Wednesday, October 31, 2007

O Tó tem 308 Pais - Rosário Breve nº 24

Na edição desta semana (2 de Novembro de 2007) d'O Ribatejo (www.oribatejo.pt), a crónica nº 24 da série Rosário Breve. Porque calar não é morrer - é estar morto.
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O Tó tem 308 Pais

Vivi anos a fio numa cidade tão fraquinha, que os vereadores locais eram apanhados a lamber placas de trânsito para compensar com ferro a anemia das mentalidades. Era em Portugal, algures. Tirei entretanto a terriola da cabeça, como se faz a um desamor ou a uma lêndea. Hoje, recordei-a porque sim. Devo estar com saudades do ridículo.
O presidente da Câmara era um energúmeno que sujeitava a língua portuguesa a sevícias homólogas às dos curdos no norte do Iraque. Cheguei a sonhar com ele, desejando-o curdo-mudo. Sorte nenhuma, claro: o fulano ainda lá está e manda e pode. Multiplica rotundas por vingança da rotunda asneira que foi elegê-lo. Baptiza bairros da lata com o nome do neto, que é igual ao do avô. Mastiga em voz alta nas tasquinhas, demonstrando à saciedade e à sociedade que quem vê cáries, vê corações. Nas assembleias municipais, é dado a flatulências a que todos, por bondade, chamam discursos. Nos jantares rotários, passa a sopa a dizer mal dos Lyons e depois vice-verseja muito corado e muito contente e muito nutrido e muito redondo – como um bácoro.
A mulher dele, com desgosto dele, passa a vida a arrefecer nas igrejas – em desagravo, não do Coração de Maria, mas do nosso. É uma esposa entristecida: tantos sucessivos mandatos de pública vergonha enxugaram-lhe os fiambres feminis e escureceram-lhe as retinas, arabizando-a para sempre.
O filho é sempre António Francisco: chamam-lhe Tó Chico Dependente, porque, como toda a gente, depende do pai. Fuma tabletes de chocolate marroquino em estações de serviço néonizadas pela dormência pós-moderna do insucesso escolar.
Como as minhas ex-mulheres trabalham todas na autarquia, vejo-me obrigado a cronicar mal dele longe, lá para o Ribatejo, onde, ao menos, me deixam exercer a esperteza saloia de, dizendo mal dum autarca, me arriscar a acertar em cheio nos outros 307 deste País sem vergonha nem remédio.

Nove Dísticos Minerais


I

Em pedra são os poemas com que Deus nos escreve:
páginas de mármore com nosso nome – e deitadas.

II

Se a Lua te surpreender no Mar, a ambos aceita:
únicos são, Lua e Mar, que não tu.

III

Mínimo menino (dois anos) em chão de pastelaria:
todo o futuro lhe é de borla.

IV

É com a parte branca dos olhos que olhamos:
ou a neve por nós.

V

A glória de um lírio molhando o único pé em água:
únicos pé e água.

VI

Noites passadas a voar alto, de manhã:
cada dia.

VII

Uma súbita desistência do sangue pode
convocar pedras e sombras de pedras.

VIII

Quantas vezes na vida dizemos miosótis?
Poucas, azuis vezes.

IX

Se a Lua te surpreender no Mar, aceita a ambos:
âmbar único são, que não eu.


Caramulo, noite de 30 de Outubro de 2007

Tuesday, October 30, 2007

Fechado ao Comércio – um poema absolutamente quarentão

Foto: © Stephen Shore,
Church and Second Streets, Easton, Pennsylvania, June 20, 1974
Fonte:http://www.masters-of-photography.com/

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Levei a minha vida a uma loja de trapos
e aceitaram-ma para revenda.
Vim de lá com o coração vazio
como uma viela nostálgica de gatos e de bêbados.
As minhas mãos cheiram a cebola e a alcatrão.
Tenho poucos estudos:
tão poucos,
que nunca vi uma escola de persianas abertas.
O meu pai deve ter sido marinheiro,
que a minha mãe ficou para sempre
na maré mais baixa:
o parir sem amor antes
nem depois.
Ando entre vós pelas ruas,
sem voz.
Em todas as cidades reconheço a mesma.
Parecem-me mulheres deitadas, as cidades.
Deitadas e quebradas, não longe de um rio.
Nas estradas, animais atropelados não dizem
como foi.
Também há poucas notícias.
No Verão, os ranchos folclóricos atacam.
O mar diminui-nos a esperança e a dúvida.
Os outonos perpetuam-se no idioma.
Ao espelho, barbeio uma ausência.
Em terra, semelho uma pedra negra
de frio.
Já me aconteceram coisas.
Quando era muito pequeno, cresci tudo.
As fotografias embalsamam os dias:
os dias e a pobre gente.
Fui menino entre cães.
Oliveiras urdiam azeite e luz cinza.
Territórios cartografavam a perdição.
Hoje, não.
Hoje é o tempo que perdemos,
uns contra todos os outros.
Estou parado à berma da memória
como uma cona de aluguer.
Só dormindo volto a ser a ave masculina
pousando na água dos olhos das mulheres
todas.
O resto é o idioma do domingo
encerrador de vidas e de
lojas de trapos.

Caramulo, tarde de 30 de Outubro de 2007

História da Minha Pilha e outras Maluqueiras

É o regresso, em glória plena, das maluqueiras keywórdicas da net. Por mais verso que me saia da mona, nada posso fazer para suplantar estas coisas. Ofereço-vo-las.

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Por que razão se cravam pedaços de Zinco nas placas de ferro dos navios?
Maias jantar num hotel central-narrador
aviarios de periquito inglês
nazare chicletes rebuçados
homem,rua,carro,escuro,chuva,buraco,cidades lojas,
O Malandro, na dureza, santa messa du café
comezainas sopa de tomate para perder 7 kg numa semana
biografia de léo ferre
lojas que vende acento de privada tigre na cor verde
como se chama a peça de ourives usada para fazer botões em relevo
salva de prata com fauno e coelhos
frutos secos pevides na gravidez
ampola caramelizada
gajos que estragao a pila
oracoes ao espirito de lus do doutor sousa Martins
ver crianças com fissura
versos negros ( nem tanto)
passarinho neve VACA nem todo mundo
poema para frango
proteses acrílicas
um soneto q fala sobre mastigação
poruqe os escorregadores que terminam na agua costumam ter agua que desce junto com a pessoa
QUEM ME OFERECE UM GATO PERSA?
frase de amor para por caderno de um aninho de criança
fotos de moveis pintados com patina antes e depois
a historia da pilha de Daniel
lidia cabeleira
camisa suada musica para ouvir grátis
E rolam pelo chão as bolas de palha na cidade fantasma
pelotao de morteiros
ortografia ah ha a
pulseiras electronicas para meninos e doentes com alzheimer
aparelhagem tony carreira
desenho para COLORIR DO PROFETA ELIAS
arvores japonesas
receitas de broa de milho de febres Cantanhede
alfacear
putas dando a pomba e tudo mais
demonstraçoes das casas do futuro
versos de falsas amizades
partitura bouree
maquina de ensacar mel

Friday, October 26, 2007

Em Flor - Rosário Breve nº 23

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A partir de hoje, sexta-feira. 26 de Outubro de 2007, n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt)
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Em Flor

Perde-se muito mais facilmente a dignidade do que a vergonha, sobretudo quando se tem esta daquela. Isto não é uma opinião. É uma verificação. Trata-se de um fenómeno tão comum, que nem fenomenal é. É uma espécie de lei física, de uma determinista determinação socioantropológica que faz dos nossos primeiros semelhantes os últimos a quem queremos assemelhar-nos. Basta sair à rua. Ou então, ficando em casa, ligar o televisor. Dignidade, adeus. Olá, desvergonha.
A ignorância, por exemplo. Antigamente, os ignorantes não ignoravam tudo. Sabiam o que era a vergonha, por exemplo. Agora, têm orgulho da ignorância que trazem lacrada na testa como um ferrete lustral. O esvaziamento anunciado há mais de uma década por Lipovetsky não era um receio reaccionário da dita pós-modernidade, mas uma melancólica (mais uma) verificação.
O nosso povo é fraquinho: já nem com maiúscula se escreve. É lerdo, opaco, rubicundo, grosso, ouvido-emprenhável, foleirote, obtuso, peludo e manso.
A nossa “elite” é uma córnea galeria de fadistas-toureiros, monárquicos sem brasão, pitas com dois tt, filhotes de banqueiros fugindo pelas traseiras com máquinas de multibanco agarradas aos brincos e fregueses do João Pedro Pais com remorsos casapianos.
A política é uma caderneta de cromos colados a cuspo pela parte da frente.
O futebol é uma escura noite de fados pretos.
O chamado Fado Novo está para a nossa identidade como as abóboras estão para o telhado.
A religião anda há séculos a levar a gentinha a ver as amendoeiras em flor, com regresso marcado por pontes cujos desareados pilares patinham no vazio como os pés dos enforcados.
Assim sendo (e é), já ninguém se digna ler, escrever e contar. A língua portuguesa já só consiste numa cassete pirada e pirata dedicada a sublimes disparates como o “derivadó-facto”, o “portantos”, o “é-assim”, o “infectibamente”, o “choque tecnológico”, o “simplex”, a “Ota” e o “têgêvê”.
Depois, ainda há quem se admire de nascermos de ambulância, rumo às amendoeiras em flor.

Thursday, October 25, 2007

Sortelha - por Ca'litos

Sortelha, 2007
© Carlos Daniel Abrunheiro
( esta e muitas outras fotografias estão indiciadas em http://matarbustosfotografias.blogspot.com/)

O fotógrafo é meu sobrinho. O fotógrafo é meu sobrinho. O fotógrafo é meu sobrinho. O fotógrafo é meu sobrinho. O fotógrafo é meu sobrinho.

Ou então

Sou tio do fotógrafo. Sou tio do fotógrafo. Sou tio do fotógrafo. Sou tio do fotógrafo. Sou tio do fotógrafo. Sou tio do fotógrafo. Sou tio do fotógrafo. Sou tio do fotógrafo.

Wednesday, October 24, 2007

O Vento na Água e outros Linguismos Desaforados

© Minor White
Pacific Devil's Slide, California 1947



I

Não do que os do caudaloso rio maiores riqueza
e roubo capaz sou de conceber.
Corrente fortuna e furto copioso
nos traz, levando-nos em ele, o fluvial deus
de água corredor.
Ainda assim, felicidade a nossa, passando-nos
ao tempo rápido, lento só na dor, pois que
ao menos uma vez integrando curso e duração – e
delas as naturais morte e vida.

II

Desagua de leite o homem em sua mulher,
a que pertence: tal o rio se entrega
ao mar em efémera foz eterna,
sob o céu.

III

Crisóstoma oração usa o desejo silente
em seu embaulado côncavo cordial.
Cardial único lhe cruza a tetrarrosa,
pois uma só direcção é a do desnorte,
do paraíso a leste, sem virtuais oriente
e poente: o vento na água: quem
deseja e quem é, do desejo,
objecto e sujeito: e boca e ouro.

IV

Semietérea é a meã fé
dos hemimortos em vida,
de um vão paraíso ciosos
em o inferno vivente:
diabinhos pressurosos,
cemitéria gente.

V

Glabra face, imberbe olhar,
do adolescente tipo-passe,
recolecto a nostalgia já futura
no momento do flash
para documentos oficiais.

Sou eu este rapazelho escoltado
por grandes colarinhos
e apeitado axadrezado
pulôver sem mangas,
alhures em 70 e poucos?

Fui. Não sou. Voltarei a ser,
na inversa contagem que tudo
a todos retorna – por nada.

VI

Morrerei sempre depois
do dia que tive por
benquisto – ou malvindo.

VII

Apouca-me do alto a visão do vale
à outra montanha estendedor
de enxuto leito que mar algum
quis – ou de querer deixou,
como eu de crer deixei,
apoucado.

VIII

Desaforado linguismo cerce acode
ao homem que, calado, magicando
qual – vida ou morte – mais o fode,
nenhuma conclui, a ambas somando.

Caramulo, manhã, tarde e noite de 23 de Outubro de 2007

Novos Pleibeques

Hombre Orinando
© Miguel Ruibal

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E pronto: aqui está mais uma lista de procuras da net que me vêm desaguar ao Canil. Como sempre, há loucuras absolutamente deliciosas, a começar pelo clássico lusitano "Amor de Mãe Angola 1967". Mas também há "poesia sobre baratas" (já não se pode ser amigo de um poeta chamado Manuel Barata...). E mais - e muito mais. Bem-vindos todos ao circo das pancadas mentais reunidas a uma só voz.

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plantas horríveis
plantas que curam pancreatite
verniz para soalho de madeira que não deixe riscar
vernis para soalho de madeira que não deixe riscar
so prece
ecrã petrificado
dermoide quisto
fotografias de pessoas maquilhadas
fotografos suinicultura ao ar livre
chove la fora jogado no leito descansa esse corpo que guarda
uma parabola da biblia com onião
materiais de construção crespos Angola luanda Viana
peles barrigas salgadas
pessoas que ruminam a comida
rostos de triteza
versos sobre a pobreza
snack bar em repeses
terylene camisas
daniel camionetas
amor de mãe - angola 1967
Mercedes Blasco
nota de cinquenta euros
texto resumido sobre bicho da seda e produção de seda
gato persa comprotamento depois do parto
anans nuas
como a solitária sobe para a cabeça
vivendas geminadas para comprar em sagres
reportagem da TVI corrida de rolamentos da pedreira
"a lã e a neve"
electrodomésticos e os homens
papagaios domesticos pelagem
Mao de Vaca com Grao de bico
vestes natalicias na noroega
Rua da Casadinha Pedrulha Estrada
remedios produzidos por indios para alcoólatras
praça com banquinho e árvore
Machos pubis peludas
pagelas e registos e saudades
trespasses estações serviço braga
fio de corda preta atacadores da tropa
novo som pleibeque heroi dos heróis
o que acontece se molhar uma fatia de pao e torrada
poesia sobre baratas
se solfeja de boca aberta ou fechada?
fala de palhaço

Tuesday, October 23, 2007

Pátio com Limoeiro – três poemas de Outubro

Candeeiro e Lua
Caramulo, noite de 19 de Outubro de 2007


I

Versos: papéis-químicos mui arcaicos,
dextras linhas da canhota vida minha,
cavaquinhos balalaicos e prosaicos,
sem ferro nem fogo linha a linha:

deixai-me em paz. Vo-la peço eu,
paz: um pouco dela, sossegada,
dessa burguesa calma encalmada
de quem sai à noitinha ao coliseu

a ver as feras e, dos funâmbulos,
o esticado arame equilibrado.
Não ser do lote dos sonâmbulos

pretendo agora, que envelheço.
S’inda perante rosas estremeço?
Sim, meço e tremo, mas m’enfado.

II

Julgo que a Lua nos toma o coração.
A portuguesa beleza da tristeza mo assim diz.
Se comigo viesses a ver estas ruas dentro,
o dirias decerto também em mútuos versos.

As estrelas possíveis (os candeeiros) apagam
derredor a lucidez sonâmbula nossa
– de portugueses, em portuguesas ruas.
A ver os parques vir quererás?

Pulsam os parques auras de exiladas matas.
Correm través gás incorpóreos animalejos.
E na cisterna da memória a gota d’água

de um, dois, três beijos – ou menos – ou
nenhum. Ruas que o marinho vento
empossa a seus fantasmas julgadores, lunares.

III

Eterno, só o tempo perdido.
Dentro da vida, esse pátio
com abatido limoeiro melancólico,
o relógio de sol a sombras conta:
eternidade nenhuma, para sempre.



Caramulo, noites de 20 (I) e 22 (II e III) de Outubro de 2007

Monday, October 22, 2007

PH

Uma palavra pode ser uma pessoa.



Caramulo, noite de 22 de Outubro de 2007

Saturday, October 20, 2007

Salgueiradas

Desde ontem, 19 de Outubro de 2007, n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt), mais uma crónica da série Rosário Breve.
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Salgueiradas

Irritado porque o touro lhe flanqueou a montada, o cavaleiro João Salgueiro não esteve com mais estas nem aquelas. Saltou do cavalo, pôs-se a chamar pelo cornúpeto e pronto: o negro veio e assentou-lhe umas cornadas assim para o jeitosas. Na TV, relataram o sucedido com este adjectivo: “inédito”. Relato eu agora: “inédito” uma ova, que, ao longo da vida, não tenho feito senão destas salgueiradas e muito antes dele.
A única diferença entre mim e o João Salgueiro consiste em que ele salta de cavalo para touro, ao passo que, comigo, é de cavalo para burro. Para mim, no entanto, esta diferença aproxima-nos mais, ao senhor cavaleiro e a mim, do que nos aparta, até pela clara evidência de ser sempre burro saltar para touro. Claro que o mais ajuizado seria, é e será que o burro se deixe estar a cavalo no cavalo.
Não lamento a minha condição de peão de brega sem licenciatura em hipismo e sem ouvido para pasodobles: por cada cornada recebida, tenho a cicatriz de uma pedagogia. Quero dizer que tenho aprendido alguma coisa com as minhas próprias salgueiradas. Esta é capaz de ser a mais clara: o pior marrão não é o formoso animal de 500 quilos que pontua a verde lezíria com a pérola negra da sua silhueta. O pior marrão é o outro: o homem a mim semelhante que, burro de cornos, me quer cavalgar a dignidade com a lei retroactiva, o imposto cego, a cunha corrupta, a falência fraudulenta, os talentos da TV e Bruxelas.
Nada disto tem, aliás, qualquer importância: a vida é um campo pequeno, nascemos e morremos todos entre campos e só o campo-santo final é, afinal, um campo grande. Azambujar lamentações é irrisório. Vilafrancadexirar queixinhas é coisa de lingrinhas. Escalabitar ferros curtos nas próprias costas é beócio. E é metáfora indigna de forcado dizer do País que se trata de casa redonda por todos os lados e sem telhado por cima. O resto (como todos, João Salgueiro incluído, sabemos) é sol e sombra.
Mais sombra do que sol. Muito mais sombra do que sol.

Friday, October 19, 2007

Habita Descaradamente a tua Infância

© Helen Levitt
Masks, NY, 1942


Habita descaradamente a tua infância quando fores velho.
Há uma idade de maçãs em cada pessoa.
Também há a idade das maçãs: de cada maçã.
Gritinhos deliciados no corpo pequeno.
O silêncio como um terror, também, então.

Então, ainda para cá, o sentido da viagem.
O sentido das palavras viajando para cá, então.
Agora, para lá: do bem e do mal, para lá longe.
Ficam próximas as coisas não de todo ditas,
as só pensadas quando pensar era quase tudo dizer.

Todas essas crianças que deixaste envelhecer dentro.
São hoje cobradoras de seguros, costureiras.
Como pudeste deixá-las vivas?
Agora, para cá: elas voltam, cada noite.
De novo novas, ficam-lhes mal as roupas grandes.

Se te telefonam para desanunciar alguma, proferes,
ou preferes sem querer, palavras habitantes de caixas
onde outrora maçãs. Sentes talvez os ossos delas, seus
pescoços que foram caules de lírio. E seus mijos de lar
da primeira idade, contra um muro comum como um

destino que depois não foi. Olha, calma, não tem mal.
Elas ainda se organizam em natais e iluminações de rua.
As que ficaram na rua para proveito da renda da casa
dos pais, essas ainda te reconhecem o corpo dentro do casaco,
calma, olha, não tem mal. Como sempre, não há-de ser nada.



Caramulo, noite de 19 de Outubro de 2007

Thursday, October 18, 2007

A Pública Noite Vence


© Brassaiï (Gyula Halasz)
Prostituta à esquina da Rue de la Reynie com a Rue Quincampoix,
Paris by Night, 1933.



A pública noite vence de cada um a particular humanidade
de mínimas derrotas é feita a grande vitória
inclinam-se as árvores à vencedora grande de todos
os pequenos seres que para humanos ser nasceram
não arbóreos
nem diurnos.

Vagas avenidas vãs titubeiam olhos candeeiros
arrefecem os táxis na vã espera do vago viajante
se perto o mar mais longe aparece
ao peito de quem tão longe o sente
dentro.

A minha noite é de todos
não minhas são as derrotas de cada um
embora justo seja partilhá-las quando acordo
noite alta
durante o vosso sono
acesos ainda os candeeiros nas apagadas avenidas.

Maria Ermelinda boa rapariga da hora má
um vento francês te acordeona as costelas
faz frio é certo fuma um cigarro e não
penses em mim que me venço dia ainda
se te penso.

António de Jesus bom homem das cinzas civis
casas hás-de empilhar tijolo a tijolo
uma e outra vez
ao suíço e ao francês.

E logo hoje
que é de noite
outra vez.

Caramulo, noite de 18 de Outubro de 2007

Oração do (ou por causa do) Grande Caranguejo




Os norte-americanos são o cancro do mundo.
Os ingleses são a sua metástase.
Ou seja: duzentos e trinta e um anos depois, os papéis inverteram-se.
Só a merda não tem avesso.

Nós por cá, tudo e todos bem: fazemos de
Instiprostituto Portuguesito de Oncologia.
Só que é para ajudar o cancro.

Palavra do Senhor.

Nihil obstat (por enquanto).

Imprimatur potest (por enquanto).

Caramulo, tarde de 18 de Outubro de 2007

Irmão Lúcia – um blog a ganhar para não se perder tudo

Agora nos Links da Malcata, neste vosso Canil, o blog Irmão Lúcia.
Muitíssimo bom.
Aqui vai um exemplo lindo:

ouvido de esguelha

consta que o marques mendes ficou tão desesperado com a derrota que tentou enforcar-se num bonsai.

Publicada por pedro vieira em 17.10.07

Esta e muitas outras no

http://irmaolucia.blogspot.com/

Wednesday, October 17, 2007

Parede

© Josef Koudelka (Inglaterra, 1976)



Alguma vez seremos
alguma vez algo fomos
o tempo é tudo o que temos
tempo é tudo o que não temos
tempo é tudo o que somos.

Viajo muito
perante a parede.
Não me foi dada a sorte
de burro que só palha come
e só palha quer
e é feliz com palha.
Dei-me a mim mesmo
esta parede
este muro
nem um espelho é
como espelhos são
para os pintores
os quadros
e para os poetas
os poemas
e para os arquitectos
como para os pedreiros
as casas.

O papel em que escrevo resulta
do assassínio de uma árvore.
É um papel qualquer.
Mas nenhuma árvore é qualquer
é sempre aquela árvore
nunca outra
qualquer.
O que digo também resulta
de um assassínio qualquer
por exemplo o do nascimento
coisa que a tanto amor mata
ou a nenhum
mas faz-se sempre o jeito
não faltam homens
nem mulheres
para um jeitinho
qualquer.

Sou um homem chegado à noite
um homem a que a noite chegou
não há que confiar grande coisa
neste homem que tem
que tenho
pedras e sílabas
em igual profusão.
Já comi
naturalmente
a minha palha
mas sempre que posso como
erva
ou então
fumo-a
ou então
piso-a
ou então
faço-a
crescer nisto
que queria fossem quadros
ou poemas
ou um espelho de outros
e não passa de uma parede
com o mesmo
grafito
o mesmo
grafismo
o mesmo
gajo.

Não queremos voltar a ser
pois não?
Queremos só ser
queremos não ter já sido.
Já fomos
mas
somos deveras ainda?

Morreu hoje o senhor Amaro da minha rua.
Disseram-me há bocado.
Fui à minha vida e fiz o meu trabalho.
Depois vim escrever isto na parede.

Caramulo, noite de 17 de Outubro de 2007

Tolo Manso

A expressão-chave que dá título a esta entrada acertou-me em cheio. É ela que (de)termina mais um poema de alto quilate e fino recorte: as palavras-chave que os malucos da net escrevem nos motores de busca. Tolo manso? Oui, c'est moi. Se não, como cá viria parar esta seita toda? Ora lede.

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figura de uma mesa montada com costumes ciganos para festa de aniversario
"fotos de sereias"
animais aéreos
bacalhau – poesia
bocados de lenha
música de tony carreira para clarinete
tondela monumento imigrante nu
relogio liquido cascais shopping
poemas de Deus
Perna de gesso
laranja em matanças da noite
prato de sopa embaixo moedas de ouro
comer pevides de maçã emagrece
oxolotl de julio cortazar
material de pintar unhas
Trabalhos para pintar sobre presépios
sangria louca bar discotecas rua julio Dinis
1945%2C fogem ditadura Salazar em barco de pesca
receitas de rissois portugeses
Jaquetas de couro laivo
Cancao de Coimbra
livro feira de versos cavalo que defeca dinheiro tem quantas métricas?
Onan
comoposso me defender de uma prosseço de usocapião
RAPARIGA MADURA
foto animais fugindo queimada
pica do pai
José Cid mp3 Sou um rochedo na maré viva
videos gratis de pessoas degoladas
quando os gatos remelam os olhos significa o que
colchas à janela, poesia
pleibeque da musica olha pra mim toque no altar
relogio decrescente para web
procuro trabalho em braga para barman em bares lanterna
jovens morrem na praia do calhau
musica de crianças antigas
sombras chinesas com bonecos articulados
saidas à noite na adolescência
posso comer peixe no jejum de Daniel?
tolo manso

Tuesday, October 16, 2007

Um Poema Faxioso para Engedinheiros com Receita no Modo Conjuntivo ao Gosto 25-linhas-papel-selado

Sócrates Sarkozy Sarkókrates Sarkozyócrates
Sócrates só-que-te-rates
só-que-te-rates
só-que-te-rates
só-que-te-rates
só-que-te-rates

Não é preciso ter tomates
só-que-te-mates
só-que-te-mates
só-que-te-mates
só-que-te-mates.

Caramulo, início da tarde de 16 de Outubro de 2007

O Tempo é um Escritor de Rostos mais Seis Poemas de Outubro

Foto: Iké (Ótó Xané), Verão de 2007




1

O Tempo é um escritor de rostos.
Nem todos sabemos ler.

Alguns somos papéis colados pelo verso
à porta do frigorífico: que pena
mais não sermos que listas
de faltas.

Outros somos recados dos pais
sobre o fogão: que aqueçamos
e comamos a dádiva,
noite alta.

Poucos somos epígrafes.

Todos somos lápides.

2

Báltica, cáspia, egeica, minóica,
ciranda cafés a libelinha.
Cossaca, hebraica, mosaica, heróica,
venha então a cervejinha.

À segunda, bebo duas.
Terça-feira, bebo três.
Quarta, tetra, tem de ser.
Quinta, são duas mais três.
Sexta-feira, meia dúzia.
Fim-de-semana, não conto.
Libelinho, mas não conto.

Báltica, cáspia etc.

3

Celofanes vidram passagens do ar:
aéreos hologramas dos defuntos vivos.
Viveu e morreu aqui muita gente:
todos convivemos,
o ar é de todos.

4

As aves do mar escrevem no ar
a caligrafia mais incansável.
Espuma de leite mareja as fragas.
Longe, a pontuação dos barcos
combóia pontos não mais finais.

Viver é uma breve indústria pesada.
Noruegamos filipinas ilhas ferventes.
E no recato do lar, entre detergentes,
naufragamos sonos em roupa lavada.

Nutra o peixe do mar a ave do mar:
alimente o afogado o voador sem se cansar.

5

Toda a história é conjunta.
Toda se escreve sozinha.

6


(para o Luiz, maior dos poetas)

Não queira viver
o mal quem mal vive.
Mui mal sobrevive
quem não quer viver.

O bem pouco dá,
o mal tudo tira.
Não possa a mentira
ser verdade já.

Pouco dá o bem,
tudo tira o mal.
Viver, afinal,
é morrer também.

Mas, enquanto não,
que queira viver
quem isto souber
e o contrário não.

Terna avezita
que no campo, boa,
nos diz que quem voa
Lua e Sol imita.

Estrelas do céu,
claros diamantes
me disseram antes
que o depois é meu.

Teu será também,
nosso afinal,
que não vive mal
quem vive por bem.

Ovelhas cantantes,
verdes prados claros,
diamantes raros,
imagens constantes

do nosso viver.
Morte é o não vivido,
que o pior morrer
é não ter nascido.

7

Mandas o seixo da palavra aos olhos de alguém,
assistes às onditas nos olhos da pessoa.

Não é?


Caramulo, tarde de 15 de Outubro de 2007

Monday, October 15, 2007

Rápidos Papéis Negros na Noite Nívea






I
História Lenta com Hortênsia mais Dois Azuis


Aconteceu-me há momentos uma coisa que vos quero contar.
Não vou escrever um poema sobre o que se passou.
Vou só contar.
Por volta das seis da tarde, saí para descansar os olhos.
Subia pelo lado esquerdo da avenida, o lado do parque.
Do lado oposto, vinha descendo uma mulher jovem.
Vestia uma blusa azul-celeste.
Vinha longe.
Parei, voltei-me para o parque e tirei algumas fotografias
ao chão vegetal.
A luz era baça, outoniça
(ainda é, posto que escrevo vinte minutos depois).
Quando me preparava para colher a imagem de certa hortênsia azul
que ali vigora em solidão, ouvi nas minhas costas a voz:

Boa tarde!

Ela tinha parado no passeio dela para me dizer isto.
Virei a cabeça e mergulhei naqueles totais olhos azuis
(como a blusa dela e como a minha hortênsia).
Eu dei-lhe a boa-tarde e levantei a mão em saudação.
Nunca a tinha visto por aqui.
É uma rapariga doente.
Tudo dela emanava a outra dimensão, a inexpugnável cosmogonia
da doença mental.
Ela deu-se por satisfeita, prosseguiu a descida nos seus
passinhos chineses, Ariadne enrolando o fio invisível
da vida dela.
Eu fotografei a hortênsia e subi até vós.
Eu e ela ficámos, por assim dizer, quites:
nada posso fazer quanto à loucura dela, ela
nada pode fazer pela minha.

II
Dezoito Rápidos


1

Ardem no lar cartões impressos.
Dissipa-se o corpo das embalagens.
Restam, legíveis, as letras.

Igual à vida e à memória.

2

Agora a noite abriu-se como um guarda-chuva
no ar enxuto e superlativo da montanha.
Nada conheço tão humano e tão só como isto:
a noite de domingo.
É quando, em casa, acelera dos retratos
o envelhecimento: crianças e mortos
habitam rapidamente o domingo à noite.
Delas e deles a eternidade fosforesce – e cresce.

Vem daí comigo às vegetais ruas do parque.
Enegreceu de individual sombra a minha hortênsia.
É agora o mais duro vidro, a água do espelho-de-
-água: vidro que a pedra pulveriza da Lua.

Que a esperança de mais te toque, a cabeça
erguendo a ver dos aviões altíssimos a ínfima
luz.

Podes vir, não está frio. Tudo é tão de memória,
sabes: um domingo único.
Se te apetecer dançar entre as translúcidas
raposas que os olhos ardem na sombra,
dança para elas. Também elas descansam
de correrias e de lebres.

Um sossego finalmente humano nos tocará
em sorte: e na viração respiratória, verás,
as árvores hão-de marulhar benignas
lamentações.

Agora abro-me na noite. Tu não és.
O domingo era.

3

Minha Mãe
andam homens levantando pedras do chão
perseguem águas enterradas no húmus
têm mulheres e crianças em casa
pela tardinha dão-lhes sacos de pão e carne
eles aceitam
guardam um pouco para as mães deles
eu faço isso com versos
todo o dia no mesmo chão
minha Mãe.

4

Foi em Janeiro de 1974.
Era como respirar cristal, ser tão novo.
A flor da pobreza não era menos colorida
do que as outras.
Era vivo o senhor Mário Janeiro, por exemplo.
Ele e o senhor Lopes da Dona Luísa.
Todos éramos vivos.
Lembro-me de a geada fazer estrelas nas plantas.
Lembro-me da humildade dos cães, até os ferozes.

Ia com o Quico à beira da Vinha do Faria.
Havia corridas de rapazes.
Deixaram-me entrar.
Corri muito, foi muito bom.
O ar respirava-me o sangue como
o vento o rio.
Devo ter pisado estrelas de geada, pois
era manhã muito cedo.

Naquele tempo, a geada perdurava como
uma ideia, por exemplo.
A ideia do senhor Mário Janeiro, a do
senhor Lopes da dona Luísa: viver
para sempre,
por exemplo.

5

É uma praça breve, dá para três ruas.
Tem farmácia, padaria-café, alfaiataria.
Tem candeeiros de pé verde e ardente cegueira-néon.
Todas as casas mansardam sob a Lua.
As pessoas reconhecem-se todas, manhã muito cedo.
De um canto, aflora, longe, a visão da menagem do castelo.
Quando chove, cheira a rio e a barcos.
As viúvas corvoam pelo comércio, ínfimas, pressurosas.
Não há crianças.
Quando sai um funeral, é de uma velha.
Só o alfaiate é homem.
À farmácia e à padaria, duas viúvas presidem.
Eu vivo só numa das mansardas.
Chamo-me Teresa.
Nunca me casei.
Tenho olhos azuis, cor desta blusa.

6

A mão pontuada de contas de vidro negro.
Um colar se desfiou algures no tempo.
Recolhi-as como a humanas camarinhas:
ou a portáteis cegueiras que até o fim
berlindaram olhos duros.

Conheço de pessoas iguais contas:
a mão lhes não dou, porém.

7

Ainda ambulo ruas de neve perante meninas
vendendo fósforos apagados para sempre.
A elas e a mim perseguem-nos os lobos familiares,
rápidos papéis negros na noite nívea.

Avenidamos todos enquanto se nos não embota de todo
a saúde – como um mau aço de lâmina
ou um barro mal vidrado.

Recolhem-se os que podem a suas capelinhas.
Murchou muito chilra a flor à laranjeira.
Engastou-se-nos tóxica a opala do coração.
Ainda ambulo ruas de meninas perante neve.

Só não vou às putas, que delas
me sobra a vida, irmã delas.

8

Os anos não perdoam
a culpa que nos deram.

9

Em breve retornarei à rápida noite.
Do meu coração a circunvalação moverá
brusco giz de farolins rubiscentes.
Ou não.
O mais certo é meus sapatos baratos
tartamudearem guinchos de borracha
na vitrificada pedra, como aliás a água,
de domingo à noite.
Volverei, ainda assim, minha silhueta
a seu armário de sombras.
Ele há sempre cabides, aonde
retorno.
Era em Outubro de 2007.

10

Tanta água nos olhos.
Tanto vidro.

11

A gente corre tudo.
Eu corri toda a Vinha do Faria.

12

Era quando eu era uma árvore ao vento.
No palácio da avenida, os Irmãos Marx não eram
marxistas, faziam o que podiam no technipretibranco
de quando o tempo era
como um vento e como uma árvore.
Não vejo nisto nem disso qualquer carcinoma.
Só é preciso estar muito vivo em toda a antemão
de tanto tão por-vir.
Recordo a alegria absolutamente lavada
de minha Mãe distribuindo roupa e sabão.
Era quando vós éreis e vossa Mãe lavava.
As poucas pontes artesanavam rios feitos à mão.
Fluía do comércio uma enxúndia local.
Dizia-se que aquele ourives se dava a pederastias.
Deus era pontual ao domingo, mais que isso
não.
Um clarão de guerra houve, colonial era
como os cromos da caderneta, cada equipa não era
equipa se não tivesse um preto,
o Belenenses chegou a abusar,
até.

A notícia é que sou o vento na árvore,
agora, que eu
agora me vou embora,
mas levo palavras,
como todo o vento que se preza.

13

Sim, ainda.
Uma conta negra na mão branca.
Uma camarinha ácida.
O colar de algum pescoço de neve
retratado na sala,
colhendo rugas no delta de domingo,
nilo de versos,
barcarolas triangulares, bermudadoras
da desaparição.

14

Dez anos colhi, a casa tornando, a flor de gasóleo
que nos cais irisava a passagem das nossas vidas
nunca idas
ao mar.
Vi a lorpa tainha nadando como se nada
fosse,
viver.
Certos, só o recolhimento – e a desistência
que o antecede.
Fui um rapaz breve, as judaicas orelhas
cartilaginando a madrepérola dos pobres
cerúleos.
Coleccionei caranguejos vivos de cegas tenazes
tesourando babugens e glaucomas.
Fui um dos meninos da Escola de Natação
do senhor Araújo.
Além, era a América, mais além o Japão.
Atrás, era a Figueira e o Portugal.
Devo ter ficado: dez anos – ou
43.

15

Nada digas quando tempo já for de nada.

16

A casa onde o coração tosse dele
a infantil tóxica mocidade
envelhece com ele e com ela:
o coração, a tosse.

17

Todos arqueólogos, os avós:
coleccionam fragmentos de osso,
os filhos lhos deixaram
via netos.

18

Há histórias que não quero.
Fui pelas iguais diferenças.
Já não são bem nem malquerenças:
há só histórias que não quero.

III
Um Poema para Dois Rápidos


Dois rápidos papéis azuis na tarde:
os olhos da louca que me boatardou, segunditos poucos
antes da hortênsia.

Tanto azul.
Tanto vidro.
Tanta água.

Tanta pedra.


Caramulo, entardenoitecer e noite de domingo, 14 de Outubro de 2007
(fotos ibidem)




Sunday, October 14, 2007

Beleza Pura

Agostinha, a 3 de Outubro de 2007
Foto: © S.B.

Poesia de 13 de Outubro de 2007

E agora a poesia de ontem, já agora.


Tábua

I – A Mais Lenta Cidade
– Pentagramas da Dizimação
– com aliás oportunas nótulas historicistas –

II – Terceto Bordado a Bosques
– e dedicatório –

III – Meninainda

IV – Outro Terceto
– com alheia mãe –


*****

I – A Mais Lenta Cidade
– Pentagramas da Dizimação
– com aliás oportunas nótulas historicistas –


Sou atravessado por cidades rápidas.
Fui um dos gajos passando frente a lojas.
Escureci calçadas que o sol tomava.
O meu nome era o de cada rua,
não já o que me deram conforme meu Pai.

Recordo praças instantâneas como magnésios clarões.
Estátuas subiam e desciam como foguetões de História.
Crianças, velhos e pombas trocavam penas.
Fiquei com as minhas para corpo de versos.
Também o meu corpo ardia de bronze.

Devo confessar que amo a tristeza?
Vejo daqui pátios cobertos de hera.
Paguei sempre pontualmente nove dízimos à vida.
Pagarei dez, quando mos rebuscar ela.
Não tenho problemas com ela.

Cantores envelhecidos decrepitam-se em mansardas
que a Lua não esclarece nem perdoa.
Putas antigas, na esperança de fardas
insultam os bichas, ’tiram-lhes bojardas
e cospem tremoços de noite, em Lisboa.

Lisboa não é a mais rápida das minhas cidades.
Talvez Coimbra me mereça esse triste pendor.
Como for, são estremes pontos do eixo da minha vida.
Eu vi as cheias do Campo do Bolão.
Eu sentei-me na Rocha do Conde d’Óbidos.

Cada homem tem o ultramar que merece.
Todos os seus íntimos rios nele dão foz.
Sou este homem contando pedras à margem.
Não tenho problemas com a margem.
Devo dizer que é triste amar um rio?

Ao Arsenal levaram o cadáver rápido do Rei.
Diz-se que a Rainha retorquiu com uma bengalada de flores.
A piolheira do Povo e a piolheira da Monarquia cataram-se.
A segunda foi-se catar, a outra ’inda cá coça: manda
os filhos e as filhas a concursos de têvêtalentos.

Um amigo meu disse-me outro dia bem do Afonso Costa.
Estimo bem que a terra lhe seja lenta, ao Afonso.
Era espadachim pela honra, bigodava oratórias:
um ratito peninsular brandindo carbonárias.
Ao menos hoje ouvimos o fadista João Braga.

(Gosto, sim, de pentagramar poemas de nótula historicista.
Pasmam quase sempre os fregueses do Torga.
Rio-me por dentro e faço fora a mais séria cara.
Sou um poeta de pastelaria: respeitinho
ao estabelecimento e à ortografia não brasileira.)

O que não percebo, nem bem nem mal, é a acupunctura.
Deve ser coisa bielorrussa.
Vamos supor que a vaca tussa:
é caso de sinecura
ou da oferta e da procura?

Um dos índios da Meia Praia jogava futebol amador
disfarçado de gajo do Belenenses, o clube que
Américo Thomaz sapatilhou a branco quando
fantochava de almirante. Está num filme
perto do 25 de Abril final. Recordo isso.

Reticências de passaritos no caderno do céu.
Isso e a paz japonesa das árvores importadas.
Lentidão do casario: seu presépio sem
salvador. Simbiose de badalos com sinos:
cristianismo agrícola, aferventador de couves.

O Deus católico português joga sueca na Associação.
Bebe ginjas intermináveis e nunca paga a despesa.
Tem as quotas em dia por ser tão Amigo da autarquia.
Só não emigrou ainda por tão eterno ser isto:
o casalinho de poço e laranjeira cagada pelas galinhas.

Nunca nos passou pelos cornos nada que não fosse cornos.
Que os pretos a sul dos nossos pés merecessem um Faulkner,
que nunca aliás tivemos a não ser no formato
do gajo também bêbado mas não literato
e sim de bigode branco e mulher com problemas na mona.

O que é nacional est con.
Todos bem no(s) sabemos.
Nada importa que nos atravessem cidades rápidas,
nem caixeirinhas de Pátio das Cantigas,
nem segredos-de-fátima-com-prognósticos-de-fim-de-jogo.

E no entanto
há ainda qualquer coisa
na nossa organização social
que me faz bem,
desconheço o exacto porquê.

Certa leda tristeza do jovem Camões,
antecipando o ocaso dos rios e das violetas,
na perpétua terça-feira da História Pátria.
Ou incerta certeza de Pessanha opiando o amor
por Ana, senhora que lhe ficou.

Sim, do pouco que sei, sei isto: temos
qualquer coisa. Pode ser que sejam as andorinhas
de barro aos alpendres pregadas como cristos
da primavera. São elas, sim. Elas e as réstias
de cebolas crucificadas sobre o vinho,

em adegas frias de roxa escuma, tais bibliotecas
de antigos emigrados que voltaram para
morrer devagar pensando na flor da amendoeira,
na carnação fértil da netinha e na serventia
conquistada ao canalha do vizinho.

E Rosa Ramalho e José Malhoa. Velozes são
as minhas sombras a duro preito tomadas
à mourama da mediocrização americana.
Eu agora sei coisas: as não passeio já por
augustas ruas áureas de lisboas nenhumas:

que para casa as trouxe, na montanha terminal.
Não mais público será o meu tempo, antes privado
caracol de corninhos-ao-sol-da-lua. As palavras
aí estão: cursoras, químicas, desdobráveis, incansáveis.
Amar a tristeza é uma cidade: a mais lenta cidade.

*****

II – Terceto Bordado a Bosques
– e dedicatório –


Bosques de bordadura de lago horizontem não tão longe
o ocaso merecido de nossas vidas: a tua e a minha,
que tua foi – ou para ti, no fim.

*****

III – Meninainda


A menina não é deste mundo.
Se calhar, a menina é doente.
Atenção presta ao de que, segundo
meu tio doutor, é urgente

distraí-la – mas puni-la, não.
Ainda não. Ou não ainda:
qu’inda é menina – e linda.

*****

IV – Outro Terceto
– com alheia mãe –


Há um rapaz na minha terra que é a cara da mãe.
Não é parecido com a mãe: é a mãe outra vez.
Assim fez ela, não poesia escrevendo, para ficar.



Caramulo, entardenoitecer de 13 de Outubro de 2007

Saturday, October 13, 2007

Falo-te

Depois da Viagem a Viseu etc. da entrada anterior, mais versalhada. Coisinhas de nada, enfim, que ontem me visitaram pela tarde. Abri-lhes a porta, escrevendo-as. Abro-lhes a janela, publicando-as. Não tem nem têm importância, enfim. (Muito provavelmente, os mais distraídos rotularão estes versos como “poemas de amor”. Não posso fazer nada contra a distracção.)

*****

1

Os teus olhos na minha cara.
Gosto deles: são de uma pureza triste.
Agrada-me deles a tristeza pura.
Que nos amemos para sempre
parece-me indiferente.
A diferença está nesses olhos
não na minha cara
sequer na minha vida deitada
fora
e longe.

2

Vou muito a sítios povoados da tua falta.
Às vezes levo nos braços o coração como a um
bebé morto.
Gosto de ver o comércio dos outros.
Não me lembro se te disse o que sinto
quando o vento nas árvores
depois na água.
Talvez algures to tenha deixado
escrito.
Não sei.

3

Sei tão pouco.
Às vezes estou na pastelaria
e a folha em branco diz-me

Não me toques.

Di-lo com a tua voz
e olha-me na cara
com os teus olhos.

Então
toco-a.

4

Somos
um homem
uma mulher.

Nada nos falta
para sermos sozinhos
no mundo.

5

Não somos
um homem
e
uma mulher.

Tudo nos falta.

6

Peuplé de t’absence.
Peuplé de ma faute.


7

O meu peito é uma lixeira.
Também é um salão de grandes lustres suspensos
na noite setecentista.
Há um quarteto de cordas com flautista.
Não és a flautista.
És a mulher de outro homem.
Tomaste já duas contas de champanhe.
Seduzes aqui e ali
este e aquele.
Há uma bailarina com cobras no interlúdio.
Há um tigre no jardim relvado.
Não podemos sair do meu peito por causa do tigre.
O tigre esgatanha bocados de lixo.
Quero ler música
sento-me perto dos instrumentistas
não consigo distinguir as pautas
as notas juntam-se numa só.
Os músicos levantam-se
arrumam as estantes
guardam os instrumentos
tomam um cálice de porto
pagam-lhes
vão-se embora
o tigre não lhes faz mal
os tigres gostam de música.
Estou a uma janela alta
olho o vento dando nas árvores
levantando lixos e versos.

8

Quando o amor me faz mal
vou ver as marés.
A Lua é alta e argentina
ilumina o céu diamantino
de estrelas picotado
como o manto do mágico.
O mundo é muito bonito
ao contrário do amor.

9

Todos os dias começo.
É o único segredo da minha vida.
Era.
Já não é.
Falo-te.
Digo-to.

10

As lâvestóris e os desquites riscam os céus
como pretos pássaros contra o fulgor do entardecer.
Trocas de filhos e de endereços sujam as manhãs.
Domingam as igrejas seus noivos de alto de bolo.
Rubicundos empreiteiros estoiram de vinho no banquete.

Todos andamos ao cartão pelas ruas.
A ética comercial acende luzes nas noitinhas mansas.
Os buracos das ruas aleijam por baixo os carros.
Tudo é um jazz tão triste e tão bonito.
Mulheres carnudas como frutos inquietam polícias.

Todos juntos cada por si reescreveremos
a História do Desamor ao Colo do Desemprego.
O vento baterá as ruas como um cão transparente.
Sabemos tão pouco viver tão bem morrer.
Passo pelas igrejas e amaldiçoo o Senhorio.

O Senhorio sim esse riscador dos céus.

11

O meu amor tem por vezes febre como um menino.
Apanhou muito sol queima-lhe a cabeça.
Dele é o olhar doloroso a boca crestada.
Tremem-lhe as mãos que o escrevem.

12

Tenho tirado móveis velhos do meu coração.
Queimo-os no pátio da minha cabeça.

13

E a impiedosa alegria das crianças andorinhando
pelos azulejos da água exposta ao vento?
E a maravilhosa folia das danças flutuando
pelos desejos da mágoa imposta ao tempo?

Caramulo, tarde de 12 de Outubro de 2007

Viagem a Viseu - Relato de uma Tarde (mais Quinze Inevitáveis Poemas Reflectores)






Viagem a Viseu - Relato de uma Tarde
(mais Quinze Inevitáveis Poemas Reflectores)

Este é o relato de uma ida a Viseu e terminal regresso ao Caramulo. Chamo-lhe Viagem por causa da literatura – ou da pobreza de espírito que se me manifesta nas tropelias vocabulares do costume. Tudo aconteceu na tarde do dia 11 de Outubro de 2007: já anteontem, portanto.
Trata-se, de facto, de dois textos.
O primeiro, a Viagem propriamente dita, é uma sequência de quinze pequenas prosas ordenadas sequencialmente no tempo numérico (de 1 a 15, naturalmente). Foram escritas durante a deslocação na tarde.
O segundo, Quinze Inevitáveis Poemas Reflectores, é versalhada, mas com um ardil: são quinze os poemas que, regressado à base (isto é, à pastelaria) ao cabo da tarde, compus para, digamos, reflectir as prosas. O meu objectivo era que se pudesse ler a poesia por ela mesma, mas também que ela pudesse jogar às luzes e às sombras com a prosa para que remete. Por isso, cada poema “é” um parágrafo antepassado. E daí a (des)ordem numérica dos poemas. A seguir à ordem de composição, vem, entre parênteses, a raiz prosaica dos versos.
São coisas com que, mais do que passar o tempo, tento a não total dissipação do tempo que passa. A não ser que o tempo, de facto, não passe – nós, sim.

*************************

I – Viagem a Viseu
(Relato de uma Tarde)


1

Esta tarde, a luz é material como uma jóia transparente. O arvoredo é manso, tremula-o uma doçura outonal que faz bem. Vinhedos coloram de ouro-ferro extensões laterais da viagem. De carro até Viseu, sinto-me muito vivo no lugar-do-morto, navegador da hora, tomador do bálsamo que seiva da transparente jóia.

2

Sobre a Ribeira de Asnes, visão rápida de uma vivenda fugida da cidade. Vila Chã de Sá e Fail antecipam a capital de distrito. O casario substitui a pedraria escura do território. Há bons pátios: árvores de fruto, água, sombra, animais pacificados, velhas gesticulando roupa num funambulismo de cordas e arames. Da Rádio Vouzela, visitam-nos os sultões do swing de um senhor inglês chamado Mark.

3

À passagem por Repeses, sinto-me estranho: feliz, não sei porquê. É da moção mineral da luz, certamente. Também será da ortoépia de tantas sequências florais: a chegada ao Rossio, a água geométrica da fonte, a pintura azulibranca que azuleja a visão, o mistério simples dos outros animais humanos.

4

Depois de almoço, é-me dada a contemplação da maravilhosa autonomia deste cão muito loiro, veterano cruzador de semáforos e automóveis. A uma brida de cruzeiro, o pêlo da cara alisado para trás pela brisa, é um ser que admiro até mais além da Rua José Branquinho, passada a Cervejaria Loureiro, enfim desaparecendo da vista e do parágrafo.

5

Sentado à sombra em degraus públicos do Largo Major Teles, redijo a consideração que me visitou poucos minutos antes, quando treslia capas de jornais e revistas em exposição na aranha do quiosque à Avenida Dr. António José de Almeida: que debaixo do nosso tecto católico se casam muitos cabrões na directa proporção da cambada de putas ansiosas por, já divorciadas e paridas, aparecer naqueles reality-concursos da televisão, já estrelas de nada, ninguém para sempre. Mas nada disto me desassossega: vai uma belíssima tarde na minha vida e na nossa quinta-feira. Há brisa fresca, o Sol refracta crisóis acesos – e tudo me parece uma digna arqueologia do porvir.

6

Uma das esquinas da Praça de D. Duarte (1391-1438) é com a Rua Augusta Cruz, que foi cantora viseense e só durou de 1869 a 1901. Dado o sol que lhe bate no nome, tenho pena dessa rapariga de 32 anos. Outras esquinas do Senhor D. Duarte: com a rua do pintor quinhentista Grão-Vasco (sem data) e com a Antiga Rua Nova, hoje Augusto Hilário, que também era viseense, também só viveu 32 anos (1864-1896) e foi cantor também.

7

Estátua de S. Mateus apresentando ao Sol o Liber Generationis Iesu Christi. Estacionamento na zona pedonal do largo envolvente da Igreja de Nossa Senhora da Conceição: fé, feira e gasóleo sempre de mãos dadas.

8

Sentado no Café Esquina para descansar um pouco, sou gratificado pela visão larga da fonte ao centro da rotunda. A aragem, que veio de ramalhar nas árvores de em torno, pulveriza a água vertical ejaculada em lanças de leite atiradas a partir do chão. Os automóveis são rotundamente espargidos por esta graça séria da Natureza aliada ao Município. Incomoda-me um pouco que uma coisa destas me faça feliz (e portanto banal) – mas faz.

9

Mais acima, antes de acampar no Esquina, e em rua de que não retive o nome, fotografei um pobre. Velho homem sentado num banco de azulejos. Uma cruz mineral ao alto para a indiferente geologia de Deus. Uma mulher parou, deu-lhe fruta e pão. Tem de ser a gente a fazer o trabalho dEle.

10

Mui coquetes em suas soquetes, passam gracietes a caminho de seus valetes. Como elas, também a minha vida é provinciana. Como o delas, também o meu coração quer ser só provincial.

11

Sim, dana-me um pouco esta coisa de o vento dando nas árvores me fazer feliz. Sempre me exaltou, o ladrão – o doce violador delas. E elas muito feminis, muito contentes, aos aplausos farfalhudos, tinindo gritinhos de colherinha de prata quando eles lhes dá. Saciado, ele depois vai à água e enruga-a – e torna-a feliz também.

12

Atiro ao porão gástrico um quartilho de água mineral e preparo-me para partir. Tenho ainda tempo, antes da noite, para outras visitações. Digo: para, fazendo eu de território, ser visitado por hordas de palavras em fileiras (des)ordenadas por não sei que instância ordenadora, normativa, gramatical, prosaica, humana. Dou já tudo o que tenho: algum tempo.

13

Não tardou nada. Antes de pagar e sair, assisto ao homem que, do lado mundial do balcão, manda vir uma cerveja e uma raspadinha. Tem um bigode excelente, mexicano, de uma gravidade já mais inclinada do que ínclita, mais já espumosa do que espumante. Gosto do quadro. O cavalheiro usa um cotim cinzento no tronco, que termina, abaixo, em um pneumático alegre. Calças de ganga barata, sapatos de sola vulcanizada causadora de frieiras, pergaminhadora de pés. Cinto lasso, mas de couro verdadeiro. Aliança católica na garra esquerda. A direita, de unhas sublinhadas a esterco, empunha o copo de cerveja como um báculo de anunciação. Gosto de ver estes filmes, a que adiro legendas com prazer. Agora pago, agora saio para farta luz, a luz boa.

14

Happy Dream é como se chama o estabelecimento de snack-bar a que recolho os ossos depois de nova incursão nos banais mistérios da cidade: desta como de todas. Chamo-lhes “banais” sem os apoucar – são banais, é tudo. Passei pela gare rodoviária, cujo nome algo pomposo (“Centro Municipal de Transportes”) me não ilude: porque todas as estações de autocarros me são mais catedrais do que centros – e muito mais universais do que municipais. De criança até morrer, tenho e hei-de ter um fascínio invencível por gares rodoviárias: metáforas tóxicas do nascimento, do retorno e da partida, nunca se me furtam ao andrajoso encanto de ciganos, pombas, vendedeiras, motoristas, taxistas, professorazitas, drogados, bêbados e poetas bêbados de edição de autor. As gares: todos os lugares.

15

No carro, ainda vivo, no lugar-do-morto. Já o sol tosse cansaços: asmática fadiga de ouro velho. A mesma estrada: já outra vida, por inversa. Corte à direita para Molelos, depois a praia sem mar do ar de Besteiros, campo e vale. Petrificado maremoto, o espinhaço alto do Caramulo subsidia o céu ainda diáfano e eterno ainda. Paramos em Molelos para refresco. Em cinzeiros do barro negro local quebramos a cinza vertebral de um cigarro cada um. A minha senhora folheia o inenarrável jornal que suja o nome à sede de concelho. Tudo é regresso, mais agora do que nunca. Subiremos, breves e em breve, à encapelada maré-viva da serra, a dúzia e meia de quilómetros acima. Vivi muito e muito bem, esta tarde da minha vida e da nossa quinta-feira. Aquele homem, na rua de que não retive o nome, as costas antigas nos azulejos, comeu logo a fruta, guardou o pão. Fez bem, como a luz me fez.

*************************

II – Quinze Inevitáveis Poemas Reflectores

1 (14)

Os nomes das ruas celebram os mortos postais
que vivemos desconhecendo.
Quiosques de vão de escada futuram sinónimas
sexualidades e tristezas.
Ciganos amorenam pombas rodoviárias.
Sopas rápidas aclimatam bêbados e poetas.
Não confio nem em Deus nem na Lotaria
mas não deixo de jogar
contra Ambos.

2 (9)

A água vi exposta ao vento respirador
de árvores.
Era na cidade.
Uma quinta-feira toda acontecia
perante o não pasmo geral.
Uma banana e um pão.
Um homem sentado de azulejos:
branco-e-azul homem a pobre
preto-e-branco.

3 (10)

Um sonho feliz: à passagem das gracietes
à noite não durmas onde à tarde te metes.

4 (13)

Tem este Município primado por uma política
de bigodes mais que ínclitos inclinados
e de lancis de unhas a esterco sublinhados.

5 (15)

A casa volto sempre que posso.
Anos houve em que não pude.
Barro negro em noites de olaria.
Haja regresso haja saúde.

6 (1)

Nenhum cego não vive de luz.

7 (7)

Cristos e cristos muitíssimos cristos
ao vento cristão das vãs gerações
sopram ao vento arbóreos benquistos
estacionamentos a plenos pulmões.

8 (8)

Sento-me sim em cafés e espero que
ou quem
venha
sim faço isso muito.
Vejo muito a água partida em papel:
ao vento municipal libretos astrólogos
curas de saúde amores negócios separações.
Sou feliz quando
me sento
quando
me sinto.

9 (2)

Na vivenda vista de sobre a Ribeira de Asnes
não sei quem vive
se vive
quem mora
se mora
se demora.

10 (4)

O cão em frente à Cervejaria Loureiro:
loiro, inteiros.

11 (3)

O mistério: a banalidade: o mistério:
a felicidade.

12 (5)

Sim
também
a cambada de putas
a cambada de cabrões.
A televisão púbica.

13 (11)

Sigo há muitos anos a escrita do vento na água
depois da palestra a que procedeu nas árvores.
Tem-me adiantado tanto quanto atrasado.
Mas não ando ao menos tanto quanto andei já
entre putas e cabrões.

14 (6)

Dom Duarte – 47 anos
Augusta Cruz – 32 anos
+ Augusto Hilário – 32 anos
111 anos, resto Grão-Vasco

15 (12)

Preparo-me para partir.
Tenho ainda alguma noite
antes do tempo.

Viseu (I) e Caramulo (II), tarde de 11 de Outubro de 2007

Friday, October 12, 2007

Na Noite



Vi na noite os animais sombrios muito altos
a que me ensinaram a chamar
árvores.

Só vi uma casa
uma luz de presença no alpendre
configurava toda a ausência.

Não senti medo
um pouco talvez
sim
um pouco de medo.

Era a desnecessidade da vida
tudo aquilo
os animais sombrios
a luz acesa para ninguém.




Caramulo, madrugada de 13 de Outubro de 2007

Fala o Cebola - n'O Ribatejo

A partir de hoje, n' O Ribatejo em papel e online (http://www.oribatejo.pt/), mais uma crónica da série Rosário Breve.
Fala o Cebola

Sou o Cebola.
Vi as notícias da manhã. Uma agarrou-me. Era um directo da Aula Magna, em Lisboa. Dez palhaços unidos davam um espectáculo a centenas de crianças. Objectivo dos artistas: revitalizar a profissão. Embasbaquei.
Pensava eu que se alguma profissão não está em risco em Portugal, essa é a de palhaço. A aptidão histriónica é tão nossa, que nunca considerei, nem ao de leve, que o palhaço português enrolasse no cadastro das espécies em via de extinção. Nunca. Até agora.
Eu sei: até os Croquetes & Batatinhas sofrem da divisão que sustenta os ricos de um lado com os pobres do outro. Mesmo assim, sempre houve função para todos, governo atrás de governo.
Que anedota histórica nos daria J.H. Saraiva para, ao colo patrocinador de uma qualquer marca de plásticos, nos explicar isto da crise dos palhaços? Com que filme clownesco nos paralisaria Manoel de O.? Que lágrimas pontuais nos desfecharia a Fátima L.? Que corneta de plástico sopraria a dupla Teresa G./ML Goucha? Que piadão de barraca de bifanas inspiraria ao par Guilherme Leite/L. Aleluia? Não sei.
Sou o Cebola, filho do Repolho e da Repolha. O meu Pai repolhou mais de 50 anos no circo das fábricas alimentando leões. Morreu aos 77 com uma reforma de 27 contos paga em suaves cuspidelas mensais. A minha mãe ainda é viva e repolha ainda como pode, embora os donos do circo duvidem dela, a julgar pelas baldadas de perlimpimpins a que a sujeitam, das consultas médicas adiadas às provas respiratórias de cada Março, como se ela fosse a Vanessa Fernandes uma vez por ano.
Sou o Cebola: choro, não rio. O nariz vermelho é disso, não só do tinto. Perdi há muito a trotineta do futuro, tenho o relógio grande parado no pulso e os meus sapatos barbatanam há matinées de mais no perpétuo domingo dos centros de desemprego. Mas já sei dizer disparates em ucraniano, pedir esmola em bielorrusso e fazer chinesices de loja de 300, o que sempre me pode aproximar de outras palhaçadas que não apenas esta de sobreviver entre equilibristas de tostão e palhaços de milhão.

Thursday, October 11, 2007

Prece, Apesar de Tudo - n'O Eco (Pombal)

A partir de hoje, 5ª feira, 11 de Outubro de 2007, nas edições em papel e online d'O Eco (www.oeco.pt), mais uma crónica da série Pedra e Hulha.

.....
Prece, Apesar de Tudo

Não acredito em Deus, atitude que Ele me retribui largamente. Se for o caso de eu estar enganado, tenho pela frente uma eternidade pouco simpática. Se o engano, porém, for dEle, então está justificado que crianças de apenas 11 anos sofram de leucemia. É o que acontece, presentemente, a um menino do concelho de Tondela. Vou contar a história, que é publicamente edificante e pessoalmente grata.
Todos os dias boto faladura directa num programa nocturno de rádio. Digo umas coisas, ponho uns discos a tocar, faço companhia a gente que não conheço mas que aprendi a estimar pela gentileza e pela paciência. Gentileza dela, paciência dela.
Na semana passada, um documento chegou ao estúdio. Era a situação desse menino em perigo de vida. Só podia fazer o que fiz: durante duas noites, alertei o auditório para a recolha de sangue que iria ter lugar no posto de turismo de Tondela, no domingo, 7 de Outubro, entre as nove da manhã e a hora de almoço. De Coimbra, viria um corpo clínico voluntário para atender os dadores. A ideia médica era tentar encontrar uma medula compatível com o metabolismo do menino doente. Aconteceu então, nesse domingo de boa memória, uma coisa muito formosa: foram cerca de 550 pessoas a responder sim ao pedido. De Coimbra só tinham vindo cerca de 300 “kits” de recolha, o que obrigou a recorrer aos “stocks” dos hospitais de Tondela e de Viseu.
Falta agora saber se alguma daquelas 550 boas pessoas é compatível. Todos esperamos que sim. Até o Senhor espera que sim, julgo eu.
É nesta vida terrena que o humano deve corrigir o divino, não o contrário. O único “milagre” em que acredito já aconteceu: 550 vezes. O outro em que quero acreditar é que aquele menino chegue a homem antigo.
Deus queira que sim.

Cegas Imagens Palavrosas


© Joel Meyerowitz, A Estrada Branca (Toscânia, 2002)
http://www.masters-of-photography.com/




Na diáfana cegueira transversal às minhas já várias vidas, não muito me custa lobrigar o que me (des)gosta fora – e todo o vice-versa por igual. Tenho-me repetido, de bengala de alumínio tiquetaqueando as pedras chãs, que a Vida a tanto não importa quanto a Palavra – e com vivas cegas palavras mo repito.
Hoje, a manhã foi dada ao cumprimento de suaves compromissos decorrentes da profissão. Depois, levei pão fresco para casa, dei de comer à gata, comi a minha porção, engoli café e sentei-me à mesa para saber outras palavras de outras vidas. Entre umas e outras, folheei fotografias de tremenda beleza. Homens e mulheres (a maior parte já defuntos) perfumaram o futuro com os jogos florais de suas visões únicas e irrepetíveis. Como me não é possível, sequer minimamente, angariar imagens como as deles, deixo-me estar sossegado e espero pela hora propícia da tarde, a que me leva, antes do trabalho da noite, à mesa do costume na pastelaria do costume. Sento-me, abro o caderno e espero. A minha cegueira acorre em meu socorro a meu apelo. É o regresso das cegas imagens palavrosas.
Segue-se uma onzena delas.

Caramulo, tarde de 10 de Outubro de 2007


……………………………………………………………..

1

Jasmina o pescoço daquela menina
os lábios ungidos da rosa-do-chá
um cão aos pés sonha buganvílias
outrora cadelas ciosas e más.

Não longe um velho lê necrologias
em si consultando datas apelidos
além do balcão boceja o patrão
junto aos bolos secos há cachos de enchidos.

Já não falta tudo pró 1 de Novembro
mortos todos santos são tantos defuntos
que apelidos e datas esqueço não lembro
sou dado a jasmins e outros assuntos.

2

Uma estrada branca como uma cobra de papel
estende na manhã um plano do mundo
engrossa a leste rufadora tempestade
cães varridos pelo vento ganem a Deus surdo.

Estatelado contracéu um borrão de tinta
é uma árvore. Vizinho casebre fuma peixe
em o coração de rubi da lareira. À porta
uma mulher fita a estrada por que ele se foi.

3

Pedras vivas muito negras na água branca.
Sente-se o frio nos gestos ferruginosos
das crianças e dos velhos alameda acima.
Duas avariadas letras de farmácia.

É um fim de tarde mas pode que seja
manhã muito cedo não tardando a noite.
Da pensão pobre as cariadas janelas
estendem trapos vermelhos postos a secar.

Uma criança cai e chora. Longe no estaleiro
sirena a tocata do turno final.
Barcos voadores naufragam em nuvens.
Pulsam verdes seis letras vivas: F RMÁ IA.

4

Áreas de sombra são outras casas casa adentro.
Territórios do mal ou do desejo ou de tudo isso.
Conspiram tesouras em fechadas caixas
que a defunta avó não quis levar com ela.

Uma flor negra cresce para ser mancha.
Os olhos do animal olham traspassando
de lado o corpo de quem o olha e descobre
não mais nunca mais haver luz nesta casa.

5

A criança fulgura em toda a sua inocência territorial
e omnipotente. Mínimos paradigmas das primícias
ainda despalavradas rutilam em o inexpugnável dentro
de sua cabeça fantástica e mais do que perfeita.

Um dia será dada a poemas e tudo perderá.
Com a bengala do cego terá de ganhar a vida.

6

Casas altas e sem chão como sonhos
perfilam a poente exclamações todas d’alma.
Estações de serviço já muito roubadas
adensam a noite a frios viajantes.
Tarde são encerradas frias bibliotecas.
Já tiro os óculos já desligo a luz.
Se sonho se vejo quanto vivo roubo.

Em torno da cama os móveis da noite
estalidam segredos osteoporoses
as almas devassam engaçam cansaços
próprios da agonia das lentas neuroses.

Uma flor negra cresce para ser manhã.

7

E se o amor
esse sorteio de cegos.

8

Confesso a minha total subserviência
aos jogos florais com que a língua
clitoriza públicos púbicos segredos
que é uma vergonha pôr em notícia

que não em verso.

9

Os homens que andam ao cartão nas ruas
para vender a peso nos armazéns
sonham no vinho com mulheres nuas
junto às mulheres sonham com as mães.

10

Menos de mim saio que em ti entro.

11

Turnam e tornam em roda as lanças
aos vãos palacetes da tinta riqueza
tudo entre canais na extinta Veneza
onde outrora houve venenos e danças.

Já não há.

Wednesday, October 10, 2007

Poesia da Tarde de 9 de Outubro de 2007

Foto: Gloria Swanson, 1924 - © Edward Steichen
Fonte: http://www.masters-of-photography.com/

............

Notas:

1 - O primeiro dos Três Sonetangos para Dançar Sozinho nada tem a ver com a fotografia (aliás maravilhosa) aqui exposta. O rosto de Gloria Swanson, estrela maior (e cadente) dos loucos anos 20 do século passado, fica aqui bem - como em toda a parte. Mas o tal soneto aconteceu-me como tudo, em poesia, me acontece: vem de uma imagem linguística. Embora muito me comovam e digam as artes superiores como a Pintura e a Fotografia, são sempre palavras o que vejo.

2 - Todos os textos que se seguem, mas todos, aconteceram-me no decurso da tarde de ontem, 9 de Outubro de 2007, na pastelaria caramulana do costume (chama-se Giesta Dourada). Recolhi-os nos intervalos de outras escritas (digamos que profissionais). São palavras excessivas, naturalmente. Aqui ficam - são vossas, agora.

D.A.

............

Tábua

I. Três Sonetangos para Dançar Sozinho

II. Da vida o Tempo Dubiúnico

III. Já Agora Todos os Dias

IV. De Mar Preto Fazemos

V. Um Dia

VI. Uma Terça-Feira à Noite em Lisboa

VII. Madame Blanche



*****


I. Três Sonetangos para Dançar Sozinho

1

Sombrios rostos través transparentes tules
cortinam das janelas ópticos silêncios.
Geralmente mulheres muito sós num tempo
estancado a alturas de terceiro andar.

Colecciono tais rostos. Roubo-lhes a clandestina
observação do mundo para dela vos dar
conta e recado. Poucas quando descobertas
sorriem. Fá-lo por elas a tristeza.

Com elas partilho a tristeza e a posse de gatos.
Também os anos teóricos do futuro e a sombra
no rosto além-transparências rendadas.

Diferimos porque elas ficam ao vivo e eu passo, diferido.
O meu recurso é a redacção de sonetos quebrados
e crepusculares que olhem e não calem.

2

Manhãs há que duram anos.
Noites que a vida toda.
Dias clareiam bruscos fósforos.
Nada contamos tudo nos conta.

Passamos junto a rios que ficam.
Em parques antigos renova-se a flor.
Esmolamos da luz um rosto claro.
Retemos do mar dois grãos de areia.

Pelo chão outonal olham as castanhas
de olhos castanhos à face do chão.
Formosa natura tão bem imita

da Mãe os olhos outonais.
Não deixa nunca de comover-me
tanto sermos nada todo o tempo.

3

Matutinas senhoras de café-com-leite bebedoras
pilares da rotina peregrina dos lares
são minhas vizinhas nas manhãs sonhadoras
das pastelarias mais crepusculares.

Migram nossas vidas relojoeirinhas
as tardes dispersam os seres ruminantes
vivemos morremos eu e as vizinhas
às vezes comemos em bons restaurantes.

Chegando a noite volta nosso inverno
eterno lunar tão vindimador
que a dor acutila a fundo o esterno
nos dá este rosto cristão sofredor.

Manhãzinha cedo porém com deleite
vou ver as senhoras e o café-com-leite.


*****

II. Da vida o Tempo Dubiúnico

Da vida o tempo único as dúbias cumplicidades
o mais que posso guardo em arquivos-mortos
custa-me reencontrar algum gajo hoje mármore
algum desamor hoje menos que nada
algum poema escrito antes de esta única tarde.

Creio nos animais e nos versos de Rilke
não muito mais me sobra o tempo é pouco
muito é o sentimento sim mas com educação
até tal se suporta em perfeita conveniência
e exemplo aliás moral na circunstância.

As conversações anoitecem muito na memória
pés brancos de senhoras refulgem idas cavalarias
em pátios de bombeiros bate sem água o sol
vasos de sardinheiras ressumam mijo de velhotas
muito a memória amanhece sem conversação.

Da vida dúbia o tempo único e assim.

*****

III. Já Agora Todos os Dias

Todos os dias a água do dia chega à praia da noite
todos os dias o ouro do dia chega à prata da noite
e o meu receio é chegar sem palavras à noite
que se me dissipem rarefeitas as palavras
tenho muito medo disso não quero ter mas tenho.

Suporta-se de modo melhor a prisão do que o desamor
de melhor modo o esquecimento do que a estupidez
mas o meu pior modo é o medo de à noite
chegar e não ser água
chegar e não ser prata
chegar e ser só noite
e não ter para ela
uma humana palavra que lhe diga

ou escreva

já agora
que se faz noite.

*****

IV. De Mar Preto Fazemos

De mar preto fazemos cada um
em a sala da senhora antiga
que retrato velho de nossa Mãe é.

De mar preto em a sala dela fazemos
pois que nos encadeiam os faróis dos retratos
do alto do fraco pinho envernizado das estantes

o Avô de costas para as Obras Completas de Júlio Dinis
da editora Civilização
o nosso Irmão dando espaldas a guias de conversação
Alemã Inglesa Francesa Italiana
para viagens que não fará
o nosso Pai entalado entre Camilo Castelo Branco e o
Dicionário de Pintura Universal.

A Grande Maré nos enegrece escumosa e literata e triste.

*****

V. Um Dia

Não morreremos
se um dia
todos tivermos
vivido.

*****

VI. Uma Terça-Feira à Noite em Lisboa

Uma terça-feira à noite em Lisboa
num estaminé de bifanas de sujo chão
como sujo o céu da tarde encartonada
precário o sono dos sem-abrigo ao
dito Teatro dito Nacional
fui feliz devagar como uma osga literária.

Eu tinha olhos para o rio
precisava de barco nenhum.
Descendo a toleima comercial
da Augusta ou da Áurea
chegava-se ao rio
e o Rio era o Tempo e nenhum Sono
e toda a Vida e toda a Morte.

Na terreira Praça urdiam-se fodas e negócios

– e eu de negócios e fodas livre
como um formoso passarinho
comedor de bifanas
e vedor de putas.

Andei por lá.
Andei mesmo.
Andei muito.

Cheguei a cumprimentar pessoas
nessa vitalícia noite de terça-feira
na também muito minha cidade
de Lisboa.

Bonita
a sacana.

Muito dada
é certo
a putas e analfabetos.

E a carnavais nas hortas
em 1928.

Mas tirando isso.

Vezes houve que o Sol
alabastrava marfins súbitos
bruscos ouros
(bruscos fósforos)
de História.

Eu já usava esta felicidade triste
dos versos
embora menos.

E ainda lá estou
e mais hoje
que terça-feira
voltou a ser

como por vezes
uma pessoa a si mesma
volta.

E daí não sai.

*****

VII. Madame Blanche

Correm entre aldeias os riachos
e deixam nos olhos bonitos ferimentos vegetais
são hortas claríssimas e coisas que tais
puros sangues verdes de uma cristal cegueira.

Ao álgido vidro há fêmeas e machos
uma vez por ano a Fátima vão
nem da ecologia bons adeptos são
mas levam os porcos cagando aos riachos.

(Se a Mãe de Deus usa vestido branco
eu também quero usar.)


Caramulo, tarde de 9 de Outubro de 2007

Tuesday, October 09, 2007

A Condição Litoral – versos turísticos para crianças antigas


A Condição Litoral – versos turísticos para crianças antigas

(Um dos amores invencíveis da minha vida é a cidade marítima que se dá ao mundo com o nome de Figueira da Foz. Fui feliz nessa terra feita de água e de luz. Justo é que estes versos, tendo dela vindo, para ela sejam.)

I

Quando de novo formos a ver o mar
que ele lá esteja é tudo o que peço
pouco pedir não é menos ter
se a nós ao menos nos tivermos.

São alguns gestos da claridade mesma das praias
um copo de água na mão é uma bandeira de chuva
descalços pelo areal tocamos das esferas a música
de antes as gerações viveram tudo quanto viveremos.

Palacetes e casebres da mesma areia erigidos
iguais anseiam todos por praia voltar a ser
ao longo da que maravilhosas coxeiem as crianças
como gaivotas pequenas como grandes aves.

Retornemos à frescura dos bazares miniaturais
da conventual praça onde as sacerdotisas peixeiras
oficiam salmos e salmões e o mitológico polvo
das profundezas da alma onde a memória nada.

Não podemos estar sempre apenas aqui
por nossa casa vazia correm crianças transparentes
somo-las repetidos nos espelhos adúlteros
murchando sem iodo no estanho tóxico.

Não abjuremos a condição domingueira do desejo
lautos farnéis conciliemos em seira de esparto forte
e o ar solar em profundos haustos altos bivalves bebamos
resgatada a botelha da molusca sombra fresca das rochas.

Ao mar me portes de volta muito pois muito
tenho eu enfraquecido de arbóreo mineral langor
sem outro vital transporte que este dos versos
tossidos manhã muito cedo em enxuta pastelaria.

Que o vento litoral nos accione em levitação
como a panos docemente enforcados em arame
desfraldadores das acústicas vozearias da viração
e dos transcoloridos hologramas dos barcos ao longe.

E muito morramos escalando-nos nus deitados
do homem dos gelados a voz vinícola recebendo
recebendo do homem da bolachamericana a solidão de tostão
e da Mãe outra vez nova a água de groselha maravilhosa.

E tu não sejas minha mulher sexual mas irmã minha
criança um pouco mais nova menina antiga
precoce reorientadora de minha vida em versos mal gasta
rapazito dado e perdido em nostalgias temporãs.

Na praia o favor farás de amar-me pelo que não fui
e sido deveria ter quando éramos para ser
sempre meninos de iodada derme e naturais dentes
uvas trincando como a pérolas de vinho doce.

O clarão da serra nos chegará florão do alto
a cal dardejando de suas casinhas comoventes
pouco nada nos dizendo não ainda a morte
que tais peças junta em dominó de esquecidos inquilinos.

Do fundo das águas exumaremos traineiras
com delas os escuros pescadores da prata zichadores
pelas frinchas descalafetadas escorrerá o salitre
e aos fantasmas da lota abraçaremos fraternais.

Nos não falte nem tanto mar nem amor tanto
por sobrevivente turismo de crianças antigas nós
constantes decerto de fotografias versicolores
em gama de negro giz cinza e azul.

Longe do mar em salas de velhas mães
somos já rostos de galeria passe-partout
idênticos marinheiros que perderam as graças do mar
em 1970 ano mesmo desse suicida Yukio.

Tudo o que peço é a memória das uvas lavadas
em copos de água transparente e fria
e o coração poder descalçar de sua pedestre armadura
e testemunhar na praia a memória futura.

Quando de novo formos a ser vistos pelo mar
que lá estejas é tudo o que peço
tudo já tive e nunca pedi
senão que estiveras quando eu já não.



II

Tenho tanta pena de mais vezes não nascermos
está hoje uma tarde convocatória de todo o ouro
a luz é tão bonita que um gajo sorri sozinho
como fazem os tolos como as crianças fazem
como às vezes saltam os animais benignos no monte
e os peixes felizes e amnésicos à flor do oceano
e os cavalos imaginários das infâncias solares
como a minha foi quando eu nascia todas as manhãs
às vezes a Lua demorava-se manhã acima
como uma memória futura um sol de cal
e as árvores inclinavam-se em lapiseiro capricho
e no inverno as cheias davam um pouco vontade
de morrer de beleza de feliz desgraça de pobreza
quintas e casarios fumavam lenhas e ceias
o sino da igreja aportuguesava o Cristo local
e todos os pais eram vivos e trabalhavam e eram fortes
e todas as crianças ovelhavam pela erva das colinas
os velhos usavam chapéu e olhos sábios
de mochos oitocentistas ilustrando bosques falantes
longe o mar subia à paleta vidraceira do céu
peixes e estrelas dividiam a religião do infinito
o meu corpo não era ainda espermático ou licoroso
o teu também não que eu sei basta fazer as contas
acontecia-me nascer de noite também
quanto mais chovia mais eu renascia
de olhos fechados na cama aberta pela Mãe ouvindo
o aplauso infinito da chuva ao drama do mundo
o infinito drama do mundo das crianças ouvintes
da chuva desolada desoladora e tão gaiata
como uma criança nua havia-as muito no meu tempo
descalças no esterco dos animais de tiro da agricultura
infectadas de moscas e de alcoolismos fundadores
algumas rebentavam do coração numa aflição de pássaros
desasados de golpe pelo gato da miséria patriótica
comecei a desnascer mais e mais a partir delas
dei por mim aos dezassete anos nos bailes do Clube
a música eléctrica entrava no corpo tal formigueiro
líquido era o perfil das raparigas de febras enjauladas
em gangas causticadas de lixívia e primeiras
menstruações aromáticas em fissuras de caramelo
começou então no mundo a desinstitucionalização da eternidade
os homens de chapéu tiravam o chapéu e deitavam-se nos caixões
chorados com violência por filhas e cães muito magros
o sino cantava poemas mais lentos dessa lentidão
que crava as unhas fundo no coração
desapareciam as infantis ovelhas das colinas
umas iam para serventes da construção outras para oficinas
a minha Mãe teimou que eu haveria de estudar
o Século de Ouro da Poesia Espanhola por exemplo
a Porra dos Verbos Franceses a Implantação da República
Capelo & Ivens Gago & Sacadura Stanley & Livingstone
Dr Jeckyll & Mr Hyde Marie & Pierre Curie Holmes & Watson
Bucha & Estica Yourcenar & Mishima Nascer & Morrer
à noite revisitava o meu quarto em velório de livros
no pátio os cães rondavam como sentinelas envelhecidas
aos poucos os anos tornaram-se muitos dei-me à corrente
autocarros opúsculos crepúsculos botânicos tabernas frias
nunca percebi fosse o que fosse da minha cidade
na gare rodoviária os bolos eram fritos a gasóleo
os choupais eram devassados por ciganos e homolheres
já então a tinta-da-china das matas me matava
de rendilhada beleza litográfica eu ansiava de lápis
na mão nos olhos no corpo que se me erectava
de concupiscente paixão pela pobreza de viver tanto
enquanto já tão pouco renascia digamos assim
dei por mim amando mortos coleccionando almas
expostas em ouro ao sol de tardes assim agora depois
no monte à flor do oceano entre fábricas autocarros
tolos e crianças sorrindo sós.



III

Os olhos cheios de água do mar
orlam do olhar a condição litoral
um homem maduro suporta mal
o sal que enxuga o mesmo chorar.

Por exemplo raparigas ou cães
tidos e perdidas em baías ágoras
cruzando o manso terror da dissolução
uma noite de inverno manhã de verão.

Textos: manhã de 9 (I) e tarde de 8 de Outubro de 2007 (II e III).
Pintura: Monge à Beira-Mar, de Caspar David Friedrich.