Friday, September 28, 2007

ENFIM A FELICIDADE e outras DEMONSTRAÇÕES DE CARINHO

Foto: © Sandra Bernardo, 2007
Tábua

I
DEZ HISTÓRIAS DÉCIMAS DE FAVOR
Caramulo, tarde de 25, manhã e noite de 26 de Setembro de 2007

II
SONETO DE REAVIMENTO FLUVIAL
Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

III
ADENTRAÇÃO DOMÉSTICA DE URINÓIS
Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

IV
COM TV DE CÁ, ALDEIAS PORTUGUESAS E FUTURO TAMBÉM
Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

V
PRAÇA
Caramulo, manhã de 28 de Setembro de 2007

VI
CINCO QUADRAS PARA A PANELA
Caramulo, tarde de 25 de Setembro de 2007

VII
DEMONSTRAÇÕES DE CARINHO
Caramulo, tarde de 20 de Setembro de 2007

VIII. SENHOR DAS RAPOSAS DESCONHECIDAS
Caramulo, tarde de 21 de Setembro de 2007

IX. DUAS QUADRAS DEVIDAS AO AFLUXO DE SANGUE AOS TECIDOS ERÉCTEIS
ibidem

X. PONTUAÇÃO
ibidem

XI. SUBEXISTÊNCIAS
ibidem

XII. DUAS ASSINATURAS
ibidem

XIII. VELA
ibidem

XIV. TELQUÉLÉ
ibidem




****************************************************


I
DEZ HISTÓRIAS DÉCIMAS DE FAVOR

Caramulo, tarde de 25, manhã e noite de 26 de Setembro de 2007


1

No ocaso de 1996, recebi de um amigo
um pedido de favor. Veio de Inglaterra por carta.
A carta tinha uma carta dentro.
Era para entregar em mão ao filho.
Fiz a entrega ao filho da mão do meu amigo.
O meu amigo depois morreu.
Trouxeram-no de lá do mar
até se onde não vê.
Agora já não escreve cartas de cartas.
Eu ainda entrego.

2

Tenho passado por prédios novos
quando nova era a infância
que me calhou.
Perderam a pele da tinta,
a madeira dos caixilhos ganhou as
brancas de perder.
De dentro das casas, saem deitados
os homens e as mulheres
que as geriram desde sempre.
E até nunca.

3

Quartos pintados a verde ou cor-de-rosa,
conforme os filhos dos outros casamentos.
Absoluta economia e expansão relativa.
Inscrição na Associação local, pacíficas ambas,
Associação e inscrição.
Livros e discos, na sala pintada a creme,
guardam histórias diferentes,
em tudo iguais, da comum vida.
Só os poemas seriam iguais a eles.
Mas não há poesia em casa.


4

No Inverno de 1988, viajei muito de comboio.
Conheci o tempo no tempo: o horário da chuva.
Descia numa estação pobre como alguém
no começo – ou como alguém no fim.
Eu estava entretanto.
Eu não era pobre.
Tinha um inverno por minha conta.
Aprendi os horários, fixei a chuva.
Vi o Natal passar, o Novo Ano hoje extinto.
Quando volto a um comboio, estranho o tempo.

5

Uma solteira de cinquenta anos sai manhã cedo à rua.
A mãe ainda é viva, continua a morrer em casa.
Ela marcha sobre tapete de folhas, álea além.
A mãe cheira a remédios irremediáveis na saleta.
A mulher vai continuar rapariga até o último dia.
A mãe vive de últimos dias.
O outono da mulher é um caso absolutamente particular.
A mãe sente as ideias mortíferas do gato que dorme.
A mulher abre a carteira de mão, tira um lenço.
A mãe deu-lhe o lenço em pequena, cheirava a alfazema.

6

Um homem de pé na noite aumentada de um rochedo.
O mar, canal entre pontões, giza bruscas flores brancas.
Alguma da espuma borrifa o rosto do homem de pé.
Primeiro, gritam as aves. Depois, gritam os peixes agarrados.
Barcos enforcados deitam-se no cais como peixes terminados.
É provável que um deles seja o meu amigo terminando 1996.
Estou na manhã, o sítio é alto como as aves do mar.
Vivo entre pedras ferrugentas e caras de espuma.
O mar já andou por aqui, ninguém o recorda.
O rochedo do mar encabeça alguma montanha submersa.

7

Andorinham crianças ao sol de um pátio.
O carvalho antigo esconde delas antigos enforcados.
Derrubam perto estábulos para um hotel novo.
Um velho solteiro colecciona carrinhas funerárias.
De noite, vozeia o vento uma sede pluvial.
O Estado plastifica as crianças com leite chilro a subsídio.
Em alpendres, há mulheres negras que foram brancas.
Um fio de música inquieta a sonolência dos cães.
No gabinete do contabilista, urdem-se pequeninos infernos numerários.
Do carvalho, algumas folhas caem numeradas, calendárias.

8

Tenho amigos que fazem o mesmo: vivem
sozinhos dentro dos mesmos que são.
Isso acontece a vida toda, às vezes.
Ou às vezes nota-se mais que acontece.
Eles labaredam por dentro – alguns são
mulheres.
Eles e eu vemos separadamente os gatitos
que vadiam sob os contentores do lixo,
as bacias de chuva atiradas à cara do ar,
quando novembro arde nenhuma espera.

9

Certos serenos afrontamentos de homem:
um rio, um casario; um toque, um bosque.
Veredas e azinhagas alongam a pulsação dos olhos.
Acometimentos não serenos chagam peles,
por mais curtidas. Encerram ao público
estabelecimentos outrora honrados, mas é que
morrem os velhos estabelecedores, florescem os negrumes:
sobrinhos, netas, noras, irmãs velhas. E ninguém
se lembra de concorrer à herança da serenidade,
lembram-se só de acometer sem afrontar para estabelecer.

10

Amo-te além de ti, tanto, que nem amar há-de ser
isto, antes provocação às demandas do apagamento,
do suave desprezo que aos outros votamos
em insígnia do mesmo que a mim voto,
se lhe der atenção como a ti, por mais contrariado,
sigo dando. Fora do amor sem salvação do mundo, guardo
em casa – em caixas de papelão, gavetas de
castanho e sacos de plástico – tudo
quanto me não ofendeu nunca, senão fendeu,
cessado havendo. Uma carta de 1996. Um comboio de 1988.



II
SONETO DE REAVIMENTO FLUVIAL

Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

Vêm as chuvas como as doenças, os rios.
É do coração a circumnavegação da flecha.
Mínimos ataques electrizam os fios,
um rio de sangue pára, que não mexa

na chuva, não mexa no vento, que deixe
a doença ter tempo também.
Os nervos se laçam depressa em feixe
se, vendo chover, se lembre ninguém

de sol já ter sido, nascido e posto.
De nem sempre novembro, setembro ou assim.
Que o digo por mim (e o digo com gosto):

às vezes, há coisas feitas para chover,
outras que a saúde quer adoecer.
Rios no-las dão e vão reaver.



III
ADENTRAÇÃO DOMÉSTICA DE URINÓIS

Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

Adentro urinóis pobres da pobre nação municipal
muitas vezes – para urinar, que não outra salsugem
me lá leva.
O mesmo faço – ou fiz, o tempo vai – em festas
prósperas de gente rica, a croquetéis dada
por desfastio de sóis e rissóis.
Adentro urinóis até em casa – tendo casa.



IV
COM TV DE CÁ, ALDEIAS PORTUGUESAS E FUTURO TAMBÉM

Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

As presépias janelas da pobre gente candelabram
luscos-fuscos na matina mal acesa, cinzeira.
É uma aldeia de escritórios. Acordam. Lavram.
E desjejuam tarde com dois gravetos na lareira.

Têm perto rotundas, circunvalações.
Tasquinham tremoços da marc’ americana.
E acham que é bem, mesm’ aos encontrões,
passar sem passar o fim-de-semana.

O mais é sermos burros e vacas dados a palhinhas
qu’efervescem sem Djíza-se nem pelas alminhas.

Borrada nas ancas, sulfúrea ovelha
balindo às alminhas caga-se e ajoelha.
Do resto futuro, só netas cantoras:
concursos TV, amor – e manjedouras.



V
PRAÇA

Caramulo, manhã de 28 de Setembro de 2007

É uma praça todas as manhãs inaugurada pelo Sol.
Muito branca, de olhos verdes no múltiplo rosto.
Calçado o chão de motivos atlânticos, hipnóticos.
Cercadura de árvores que já viram tudo
e a tudo e todos esqueceram já, menos
aos animais.

Perfume de comida popular mana de uma cave aberta,
negra. A taça alta da fonte recebe os pés
da estátua do conquistador de manual escolar
hoje cagado pela amnésica diarreia das pombas.
A hora é sempre a mesma, na mortandade
dos ponteiros.

Somos os ponteiros, todos: quem vê, quem é visto.
O céu perdoa-nos os ufanos afãs da irrisória condição
nossa. Senhoras maneirinhas arrulham compras deluxe
na loja francesa. Cavalheiros apessoados cigarrilham
política no café de poetas bilharistas que jogam
e não escrevem. Velhos assexuados xaropam na
farmácia os poemas das receitas. Na casa das
lotarias, expõe-se a sorte dos outros.

É, enfim, a felicidade.
Dói um pouco, ser tão parecida com a eternidade.



VI
CINCO QUADRAS PARA A PANELA

Caramulo, tarde de 25 de Setembro de 2007

1

Ainda podemos ser, temos tempo ainda.
Não de todo nos desertou a funda vaga.
Meia vida com outra meia se paga.
Meia para ser, muito tempo ainda.

2

Fora do tempo te tenho ’scrito coisas fora.
Dentro me não cabem, d’escrevê-las tenho.
Quando soltas, já cabem, embora
coisas muito idas, já delas não venho.

3

Aveludadas orquestras costumo ouvir
nas brandas horas sossegadas
a que não usa o coração latir
a cavas ânsias descompassadas.

4

Amour e glamour e azul luz e blues
e moscas as mais carniceiras,
emoções e presuntos e mamas e cus,
mais o desemprego vital das carreiras.

5

Já quinhentos anos comemorei de autodescobertas
que me não valeram descobrimentos.
Panelas há sem testo, abertas.
Outras, dadas só a fechamentos.



VII
DEMONSTRAÇÕES DE CARINHO
Caramulo, tarde de 20 de Setembro de 2007

1

Em Sesimbra, uma noite, aranhei
pela teia nocturna de candeeiros fios
composta. A asma do mar areava
o alumínio da respiração, que já então
era o menos alegre dos meus cantos.

Procurei nessa Sesimbra de Coimbra um rapaz,
além estabelecido em nocturno bar, como outrora aquém.
Não encontrei o rapaz. Entrei no bar dele, falei
com quem estava, ouvia-os através da presença
do mar do ar. Alongava cautelosamente os
braços de aranha, finos na teia de garrafas.

A manhã chegou depressa de mais, como sempre
que recordo antes. Ao olhar irisado, as falésias
monasteriavam a fé do sítio
em si mesmo: sem homens nem aranhas
nem vidas. Eu estava lá, sabia que o

meu futuro passava, sabia que a recordação
se estrofaria sozinha, uma vez que eu estivesse
(estou) na serra, longe do mar e sem outra
teia que a da miríade de babas e estrelas,

na qual deponho minha aranhação e minha
respiração, o tal canto.

2

Na Telhada, falei uma vez francês
com uma família que tinha vindo à festa
como eu ao baile.
Eu era música de conjunto: cantava segundas vozes
que nunca chegariam a primeiras
e tocava um baixo de terceira escolha,
não tinham arranjado mais ninguém,
nem para aquele conjunto,
nem para aquele orago,
como aliás acontece nos casamentos.
Fritavam peixe e assavam carne
em barracas cujos pilares eram
grades de cerveja, voluntários hirsutos
cuspiam para o chão enquanto
esfaqueavam broa e salgavam tremoços.
Moi, j’ai bavardé un tas de conneries:
comme d’habitude, d’ailleurs.

Os anos terraplanaram esse Verão irrisório.
Não sei que é feito dos franceses.
Sem conjunto, arranjei maneira
de seguir tocando mal:
vim para a poesia.

3

Tirando os anos na Lameira do Saramago,
hoje Rua 1º de Maio,
fui feliz por segundos aqui e ali,
mais ali do que aqui.
Recordo uma noite em Lisboa.
Era no Bairro Alto.
Num bar sepultado pelo coveiro da músicambiente,
gritava-se para se ser ouvido.
Eu ouvia, pois que já então
(como aliás toda a minha poesia comprova)
nada tinha a dizer.
Éramos duas mesas, talvez dez, doze pessoas.
Calhou-me uma cadeira de ferro lascado
a verde.
À esquerda, estava um monhé mentiroso.
À direita, uma rapariga boa como uma manhã
sem horas.
O mentiroso era inculto: mentia sem aquela
superioridade reconhecível nos abonados
pela graça da oratória.
A rapariga era alta nas botas pretas.
Mudámos de bar, a noite trocou-nos por outros
e a si mesma por outra.
Mas guardo um lastro feliz: uma noite,
em Lisboa,
convivi com a mentira e com a beleza
ao mesmo tempo.
Daí vim para a poesia, também.

4

Verticais pardais a senhoras subidos,
ao balcão do café café tomando,
me encantam por trás à visão das aves,
aliás casadas e ’m’ a uma perfiladas.

Tumefaz os vestidos a firme nalgação,
sustentam pontões em concha os mamilos.
Altaneiras aves de altanaria nenhuma:
com os anos não voam, q’aumentam de quilos.

Mas sempre bonitas, sãs e comestíveis.
Algumas, por graça, badanam gestinhos
’inda de solteiras, águias-passarinhos,
de brancas barrigas respirando sáveis.

Isto é no café, num dos do País.
Sou um dos que entram p’ra não mais sair.
Assisto aos pardais os mais mulheris.
Desolho e peço um copo de anis.

5

No Teatro do Príncipe Real, em meus anos poucos
da pouca idade, recebi filmes emanados
ou de Deus, se O houvera, ou dos Irmãos Marx,
que os houve.
Era em Coimbra, na Sá da Bandeira.
Eu já anotava as árvores a canivete
memorial: escrevia-as por mim o palavrador vento,
como a todos e a todas.
O vento do cinema de Coimbra trazia
rebuçados gustativos e camisas baratas
metidas à força adentro o cós.
Já então éramos todos, os dois, sós:

eu e o Príncipe Real.

6

Tenho lugar marcado, não
na História da Poesia Portuguesa, mas
na histeria da poesia portuguesa.

Sou como as outras:

mariposa queimando as asas
em torno das velas
que ninguém acendeu
nem vai acender,

que se fez tarde,
o Pai morreu
e a gente almoça.

7

Vejo-nos severamente limitados à luz dos ocasos,
o matinal por nascimento, o outro por epílogo.

Os de nós que não dormem sob as arcadas
do Teatro Nacional em cartões frigoríficos e mantas de outro
papel periódico, esses de nós
sabem(os) a insistência dos
ocasos.

Sermos sinceramente portugueses é
sinceramente
(o)caso para isso.

8

Em Setúbal, uma vez, adormeci numa conferência.
Era de gente que a si mesma chamava BDO
e síniórpart’na.
Tive pouco tempo para estar acordado
nessa importância preterível.
Eu tinha um caderno de folhas brancas,
um lápis nº 1 novo.
Deu-me o sono agravamentos nalgais
de boa cadeira num hotel tão bom,
mas tão, que a recepcionista até se chamava
desk.
Desk Tu aqui abaixo, Senhor,
a ver isto,
Cristo.
E guarda-me o sono,
Ó Benquisto.

9

Trata-se, mui naturalmente, de ter os livros
na cabeça e em casa. Trata-se disso.
O resto é a existência. Vai-se ali comprar

knorres, vai-se ao teatro provinciano,
vêm à têvê a loura feia da meteorologia
e a boa loura daquilo da dança que dá umas oficiais

com o ex-candidato oficioso – e pronto. Está feito.

Mas, naturalmente, os livros: na casa da cabeça.

10

Vem (veio) então a idade que torna siameses
todos os alheios gestos e olhares.

Sabemos ao que vêm todos e todas,
eles e elas:

ao mesmo.

11

Mesclam-se-me muito vilas e cidaldeias.
Muito a vida se me mescla.
Interdórficas secções ao pus de ideias
me ferem danticorpos: é uma festa.

12

Tenho alguns funerais infantis ’inda vivos.
Estive, mal tinha nascido, no, de um velho, enterro.
Guardei pessegueiros e raposas rápidas.
Estou pronto para o trabalho, mas vivo.

Viver, daí, acontece-me da cabeça para baixo,
onde o tampo da mesa recebe trabalhos
manuais. Vejo que isto é um cinema privado:
e um teatro quase-quase abandonado.

Avenidas ao frio sobem de cidades provinciais.
Tudo, como eu agora, se deitava cedo
ao esquecimento. E das magras chuvas de então,
não guardo senão o sol de dieta do regime futuro.



VIII
SENHOR DAS RAPOSAS DESCONHECIDAS
Caramulo, tarde de 21 de Setembro de 2007

O senhor das raposas desconhecidas
habita o meu coração dormidor de montanhas.
Ele identifica laranjas uma a uma:
citrina lhe resulta a onomástica.

Ele ouve a água das nascentes como a uma
hemorragia mineral: menos mal
que saiba quanto correr é viver e é morrer.
Na encosta nascente, o lado do sol e das laranjas.

Casebres pardos de vidas semelhantes a restos
de fogueira, chafarizes de pingão nariz metálico.
Uma frutaria vende peixe também – e selos
de correio para o Luxemburgo postal

de nosso Portugal.

O senhor das raposas desconhecidas
é um senhor – cá do burgo.
Ele amarelece com civismo ao sol diário,
chuva embora.

Rápidas cortinas cinematecam a luz das salas.
Porões de giz escrevem pretas ardósias: a memória
falsificadora dele e de raposas

não caçadas ainda nos verdes, verdes
campos de Inglaterra

por discosjóqueis de casaco vermelho,
calcinha branca e chapéu do preto das botas

como o açafrão da Índia
depois de Índia-Índia-ele-e-eu
a caminho de Viseu.

Caramulo, ano 2007:
o senhor das raposas apolíneas
prepara a tranquila amaragem da Lua,
a lunar alunagem desse alto sítio
de raposas, crateras, transmissões a
preto-e-branco
e novidades
para sábado que vem,

entre habitações
e outras apoteoses nascentes
a oriente viradas
como janelas oratórias.

Vida desse senhor, outro ano qualquer:
escrever o que for, dê lá por onde
der.



IX
DUAS QUADRAS DEVIDAS AO AFLUXO DE SANGUE AOS TECIDOS ERÉCTEIS
ibidem

À madura visão de uma mulher, digamos, boa,
sucede eu tremer adentro fracções
que não estão à venda em vulgares secções
nem economatos de portoulisboa.

Não gasto, mas gosto, de vê-la só ser
’ssim boa, madura, fruta a não colher.
Tudo o resto passa, passar é viver,
digamos, bem boa, dura, ’ma rica mulher.




X
PONTUAÇÃO
ibidem

Antes de alguma dessas doenças iguais
a pontos finais,
uma vida de reticências.



XI
SUBEXISTÊNCIAS
ibidem

Vivemos suburbanos amores sujeitos a pilhagens
de terrenos submunicipais não longe do central clarão
da sede conventual.
Garagens mínimas mal alojam carritos mínimos,
amarelecem os relvados regados a prestações
como as aliáspectativas.

Ficção científica dos anos 50 não bruxuleia já
os serões televisivos de mortos-vivos:
consolas da interacção electrónica trocaram-nos
filhos e pai por gigabáites eventuais.

Duradouros, só o alcoolismo e a pobreza.
E o suburbano amor de substituição,
em casitas que os pais até teriam
ajudado a pagar se não houvessem
desfalecido tão cedo para nossas tardias
suburbanas existências

e desistências.



XII
DUAS ASSINATURAS
ibidem

O tempo da vida do meu tio António
transcorreu-se a si mesmo
como dos rios a água corre água.
Manteve ele décadas de um amor
com minha tia e dele mulher:
rios entrefluindo águas, dois filhos,
poucas semanas depois dele
morreu ela.
E assinaram ambos
estes versos.



XIII
VELA
ibidem

Folheiam as mariposas a própria cor das asas
ao lume que chama e mata, em chama.



XIV
TELQUÉLÉ
ibidem

Celebro as bestas e as rosas
por muito olhar e mal ver.
Sou da minha língua como sou da minha rua.
Sou da nossa gramática como somos do nosso tempo.
A felicidade vale mais do que o ouro
por tão mais rara ser do que ele.
A infelicidade também tem valor: não
na raridade apoiado mas na democracia
que lhe subjaz.
Esta mesma tarde, em casa, arquivando papéis,
dei com uma carta do meu Pai.
É de 1976, Agosto.
Eu tinha doze anos, estava numa praia do Sul.
Ele tinha cinquenta e nove, estava na pintura.
Um velho amando um menino.
Descobri depois uma carta imbecil escrita por
um desalguém qualquer.
Tive gosto em rasgá-la.
Também mato palavras, fazer que renasçam não
é o meu único ofício.
Rosas e bestas.
Como toda a gente, mato e revivo.
Não sou diferente: sou das minhas rua e língua.
Amo como um caracol: babada e lentamente.
Com a chegada do meu outono particular,
considero propedêutico o carácter falsário
da memória.
Tenho saudades do meu Pai.
Amo as minhas filhas.
Ouço dizer delas o que sempre soube: que,
quando passam nas ruas delas, na língua
delas, as pessoas se espantam de também
as rosas andarem.
As pessoas amam as filhas.
As pessoas amam os filhos.
As pessoas livraram-se da dissipação
por causa das filhas e dos filhos.
Amar? É ter saudades antes.
Continuo antes do meu Pai, por exemplo.
Antes dos últimos dias dele, quando
a doença o tornou transparente como a água.
Vivo tardes abertas numa casa que fecho.
Na varanda, os vasos exclamam hortelã,
salsa, coentros, tintas.
Na cozinha, empilham-se os restos vitais
da alimentação.
Na casa-de-banho, sabão azula fímbrias
de virilhas e axilas esfregadas muito cedo.
No quarto, mantas enrolam-se como peles
raspadas pelos cactos oníricos.
No escritório, os arquivos retomam os rios
sem margens do amor e do idioma,
das bestas e das rosas.
A casa partilha
a terra e o ar,
a água e o fogo
com as outras casas da minha vida:
sucessivas carruagens de um comboio triste
e pertinaz, contumaz e relapso.
A gata holograma-se a si mesma:
sombra, silêncio, brilho topázio de olhos,
sombra, silêncio.
Contemporânea, a vida da mulher da casa
decide perpétuos movimentos: cuida na varanda
de hortelã, salsa e coentros com gestos de tinta
amadurecedora de flores.
Nisto tudo, Sol e Lua filmam tudo isto.
A parada explosão de prata da Lua.
A cal termonuclear do Sol.
As nossas vidas minicalendárias:
saldos perpétuos e vitalícias mortes.
Caracóis me debruam de baba e lentidão
o coração.
Acredito na falsidade essencial da memória.
Acredito na dissipação aliviada pelo amor.
Acredito na minha língua e na minha rua.
Esta manhã, morreu lá o inquilino mais antigo
do prédio da minha Mãe.
Chamava-se Senhor Victor Morais.
Amanhã de manhã, subirei do rés-do-chão esquerdo,
depois de beijar a minha Mãe, ao primeiro direito,
de onde o Senhor Victor Morais dará início
ao houdinismo do costume.
Seguirei depois para a cidade de Pombal,
terra em que vivi, entre tantos outros interlúdios,
o Janeiro de 2005.
Catadupas de luzes, comboios, bares, palavras:
la vie tel qu’elle est,
de bêtes faite comme de
roses.

Thursday, September 27, 2007

Trabalho e Cocaína

Sábado passado, 22, em Pombal, encontrei o meu querido amigo Tó Domingues. Moscatelámos uma conversinha boa. Às tantas, sai-se-me ele com esta:

- Sabes qual é a diferença entre o trabalho e a cocaína?

Eu não sabia. Agora sei. E vocês também vão ficar a saber.

- A cocaína é pó branco...

Bons dias para todos, amigos e amigas.

D.

Wednesday, September 26, 2007

Montanha Mágica nº 20




Logo, às zero horas, é altura de Montanha Mágica (MM).
Em 91.2 FM e/ou www.emissoradasbeiras.radios.pt

Vozes poéticas convidadas:
Fiama Hasse Pais Brandão (na foto),
Sophia de Mello Breyner Andresen (que nomes compridos, os das senhoras…)
e
Antero de Quental.
De Fiama: A Porta Branca.
De Sophia: Fundo do Mar.
De Antero: Nuvens da Tarde.
Leituras de Sandra Bernardo.

Também há textos próprios (pelo que peço antecipado perdão):
Um Longo Verso Branco, As Mãos de Nick Cave ao Piano, Palavras de Água, Dia Todo, Dentro de Ti e A Voz.

Música? Muita e toda boa. Segue lista:

Morcheeba
Joshua Redman
The Mormon Tabernacle Choir
Jacques Brel
Terylene
Scott Walker
José Afonso
Area
Nick Cave
Djavan
Amália
Claude Nougaro
Deep Purple
Patricia Barber
Soul Coughing
Wax Audio
José Mário Branco
Gal Costa
Blossom Dearie
Léo Ferré
Ronda dos Quatro Caminhos
(com coro alentejano e Orquestra Córdoba)
Filarmónica Verdi Cambrense
Chopin
Abdullah Ibrahim / Archie Shepp
e
Ute Lemper.

Em 91.2 FM e/ou www.emissoradasbeiras.radios.pt.

Tuesday, September 25, 2007

Trinta e Cinco Cêntimos de Prosa e Poesia

Foto:
A caminho de Viseu, outro dia – © Sandra Bernardo






1

Viseu, segunda-feira, fim da manhã, 24 de Setembro de 2007. Fui pela Rua Formosa, virei para a Direita. Vivi, entre pessoas que passavam, a evidência de todos sermos ambulatórias lápides: e anjos desasados. Não foi uma sensação mórbida, não foi um arroubo lírico. Foi uma evidência solar. As pessoas: para cá e para lá, seus rostos historiando as vidas que passam na rua que fica, no tempo que passa.
Entrei no Café Isabelinha, comoveu-me a visão, numa estante de vidro, de embalagens de bolacha-baunilha: a trinta e cinco cêntimos, o preço da minha infância. A três mesas, quatro anjos: uma mulher não jovem, três gajos de trintas. Cervejas e copos de branco. Estive perto deles até o fim deste parágrafo.
Voltei a passar junto à casa onde nasceu (1864) e morreu (1896) uma das mais amadas vozes do fado de Coimbra: Augusto Hilário. Dada a manhã, branca e lavada como um azulejo, experimentei polir a luz: bafejei-a, passei-lhe um pano mental, brilhou como um cristal. Antes, do lado da sombra, tinha passado rente a um dos mais representativos exemplares da fauna local: um padre. Encoleirado de branco, andava de saco de compras. Passei por ele, temendo pela minha alma.
Segui, lapidar e angelizado, pelo lado do sol até que o xadrez da arquitectura me permitiu novas quadras de sombra-luz. O meu coração pulsava num sossego de paço episcopal em dia de bispo fora. Vi uma rapariga dando a mão à mãe deficiente, que me olhou desse detrás tão remoto da loucura. Em que dimensão existimos, quando somos vistos passando na rua? É tudo em campo santo: hilários datados a prazo entre pedras: as ruas do xadrez calçadas de pequeninos paralelipípedos de bolacha-baunilha numa estante de cristal brilhante como a minha infância a trinta e cinco cêntimos.

2

Essa flora de mulheres queimadas
pela veterania do amor.
Estou vivo perante as que passam
na cidade episcopal.
Convites e participações de casamento
numa tipografia local.
Sardinhas fritas numa aura de vinagre.
Braçadas e braçadas de flores:
pela terra gritadas a cores.
A minha Mãe sozinha em casa,
mijando-se no sofá, perante a televisão
ligada há 83 anos.
Um mercedes a arder na noite branca.
O coração ventilado a versos.

A tragicómica tristeza para rir.
A grande alegria triste de ter sido amado,
por um homem numerado a anos,
de um inumerável amor:
como um vento antigo
arrepiando hoje
o mar antigo.
A gentileza transparente dos rostos
das minhas filhas.
O fogo-posto do amor
na minha noite montanhesa.
A claridade das fontes – de que
a cabeça tenta imitar,
têmpora, o intemporal
rumor da água.
Quando não escrevo, como sopa em silêncio.
Fora da minha casa (dentro de mim),
o vento mareja o arvoredo,
lunando-o de augúrios: vozes
dos meus idos e de antepassados vossos.
Maravilhoso é o idioma que no-los
eoliza de volta.
O futuro era isto.

Tenho algum tempo.
O corpo multiplica olhos
por todo o corpo:
no tempo que passa.
Máquinas e homem urdem obras
ribeirinhas: as obras ficam
como ruas,
levam lápides.
Brilha, combustível, o ar da luz.
Escrevo.

Ao vento dos comboios, revoam fotogramas
como folhas do meu outono privado.
Filmes mudos da pobre gente de pé,
entre árvores inquinadas.
Muros de fábricas desmanteladas
reclamam direitos autorais
sobre a passagem do tempo.

A cal ferve o leite dos verões anteriores,
todos esses estios estiolados ao lume
da Lua.
Materiais de construção, tintas,
ferragens, ferramentas – palavras
de uma solidez terrível,
atiradas ao passeio
para reeducação de esfumados gajos
como eu.

Na infância, assisti-me hoje por este bairro,
antes anos depois, hoje, a este sol: vivendas
insufláveis bordadas a palmeiras anãs, ninguém
à vista excepto nós dois: o que reescreve (e) a
criança vidente.
Estou na hora única do não-tempo:
contemporâneo Sol de uma mesma febre
termonuclear, sua mesma cal obliteradora,
dourada dor branca sem remédio.
É um bairro dos subúrbios de Viseu.
Casas tomadas de ausência.
Torradas de falta humana, só um cão,
aprisionado num jardim, enlouquece
sonhando gatos e mãos com anéis.
Esta deriva ubíqua da nem sequer dor já, só o branco.
Esta atenção terrível às vindimas da memória.
Mulheres dormindo como gardénias apeadas.
Tóxicas crianças de envenenados amores.
Flash: nos campos do Sul, as labaredas horizontais
do trigo – e a grécia individual de cada
oliveira.
E as outras crianças atentas ao eterno
futuro delas: vendedoras de materiais de construção,
tintas, ferragens, ferramentas.

Agora tu vens daí comigo.
Olha as casas, as palmeiras anãs
intendentes de cães solitários como
faróis.
Revoadas de tinta açulam mares ultrarromânticos.
Agora tu estás aqui comigo.
Deves querer uma laranjada Serranita ou Buçaco.
Deves saber em que vais tornar-te-me:
este homem num bairro, ao sol, desprovido
de obscenidade e de carreira profissional:
um menino com duas fontes na cabeça, outra
na boca – e uma estação de tratamento de águas residuais
no coração.

Olha os pátios vazios.
Desertaram as crianças.
Esqueceram-se da cassete no altifalante:
a mesma música repete a existência
desertada.
Olha os cubos das casas: Sagradas Famílias
em sêxtuplos painéis de azulejos 15x15.
Ossarticulado andar de leopardos
é o dos dias: o mesmo único leopardo,
o mesmo único dia.
Terei vindo quando um dia não for.
Terei completado a ilegível colecção de marés
e de tardes: em subúrbios estiolados
pela desertificação do mar, dos relógios.
Velhos homens tornam-se roxos sob tílias.
Táxis dormem como sapatos vazios.
Dormem frente a pátios.
Ouve-se a invisível criança filha do taxista,
ela olha comboios que daqui não partem
nem aqui chegam.

Sedas em cinturas que dançam:
ao vento, as flores.
(Sim, espera, o futuro tinha flores.)
Raparigas que vi, como flores, nuas:
subiam dos pés os caules das pernas, floriam acima
duas rosas cegas duas vezes:
os mamilos, os olhos.
Sedavam as cinturas um homem
tão depressa já não menino,
tão depressa embaixado o coração
ao pénis, bicho-da-seda.

Agora volto sozinho, vê-me, sozinho
voltando aos aquários sem outros peixes
que as palavras borbotadas,
no café dos anjos terminais
que não terminam,
seus olhos lunares minguando nos quartos
do Lar.

Agora antes de tantos depois mal gastos,
tantas lojas de ferragens, tantos pintores
pintados da destruição civil,
implodidos cavalheiros que não puderam ler
os avisos dos meninos ominosos,
seus fulgurantes retalhos de luz-sombra,
suas necrologias mamadoras
de prospectos e arrepios crespos
de águas ao vento,
balancés de gaivotas
e de corvos.

Quero uma mão no escuro,
lâmpada de brandos filamentos
iluminando o gesto.
Fecharei estes olhos mentais,
onde as imagens ardem,
caudalosas e montantes
como inícios de rio ou de
choro.

Peço devagar durante a sopa,
arborizam-se-me os pulmões,
tenho muita pena de putas e de polícias,
sempre tive,
mães e pais de bastardos
versilibristas
como meninos.
Esta força doente, no sofá a Mãe,
nos cafés a energia das televisões,
nas praças as crateras alunadas
pelo Sol, nas escolas as meninas
preenchendo cupões e ginecologias.

Acaba-se-me a tarde,
todas escritas as folhas das árvores,
tílias tinindo colherinhas de prata,
só quem não vive não mata.
Olhos azuis interrompem-me a cegueira:
uma mão lampadária, as barrigas brancas
cheias de escuros órgãos faladores:
palavras do corpo anteriores
a toda a perdida salvação
dos ambulatórios: na rua que fica,
no tempo que passa,
no rio que afoga as crianças,
dando nele e nelas um vento antigo,
segunda-feira, quase noite,
24 de Setembro de 2007.

3

Estou à espera do homem
que descerá um rio ou de um comboio.
Estou à espera dele.
Não combinámos nada.
Ele saberá hora e local.
Eu faço horas em locais:
agora, aqui.
Estou à espera: não
do que me traga, mas
de que me leve.

Já fiz o trabalho dele.
Levei um irmão, um pai.
Trabalhava eu então a bordo
de rios, de comboios.
Deitava-me no barco da noite:
pouca terra, toda a água.

Acordei para sempre por causa do meu trabalho.
Levei-os.
Estou à espera de um deles.
Pode ser que venham os dois – e a mesma
idade sem anos nem esperas seja
agora a deles,
assim rapazes
como quem não quer a coisa,
assim muito menos velhos
do que eu.

Estou à espera dele entre árvores.
Deito-me na cama, os pés no rio.
Laranjeiras me piscam olhos verdes,
tocadas as pupilas de pigmentos de ouro.
Belo é o rio sulcado de comboios.

Para me entreter enquanto ele não vem,
tenho escrito versos.
Existem outras artes gráficas – e até bons
negócios, de churrasqueiras a carreiras
no ensino técnico-profissional.
Mas não.
Pus-me à espera – e só
trabalho nisso.

Há uma beleza mortífera nisto?
Há uma beleza mortífera nisto.
Por sorte (por graça) sucedem-se-me
capitulações cinemáticas: os olhos dos mortos
em filme, olhando vivos
as ruas (as tílias)
de hoje.

Expressos largam a horas dos casulos tóxicos
de gasóleo, vendedeiras de bolos
carpem os egiptos secos da mastigação,
quartilhos de água mineral
numeram viajantes a euro e meio.

Estou à espera dele.
Agora vou para a rádio, vou falar,
enquanto falo não digo,
digo aqui:

ele está à minha espera.
Ao pé do outro.

Atrás deles, um comboio traz um rio dentro.




Textos:
1 – Viseu, fim da manhã de 24 de Setembro de 2007
2 – S. João da Carreira, tarde de 24 de Setembro de 2007
3 – Caramulo, entardenoitecer de 24 de Setembro de 2007

Monday, September 24, 2007

Caras de Bacalhau etc.


Tenho-me divertido sozinho com isto, mas agora é altura de o partilhar convosco.
A exemplo do que de vez em quando fazem os meus amigos do Tapor num Porco (http://www.tapornumporco.blogspot.com/), vou publicar aqui uma lista de palavras.
É uma lista muito especial. Para mim, vale como um poema que não tive de escrever. Mas primeiro, uma ligeira explicação:
tenho um contador estatístico no Canil. Conta visitas, indica proveniências (sistemas, países etc.). Mas não só. Também indica os visitantes que aqui vieram parar (por pouco tempo, suponho) ao acaso. "Ao acaso", aliás, mais ou menos. São pessoas que accionaram os respectivos motores de busca (o Google, p. ex.) com palavras-chaves. É uma das mais estonteantes lotarias da rede: a busca de sítios por poucas palavras. Algumas dessas palavras são um encanto. Outras, bem, nem sei que lhes chame. Reuni algumas: são um poema. Prometo voltar a fazer isto. Diverti-me como há muito me não acontecia. Bons-dias para todos, regulares e googleiros.
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para que serve o abrunheiro
poemas de baratas com desenhos
espíritas na Figueira da Foz
viagens solteiros e descasados
mota de tres rodas zundape
velhas putas 60 ans
lolita cafeteira de fogão
rota dos laranjais
reclamos luminosos para padaria
portugal fotos sanatorios antes de 1974
leiloes cabras serpentina
poemas de agradecimento
José Antunes Ribeiro
"anjos urbanos" cabelo
versos sobre arvores
susanas nuas
loucuras de bicicleta
casa de cachaça na argentina
santa margarida pintada
sangue na neve de georges simenon resumo
licor de framboesa da avo
cavalo cumendo equa
como cozer panelas ferro antigas ferrugem
comercios de pássaros
cantor de repetes
versos com pessegueiro
tipas nuas
protagonismo em escrita na lingua estrangeira
poemas e versos para casais
animais com missangas
poemas para um amigo atletismo
caras de bacalhau
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PS (salvo seja...): a fotografia foi tirada no pátio de um amigo meu, certo dia (6 de Julho de 2007) que lá fui merendar. Só espero que os motores de busca, por exemplo da Finlândia, não chamem calções a uma coisa que se vê logo ser cueca.

Friday, September 21, 2007

PROSTIPOEMA

Deito-me cedo, levanto-me cedo.
Recebo dias inteiros como pães.
Olho tudo, vejo quase nada.
Colmato com palavras escritas a cegueira
relativa da vigília.
No tabuleiro da pastelaria, assisto
às jogadas dos peões. Sem rei nem roque,
sonham com cavalos e rainhas.
Eu já não sonho.

Indicaram-me esta manhã
na pastelaria
uma mulher que se prostitui por menos euros
que os anos que tem.
Disseram-me que leva uma nota de cinquenta
por atropelo consentido.
À primeira vista, não merece mais de
cinco,
mas ele há prostitutas como poemas:
de cinquenta valendo cinco,
de cinco valendo cem.

Já quase só falo de poemas.
Gostaria que houvesse prostitutas para
falar de poemas.
Só isso.
Pagava-se a uma mulher.
Falava-se de poemas com a mulher.
Não era preciso aquela lamentável
sucessão de imitações: o pénis do pai,
a coisa da mãe, os gemidos brasileiros,
o vai-tembora-queu-jávim.

Escolhia-se uma mulher, ela subia-nos
a um dos quartos da espelunca,
levava-se uma garrafa de licor.
Eu sentava-me na cadeira à janela,
ela aproveitava para ir colando pelas costas
os múltiplos filhos ao álbum familiar.

Por cinquenta euros (ou cinco, ou cem) uma hora,
os preliminares seriam desconstrutivos, ao contrário
do costume da outra disciplina.
Começávamos por apear dos poleiros garnizés como
o Torga, o Eugénio, o Vasquinho do PSD e o
Alegre do P-ex-S.
Depois, iniciávamos, iniciaticamente, a função
propriamente dita – ou escrita.

Eu reconhecia em João Miguel Fernandes Jorge
um dono de estilo; em João Camilo, ela vincaria
o discursor visual; eu, em Vitorino Nemésio, mostraria
o mestre virtuoso da portugalidade; ela, em Alexandre O’Neill,
sorriria de tanta puerilidade; eu, sério e comovido, reconheceria
em Pedro Homem de Mello o Autor do mais bonito nome
de livro: Há uma Rosa na Manhã Agreste; de José Régio, ela,
muito hierática, muito hierofanta, recitaria uma braçada de versos
definitivos e penduráveis como crucifixos;
em Guerra Junqueiro, eu ressaborearia uma oratória métrica
não ultrapassada; e, em Joaquim Manuel Magalhães, ela
confessar-se-ia atraída pela madurez da luz no toldo
vermelho.

Perto do fim da nota/hora, silabaríamos os Mestres:
Ce-sá-rio, Pes-soa, Be-lo, Her-ber-to,
Pes-sa-nha, Car-los-de-Oli-vei-ra, O-só-rio.

Depois, eu desceria sozinho, como sempre
que se me acaba a poesia da noite (há uma rosa)
e o poema da tarde (agreste).



Caramulo, tarde de 20 de Setembro de 2007

DOBRES - Rosário Breve nº 18 n'O Ribatejo


A partir de hoje,
sexta-feira, 21 de Setembro de 2007,
mais um Rosário Breve n'O Ribatejo




No futuro, ou seja, hoje mesmo, as cidades de Portugal são aldeias. Em troca, as nossas aldeias são microcidades. Acho eu. Digo eu. Ontem (no futuro também, portanto), dei por mim numa pastelaria urbana de vila pequena a escrevinhar a prosa que se segue. Aviso já: é prosa melancólica, um tanto armada ao pingarelho literatóide. É o meu costume, enfim. O vosso beneplácito, aliás, só o tem agravado. Cá vai.
Das torres não mana já o bronze pulmonar dos sinos mas a cassete irrisória como a fé do pároco local. Prédios daninhos vegetam onde houve montes, blocos cúbicos vigiados de baixo por cubículos bancários e pastelarias com agência de apostas mútuas numa sorte que nunca há-de vir. Autocarros da modernidade carreiram de nenhures para lado algum, no bojo portando a antiguidade mal reformada dos nossos velhos, últimos que ouviram dos sinos o éreo dobre. Madonas de peitaça inchada como hematomas de leite cachorritam trelas mijonas entre lojas de trapos e pastelarias assombradas por cronistas pingarelhos. Andropausas em fato-de-treino luzem as carecas, como cus a prumo, pelos circuitos aeróbicos do parece-bem. Tasquinhas e feiras medievais, inevitáveis como o cancro, clonam-se umas às outras à pala dos orçamentos municipais geridos por imitadores de serviço. Milhares de suiniculturas geridas por porcos implicam a razão directa de um quilo de fiambre por um milhar de peixes fluviais mortos. A produção-ficção dos canais televisivos do alvará patriótico alzheimera tudo e todos, dos presídios da terceira idade às cristãs salas de chuto. O novo Código Penal é p’ra punir o bem e incentivar o mal, coisas que, aliás, nenhum Governo deixou de fazer nos últimos 864 anos. E, no futuro imediato, à porta das escolas fechadas criancinhas idem rezam para que as respectivas mães se não lembrem de ter irmãozinhos em partos de ambulância.
De modo que, por tudo isto e por todo o etc que não digo por contenção gráfica de coluna, cada vez sinto mais que, mesmo de cassete, quando os sinos dobram, é por nós que dobram.

Thursday, September 20, 2007

Três Nós






I. Nós a Esta Luz

Esta luz é Portugal.
Cubo de ar esfarelado a ouro e a rápidas palhetas
verdes traspassadas de branco.
O ar, de uma brandura chamada bonomia, respira
por nós, dá-nos o dia.
Massas arbóreas, de si mesmas suspensas como
rotundos animais aéreos, alastram pelo tecido
a contracéu.
Um pouco de atenção basta para recepção
da furiosa alegria deste festival.

Sim, esta luz é Portugal.

Creio que sejamos irrisórios,
macaqueadores até dos antropos apátridas
que se nos anteciparam e nos sucederão.
Mas entretanto luz e ar são esta vidraria
– e nosso vai sendo o dia.

Levanto-me muito cedo por esta razão patriótica.
A criança transparente da alba – de ali – vem
incensando, maga, ouros e mirras.
A oriente, o primeiro laranjal sanguíneo
incendeia o frio. O desfechado cutelo da montanha
talha em iguais respirações a neve do lugar
e o lugar do lume.

Sou por vezes tão feliz,
que receio cegar de olhos abertos.
A um flanco sustento a rémora
da solidão,
manhã muito cedo,
no meu País.

A doçura adensa-se: pergaminha-se
como o arbusto do anis
no ar açucarado.

Entra então o outro país: a tarde.
É uma nação muito mais difícil.
É a pátria dos desesperos miligramáticos,
dos pânicos portáteis à flor dos rios secos,
das praias desavindas com o mar.

Tenho algumas tardes que comprovam
quanto vos digo.

Mas mais logo, sei, um instante há
em que a tarde se acinza das primeiras pratas
da noite, igualando-se à alba em eternidade
e vidro.
Volto a ser feliz em tal meu País.

E então, final e primeira, a noite
incha de ventos geológicos para nos devolver
as aves pintoras: as palavras mais negras,
sob a Lua e as estelares gambiarras
que todas as nações já foram e tornam a ser,
excepto enquanto
nós.

II. Nós sem Sombra

Na cama nos deitamos ao mar.
Luminosos como peixes vogamos.
De nossos corpos civis nos debandam as sombras.
Sozinhas regressam às ruas anoitecidas.

Os nossos passos do dia, repetem elas.
Como nós, falam elas sombriamente
com quem ao dia falámos – ou não.
Longas pelo chão, invertebradas, são-nos

mais verdadeiramente do que fomos
no dia. Enquanto dormimos no mar,
aterram elas as mulheres despertas
à insónia das janelas, que abriram

para receber a argentinaria lunar.
Sofremos no mar da desarmada inocência
amniótica dos fetos nadadores sem mestre.
Enquanto sofremos, vogam-nos as sombras

armadas vielas aguçadas pela repetição.
As sombras que nos contrapontuaram de dia
suportam mal a beleza de que capazes
tenhamos porventura sido. Debandam-nos

para na noite nos repetirem do lado
do horror. Babujam elas colas mortíferas
pelo rodapé dos estabelecimentos,
confrontam guardas-nocturnos com a solidão

duplicada. Fiodassedam-se todas, as sombras
que fomos, descasuladas crisálidas descoroçoadas,
filmando da Lua o perpétuo
lado obscuro, como se sonharam.

Nossos cegos manequins regelados
debandam de nós, trocando o frio delas
por nós, que sentimos nas correntes
dos sonhos do mar, sobre o fundo leito.

Enquanto sonhamos a morte genital da Mãe,
pulsam elas borrões perfeitos pelo papel
das ruas e dos cadernos dos homens
que escrevem em pastelarias longe do mar.

Outras sombras fumam a Lua: nuvens
traspassando do alto astro sozinho
o coração das insones mulheres à janela,
temerosas tanto de tão lustral, e corredora,

passerelle de sombras sem homens.
Chiam gonzos e cancelas ao toque
do vento silvicultor, marulha o rio
espumas de estéril lactação. Não o rio

mas o mar nos recebe, dormindo em
sonhos sem outra sombra que nossas
inocências fundamentais. Nesse arizona
marinho, ao sol ósseo que bebe dos

cactos a última humidade da terra,
temos sede de acordar, acudindo-nos
a desolada lucidez de não o fazermos
enquanto nos não voltarem elas, as sombras,

sendo manhã, tal que, de novo, sombrios
nos resultem o dia, a assombração,
a insónia janelar do mulherio
e quem com que falamos – ou não.

III. Nós Apeadeiros

Não me sucede agora já tanto,
agora que sou meu terminal apeadeiro
mas em menino sucedia
bastava desejar a ferrovia
e partia.

Gostava das janelas dos comboios
de sua rápida exposição de fotografias
a ínsua de molhadas laranjeiras
volvendo-se silo de rações
passando a casas por acabar de fazer
as varizes das guardas-linhas
traçando hemomapas a gatos e a filhos
cujas sobrevivências eram mortes e vidas
como aliás são chegadas todas as partidas.

Nisto se me resumem comboio e fado:
só queria a ferrovia de ter partido
não esta de ter chegado.



Palavras:


Caramulo,

manhã (I)

e tarde (II e III)

de 19 de Setembro de 2007.


Foto:

Caramulo,

manhã

de 6 de Julho de 2007

Pois é, Tó-Zé - mais uma crónica para O ECO (Pombal)



Hoje, 5ª feira, 20 de Setembro de 2007,
uma crónica mais para O ECO (www.oeco.pt)



Já não bastava o Governo. Já não bastava o Scolari. Agora, até o Tó-Zé Brito está de volta. Só me apetece chorar.
Eu e os grunhos carecas da extrema-direita amamos muito a Pátria, claro. Mais Deus ali, menos Família acolá, amamos muito a Pátria. Olá se amamos. Mas caramba: Governo, Scolari e Tó-Zé Brito? É muita coisa junta a perdoar ao mesmo amor.
Dou por mim fumando as aritméticas da utopia. Género: Scolari com Tó-Zé Brito mas sem o senhor do fax. Ou: Tó-Zé Brito, Mike Sergeant, Teresa Miguel e Isabel Ferrão ressuscitando os Gemini de 1976, mas sem o Scolari e sem o senhor do fax. O Scolari obrigado a cantar o repertório de 1972 dos Green Windows acompanhado pelo senhor do Governo a tocar percussão na tampa do fax. O Tó-Zé Brito a cantar a lambada à brasileira, primeiro, e ao sérvio, depois.
Nisto, entra em tango o José Cid só de tanga. Atrás dele, à bateria, o Paulo de Carvalho. Ao lado, o Carlos Mendes a meter cunhas para o filho continuar a mostrar a placa na rêtêpê. Um bocadito mais ao lado, dá-se o inevitável: aparece o Tony Carreira a tocar cavaquinho ao ritmo diário das licenciaturas por fax e dos despedimentos por SMS. Mas não é tudo.
Irritado por ter nascido só uma vez, surge o José Mourinho com o seu inglês de mecânico de bicicletas a dizer mal do Scolari mas bem do Tó-Zé Brito. “Isso não se fax, isso não se fax”, diz o rapaz que era tradutor da União de Leiria. “Quando eu for seleccionador, o senhor Scolari nem nas Janelas Verdes tem entrada”, promete o rapaz que está para o senhor Abramovich como os arrumadores estão para o vereador do trânsito. Esta boca do José é muito apreciada pelo Tó-Zé, que sabe muito bem que Janelas Verdes são Green Windows em inglês, ah pois é, Tó-Zé.
Para não chorarmos em público, eu e os grunhos da extrema-direita costumamos ir à Shell (que agora é Repsol, a gente sabe, mas é que somos tradicionalistas) e cervejamos as mágoas cantando coisas dos Heróis do Mar com a mesma devoção com que os nossos compatriotas da selecção de rugby cantam o hino antes de amocharem na pá com cento e tais da Nova Zelândia, país que, exportador mundial de ovelhas e de carneiros, nos percebe melhor do que ninguém, à excepção do Scolari, do senhor do fax e do Mike Sergeant, que significa Tó-Zé Brito em inglês.


Wednesday, September 19, 2007

Montanha Mágica nº 19 - Guião do programa

Carlos de Oliveira (1921-1981) é, com Joseph Brodsky e António José Forte, um dos três poetas convidados do Montanha Mágica. Logo, às zero horas (repetição de sexta para sábado, às zero horas também), em 91.2 FM ou em www.emissoradasbeiras.radios.pt.
Guião
Montanha Mágica nº 19
(para madrugadas de 20 e 22 de Setembro de 2007)


1
Boa noite. Vamos subir a Montanha Mágica (MM). Com mais paciência do que esforço. Em companhia de grande música e de poesia tão humana quanto a mania de subir montanhas de noite.

0001 Eleni Karaindrou
(obrigado, LM!)

2
A onda do mar que a teus pés chega, não chega para ti. Quando chegas, uma nova partida é por si mesma, nunca, nunca mais, por ti mesmo.

0002 Bobby Darin – Minnie the Moocher

3
Na noite, subindo alguma montanha, podes ser tu ou ter sido outro que, à noite, uma montanha subiu. Ou ninguém, na montanha da noite.

0003 Claude Nougaro – Toulouse

4
Praias verdes ao olhar alongam repousos cromáticos. Ilhas de nenhuma ventura papilam além-joalharias. Piratas, flibusteiros e corsários armam madeirames. Por baixo, os tubarões e as rémoras comem águas e futuros.

0004 Neil Young – After the Gold Rush

5
Dizem que a II Guerra Mundial começou a 1 de Setembro de 1939. Era mundial, sim. Mas não era a segunda. Só há, desde sempre, uma guerra mundial. Chama-se Humanidade – e não tem tréguas nem armistícios.

0005 Jacques Brel – Les Vieux Amants.mp3

6
A Peste Negra é mais negra do que a noite, na noite da História. É uma cor aprendida de cor por inumeráveis mortos que não lembram. Os camponeses tornam-se feras inchadas de pus. No palacete, o que não toma banho tem medo do sujo.

0006 Lacrimosa – Sacrifice

7
Tempo agora para descansarmos um pouco. A subida à MM de hoje ainda vai no início. Oportunidade para ouvirmos a voz da Sandra Bernardo projectando o texto Cinema de Carlos de Oliveira.

O écran petrificado,
muros, ossos,
o movimento áspero da câmara
mergulhando nos poços
das leis universais,
o rigoroso cálculo da luz
em que a matéria já cansada,
autómatos, metais,
se envolve pouco a pouco
no vagaroso amor
que é o trabalho quase imperceptível
das manchas de bolor,
a ferrugem, o espaço rarefeito,
e um relógio apressado no meu peito.


0007 Diamanda Galas Gloomy Sunday.

(JINGLE LONGO MM)

8

Depois do Cinema de Carlos de Oliveira, lembremos as vozes e as músicas de quem se juntou a nós na subida de hoje à MM:

Eleni Karaindrou
Bobby Darin
Claude Nougaro
Neil Young
Jacques Brel
Lacrimosa
e
Diamanda Galas

nem mais nem menos. Para cima sigamos agora: devagar e em português, com Jorge Palma invocando a Senhora da Solidão.

0008 Jorge Palma – Minha Senhora da Solidão

9

As mulheres nunca querem morrer. Os homens querem – mas de noite, durante o sono. Eles chamam a isso outono. Elas prefeririam não nascer, sendo assim.

0009 Fleury Landouaki
(que serait-il de nous sans toi, LM?...)

10

Quanta beleza pode correr-nos as mãos como água não represável? Toda a beleza, mas em quantidade: do que supusermos seja o tamanho do mar. Que seja a beleza a chamar-nos.

0010 Patricia Barber – Call Me

11

Dos montes mais escurecido pela Lua, desce ao casebre a rouquidão solitária: é a do lobo lunar, que pede à Lua uma mulher, quando deveria pedir uma loba.

0011 Nat King Cole – Fly me to the Moon

12

Homens e mulheres assombram galerias de simesmosunsmasoutros. São a repetição dos retratos: outros são por repetição, mas cada um, cada uma, há-de sofrer as suas.

0012 Scott Walker – Farmer in the City

13

Alguma vez na vida deveremos ter amado algum animal, pelo menos. Um cão, um gato, um pássaro. Alguma vez deveremos ter amado. Se o não lembramos, não somos. Nem nunca fomos.

0013 Edith Piaf & Charles Aznavour – Plus Bleu

14

A linha da boca de cada homem tem escritas as palavras de alguma mulher. A tinta da caneta foi a vida. O destino há-de ter sido o papel.

0014 Mafalda Arnauth – Este Silêncio

15

Sentemo-nos agora um pouco, um pouco mais descansemos, que a subida ainda só vai a meio. Instante bom para ouvirmos a Sandra Bernardo dizer um poema constante do sítio http://poesiailimitada.blogspot.com/ criado e administrado pelo poeta português João Luís Barreto Guimarães. É um poema chamado Para a minha Filha e foi escrito por Joseph Brodsky. A tradução é de Carlos Leite.

Dai-me outra vida e estarei no Caffè Rafaella
a cantar. Ou estarei sentado a uma mesa,
simplesmente. Ou de pé, como um móvel no corredor,
caso essa vida seja menos generosa que a anterior.
Contudo, em parte porque nenhum século daqui em diante
conseguirá passar sem jazz nem cafeína, aguentarei esse desplante,
e pelas minhas rachas e poros, verniz e todo de pó coberto,
observarei, daqui a vinte anos, como a tua flor se terá aberto.
De um modo geral, lembra-te de que estou por ali. Ou melhor, que
um objecto inanimado pode ser o teu pai, sobretudo se
os objectos forem mais velhos do que tu, ou maiores. Não
os percas de vista, pois, sem dúvida, te julgarão.
Seja como for, ama essas coisas, haja ou não encontro.
Além disso, pode ser que ainda te lembres duma silhueta, dum
contorno,
ao passo que eu até isso perderei, juntamente com a restante
bagagem.
Daí estes versos, algo toscos, na nossa comum linguagem.

0015 Red and Black- Les Misérables


(JINGLE BREVE MM)

16

Já não falta tudo para sermos recompensados, lá em cima, com a Lua a que teremos direito quando chegarmos ao topo mais tópico da MM de hoje. Nós e quem a nós se juntou:

o poeta Joseph Brodsky

e a música de

Fleury Landouaki
Patricia Barber
Nat King Cole
Scott Walker
Edith Piaf & Charles Aznavour
Mafalda Arnauth
e
Red and Black.

Agora, uma novidade absoluta no MM: são portugueses, são jovens, gostam de cantar em inglês. Senhoras e senhoras, My Cubic Emotion.

0016 My Cubic Emotion – Violent (acoustic)

17

Enfartes miocárdios e hemisférios gelados compartem nossas vidas equatoriais. Temos memórias de sumos tropicais. A despesa é paga a frio: com gelo, com neve, com a memória.

0017 Los Fabulosos Cadillacs (con Deborah Harry) – Strawberry Fields Forever

18

Em camas anoitecidas (que não escolhidas) repartiremos nossa solidão essencial com essências solitárias não repartidas nem, muito menos, escolhidas.

0018 Jimmy Page & Robert Plant – Blue Train

19

A noite sobe-nos à cabeça pelo lado do coração. A noite sobe: o que desce, chama-se dia. Um dia de cada vez, todas as noites.

0019 Rickie Lee Jones – Ssomeone to Watch overMe

20

Já não conversamos tão bem como antigamente, nós todos. Já nem somos uns dos outros. Falamos para não ouvir. Ainda bem que nos calamos, uma vez na vida, uma vez na noite, para escutar.

0020 Mike Stern – I Love You

21

Quando do oriente vem a manhã, cora o sol como uma romã. Quando da Lua o gelo, gota-a-gota, platina o veludo, o oriente adormece no frio – e guarda-nos, em segredo, a promessa de uma romã, amanhã.

0021 Ronda dos Quatro Caminhos com Coros do Alentejo e Orquestra Córdoba - Limoeiro

22

Agora, quase-quase a chegarmos ao topo mais tópico da MM de hoje, a vez e a voz do Poeta em Lisboa, de António José Forte, poeta português.



Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.
Segue por esta, por aquela rua
Sem pressa de chegar seja onde for
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror
Entra num café.Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha – numa música secreta, inaudível.
Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
Espreita-o uma mulher nua, branca, branca.
Fuma mais. Outra vez.
Atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.
Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
Dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.
Sonâmbulo, magnífico
Segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
Vela o seu passo transtornado.
Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
Da vida proletária, aristocrática, burguesa.
Febre alta, violenta
E dois olhos terríveis, extraordinários, belos.
Fiel, atenta
A aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.

0022 Léo Ferré canta Rimbaud - On N'est pas Sérieux quand on a 17 ans


23

Esta é a noite, esta é a montanha. Esta é a nossa atenção. Não, já nenhum mistério nos perdoa termos deixado, por humana distracção, de ser sagrados. A noite é sagrada. A montanha é sagrada. Nós não. Mas tu ainda podes sê-lo, esta noite, a partir daqui.

0023 Astor Piazzolla – Adiós Noniño

24

Estamos a chegar. Foi uma subida boa, lenta, humana, não solitária. Connosco subiram

Los Fabulosos Cadillacs (con Deborah Harry)
Jimmy Page & Robert Plant
Rickie Lee Jones
Mike Stern
Ronda Quatro Caminhos com Coros do Alentejo e Orquestra Córdoba
Léo Ferré

e
Astor Piazzolla.

Quem se lhes junta agora é Camané, numa balada muito nossa.

0024 Camané – Balada

25

E pronto. Cá estamos. No cimo mais cimeiro da MM, merecemos a Lua. A Lua e um bom regresso a casa. Sempre a descer, agora. Com cuidado. Com cuidado e com Joan Manuel Serrat. Até para a semana, sempre com a magia possível.

0025 Joan Manuel Serrat – Canción Última

De Estâncias (três sonetos p’ra entreter infância e morte e língua)

Foto: Céu do Caramulo, dia 2 de Julho de 2007



1

Na língua estão a infância e a morte.
Ambas nos são estrangeiras nações.
Falamos bem de uma, mal da outra:
ninguém nos entende as orações.

Na luz estão o futuro e a cegueira.
O futuro é um ontem corredor.
A cegueira é uma maneira de dizer.
É glauca a fala do orador.

O amor entre as pessoas ouve mal.
Se bem ouvira, de si mesmo dissera:
sou cego mas ouço a fala severa

da infância da morte, pois sou só mortal.
A língua da morte nos diz da infância
ser primeira morte à inversa distância.

2

Este século é o nosso último, como todos.
A nada nem a ninguém chamamos já primo.
Tudo se nos repete, à boleia dos milénios.
Poucos de nós torcemos dentro uma bandeira nova.

Em procissão flúem os animais da nossa vida e
as nossas vidas. Acumulamos quintais na lembrança
como a mosaicos quebrados de alguma obra em
velha casa. Em departamentos aquecidos temos

o frio que nos vive por dentro como uma herança.
Século número fim da derradeira criança,
ainda temos tempo p’ra um copo e uma dança.

Nas gasólestações, cumpre muita atenção
prestar às bolachas cuja validade
’mas têm, outras não, conforme a idade.

3

Tiro de aqui dentro anéis que nem sabia
deles ser possuído antes de os tirar.
São vincos de luz no pano do dia.
Se os não escrevo, durmo, é mau o sonhar.

De aqui dentro tiro cebolas de prata
e alhos de um ferro mais ferruginoso
que o óxi’ daquilo que nasce e que mata
e que é tão feio quão maravilhoso.

Tudo tiro p’ra fora, que nada me sobre:
nem anéis de ouro, anilhas de cobre.
Riqueza é perder o nunca ganhado,

que lucro se chama ao mais bem roubado.
Na morte demoram a língua, a infância,
qu’assim sonetando se acaba a estância.

Caramulo, tarde de 18 de Setembro de 2007

Tuesday, September 18, 2007

Terra e Flor em as Bocas dos Marinheiros



Foto: © William Henry Fox Talbot: Barcos na Maré-Baixa, circa 1844

De quando fomos marinheiros não sobra sequer tábua
do sal corroída à flor de óleo em algum embarcadouro.
Fizemo-nos ao mar, desfez-se-nos a embarcação.
A terra voltámos como alunando: assim caminhamos
saltando graves sem gravidade nem poiso certo.
Aos domingos derivamos pela cidade por ruas
sentineladas de jardins como portas fechados.
Hasteia o sol seu glauco pavilhão, não manda a Lua
marés nenhumas mais, não a nós, que fomos
que vamos tudo o que fomos, no imo.
Do remoto mar, nestes agoras de areia enxuta, só
a voz gravada: o vento nas árvores em pelotão
por montes não urbanizados ainda a catrapilo
para efeito de mais dormitórios da vida.
Tácitos parlamentos entrecruzamos em salvaguarda
de nossa pretensa sanidade: na condição sumária
de não mais, nunca mais, ser o mar a ordem do dia.
Fomos todos marinheiros, todos estamos na pastelaria.
Horas em décadas volvemos, de dedinho espetado à ingestão
de copinhos de benzina, entre requentados mármores e zincos
frios. Que o mar não era ânsia de chegar, mas de partir.
Assim se nos volveu: partimo-nos. Juntamos cada
madrugada os cacos, tesouramos os passos do
eterno retorno, zaratustros de astros nenhuns.
É certo: anzola-se-nos ainda em âncora o coração
enterrado nos lodos férteis. Digo: paióis de corais
explodindo em furta-cores como minas-ouriças de luz.
No caldo nutriente (a tristeza), pupilam peixes
triangulares riscados de amarelo e preto e
água profunda como um sonho paterno.
São barcos anónimos os nomes dos anos, moluscos
se lhes alapam ao musgo das faces, uma fervura
escuma essas baías incartografáveis.
Cachimbamos vigias sem farol. Não arde já a rápida
prata do mosaico marinho que ladrilhado foi de
golfinhos e de outras lustrais almas.
Sapatos de napa a catorze euros calçam
nossas mãos do sul, hoje, na pedra borrada
de pombos munícipes, perto de vãos povoados
de cartões frigoríficos dentro de que dormem
homens tóxicos e cãezitos que nunca foram lobos
do mar.
Outros de nós não suspiram já. Evitam até
a bordadura litoral de certas ruas a que o hálito
da água retira pedra do chão e volumetria de casas.
Albergam a oceânica orfandade em associações
recreativas promotoras de marchas populares e de
torneios de sueca. Felizes parecem, quando
terraplanam o que nunca mais podem ser,
não nós.
Nós também não podemos, mas dizemos,
cada um por si, nenhuma coisa a outra coisa que não
seja a duna de prata da noite marinha,
quando fumamos perto de tubarões poliglotas e
mudos.
Muito bom é que não saibam os meninos os marinheiros
que não vamos voltar.
Assistimos, na cidade, aos infantis cardumes
abocando o engodo da felicidade das solidões colectivas.
Temos pena dos meninos feitos de pedra dos montes
julgando-se emplumados lordes de impérios
que são pastelarias.
Quanto onçado tabaco fumámos à tona do mundo,
quanta salgada fibra ingerimos pensando legumes,
quanta aguardente de cana usámos contra o frio,
quanto chá nos ferveu nos ossos a fonte do olhar?
Outrora, muito tudo de tudo isso.
Sermos os vivos custa.
Sermos os da terra custa.
Na cidade, vigiam-nos as estátuas verdes
dos pretéritos a preto-e-branco da História Oficial.
Parques acutilam investidas fálicas.
Barcos de papel imbecilizam fluviais navegações
turísticas.
E nós ressumamos lances ópticos tristes, isso
de os pardais aparecendo como morenas miniaturas
de albatrozes.
Pedra sob o caminhar: visita-nos os pés, das mãos irmãos
do sul, o pensativo coração náutico.
Se não fosse haver tanta gente, tão pouca água.
Se não fosse tanta a colectiva solidão das pastelarias e
dos meninos.
Sabemos pouco em terra.
Não mais um azul diferente de céu oxida
o diferente verde da água tempestiva do mar.
Não mais a viração a bordo agudiza um
salitre de caldo de peixe servido entre névoas
e portos que nunca foram importantes senão à
largada.
Bascos, dinamarqueses, chilenos, portugueses
– tudo apatridava sua mesma condição natal,
ao salitre do desterro.
Vigorava acima o natal perpétuo das constelações,
sob a quilha cortava a geometria descritiva
das lâminas vivas: peixes, afogados, fascículos
da profundeza.
Agora, bolos de sossegada farinha amornam
as imprecisas cinco da tarde.
A televisão pública apresenta toureiros e beldades
evacuadas da terceira dimensão.
Velhotes tossem aposentações fabris.
Senhoras gordas metem pa’ dentro laranjadas
e chocolates.
Do nada que este tudo é, este gosto a terra na boca,
este sal no coração, este vagaroso naufrágio repetido
no cerce infinito de não voltarmos nem do mar
nem ao nós que fomos, entre tábuas boreais, largando
angras em noites de nenhuma semana,
à flor.

Caramulo, tarde de 17 de Setembro de 2007

Sunday, September 16, 2007

Menores Preces sem Resposta – em triplas de quadras quebradas


Foto: © W. Eugene Smith
The Walk to Paradise Garden
1946



I

Aos olhos aflora-me o vinagre arterial de alguma lágrima
ante a evidência coralífera do crepúsculo, à hora
a que as aves se soltam do bosque em uma última

passagem circular pelo sangrento circo do ocaso.

Espraia-se-me uma ânsia respiratória, depois serena,
ante a evidência de muitos de nós voltearem já, como as
aves, em passagem derradeira pela explodida violeta,

p’la roxa campânula de cada apocalipse civil.

A eternidade de cada hoje, vivarquivada na memória
fulminante e fulminada, a tudo considera nada
– e nada é tão importante quão indiferente

ante o amável desamor da Lei que rege casos e ocasos.

II

Enjaula o corpo como a não inocentes animais
as horas más de alguma terça-feira, algum
verão durante que a laranjeira da tristeza

haja dado à luz os frutos de sua sombra doçamarga.

Desce por dentro o olhar a beber da enegrecida água
pelos animais maus servida à contemplação
ante tal obscuro represo licor. Não pode o olhar

senão beber fartamente, longamente beber, represo.

Nenhum corpo é isento de cripta, descido o olhar
à fartura nigeriana da cisterna memorial.
Corredores verticais palpitam a néon a farmácia

imprestável aos dolorosos – todos os corpos.

III

Brisa azul escumando folhas e flores e tabuletas do comércio:
rápida é a formação das crianças eternas em transitórios adultos.
Pelos cantos da casa – e no jardim, em agrestes arbustos – soltam

a escama de serpentes solares até só que osso bruna delas.

Só consigo mesmas voltam a parecer-se quando velhas,
as meninas que, tais bandeiras, o vento da sexuação adejou.
E os meninos, fumando frases moles em bares oblíquos,

comentam a chuva que pelas ruas dança nua ao frio.

Conformam as três paredes da casa o tecto salarial,
divisórias de contraplacado alheiam as velhas crianças
de seus eternos filhos, escumadas serpentes escamadas que, nos

quartos exíguos, insensatamente sonham com arbustos ao sol.

IV

Às paredes da cara afixamos os quadros da expressão,
coruscando os olhos em função de cristaleiro candelabro.
Aos hemisférios violetas da boca uma linha preta

aparta, tal que a dentição garanta a memória lacustre.

Entornadas asas são os braços, alquebradas lanças
atiradas ao malogro do arremesso, cada balanço
anuário do registo comercial. A sul, os pés

incham como lábios tóxicos, bolbos enterrados em napa.

Ao pé dos animais enjaulados, outro deles – o coração – é
o que urra em silêncio, à esmola de mais vinho venoso
e menos memória. Distraídas unhas raspam da pele células tão

mortas quão certas segundas-feiras, antes de certos verões.

V

De carro, a caminho de algures, pode a bruta Natureza
deixar cair um anel que uma lagoa seja – ou um diadema
subido a cristaleira gambiarra de estrelas acesas: ou olhos.

Pode. É sempre então que a analgia adormenta o vivente.

Muita é a beleza não ensinada deste mundo nu. Escusado
é lograr uma indiferença ante essoutra Lei: a que
rege a humanidade estatuária dos penedos brutos

na montanha que mar foi, antes de nós todos.

Iniludível é, ainda, o teor marinho das manhãs ao ente
do mar saudoso. Tanto a tristeza rima com beleza,
tanta uma, outra tanta. E das cercanias da estrada, violetas,

violentas, as bocas da Natureza um só recado dizem.

VI

Podem reunir-nos em categorias bacteriológicas, igrejas,
hábitos de consumo e livros de Verão. Podem casar-nos
e separar-nos, entre vivas, vaias, putos e apupos.

Podem chamar-nos nomes com que não nos escrevemos.

Podem olhar-nos como olham as estátuas de gelo que nos
revelam forma e massa. É até possível que nos filmem
nas ruas natalícias, muito contentes a gastar os cêntimos

do amor em lojas especializadas no amor a cêntimos.

Podem fazer-nos tudo: hospitais, tribunais, escolas,
finanças, creches, cafés, associações, aeroportos,
clubes, tertúlias, feiras, freguesias, pulhices. E nós

demandamos, aindassim, a felicidade numerada das portas.

VII

Cortarás a água com um espada feita de braço.
Farás, da mão, lâmina: e cortarás
enviesadamente, dadas as físicas leis que

regem a Esgrima e a Dinâmica.

O dia chegará quando te tuteie ninguém, ou ninguém
te fale na noite, excepto tu, em sonhos geológicos
mineralizados pelo frio da rua a que caíste.

(Pode ser em tua casa.)

Da poesia, a magia é nada disto recordares
ou recortares, quando, então: pois é tão belo
o esquecimento quão um anel-lagoa,

uma distracção voluntária das estrelas, altamente.

VIII

Eu agora entro para pedir: me não falte o azeite
gasto pelos pobres em seringadoras noites de borda d’água,
quando eram meninos solares meu Pai e os Vossos.

É pedir o não exposto: nenhuma jóia de ourivesaria alguma.

Eu sei. Ainda assim, esse azeite peço porque, passo
a explicar, são escuras as minhas noites não cronológicas,
as verdadeiras – aquelas de desejar azeite no escuro.

E no escuro muito se deseja – tudo, propriamente.

Só a Deus nada peço porque para tal Ginásio não
conheço sapatilhas. Peço mais à lagoa que siga
sendo deitado azeite de estrelas combustíveis, nela e nelas

ardendo a Lua, essa maior prece sem resposta.

IX

Partilha no corpo a escatologia dobre sentido
de porcaria e futuro: merdas áugures.
Cocós e boas intenções jactam dejecções

afinal símiles, como autógrafas cópias mútuas.

Em pastelarias devastadas pelo futuro, cólicas
coléricas e bucoólicas interjeições gaseiam a costura
das gangas sentadas a bever a bola e a veber o licor.

Dos costumes nacionais daremos o ponto.

Agrafa-se-nos a agravada ciência da tristeza.
Sábado já, já noite, estoira a granada fria
da certeza: a gorda vanidade das feiras, poéticas

embora. Isto é: falar da Hora, não falar do Tempo.

X

Frangos e papagaios domésticos franjam a testa marítima
da cidadezinha que de sal faz luz e de luz, sal.
Caminham nórdicos e escoceses em demanda de bares.

Na marina, tainhas abocam quilhas oleosteoporosadas.

É o sal do tempo no relógio da Câmara: ao lado,
o Partido Comunista Português vermelheja sindicalismos;
em baixo, tosse haxixe o arrumador cinquentão.

Estivadores bicepam cervejas degoladas à nascença.

É o sal da minha vida, é a luz da minha vida:
surdas músicas, sórdidas pinturas: megafonam
todas nas praças expostas ao perfil dos barcos:

ao invencível perfil de gazela dos barcos.

XI

A mais branca cal estampa-se a negro de viúvas
à igreja acorrendo a carpir seus operários
defuntos. Depois, breve, tudo passa: esse egipto

e essa hora. O sino tange, vibram os azulejos ao bronze.

Peça a peça, compõe a igreja seus brinquedos:
as pessoas de joelhos, ante as adorações do vinho
e da farinha. Quintais paroquiais à parte,

é uma fé boa, pois que só dói quando é precisa.

Da estratosfera, satélites infotográficos dirão
de massas de cor, povoados, savanas, árcticas
coisas de como nos juntamos para matarmos

e nos matarmos. E a branco ardermos mortos, à cal.

Caramulo, entardenoitecer de 15 de Setembro de 2007

Saturday, September 15, 2007

So(m)bras de Setembro

Foto:
Estação de Bagdad, 30 de Maio de 2007
© Associated Press



Com metódica desarrumação, vão-me surgindo no caderno sobras de sombras. Talvez sejam poemas. Duvido de que o sejam deveras, mas, na dúvida, deixo-os aqui e não volto por eles.

Tábua

I.
SOU DADO A T.V.
– Caramulo, noite de 9.9.2007

II. RÁPIDAS PUPILAS NEGRAS e OUTRAS CENAS
– Caramulo, tarde de 12.9.2007

III.
MUITO NOVO EM PENICHE AO VENTO
e OUTROS POEMAS BRANCOERENTES
– Caramulo, entardenoitecer de 4.9.2007

IV.
TODO O NILO ARDEMOS
e OUTROS COISOS
– Caramulo, tarde de 8.9.2007

V.
MOBILIÁRIA
– Caramulo, entardenoitecer de 5.9.2007

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I. SOU DADO A T.V.

Vi o homem descendo do expresso, duas ou três
pessoas entre nós, penultimava eu a coxia,
reparei nele pela mesma sem-razão de nascermos,
esqueci-me dele enquanto o via descendo,
a maleta de couro na mão dobradiçada
a cobre.

Usava chapéu como usava os olhos: coisas
que estão na cabeça para o resto do corpo não confundir
a hora de impedir a luz
com
a de limparabrisar as lágrimas.

Ele era um corpo velho de mais para que
se não notasse a frescura do fato novo.

Cambaleava com as mãos, o que dele
me sugeriu uma condição de gaivota ou
de homem dado à tristeza vitalícia do álcool.

Voltei a lembrar-me dele vendo-o comprar
cigarrilhas de creme no quiosque da gare.
Por instinto entrei no bar antes dele, eram
dez da noite, o serviço rarefeito haveria de
permitir reavê-lo na luz crua
de todas as chegadas.

Ele chegou com as cigarrilhas, pediu água,
vinho e um pão com peixe frito.
Bebeu a água de uma vez, comeu o pão
devagar, guardou o vinho para o fim.

O fim era a álea de táxis. Ele pareceu
hesitar um pouco, eu resguardei-me na
sombra. Ele entrou num carro e dissipou-se
como gelo numa toalha deixada ao sol.

Eu fiquei.
Não uso chapéu, não trago maleta, não
tenho aonde ir e sou dado a
tristezas vitalícias,
também.



II. RÁPIDAS PUPILAS NEGRAS e OUTRAS CENAS

1. Rápidas Pupilas Negras

Rápidas pupilas negras riscando o céu:
os pássaros do entardecer.
Riscam riscam riscam riscam:
caligrafam a pauta da noite
a somatória noite dos riscados ofícios.

Todo o dia toda a vida os espero
estes pássaros estes riscos
este escrever anoitecedor.

Deveria talvez ter escolhido uma profissão técnica
não este ofício estéril de sacristão nocturno
é tarde não vou escolher outro
a Mãe
desculpe.

2. Semana Armada

Deponho à noite as minhas armas
desvisto o dólman fico nu
faço chàzinhos oro a karmas
invoco a Deus e a Belzebu.

Sábado vem vou eu dançar
ao Clube das Três Mariposas
aquacolonizo a andar
atrás das putas mais vistosas.

Vem o domingo morro em casa
sofá suscito piedade
na Associação jogo uma vasa
bebo uma ginja sem vontade.

Chuva devém segunda-feira
quando foi sol na minha vida?
a vida pesa por ligeira
passa tão breve tão comprida.

Às terças sofro eu de outonos
folhas volitam-me o pensar
caduco cai o caducar
abro bocejos de mil sonos.

Às quartas pronto vem a esperança
de só três dias p’ra mais dança
dá-se uma volta pela vila
ninguém me vendo coço a pila.

Quintas e sextas siamesas
já falta pouco Mariposas
águas de malvas e de rosas
duvidar nunca de certezas.

Pior a noite cada dia
não ser a noite uma mulher
chegando a noite eu chegaria
noite do dia um qualquer.

Todas as armas deporia
pois se as um homem depuser
merece à noite por alegria
despir o dólman ter mulher.

’ssim sendo não não foi ainda
talvez não sej’ ou venha a ser
a morte é feia a vida é linda
é uma maneira de dizer.

Passa tão breve tão comprida
tão fora que nunca penetra
deponho à vida a minha vida
deponho as armas etc.

3. Movilização

Devo estar a envelhecer porque sinceramente
tenho já menos certezas do que móveis
molham-se-me já os olhos ante coisas risíveis
como o mar dando leite o céu dando marés.

Já nas encruzilhadas me benzo rápido
dos retratos as alminhas minhas me acossando
ouço tipóias cavalpedratrotando
por noites de areia e bosques de litografia.

Sinto avós roçando saias pobres de chita
que m’aveludam a nostalgia nas sinapses
ser neto de mortos capuchinha a vermelho
o coração exposto aos lobos da velhice florestal.

Devo estar a envelhecer porque logo topo dos moços
e das moças a afiambrada ansiedade
das glândulas das sublinhas dos leites do mar
e da vibração fria da órbita lunar.

Também me acontece estar hoje por exemplo em 1984
e o boletim meteorológico corresponder a 1975
num clarão humano de água cor-de-ouro
a engraçada chuva magra través os laranjais de 2007.

Lojas de móveis na noite parecem-me casas de que fugiu
gente. Olho-as ainda com a tristeza jovem
dos que querem casar-se e ter psychés cómodas
cabeceiras camas prosperidades imóveis.

Tenho os móveis.

4. Do Recibo Verde e de um sem Utente

Correndo a noite, teu rosto espelha ainda montras
de lojas de ferragens, ourivesarias e sétimos-dias
de um outro Cristo vendido a dízimo.

Quando ao teu rosto acorrer tão-só o espelho
do armàriozinho de medicamentos,
pensa na juventude mamilar dos limões,
no bom que foi ter ido às laranjas.

Ainda marchas pela mesma ambulação.
A cidade é pródiga de filhos voltados
ao contrário.

Não terem as laranjas mamilos.
Não deixou de onanizar, jamais em
tempo algum, a efervescência
até citrina, cristina e cristiana
de alguém que, como tu,
foi à noite eterno – e hoje
corre a noite ao dia
e à semana.

5. Sacramental

Que nos diga
um poema
alguma coisa da vida
enfim
não está mal
até uma notícia
serve p’ra isso.

Que um poema
nos diga
alguma coisa
para
a vida
bem
enfim
temos de ir aos clássicos
que
escreveram
da vida deles
para
a vida dos outros.

Assim
de repente
não sei.

Não.

Sei.

Bocage.

Machado.

Rimbaud.

Eliot.

Rilke.

E o senhor Sacramento da minha rua,
não era poeta, era
pai dos filhos e dos do outro,
que antes de morrer de cancro tabágico
foi um homem bom e nunca
escreveu outro verso senão
este:

Bom dia, menino.

6. Declaração Sinceríssima quanto a Merdas Pagas pela União Europeia que Tenham só Sumo de Laranja e Águas

Não muito fui e nada irei
a recepções que não recebem.
São percepções dos que percebem:
já fui, não vou, não voltarei.

7. Ente

Nada disto tem a ver com a vida.
Uma coisa é um gajo estar vivo.
Outra coisa é um gajo ser.

8. Utente

Nada disto usa a vida.
Uma coisa é um gajo estar vivo.
Outra coisa é um gajo usá-la.

9. Fim do Verso Primeiro de Movilização

Trago muitas vezes para casa
coisas que já levava à saída.
Coisas que a ninguém adiantava
nem ao regresso nem à partida.

Mas essas coisas importam
e exportam.

São a munição de um barco.
O dev&aver de um estivador.
A flecha de um arco.
O lixo de um contentor.

Porque sinceramente.



III. MUITO NOVO EM PENICHE AO VENTO
e OUTROS POEMAS BRANCOERENTES

1. A Leste como a Oeste


A salvação do desespero está na bifurcação.
O caminho há-de ter cornos, a montante.
Timshol é a palavra fundamental: está em
East of Eden, que Steinbeck escreveu, mas adiante.

A salvação está na recusa dos termos do desespero.
A realidade ofereceu-nos uma língua: não com ela
lamberemos, antes viveremos dizendo.
Eu digo bifurcação, mas pode que outra seja a
palavra.

2. M.O. é G. quando T.

O mínimo olímpico é a glória quando a tristeza.

3. Soneto Sujeito a Retenção

Passo a vida nas repartições de finanças
a desejar um Haiti não descontável.
Sou (todos o dizem) pessoa amável
– e não é meu uso maltratar crianças.

Na fila p’ra pagar seja o que for
escuto sem ouvir os Portugueses.
Assim saudades (e assim amor)
m’ilustram íncolas tão corteses.

O mais é menos, é estar vivo.
É ser da lã outro cardado.
E hip-hopar tango e fado
e atender o idiota televisivo.

Quem nasce em Portugal, em nada é morto.
Em nada, é morto, o nado-morto.

4. Ambulatório. E Orográfico

É-me muito evidente o humanismo costureiro
dos arvoredos.
Bosques terminais devasso ainda e sempre,
os não ardidos.
Orografia e sapatos de lona entrecruzam-se-me
em as ambulações
ando muito, não vejo muita água,
vejo casais empobrecidos
pela teimosia
da associação.

Cães transparentes medusam
pelas ruas aquárias.
Árvores japonesas nostalgiam orientes.
E dias há que são diferentes.

Não as noites, iguais como mães:
roxos engendram para virginal mamadura
de procissão à base de leite e de vinho.
E de transparentes cães

às pedras do que vejo
ladrando.
Vou andando.

Além, uma cordilheira de lixos
frapeja bandeiras de esterco voador.
Mais acolá, uma língua de restaurantes
açambarca camiões.
Estações de serviço: insucesso escolar e
magazines ao gosto europeu.

Na orla da barragem hidroagrícola,
espremem pontos brancos
os utilitários enamorados:
são as quecas dos vendedores.

Bucolizo, porém, eu, que, filho
de pai e de mãe
(e, ao demais, virgulador encartado),
sei o meu quanto de fado
e, até, sem rosca de sarilho,
faço minha rima também.

Circulo, quadrado.
Lonas calçadas em orografia.
Um pouco cansado:
de noite e de dia.

5. Em Verso para a Entidade Reguladora da Coisa Social

Ao contrário do garantido nas crónicas missionárias,
abecedário resumido das tónicas assassissocietárias,
não deves ejacular deuses de pagãs comichões.

Nem tens depois de ser FM Pinto
nem antes LV Camões.

Deves ser um homem se estiveres para ser homem.
Ou mulher se isso para mulheres.

Não deixes que te capem ou ceguem, nunca:
muito menos com escumalhas e assessorias
da democrata espelunca.

6. Muito Novo em Peniche, ao Vento

Eu era muito novo e o vento também
vinha de lado como eu.

Ajudei a mudar móveis de casa para casa,
em Peniche, surpreendido pela
omnisciência ubíqua do mar
peninsular.

Eu era tão novo, que nem descobrira
que comer merda pode ser uma vocação.

Conheci no istmo ’ma mulher triste.
Chamava-se Hª Lx., não sei s’inda existe,
não sei, não.


As minhas mãos no comboio que vai para o norte.


Isto é um verso escrito por ela.
Ela sobrevivia num quarto com livros
sem estantes.
Ela só tinha instantes – e livros –
e este verso maravilhoso.

Nunca mais a esqueci.
Não mais o vento a esqueceu.

Eu tinha um colega de Geografia
que depois se tornou mercador de gangas
de marca.

Eu tinha um colega de Matemática
que depois deixou de beber
e voltou para casa
no norte.

Eu tinha um colega de Pataias
que comprava heroa ao grama
e pronto.

Eu tinha um colega de Barcelos
que unhava o cavaquinho.

Eu tinha um colega palestiniano da Covilhã
que, pronto, era ele.

Eu tinha 22 anos.

Nunca percebi nada que não fosse a
Nau dos Corvos.

Nunca vi nada em Peniche que não fosse a
maravilhosa oferta a dez escudos
de tantos livros do
Vilhena.
(Comprei lá também um
Carlos Fuentes, O Velho Gringo,
no dia 28 de Abril de 1987.)

Eu era um anjo suspenso: meses de nada,
um pouco antes, tinha-se-me ido
o Jorge.

Eu era aprendiz de professor,
(mas nunca aprendi),
tinha 22 anos, não tinha
nada a dizer ao futuro.

Vale que havia o vento.
O vento de Peniche é o vento mais humano do mundo.

Também havia o senhor Alfredo
e havia o senhor Manuel
e havia o Cesaltino
do Nau,
um café que era ao pé da muralha,
já não é.
Havia, à janela do Nau, o ex-embarcado
da Marinha Mercante que lia
livros espíritas, vestido de branco
contra a pele solária acima
do escaracolar dérmico dos pés
nas sandálias mariconças.
Tinha uma pancada muito jeitosa, esse senhor.
Acho que já morreu.

Fui à Praia da Consolação, mas
não encontrei Ruy Belo,
devo ter-me atrasado,
oito sete, sete oito.

Perto da muralha, uma cabine telefónica avariada
deixava telefonar de borla. Telefonei muito.

Um dia, de repente, choveu tanto,
que entre os Correios e a Caixa Geral de Depósitos
não se podia passar sem
carta de Cristo ambulatório
à tona d’água.
Telefonei todo contente do Banco para a Escola:

Olhem, vou chegar atrasado por causa distassimassim.

E cheguei.

Ainda hoje chego.

Vale que hoje,
mesmo longe,
está vento.

Estou é menos novo.
Isso e sem nada que dizer
ao futuro.

7. Mãe

Amo-te antes de morreres
porque nem sempre tomo
decisões desacertadas.

Amo-te antes de morrer
porque nem sempre tomo
decisões desacertadas.

8. José Mário Lírio Branco

Um lírio é branco na água controlada
de um tanque municipal: coerência, senhores,
coerência.

9. Se Deus por Acaso Fosse

Já agora, que olhasse também por isto aqui em baixo, carago.

10. Telegrama para Fernando Álvaro Alberto Ricardo

O que sinto, é mal pensado.

11. Enquanto Elas Não Varrem, Tu

Vem, uma vez mesmo depois.
Anuncia-te pela trémula comoção das empregaditas do restaurante.

Nem de anjo te peço.
Flanelei já minha infância.
E d’adolescência não mereço
nem memória nem distância.

Ainda assim, olha, vê – e vem.
Está aqui um homem cujos impérios
são o cigarro a 3.15 o maço, menos ou mais,
e outras tantas imperiais.

Trabalho ainda, sim, ao fosco lusco-fusco.
Adianto braçadas de lenha ao rio.
Mato aves carnívoras, pesco safio
– e tenho certa ciência do molusco.

Conheço o Prévert, sim, ’té lhe dei lume.
Sou um tanto tóxico de ciúme.
’ind’ assim vem: vem, que o meu costume

é rimar sozinho, sem comoção
das empregaditas da restauração.



IV. TODO O NILO ARDEMOS e OUTROS COISOS

1. Todo o Nilo Ardemos

Os nossos pés são animais da terra.
Nascem rápidos, correm todos os caminhos e todos os
perigos, morrem verticais.
As nossas cabeças são máquinas voadoras.
Voam sempre, mas com os anos voam mais e mais
baixo – porque voam para dentro.

Entre uns e outras, está o resto de tudo
o que nos é dado.
A alma, que é uma consequência da regularidade
da digestão, participa da tragicomédia geral,
de que a nossa é particular manifesto, com uma
sisudez de glândula – como as outras,
Maria.
O sexo é infantil toda a vida, sobretudo
perto do fim.

Não temos um corpo: somos dele: somo-lo.
A vida e a morte tornam-no ponte.
Somos o vento na ponte.

O piso da ponte é de terra: temos animais para ela.
Ao vento levamos palavras voadoras, maquinais.

Cumprimos o apelo da água chorando,
cuspindo, ejaculando, sangrando, suando, bebendo,
falando.

Todo o rio ardemos de ponte e alma.

Os Antigos não nos deixaram continentes a descobrir:
por isso habitamos ilhas – para dentro,
baixas e baixas, mais e mais,
com os anos.

Tiracolamos oblíquos pássaros negros entre
ombro e quadril: atravessam o coração,
enegrecem-no de não estéril lodo.

Às vezes, comparamos o coração ao Nilo – mas não.
Nilo é a morte e é a vida: isto de nós
é a ponte.

2. Ser o que Não Volta

Outubro, outono e rosas
voltarão à minha vida
para ser tudo
o que há
ao quase alcance
da quase mão
que quase sempre uso
para quase tocar
a minha vida
que não volta.

3. Grega, Fenícia e de Cá, a Pessoa

Mágoas viris são flores junto ao pântano público do mar.
Vejo daqui uma delas, a do homem grego
voltando a casa, pela tardinha da Antiguidade.
Pedras cuneiformes riscam o passeio deste homem.
Fenícias barcas juncam o porto da norueguesa capitania.
Avionetas riscam longitudinais reclamos no céu, a giz.
Crianças crestam a praia à lareira do sol.

Pesa na oleada água de tainhas a mornidão das barcas.
Riscam cruzes rápidas crucificados albatrozes.
Tudo é todo o, como este, homem a casa voltando,
ao cabo do dia de trabalho em alguma repartição
de Alexandria, antes da Guerra, a Grande, a II.
E o fato escuro deste homem é uma máquina magoada, viril.

Sombra ele derrama como um cobertor à insónia da luz
olímpica. Vendedores de pevides tremoçam escarlates
salsaparrilhas com capilés-de-alicante. Não é noite,
excepto no poeta grego, dentro dele, cercado já e ainda
e para sempre pela inverosimilhança da possibilidade
de regresso – a casa, aonde for.

Mais direi:

um homem magoado profundamente só por acordado
ter, outro dia. Grego, não gregário, de fato escuro
na correcção ortopédica do Martinho da Arcada,
enxuto o Cais das Colunas, num Portugal que não,
nunca, vive para o mar.

Tiras de entremeada e tosses de gasóleo acodem
à visão odorífera, na tremura de vidro do ar em dias
– ele há dias – de calor.

As máquinas trepidam – mas não muito.
As máquinas estremecem – mas não de mais.

Homens voltam a nenhuma casa a que chamam sua.
Não chamam, mas nós dizemos que sim.

É toda a vida isto: poetas gregos, um porto antigo
e o futuro,

que isto há-de ser, no passado,
de fato.

De magoado facto,
fenícias barcas etc.



V. MOBILIÁRIA

(Estabelece comigo algumas regras outonais.
São para a que desobedecer, queres?
Temos vivido entre mil gentes
entre crianças, velhas, velhomens e mulheres.)

A breve estrela separa coisas no céu da casa.
Há colheres lavadas e histórias não limpas.
As pessoas estão dentro da casa, imóveis,
como pardos parados móveis de pau.

As pessoas habitam muito a condição transeunte.
As pessoas colam estrelas de prata tatuada
ao peito das fotografias – e depois não são elas.

Depois, elas são estrelas tatuadas de nenhuma prata.
Depois, elas estão no mesmo antes agarradas
ao mobiliário.

Eu digo mobiliário – como podia dizer
versos.

Eu digo versos.