Monday, July 30, 2007

Trança


Paris, Rue Mouffetard, 1954
© Henri Cartier-Bresson

Lá no fundo, está a criança inominável.
Entre algas que penteiam a água, está a criança intratável.
Tardes há em que a vemos, subida, levando a luz aos cegos.
Peixes de pedra devassam-lhe os olhos, mas não é tal
uma visão de horror, senão de lúbrica serventia.

Os bosques estão nos livros, cá em cima tudo ardeu.
Cortantes flashes demandam as massas umbrosas, mas não, não
são rosas, são raposas de magnésio perseguindo sons de arroios.
Atormentadas de sede demandam, vigiadas de cima pelos corvos e
do fundo pela inominável criança.

As cidades viram-na, à criança, tornar-se corvo – ou homem.
Fecharam-lhe os pátios, menos o da penitenciária. Ou dela
o coração embrulharam em papel-de-prata. Congelaram-lhe a
genitália, ensinaram-lhe francês, recomendaram-na a uma tia
transparente cujos ossos agulhavam a alma a tudo e a todos.

Comboios voejam sobre o mar, nada é estranho, tudo é
estanho: lisura e cegueira prateadas. Muito azul é a criança
revisitando alguma árvore, alguma dessas árvores das páginas
dos livros. Muito antiga é toda a criança quando recorda.
Mais antiga, se não recorda nem é recordada.

Não pudemos vê-la tornando-se raposa. Ao volante do carro,
parece-nos apenas um homem gordo derretendo-se ao calor. Ou
uma mulher triste na penumbra de uma sala cravejada de retratos
de rostos fotografados pela nuca. Apareceu-me ela hoje, esta tarde,
quando julho acaba para ser igual ao que ela vai ser.

Desenha estrelas na areia com um talo de lírio. Esquece
talo e estrelas quando a convoca alguma rápida sombra de
corvo marinho. Desconhece (felizmente) a criança que
os mares estão nos livros, cá em cima tudo se afundou.
Só o vento vira essas páginas hialúrgicas: calor, ar, areia.

É escusado amar a criança. Barcos e mercadorias sulcam os
golfos ferroviários, adeuses de lenço bandeiram os cais
desertos, a guerra (viver) tem levado muita gente, insignificantes
velhotes projectam o assalto a um contentor do lixo, acumula-se
o vidro velho no imo de garagens violadas. É escusado amar.

Vai-me ao vinho. Volta só. Deixa-me ver a tua nuca, se é
já uma das da sala – ou se tenho ainda ou não tempo de te
retomar os olhos, essas águas: pois que os olhos são
a única água vertical do mundo, nem chuva se lhes coteja.
Na minha sala, estou só a estar só com ela, com a criança.

Lembrei-me hoje disto. Passaritos, além da janela,
esmagam açúcar com a vozita. Açucenam a sesta mundial
do calor, na cal respiratória da hora, enquanto as raposas
tomam grandes rosas de água, de olhos fechados, na encosta
nascente que, como tudo, há-de morrer. Um dos velhotes acha.

Um dos velhotes acha no lixo uma trança de mulher. É de
cobre pesado, o cabelo. Gente espreita de dentro do autocarro,
gente comenta a riqueza do velho. Pode ser então. Muito gostaríamos
que fosse então. Um então que não desse sede nem amor.
Só que então se volvesse alga a trança – e fosse o velho a criança.

Caramulo, tarde de 30 de Julho de 2007

Apogiaturas para a Dolorosa Mãe



Dia algum passa sem que me apele
a Dolorosa Mãe.
Eu e toda a gente – somos os roedores
atrás do flautista.
Algures, imersas nas trevas, há pontes.
O próprio caminhar uma delas é.
Errantes passos errados tartamudeiam as pernas.
Refrigera-se da solidez vã das igrejas
o claustral coração.
Movente comoção à vista de um rio,
o coração armadilhado de metáforas.
Sassarica a tristeza suas bandeiras, pelo rossio
que as pombas desfraldam.
Num autocarro urbano, a meio da manhã,
um homem novo morre, inaugurando o
desfile insensato dos meus poemas
envelhecidos à nascença.
Fazia muito sol – e eu pus-me a andar
à chuva.
Era tudo
amanhã.
Cortinas negras dentro dos olhos,
espelhos reflectindo espelhos.
Às vezes, apanhada num dos espelhos,
a boca portuguesa aparece
com uma língua
estrangeira dentro.
Dia algum passa sem que a boca acabe.
Dia algum, sem que recomece a acabar-se.
Lourenço em Alexandria.
Joaquim no Alaska.
Jorge na Birmânia.
Wenceslau no Japão.
Armando em Peniche.
Carlos em Febres.
Fulguram-me, flavam-me: sítios e nomes.
Tantos filmes,
tantos filmes projectados no céu da noite,
no céu da noite da cabeça.
Não se perde, é de vista o flautista.
Dia algum deixa ele de tocar,
também ele apelado pela
Dolorosa Mãe.



Texto: Caramulo, manhã de 27 de Julho de 2007
Fotografia: Caramulo, céu do anoitecer entre árvores, 23 de Julho de 2007

Saturday, July 28, 2007

Astronomia Mínima para Pequenos Fugitivos





À passagem, sinto o rumor dos pequenos animais
fugindo entre folhas secas.
Vejo uma planta tremer tão furtivamente
quão decerto os fugitivos.
Na grande catedral transparente, o vento
alimenta de respiração o sol, que
dardeja como uma profeta.
Em outro canto sombrio da cátedra, imagino
ronde a cálida Lua, sua ignição de prata
ardendo a ouro.
Quando abandono a mata e tomo a rua de pedra,
a galáxia range como uma porta devassada.
A geometria condiciona a visão,
mas posso sempre, erguendo o olhar,
referir na cegueira do azul os pontos
que as estrelas vão tomar esta noite
de há tantos milénios.
Vivemos entre o que os arquitectos quiseram e
o que os astrónomos desejaram.
Entre estelas e estrelas, derivamos em demanda.
O firmamento nocturno do útero
envolve, reserva e alimenta o astronauta
fetal.
O útero diurno da grande catedral transparente
aquece, expõe e requeima o astronauta
fatal.
Dele fugindo, restolham os pequenos animais
do Verão.
Seca-lhes o medo a boca,
molha-lhes o terror o coração.
E no entanto tudo me indica como
um deles.
As dedadas do céu na terra são os rios.
Sangrias de mercúrio semelham eles,
cobras de cobre suicidando no
da chegada.
Degola-os o rumoroso mar, não
mensurável armazém de cutelarias e ânsias.
Não longe, por esplanadas de pedra suave
como o sabão, décadas translúcidas e
desavindas penetram-se de umas
mesmas outras, mesclando pessoas e obras
e – assim – criando a memória,
esse teatro fantasmático, e o futuro,
essa ilusão imemorial.
Sinto estas coisas como se as pensasse.
Ao cabo da rua, na pastelaria viva, vejo, à hora do chá,
baços cristais delidos de toda a esperança:
rostos de antigas senhoras. São de mãos
pergaminhadas como papéis amarfanhados.
Delas, os pescoços esticam cordas que
curvam a subir, como segurassem velas
de barco ou lonas de circo.
Não fogem, estas, à minha passagem, por
de mais vulgar e chã.
Tudo me indica como uma delas,
talvez por isso.
Galácticas são nossas efemeridades,
nisso sim dados a eternidades, nós.
Fulguramos, as tomadoras de chá e eu e vós,
como eternas velas efémeras
noutro dos mais sombrios cantos da
grande catedral.
Brilham-nos os olhos no escuro: lobos de cera
uivando a lua nenhuma.
Hemisférios e décadas remesclam
esplanadas e músicas de esferas.
Vaporizados pela eléctrica asma das derivas,
os frutos de chã e vulgar horta
(como os de um vulgar e chão passante)
repetem, uma a mil, cada estrela,
cada estela,
cada boreal bebedeira,
cada quinta-feira.
Súbdito da mente, o corpo é laboratório dela,
retortas e fósseis didácticos ensinando
a impossibilidade de aprender, numa
sala queimada a néon e a saudades
mortuárias.
Talvez daí derive a não de somenos porção
da lição: saber é recordar.
Portanto: mentir.
Sobretudo: mentir-se.
Mentir como uma querença de arquitecto,
como, de astrónomo, um desejo.
A piscina, a sideral piscina de silêncio
do universo: só
os pequenos animais alguma coisa
escutam,
ainda que tão comezinha quão
a minha passagem,
numa tarde sol devida
à Lua, à Lua delida
como ebúrneos ígneos
rostos de antigas senhoras.
A ternário compasso pulsam
as naves no alto lago sideral.
Apagados satélites de lixeira sputnikam,
em cima, a divina ausência de Deus,
em baixo, a da humanitária humanidade.
Tudo isto – ainda na pastelaria,
nós todos,
esta tarde.
Gostaria de vê-los, aos pequenos animais.
Gostaria de, um pouco só, saber de suas vidas
corredoras.
O batimento do coração deles, a gama cromática
de seus particulares arcos-íris.
Seus medos além de mim.
Se vento e sol, como me acontece, neles
alastram como o que são:
fogueiras.
Gostaria do contrário da Natureza:
que não fugissem, que me não fugissem.
Ou que eu não nascesse,
ao menos não tantas vezes.
Minhas glândulas são, como todas
as de todos vós outros,
órgãos da grande catedral.
Que digo? Órgãos?
Sinetas, quando muito.
Sinetas de menino-sacristão em jejum de água-gelo-tília.
Olha agora:
quem não, como me acontece, viaja vidas numa declinação
mata-rua,
ao sol
oxigenado de
incendiário vento?
Tento
a vida.
Anjos descubro (e
cubro,
não os contando na
pastelaria)
entre folhagens
de pequenos animais.
Anjos de mínimas cerâmicas crianças,
diferentes do que deles se alava e esperava,
anjos de oco osso
para fibra de voo, pois
que o denso tutano, grave,
favorece a gravidade.
Grave idade, a das tomadoras de chá, de mim e de vós.
Nenhuma grave mortalidade, atenção: pois que
nenhuma o é.
Ser mortal não é grave.
Ser astral é indiferente.
Azuis cortinas veludam a noite-me prometida.
Ei-la, vaporosa e fria, e cheia de carros
que não transitam.
Na volta à esquerda do canto do jardim,
vinham tweedeando britânicas composturas
os lunch-eaters de sandes triangulares de pepino,
os amortalhados suicidas
de galáxia outra: Hogarth Press.
Compunham.
Que eu saiba, não se punham,
sequer,
em homem ou mulher.
Ou estela ou estrela.
E se a morte?
Bem, a morte:
leal, a mais leal aliás,
das femininas figuras
que acorrem a uma lembrança,
a um telefonema,
dia tal, horas tal,
primeiro na capela,
entra o menino-sacristão.
Não.
Falava-vos de anjos e dos
pequenos animais que
fogem ao mínimo
vão pobre
rumor.
Não transporto bem meus panos.
Por delicadeza, nem cruzei oceanos.
Ganhei milénios (ortografia) perdendo anos
(cosmogonia: e desenganos.)
Segue.
Cada tarde (a chuva no coração,
o sol nas costas),
sinto o rumor fugitivo
dos pequenos animais
nas folhas frias,
secas,
molhadas,
enxutas.
Pipilam estrelitas-de-artifício
no céu paroquial,
papilas da língua divinal
que ofertam ao passante
papilas e ofício.
Grandes ventos sulcam de gás um só sol.
A um canto, aveludada, a casta Lua.
Toda cálida, ou fria, e sempre nua:
suas cáries astronáuticas expostas
pela América à rua.
Ou então, de todo o universo,
uma tristeza local,
uma estreiteza sitiada e localizada,
até com código postal,
numa aldeia perto de
mais do
teu
coração,
aqui,
onde sol e Lua
aquecem,
queimam
e
quase
matam.
Digo um novo matador.
Digo um novo vocativo:


Não me convoques nem cães
nem de infância pátios.
Não deram mais céu nem
mais luz do que hoje,
fugindo de mim os pequenos animais.


Não digo mais novo matador.
Mais não digo novo vocativo:
devo ser corajoso e falar por eu/ele.
Quando,
nos filmes pornográficos,
revisito
Pai & Mãe,
que faço
senão
sofrer
catolicismos espermáticos?
E o céu, a ver com isto?
Tudo.
O cancro, aos 45 anos, do Fernando Pratas.
A solidão terminal, afinal inglesa, do João Bininha.
As estrelas picotando papel-de-prata,
papel-de-natal,
um natal de crianças norueguesas
que
nunca falarão português.

À passagem, era uma vez.



Texto: Caramulo, tarde de 26 de Julho de 2007
Foto: Caramulo, noitede 23 de Julho de 2007

Friday, July 27, 2007

Rosário Breve 10 - Saudades Pobrezinhas

Na edição de hoje d'O Ribatejo

Nasci numa terra tão pobrezinha, que até os sinais de trânsito eram a preto-e-branco.
Em todas as casas, o comer era muito pouco, o que fazia com que os ratos chamassem nomes muito feios aos inquilinos. Em cada lar, havia uma avó sentada a um canto e falecida há anos sem que ninguém topasse a diferença. Ninguém conhecia ninguém porque nunca houve dinheiro para tirar fotografias. Eu próprio não sei, ainda hoje, se de facto eu não era o filho do vizinho e, ele, outro gajo qualquer.
Como ninguém tinha televisão, havia ainda uns resquícios de inteligência. Inteligência, sim. Por exemplo: apesar da extrema pobreza, ninguém emigrava porque lá fora não havia Salazar. É claro que havia alcoolismo, a ponto de só os cães não andarem bêbados. Mas os ratos andavam, o que só agravava os nomes que eles nos chamavam.
Eu passava muito tempo em casa ao pé da minha avó, no intuito de aprender o que me reservaria o futuro – e o futuro era isto, enquanto não vou ter com ela. Isto, ou seja, escrevo peças para uma companhia de teatro cujos actores são tão maus, mas tão, que, quando andam na rua como as outras pessoas, as outras pessoas riem-se.
Um dia, passou um carro na rua. O medo fechou-nos em casa mais de um ano, não fosse o caso repetir-se. Tínhamos medo de coisas simples porque, na altura, ainda não éramos europeus, éramos só os vizinhos de cima do norte de África. Éramos, éramos – e desconfio (todos os pobrezinhos são desconfiados) de que ainda o sejamos, só que disfarçados.
Apesar de tudo, tenho saudades de nascer. Sim, mesmo naquele rincão abandonado por Deus e castigado pelo regedor, que era um senhor muito amigo do padre e portanto de Deus também. Ele até já tinha ido a Lisboa, tendo voltado nunca soubemos porquê. Oh sim, tenho saudades das minhas pobrezinhas primícias. Mesmo que eu não fosse exactamente eu, mas outro.
Do que não tenho saudades é do hoje deste País, até porque Salazar morreu há uma data de anos e ainda não houve ninguém que topasse a diferença.

Thursday, July 26, 2007

Patricia Damiano - Argentina

Reorganizei as ligações (os links da Malcata, por assim dizer) e acrescentei este fabuloso

http://patriciadamiano.blogspot.com/.

Não percam.

Viva a Argentina!

Três Poemas em Tradução Argentina

Já lá vão uns anitos, a minha querida amiga porteña Gabriela López Zubiría decidiu traduzir-me três poemas. Um deles (Retrato de Señora) terá sido apresentado num espectáculo em Buenos Aires, mas não sei pormenores. À alegria da surpresa e da oferta, juntou-se-me um sentimento de alteridade muito curioso, já que, assim tão formosamente traduzidos, os ditos poemas me parecem coisa alheia. De certo modo, assim é: buenosairando-os, por assim dizer, Gabriela tornou-os dela. Pois para ela são, precisamente.




PEDIDO

Dame uno de los colores del otoño para tatuarlo en mi destino.
Préstame la absolución de la palabra que no permite descarrilar los sueños.
Concédeme el código que cifra mi mano izquierda.
Explícame la cosmogonía de la arquitectura de la oreja.
Devuélveme el tiempo pasado, solo, desde una taza de café en una estación de trenes.
Enséñame la muerte, para que la vida no se ría de mí.
Llévame de la mano al mar.
Sacúdeme los pies como una ola que rompe.
Píntame de agua para que sepan cuánto lloramos.
Cúbreme de sal o de sangre para que los bichos coman.
Recuérdame una espera que ya no cuenta.
Multiplícame por lo incontable.
Explícame por que razón ningún relámpago regresa a la luz.
Hazme entrega de todo el correo devuelto.
Corre la arena que entorpece el paso.
Asesina todas las postales que no compensan la distancia.
(Asesíname en todas las fotos que no compensan la distancia).
Méteme en un saco.
Mándame para Alaska.

Desde allí te pediré más nieve.



RETRATO DE SEÑORA

De tu sonrisa haría una película, si la lengua lo permitiese.
La pequeña boca recortada a cuchillo con labios de manzana,
caída la cáscara de un beso.
Aceitunas? Dos: los ojos.
Ancas (caderas) de potra madura.
El resto, orgánica mujer.
Pies simples, desnudez de uñas que geometrizan.
Barriga donde un ombligo vale la cosmogonía.
Poco tiempo para tanto amor, tanto engaño.
La leche hierve en el hervidor, que gas es efervescencia
masculina: rosa azul.
Una zamba, un fado: dos orejas, un solo ritmo.
Esta señora mía crece en la sombra del cuarto, corrompida de
luz: si le quito la z, queda luna (lua en portugués).
Otras cosas puede (debe) un hombre decir a una mujer: desde
que le llame señora.
Historia antigüa: un hombre, una señora. Cuántas canciones acausa de esto, ¿verdad?
También puedo hablar de fútbol, pero no hoy. Hoy, principio
eterno de siempre, es contigo, señora.
Manos vegetales donde la sal se mineraliza.
Costas de planalto difícil, donde el plumón de vello se adiciona
en lomada curvatura.
Terminación montículo, en bajo: pura carne es la del amor.
Después, lunes, martes, otros días.
Tener una señora es tener el domingo preso en casa, no se si
los señores lo saben.
Solo con las (nostalgias) saudades, lo recuerdo.
Sé que esto es difícil para los señores.
Tampoco es fácil para
mi.
El resto? Orgánica vida: geometría de uñas, cosmogonía,
ombligo y su extensión, trópico de cáncer, capricornio, ecuador y
que dolor.

En otras palabras, amor.



CARTA DE ENERO ÁSPERO PARA NADIE

Soy de la tierra de nadie.
Conozco poco del mundo.
Hablo poco, también.
Tengo algunos versos, una rosa, ningún dinero.
Veo que no es.
Siempre se donde no estás.
Un árbol es un pulmón expuesto.
Como un amor herido.
Respiro como si practicara una lengua extranjera.
Comprendes?
No necesito oir.
No necesito saber.
Hubo tiempos en que no todo fue así.
Otros tiempos.
Difíciles, ellos también.
Pero, qué soy yo?
Bebo el aire de la tierra,
Sangro palabras oscuras.
El silencio en los hombros como una azada.
De lejos viene el dolor.
De más cerca la alegría.
La conozco: oí hablar de ella.
No sé para donde fue.
Sé tan pocas cosas.
Ahora es hoy.
Tengo una colección completa de hoy
Respiro.
Calma.
Un nervio (vigor) de hierro.
Una lentejuela de oro.
Una boca de gato.
Un zapato perdido.
Colecciono idas.
Alimento la sombra.
Trago el sol.
Soy de la tierra del agua.
Si pudiera, sería un pez.
No soy.
Nunca más seré animal.
Sólo cuando muera.
Ahora la luz.
La maza de oro.
El caballo de sangre.
La sombra del tiburón.
Desaparezco sin temer (temblar)
Nunca más he de temer (temblar)
Conozco la salud del fruto.
La muerdo.
En una casa antigua, una flor nueva.
Orina de cachorro viejo.
Sombra pisada de hombre.
Abuela de puntilla en la ventana.
La ciudad veraniega.
El Verano ciega.
Brasas, azucenas, cigarras.
Cigarros.
Mi vida.
Mi vida es de nadie.
No me mires.
No estoy.

Pero llámame.


Daniel Abrunheiro
Traducción: Gabriela López Zubiría

Wednesday, July 25, 2007

Montanha Mágica nº 16

E vão 16. Logo, quando der a meia-noite, vai para o ar mais um(a) Montanha Mágica. (Repete de sexta para sábado, à mesma hora.)

Sintonia: Emissora das Beiras, 91.2 FM; ou, pela net, em www.emissorasdasbeiras.radios.pt.

Poetas convidados: Al Berto, Fiama Hasse Pais Brandão e Gastão Cruz.

Música:
Kurt Weill (pelo Ensemble Moderne)
Tony de Matos

Abbey Lincoln
Luísa Basto

Jose Feliciano
Françoise Hardy

Jorge Palma
Roberta Flack

Joey deFrancesco/Joe Doggs: mas ATENÇÃO: esta voz jazzística não é outra senão a do próprio Joe Pesci, o actor justamente famoso de, por exemplo, Tudo Bons Rapazes e Casino (de M. Scorcese, ao lado de Robert deNiro etc.)

Amália Rodrigues
Léo Ferré

Marcos Teira
Ella Fitzgerald

José Mário Branco

E, depois, outra vez ATENÇÃO: repete-se o fado Conta Errada por Amália Rodrigues. A razão da repetição é esta: é um fado perfeito. 1- Por ser cantado pela Divina; 2- Por ser composição de João Nobre; 3- Porque a letra de José Galhardo é fabulosa. A história que o fado canta/conta é a de uma "negra confissão". A mulher traiu o marido - e agora confessa-lhe a coisa. Mas fá-lo através de palavras e de... números. Um monumento, um marco único na história da verdadeira Poesia Portuguesa.

Blossom Dearie
The Bee Gees (ah pois, também têm direito à vida)

Michael Bublé - nota: este rapazinho canta como um pássaro. Mas há uma surpresa: então não é que a segunda voz (muito bem feita) é de uma tal... Nelly Furtado? Quem nos ensinou/enviou isto foi o incontornável Rui Correia. Thank you, Iur!

Demetrio Stratos nos tempos (anos 70) dos I Ribelli

Jethro Tull

Trio Matt Renzi / Jimmy Weinstein / Masa Kamaguchi (rico jazz à la New York)

José Afonso

Blood, Sweat and Tears

e

Sérgio Godinho.

Logo à meia-noite (mesma hora, de 6ª para sábado): Emissora das Beiras, 91.2 FM; ou então por www.emissoradasbeiras.radios.pt.

OITO OITAVAS FELIZES mais NOVE BUSCAS



Oito Oitavas Felizes

Num canto do pátio, esta tarde, ao sol,
pude ser feliz para aí uns três minutos.
Às vezes, acontece. Eu faço como as outras
pessoas e aproveito. O vento brincava nas
árvores como uma criança grande. O sol
não era desses do catolicismo que vão
ao baile para espantar os pacóvios. Não:
era um pai sereno e, de novo, novo.

Ao longe, outros gajos como eu, em outros
pátios como o meu, multiplicavam a
solidão da felicidade à la minuta.
Tão bem me sentia, que abençoei, até, os
filhos da outra. Além do muro, vi
passar um homenzinho de um dos lares
terminais cá do sítio. Levava consigo
o transístor, seu último filho, ou amigo.

A luz envolvia-me como uma manta.
Também posso dizer: como um lago.
Cheguei a sorrir como os artistas de circo.
Pensei se a minha velha Mãe, estaria
aproveitando aquele sol, pensando no
marido dela. Mas logo afastei de mim
esse pensamento. Fi-lo como quem afasta
uma cortina de veludo que anoitece uma sala.

Depois desses três minutos, voltei ao trabalho,
que se fazia tarde. Só que, depois, tão
estranhamente, o lastro feliz continuou
areando a bolsa de couro do meu coração.
Então, eu disse-me assim, entre aspas itálicas
de monólogo interior: “Carago, mas que
raio é isto? O trabalho tem tempo que
sobre, mas tu, tempo que falta. Sai daqui.”


Como estava a ordenar-me coisa a mim
mesmo, obedeci. Saí. Fiz o que fazemos
todos: vim andando, andando fui.
Tive duas sortes. A primeira foi a sombra
dos castanheiros. São árvores conventuais.
Estar à sombra delas é como ter-se uma
pessoa matriculado num pretérito benigno,
em que até o chão é uma diversa qualidade da altura.

A segunda foi ter visto uma rapariga tão bonita
como um debate de rosas moderado por uma
fonte. A todas as glândulas fazia bem olhá-la.
Escoltada pelos pais, tomou uma laranjada
sem tirar os olhos do chão.
Fez bem, fazendo isso – pois que
a virtude assassina daquele tipo de beleza
é cegar os poetas imbecis com felicidades de pátio.

Lembrei-me de escrever-vos estas oito oitavas
por razão quase nenhuma, motivo que aliás
repito em todos os versos outros de todas as
outras morfologias. Sim, posto que escrever
é como viver: não se sabe porquê, nem para
quê. Estrofar oitavamente uns minutos vitais
é tão ridículo mas tão inofensivo, digo-o eu
que tenho caneta, como sorrir à artista de circo.

Como sempre volta o mais eterno dos nuncas
(o agora), agora volto a pensar na minha velha
Mãe, a quem a noite rebuscará, como de costume,
o antigo coração. Espero, como sempre, que ela
continue cortando pela esquerda o trânsito da
solidão. Que a continue ensolarando algum dos ditos
dito pelo marido dela, esse cavalheiro pobre
que, noutro pátio de outros minutos, era novo e sereno como o sol.



Nove Buscas

1

Quero outra vez um pouco ainda
de atravessadas luzes por
fluviais árvores ao ar brando
de um entardecer que já não sei
dizer.
Um pouco ainda disso
antes de viver.

2

Espalha o corpo certas águas no linho do sono.
Todo o corpo é mar e nadador quando sonha.
Todo o vivente é talvez demasia do Outono.
Talvez por o coração não saber onde o ponha.

3

O pessimista borra-se.
O optimista deixa-se de merdas.

4

O antigo mar rejuvenesce o antigo homem
que o abarca. Trocam sinais
de sal e entendimento.

Continuarás depois de ter sido
– diz ao homem o mar.

E o homem nem responde,
dando à costa.

5

Coleccionei para a vida toda todos os gestos
lá de casa.
Como a mais velha se sentava, de faca
na mão.
Como o do meio trinchava o arroz doce, dizendo
palavras de canela.
Como o próprio sucessivo mesmo repetido cachorro
humanizava o carinho alimentar
das jantas festivas.
A 15 de Novembro de 1982, não tinha ainda
morrido ninguém no mundo
de então.
Havia arroz doce e havia cão.
Garrafas de porto e espumante
endireitavam o torto e retardavam o adiante.
Celebrava a família nem sei o quê.
Eram pequenas, muito pequenas, as novas crianças.
As minhas, então, nem novas eram.
Honrámos a pagela do Irmão Doutor Sousa Martins
e abocámos porto, champanhe e arroz doce.
A Mãe campeava entre farturas de couve
e talhadas de melão.
Respirava para cima um vapor de favas.
O Velho, coxo de uma perna, era olímpico
em sua dele tristeza reservada às melhores
festas daquele planalto tão baixinho
quão o mais alto dos contraltos proletários.
Era tão engraçado ninguém ter morrido.,
que, às vezes, nessa véspera de 16 de Novembro de 198enta-e-tal,
trocávamos de braços e mãos para que se
repetissem os gestos.
Ainda temos disso, os restantes, julgo eu.
Eu corrijo a espinal medula com a mesma torção
de outro irmão que boceja à materna maneira.
Mas não, julgo e versejo eu que não,
pode a vida ser tão arrozdoceira.

6

Junto ao rio vive-se um fresco
que as lusafamílias sentem bem
ser contra o Demo, tal grotesco,
emanação da Virgem-Mãe.

Vai ’ma fartura? Queres um balão?
Há framboesa açucarada em baunilha.
Senhor Avô, o capilé é ou não é?
Ou é de Alicante torrão a filha?

Vem o fresquinho. Ainda é tempo
de outonar em primavera.
Não deve quem ganha o momento
esperar p’la feira, qu’ela não espera.

7

As mulheres são emanações da floricultura.
Perigosamente perfumam suas redondezas.
Certezas só dão em puericultura,
Que machos p’ra elas são só incertezas.

Habitam o mundo, o mundo elas são.
Moribundo soldado à dele exclama
entrega de sopro e de coração,
quando a ele se apaga a chama.

Mulheres de maridos. Sempre cozinheiras.
Mulheres do caraças, entregues, servis.
E passam com isto as vidas inteiras,
só que sempre senhoras do mesmo nariz.

8

Ainda guardo alguma alegria muscular.
Na ’statística não confies da meia idade.
Quarenta e tal anos, por Deus, hão-de dar
’mas gambas e coisas o mais à vontade.

Nem jogging nem shopping, realmente eu não.
Eu não, realmente, sou de sapatilhas.
Mas cruzo meus mares com a condição
do calado verniz lustrar minhas quilhas.

Quarenta e tal anos? Eu já tive vinte!
Nem sinto que seja merdoso acinte
sofrer da miudagem boquita ou toleima.

Do caminho feito, faç’ eu outro tanto,
não se m’ esgane a voz nem idem o canto,
que quem não insiste, não sabe o qu’é teima.

9

Não venha (ainda não, por favor) o zimbrocobre
acidulado do repentin’ arrependimento.
Não venha agora, que não é momento.
Não cobre o que tapa, não tapa ou descobre

quem tanto em si mesmo buscou
quem não encontrava nem nunca encontrou.



Caramulo, tarde de 24 de Julho de 2007

Tuesday, July 24, 2007

Breves Voos Quase Altos (trinta e um mais zero)




0

(Anúncio e Arranque)

Vivo agora a idade em que até os galos da aurora
são de cassete.
Aceito e pratico a minha idade.
Escapo como posso pelos interstícios da antecipação,
pelas intestinas vilosidades da fácil profecia
relativa ao acabar por acabar.
Levanto-me da banca após completar
o trabalho do dia.
Saio à rua, devasso uma praça, sento-me
para restabelecer os oráculos dos versos.
Ei-los, aos vernáculos oráculos perversos versículos.

1

Conto ouvir um pouco mais os galos da aurora.
Trabalham na estrada homens motorizados.
Acordo sempre para este cinema de cinzas, à hora
a que a cassete rebobina os ontens estremunhados.

Sinto vir os roucos jograis aos gelos da aurora.
Encalham na enseada jovens embarcados.
Abordo sempre este teatro de brasas, à hora
a que a cassete rebobina os amanhãs estremunhados.

2

Estou tão vivo, que até dói.
Basta-me a mínima pedra na mão menor.
Se vejo um pássaro, param-me as pernas.
Vou de paralisia em paralisia:
todas as noites e todo o dia.

3

Não atiro pedras a pássaros.
Atiro-lhes versos.
Eles não caem nessa.

4

Já vi um pássaro morrer em pleno ar.
Sem que o alvejassem, sem violência.
Como uma nota de música partindo-se sozinha,
sem instrumentista.
Eu era menino quando vi.
Tenho agora 43 anos.
De vez em quando, dizem-me:

Fulano morreu.

Eu pergunto o que já sei:

De quê?

Dizem:

De ataque cardíaco.

Lá está o pássaro, outra vez.
Mas não remoço quando o revejo.

5

É absolutamente correcto que no fundamental
se esteja sozinho.
É absolutamente certo que no fundamental
se seja sozinho.
É certamente correcto que o absoluto
se fundamente sozinho.
Trá-lá-lá trá-lá-lá que no trá-lá-lá
se trá-lá-lá trá-lá-lá.

6

Florescia da mão do pintor o revoluteado botão
de espécie sem nome nem botânica possíveis.
Era ele uma espécie de deus criando flores
ao capricho do traço e da luz e da cegueira.

Mais deus era ele quão mais homem: um
operário de flores improváveis dias adentro.
Nem ele se apercebia, mesmo à luz do dia,
da criança que o via nascer flores para dentro

do exacto grau de tristeza do coração em pureza.

7

Glória e miséria acabam ambas
em decrescente ditongo, depois
de breve voo quase alto,
quase proparoxítono.

8

Toda a massa da árvore na retina
como uma catarata benigna.
É segunda-feira.

9

A doçura do cansaço já me crepusculizou,
boamente, em não reversíveis degraus subidos.
Era quanto tudo parecia setembrizar-se-me:
uma idade de fogo amornado pela infância
do Outono.

Já docemente jantei coisas grelhadas sem pressa
no antevir de modorras físicas e cinéfilas.
A cidade, torrada de horas duras, amaciava
um anoitecer de choupos debruados a rio.

Pèzinhos de tricanas branquejavam a meia de neve
antidotada pelo brevíssimo veneno da chinela preta.
De Santa Clara os pastéis, de Ançã os bolos, de Tentúgal as folhas
– tudo te dizia: a vida é toda doce toda a vida.

Ando tão-só à procura do cabrão que me enganou.
Julgo descortiná-lo, quando faço a barba.

10

Tem, também, a humanidade feminina
seu Israel e sua Palestina:

daqui, a Irmã/as Filhas/e a Mãe;
dacolá, as outras do total.

Eu vou fazendo de ONU, mas mal
também.

11

Escrevo com a mão direita
para contrariar quanto possível
o lado do coração.

12

Já vi tanta gente
e tanta obra
sérias
que nunca foram,
são ou serão
a sério.
Envelheço.

13

Não
não nunca
tu nunca acredites
que eu tenha
seja o que for
muito menos
cruzado arizonas
e pacíficos
banquisado glaciares
e salvado
sifilíticos
não
não tu nunca
tu nunca acredites.
O mais que me foram
foi em rapaz
até já morreu o senhor
que era aliás
muito amigo
do meu pai
e até
de minha mãe
embora
a horas
diferentes.
Não
eu nunca
olha tu nunca
digas
que eu
não.

14

Doura-se toda a pele do ar em laranjado couro
quando dá de entardecer na minha cidade.
Alt’anacrónica dá a torre da universidade
horas seculares, graves, barítonas de besouro.

Pela chã rua, futricam os empregaditos.
Moças de talher querem casar e ser mulher.
A vida mondega barqueiros e barquitos.
Do lado de cima, já nem Deus nos quer.

De Santa Isabel, ou Clara, património.
Ser de uma cidade é ser do calendário.
É pena os transportes não terem horário,

mas cumpre-se em tal o vigor uno e vário:
se Cristo beijou e teve calvário,
beijo-t’eu, Coimbra, s’alixe o Demónio.

15

As pessoas emanam palavras que depois elas
(as palavras como as pessoas)
nem sabem o quão dizem delas.

16

A quem muito quero
quero
venha quando durma.

17

Sou de uma espécie igualzinha ao resto da exposição.

18

Nos barracões de pedra de Lisboa
guardam em ar condicionado
pinturas pintadas por sobrinhos-netos.

Cá fora, entre as colunas,
dormem os sem-tios-abrigos-avós.

19

Dou-te sem generosidade
a linha e a sombra
e o Conrad quiçá mal traduzido
e a mercearia congelada
que não sabia se podia
adiantar cozinhada.

Dou-te uma merda pessoal
que é a minha merda de pessoa
um artista especialista em fanicos
e voos de pássaro
traçados a tinta de baixo-forno
por ido pintor.

Dou-te tudo o que recusei.
O que recebo, nem sei.

20

Gloriosa continua, contínua, a luz lateral
de Vermeer, esse holandês de antecipação
que só sobreviveu ao nazi 1940
por, precisa e luminosa e lateralmente,
se ter antecipado.

Eram bonitas, as criadas dele,
que passaram,
como, afinal e aliás e não,
passou
a luz
de lado,
sempre a vir,
a Vermeer sempre.

21

A gente tem coisas que só contadas.
Num fim de bar, resfriada a noite, olhamos,
nem sei bem,
umas letras-reclamo luminosas no escuro,
olhamo-las e dizemos:

Carago, olha o Natal.

22

Não saberá Aquiles encontrar Nestor,
como não Arquimedes, botija de gás.
Uma coisa da vida é buscar amor.
Outra, rapariga. E outra, rapaz.

23

Sentem as cores cheiros.
Fundos fiordes escurecem meninos.
Ele há Magalhães, ele há Abrunheiros.
Ele ’té há Gonçalves e mais Constantinos.

24

Acresce de lado, a pureza da morte
no intervalo da costela. Tumbatumba o coração
contra todos os simbolismos, ávido só de água
vermelha, de incolor ar, nenhum.
Tremem um pouco, as já magras pernas,
na defecação como no precário duche.
Amarelejam as unhas como gambas
dadas à icterícia de pobres, pelam-se os dedos
de não eróticas excrescências de cartucheira
altaneira. Entretanto, tosse o pulmão
direito uma massa ao canhoto de todo estrangeira.
São carpetes de alcatrão, da garganta vozeando
arrestos devindos do peitoral crude.
Bebe-se muito, fuma-se muito.
Os dias ecoam noites a fundo.
De lado acresce, a pureza do mundo.

25

Suicidou-se a namorada de um cantor norte-americano
quando ele estava na Europa.
Julgo que nessa altura eu ainda não tinha feito a tropa.

26

Os pés não te mordem

– dizia o meu Pai quando eu
com os meus andava
ou
a ele
lhos lavava.

27

Vê, vê: quão formosa é a tua cristalaria invisível.


28

Tenho humanos dentro de casa (dentro da cabeça)
que fizeram as fábricas.
Eles acabaram os exames, eles
começaram nas fábricas.
Havia um sistema.
As máquinas nunca afagavam, só
ofegavam.
Tenho esses humanos quando escrevo,
tenho esses humanos quando não escrevo.
Eles foram fabris.
Eles deram coisas que saíam em caminhões.
Caminhetas. Camionetas. Camiões.
Tenho humanos dentro.
Como o que eles fizeram.
O prato parece-me familiar,
este de que como.

29

Lamento muito, mas agora não assisto
ao melcair do ouro no horizontatlântico.
Tenho frequentado rincões escuros,
que de mar têm, se tiverem, algum poster.

Lamento tanto, mas não assisto já
ao que é de borla: o sol e o mar e alguma
filha em transe de adulta referência
levando-a ao mar e ao sol.

Onde é que me enganei?

Não no verso, que, perverso,
diz mais (palavra, gente) do que sei.
Ou sou.
Ou era para ser.

Importa nada.
S’alixe o Demónio.

30

Problemas na autarquia tal do país tal.
Gasoleaginososutilitários voltam de costume a casa.
Pode ser que em dezembro haja natal.
Essencial é que não chumbe o grão a asa.

Despedimentos na fazenda e na marinha.
Já se não pode aparar as unhas.
Ouvi dizer que a desgraça não é só minha.
Graça por graça, sempre é preciso ter umas cunhas.

Qu’é dos meninos gulbenkianos lá de fora?
Voltaram eles, definidores, cá ao torrão?
Estão eles suspensos de algum cabrão

que lhes repita BBC e Inglaterra,
olhe-menino-se-não-mama-atão-não-berra,
ou há problemas na autarquia do país tão?

31

Recebo pequenos suaves milagres, eu também.
Tenho corduras que nem imaginais.
Indo ao cinema sozinho, ouço dos pais:

Olha, se sais, volta ao pai e volta à mãe.

Ind’oje, sim, recebedor disso. Fora, o porto abarca
barcos tão grandes como viagens. Diz-me a Parca:

– Olha, se entras, volta sem vez mas de voz com
o som de quem já recebeu verso e rima e alto e bom som.

Sim.
Sem.
Com.




Texto: Caramulo, tarde de 23 de Julho de 2007

Fotografia: Coimbra, tarde de 7 de Julho de 2007

Monday, July 23, 2007

APRENDIZAGEM e POSTAL

Nota: também os dois poemas seguintes são
do "ciclo" do domingo de Santa Margarida.
Vieram no fim da festa (a minha).





APRENDIZAGEM e POSTAL

1

Aprendizagem

Aprendem no escuro as crianças as letras que dizem
manhã,
amanhã.
É o escuro de ontem que as ilumina nos quartos
cegos,
canções instituem-se memória sem que elas o saibam,
para já.
Na cozinha, a louça persiste na coruscação sobre
madeiras e acrílicos.
Os animais sublinham a zoologia imanente ao
amor.
Aviões impossíveis navegam o tecto dos quartos de
leitura.
Quando os ontens se acumulam como dívidas,
instaura a genitália sua ditadura mourisca,
corredora de não cristãs províncias:
o instinto, o despejo, o atroz albatroz comedor de
meninas.
Na cidade, brilham em vão as ourivesarias.
Salões fotográficos expõem alguma distracção da luz.
Histórias iguais percutem os nervos aos historiadores.
O rapaz grande ronda pastelarias fartas.
No cais fluvial, despejam robacos e bogas.
O vento vem verde-bolor sobre as estátuas
de uma História cagada pelas pombas.
Bailes-fátuos emanam sem som das coudelarias associativas.
Uma pessoa aprende a ler – e a vida põe-se a
milhas.
O sentido do dinheiro, a inteligência da viagem,
o descobrimento privado dos bosques públicos
– contra tudo funciona a autoritária demanda
de sinais.
Aprendem nos sinais as crianças o
escuro.

2

Postal


Certa deflagração do sol cadente
na tarde da janela pode comover
um homem experiente em
crepúsculos.
Cada pôr de cada coisa é,
por si mesmo,
o mesmo e o antigo e o de
amanhã.

Daí o postal turístico,
daí a comoção viciada
do coração:
comover é
como ver,
de novo,
antes.


Caramulo, tarde de 22 de Julho de 2007

Sunday, July 22, 2007

(V)Ida e Volta (ou Domingo de Santa Margarida)

(V)Ida e Volta (ou Domingo de Santa Margarida)

(É domingo de festa, dia da Senhora
que foi em vida Margarida e deveio Santa
.)

Uma vez na vida, a vila
tem gente. Velhos e crianças
borboleteiam entre árvores,
nunca longe da água fresca
e dos tabuleiros de doces.

Churrascos perfumam a devoção.
Homens conversam gravemente
ao balcão de tábuas: cerveja e
Poder Local. Há balões e farturas.

Os idosos do Lar em frente
ao recinto da festa pasmam
muito interessados na repetição
da memória e da Santa.

Os animais sem dono
festejam também. São hoje
mais públicos que nunca.
Dão-lhes ossos de frango.

A noite será de lâmpadas.
Música eléctrica adensa o ar.
Bebedeiras e motorizadas
são as vertigens possíveis.

A capela está bonita
como uma casinha de boneca só.
Rama verde torna-se pelo
chão cinzenta e humana.

Também as almas tomam
hélio para levitar.
Hoje, o tigre da montanha não
anoitecerá nas ruas vãs.

Uma recém-casada de
remunerado peitoral
entralha no corte mamário
um fio de ouro votivo.

Seu marido é pequenito
e rijo: veio de sapatilhas
mostrar a mulher e um
carrito novo de dois lugares.

Nem a vida parece
tão limítrofe quanto costuma.
Mel e pão novo creditam
a eternidade artesanal.

Dou por mim amando
sem pensar: esta gente,
estes gestos, esta agonia,
esta capela, este domingo.

Anos tornam-se arvoredos.
Trilhos de terra, calendários.
Passos sem corpo passam.
Vozes escutam vozes.

Não importa. Bonitos são
estes casacos de napa,
bonita é a esvoaçante chita
das raparigas soltas
e solteiras.

E bonito é que tão quão
nós sejam pobres os nossos
santos: ouro um dia,
frio todo o ano – e vento.

Bento domingo montanhoso.
Paisagem e despovoamento.
Toma-nos a noite por
ínvios mestrados lunares.

E fé e efemeridade.
E perpétua redenção.
Por perto, perpétuos,
dormem-nos os idos.

O mesmo domingo nos volta,
mudando nada a nosso
feérico patriotismo capelão.
Esperamos viver.

Rancho primeiro, depois
tuna cavaquinha. Tudo
no maior acordo
de acorde maior.

Uma tarde em jade
que há-de repetir-se
em nossa idade:
lembrar-se, ir-se.

(É domingo de festa, dia da Senhora
que foi Santa e depois Margarida
.)
Caramulo, texto e fotos da tarde de Santa Margarida, 22 de Julho de 2007









XVI ELEGIAS CARAMULANAS e QUATRO POEMAS SEGUINTES





XVI ELEGIAS CARAMULANAS

I

Na falta do vento do mar
(e do mar)
tenho o vento da montanha
(e a montanha).
Todos vivemos por compensação,
regra a que me não instituo excepção.
Algumas das pedras são casas.
Algumas das casas estão vivas.
Algumas vezes, estou vivo.
Velozes ventos volantes vivificam-me.
De pé sobre uma pedra, sou atingido.
Sentado dentro de uma casa sem luzes, ainda.
Detenho os poderes convocatórios, ainda.
O grande vento é a grande alma das coisas.
Água azul bebe o verde da penedia,
vigiada pelas cabras e pelos corvos.
Numa das primeiras manhãs seguintes
a ter perdido o mar, fui ao campo santo.
As campas não têm nomes, só datas.
Achei bem: este vento levou os nomes,
deixou os números. Este vento toca as
árvores como toca os adormecidos:
achei tão bem, que fui feliz anonimamente.
Outra manhã, o sol daqui dizia:

Pássaros pretos. E água azul. Pássaros pretos e água azul.

O sol da montanha não diz barcos nem rochas.

Pássaros pretos e água azul. E as pedras são casas.

Por todo o lado, altares à ausência,
aliás magnífica, de Deus.
Por todo o canto, traços de animais
outrora legíveis ao olhar.
Nas fontes, o marulhar do cristal,
essa música da sede.
E o vento crespo nas aparições de água,
nos espelhos-de-água, dando ar de beber
aos peixes antigos
que outras elegias me frequentaram
já.
Na loja, as pessoas abastecem-se de margarina,
carvão, velas, biscoitos, sabão, enchidos – e
voltam para as pedras povoadas
de gatos e retratos.
Uma suavíssima amargura platina os plátanos,
tilinta as tílias, cobre as cabras,
curva os corvos.
Se a mim, também?
Também a mim.
Não sobem a estas bandas
as filarmónicas de outros dias,
outros filmes.
Destrapa-nos o vento montanhês,
nós nus de voz ao vento.
Nós nus na montanha, iniciais
e terminais, convocados e
poderosos – e pobres como peixes
elegíacos.

II

As coisas falam.
O estado das coisas fala.
O Inverno fala – e diz:

Esta terra é minha.

Sim, vejo que assim é.
Em pleno julho, nenhuma canícula.
Pianam os gatos suas transidas flanelas
por este pólo a norte de mortos verões.
Em pátios breves os vejo retraindo
o corpo à existência, acossados
pela frígida rigidez do ar.
Mas é tão clara sempre, a vida deles.
Assim é.
Ainda outro dia, morreu um senhor daqui.
Era nonagenário, falava um português sem
arestas – e já só recordava.
Tinha trabalhado todas as épocas de ouro
dos sanatórios da tuberculose.
Tratava da despensa.
Contava-me aquilo de que mais gosto:
a aquisição e a guarda dos víveres:
bacalhau, carne, queijo, manteiga, bolachas,
arroz, margarina também, leite, azeite.
Eu ouvia-o.
Eu ouvia-o porque já não era ele.
Era a idade de ouro a falar.
As coisas falam.
O estado das coisas fala.

III

Também adquiro margarina,
carvão, velas, biscoitos, sabão, enchidos – e
também volto.
Entre mim e o meu corpo há este trato
correcto. Temos uma lealdade a cumprir.
Fomos os dois gerados da mesma aguadilha.
Partilhamos invernos, pensando no
Verão.
Iniciamos ambos os anos terminais.
E achamos bem, nas manhãs santas
do campo
e da montanha.
Vivo ao mesmo frio sol de almanaque
que brilhou já sobre egiptos e napoleões,
indiferente, ele, ao patinhar elegíaco das formigas, nós,
e dos impérios.
Não apresenta novidades.
Mesmo quando nada tenho
(ou com que)
comprar, gosto de matinar
na mercearia, onde futebolizo
algumas graças com o rapaz
da casa.
A capela dobra um sino de cassete.
Nos picos da montanha, os moinhos eólicos
desafiam quixotes de século XXI.
Nunca deixo de me comover perante
a esparsa procissão de, uma por uma,
viúvas lidando nos tanques de roupa
à mão.
Da frutaria, rescende para a rua
o viço seminal das meloas.
Ouço a voz oxidada da chapa
com o nome da taberna.
Acabada a função, vivo vezes em que não
sei o que fazer.
Acabada a visita à mercearia, vivo vezes
em que não
sei como viver,
nem o que fazer
da minha vida.
Geralmente, acabo por ir ao pão.
Tenho margarina em casa.

IV

Quando contigo fui eu um cego a dois.
Tanta mocidade desbaratada em velhos gestos.
Despesas de marisco em esplanadas de plástico.
E uma ânsia por delíquios jaculatórios
que só a verdura láctea podia justificar
– e não justificou.
Isto passou-se-nos. Tomou-nos felizmente
a naftalina separatória, dois
que nunca foram 1+1.
Celebro hoje todos os desquites por falta de alma.
Os versos pagam a tempo e horas o crime
de ter sido moço e imberbe cego de uma
cegueira a que nem os pêlos dos olhos acudiam.
Estou na montanha, longe de mais até
do que era para ter sido.
O vento voa vindo, recebo-o no peito
de mamilos morangos de frio,
duas pedrículas de sangue seco
que não mais, nunca mais, te
darei a mamar.
Todos os eus têm confins austro-húngaros,
que os eus e os impérios à dissipação
se destinam.
Acho bem.
Não me interessas, interessam-me
Carlos de Oliveira e Jacques Prévert.
É pouco, é muito?
É tudo.

V

A minha avó materna cozia broa
noutro século.
Não eram quadriculadas, as manhãs
desse tempo centenário.
Ela fulgia, negra de tão morena e muito fértil,
entre os elementos fundamentais:
farinha e fogo.
Cheguei a tempo ainda de a ver
cobrando ao lume a rápida treva
de todo o humano.
Levitavam em torno dela os sentimentos
essenciais: a branca taça cerâmica, a cadela
castanha, o pote de sal, o chocolatismo pétreo
da lenha.
O fogo, como aliás meu avô também, dava-lhe
na cara.
Em casa deles, um relógio de pêndulo
ameaçava. Quando cumpriu, eu já sabia
escrever.
Pude escapar, condicionalmente embora, ao
destino de caseiro de quinta
de outro século,
que foi aquele em que nasci
e aquele, também, em
que por vezes morro,
morto por broa
dela.

VI

O hotel tinha muito bom aspecto.
Entre nele de correcto ar circunspecto,
habituado às luxúrias e gazes do terror.
Jornais para os olhos, sofás para o recto
e recepcionista com cordura e fáxavor.

Televisão por cabo, limonadas,
ar condicionado e pequenos nadas
que fazem do domingo a eternidade.
Ia sozinho, eu, e desgarradas
as mãos não manejavam à vontade.

No saco, este caderno de poemas.
Eu, em princípio, não ia ter problemas.

VII

E não tive.
Derivei na noite paga entre lençóis
não maternos.
O sítio de mijar era de uma limpeza química.
Mímica fiz eu, ao espelho da barba.
Sintéticos mármores baciavam o ralo.
Lembrei, é claro, erectos amores discretos
que amores não foram, só
discretos e erectos.
Estava tão sozinho quão um
ocupante de quarto,
à noite numerada,
de hotel.
Tinham-me pago para dizer
uns poemas,
eu tinha vindo,
não tinha aonde ir,
tinha os poemas,
disse-os,
no outro dia
(não é hoje,
nunca mais é
hoje),
fui-me embora,
até hoje.

VIII

Há por aqui mulheres dentro de casas.
As casas fecham as janelas (os olhos)
à vastidão gelada dos vales em baixo.
São muitos vales, muitos gelos.
Antes dos homens e das religiões, estas
mulheres eram naturais como o frio.
Comiam frutos como se estivessem nuas.
Há por aqui mulheres que fecham os olhos
e as janelas.

IX

Quanto tempo?
Nem mais nem menos.
Pergunto:

Quanto tempo?

Nem mais nem menos.

X

Fláceis, simplícidos,
agorram tormas pidianas.
Há que vigiar os lípidos,
não beber rum, só chupar canas.

XI

Vivo nisto, não disto.
Existir – existo, mas nisto.
Não disto.

XII

Um dia, uma pessoa claramente.
Tenho-me aprontado para ela.
Não um espelho seja. Não mais uma.
Tão-só um luzir de gente:
ou, entre gatos, um puma.

XIII

Na mocidade, passeei entre canaviais
pontapeando dálias. Gladíolos evanesciam
em fervuras nervosas de cor pintada.
Mereciam as manhãs que nelas se fosse juvenil:
e pueril, pois que me tardava o idioma.

Os choupos da vala pediam desenhos
de china-tinta debruando a claridade.
Enguias ferviam da vala, serpentinas,
ficadas e lúbricas e lubrificadas.
Que eu tive uma rica infância:

na mocidade, o perto era já uma distância.
Veio depois o idioma:
aqui, lá,
estou.

XIV

Um homem olha os olhos do homem
que faz a barba.

Dois países.
Uma língua.

XV

Clarõezitos pretos: pássaros pretos
anoitecem o último céu,
ontem.

XVI

No século XVIII, levanto o olhar no crepúsculo.
O meu cavalo resiste à sede, não está calor.
O palácio é de altanaria, brilha como um sonho.
Tenho uma carta a entregar ao senhor e
à senhora, lá em cima.
É esta elegia número XVI.
Nada mais digo, que vem o vento e me leva.

……………………………………………………….

QUATRO POEMAS SEGUINTES

Életê

Sei que em móvel branco guardais pequenos livros.
Sei que vossos pés crescem para adultos.
Sei que vossas mãos já vos completam, autónomas.
Não me lembro disso comigo.
Lembro-me, para a frente, disso convosco,
meninas.

Surpresa

Espera, agora é para outra pessoa.
Eu estava sentado na areia.
Ardia todo o sol todo o dia.
Tu vieste em surpresa.
Sentaste-te-me pelas costas.
Sinto as mãos nos ombros.
Eu era o meu mesmo filho,
quando te sentaste, por surpresa,
na areia, ardia todo o dia o sol.
Se ainda arde,
é verso.

Leilão

Agência de leilões vai pôr em praça
bens provenientes de execuções fiscais.

Bens como o meu coração e

fiscais, falências e outros

corações. Entre muitos outros artigos:

motos antigas, a minha avó cozendo broa,
salvas de prata, pratas sem salvação,
peças em estanho, caixas de pau-santo,
baionetas, relógios incrustados em mármore
(sem nomes, só datas), cómodas de cerejeira,
a minha mãe muito nova numa
fotografia muito velha, Cristo de madeira do século XVII,
Cristo de prata, Cristo de marfim, grafonolas,
versos de Correia Garção sobre chá e torradas com manteiga,
um aparador de nogueira, peças de latão,
rádios com válvulas como corações revisitados,
bambumobílias, roupeiros de folha horizontal como
jantares verticais, máquinas de fole fotográfico,
bengaleiros sem dono de casa voltando a casa
por estar morto, um peugeot de filme francês,
máquinas de costura cheirando a mães adoptivas,
outro aparador de outra nogueira, inoxes vários como
os estados de espírito, ondas-micro para o
mar ausente falar mais alto que de costume, baús sem
Érre Éle Stevenson nem fernandantónionogueirapessoa,
mobílias de jantar para defuntos não convidados em vida,
candeeiros de jardim propícios a melancolias relvadas,
fiambreiras de fino corte como a minha esferográfica,
fogões porcicrestados de casamentos rápidos,
aparelhagens sem válvulas ao contrário do coração a que
um amigo meu foi operado, fogões curtos
e quadrados como a vida solteira,
loiça (ou louça, vai de conforme a origem e o arrematador),
um computador a preto-e-branco com António Calvário
no ambiente de trabalho a abrir a boca
em plena década de sessenta,
um ficheiro secreto de material sinistrado
à esquerda com aproveitamento à direita
na Assembleia da República pós-25 de Abril,
uma máquina de cortar relva de tendência
pedófila, telemóveis de ligação
a algarves espanhóis para encontros
com brasileiras de sonho nascidas
em Ibiza, um gerador com asma de
gasóleo para tosses utilitárias e
pouco mais,
uma palete de louça sanitária,
um empilhador e um compressor irmão dele,
um gerador que não é pai,
uma roçadora que não é mãe,
um guincho e um acordeão,
uma outra coisa eléctrica
e um,
finalmente,
último verso.
Arrematado por
aquele senhor.

Um Vento Vem

Um vento vem vindo da planetária
mãe dele. Tosse em pureza arrancos
na cara de um homem.
É um dia, é um homem: e é
um arranco vivo
como não prevista maré.
Que é que ele quer?
Um suicidário sossego sueco?
Uma conformada norueguice?
Um chocolate?
Um bilhete para a Feira de Maio em Leiria?

Este vento da minha vida
quer a minha vida.
Quer a minha vida e
quer a V. atenção.



Textos: Caramulo, tarde de 21 de Julho de 2007

Saturday, July 21, 2007

Casas e Homens entre Árvores

Vivi as tardes de 19 e 20 de Julho de 2007 totalmente imerso no palavreado que a seguir vos exponho. Talvez seja uma elegia em duas partes, não sei. O que sei, definitivamente sei, é isto: eu queria ser pintor e músico. Como não posso, escrevo por imagens e sons. Isto é um aviso amigo: o que aí vem, bem, não é propriamente poesia. É uma sucessão de imagens e de sons. Haja paciência.

Casas e Homens entre Árvores

I

Casas entre árvores humanizam a solidão inicial
do mundo, através do céu descido em névoa,
sublinhado o caderno do olhar pelos pássaros
de lápis que o ar riscam de caligráfica
música.
Vozes pensadas restolham pelo chão outonal
da memória que as ouve, constantes, constante-
mente.
O ofício está aprendido: agora, é preciso
viver mais para que ele mais viva, mais isto
do que o contrário.
Ergue o dia escadas que a noite sobe,
senhora da escura vestimenta deslizando
antes de uma cauda de brilhos, talvez
estrelas, talvez olhos animais
vigiando no bosque as casas da solidão.
Nós estamos durante a vida. Depois, só
os versos são possíveis, bolhas de ar
subindo da alma mergulhadora.
O que se nos exige, para sempre, chama-se
atenção.
Assim como revestido de palavras é
o silêncio,
assim o sangue se nos abre em súbitas
rosas,
ao longo do longo caminho
até nascer.
Eu digo-nos estas coisas porque
a mesa me as sobe
à cara.
São um vento, estas coisas, e nós
vamos no vento como folhas
que aprenderam a ser
pássaros – e palavras.
Extenso é o amor como uma praia
rente a um oceano não pacífico.
Se o desejo nos torce como a molhadas
toalhas, rangemos na imperfeição lúbrica
imitadora do que juntou
nosso pai a nossa mãe.
Não estou aí.
Estou prestando atenção às casas
entre árvores, vizinho
de lobos e de coelhos.
Submisso às vozes desertas que me
lembram, também.
Manhã muito cedo, sou vivo.
Cruzo o bosque como quem devassa,
ouço o acordar húmido das casas
vazias, revisito o espelho-de-água
para confirmar o sonambulismo dos
peixes cor-de-água, ergo ao céu
um olhar de pedinte e só
me deixo morrer à noite
para que o sono me devolva aos
meus.
Tudo isto me é preciso e precioso.
A hora e meia daqui, sei
de uma senhora sentada num banquinho
perante uma praça com igreja.
Leva as horas recordando o futuro
dos filhos – uma menina, um menino.
Dentro dela, o coração trabalha
como um ginasta envelhecido
que quis ser bailarino
num mundo de trapézios e
funambulismos.
A sombra da senhora do banquinho
é um pano de anémonas
que medusa pelo mármore
com translúcida aparência
de água nadando água.
Ou fogo aquecendo fogo – pois que
posso dizer tudo,
agora posso,
os anos que levei para
dizer.
Que as mãos imitem estrelas e estrelícias,
em repouso sobre o caderno fervilhado de
pássaros,
lobos e coelhos.
Tudo o que quise(r)mos da vida, tenho-o
agora: um idioma convocador,
uma língua angariadora de fantasmas
versejáveis, uma gramática
formosa como uma mulher
tranquila.
Falo muito de mulheres mas
não ando por aí a comê-las.
Mexem-se, é certo, mas é como a
quietas casas entre árvores
que as espio e
expio.
Do mais delas, nada sei.
Nada sabemos delas.
Só quando se tornam mães e irmãs
deixamos de ser molhadas toalhas.
Maravilhoso é o mundo triste delas:
o furtivo olhar que deitam às pensões,
a competência na praça entre preços e gritos
e peixes mortos,
a arte devotada ao sustento das miniaturas:
maridos e filhos e irmãos.
Arderão sempre, esses lumes
votivos,
cativos,
definitivos
vivos.
Levanto-me, sim, muito cedo
para que o mundo nos não fuja de todo e
de vez.
Fotografo, aleatório, as riquezas pobres
da realidade: um muro de pedra,
um fragmento de bolacha caído de mãozita de criança,
um cão magro como uma harpa,
um clarão de barragem vista de cima
e uns pés de galinha afundados na
merda da prisão alimentícia.
Tudo isto existe tanto quanto um cartaz,
por exemplo um cartaz de leilão
de bens apreendidos por execução fiscal,
um pouco à maneira da lotaria
espermática de que nascemos,
o peixinho lácteo e girino do pai
mergulhando de ziguezagueante cabeça
na esferovite ovular da mãe,
à frente de todos os outros.
Por isso nos contam tão pouco os outros
no resto da corrida, não sei.
Sei poucas coisas e
muitas nuvens.
Ainda agora, nestes preparos, vi uma.
A minha mulher disse

– Parece uma pintura.

Eu olhei-as: a ela e à nuvem,
mesmo não sendo pintor
senão disto: riscos do ofício.
Entardecemos, como elas, em suspensão,
britando cristais com os mais
tristes pés que nos mereceram
as pernas.
Das ancas suspendemos os coldres
e as automáticas de uma luxúria
sem viço nem caprichos já.
Entardevelhecemos, é quase
tudo.
Vibram nas manhãs os chicotes de sol
permeado de chuva entrecostal:
harpazinhas de gelo
numa partitura de manteiga.
Cabras castanham entre verde, com um ar
de mães profissionais que
valida o plano de Deus e do
Diabo.
O amor e a lotaria acontecem aos outros,
o retrógrado pelotão de peixinhos
que para trás deixamos
na cabeçuda invasão
do requeijão
de nossa mãe.
Eu assisto de lado como um perfil
a todas estas maravilhas
que o quotidiano apresenta
(Produções Quotidiano & Dias)
com ademanes de mau vocalista
em baile paroquial.
Muita funda (muito gástrica) é a
Alma: um
xadrezinho de palavras a faz
ser bispo a colo de cavalo,
entre peões imemoriais
que devassam bosques e
casas neles,
bosques.
A nossa mãe sozinha na cozinha
invocando com interjeições de saliva
os gatos no pátio.
O nosso pai sozinho na cama de lama
juncada de raízes, fechado o céu
por uma folha de mármore
com datas e com o retrato
esmaltado em Itália
por ancestral firma gravadora.
As nossas filhas crescendo para mulheres
até que a hora e a idade as sentem num banquinho,
perante uma praça com
igreja.
E ainda:
no couro da cara, essas incrustações
a lume: os olhos,
mercuriadores azeites de uma intenção
genesíaca, tão inicial como a solidão
das casas entre árvores,
de que, penso, ter-vos-ei deixado,
já,
recado.
Cartazes de leilões e também
cartazes de bailes
resinando a cores
as árvores da terra,
anunciando paróquias e
denunciando bufetes,
entre acordeões e rosários.
Tudo tão susceptível de realidade quão
um sonho bem sonhado,
ajudando o corpo todo
à fátua elucubração das sinapses
bêbedas de luz negra.
Toda esta música.
Natural como árvores.
Natural
(mas di-lo-ei assim?)
como
casas entre árvores.
Versos entre árvores:
o ofício.
A raposa juntando-se a
lobos e coelhos,
mirando a especiosa humanidade
das casas iniciais,
da inicial humanidade
da solidão
para que saio,
manhã cedo,
noite muito cedo,
cada Lua.
Entre o susto e a preparação,
o poster do Cristo e o do Che,
entre o frigorífico e a mala de viagem,
o assento sedoso e o áspero consentimento
de cada um a seu mesmo cu:
uma eternidade datável em
mármore.
Casas, sim, casas
entre árvores.
Lobos
etc.
Ouros laranjam-me a cabeça,
nossas cabeças são laranjas de ouro.
A bióloga que emprenha nos intervalos
laboratoriais.
O homem que estende alcatrão quente
na via municipal ao dia,
à noite grelhando codornizes
congeladas como recordações.
O pão do dia trincado por fastio
contra a temperança da fortuna.
A serpentina moleza do esparguete
de imitação
engolido à beira de divorciadas
renitentes e secas.
A febre da palavra medida a quadrado
no caderno indiferente.
Tudo conta segundos,
em clarão de estrelas,
rápidas incursões no mar
e nos tijolos
dos dentes.
Não é breve a infância,
que toda a vida dura
contra a mole (exangue)
velhice (do sangue).
Não é finito o caleidoscópico idioma
que teus pais te transmitiram
entre guisados e bofetões
os mais carinhosos.

II

Homens entre árvores, também.
Como bandeiras de sangue branco me surgem,
candelábricos de suas almas-velas.
Nadadores do rio Tempo, com afectivos
afogados no currículo.
Salgueiros mnemónicos os assombram,
o que, aliás, nos junta e solidariza.
Vejo-os entre árvores: lobos
tristes e calados
como certas nuvens,
certos crepúsculos plenos de incerteza.
Numa praça de Lisboa vivi, certo ano da
minha incerta vida,
um bosque: brancos homens de fato escuro
passavam como fotogramas de estátuas,
comemorações da passagem, da efemeridade
e de um poema que
só agora,
doze anos depois,
posso. E passo.
Alguns corações cheios de julhos frios,
portáteis alaskas reverberando imensos e
não mansos, nas bermas da estrada,
nas terças-feiras insolúveis de
nossa monotonia.
Alguns corações quando se faz dia.
A noite flanelada de alguns corações.
Tudo isto e tudo disto me
diz respeito.
Salinas branqueiam os gestos,
alentejos torram ao sol frio
do coração.
Se falo muito do coração, é
de cor.
Acção é o meu precoce despertar, seis
e meia da manhã, todas as manhãs,
todos os invernos.
Tenho lutos que me dão luta, a que
sobrevivo por calcioxidadanada
temperança, dança a cabra, a puta dança.
Muito amor, também, na gástrica alma.
Eu vejo homens entre árvores.
São brancos como papéis não escritos.
E no entanto são-no e estão-no: escritos
como quadrados de arrendamento
em casas:
casas entre árvores.
Os animais fosforescem na lembrança imediata:
gente escura, de patas quatro, bebendo água
do espelho-de-água.
Sim, esses movimentos que doem como casamentos
mal servidos por empregados sazonais de
unhas sujas
e,
até,
impropérios
coloniais.
Os sangues estão cá em baixo e são rios
que precisam de ar e de pássaros e de nuvens
escritas.
São as pessoas.
São derivações de pessoas:
homens tão sós como itens de catálogo
cujo telefone não discamos,
cujas janelas não abrimos,
cujos somos.
Somos e vivemos
perto de capelas brancas
riscadas de sangue
por uma paranóia filarmónica
de pássaros que explodem
como apogiaturas.
Não contam tempo, fazem bem.
Eu vejo homens entre árvores, nem todos
vivem.
Digo: vivem, mas
só aqui.
Creio só na salgação de cal à luz.
As casas: volto a falar das casas.
Rápidos códigos de sombra: os homens
em paredes.
Toda a minha amorosa cegueira vê.
Tenho um lápis de pássaro.
Isso – e um enevoado caderno que
a chuva promete de harpas, quadrículas,
sonetos e recados.
A minha senhora olha os gatos,
olha o meu pai para cima seu italiano
mármore datado: 1917-1994.
Ondas de leite confirmam marés de pedra:
os mares são mecanográficos como individualidades
digitais.
A praia arde de nostalgia, a areia dos dedos dos pés,
o primeiro baile da filha maior
em bebedouros de champanhe
e falta de livros.
Os homens entre casas, oh
os homens entre casas.
Tenho tanto a dizer deles,
de tudo isto tenho tanto a dizer.
Alguns homens são mulheres
– deles as mães vivem neles.
Vinham da Fábrica como formigas,
aleitavam pelo caminho
o pequeno comércio de mercearias,
leitarias e dias,
eram regulares como o calendário
e como a morte e como a vela.
Não tenho escrito senão sobre isso:
sobre a minha rua inicial
como uma solidão
de casas e de homens
entre árvores.
Graças e garças de puro fogo anunciam
na cabeça sozinha a pura ardência
graciosa.
Repto e rapto.
E elegia e distracção.
Teatro é puro acto.
E amor e masturbação.
Da solidão dos lobos,
fala por hemistíquios,
solilóquios, congressos de
gente nenhuma
em vazias plateias
numeradas.
Dos loucos de chapéu,
fala sozinho – e
com chapéu.
Teus pais sofreram verões
junto a laranjais interditos,
tiveram, da economia,
a lição das latas de feijão,
do bacalhau patriótico.
Eles foram peixes de água na água,
fizeram-te por distracção
e acção e
nervos lácteos,
o peixinho,
a esferovite.
Caudas de estrelas e de ferozes animais
assustados rendem
rasto-lastro de cometas,
na noite,
na pequenina terça-feira
dos pobres-filhos-de-pobres-e-ainda-
-por-cima-já-mortos-ou-defuntos-
-fora-de-função.
Não.
Falo de cor por coração.
Não.
Digo o que me entende: certa
toalha de relva, na
Figueira da Foz,
molhada de mocidade ínclita
como um egrégio hino.
Vinte anos.
Mil anos.
Boa, vintona cara de comedor
de liceus respiratórios,
algumas passaritas sem mães – mais
a alma sem pai:
preparando-se para isso.
Têm andares pequenos e
pequenas lojas de retalh&venda
de electrodomésticos,
os homens afinal não fantasmais,
nem menos,
da minha visão,
entre árvores,
de vila pobre,
de pobre bosque.
Eu filmo.
A lamentação vem da falta de palavras.
Eu queria mais vidas, mais palavras
queria – e quero.
Tenho de fazer isto: por
ofício.
O meu ofício trata de casas,
trata de homens,
sabem onde,
entre árvores.
Muita fruta suca sangues de tais árvores.
Eu ontem vi.
Vi casas.
Vi homens.
Entre árvores vi.
A eles.
A elas.
Eu vejo.
É uma cegueira, aliás e até, versilibrista.
Que as pessoas são curtas e cegas, sei-o bem.
Glaucas sapatilhas limitam-nos os pés.
Emprenham de atacadores sem
ser por bolha nem amores: querem só parir,
mas depois andam fantasmando,
por bosques e casas,
os filhos,
como lobos e coelhos.
Eu vejo homens entre casas,
no bosque.
Palavras os açulam, como cães.
Eu vejo como devasso.
Cargas de carne apeixam o olhar.
Tenho tudo (e posso tudo)
a dizer.
Isto cresce para suas mesmas
solução e dissolução.
Os cantores cantam antes de entristecer.
O dia luz antes de anoitecer.
Penso que agora sei tudo quanto
há a saber.
Sim, voltarei humano
devagar a casa
entre árvores.

Texto: Caramulo, tardes de 19 (I) e 20 de Julho de 2007

Fotografia: Castelões (encosta nascente do Caramulo), tarde de 25 de Janeiro de 2007

Friday, July 20, 2007

Rosário Breve 9 - FALA O 513

Hoje, n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt),
a nona crónica da série Rosário Breve.
A foto remete para esse 1988 improvável.
Sou o parvalhão da ponta de lá,
o que olha para a objectiva sem respeito pela patriótica
concentração que toda a marcha pelotónica em Ordem Unida exige.
Fala o 513

Na minha já remota mocidade, a tropa chamou-me e eu fui. Cheguei lá, tiraram-me o nome e chamaram-me 513. A realidade tornou-se mecanográfica naquele mesmo instante.
Era em Mafra, nas traseiras do convento que D. João V mandou edificar com o ouro do Brasil. Miliciano involuntário da Escola Prática de Infantaria, fiz como os outros: comi, calei e aprendi umas coisas de topografia que mais tarde até me foram úteis, já que a tristeza é uma sangria de azimutes. De escalímetro na mão, nem me tenho perdido assim tanto como dizem por aí.
O meu instrutor era um alferes chamado Sardinha que andava sempre sobre brasas. Se bem me lembro, era filho de um general. Apesar disso, não deixava de ser um bom rapaz. Os meus camaradas de recruta eram como eu: verdes de alma e de farda. Tinham saudades das namoradas, punham na boca nostálgica uns cigarros cujo filtro amargava nas madrugadas muito frias daquele Março improvável.
O melhor de tudo era a saúde. Verdade: nunca fui tão saudável. Corri os 80 metros em 9,4 segundos, proeza que comoveu um dos dois olhos do alferes Sardinha. À refeição, o prato de metal ficava mais limpo do que um céu de Junho. Dormia como um mergulhador, abençoado pela fadiga e pela consciência em dia consigo mesma. Tinha força e não forçava. Julgo, até, que era feliz.
Hoje, ainda marcho, mas para os 50 anos. Em manhãs como a de hoje, acontece-me dar por mim com saudades desse tempo em que a corrida se media aos 80 metros e não às décadas. Não é que me apeteça ter uma G3 para resolver de vez, nas repartições de finanças e nos bebedouros de sábado à noite, as chatices do costume. Não. O que me apetecia mesmo era não chamar “remota” à mocidade.
Isso – e vestir-me de verde outra vez, a começar pela alma.

Thursday, July 19, 2007

EU VENHO DE ONDE ARDIA e outros poemas de fim de caderno

Figueira da Foz, anos 40 do século passado
(uma das fotografias suspensas em exposição no Mercado da cidade)



Acabou-se um caderno mais. Tirando duas coisas de Abril passado, este caderno compendiou muita da escritalhada de Junho e Julho. Já arranjei um novo, este vai para a estante. Antes da estante, porém, retiro-lhe o que para aqui não tinha ainda passado. Então, com a vossa paciência, aqui vai.

Tábua

Caramulo, tarde de 17 de Julho de 2007
I. A PEQUENEZ DOS SONHOS E OUTRAS FICHAS TRIPLAS
II. CÁ ESTÃO UM E UMA
III. FIGUEIRA DA FOZ A SÉPIA PERANTE AS NOVAS TECNOLOGIAS
IV. EMBORA, ENFIM, POSSA SER QUE NÃO
V. AMANHÃ É OUTRORA


Caramulo, tarde de 18 de Julho de 2007
I. DA DITA PALAVRA
II. EU VENHO DE ONDE ARDIA
III. QUANDO À NOITE E A ARREDORES DA NOITE
IV. AINDA HÁ QUEM LEIA DISTO
V. EU ANDO AQUI SEM RIMAR
VI. FALA O ANIMAL DO VEGETAL
VII. O PRÓPRIO INFIEL

Caramulo, manhã de 2 de Julho de 2007
DE FLORES, LIVROS E PORCINA RIMA

Caramulo, noite de 3 de Julho de 2007
QUE PENSA POUCO A PALAVRA

Caramulo, tarde de 27 de Junho de 2007
CANÇÃO ESTRADEIRA

Caramulo, tarde de 2 de Junho de 2007
NÃO E TAMBÉM NÃO

Caramulo, tarde de 19 de Junho de 2007
ESCORÇO DE UMA PEÇA DE TEATRO RADIOFÓNICO SEM VOZ NEM ANTENA NEM AUDITÓRIO NEM NADA QUE SE LHE DIGA


Caramulo, tarde de 17 de Julho de 2007

I. A PEQUENEZ DOS SONHOS E OUTRAS FICHAS TRIPLAS

1

Pouco da vida vale algo à escrita
e no entanto toda p’ra ela transita.

Escrever a árvore não é trepá-la.

2

Esta mulher está dentro da sua beleza
como o pássaro na gaiola,
como a ave no ar.

3

Algas e medusas ondulam
nos sonhos acordados.
Tornam-se gente quando nos falam.

4

As crianças imitam os adultos.
Os adultos repetem as crianças.
Os hospitais não têm mãos a medir.

5

É a pequenez dos sonhos
que ofende a vida,
não o contrário.

II. CÁ ESTÃO UM E UMA

Inscrevem as linhas da nossa vida
os cadernos os anjos que entre nós,
desoladamente, ambulam.
Mal os representa nossa imaginação:
galináceos torpes semelham em
as telas iconográficas.
Nem por isso nos inscrevem eles
Menos: nossas encadernadas vidas,
linha a linha, tomam deles
os cadernos.

Se alguma vez te amei,
está lá.
Se alguma vez me quiseram,
lá há-de estar.

As pequenas frases dolorosas,
as mínimas humilhações,
uma manhã no mar,
uma tarde na barragem,
muito tiveram de escrever
os anjos,
nem número haverá para
tantos melancólicos cadernos.

A Mãe na cozinha mirando
os gatos no pátio.
O Pai imerso em profundos
bosques incertos e sem gatos.

Isto é um caderno.
Isto é uma das linhas.

Se alguma vez te
etc.

III. FIGUEIRA DA FOZ A SÉPIA PERANTE AS NOVAS TECNOLOGIAS

Da praia-sépia desertou há muito o mar,
é hoje, o leito, de uma desolação lunar.
Reviro-me na cama tal um frango lírico
grelhando e rodando sobre carvão de versos.

Os dias estabelecem-se fantasmas de paralelos dias,
só as noites são únicas, pois que uma só, todas.
É uma maravilha a natação, na água de fantasmas.
Noite e dias se casam – e celebram bodas.

Eu direi a profunda solidão dos móveis da casa,
que sozinhos rangem sílabas ferruginosas.
No pátio dos gatos fulguram as rosas
pela Mãe miradas, no ocaso sem acaso da casa.

Tantas coisas fervilham (como as margens do Nilo).
Envelhecidos rapazes do meu tempo avoengo
sei deles que passam, arteriais, pelas ruas
ainda – e bem. Não já os pais deles, sei.

Durmo, a praia-sépia na cabeça interior.
Rangem os batéis comidos de sal, como móveis
domésticos. Na casa de que desertou a Mãe,
dorme o filho, filho mais e mais de ninguém.

Tudo é natural, da água morna à dura fraga.
Peixes rebrilham na fria montra de jóias.
Senhoras calafetadas de botox violetam
químicas de França em vilas portuguesas.

Mesmo a Figueira da Foz atira a toalha,
mais fácil é Espanha de europesetas.
A areia da praia a quem a trabalha,
amargo turismo vive de hermesetas.

À noite na cama, pela hora de fecho
da geral sociedade e da televisão,
eu praticamente não sinto nem mexo
em tudo o que seja ’ma recordação.

Eu antes não quero reviver o foi-antes.
Prefiro, oh sim, choupanar noruegas.
Ao lado, a mulher (melhor das amantes)
vocifera – Qu’rido, mas tu não sossegas?

De modo que digo a profunda solidão dos imóveis,
que deles a cal não cega nem brilha.
Olha, ainda bem que há telemóveis.
Desligo o poema, telefono à filha.

IV. EMBORA, ENFIM, POSSA SER QUE NÃO

Por pobreza impura e simples aceitamos a morte
como mero fim de datação. Mas não.
Na morte, inicial sempre, o esquecimento
joga, não mais que isso, uma carta mais de
seu infinito baralho. Finito é quem esquece
e quem morre,
não o baralho nem o esquecimento.

V. AMANHÃ É OUTRORA

Salas e salões de champanhe e pickles
ocidentaram outrora sonhos infanto-juvenis.
Ostras eram servidas e comidas em Paris,
ressumava o Bois de Bologne de punks e freaks.

Senhoras não sonhadas sonhavam glandes,
fartas ofertas de luzicu modernidade.
Metrobrilhava toda uma Paris-Cidade,
sofriam emigrando souffrances grandes.

Tudo faz rir, menos o Pai.
Menos a Mãe, se a falta conta.
Da minha porta, sei eu, não sai
nada que não Parada de Gonta.

TV por cabo e internet. Avó moleira, diabo a 7.
Que tanto plano, ’ssim misturado,
cedo ou tarde, dá tango e fado.

Amanhã é outrora continuado.

****************************************

Caramulo, tarde de 18 de Julho de 2007

I. DA DITA PALAVRA

1

Cheira a campo, uma palavra dita
de modo silvestre.
Isto acontece.
Deus embebeda os diabos menores,
resultando que se nos misturam
as coordenadas e as cornadas.
Tudo é uma brincadeira, sobretudo
morrer.
Toda a gente tão séria, sisuda e hirsuta,
décadas a fio,
e depois morre-se
de riso.
Isto acontece.
Sei muito do rir, pouco
do morrer.
Sobram-me ambos os gestos,
ainda assim.

Como sei que cheiram a campo,
certas palavras.
E que, ao campo indo,
de palavras aos cestos se
regressa,
como de morangos
ou de
palavras.

2

São boas de versos,
as histórias
que correm mal.
Se tens ombros e caneta,
deixa que o peso nos ombros
desça à caneta.
Podes escrever –
peso no coração
–,
mas é mau verso,
pior do que a
história.

3

Carta, aliás, sem
aviso de recepção,
cada verso.

4

Costumo assistir ao desfile parado dos renques
de plantas que quietas bordam a pedra
da passagem humana pela calçada a subir.

É uma coisa que costumo fazer muito:
assistir.

5

Convocas o teu filho, ele não vem.
No quarto, apagas a vela e,
então,
evocas o teu filho.
Ele não vem.

6

É um dever teu, até na poesia:
sempre que vires um filho-da-puta,
chama-o pelo nome.

7

Se for filha,
Idem.

8

Sim: pois que
ele há santos filhos-da-puta
e
filhos-da-puta armados em
S. Paulo.

9

O céu é uma profundidade.

10

Tenho um irmão que está sozinho. E
não, não é o que morreu.
É, precisamente, o
que lhe sobreviveu.

11

Férias?
Cada vez que estou numa estrofe,
estou numa estância.

12

A terra é uma altura.

13

Em te apetecendo
vem daí
contar cascas de ostras
e sábados passados
entre amargas paredes
e amargas amêndoas
de baptizados não encomendados
também o organista
só sabia acordes de fados
e não é fácil
suportar o nosso futuro anterior
com o passado presente
por isso
em te apetecendo
vem daí
vem só daí
onde limbas nimbas pimbas e moras
toda a memória é a desoras
temos mais meias-noites
que inteiras manhãs
gosto de
no mercado
cheirar os peixes e as maçãs
por isso olha
vem daí
junta-te à gente
somos poucos
sou eu sozinho
somos ninguém.

Se não vieres
eu percebo
nós não vamos
dizer nada.

Só que não te apeteceu.

14

É de facto infinita, a vocação.
Digo vocação: digo:
o trabalho da voz.
Sempre algo a dizer.
Algo sempre a vozear.
Dito assim, enfim,
há sempre clientes.
Disse clientes: digo:
ouvintes:
e lentes.
A voz, sim: a que vás,
o fruto colhendo do
trabalho da garganta,
sua bela sinapse numa
álea de cervejarias e de
utilitárias divorciadas,
onde, e a quem,
premir a ranhura
da moeda,
a troco de um cigarro ou
de alguma frase.
Digo alguma frase: digo:
algum verso.

15

O hominídeo
arrasta o jornal desportivo
cada sábado rupestre,
para a gruta.
Mamutes bramam
contratações.

A Natureza não tem época,
porém.
Não tem, não tem.

16

Ainda digo
uma palavra dita.


II. EU VENHO DE ONDE ARDIA

Nada sei (tudo imagino) quanto ao regresso a casa
dos soldados que de matar houveram
para não ser mortos, 1939-1945.
As outras guerras não me interessam, só esta.

Os pés em pedra. Os olhos estilhaçados como vidros.
Talvez a minha mulher se tenha deitado.
Eu não sei. Eu venho de onde ardia.
Eu não vim: sempre lá estarei, na Europa.

Jerricans são latas de alemães, em que
há queimar-se a multitudinária mosca
norte-africana. Jerry & can – repete.
O correio era lido como chocolate têxtil.

Nada sei de voltar, nem de voltar
a ver uma mulher viva que não peça
dinheiro, cigarros, chocolate, roupa.
Em St. Oréans de Gammeville como em Bristol.

Lembro-me da cal viva, do pavor das aranhas.
Lembro-me das casas vivas, uma só mulher.
Era ela a aranha que à janela, gázea, tecia
a morte do dia, a Lua que fere.

Os assassinatos da guerra diferem da rua civil.
Morrem sem crédito os mortos da guerra.
Vieram ali para isso, para ser mortos.
Tiros limpos, na irritação das eras-épocas.

Como os napoleomens, talvez marchando na
Rússia hostil. Pontes de pedra e cavalos de pau,
tudo ao serviço de um corso anão
com bigode invisível de hitler gástrico.

Eu venho, sim, de onde ardia, mesmo que
o século III tenha querido ser maniqueu.
Eu não. Ai eu, não! Eu provenho de genética
alheia memória – escrevem-me, ou por mim, os mortos.

Funda tu de novo tua casa egípcia e ama,
se fores capaz, a gaja branca que Alexandria via
passar entre ombros e escombros, à durrel’uz,
és tu capaz, anis, a sós e a três?

Não: a quatro: tantos são os tijolos
de uma casa tetralógica, descontando
o quinteto d’avinhão, tarde lembrado,
não ao tempo da II Guerra somado.

Deixa. Lês? Deixa. Deixa-me comigo, dia
8 de Maio de 1945. Efusivas musas escriturárias
conarão frescuras fresco-livres-libertárias
em valsas picadíllycas de honesta liberação.

São como são. Já passou? Ai isso não.
II Guerra Mundial, mesmo que sem Portugal,
foi por causa de um cabrão multiplicado ao milhão,
soma ainda hoje normal.

Tenho livros disso; muitas ilustrações também.
Vejo os revérberos lustrais dos adolescentes.
Maquinavam voltar vivos a pai e a mãe.
Eram, da lama, terra e água e pó e gentes.

Eu venho de onde chovia. Certos sábados,
(seis décadas depois, ele há sossego),
Revisito a guerra sossegada sossegada-
mente, pois que me não lembro

só por não, carago!, haver ’inda nascido.
Napoleão não me é querido.
O fogo chove, a chuva arde:
memória é ser nunca ter sido.

III. QUANDO À NOITE E A ARREDORES DA NOITE

Quando à noite te sentas rente ao fogo
e pões a tocar um disco de gente
que só cá está por ter vindo à música
tu sabes (de que maneira não sabes)
que o fogo e a música dispensam a
homens e a mulheres e a ti.

E tu fazes como se nada disso fosse.
Nada disso fosse contigo esta noite.
É sempre esta noite mesmo de manhã.
Começa tão de madrugada a ser noite
que tu pões música de gente que ainda
arranjou maneira de cá estar de noite.

Habitas o couro amarelo de castanhos ossos de madeira
– o sofá próspero e perpétuo de tua poupança.
Exerces, cu nele, a memória dos caminhos
que não lembras – por dos filhos serem,
memória e caminhos.
E o mesmo sofá (mesmo couro, mesma madeira)
quando te fores à mesma vida, digo, outra.

IV. AINDA HÁ QUEM LEIA DISTO

Molha o teu casaco com a involuntária água
de alheias chuvas. Tudo tem projecto.
Não dependas de municípios para
Ser mosca, raposa, lebre ou insecticida.

Se cabelo te nasce do peito, compensa isso
com educação e respeito pelos semáforos.
O mais possível, esqueces.
O mais possível, não lembres.
Limita-te a recordar.
Limita o recordar-te.

Tens um coração que bate horas.
Soluçam dias, cada uma de tais horas.
Venosam envenenadas noites, tais meias
horas.
Tu tem cuidado com lances de rio,
com cigarros e – sobretudo –
seus relógios falsos.

Não nesse rio molhes teu coração,
mas com a involuntária inocência
de tua,
tão alheia afinal de ti,
alma.

Ou então lê livros e não escrevas.

V. EU ANDO AQUI SEM RIMAR

Eu ando aqui ajudando todo o anacleto baptista
a ler versos não luteranos nem maniqueus.
Isto de versos é mais de vida que resista
que de morte em vida de voz e nós e d’eus.

A sério que é.

Trata-se de uma atenção às pastelarias,
a sua germinumanidade cerealífera.
Nem toda a poesia, aliás, é mortífera,
como, aliás, manhãs de julho, mas das frias.

Tenho tido muitas palavras. Visitam-me,
a não marcadas horas me visitam.
Não vou dizer agora que me irritam,
agora não, mas vezes há que sim, irritam-me.

Quero dizer: não me deixam ser, não me
largam. E vezes há que sim, quero
me larguem, me deixem ir – e não voltar.
Ou, no mínimo, deixar um verso sem rimar.

VI. FALA O ANIMAL DO VEGETAL

Sou agora o papel vegetal picotado.
Pó de carvão prensa por mim a ligação.
Queira ou não, isto é fado.
Falo de passagem, geração a geração.

Eu tive um pai. Fiz duas vezes uma filha.
A gente repete-se muito por amor, ou assim.
Papel vegetal, pó de carvão.
Pelo picotado, fiz as filhas.

Agora pago. Sou de almanaque.
Diz a estatística que um achaque
perdoa em número ao algarismo
que nunca soube, perant’ ataque,
defender o próprio egorganismo.

Saudades duas: ai isso sim,
que eu escrevo o muito nada de mim.

VII. O PRÓPRIO INFIEL

Insensato é que não ames, como aliás sabes
te amam os mortos, mas só os teus.
Breve aflição ponderada: eles amam-te
sem corpo – de quantos
casamentos – ou irmandades – não
poderás versejar o mesmo?

Gazelas frias, no talho documentário,
servem de reses à ignara educação.
Não queiras tu Cristo ou Calvário,
que as finanças são e não dão.

Diz-me alegrias pequenitas.
Conta-me de gatos apeados.
Ou então comboios por territas
com hortos sem Cristos habitados.

Diz-me, não, diz-me que minha,
tua, nossa mãe preside
a nossos mesmos incestos:

esse de amarmos o próprio
infiel coração.

Ou não.

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Caramulo, manhã de 2 de Julho de 2007

DE FLORES, LIVROS E PORCINA RIMA

Maravilham-me já as flores e os livros
que não vi ainda.
Cultivo um muito razoável campo de antecipações.
Didascália e leucócito são flores dicróicas
Escurecidas pela minha invencível ignorância.
Alteridentidade e intrusão são livros
como tais flores.
O Soares que conta, é
o Bernardo, não o Mário.
Quando a minha mulher me obriga a
hipermercar alguma manhã de sábado,
armo-me sempre (até jamais) em
ledor de Lipovetsky e requeijandos.
Derivo-me com facílima facilidade para
observar os filhos-da-puta com o mesmo
reconhecimento com que por eles sou
observado.
Está bem assim.
O nosso País tem muito filho-da-puta e
muito cultivador de antecipações.
Pior, só a caspa nos colhões.

Conquilham-me já os crustáceos e os bivalves
que não comi ainda.
Altivo, um presunto razoável perneia coxa roxa.
Mas lá que gosto de ver filhos-da-puta,
gosto.
Até gramática e cesura sem censura
lhes ensino.
E se o gajo é porco,
rima suíno.

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Caramulo, noite de 3 de Julho de 2007

QUE PENSA POUCO A PALAVRA

Que pensa pouco a palavra
todo o mudo pensa e sabe
cabe à mesma palavra
saber se cabe ou não cabe.

Frase não muda o chover
chover não muda o falar
recolhe cedo, ’dormecer
cedo tent’ t’ acordar.

Havia velas bugias
vocapassados ’minentes
havia tardes tão frias
vossas nossas diferentes.

Palavra pouco que passa
não ri nem chora a desgraça.

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Caramulo, tarde de 27 de Junho de 2007

CANÇÃO ESTRADEIRA

Oh não fala não fala
Oh não diz não diz
Cala cara cala
Olhos e nariz

Que a boca fala
Diz nada da mala
Que a traz infeliz

Mora mora mora
Mora longe daqui
Quem não habita mora
Acolá e ali

Aqui não mora
Gente que não chora
Quem ri ri
Acolá e ali

Troca de putas
Ao teu mesmo espelho
Orelhas escutas
Dobras o joelho

Não digas não digas
Pés encordoados
Violas barrigas
Dedos sepultados

Quem foi quem foi
Arcanjo do mar
Cornos vaca boi
Comer afogar

E dos natais
Surpresos p’la cinta
São menos não mais
Que ninguém nos minta

Não minta a broa
Nem o ouropel
Não viva em Lisboa
Nem viva em Pinhel

Não viva não viva
Quem não quer viver
Não cante não fale
Quem não sabe ler

De tudo o que ouves
Aproveita nada
Corta esquerda direita
Vai por outra estrada

Oh não fala não fala.

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Caramulo, tarde de 2 de Junho de 2007

NÃO E TAMBÉM NÃO

Não planeei qualquer vida anterior, não planeio qualquer vida seguinte. Respiro. A minha condição não é isenta de egoísmos. De alguns altruísmos, também não.

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Caramulo, tarde de 19 de Junho de 2007

ESCORÇO DE UMA PEÇA DE TEATRO RADIOFÓNICO SEM VOZ NEM ANTENA NEM AUDITÓRIO NEM NADA QUE SE LHE DIGA

Fala-me numa verdade que seja negra e branca
como uma árvore sonhada.
Não queiras a tristeza cega do meu sexo.
Podes e deves rejeitar a cegueira triste do meu amor.
Fala-me para que eu possa voltar a falar.
Ontem à noite choveu na vida.
A vida era um pátio escancarado,
apto a todas as violações.
Eu não falei ontem à noite.
Uma mulher passou a tarde junto ao rio.
Ela atirava frutos e pedras às águas.
Depois entrou no rio.
Quando as águas lhe tomaram o peito,
a mulher começou a gritar o nome da filha,
a que não volta.
A fruta pode enlouquecer.
Fala-me loucamente.

Agora vê comigo este azul.
Frio azul azulejo de céu.
Tenho o coração diagonal, como se
lhe dessem as águas o peito.
Fala pássaros.
Diz peixes.
Atira-me pedras.
Tira-me frutos.
Cães pianolam as teclas das calçadas.
Temos de ouvi-los falar.

Camionetas vermelhas sangram viagens.
São como a vida sem sentido.
Crianças pulsam furta-imagens.
São elas o melhor de ter vivido.

Não vou a bailes há tempo tanto
quanto a idade da tua boca fechada.
Tropeço em rosas, vê lá tu.
Coço as mãos com a língua.

No outro dia fui ver a família do minimercado.
Andavam todos a desmantelar prateleiras.
Pintaram de fresco as paredes.
Reorganizaram as palavras maravilhosas:
frutas, conservas, azeite, queijo, licor,
sabão e sapatos.
Regressei maravilhado de tanta gramática.
Maravilho-me de tão pouco
quão de viver.

Dizes-te:

Por que te conto estas coisas?

Digo-me:

São apenas rios de tinta.

Toma na boca.

Leva no coração.

Acumula mercearias e espíritos.

Vê como as mulheres enlouquecem os rios.
Vê como nós somos para elas rios.
Temos pedras à beira da boca, dentro da boca.
Tornamo-nos chuva em pátios de que
desertamos a vida.

Eu já fui feliz em outros julhos.
Nem sempre fui este pátio.
A primeira vez que vi o mar, ainda não
tinha nascido:
essas coisas ficam.
Depois começa a chover.
Sonham-se a elas mesmas as árvores.
Essas ficam atrás de nós.

Mas tu ainda bailas

– tu dizes.

Vês-me passar na rua

– eu digo.

Sim.
Nós ainda bailamos.

O carteiro ronda-nos até
em dias sem cartas:
toda a vida.

Ele também vai ao minimercado
mas não vê as palavras.
Vê só os produtos.
Vê os produtos sós.
Ele não lê as cartas.

Ele não quer que a mulher
vá ao rio.

O que é que isto vai dar?
A mulher do leite não tem leite,
perdeu a filha.

Quando a noite toca a praia
com barcos de prata,
sabes,
a barriga toca o gelo.

Os pássaros do entardecer
levam-nos o coração nas patas.
Eles gritam no anil.

A minha filha não volta

– dizes.

A tua filha nunca veio

– digo.

Não compreendo
por que razão
se preencheu
o vazio do Mundo
com Deus
nem
por que motivo
se preencheu
o vazio de Deus
com o Mundo.

O Mundo tem carteiros e Deus também.

Tu dizes:

Conta-me mais daquela mulher.

Eu digo:

É bonita, veste preto, está a dar
o peito às águas
.

Tu dizes:

Isso é uma loucura.

Eu digo:

É louca, é bonita, veste preto, está a dar
o peito ao rio.


A tua boca não é fechada.

Eu digo:

A tua boca não é fechada. Mas olha que o sol não nos toca. Nós não somos pássaros. Nós não somos árvores. Nós somos viajantes breves. Escrevemos cartas à família do minimercado, o carteiro não as leva, têm de ser os produtos a
ser de si mesmos as palavras
.

Ri-te um pouco
enquanto a ternura
te arranca o papel das costas
como a pele-de-parede.

Sinos ao longe (como o fim do dia).
Sinos verdadeiros (não de gravação).

Rumor de patedo católico sobre brita.
Pedrículas-de-palavras-de-cascalho.
Amêndoas, bênçãos, alegrias, borracha.
O típico domingo.
Carteiro sozinho no casamento da
outra filha.