tretas. Os coitos dados contra a alma.
E os infectos afectos esponsais.
Apartamentozitos e triste calma
sem ontens nem montes nem vendavais.

Calma. Uma paz d’ esp’rito nos subjugue,
pastelarias planam ao rés-do-chão.
E que a velhice, ao menos, nos enxugue
a néscia cegueira da paixão.

Agora, desde que tenho têvêcabo,
viajo alaskas, tundras, taigas boas.
Antigamente, não, fritava o rabo
em eldorados fados de lisboas.

Há ainda um resto de lenha, um carapau
moído a alho, colorau, azeite.
Ser português agónico não é mau:
sempre dá flor, anis, amêndoa e leite.

VII

Pendem das árvores os anjos.
Cheiram a homens e a mulheres
idos e por vir.

Pagelas pergaminham estéreis santos
em nichos de veladas ramagens.

Deus deixou tanta fruta apodrecer.

VIII

Comprimo a violeta do coração
entre folhas tocadas pela graça
irrisória da rimação
que às vezes, caraças, passa

por poesia – mas não.

IX

O homem vestido de azul à berma do rio.
A mulher passando verde entre roseiras.
A morenidão da catedral contra a cinza de Deus.
O colesterol dos autocarros nas artérias da cidade.
E a memória que me usa como a moeda falsa.

As pastelarias açucaradas de solidões.
A alta tensão das linhas, longos os campos.
O músculo da língua movendo tudo.
O hotel pobre onde os artistas.
E o amor que me move como a cavalo em tabuleiro.

A rosa crescendo de lado para ser vidro.
A barriga da mulher pensando vermelho por dentro.
Os passos perdidos como moedas em troca de calças.
O desamparo como um mel agarrado à pele.
E a infância que me guarda como data em mármore.

A gare ferroviária varrendo ventos de partida.
As pessoas à janela olhando como janelas.
Os cavalos ocupando as casas nigérrimas.
A lágrima horizontal dos arrozais.
E a morte que tenho certa como um retrato na sala.

O nascimento dos novos contribuintes.
O subsídio moral da miséria do corpo.
O luxo de uma noite lacada a mulheres.
Os homens interessantes com cálices e segredos.
E a minha vida escalímetra de azimute nenhum,
entre árvores.

X

Uma pedra de sal na ponta da língua
indica à criança a amargura a vir.
Também lhe ensina o trato humano
do peixe morto por ela, em prata.

A uma luz de fim de dia, pode a criança
ler o trato do ouro em o mais pobre papel.
Maria! – chama dela a Mãe, também criança,
tão cedo tão casada com Manuel.

Uma língua de presunto amarelece
no mosquiteiro breve em vão suspenso.
Dorme a um canto a insone avó emudecida,
sente-lhe a criança a escatologia.

Tudo é pessegueiro, tudo é dia
no clarão do quintal iniciador.
Uma criança é breve: quem lho diria,
fundada ou não fundada no amor?

Maria! Manuel! Quem vai ao sal?
Já ferve a praia escumas cronológicas.
Passa um vento de areia, uma luz fria.
Quem vai ao sal? Manuel! Maria!


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Datas:

I – Caramulo, noite de 6 de Dezembro de 2007
II, VII, VIII e IX – Caramulo, tarde de 11 de Dezembro de 2007
III – Caramulo, entardenoitecer de 10 de Dezembro de 2007
IV e VI – Caramulo, noite de 10 de Dezembro de 2007
V – Caramulo, noite de 9 de Dezembro de 2007
X – Caramulo, tarde de 12 de Dezembro de 2007

Wednesday, December 12, 2007

São



In memoriam Conceição Pinto, desde esta madrugada, desde sempre



Conheci a flor deitada da tua boca,
sopesada a morango a labiação.
Olhos puros como água ao sol.
E uma pele de assumpção litoral.

Soube de tua adiada maternidade,
que resultou em menina de que,
dela represa, sobreviverás ainda,
enquanto ela nos te viver.

Às terças, fechava a Leitaria do Raul.
Era no ano do Nobel do Gabo,
o Fausto por este rio acima.
Abaixo, queria ele dizer.

Voltei um dia a Coimbra, telefonei-te.
Tua era uma voz fatigada de flores.
Molharam-se-me os olhos: sempre
me dei a mariquices telefónicas.

Hematologia não foi tua uma boa escolha.
O teu pediátrico coração em uma horta
trabalhar deveria: outras crianças terias
no humilde nabo, no duro feijão.

Perlaste, e perlas, ácidos cristais
em retinas aqui vazadas de mor pranto.
Mãe do sal, que cloreto se chama, és
um pouco mais ainda, do mármore antes.

Cada 10 de Abril cumprias o que seguirás
cumprindo dentro de quem se esquece que vive
para viver sem esquecimento: dos Pintos
de Seia, uma de oito filhos nascera.

Apodrecem muito os relógios humanos:
alternativa e vã terapia é a poesia, São.
Guardaremos ambos estes versos em uma
gaveta de velha roupa, deitada a flor na boca.



Caramulo, tarde de 12 de Dezembro de 2007

Monday, December 10, 2007

Telejornal

Mais uma crónica da série Rosário Breve para O Ribatejo (www.oribatejo.pt). Publicada a 7 de Dezembro de 2007.

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Telejornal

O Governo vai instalar 100 novos aparelhos de radar rodoviário para que o País saiba a que velocidade está a ir para o abismo.
A Câmara de Lisboa vai contrair um empréstimo de 400 milhões de euros. Esta manhã, pedi cinco à minha mulher e ela olhou para mim como se eu fosse o António Costa, hoje, ou o Santana Lopes, aqui há uns tempos.
Luísa Mesquita expulsou o PCP do Ribatejo. Ser comunista equivale cada vez mais a ser do Belenenses. Do Belenenses ou do Lusitano de Évora.
Com a subida da taxa Euribor, os assaltos a bancos são cada vez menos de fora para dentro e exponencialmente mais de dentro para fora.
Quando o barril de crude chegar aos 100 dólares/barril, a luta contra o terrorismo estará unida e nunca mais será vencida.
Um responsável do PSD de Pombal apareceu numa festa com um boné do Che Guevara na cabeça. Riu-se para a fotografia com cara de quem também gosta muito de crianças e de bombeiros e de coisas boas como as “causas”.
Desde que em Portugal acabaram as estradas e começaram as “acessibilidades”, o País tornou-se inacessível e foi pedir para a estrada.
“Empresários” da noite do Porto e de Lisboa andam a matar-se uns aos outros. Continuai, meus filhos, continuai, que ides no bom caminho.
Fulano da GNR que assaltou bancos sete vezes foi coagido a termo de identidade e residência. O pai adoptivo da Esmeralda foi preso. Não dá para perceber a tropa.
O Comité sueco vai seguir a recomendação de Ramos Horta relativa ao galardão da Paz para Durão Barroso. Com esta ressalva, porém: o Nobel passa a chamar-se Paz d’Alma.
Dois cozinheiros portugueses publicam livro com receitas bíblicas. Como a tâmara não abunda, espera-se o ressurgimento da empada de gafanhoto e da bolacha ázima de folha de oliveira.
O Benfica foi ganhar por 1-2 à Ucrânia. Os adeptos do Shaktar Donetsk não acompanharam os encarnados na deslocação.
(Se o pai adoptivo da Esmeralda percebesse alguma coisa da taxa Euribor, tudo correria pelo melhor.)

Friday, December 07, 2007

Tiro a cabeça e ponho

Tiro a cabeça e ponho-a ao ombro
como a um pássaro. Deixo a mão
nela – para que lhe faça festas
e a acalme quando for preciso.

O coração é um músculo.
Faço muita musculação.
Osculo na recordação
o teor minúsculo
da acalmação.

Era o mar, antigamente.
Hoje é só sexta-feira.
Tiro o ombro de baixo da cabeça,
deixo-a cair ao chão,
fico com um ombro na mão.

Tiro o sexo da minha vida.
Não vou forçar nomenclaturas,
mas ele já m’houve certas alturas
de entrega a mais perdida.

Contra Pai e Mãe se não copule,
digo eu – que o cinza-céu, quando é azul,
chove e não chove, faz frio ou não
– deixemo-lo cair ao chão.

Revoam folhas outonais pelo chão
dos tiradores de cabeças.
É uma tarefa, estar claro e atento
nas variações de cinz’azul.

Riscos de gelo tiram cópias de ADN,
gerados os frios de antigamente:
eu queimo azeites de querosene
e não me sinto diferente.

Sou-vos igual porque tiro a cabeça
e a mão deixo. Talvez um verso
faça a diferença: entre vida e morte,
nunca entre vida e vida.

Mais crianças me apoucaram
o solitário fermento eterno:
num gesto branco que traçaram,
acabaram, súbito, o inverno.

O que d’inverno trago comigo
não é de pouca monta:
apenas algo que aponta
ao leitor o que é consigo.

Tiro o ombro, à cabeça o ponho.
Desmantelo o puzzle, quando sonho.
Tiro a cabeça, ponho a cabeça.
Tiro a mão, deixo, só, o coração.



Caramulo, entardenoitecer de 23 de Novembro de 2007

Thursday, December 06, 2007

A Noite em Breve - 14


A Noite em Breve
ou
Coruscações no Imo de Sombras

(uma portugalidade delével)

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14
Caramulo, entardenoitecer de 25 de Agosto de 2007


A tarde foi sem sol à vista. Impediu-no-lo uma massa de pintura em cinza de fogueira fria: o anil cedeu ao cartão em pinceladas largas, numa superfície lisa aqui e ali mais densa. Trabalhei pouquíssimo. Depois de almoço, a gata deitou-se-me nas pernas e adormeceu como uma princesa presa da doçura fatigada do baile. Deixei-me estar também, nestoutro sofá de vinte e cinco anos depois: não chove, não tenho cães nem casinhoto de madeira.
Temperei a carne para o jantar, deixei-a no frio, o homem veio comigo para que o deixasse viver em linhas que não mudam nem escrevem o mundo, mas que os lêem: ao mundo e ao homem. Esta noite passa um filme dos Irmãos Marx na televisão. Responderei “presente” à convocatória desses formosos loucos. Enquanto não, entrevejo um jogo de futebol na pastelaria, através de uma galeria de cinco sentados. Ao intervalo, levantam-se, pagam as cervejas, vão-se embora, ficamos eu e este homem nos meus ombros como um pássaro absorto.
Neste momento, por todo o mundo, homens e mulheres escrevem linhas. Desfecham códigos novos, na prática intransmissíveis. Comentam a vida e a morte e a praia e a árvore e a rua e a mulher e o homem e a memória e a vida. Pendem sobre essas nucas a espada do Sol e a espada da Lua, cujos fios reverberam ouro e prata, manhã e amanhã, noite e dia. A solidão tem muitos filhos. É uma água muito pura, provinda de glaciares onomásticos, territoriais, indevassáveis.
A uma janela alta, recordo, olhando longe, aos pés, uma praça de seis árvores, uma papelaria escolar, uma tasca de bifanas, uma loja de electrodomésticos e um vão esconso de advogado alcoólico. Repeti-me nesta posição tantas vezes, que não tenho data para indicar. Todos os meses de todos os anos, suponho, estive a uma janela alta, recordando prospectivamente o que via na praia de seis árvores etc. Maciços de nuvens rolaram pelo céu breve. Nas minhas costas, pelo corredor de ligação do piso alto, o rumor da mesinha de rodas com termos de café, leite e chá, pacotes transparentes com bolachas, saquetas de açúcar (6/8 gr.), cubos de guardanapos de papel, colheres brancas de plástico. Nas minhas costas, os gabinetes numerados, uma etiqueta sob o número denunciando os clínicos de serviço. Pelo intercomunicador, roufenhava o chamamento dos condenados à tristeza. Velhos, crianças e gajos como eu: gajos-já-em-crianças-velhos. Em baixo, no largo das árvores, o desfile silencioso dos outros. O papel-de-parede imitava uma floresta outonal. Cheirava a clorofórmio e a psicologia. Mais importantes do que os doutores, só as enfermeiras. A administrativa aborrecia-se ao computador, ligada pelo messenger a ninguém, entremeando o tetris com a aceitação de consultas. As luzes neonizavam toda a esperança. Eu, de costas. Pelas dez da manhã, peões ingressavam já no tasco de bifanas para um copo de branco. Devo ter estado muitas vezes de costas, não mais. Devo ter descido, entrado na bifanaria e pedido um branco, anos antes ou depois. Atrás da praça, a ferrovia. Se não me atirei à linha, foi por ter-me atirado às linhas.
Noutros natais, caminhei na noite. Era sob as iluminações festivas. As cores enfraqueciam. Só alguma chuva as vivificava, a troco da poalha estrelada na íris. Fechava o coração no casaco, abria-o quando conseguia um lugar individual nalgum comedor. Ficava até depois do último cliente, o patrão da casa sentava-se-me ao pé, conversávamos até serem horas, de quê horas não sei. Voltava às ruas, caminhava. O Jesus municipal de serviço dobrava no carrilhão do convento. Ia até ao extremo norte da povoação, matriculava-me na horda de desavindos ao balcão do bar da estação de serviço. O carro da polícia vinha de vez em quando, nunca quando era preciso. Havia de tudo: um poeta, uns ciganos, umas cachopas que aceitavam uma-bebida-depois-mais-uma-já-agora, vendedores cansados e murchos como flores de varanda, viajantes que paravam para um café e uns minutos imunes ao hipnotismo dos traços descontínuos, alguns músicos sem contrato. Vezes houve em que entrei para o banco de trás do carro de um semiconhecido, era levado para a desalegria solidária dos bares de alterne, quem tinha dinheiro subia aos quartos do primeiro andar com alguma nativa de Goiás ou de Odessa. Eu ficava em baixo a ouvir Roberto Carlos. De vez em quando, escrevo uma canção para cantor nenhum.
Pela alba, as alternadeiras desentristeciam, recebiam as percentagens e iam comer sopa e bifanas no pão ao bar da estação de serviço, a que recolhíamos com elas. Os natais, colados a cuspo uns aos outros, passaram todos. Fui primaverar para outros lados idênticos, antes da montanha que me permite não apenas a noite em breve como algumas coruscações (deléveis, portuguesas) no imo de sombras.
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Texto: Caramulo, entardenoitecer de 25 de Agosto de 2007

Foto: Caramulo, noite de 5 de Dezembro de 2007

Wednesday, December 05, 2007

Últimas Treze das Vinte e Uma Histórias Universais

9

A mais recorrente possibilidade é que te tornes uma mulher morta, para além de velha – e que não, não volvas – não para minha mãe, mas para a rapariga que te não quiseram fosses.

Ainda assim.

10

Não botes nomes aos bichos, mas recorda alguma vela acesa no Verão, numa noite de vento perfumada de rosas e de comida, quando o vinho não era a última mas a primeira porta.

Uma volúpia de pés individuais não fechados em calçado respirando na mornidão mineral da tua História Universal.

Não catalogues já a passagem, faz de conta que tudo te pertence, se recordas, e quando recordas, sem que para a frente, ou pela frente, te esperem, de instituições, os muros brancos e a erva desprezada pelas juntas de freguesia.

Alguma amizade por ti mesmo não soçobre – como excessiva não sobre.
De lances marítimos em terras sem mar poderás prover tua barriga – e a teus pés tais, os da mornidão de cozinhas históricas.

11

Chamo-me poucos nomes, ainda assim.
Faço como as pessoas que perante o mar olham o céu.
Aqui onde me chamo o céu é de poças de chuva no chão.
O vento toca as árvores como a gado, junta-as para que durmam, é muito provável que ele as ame e as chame sem nome.

12

Outro dia
talvez.

13

Ponho a minha boca nos muros para saber que dizem os lagartos, como nós frios, como nós solares e mudos.

14

Homem em tua roupa emprestada pela terra, não irás a tempo mas deves na mesma ir.

Marinham-se entre dedos fugitivas crianças arenosas do tempo delas, não do teu.

Viver não tem mal algum.
Uma qualquer terça-feira perante o mar te o pode demonstrar.

Homem vai ao mar.

15

Todas as noites a música me desce como se eu
fosse as escadas que ela usa para subir.

Deito-me ao mar na cama e navego a mais
quieta maré de abertos olhos no escuro lunar.

Uma gota de água conta o tempo de esmalte
e quer ser branca mas aumenta a negra noite.

De manhã conta ainda e ainda canta
só que agora é de chuva na rua das árvores.

O meu trabalho é ouvir música em destelhados salões
atento à pobreza pecuniária dos músicos.

Na imaginação vibram como tangerinas pobres
as lâmpadas coloridas de romarias e recitais.

A muitas aldeias tenho ido escutar a chuva
e os músicos que enriquecem por quatro andamentos.

Todas as noites não vou às aldeias vou ao mar
ouvir a música que a areia conta gota a gota.

Esmalta-se-me a carnação breve – e breviária me
resulta a ladainha contadora de árvores e de gotas.

Todos os dias toco todas as noites
todos os dias é de noite.

16

Água, terra, ar e montanha: e
longe o corpo perante o mar.

17

Nas linhas das mãos a cosmogonia insensata
do trabalhador que vê rios onde apenas linhas
não estrelas
– nem para elas caminho.

Nos olhos cristalizados pelos dólares
as montras do sono adoecido de sonhos:
quem te olha os olhos sem dinheiro.

E a senhora como está a senhora onde
está a senhora de fechadas linhas
e adoecidos cristais?

Toca o vento as árvores como a gado de estrelas.

18

Ficarei talvez um pouco, não longe da Igreja de S. José, em cujo adro de pedra vi outrora muitos cães e uma só cadela, que todos eles queriam por mulher por minutos.

Talvez um pouco na minha cidade outrora, amador já de uma tristeza não ainda mortífera, mas pronta por minutos.

19

Boca angariadora de surdos ditos
auxilia minha mão escrevedora
tal foras a senhora dos aflitos
e de gritos a suave regedora.

Suave linho lie a ti em sono
quanta insónia acorde e reveja
em lã a mais vã lenha de outono
ardendo azeite a frio na igreja

da senhora dos aflitos.

20

Talvez me tenha enganado
talvez não saiba ser bem dito
tal me confundisse o fado
da senhora e eu aflito

na boca angariadora.

21

Alguém parecido com o meu avô
alguém parecido com o meu neto
uma linha de mão
não uma linhagem
uma linha só
de homens sós
de História Universal.



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Datas:
9 e 10 (Caramulo, tarde de 19 de Novembro de 2007)
11 a 21 (Caramulo, tarde e noite de 20 de Novembro de 2007)
Foto: Coimbra, tarde de 1 de Dezembro de 2007

Mais Quatro das Vinte e Uma Histórias Universais


© Martin Zurmühle
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(Depois das primeiras quatro, mais quatro das Vinte e Uma História Universais. A fotografia não tem nada a ver com o texto, mas tem muito para ver.)



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5

Já vos aconteceu recordar com outro corpo?
As mesmas coisas da vossa vida – com outro corpo?
Não digo – idênticas coisas.
Digo – as mesmas coisas.
Sim?

6

Não tíbia nem umbrosa me resulta a recordação.
Pouco me conta, já, ter uma colecção de apeadeiros.
A viagem é não cessante, não apeante.

Não havia um tudo que nos dissessem em crianças.
O tudo é feito de coisas-poucas: coisas-nadas.
Os cantores na televisão, envelhecidos e portugueses, esmolando um pouco de ribalta em nome de antigas luzes.
Os poetas pusilânimes de todas as gerações, envelhecidos de facto e talvez portugueses, juntando o rabito aos aquecedores eléctricos dos paços municipais para chófágem da gloríola local em portos-de-honra com croquetes vegetais.

Não.
Nem tíbia nem umbrosa.
Também não nívea, nem rosa.
Mas não tíbia nem umbrosa.

7

A tua cara
quem quer que sejas
num automóvel fechado
na noite do dia em que tanto choveu.

A tua cara
traindo a tua fadiga e a tua esperança
a tua pueril força quase desumana
na noite do dia em que tanto choveu.

As tuas mãos
enclavinhadas no volante
como garras ou algemas de prata ou papel
no dia em todo o dia foi noite e água.

A tua passagem
sob os castanheiros
distraída talvez pela rádio ou pelo desamor
na tarde que se nos fechou
quem quer que sejamos
como portas de enferrujado ferro.

A tua transeunte humanidade igual
– mas nunca idêntica –
à de todas as mulheres
que como tu regressam
sem nunca ter chegado
dado
o que chove.

8

Talvez as pessoas façam como com o crédito bancário
– e entristeçam para além das suas possibilidades.
O casaco daquele homem é de bom cabedal
– como de qualidade é a tristeza da cara dele.

Emperucadas de laca surgem mulheres sem razão.
Penso que lhes assentariam mais bem as cãs sérias,
não estas lérias de gelestúdio e minifranças
que tão cerce as volve crianças necrotérias.

Talvez eu seja um gajo cada vez mais decerto.
Talvez fora de facto isto o que viera fazer.
Hoje assim é e nem sequer
preciso de recorrer nem à banca nem à mula manca.

A língua me basta para repertório de dias,
noites me não surpreendem sem falatório.
Chispam luzes no céu em sezões frias
– e eu contando histórias e versos e noites e dias.



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4 a 8: Caramulo, tarde de 19 de Novembro de 2007

Quatro de Vinte e Uma Histórias Universais



1

É sempre com violência que se ama.
Eu amo violentamente o trajecto que me leva, cada entardenoitecer, pelo parque.
Alto é o anil da Lua.
Enegrecem as árvores e a respiração, simultâneas, contemporâneas.

Alto é o anil da Lua no meu amor ambulatório e doente, ao entardenoitecer.
Agrestes são as rendas na cara, ramos vivos, digitais, que a cara me querem e alcançam.

Ocultamente miro as casas fechadas, na orla do parque.
Mortas casas – mas não vazias. Janelas vi já assomadas de raparigas transparentes, convidadoras e mortíferas, de olhos queimados e queimada boca.

Nunca poderei sair daqui, já sei isso, como sei que não amanhecerá, não neste poema de deliquescente anil.
Sangrado de vivos ramos, orlarei para sempre a noite que me visitou o coração antes que pudesse escrever tanta violência.

2 (de comboio)

Comboios devassam os territórios da minha vida.
Janelas mudam os planos, não o filme.
Casas e pobreza somam-se para meu encanto, assistente do baço clarão da manhã nas coisas.
Ferruginosos ouros são vinhas exaustas, em Novembro.
Cabeleiras canaviais aos ombros das valas.
À passagem por Coimbra, encebola-se-me o coração: tudo é ainda meu, que nada possuo.

Uma mulher aparece no corredor.
É de uma secura de bacalhau, todo o eu dela.
Agarra-se a uma revista como a um breviário frívolo.
É engolida por uma porta, desampara-me verso e loja.
Fora, o sol adentra a bela tristeza do mundo.
Conto laranjeiras e quintais – e velhas e carroças.
Vi quatro vacas brancas juntas como jogadores de sueca.
Revi o pelado do Sporting Clube Ribeirense.

Muito mato, um cedro, oliveiras, duas figueiras.
Vasto e breve – como a vida – é o campo aberto pelo olhar.
Olha: cavalos lendo o chão, comedores: só me deixaria cristianizar por olhos como os deles.
(Talvez eu ame mais a vida do que é admissível.)
Choupos, ulmeiros, salgueiros, chorões.
Dois santantónios e uma senhora-de-fátima em azulejo.
Cinco homens vestidos de amarelo removendo madeira.

Nó do mundo: Alfarelos: tão pouco mundo, tanta a passagem.
Roupa a secar num pátio: notas de cor na pauta glauca.
Aceleração e pinhais, breve alegria e mais cavalos.
Trabalho as transmudações para que a mesmidão resulte.
Conto estar vivo à chegada – aonde for, quando for.

3

Hoje não vos falarei tanto de ouro porque a chuva voltou hoje.
Ela descobriu-nos de novo, a antiga.
Fui aos Correios cedo.
Enviei palavras, talvez algumas me regressem, não sei.
A ver. A chover. A cho-ver.

4

De cima e dos flancos: fechou-se-nos o mundo.
Na oficinauto, dois homens arrefecem: fardados de chumbo como os pombos, cheios de frio e de sono.
O dia fechou-se o dia todo em uma noite sonâmbula.
Deixou de haver vale, não se vê a outra montanha.

Tenho à frente um livro que não leio, outro que mal escrevo.
Ao balcão, um casal novo injecta-se de café com leite e água mineral.
Tenho de aprender a escrever sempre que escrevo.
As coisas aí estão, aqui são: o movimento da terra, a hóstia lunar, a chuva encefálica, o taxista velho, a majestade dos castanheiros, a vida fabulosa.

Ainda nem cinco da tarde são.
Tenho uma colecção completa de apeadeiros com nomes de gente.
Sexta-feira passada, fui de comboio.
Devo ter regressado entretanto, não sei.
Há um homem velho que quer comprar o nosso carro velho.
Eles aqui ligam a televisão durante o dia.
De manhã choveu mais, mas é mais triste agora, viver.

Há outro aspecto: é como na banheira.
Um dia assim, em que de uma vez só o Inverno nasce e é grande e nunca morrerá: é como na banheira: a surdez, a intimidade e a introspecção ardem na água.
Os corpos humanos que o mundo usa para usar o tempo – esses corpos vejo graves, na facção puríssima do anonimato.
Casacos, narizes, botas, sacos, chávenas – os subúrbios dos corpos nus, íntimos, introspectos.
Abertos ao mundo que se lhes nos fecha, eles, os mortais eternos nossos irmãos.


Datas:
1 (Caramulo, noite de 15 de Novembro de 2007)
2 (Viagem ferroviária Caramulo-Pombal, manhã de 16 de Novembro de 2007)
3 (Caramulo, manhã de 19 de Novembro de 2007)
4 (Caramulo, tarde de 19 de Novembro de 2007)

Tuesday, December 04, 2007

Quando Há Rebentamento das Veias

Mais uma gloriosa lista de palavras de busca que me desaguaram no contador do Canil. Palavras para quê?

*************

tamanho da bola de andebol
poesia sobre bombeiros
antonio marinheiro
apelidos para cegos
as crianças antigas
diamante de romell (risco quimico)
quantas horas de viagem a Viseu
Estrada na Entrada da Pedrulha
poema sobre osga
La Reproduction Interdite Magritte
casas em arvores
so santantonio para camionetas
parede forrada a tijolo de burro
receitas isca mata baratas com gesso
quem foi daniel del foi o autor do livro robin crusoe
poemas que falam sobre doenças
campos de arroz do louriçal rimado
QUANDO HÁ REBENTAMENTO DAS VEIAS QUE LIGAM O FIGADO AO CORAÇÃO
soneto ao licor de rosas
sãozinha da abrigada
taberneiro mercearia
mulheres gordas
bebes gemeas carecas dos olhos azuis
O burro e o cão O dia mal amanhecia e Joaquim ia para a horta
recepção de peixe congelado a embalagem podera ir para a arcas
napa de tabuleiros de xadrez varios cores
poemas sobre o homem velho
Casalinho Duro Velho 1983
correio manha dia 3 outubro 2007
por que o ovo flutua na água gelada e afundo na água quemte?
poesia o passinho da bailarina
tolo
roupa de criança norueguesa

Sunday, December 02, 2007

Adenda

Ontem, por causa de insensatas pressas, esqueci-me de transcrever do caderno para o Canil a 3ª quadra da III Ode. Já lá mora.

Odes (Barato)

Ontem à noitinha, última de Novembro, deu-me para escrever quatro odes antes de ir para a rádio trabalhar. Saíram estas. Chamei-lhes Odes (Barato) por ter achado piada ao trocadilhozito, aliás reles. Era para lhes ter chamado Vê Lá se te Odes. Tudo por causa da III delas, que é brutinha e tem asneiras e tudo. Enfim, um divertimento.


*****

Odes (Barato)


I. Ode Tida

Já tive dias, versos tenho só já.
Flores de azulejo – nenhum jardim.
Fosforeflores brilham de noite para mim:
aves de estuque que no céu do quarto há.

Pequenas rimas, cesuras brancas:
de inverno exílios sossegados.
Voltas ao frio, vendo prados,
olhand’ ovelhas tristes e mancas.

A mesma noite sulco ainda:
em frasco d’éter conservado,
eu lagartixo os muros do passado
e tapo a feia fenda com a linda.

Tud’ é assim tão triste? Não, não é:
eu sofro alegrias pequeninas,
como ter das merceeiras esquinas
o cheiro a sabão e a café.

Ou o florão de cal da onda fria,
da cal do Baleal, que é azul:
o mesmo Raul Brandão ’inda a diria
mais bela lusa praia, norte a sul.

Uns brancos pés de clara mulher alheia,
crianças revoando matinais.
Estrelas e caracóis em espirais
do ADNiverso a mesma ideia.

A pureza distraída de nossas filhas.
Uma folha pela chão escrita de cor
pelo suave Outono escritor
capaz de mil quadras, mil sextilhas.

Melanco’ólico às sextas-feiras,
meus versos cada dia epifanias:
são as minhas mais sóbrias bebedeiras,
que já só versos tenho, tive dias.

II. Ode Aeronáutica

Já o sol contempla só o avião que alto
dele sol ardendo passa como espada de anjo:
à terra tomou a névoa, a humana e a outra,
a de caídas nuvens como anjos sem espada.

Como o meu amigo Joaquim diria, é tudo muito
belo – muito triste tudo diria, e digo, eu.
Rimam tristeza e beleza – assim a Língua nos
convoca percepção, entendimento e resignação.

Pássaro algum, porém, é sem pés e só asas:
assim, humanos e pedestres em nevoento baixio,
ao céu de aviões os olhos ergamos, nem que
apenas pela espada de ouro, se não pelo voo.

III. Ode Moteleira

Motéis albergam tipos cavaleiros
de rocinantes fêmeas dulcineias:
casados contra outras, cavalheiros;
casadas ou não elas, boas ou feias.

(Guarita recepciona multibanco.)

Pára-se um pouco à frente por cautela.
Mete-se o el contado pela janela,
que o cartão é revistado por ela,
a esposa, amanhã cedo no banco.

Aos quartos separam tabiques finos,
dois gajos se avistou entrando ao mesmo:
não correm risco, eles, de meninos,
torrões contra torrões só dão torresmo.

Esta é enfermeira quarentona
e quem com ela chega, sessentão.
Dois milagres se espera: um da cona,
outro que ela cause em tesão.

Ist’é tudo por causa da TV,
qu’exibe desamores americanos.
Que não sejam amores, mas guanos,
importexporta pouco, já se vê.

Vem mais um casalinho-internet,
ficam os filhos em casa à consola.
Ela tem dois; ele um – e quem os mete
à frente de um livro para a escola?

Pelas três da manhã, tosse o gasóleo:
acabados amores não começados
aos lares retornam, já trocado o óleo.
Isto nota-se mais sextas e sábados.

IV. Od’ um Dia

Um dia
talvez hoje
não pedirei o sal da tua boca.

Por localidades avulsas
circunscrevo cães pobres e pobres homens:
ao futuro me habituo

sem ti já.



Caramulo, entardenoitecer e noite de 30 de Novembro de 2007