Friday, August 31, 2007

Chuva Nocturna e Outros Poemas para Nada




Chuva Nocturna

Chuva descolava o rímel aos olhos da noite.
Escorria preta laca pelas vidraças,
ela enegrecia a cinza das casas.
Pluviais eram as coisas e as demandas.
Eram outros invernos todo o ano,
todos os anos.

De um lado, a Rodoviária.
Do outro lado, o café e a fábrica de artefactos de borracha.

O cérebro trabalha em constância as imagens.
Chuva preta, Rodoviária
etc.

Da Cama Dele para o Resto do Mundo

Em redor, a cama dele sofre clarões póstumos.
Móveis congregam, dele, a existência e a pele das mãos.
Nisto de nos deitarmos, somos todos irmãos.
Todos uns dos outros tomamos féretros e préstimos.

É um quarto enxovalhado de humidades
que verdecem vesgas até contra os retratos.
Viver – é não morrer só por maus tratos.
Viver – é maltratar prisões e liberdades.

Em torno, a cama dele é dele deixada.
Retratos fixam ao chão almas volantes.
Isto é tudo ainda como era dantes:
e como era a coisa não é coisa passada.

Em volta, a cama dele está ocupada
num quarto enxovalhado de humanidades.

Santo Peixe aos Antónios

O peixe é todo para morrer
e nós pescamos sem pensar que não,
que tudo é para morrer,
até pescar.

Acompanhamento

Acompanho as próprias mijadas
com o auto-relato dos prémios de Fórmula 1.
Contra o esmalte, efervesce a velocidade
a jacto.
Tem curvas.

Dois Toques

A pele dos dedos na pele da água.



Caramulo, tarde e noite de 1 de Agosto de 2007

Thursday, August 30, 2007

Excessiva Estrela


(alguns poemas para o meu amigo João Portulez
enquanto não reabre a Feira Popular)


1

Se se nos consumam flores algumas horas,
mérito das horas, não nosso.
Não tem mal, isso, se de todo nos não
foge, ainda não, o merecimento de,
em algumas horas, ver uma consumpção
própria de flores.

Assim dias e assim anos.
E vidas assim:
algumas só,
porém.

2

Recordo para a frente alguma chuva
enegrecendo alguns bosques.
A precipitação era grave como a mente.
Gravemente, escrevia a chuva negras letras
em árvores de papel
só amanhã legíveis, quando não souber
que as recordo.

3

Pedrarias incrustam taças.
Assim algumas palavras, algumas bocas.
Algumas só a só algumas,
porém.

4

Nascemos para que os rios se saibam vistos.
Pagam-nos eles com o tempo de cotejo que são,
até quando invisíveis; ou nós mortos.

5

Sangram os telhados fulvos à luz do sol.
Casas descem a encosta da montanha,
cheias de parados homens dentro.
Musga-se a manhã de tácitos orvalhos e plácidas ovelhas.
Flameja depois a grande ourivesaria da tarde.
E, à noite, subimos a preto-e-branco
de fechados olhos, a pele aberta às
visitações da janela.
Se nos pulsa dentro a tristeza como
um coração suplente, está bem.
Uma cabeça amarela é o candeeiro cabeceiro.
Ao lado do copo com água, o livro de outro homem.
Quase ternas como irmanações, as
pantufas, no chão, nunca deixam
de apontar o futuro.
Frente a suas ponteiras digitais,
a parede.
Depois da parede, antes da Lua,
o telhado.

6

Facas nadam dentro de água.
Só a luz as distingue:
tendo a confundi-las em
prata e verde.
Sei que são palavras:
não são aqui essa marina,
nem essa cutelaria.
À distinção, pode chamar-se
poesia.

7

Todo o excesso, deixa-o aqui.
Na poesia que quer ser poesia.
Na vida que se não sabe viva.
No ter ido ver peixes cujas
mudez e nudez
equidistam entre si
como estrela de
si mesma.
Excessiva estrela.

8

Uma tela de amianto entre ti e o teu coração.
Norueguesa água-pesada metralhada a gelo.
Aço, observação, acção, óbice, semelhança.
A vida é enciclopédica e engenheira-capataz:
tu és o operário dela.

9

A deitada tela do mar
tem pinturas.
São vivas e não obedecem
a galerias.
Olhando tainhas,
de hienas podemos falar,
tida em conta a voracidade
e a tristeza a que,
acima do mar,
preside a divórcios
e a gestão de filhas.
Na dupla régua que ensina
latitudes e longitudes,
o coração é um ponto
salgado e sujeito a golfos.
Nos fins de tarde,
ou de semana,
não é diferente.
Nos fins de tarde,
um homem não envelhece:
assiste ao envelhecimento
e nada é, no geral, nada
com ele
porque,
naturalmente,
tudo é com ele,
quando ele
se faz ao mar.

10

Os outros homens fizeram coisas
que lhes adiantou sobreviverem.
(Se tivesse escrito
– que lhes sobreviveram
teria escrito uma banalidade.)

Os houtros omens
etc.

11

Nenhum cancro de vida deixa de proporcionar
uma morte asséptica.
Sentemo-nos e fixemo-lo.

12

De uma sossegada renda (de dinheiro e cortinas)
flui a sombraluz da minha cidade, a que voltei
em plena glória literária e pós-viril.
Hamburgam rulotes, é certo, mas é possível,
finalmente, conversar sobre as coisas e sob
os plátanos, aposentados de minha mesma – e
vossa também, já agora – glória.
Ou não.
Ou então,
outra coisa.

13

A criança estabelece uma claridade
dotada de inegabilidade.
Os coisos que a geraram não contam
para o totobola.

14

Flores de costas na água de um tanque.
Olham para o céu com tanta atenção,
que parece, o céu, diferente: cá, em baixo.
Ele há boletins que daqui crescem.
Os sistemas de orientação na solidão.
O vitrofusco dos tilinvidros no bar da
quinta-feira.
A memória toda botanizada pela
mesma natureza da memória:
costas e nostalgia de luz, cá, em baixo.
Eu digo que noutros botânicos.
Tu não dizes a qual luz.
Mas são a mesma coisa:
dizer, não dizer.
Ficamos assim.




Foto: Figueira da Foz, 28 de Julho de 2007
Poemas: Caramulo, tarde de 30 de Julho de 2007

Wednesday, August 29, 2007

Anatomia - 1

O coração tem mãos.


Caramulo, manhã de 29 de Agosto de 2007

Monday, August 27, 2007

Mãos Vermelhas

De frio, mãos vermelhas.
De menino, de manhã.

Caramulo, tarde de 27 de Agosto de 2007

Postal

Árvore negra sobre azul moribundo.

Janelas acesas da casa única.

Pessoas fechadas dentro, acesas, fechadas.

Caramulo, manhã de 27 de Agosto de 2007

Sunday, August 26, 2007

A Noite em Breve - 5, 6 e 7


A Noite em Breve
ou
Coruscações no Imo de Sombras
(uma portugalidade delével)



5
Caramulo, tarde de 15 de Agosto de 2007

Manhã muito cedo, acordei no palco e recebi o aplauso da chuva. Fui à janela, o teatro dissipou-se, o mundo condensou-se todo na visão ubíqua da água caindo, harpa inconsolável. A meio de Agosto, uma visita do Inverno. Duas horas depois, julgo ter conseguido um emprego novo para. Como me sobram as horas do dia, procurei onde ocupá-las sem ser num caderno com a memória e a caneta. Começo segunda-feira.
Entretanto a tarde mexeu as pedras de suas horas no tabuleiro do Tempo. Trabalhei muito, o programa de rádio ficou pronto para emissão. Na folga, vim à pastelaria confrontar a minha vida com o meu caderno. Um bom acaso juntou, a duas mesas diferentes, cinco mulheres muito jovens e muito diferentes, cinco mulheres muito jovens e muito bonitas. Gostei de vê-las. Rostos sem a mancha da tristeza, a segurança das carnes expostas, a elegância das roupas desenhadoras do por-baixo. Gostei muito, depois distraí-me à conversa com um carpinteiro e um serralheiro. Falámos sobre ciclismo, trabalho em Espanha, tabaco e salários em Portugal.
Os nossos rios flúem: as nossas horas, os anos a que pertencemos. Sim – a nossa antiguidade viva. Discursiva, coetânea de sua particular noite, em breve, num teatro não perto mas dentro de nós.

6
Caramulo, manhã de 16 de Agosto de 2007

Manhã muito cedo, um prazer ardiloso por nostálgico: o nº 450/1 (Setembro a Dezembro de 1982) da revista coimbrã Vértice, todo dedicado a mestre Carlos de Oliveira, falecido em 1981. A nota manuscrita de aquisição do volume, no verso da capa, reza isto ( a tinta permanente azul):


Café Sirius, Coimbra (Rua da Sofia). Com a Paula.
Dado pelo Roque. Obrigado.
Quinta-feira, 30 de Junho de 1983.
Lembrar 19 anos do Tó Pratas.
Parabéns.


Palavra de honra que não me lembro de quem era o Roque. A Paula foi uma efémera namorada de faculdade: a 11 de Abril desse ano, a coisa começou num banco do 5º piso, perto do Instituto de Estudos Franceses; a 2 de Maio, dei-lhe umas flores amarelas na Avenida Bissaya Barreto; em Novembro, mais nada. O Tó Pratas é da Pedrulha, está há muito tempo em Oliveira de Azeméis, já não tem dezanove anos há muito tempo.
Entralhado no (preciosíssimo) exemplar memorial do Rapaz da Gândara, uma outra preciosa coisa: o suplemento Ler Escrever do entretanto extinto Diário de Lisboa: 24 de Setembro de 1987, há quase-quase vinte anos. Destaque para o romance Espingardas e Música Clássica de Alexandre Pinheiro Torres – mas, sobretudo, para um texto (destaque meu) do pintor René Magritte, que, um destes dias, vou passar e publicar no Canil.
Um início matinal bom, portanto, ao contrário do que fora a noite: sonhos de um recorte, doridos e feridos de impotência activa, ressumados de uma tristeza operatória e liquefactora. O resto da manhã concluiu a dactilografia de uns poemas fraquinhos que andei compondo a 30 de Julho e a 1 de Agosto últimos, coisecas que não vou publicar. Necessidade apontada de escrever duas novas histórias de dez parágrafos para a rádio, também: a tarde que vem as escreverá.


except to say that I have discovered that in life, if you take enough wrong turnings, at a certain age you end up right where you started


e eu devo estar nesta (un)certain age de que fala Judith em carta a Ted, a páginas 118 do Absolute Friends. Le Carré é quem sabe. Leio-o devagar, como convém quando se recebe na boca um vinho velho.
A manhã acaba-se sozinha como uma maré. Entra, indiferente, a segunda metade de Agosto. Uma nota feliz é ter começado finalmente a reunião, na mesma casa, da minha biblioteca. Os sacos acumulam-se no chão do escritório enquanto não chegam as tábuas encomendadas para as estantes. Não tropeço só nos sacos, tropeço na memória dos lidos, dos por-ler, dos arquivos com manuscritos. No Canil, estampei já uma das centenas de coisas guardadas: o poema múltiplo Minha Senhora, que compus em 1999 e recompus em 2004, ambos maus anos da minha vida. Maus mas vividos, maus mas passados. É a tal antiguidade viva que inscrevi ontem no final do capítulo 5 desta treta diarística que vou compondo.
O horizonte imediato é o almoço, golpe final na panela de sopa de legumes com carne de novilho e chouriço que engendrei anteontem. Depois, café e isto: passar ao Canil tudo o que puder do caderno, mais as tais duas histórias novas a gravar à noite no estúdio, mais o que o dia der, com sua (nossa) noite, em breve.

7
Caramulo, tarde de 16 de Agosto de 2007


A inconstância dos dias (os destes textos como todos os outros) não nos condena, apesar de tudo, a viver sem a percepção de alguns instantes radiosos: mulheres formosas, homens verticais, animais benignos, flores completas e únicas como frases que connosco seguem para todo o lado. E constantes, também, são os dias e as inconstâncias.
E quando digo – ou disse – falsidade, posso referir-me à urgência de criação de beleza onde ela, de facto e deveras, não mora. Digo: mesmas mulheres, nenhuns homens, nenhuns animais, nenhuma benignidade. Flores sim, em profusão, como nuvens ou ovelhas, por céus e pastagens.
Os livros – como as horas, como os anos – flúem. Os de Carlos de Oliveira, retrabalhados sucessiva e incansavelmente pelo Autor, consubstanciam hoje ainda essa releitura gráfica, em cujo imo (em cujas sombras) corusca a magia humaníssima da criação. É com facilidade que uma revisita à Vértice dos últimos quatro meses de 1982 nos dá isto – isto e muito mais. Amanhã, ou depois, trarei comigo o exemplar para vos noticiar coisas destas. Agora, é a tardinha em véspera.
Também tudo é véspera, quando se vive. Podemos estar (e estamos) em observação. Duplamente isso: observando as obras e os estragos do Tempo; e sendo observados, em estragos e obras, por Ele.
Se tanto me dedico a tal, não é por mérito mas por inelutabilidade. É-me inevitável viver tudo – e vivê-lo um pouco-quase-nada antes: pois que vou escrevê-lo. Julgo que, em 2005, o disse mais ou menos assim (é de cor):


Não quero viver muito.
Quero apenas viver tudo.


Cada dia é um século mínimo, equivalendo cada noite a um réveillon anacrónico e puro e duro. Escrevo até que a noite instaure a ditadura finissecular que almanaca as árvores, as janelas – e as palavras que me não sobraram, afinal, para dizê-las.
Nem tudo perco, nem de tudo me perco. As informações falsas da memória grudam-se com toda a sinceridade às paredes internas da cabeça, piriluziculampando como gambiarras natalícias: memoriar é instituir-se apócrifos evangelhos para uma sobrevivência antetumular, não pós (nem pó). Invento? Sim. Inventei um escritor português chamado Carlos de Oliveira, digo que andou por cá entre 1921 e 1981, de Belém do Pará a Lisboa, passando pela Gândara e por Coimbra. Algo hipocondríaco, reservado, muito culto, seriíssimo. Em intimidade com a mulher (inventei-lhe uma, também) e um amigo por únicas testemunhas, terá chamado filho da puta a um dos muitos filhos-da-puta que ajudaram a dar cabo, logo em 1975, do melhor do 25 de Abril. Invento? Sim, certamente. Quando e quanto mais não seja porque relembro o que não vivi: só li, daí tão sincera falsidade. Literatura, carago, minha Mãe.
Vem fresco o vento de fim de dia (de fim de século). Fresco, quase frio. Não trouxe casaco, confiante num agosto de cimo de montanha que parece um dos marços lá de baixo. Tamborina-se-me o coração físico com uma cadência suspeita de fumador veterano. Quando evolo cuspo, solto escarros ásperos e densos como amostras de carpete. Abaixo dos pulmões, porém, estômago, fígado e tripas funcionam com uma competência que vou fazendo, há longos anos, por desmerecer. Tudo bem.
A um canto da pastelaria, merendam um mãe jovem e dois pimpolhos bonitos. Leite achocolatado, bolos. Os pequeninos (a mãe também) propagam a graciosidade não utilitária das miniaturas. Conheço de vista a rapariga, não a supunha parideira de gémeos. Gosto do quadro (não é falso, ei-los ali, a um canto).
Nenhuma homossexualidade paira por estas bandas que seja édita. Nem que eu traga para a pastelaria algum volume de Foucault, Barthes, Gide ou Wilde. Tudo transita, até a sanha hetero dos procriadores. Os filhos aparecem feitos, como se fossem o que deveras são: frutaria temporã da serôdia necessidade de não morrer sem tremenho nem tremenhos. No televisor, com o cair de cada século quotidiano, corpos de luz formalizam a investidura dos empurrões, dos lubrilicores, das sugestões e do descaramento. Benzem-se padres e monjas – e a folia februária do recorrente carnaval erótico segue demandando a nossa inércia de corpo e a nossa febre de alma. Nada tenho a ver com isso, mesmo consultando na rede um labirinto triste de sítios pornográficos para fundamento e fundação (digo eu, que sou dado a falsidades) do capítulo referente a um certo professor de grego e latim de (in)certo romance que ando urdindo desde 24 de Novembro de 2006.
E mais: a poesia e a música de Clint Eastwood, o cinema de Eça de Queiroz, a estatuária ambulatória de Schubert, o jardim de vozes de Mercè Rodoreda (nascida em Barcelona, a 10 de Outubro de 1908, morreu em Gerona a 13 de abril de 1983, dois dias depois de inventado namoro encetado num banco perto do Instituto de Estudos Franceses, não sei se já vos falei disso). São cartazes vivos adejando cor e luz pelas galerias mentais que não fecham para descanso do pessoal a dia algum, antes acompanham o mortal vivente no curso de tardinhas e de vésperas como esta de hoje, tão com ontem amanhã parecida. Schubert, que compunha das oito da manhã às duas da tarde e depois ia dar uma volta pela beira do lago a ouvir as trutas. Eça, que demorava uma infinidade a vestir-se por ir pegando em livros por toda a casa. Clint, que disparou o pacifismo por pistolas de cano longo. A senhora Rodoreda, que García Márquez quis ler – e leu – no catalão original dos insuperáveis livros dela (só para indicar dois: La Plaça del Diamant, de 1960, e La Mort i la Primavera, edição póstuma de 1986). Mais as perfeições circunstantes: aquele conto, em língua de mariposas, de Manuel Rivas, aquele plenilúnio de Muñoz Molina; o mal-amado Céline de Voyage au Bout de la Nuit e o desarmante Henry James de todos os livros, entre os que não custa referir, ao correr da pena, duas novelas de puro fascínio: The Turn of the Screw, de 1898, e The Beast in the Jungle, de 1903; Dylan Thomas e Malcolm Lowry, siameses do coração das trevas mais rubras, as de fundo de bar, debaixo do vulcão que preside ao bosque de leite; a morte-uma-só de Mishima e Pasolini; a descomunal pureza de Teixeira de Pascoaes e de Wenceslau de Moraes; o rápido fósforo de António Maria Lisboa; Cortázar demonstrando o Tempo nos cartazes (bailes, exposições, concertos, leilões) sobrepostos numa parede pública de Paris; a colecção alternada de postais que Camões e Shakespeare enviaram ao futuro sem aviso de recepção; o mais competente dos escritores: Italo Calvino, sua bonita cabeça nascida para ser mármore e romana; os claros nórdicos que nos são obscuros, fechados em casas de madeira na desolação peninsular da neve; a beberagem mental de Virginia Woolf e a beberagem idem-e-não-só de Scott Fitzgerald, fazendo check-in no hotel com a pasta de couro e a mulher, que também lho bebia; o calor das aves fotografado por Sá de Miranda; a pintura insuperável de Raul Brandão, quando mais perto do mar que das nefelibatas nuvens; a graça triste de Bocage e o chá com torradas de Correia Garção; Federico em Nueva York; e John le Carré, veterano de muitas merdas, muita dor de alma, muito mundo jogado por baixo da mesa por causa de Deus, o Ocidental.
Foi-se embora o sol para outro hemisfério. Não pulsa por aqui o azul-cobalto dos tubarões de alhures. A minha gata surgiu em casa com um lagarto na boca. Fui a tempo, o animal verde sobreviveu. Agarrei-o com um guardanapo de papel, depositei-o no jardim lateral da casa. A gata, incomodada por tanta moralidade revestida de guardanapo de papel, bufou obscenidades só dela, em circulação pelos cantos desprovidos de presas. Depois acalmou-se, dei-lhe carne prensada de uma lata à Nick Adams, comeu e foi dormir, sem memória nem remorso, na cadeira favorita.
São as horas propícias: breve, a noite. E, então, as imagens normalizadas (como a fruta dos hipermercados) relativas ao 30º aniversário da morte do Rei: Elvis Aaron Presley (1935-1977). O rapaz bonito e trágico, o da voz bonita e trágica, o inquilino de Graceland, no Memphis, Tennessee. Amarrado por contrato ao multicolor dos filmecos para adolescentes, não pôde (ou não soube) liberar-se em música tanto quanto prometia. Estoirou de químicos e de lípidos, assombrado pela digestão da manteiga de amendoim a bordo do jacto particular. Morreu americano, a norte de mais. Deixou dinheiro com fartura, que é do que aquela maltosa gosta, sobretudo quando não faz nem sabe fazer nada. Mas eu não posso nem quero ir por aí. Estes ícones entristecem-me um pouco mais do que indo à farmácia para remédio de alguma dor de dentes ou de alguma ruptura de alma inconsútil. Tenho música do Rei em casa e gosto dela. Não acredito, é na monarquia que o nomeou para o comer até ao esmifranço e para fingir que soube ou sabe quem ele foi e é. Logo, uma comédia: na TV, uma peça sobre os salários oficiais dos chefes de Estado do mundo – a maltosa do “jornalismo” a brincar com os lagartos – nós, na carpete cuspida.

Saturday, August 25, 2007

Nenhum dos Rostos – V


Retrato de Isabel (1997)
Pintura de Fernando Campos
Nenhum dos Rostos – V
Às seis da manhã, o gelo azula nas janelas.
Menos de meia hora depois estou levantado e não tenho remédio. Transito das profundezas do sono para a superfície da consciência desejando uma pequena casa de pedra com lar de lume e laranjeiras em torno. Ainda não me levantei, fecho os olhos, perfumo de café e toucinho essa visão benigna.
Teria uma mesa única para todo o serviço. Um cesto cheio de jornais antigos. Uma tábua firme a todo o comprimento da parede, sobre que alguns livros, a cafeteira, a sertã, as canecas de folha e as de louça, pequenas outras coisas. Sempre junto ao lume, três panelas de ferro: a de cozer a galinha, a dos caldos de horta e a da água para o banho. Duas janelas para que o gelo tivesse onde azular a vaga angústia do despertar.
Levanto-me, visto a roupa mais quente, saio ao pátio e respiro o ar frio. Vai ser um dia de temperatura precária, sol de vez em quando, quase sempre diluído em gaze. A árvore japonesa do fundador da vila tintadachina-se contra o primeiro céu. É uma visão perfeita. Agora, quase não respiro. Apenas vejo. Já não procuro qualquer sentido para nada disto.
Entro na cozinha, faço chá. Ainda não é hora de ouvir música. Vejo fotografias sucessivas do rosto de Simenon dos anos 50 aos anos 80 do século passado. Reparo depois que o sol foi varrido por um vento escuro, um vento corredor de árvores que assombram o cérebro. Acendo um cigarro para resistir à tristeza, à inqualificável tristeza da meteorologia.
Na casa de pedra, a luz e a temperatura não haveriam de desassossegar assim. Penso isso, penso nisso. Os animais invisíveis labirintariam por entre a erva. À porta, o lavatório de esmalte seria a mais branda coisa. Na mão dele, o pedaço de sabão que seria a coisa mais azul. Uma toalha breve, água da chuva. Não isto.
O dia escoou-se como água por ralo. Esvaziou-se a si mesmo. Fui mais um dos que não puderam, tantos anos depois, determinar o rosto do sériassassino conhecido como Zodíaco, o cifrador de mortes violentas no norte da Califórnia de finais da década de 60. Deixei isto passar. Abandonei esses documentos tristes à sua mesma tristeza e procurei, na calçada de pedra, subir a cara ao sol sem força deste fraco Junho. Subi-a a pouco.
Por não me ter sido possível ainda reouvir o Paradox de Sonny Rollins, dou-me agonias. Ando por aqui a assobiar cançonetas sem medula espinal. Depois, uma inflamação bucal aperta-me a música em torno férreo. Deixei de ver o assassino malogrado no quarto de hotel. Ainda tentei que o sítio do ouvinte de Rollins se chamasse Hopper Hotel, mas nada resultou da tentativa. Entretive-me pensando na égua que de facto vi ontem, na vila. Era bonita como uma mulher.
Em torno, o comércio estagnado boceja de provincianismo. Também eu bocejo. O vento frio metaliza o fim da tarde. Chamo-lhe espécie de navalha anil. Fiz mal em não ter trocado de camisola e de casaco antes de sair de casa. Agora estou mais exposto ao que se impõe. Pintaram ali uma casa de branco. Ficou bonita, mas falta-lhe sol, como a nós todos aqui em baixo. Apresta-se a noite a disfarçar de mil-e-uma caras os nenhuns rostos destas linhas.



Caramulo, tarde de 22 de Junho de 2007

Friday, August 24, 2007

Ora Aponta Aí

Este poema é,
por natureza,
da natureza
dos senhores
Zé Antunes Ribeiro
e
Manel Barata



Tarde de mais para que o que digo se não escreva sozinho.
Nasci de manhã, percebo e aceito a noite: digo de mais
a tarde, OK.
Tenho mulheres que já não quero ouvir dizendo.
Elas são postais, sempre na orla do mar brisando
frios invernos salgados, ainda se eu tivesse telefonado a tempo,
mas nesse tempo o posto dos correios era todo na mercearia,
eu não podia saber que elas mudariam de estação,
não eu, que nada digo.

Nada digo. Tenho algumas coisas para dizer, mas
chego sempre tão tarde aos correios e à mercearia,
há vezes em que às vezes chego tão tarde, que até
o totoloto é a preto-e-branco, cruzam-se no salãozito
de serradura as samarras e as mulheres
que vieram ao vinho, essas que cortam lírios
para celebrar a Deus quando Ele desce a cortar
samarras,
não é?,
é.

Ainda tenho três ou quatro por aí,
três ou quatro que olham para isto e não escrevem,
dizem

– Olha o gajo

pois dizem
e não escrevem.

Fazem elas e eles bem.


Caramulo, la nuit de 24 de Agosto de 2007

Receios Meus e Dela (Rosário Breve nº 14)

Foto:
Porto,
Jardim de Teófilo Braga,
Praça da República,
© Richard Cooper



Às vezes, receio que a vida se me acabe antes de eu acabar de vivê-la. Outras vezes, receio que a vida se me acabe antes de eu acabar. Outras vezes ainda, receio que a vida se acabe. Finalmente, vezes há em que apenas receio a vida.
Inicialmente, a vida não me receou. Já por outras vezes, não receou a vida que me acabasse. Vezes houve em que a vida não receou acabamentos. E acabar nunca foi coisa de que a vida tivesse receio.
Acabar receios, enfim, é conforme a vida. Viver conforme, enfim, é um não mais acabar. O que não acaba, é o receio. Ou receio eu que não acabe. Que acabe antes de ser, finalmente, depois. Depois não é coisa que acabe antes.
Se lembrasse antes, o depois, de ser o que depois é, não haveria, depois, razão a recear antes. Entre antes e depois, o durante é de recear. Tudo é sempre durante. O receio vem de tanto antes vivido tão depois. E de o depois se parecer tanto com o antes e os durantes.
Eu e a minha vida somos coisas diferentes. Julgo que nos receamos um à outra. Quando a receio, fico em casa. Ela aproveita sempre para sair sozinha à rua. Ou nem sempre, mas também não quase nunca. Saio às vezes dela para estar sozinho comigo, ficando ela em casa receando talvez que eu não volte. Talvez não é decerto.
Por exemplo, um dia de muita chuva. Muita chuva é ela, a minha vida. Vivo vida e dia pensando no sol. Quando a minha vida me traz o dia de sol, desato eu a chover. Nem sempre, mas muitas vezes. Tem acontecido antes as vezes bastantes para que aconteça depois. Amanhã e ontem.
Hoje, não. Receio que não.

(A partir de hoje n'O Ribatejo, www.oribatejo.pt)


Thursday, August 23, 2007

Agora só com as Mãos

As mãos, sempre nuas como gatos, tão como cães
humildes sempre – tantas vezes não sei que
fazer delas.
São as mais humildes aranhas, elas.
E são, de entre as aranhas, as que mais pobremente imitam
as estrelas-do-mar
e as do-céu.
Ao léu como gatos, dão que vestir.
Magras, dão que comer.
Ignoro o que fazem e desfazem quando
o resto do corpo dorme.
Nunca elas, dormir.
A si mesmas oponentes,
uma de outra espelhos.
Dentro de água sem o resto do corpo,
pulsam uníssono coração privado,
despegar-se tentando sempre do
resto do corpo.




Caramulo, tarde de 23 de Agosto de 2007

Wednesday, August 22, 2007

Voltei a 1970-74


Voltei, sim. Olhai que me ofereceu hoje a minha cachopa: uma carteira da escola primária. Linda(s): carteira e cachopa.
Caramulo, entardenoitecer de 22 de Agosto de 2007

Breves Confissões em Separado dos Dois Viajantes

O meu corpo não, mas eu já troquei trenós na Noruega e navalhadas na Argentina.

Eu não, mas o meu corpo já esteve em ti.



Caramulo, tarde de 22 de Agosto de 2007

Não Sei se Frase se Verso

Um dia, a minha vida será uma sombra numa frase alheia.



Figueira da Foz, tarde de 18 de Agosto de 2007

Monday, August 20, 2007

A Noite em Breve - 4

Foto:
Salvation, © Duane Michaels
A Noite em Breve
ou
Coruscações no Imo de Sombras
(uma portugalidade delével)


4
Caramulo, tarde de 14 de Agosto de 2007

Outra tarde. Esta etapa não usa violência. É, até, tímida. Para os agostos de que me lembro, é tímida. O favónio desta tem uma face de gelo, outra de brasa. Os cães divertem-se de fome sobre as pedras. Tenho quarenta e três anos, esta tarde. Vou removendo da cave da casa da minha irmã a biblioteca em sacos. Aos anos que ali estavam, os livros e os cadernos. Chegou o tempo de os reaver para os reviver. Redescubro o tempo que se me queimou: cadernos pessoais, maigrets, álbuns de fotografias que convocam rostos e anos e noites. Roubaram-me, no entanto, o mais precioso dos objectos: a cafeteira azul que a mãe do meu Pai estreou no baptizado dele. Sei quem ma roubou: um ranhosozito que talvez ainda venha a preferir não o ter feito. A vida tem ouro e tem merda, enfim.
Outra tarde. Trabalhei bem depois de almoço. Redigi o meu programa de rádio, à noite gravo tudo, amanhã produzo-o. Entretanto, falei com um amigo. O meu futuro é, quando falo com amigos, igual ao passado – e é bom. Também, parece, vislumbrar-se um emprego novo para o dia. Hotelaria ou construção, a ver.
Entretanto, outra tarde. Calfam-se as horas andarilhas. Cinco, três, seis, quatro, zero. Na minha casa, a literatura ensacada revive tudo: a adolescência dos autores referentes, as redescobertas, os ainda-por-ler. Maugham, Moravia, Simenon, Christie, Faulkner, Thomas x 2 (Dylan e Mann), Steinbeck, Camões. A gata cheira, passando em nenúfares de pèzinho alteado, os sacos brancos e amarelos. Paginado e compaginado, revisita-me o tempo antigo de o meu Pai me dar umas notas de cem para a vivência universitária, que eu felizmente consumi fora da universidade o mais possível – sobretudo n’A Brasileira e nos alfarrabistas. Estas coisas vão depois ter conta e monta numa personagem chamada Ismael Janeiro, no livro dos anjos terminais que escrevo desde 24 de Novembro de 2006.
Agora: os objectos sobre o tampo da mesa, reduto do ócio-negócio da minha vida escriturária. A noite em breve.
Ou agora: Fernando Pessoa, em vida, viu editado de seu, em volume, apenas a Mensagem, apenas 2º lugar de uma merda de prémio qualquer. Portugal, já então. O rapaz chamado Fernando António, filho do defunto Joaquim, pressentindo as cópulas neoconjugais de sua extrema e pouco extremosa mãe com o gajo de bigodes que a levou, para emprenhanço de carreira, até à África do Sul (Durban); a nostalgia do quarto andar em frente ao S. Carlos. O maior poeta era o homem mínimo: um dos chapéus-de-coco de Magritte, uma das mulheromens dos cafés de Hopper – Fernando António Nogueira Pessoa.
Na sobreloja de uma casa de pasto, Bernardo Soares deu-se em papel a um cavalheiro correspondente comercial hábil em línguas bárbaras: francês, inglês, Fernando e António.
Revivo essas sombras.



René and Georgette Magritte with their dog after the war



canta Paulo Frederico Simão depois de todas as guerras. 1983 – Hearts and Bones. Biodiscografia – conhecimento pessoal, peculiar, antes da breve noite.
Nem ecologias de factura, nem facturações de cagar no chão. As guerras são movidas e promovidas a gasóleo. Alguém tem de pegar. Alguém tem de pagar. Paguem os afegãos, os pobres do deus errado, conforme a cavalaria a gasóleo.
Recordo a leitura de Lorca. Azeitonas, navalhas, Lua e sangue. Mulheromens. A vida espanhola. A ânsia de leite e de sangue e de azeite. E tudo isso nos versos. É muito difícil dizer. Mais fácil é recusar o Vale dos Caídos, dos cadaverosos de Franco e de Salazar e da Puta-que-os-Pariu-a-Todos. Pariu para não abortar a favor da evolução da Humanidade e contra os donos dos Direitos Huma(merica)nos do gasóleo.
Não.
Agora, mais devagar.
Tenho em casa o volume de 1982 (Setembro a Dezembro, nº450/1) da Vértice d(edic)ado a Carlos de Oliveira. Vão vinte e cinco anos. Vai a vida dele. Escritor português, tantos anos de vida, quantos anos de morte. Quero lá saber: tenho os livros. Tenho a memória dos livros: Pequenos Burgueses etc.
Ou a sedimentação dos pequenos prazeres. O corpo contra a terra ex-infantil, morna ainda do sol do dia, pronta para uma sexualidade inóspita, não-católica e não pró-comunista. Os mamilos roçando a terra dos espargos, dos caracóis e das lesmas e dos ouriços e da infância.
Ou Seara de Vento, de Manuel da Fonseca.

Sunday, August 19, 2007

A Noite em Breve - 3

Foto: Casa, Caramulo, 13 de Agosto de 2007
A NOITE EM BREVE
ou
CORUSCAÇÕES NO IMO DE SOMBRAS
(uma portugalidade delével)


3
Caramulo, manhã de 13 de Agosto de 2007

É outra manhã. Esta era futura, ontem. Agora, dá-se toda como um beijo sem experiência de vida. O pequeno comércio abriu já sua carapaça mínima. Uma lojita de roupa com um estendal de camisas crucificadas; uma frutaria expondo à porta a banca de melões e melancias, cachos de uvas e pêssegos rubicundos; o talho ocioso das segundas-feiras; o café dos anjos terminais; a bomba de gasolina, cujos preços se alteram para cima a cada notícia de atentado onde foi a Mesopotâmia. Tenho de fazer um telefonema por causa de um trabalho. Adio a tentativa de ligação até a hora de almoço. Há quatro dias que ando nisto. Não, há anos que ando nisto.
Um jogo parece infindável: a altercação entre as certezas íntimas e as incertezas quotidianas. Ilhas existem no mar revolto, sim. Ontem à noite, fechei a porta do planeta. Só em cuecas, alonguei a embalagem na cama, pus os óculos e dei-me por uma hora à leitura de um conto de Wilkie Collins, The Angler’s Story of Lady Glenwith Grange. A gata tinha preferido a cadeira da sala para exercer a perfeição do seu sono sem amanhã nem ontem. Do lado esquerdo, o ouro barato do candeeiro tudo encarecia, dourando tudo. A janela, de portadas abertas, franqueava a noite. Uma gota de água repetia-se a si mesma no lavatório. Fumei quase nada. A história da Lady desespiralava-se sem luta, oferecendo-me uma quietude próxima da felicidade – ou algo menos grave ainda. O domingo tinha acabado, a rádio deu meia-noite como quem dá um anel de plástico a uma criança de sessenta anos amiga do doutor Alzheimer. Depois já era hoje. Fechei o livro, arrumei os óculos, apaguei a luz e submeti-me à noite.
Acordei na água de sabão das seis e meia. Espreitando pela janela, recuperei a joalharia incolor das árvores incrustadas em gaze. Descerrei as vidraças, o fresco respirou para dentro do quarto. Aos pés da mesinha-de-cabeceira, o volume de histórias que inclui Wilkie Collins dormia um sono volumétrico tão perfeito quão o da gata, que pela noite se me juntou na cama. A gota de água no lavatório autocongelara-se em louvor do silêncio. Vi passar a furgoneta dos pedreiros, a carrinha do padeiro, a bicicleta do pescador fluvial e um cão magro que há quarenta anos passa quando acordo.


Shut out your past at the front door, and it creeps in at the back.

Isto não é Wilkie Collins. É John le Carré através de Ted Mundy em Taos (Absolute Friends, pág. 115). Sobre o tampo da mesa, os objectos universalizam o reduto da manhã: o cinzeiro de vidro negro como os olhos dos anjos, a chávena vermelha escrita por dentro de espuma castanha seca, o coiso dos guardanapos de papel, um lápis e duas canetas, o le Carré de serviço e um caderno de folhas quadriculadas para coruscações no imo de sombras.
Recordo a tarde de 1996 em que caminhei dos Prazeres à Alameda. Dei-me duas horas de deriva pelo mundo interno do Cemitério dos Prazeres. Andei a ler as pedras. Registei a petrificação das flores como corpos presentes do Tempo, responsos de uma missa comummente rezada pela botânica e pela geologia No Talhão dos Artistas, estive de pé junto a celebridades cada vez mais menos célebres e mais deitadas. É uma outra cidade, aquele campo santo. Saí de entremuros e matriculei-me, pedestre, na cidade grande. Caminhei muito ao sol. Cheguei ao bairro (a cidade chama-lhe Bairro dos Actores) onde morava com aquela fadiga propícia à felicidade, como se a felicidade, já então, pudesse ser desbaratada por mim. Escolhi uma taberna fria e bebi cerveja em haustos devotos. O sol ia desistindo do dia para os lados do mar, numa profusão de violetas maceradas. Os prédios do bairro lisboetavam aquela inequívoca auto-suficiência comum a todas as capitais de países dependentes. Vi um porteiro de discoteca engolindo largas garfadas de carne frita. Era um energúmeno entalado num fato preto impróprio para albergue de musculações de ginásio anfetaminoso. Tinha uma cabeça mineral presidida por olhos biplégicos. As mãos eram-lhe de um material suficiente para fazer mais quatro. Dos dez chouriços digitais, quatro surgiam garrotados por cachuchos de ouro falso. Os sapatos eram barcas de ferro carregadas de carne, unto e marfim. O conjunto buldoguizava-se sem remédio numa poça de banha lustral. Retirei o olhar para entregá-lo à contemplação de uma divorciada magrinha e amarela que bebia vinho com uma minúcia de suicida. Toda ela valia por um assento notarial relativo ao bem imóvel da tristeza. Perto, o cinema vendido a uma seita evangélica com sotaque tropical assembleiava comoções dízimas. Devo ter saído dali, ido para o meu quarto e deitado a embalagem do corpo numa cama suportável apenas pela fotografia da minha filha, retrato que, na mesinha-de-cabeceira arrendada, justificava este mundo de lisboas e de caminhadas ao sol, o mesmo sol que tão devagar petrifica flores como depressa desiste a favor do mar e da noite.
No Missouri, EUA, um gajo entrou numa igreja pentecostal, matou três pessoas e feriu mais umas tantas. Na China, as cheias também matam e também ferem, mas mais. É o telejornal em toda a sua glória artística, num esplendor cabotino de pivôs com um umbigo maior do que uma brotoeja com elefantíase. A manhã termina em notícias, como todas: todas as manhãs, todas as notícias. Um pintor da construção civil escolhe um cone de baunilha com gelado de morango para sobremesa. É um rapaz na orla decisiva: os trinta anos. Sai de entre nós, anjos terminais. Sai para o cartão da tarde.
Digo “cartão da tarde” porque o sol foi dissolvido em cinza. Ainda não comprei pão fresco para o dia. A televisão mostra a chegada à Portela do elenco dinamarquês (dezoito jogadores, mais equipas técnica, directiva e clínica) que vem contracenar com o Benfica no palco pré-eliminatório da Liga dos Campeões. Da extrema janela do café assisto à passagem pela calçada de um dos anjos. Este é mais expedito do que os outros. Outro. andam sempre sozinhos, fora do Lar. Pedem cigarros com uma manha cristã e brasileira. Vagam, divagam, não propagam: são anjos locais, herdeiros dos aposentos que os tuberculosos extintos do extinto século XX deixaram vãos. Assisto a estas vidas como a sessões contínuas do mesmo festival do mesmo cinema. É pela escrita que não sou ainda um dos oficiais deste angelismo terminal. Em segredo, aliás, vou compondo um romance, não sobre mas a partir deles.
Isto não é um romance. Isto é um caderno de coruscações no imo de sombras. Isto é o Tempo. Não é o Mar. É o Rio. De “pedregosos rios” (the meeting of two stony rivers, pág. 117 – John le Carré, naturalmente).
A tarde da segunda-feira é, logo a seguir ao apagamento das notícias, inaugurada pelas raparigas empregadas que investem todo o resquício de chamariz erótico no pintar das unhas pedestres. Sangram-nas de verniz escarlate. As sandálias acabam exactamente antes das unhas. E eu acho que têm mamas tristes. Engordaram para além da vista em revistas. A alimentação rural, à base de enchidos ácidos e de fermentações maternais, não concede a estas solteiras um mínimo palmo de telemimetismo. Floribellas desprezadas, proboscideam-se sem remédio no enchimento alimentar, namoradas por doutor nenhum mas por tudo quanto é motorista de distribuição de garrafas de gás ou de cerveja. Sei que tentam ofícios de aprendizas de ofício: cabeleireiro, secretariado de dentista jovem, gabinete de contabilidade para empreiteiros civis, casamento. O problema é que envelhecem depressa como o meu sol de Lisboa 1996, e são violetas maceradas. Estas raparigas usam cabeças de onde se despenham farripas de tintura votivas de um louro espúrio. De pneumáticas barrigas, antes até de parir, chinelam pela província um europeísmo de cortiça. Assisto-as.
Além, as árvores da manhã não parecem as mesmas. Mudam, como nós, por causa das horas que são. Que são, que deixam de ser, que já não são. Além, o caminho de retorno a casa, passando pelo Núcleo do Sporting, que não recebe dinamarqueses pré-eliminatórios. No café esvoaçado pelos meus anjos terminais, há de quando em quando famílias regulares. Pai, senhora, duas crianças. Adultos cafeínos, crianças edulcorantes. Está ali uma família dessas: um presépio pequeno-burguês. Sim: conto sempre com os burrinhos e as vaquinhas para a minha literatura de palha. É de ir sendo Agosto, mês glauco que nenhum postal ilustrado redime. Também conto que esta narrativa me ajude a estancar a hemorragia poemática dos últimos meses. Vivo entre anjos terminais que não terminam. Em torno, a Natureza é pródiga, pictórica, repetidora de inocências ansiolíticas que não posso usar sem desequilíbrio nem desarmonia. Nem sem recordar além.
Recordo uma praia entregue ao mar cronológico do Verão de 1970. Era neste País. Espanhóis vinham passar férias da ditadura deles, chamados pelo estio da nossa solidão ocidental tão parecida com a deles. Havia uma farmácia, duas lojas de gelados, um bazar de bolas de borracha, quicos, padraméricos e cestos de vime. Havia uma torrelógio, estava quase sempre bandeiramarela. O sol era o Verão, o vento era o Inverno, a mescla era eu ter seis anos adultos em 1970. Era na Figueira da Foz. Longe dali, na montanha, havia os últimos tuberculosos, os sanatórios não eram ainda, cada um, o Lar, e eu não sabia que um dia, hoje. Na praia, um deficiente de muletas mostrou-me, entre barracas, a piça. O homem dos gelados Águia era sósia do Joaquim Agostinho. O mar já contava a mesma história única, só que, então, eu acreditava nele – e nela. Rápida loja de trapos: os anos. Rápido: trinta e tal anos depois, quase quarenta. Voltei, com a minha mulher desta vez, à Figueira. Não estava lá, a cidade de 1970. há comida como a italiana, há comida como a indopaquistanesa, há sardinha assada à discrição a preço único no Núcleo do Sporting local, há o Daily Telegraph, o El País, o Allgemeine Zeitung, o Corriere de la Sera e o Le Monde no quiosque do Jardim, mas não 1970 nenhum, que era o que queria comprar sem ser a prestações. A mulher e eu vimos o futuro em escritos anémicos colados a vidraças:


VENDE-SE
ARRENDA-SE
CAFÉ ACEITA SÓCIOS-GERENTES


e uma bandeira nacional que perdeu 0-1 na final do Euro-2004. De modo que não recordo nada. É tudo agora. Tudo é agora. Tudo é agora, também. Nenhum espanhol dos de 1970 compra o El País, mesmo que ao sábado traga o suplemento cultural Babelia. Os ingleses têm net portátil, não compram o Telegraph para saber mais choradinhos tablóides pela Maddie McCann, menina inglesa desaparecida há cem dias da Praia da Luz, Algarve, Portugal. E a França acabou há tantos anos, que até o Le Monde já diz isso. Mas isso e isto não fazem mal a ninguém, pelo que pode ser dito, redito, vivido e revivido: chama-se Literatura, o inócuo animal.
À extrema janela do café de anjos terminais, debulho, folha a folha (página a página) a espiga do meu milho: coruscações no imo de sombras, da noite abreviações. É um trabalho. Não é (eu sei) um ofício. Ofício é ganhar a vida, oficialmente. Oficialmente como um anjo oficial de seu ofício. Na debulha, ocorrem compassos temperados pelo bom cravo da lucidez: o nada que isto tudo vale. No dia certo, à hora não marcada. Pedregoso rio, naturalmente.
Recordo, pouco antes de 1970, a tarde de rio em que fui ao Choupal da minha terra. O bosque cinematografava os dardos oblíquos do sol entre folhagens. O pó suspenso dos dardos imitava micróbios de ouro. As passadas dos adultos eram para acompanhar a correr. Violas e acordeões bacheavam perante a partitura brutal da Natureza: ter uma infância, ter um rio: ser uma infância, ser um rio. Era o Mondego, a cuja margem direita merceeiros alcoólicos traficavam laranjadas e tremoços refrescados em água de sal. O peixe fluvial ou nadava ou era frito em azeite e alho antes de ser perdoado com vinagre e palitado a aríetes de salgueiro. Falavam homens nas alturas deles. Eu cabisalteava-me para entender a rouquidão grave das palavras deles, pois que sabia, já então, quanta vida pode ser perdida numa palavra que se não ganhou. Poderiam estar a mentir, como eu estou – mas a verdade da infância é sempre um ardil da imaginação.
Minto – porque digo o que não sei mas gostaria que fosse. Essas tocas de peixes que não alcancei à mão, um tal pescador fluvial que vejo passar às seis e meia de uma montanha sem rio: e a loja de trapos: os anos. E esses homens que vi depois de me tornar homem: más cópias antecipadas daquilo em que me tornei, eu também. Escrevendo, nem vendo – dou laranjadas e tremoços à margem do pedregoso rio.
Há pão fresco. Peço um saco de papel com seis dentro. Caminho na orla do foguetório inaudível de outros verões, outros sanjoões. Lá em baixo, há anos que ando nisto, passado o Núcleo do Sporting local (não há sardinhas), sempre antes do telejornal da noite.

Saturday, August 18, 2007

Mão suja de tinta-da-china

Desde ontem n'O Ribatejo
a 13ª crónica de Rosário Breve.


Era por uma dessas paisagens de antiga litografia franco-inglesa de XIX: um caminho de terra arenosa linguando a floresta densa de tinta-da-china.Ocultos na floresta, talvez um elfo, um fauno talvez, ou uma cabrinha perdida, ou uma menina desflorada.À vista na estrada, de costas para a mão que escreve, um homem caminhando devagar.A figura humana não podia apreciar a beleza litográfica por ir afrontada.Era um homem de quase sessenta anos.Usava samarra cor-de-pinhão e duras calças de tela que acabavam em dois sapatos ferrados.Um chapéu negro apontava o sítio da cabeça, a aba enlutada por uma rodela de seda que já havia brilhado.A afronta do homem era em parte física – tinha comido umas nêsperas mornas que agora se lhe encortiçavam, de novo inteiras, no balseiro das entranhas.E era, a outra parte, do núcleo mental – vinha de visitar a única filha, que ele perdera em recente negócio de casamento para um herdado sem maneiras e mais de vinte anos que ela, menina, velho.Ruminando seguia o homem más nêsperas e pensamentos piores – quando, de repente e fremente urze lateral, lhe saltou à frente, pernas separadas de fixação na areada terra, um coelho.O homem estacou, fugida a absorção de que se absorvera.Ia dizer-lhe, ao coelho, um ternurosa máxima de fábula, mas nem uma palavra pôde encetar – mínimo, o coelho fugira-lhe à máxima.Pois que é da Natureza, litográfica mais que seja ou nada, falarem menos os coelhos que fugirem.Na floresta, nenhum elfo, fauno algum ou sequer cabrinha – só uma menina, a dele, desflorada como uma nêspera morna, quente, arrefecida.

Friday, August 17, 2007

Obrigadagradecido

A quem lê estas tretas. Isto é, ou são, Paula, Manel etc.
Obrigado me sinto. Sinto-me bem, convosco, por vós.

A Noite em Breve - 2

Letra C de Caramulo
no chão da manhã de 6 de Julho de 2007




A NOITE EM BREVE
ou
CORUSCAÇÕES NO IMO DE SOMBRAS
(uma portugalidade delével)







2
Caramulo, manhã de 11 de Agosto de 2007


É a manhã. Começou em oiro, metal de luz que uma névoa veio embotar. Acordei de um mau sonho por acção de um par de moscas. Desirritei-me levantando-me. Busquei água fria no lavatório, esfreguei a cara para nascer, nasci, fui à cozinha, pus o café em andamento, consultei o correio no escritório (nada), sentei-me na sala para uma justaposição de perfumes: café e tabaco. Pensei na véspera deste caderno, no trabalho iniciado. Considerei a seriedade disto. Continuar, não continuar. Continuei. Continuo.
Recordo alguns dias do mês de Janeiro de 1985. Tinha ido a um odontologista sem diploma: um sapateiro barateiro que me escavou um dente em busca de uma desvitalização que não sabia, nem soube, como levar a cabo. Em casa, horas depois, nuns segundos excruciantes, pela raiz do dente subiu-me uma dor única, implacável, inteiriça, mesmerizadora, inadiável. Era o desespero: era como se houvesse trincado um prego. Tinha o prego cravado da mandíbula ao cérebro. Não podia ser. Fui ao armário da sala (era em casa dos meus pais), saquei uma garrafa de martini, bebi metade a olho e de um fôlego, fui à gaveta das ferramentas, saquei o alicate, postei-me perante o espelho da casa-de-banho, agarrei o dente e puxei. Partiu-se ao meio. A dor cessou nesse exacto momento. Vomitei o vermute tinto de sangue, mordi um toalhete e voltei a deitar-me no quarto de solteiro hoje habitado pelo meu irmão Fernando.
Os dias seguintes foram eternos: a cara tornou-se-me uma abóbora de pus. Por fora, a máscara era a de um pugilista espancado sem mercê. Por dentro, a mucosa cebolava o caos ordenado da podridão. A Mãe olhava-me com aquela piedade clínica de bela águia pasmando à fealdade da cria. Depois, desinchei até que no sorriso novo do teclado um meio dente negro fazia de bemol. Os anos correram: sem freio nem dentes.
Agora é hoje de manhã. Tudo é, de novo, real. Sentado à última mesa do café que me serve de modelo para as cenas finais de (in)certo romance que ando urdindo desde Novembro, olho pela janela e assento a vitória da luz sobre a névoa primacial da manhãzinha. É quase meio-dia, vou levar pão fresco para casa. Enquanto não, sou revisitado por imagens ilusionistas dos livros de John le Carré. Ele e Graham Greene costumam fazer-me isto. São dois velhos mafarricos, magos antigos de uma ciência assoladora: contar uma história. Por eles, com eles, em eles, tenho vivido uma vida dupla não isenta de esquizalteridade, por assim dizer. Nem haverá leitor a que tal não suceda. O cinema de todas aquelas frases medidas ao miligrama, o equilíbrio britânico até no desespero, a perfeição ambulatória dos retratos, a súbita e lancinante nota poética que, como um flash, magnesia e magnetiza a escura acção.



At the railway station, the last train to anywhere has left.



Assim mesmo, a páginas 101 da edição em paperback (2004) de Absolute Friends. Le Carré sabe-a toda. Esta notação transitária é q.b. para nos pôr dentro da cabeça de um tal Ted Mundy à beira do desespero, mas só à beira. Literatura maior: nem mais nem menos: um comboio para algures (i.e., um comboio para nenhures) que já partiu.
Na literatura portuguesa também há disto (mas falo do encanto, não do urdume). Também há desta música – só a letra, natural e felizmente, difere. À janela do meu café de anjos terminais, confirmo a dissipação da névoa em prol do oiro e retomo O Fogo e as Cinzas de Manuel da Fonseca, Gaibéus de Alves Redol, Esteiros de Soeiro Pereira Gomes, A Noite e o Riso de Nuno Bragança, O que Diz Molero de Dinis Machado, Alegria Breve de Vergílio Ferreira.
Eu sei: não há puta mais injusta – nem mais mal paga – do que a memória. Perdoo-lhe pela justiça do pouco que salva. Estes títulos são justos. Estes – e todos os títulos de Carlos de Oliveira, senhor a que voltarei (sempre). Há mais, mas não tenho de confrontá-los com a elegância de Greene e de le Carré. Estas coisas duram, perduram: enquanto houver um leitor num país que não lê nem quer ler, não sabe nem quer saber. Se a isto entreguei de bandeja a minha vida e, se não a minha escrita, ao menos o meu escrutínio, a isto condeno, também, o meu livro-arbítrio, por assim dizer.
À mesa do lado direito, estão agora dois homens. Um é velho, o outro é muito velho. O muito velho usa chapéu à Georges Simenon. Enverga uma jaqueta muito leve de terylene. Duas moscas pousadas nas costas. Calça clara cor-de-casca-de-ovo, meias azuis, sapatos castanhos. O relógio de pulso mostra um mostrador amarelado: aquele amarelantigo dos avós, leite-creme com décadas e décadas caramelizadas. Na cara, os óculos são de lentes de escurecimento progressivo, como os anos. Orelha completas, de uma transluz de porcelana usada em banquetes esquecidos. Uma das moscas alpinou-lhe o pescoço, que o antigo sacode com o dedo do anel. O anel é de ouro com uma pedra negra. Vejo-o sorrir a um dito do outro: dentição total, de uma simetria acrílica que deve ter sido cara, a de cima como a de baixo.
Mas agora, como tudo, vão-se embora. Entrou no mundo português a hora de almoço, essa hierática (de sagrada como de papel finíssimo empregado na escritura dos livros sagrados, v. página 880 da 6ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora) suspensão de toda a ânsia, esperança, esperânsia. Tenho de me fazer ao mesmo, embora calhe mal, agora que o discurso discorria quase sem mim. Sei que depois da refeição a força da gravidade voltará a exercer a sua autoridade ruminante, resistindo a cabeça como puder ao estomaquismo da condição humana, que é a minha sempre que não posso que não seja.
No horizonte do dia, ardendo já a tarde, está uma visita à outra serra, a da Estrela, para consumo de amigos, música, copos e palavras. No meu bornal, segue Ted Mundy: serei o comboio dele para nenhures.

Thursday, August 16, 2007

A Noite em Breve - 0 e 1

A NOITE EM BREVE
ou
CORUSCAÇÕES NO IMO DE SOMBRAS
(uma portugalidade delével)

0
Caramulo, tarde de 10 de Agosto de 2007

Inicio hoje a redacção (e a publicação, aqui mesmo) de uma colecção de textos tão desimportantes como todos os que escrevi até agora e como todos os que escreverei até que. Decidi partilhar, enfim, a falsidade (e a falsa idade) da memória. Como isto não faz mal a ninguém, mal não há que resulte de tal colecção: nem da escrita que a dê, nem da leitura que a esqueça. Concluo este texto zero com a notação sincera da absoluta portugalidade embebedora da presente colecção – até a falsidade pode ser sincera.

1
Ibidem


É por um fim de tarde. Lá em baixo, por todo o vale, o calor do dia imobilizou-se na respiração humana. Disseram-me de muitas pessoas parando nos passeios, as línguas de fora palpitando como corações caninos. Cá em cima, não. A brisa quase foi vento, o que nos aliviou muito da ardência de gesso do sol. Todos andamos com a sonolência obtusa da tensão baixa, mas andamos. A brisa prossegue sinalizando os castanheiros e as tílias, as árvores favoritas do ignoto arquitecto botânico que há quase um século por aqui andou plantando a sombra futura.
Estou quieto na antemão ominosa da minha vida. Fotografado de satélite por algum anjo tecnológico, sou o da camisa de quadrículas verde-cinza. Nenhuma diferença crucial em relação aos três cavalheiros abonados de gordura ventral que cervejam na extrema oposta da pastelaria. Fragmentos oratórios daquela assembleia chegam-me pelo ar como mariposas errantes e erradas. Suporto o meu mesmo sossego com essa divina e bovina abstracção portuguesa que é a pedra-de-toque da felicidade: o tão nosso que-se-lixe. Na televisão, gente gorda e pequenina concorre animadamente a um prémio em dinheiro e/ou electrodomésticos.
Estou também imune à cutelaria dos sonhos que toda a noite passada me revolveram, frangassando-me em espeto sobre o brasido da tristeza. A tardinha vai muito doce. É bom dar a camisa à aragem, é bom receber na quilha do peito a brandura quase fria do hálito da serra.
Desfaz-se o sínodo obeso, fico só no estabelecimento. Depois (agora), o patrão da casa vai-me atirando informações do dia, do cartaz TV, da época desportiva, dos últimos relatórios de porrada à saída (à entrada) das discotecas e dos bailes rurais.
Sofro benignas memórias que fulminam como enfartes e como os adjectivos mal postos da literatura bem posta. Quero dizer: coisas de livros. São coruscações no imo de sombras. Personagens dali que disseram coisas inesquecíveis. O Faulkner da Light in August. O Carlos de Oliveira de Uma Abelha na Chuva. Autores? Já não só isso – personagens agora também, eles também.
A tardinha queima seu mesmo papel. Já as árvores disciplinadas do parque urdem entre elas uma treva pessoal. Uma mulher extremamente silenciosa varre um pátio. Um representante de bebidas gesticula contra o fantasma invisível que o assola da outra dimensão: a voz do telemóvel. Uma trança do castanheiro dançarina-se toda na pureza inútil da passerelle aérea. Tudo é tão bonito antes de morrer.
Nem sempre tudo foi tão vazio como agora – viver. Lembro-me do Inverno de 1995. Sobrevivia eu, então, numa cidade chamada Lisboa. Deitava-me cedo, levantava-me para sempre. Andava com dois livros na minha vida. Um era acessório, o outro era definitivo. Respectivamente: A Era do Vazio, de Gilles Lipovetsky, e A Cabeça entre as Mãos, de Herberto Helder. Os livros estavam e andavam em Lisboa comigo, em Coimbra estava a minha insensata alegria: uma criança nova como a palavra justa que de vez em quando merecemos todos. Ao fim do dia de trabalho, eu saía a vaguear pelo bairro. Nunca percebi nada daquilo: Lisboa by night. Lisboa? – aldeias justapostas, sucessivas, obsessivas. A noite? – metrópole única, agnóstica, obsessiva. Eu vagueava. Havia uma casa-de-pasto de transmontanos: malgas metálicas de caldo de talo de couve e pratos inox de iscas de fígado. Barato e sensato. Recolhia-me ali a coraçangar um tinto duro e sério, enfardando papos-secos para amortecer a amargura da cabeça entre as mãos na era do vazio.
Hoje, a minha vida só é diferente porque isto não é Lisboa. Há tílias e castanheiros, através de que uma brisa omnisciente tudo deixa desconhecer em quietude, que não em paz.
Mas dizia-vos de Carlos de Oliveira, não era? Penso ter sido em 1982 que a Vértice lhe dedicou um justíssimo número de homenagem. O homem estava morto (desde o 1º de Julho de 1981), os livros dele não podiam está-lo. Há uma fotografia de Carlos, circa 1940, tão novo, na equipa de futebol do Febres (Cantanhede). Depois disso, ele escreveu e reescreveu incessantemente, numa depuração inelutável, a sua obra maravilhosa. Veio aquele rio lúcido todo, dele, todo dele: os poemas reunidos no Trabalho Poético; e as narrativas Casa na Duna, Pequenos Burgueses, mais outras a que voltarei quando recuperar o meu exemplar dessa Vértice (estou seguro de que de 1982, sim). Caramba. Só posso lobrigá-lo, à sombra-chinesa de uma memória (tão inventada como a que tecemos a partir dos nossos mortos) de Lisboa: ele na cidade, esposo de Ângela/Genaa, entre eléctricos e fatos-gravatas, fora já do estrito neo-realista (mas não de todo fora) e nunca promíscuo como os urbanóides pseudocomunistóides; e sebáceos; e dermóides. Sim, Carlos de Oliveira em Lisboa, capaz do que ninguém era. O urdume léxico-semântico dos seus poemas, como aquele em que sonhos, cedros, ombros e perfumes recuperam (Proust nosso, em pouquíssimas linhas) o Tempo.
Conversamos pouco uns com os outros. Pouco nos interessa. Há um esvaziamento electrodoméstico: as nossas vidas são gordinhas e pequeninas como os seres daquele teleconcurso. Assim de repente, não vou perorar sobre a bic laranja da escrita fina, nem sobre o Daniel Filipe d’A Invenção do Amor. Estala-me a cara a evidência (coruscante, íntima, sombria) de sermos um país sem ideia nenhuma de a quem parimos. Digo, pronto: Daniel Filipe, António Osório, Cesário Verde, Emanuel Félix. Exercemos uma honestidade de padaria paga a saco na porta, que nem de pano é já como outrora, mas de vulgar plástico. Vulgarizamo-nos como é de Natureza. Bem. Mas plastificarmo-nos ou deixarmos nós que no-lo façam, é recusar Tony de Matos noutra Lisboa, a das caves requeimadas a cigarros sem filtro e a táxis serventes à bandeirada do regime moral.
Sabemos tão pouco. Por exemplo: os Ingleses andam há muitos anos a, no intervalo das matanças coloniais, escrever grande literatura de dimensão psicorrífica. Sabem pegar no dedo sozinho da solitária mão do leitor sozinho e levá-lo a mansões decrépitas e desoladas, dentro de que mal respiram múmias vivas de sobrevivas viúvas guardiãs de turvos segredos. E zinga e zinga. Mas é verdade. O que eles não têm (nem querem ter), é a nossa mortuária vigília da sílaba, o nosso rossio-betesga da beatificação eugeniotorguiana. Não, pois não. O Eliot deles até norte-americano era. O Henry James também. Agora, o que eles nunca fariam, é o que fazemos: ignorar um Correia Garção, desconhecer um Martim Codax – ou achar graça aos vascos da idem moura.
A noite aí está, no texto um. É tempo de aquecimento contra tão tentacular refrigério. É a noite. É o grande púbis inofensivo, a vulva descomunal que dá e tira luas, humidades, sonhos revolutos do mental mortal churrasco.

Ando a Partir

Foto: © Arno Rafael Minkkinen


Às vezes, uma canção diz-te que podes chorar
– e tu não choras, pois és um homem
desde menina
idade.

À beira do caminho, animais cansados
parecem-se tanto connosco como dois dias
antigos de chuva.

Pássaros marinhos traçam
beleza ao alimento.

Há uma fúria (uma explosão
de açúcares) no entardecer,
quando, por exemplo, a mulher
suspende no pátio a recolha
da roupa seca e admira
a cor (giz, talco, espuma) do jacto
que passou no azul
para sempre.

Ando a partir todos os espelhos
que não tenham alguém dentro.

Caramulo, entardenoitecer de 7 de Agosto de 2007

Wednesday, August 15, 2007

Montanha Mágica nº 18


António Maria Lisboa (1928-1953, na foto) é um dos três poetas portugueses convidados para o programa nº 18 do/da Montanha Mágica.
Ele, Camilo Pessanha e Herberto Helder vão ser lidos pela Sandra Bernardo em três momentos da emissão que vai para o ar logo, à meia-noite (com repetição à mesma hora de sexta, 17, para sábado, 18).
Para além destes grandes e belíssimos autores, há a textalhada própria do costume. E ainda a música de Aimée Mann, Stravinsky, Rainbow, Trovante, a divina Amália, Quinteto Violado, Scott Walker, Monty Python, Esbjoern Svensson Trio, Craig Armstrong, Luísa Basto, Cocteau Twins, Léo Ferré, Joan Manuel Serrat, Sting, Janita Salomé, Nick Cave, Area, Tears for Fears, Jorge Palma, Bach por Bobby McFerrin & Yo Yo Ma, The Doors, Adriano Correia de Oliveira, Frankie Miller e Jaco Pastorius.
Estais convidados. 91.2 FM e/ou http://www.emissoradasbeiras.radios.pt/

Tuesday, August 14, 2007

Minha Senhora - 1999 - 2004

MINHA SENHORA

1

Quando me chama, logo vou.
Falo de Deus ou da mais amante?
O que está antes controla o adiante?
Adianta nada ser como sou.

Ainda assim sou. Como não?
Passas do Algarve passa o coração.
Tudo passa. A ilusão
É pensar que não, que o contrário.

A vida repete os sonetos.
Certos são a morte e os horários.
Menino, li abecedários.
Em tudo lindos, muito correctos.

E pois que aprendo, o mesmo ensino:
certo é o metro, incerto o destino.


2

Na minha cara fica cromado o traseiro da rapariga.
Linda, alta, altiva.
De boa ganga revestida.
Boa, forte carnação.
É uma terça-feira, a estação
Promete.
Mete-se a primavera no sangue,
fica o macho oxigenado.
Todo cavalo, todo freme.
Natural do caldo é ser entornado.
Na minha cara fica cromado o traseiro da rapariga.
Boa fêmea, febra boa,
febril me deixa e pensativo.
Par’alma doente, nenhum curativo.
Erótico, herético, analítico, sintético,
está-me o corpo a pedir remanso.
Doce lençol, nenhum descanso.
Canto o encanto de quem me castiga.
Na cara, a minha, fica cromado
o redondo, o muito claro,
traseiro da rapariga.




3

Essa mansidão feita de cores.
Nenhuma papelaria vende as tintas desse olhar.
Junco, junho, ir aos Açores.
Férias que fosse, ou trabalhar.

Acompanho o macho a casa.
Dou-lhe boleia (é pobre, coitado).
E dá-me ideia (o grão na asa)
que é de mim que vai toldado.

Já se não pode sair
a um pub ou discoteca.
Amar é prelúdio de parir?
Cabelo é prefácio de careca?

Digo ao rapaz: tu tem calminha!
Dormirmos é caso não contado.
Pois nesta santa terrinha
Deitar é rima de pecado.

Os machos são pobres. Que lhes fazer?
Do arco da íris são pretas as cores.
Nenhuma papelaria me há-de vender
Essa mansidão feitinha de cores.


4

Noutro tempo que já foi
(e pois que escrevo, lá vai),
aprendi que o que dói
não é quem entra,
mas quem sai.

Quem sai pela porta traseira
da casa da minha vida.
Por segundos ou vida inteira,
a modos que arrependida.

Falo dela. Falo meu.
Este não tocou aquela.
Domingo à tarde, eu, romeu,
Telefono p’ra casa dela.

Alô alô, meu coração.
Olhe que deve ser engano.
Desliguei, minha aflição.
Noutro tempo, noutro ano.
5

O amor torna as próprias moscas graciosas.
Golpes traz o vento de cheiro de rosas.
Tudo o mais são campos de água.

Duro cimento se faz o dente,
trincador do pão, o tão lembrado rosto,
molhado em rubro o coração, a chaga.

Outra senhora ora me concorre.
A luz é triste, a pele ocorre.
Custa lembrar, custa esquecer.

O amor golpeia a carne das rosas,
torna as mesmas moscas graciosas,
cegas, partidas, no vidro a bater.


6

O coração – dizem-nos.
Como se fosse mais do que um músculo habitado
por pouco secretos demónios.
O coração – casa preta na noite do corpo.
Bate dentro da almofada.
Tem falado comigo.
Diz-me que ser coração é uma dura profissão.
Não de fé, concerteza.
Batido pelo tabaco e pelo desejo de mulheres.
O coração – cabeça de cansado cavalo cego.
Pedra grande numa praia tomada pelo petróleo
dos barcos estrangeiros – todas as outras pessoas
são barcos estrangeiros
para o coração.
O coração – hortaliça cabotina.
Bússola partida num deserto de bares fechados.
Tenho falado com ele.
Diz-me sempre que não seja sentimental,
mas de nada vale
prègar moral
a um coração
em Portugal.







7

A luz abre um mar de laranjeiras
o mar chama
estou aqui já vou
sou feliz dentro da trampa
feliz nos hotéis de luxo
nos aeroportos gaseificados
nos velhos teatros convertidos à fé do cinesex
e manoel de oliveira.

A luz recorre ao crédito divino
para nos mostrar como parecemos
castanhos por fora
sangrentos por dentro
o mar chama
aqui estou vou já
sou feliz com a trampa
uso uma felicidade descartável
uma falsa alegria de lavador de dentes
de anedota de alentejanos
ou de portugueses no Brasil.

A luz assina com o meu nome
as sombras com que molho a cama
sobre que estendo um corpo tabágico
hemorrágico
menos e menos mágico
à medida que o sono
ou a morte por ele
me entra no quarto
e me apaga a luz.


8

Sem que me deixes ver a tua pele
dá-me senhora
a tua pele.
Não precisas de respirar perto de mim
senhora
para que o teu ar seja o meu bafo.
Senhora senhora.
Entregamo-nos
nós homens
a velhos hologramas.
Gostamos tanto de mulheres que
as mulheres nem precisam de gostar de nós.
O Everton perde três-um na ida a Manchester
(outra cerveja, Sílvio!).
A lua controla as marés com um apito de prata
que só os lobos ouvem.
Sem que me digas
sem que me lo digas
sei senhora
juro senhora
que sei quem és:
tua mesma lua
tuas mesmas marés.


9

Coração de rola
asas de verdelhão
riso-rio na boca
na boca muito vermelha
de álacre bico-de-lacre
em todo o gesto passarica
sassarica gaia e triste e feliz
como toda a ave
pássaro fêmeo
espanador de penas
e sofrimentos
debicadora senhora
da masculina semente.

Para mim, pássaro.
Para outros, apenas gente.


10

Minha senhora
chamei
acertando no senhora
falhando no minha.



11

O estômago, como uma bolsa astral, mama o pus das afeições.
Tudo lhe dá forte. O amor como um saco de cimento engolido sem azeite.
Esta paragem das funções importantes: rir, ir dar uma volta, ver um jogo,
pedir uma fresca, ver um fogo.
Esta aceleração da espiral matadora: o caracol da íris, a cosmogonia da orelha,
o brinco brilhante, a pérola dental, a rija carnação, o peito sopesado pelo vento,
as mãos esperadoras.
Sujeito e objecto do amor amargarinados ao sol: fusão de corpo que
se deita sozinho e pensa no holograma que dorme algures,
noutra noite, rente a outro estômago.



12

O sangue: espremida cereja da boca da minha senhora.


13

O rio é o tempo o sono é a morte o homem é a árvore.
A mulher é o rio a mulher é o sono a mulher não é o homem.


14

Doçura
palavra de laranjeiras pela tardinha
lentos homens em demanda de bares
o verão precoce adoça as laranjas
amargura é coisa humana
humana palavra pulsando no estômago
esse rés-do-chão do coração
do alto cai a tardinha
tudo cai do olhar
as mãos sobretudo
o sono o vinho as cadeiras de plástico
a televisão as rodas pretas chamadas olhos
as mãos peludas chamadas oliveiras
tudo cai do altar do dia
a mansidão portuguesa do tempo de Portugal
país onde por acaso nasceu a minha senhora
os carros olham de vermelho por trás
táxis procuram homens como homens
procuram mulheres
e é esse o menos doce dos jogos
dos fogos
e por isso a amargura
por isso o fim do dia
a noite escura.


15

Quarto do homem.
Uma cadeira
(nunca se senta nela, só lá põe as calças)
uma estante
(livros de aventuras e erotismos de contracapa azul-bebé)
uma janela
(quadrada, pequena, dando para outra janela, pequena, quadrada)
um gira-discos
(a agulha partiu-se e já não vendem)
discos
(êxitos pulverizados pelo esquecimento)
uma cama
(sobre que o homem,
sem calças,
sem aventura,
sem mulher,
sem vistas,
sem música,
lembra).


16

Dá-me senhora
com um olhar
a cotação do mármore de Moçambique.
Com um gesto de mão olhada
dá-me senhora
a acção do cinzelador.


17

Os meus amigos reconhecem a minha amizade por eles.
Também sabem como lido com os bancos, se vou ou não comprar carro, bananas ou cigarros.
Mas desconhecem como ficam
azuis os pinheiros
e rosa o mar
quando a minha senhora
(por puro descuido, estou certo)
lhes pousa em cima
o olhar.


18

Gosto de tocar louças velhas e loucas novas.








19

Os panzers foram transferidos para Mannheim.
García Lorca esteve em Nova Iorque.
Vitorino Nemésio foi pelo menos sete vezes ao Brasil.
Levaram Carlos Paredes para Campo de Ourique.
Mas onde estás tu, minha senhora?


20

As minhas manhãs são frias
as tardes da minha senhora são frias
são de fogo algumas das nossas noites.

Estamos nus dentro dos olhos
toda a nudez começa nos olhos
toda a nudez acaba nos olhos
os olhos granadam a nudez
a nudez rebenta na noite
a noite desata a arder
parece uma cubata.

As minhas manhãs são frias
as tardes da minha senhora são frias
são de fogo algumas das nossas noites.

As mãos procuram os cigarros
os cigarros pirilampam no escuro
caçadores do próprio lume
adensa-se o escuro em torno do fósforo
adoça-se o escuro em torno do fósforo
as bocas raspam a lixa de uma a outra
as bocas desatam a arder.
Isto de noite.

Mas as nossas manhãs são frias.


21

A pátina do tempo no rosto da minha senhora.
Essa papada sob o queixo.
A mama já flácida, ácida já a voz.
A barriga cansada, os pés doentes.

Mas a boca.



22

Dá-me senhora
um olhar lento como azeite que aceite as oliveiras da alma
fala-me na linguagem das abelhas
fala-me da solidão dos linguistas
de um perfume de França ou do quintal

Dá-me senhora
um copo de chuva
uma pedra de sal
uma pensão limpa
uma palavra arejada

Dou-te senhora
a história do homem sentado na tarde de comboios
a flor do cuspo
o número do telefone
o suor do macho
o vento de Peniche
uma pedra de chuva
um copo de sal.


23

Era por uma santa tarde de fins de Março.
Ela dormia. Ele tinha um barco.
O rio estendia uma toalha de água por sobre a mesa da terra.
Ele forjava os frutos da terra: o amor, a morte, o sal.
Ela dormia. Sonhava com oliveiras povoadas de cavalos.
Ele tinha um barco chamado Cavalo.
Ele era o barco.
Ela era a água.


24

A boca da minha senhora anda a dizer coisas
que hei-de transformar em materiais de construção
para fazer uma casa, pois então.









25

A cara do homem que ama é uma bomba de sangue.
As paredes daquela casa de que vos falei hão-de ter escrita
a história do rebentamento da cara do homem que ama.
Há um excesso. Ele sente-se rebentar.
Ele acumula livros e tardes históricas.
Ele está sozinho.
O amor é a forma que ele encontrou de estar sozinho.
O corpo dela não resolve nada.


26

O amor mostra que a morte não é uma possibilidade.


27

Acordei na manhã fria.
Abri a janela. Vi um cavalo.
Pastava a erva habitada por caracóis e gotas de água.
O cavalo levantou a cabeça.
Eram os olhos do meu senhor.
Fechei-me na casa.
As minhas mãos apareciam no ar.
Apareciam no ar como a fruta e as lâmpadas.
Fruta viva e acesa, com as mãos toco ao longe
o cavalo comedor de caracóis,
o cavalo comedor de gotas de água.


28

As palavras sempre me apareceram
como mulheres
no escuro.
A diferença é esta:
minha e senhora
apareceram-me de manhã.
São palavras com dentinhos e viva carnação.
O cuspo rondava a lubrificação
dos ferros que me dizia
para iniciar a construção.
Amei-a ali e logo.
Logo ligo, digo.
Ligo:
Estou.
Sou.
Também eu.
Aí vamos.
Volta para casa.
A casa escura
onde o coração
onde as palavras
e as coisas restantes.


29

Vejam comigo esta poça de luz branca, este relâmpago de laranjas brancas: a carne da lua entra pela janela e faz-se o corpo da minha senhora. Ela está calada. Está a dormir? Pode ser que sim. O silêncio dela põe uma pele de pêssego nas coisas, eu incluído. Procuro a minha roupa. Não posso abandoná-la, mas tenho de me ir embora. Não posso morrer sem ela, mas obrigam-me a estar vivo noutros sítios, noutro tempo. Parto. A lua lá está, presa dos americanos e dos mais desgraçados homens: os que partem.
30

Um homem está sentado na tarde da estação de comboios. O vento vem de lado, põe as pombas coxas, passa uma mão fria pelas casas. O rio está todo arrepiado. Março é um mês muito poderoso. A amargura nota-se muito. Os pés do homem, vestidos de pele de outro animal, estão assentes no cimento. A mão esquerda espera a fotografia pousando sobre a coxa do mesmo lado. Os olhos deste homem já viram todos os comboios, sobretudo os que partem. O amor tomou este homem. Todo o homem se apresenta queimado pela fritura do amor. Parece não se importar com o assunto. Um homem está sentado na tarde de comboios, os comboios chegam e vão como horas. A vida é sempre ferroviária: origem, destino, horários. No entretanto, um odor de creolina, recordações como apeadeiros, vagos rostos rápidos entrevistos contra um fundo de pinhal, cavalos pastando na eternidade, lances de chuva, cidadãos estrangeiros. Ao longo do trajecto, ou o amor ou a loucura dele. No compartimento de segunda classe (a primeira classe é a dos sonhos), o homem fuma em silêncio. É uma hora pouco concorrida. A boca do homem é encontrada pela sede. Abre uma janela, passa a mão pelo vidro, bebe ao preço da chuva. Telefonaram-lhe. Ele vai. Esperou dias pelo sinal. Esperou anos. As lições do desespero não o mataram. Ele está vivo. O nevoeiro desce a noite, essa preta ladeira que sobe um homem. Tudo é a noite. A cidade está enterrada na noite como o coração está metido no corpo: profundamente, para sempre. Para sempre? Se ele quiser, não. Tem uma senhora que o espera. Ter uma senhora é ter o código da manhã. É de manhã. O homem está vivo. Vai à janela, vê um cavalo que pasta. O cavalo levanta a cabeça. O cavalo levanta a cabeça do homem. Tem olhos de mulher olhada: olhos de cristalaria, dois mundos químicos. As moscas voam em torno do cavalo. Graciosas por amor do homem-cavalo (do homem-barco), as moscas entontecem na luz. Safiras voadoras. As moscas, os olhos: safiras voadoras. As orelhas que partilham a cosmogonia com os caracóis. As partes do corpo são as partes do mundo. O motor do amor é a infelicidade. O homem apresenta a cara ao mundo como se apresentasse outra pessoa. O mundo: a cidade com seus quartos de pensão velozes como compartimentos. O homem no quarto. Sentado na cama, a fotografia ainda agarrada à coxa. Nas costas do homem, há uma mulher deitada. Ouve-se o bafo. Uma alegria desordenada, uma pulsação de rosas de Inverno. O homem ergue a luz da lua: na cama, uma poça de luz branca: a mulher. Ele estende frutas maduras: as mãos. Todo o dia viajou para isto. A maior viagem é a travessia do dia para a noite. Cosmogonia: agonia, cosmos. A poça de luz volta-se sobre o flanco. Um gesto de junco de junho. Acordou, a mulher. Ela está calada na neve de prata. Ela olha o homem. O homem fica quieto na tarde do cavalo. Minha senhora, diz o homem. Acerta no senhora, acerta no minha.



Primeira redacção: 3 a 31 de Março de 1999
Refundição: 29 de Abril de 2004

Friday, August 10, 2007

Espólio e Fólio

A velha mãe de cada um
em todas as velhas mães
vistas passando devagar
(e umbrosas e mínimas)
na cegueira da tarde.

Delas o aposentado púbis
nocturno: como a noite.
Delas a centenária fadiga:
tartarugas católicas
da infiel eternidade.

O pergaminho que cederam
por pele aos hoje defuntos
pais copistas, que delas
nos fizeram para
a tardia cegueira.

Para isto: para não
vivermos, tal que
recordá-los e vê-las
repetid(i)amente
nos fosse a vida.

Assim ela é: a-mãe-a-vida repetida
vida irrepetível,
espólio de pergaminhos,
fólio de cegueiras:
e umbrosa e mínima e tardia.

Caramulo, tarde de 10 de Agosto de 2007

Rosário Breve 12 - Paisagem e Despovoamento

La Famille Simenon
à Liège,
circa 1908:
Désiré et Henriette avec
Georges (5 ans) et Christian (2)
(a partir de hoje, 10-08-07, n'O Ribatejo, www.oribatejo.pt)
Paisagem e Despovoamento

As pessoas separam-se durante o casamento e depois, ainda por cima, divorciam-se. Não contentes, andam uns tempos a ver se conseguem casar contra outras pessoas e conseguem. Juntam dois, três filhos. Dividem os filhos por festinhas de aniversário e fins-de-semana a contra-relógio. Reformulam no banco o crédito à habitação, mudam de pastelaria e decidem-se por outra zona do Algarve para consumo das pontes de feriado. No escritório, são peixes incolores nadando nas frias águas artificiais do ar condicionado. Na reunião de condóminos, sonham em voz alta com vivendas a pique sobre falésias abruptas prateadas pela solidão da Lua do Romantismo.
Da Literatura, sabem tudo sobre Manuela Moura Guedes e Cristiano Ronaldo.
Da Antropologia, tudo conhecem do ritual de acasalamento das floribellas com os condes varões.
No Desporto, angustiam-se de expectativa quanto ao resultado final da Desliga dos Campeões: isto é, Paulo Teixeira Pinto ou Jardim Gonçalves?
Tenho sempre muita facilidade em identificar estas pessoas. Não é mérito meu. O segredo está no facto de todas elas residirem em dois sítios apenas, que são Alfragide e Santo António dos Cavaleiros. O resto de Portugal é paisagem e despovoamento.
Mas está bem assim, porque todos os créditos à habitação ou são capitalizados em Santo António dos Cavaleiros ou mal parados em Alfragide. E como a essência da vida não é moral mas aritmética, a confirmação destas proposições reside na banal verificação de que só a taxa de divórcios & rematrimónios rivaliza com o “spread” da taxa de juros.
Lá no fundo, soa a nota triste de as pessoas portuguesas serem europeias pelo lado pior. Com honrosas cinco excepções, porém: Manuela Moura Guedes, que, apesar de tudo e por nada, recebe de Espanha; Cristiano Ronaldo, que, por causa de tudo e mais alguma coisa, recebe de Inglaterra; Paulo Teixeira Pinto e Jardim Gonçalves, que não se recebem; e eu, que já fiquei sem dois têzeros e sem duas mulheres, uma em Alfragide e outra em Santo António dos Cavaleiros.