Tuesday, February 27, 2007

Há Barcos que só de Noite - 33 Tercetos

"Toda a alma triste dá luar."
Teixeira de Pascoaes, Livro de Memórias, pág. 37
Há barcos que só de noite caminham,
como Cristo,
sobre as águas.

Surpreende-os a Lua,
sob as pontes,
Lua e barcos.

São toneladas
de
solidão.

Não são
despedidos
nem esperados.

Ouço
seus urros
cetáceo-elefantinos.

Troncos deitados
no mar, ao mar
deitados.

Tronbarcos iluminados
mas
sem pássaros.

Morrem de
sede
sobre o sal.

Quilham,
cortantes,
cardumes.

Todos
merecem
a Lua.

Faúlhas de ferreiro
estralejam nos convés:
as estrelas.

Homens,
dentro, fora
mulheres.

Escrevem e deixam,
da popa, infinito
verso branco.

Sucessivos,
nunca
irmanados.

Comboio
reticente
formam.

Fervem
neve,
da popa.

Morreram

seus armadores.

Quando descem
aos fundos,
sorriem.

Afogam
Cristo,
descendo.


Seu corpo
chama-se
calado.

Ferro
e madeira,
juntos.

Não me
parecem
mortais.

Confiscados
pela
prata.

Separam
sardinhas
de albatrozes.

Almas
puderam
tornar-se.

Não
choram, não
cantam.

Urram,
arpoados
pela Lua.

Para trás,
dissolvem
as pontes.

Levam
cartas
inescritas.

Nunca
trazem
correio.

Só os ratos
lhes são
fiéis.

Olhá-los
pode
matar.

Molham-me
os
olhos.

Caramulo, tarde de 20 de Fevereiro de 2007

Tuesday, February 20, 2007

Seis Poemas para Atestar

1. É Domingo, não Rumoreja o Mar

(Algumas palavras podem ser úteis nesta ocasião.
Não negociemos sentimentos, só lápis.)


1
Às costas do corpo acorre a acidentada onda,
felaciosa beijadora espumando-se toda e
quebrada, ainda não morta de espraiada.
É domingo, não rumoreja o mar, só
as palavras dele sim: toldo, relógio, areia,
cervejarias sucessivas como balcões d’Hopper.
Alguns de nós em respiração.

Temos nomes perfurados como cartões antigos
de vetustos computadores hoje ridicularizados
pela mais modesta facturadora portátil
de vendedor de bebidas. Concedemos a Deus
o dom de nos clonar, nomes e corpos
a que não o mar mas as palavras dele
(e Dele) acostam para quebrar-se-nos, acorridas.

2
Visito mulheres velhas para receber.
Recebo, abandono o recinto, digiro e conto.
Elas são povoação ainda, povoamento que foram.
Habitadas por homens convenientes e defuntos,
não espermáticos já, não homens, favónios só.
Recebo a visita de homens velhos. Queixam-se-me
das mulheres amnésicas, não amnióticas já.

São mulheres com nomes de árvore.
São homens com nomes de pássaro.
Vão-se os pássaros, ficam as mulheres.
Perfuradas também porém, perfumadas embora.
Se estudaram, frequentam bares nocturnos.
Se não estudaram, lareiras à noite vigiam.
Iguais todas: facturadoras, rumorosas.

3
Não é possível conter as ondas do mar, nem
as fotografias sexuais da internet.
Falos-tortulhos incham em húmidos pubihúmus,
as tipas nuas como frangos, eles de capilosos
peitos. Pensamos indisfarçável o amor, entanto
é destas esgrimas que ele tine,
destas costas escumadas em jpeg.

Não por isto seremos menos clássicos.
Acuda-nos tão-só a mesura certa,
corajosa castidade da máscara
(O make me a mask, O Dylan Thomas)
mais o rosto ciente de seu mesmo lastro,
suas olheiras-de-mirandela, suas rodelas
de bebedor no bosque de leite.

4
Só deveríamos morrer de todo quando a liberdade
nos tocasse, final. Seremos livres quando, terminal,
o amor do vivido nos perdoar tanto domingo
malbaratado. Digo isto e não estou pronto para
morrer mais do que isto. Quebro prosas
em ondas cervicais, glorifémeras, lourifêmeas.
Não estou quase pronto para morrer disto.

Coralinamo-nos, horários, de uma eternidade avoenga.
Juro que o faço – e que vos topo fazendo-o.
Tenho-nos visto à lareira e aos balcões hopperáticos,
cantando como carrascos e como cisnes,
partidos os pescoços pela guilhotina dos shots,
depois não cantamos, só, sós, contamos
histórias que nem em blogs são individuais.

5
Homens há (ainda há) com mulheres
que deles fazem homens de si mesmos,
o que sempre é bom porque até nos países
em via de desenvolvimento, como o Nosso,
a demografia anda abrasada pela disfunção eréctil.
Certo, os bancos apresentam relatór&contas de
enormes lucros, mas não é por aí.

Por aí, é pelo nosso corpo – onde se fundam e fundem
as dicções morredouras – que vamos, sebastiões
de uma gama não de topo. Se acaso vimos
(ou tivemos) alguma avó cozendo broa, hoje
não é/há nada disso: há/é panikes e pânicos,
o medo de viver sem ter sido livre – de
morrer.

6
Aos domingos, não acodem os vendedores
que representam bebidas facturadoras e pânicos
e batatas fritas de pacote. Acodem sim os
rumores de um mar verbal zebrado
de emoções contidas a custo de muita educação.
Toca-nos o plenilúnio e a preia-mar.
Coçamos barcos e genitálias. Respiramos, alguns.

E somos. Nem tristes nem apóstolos. Alguns pêlos
que recusam nascer, tão-só, vulcando acnes
que já não são desta idade de caçar enfermeiras
em bares com lareira de flúor.
Mas alguns de nós andam entre a vila e a Village,
assomando-se modernidades velhinhas como o cagar.
Espaço e tempo para toda a gente-gente, ainda assim.

7
Aos cagadónaldes acorre o desquitado com sua cria
de empréstimo/15 dias, vist&ouvido o filme
disneydobrado. Deus com eles. Domingo anoitecendo,
onde a antiga ternura apesar de tudo presidente
(ou subjacente) à foda geradora, da cria, na
mesma cidade, de cinedónaldes e cagabúrgueres?
Ai o amor em Portugal.

Antes o mar. Nossa atlântica escapadela
de fazedores de mulatos, no sentido lato,
de pretos, no sentido recto, e de brancos,
no sentido tancos.
Nevoeigamas de sebáceostiões
de sonho. Antes a lonjura do mar,
longe ao perto e longe-longe.

8
Que isto apesar de tudo não é Bucareste.
Nem nada que preste, mas há menos jeepsis.
Limpando o olhar por um isqueiro como
pára-brisas, pára-zéfiros, pára-História.
Supervive o corpo enciclopédico na marugem babada
de limos dominicais, atenta a vila a tudo o que
seja esquecer, sendo escrever a excepção.

Que as piores putas são as que não recebem.
As outras – as boas – dão, vizinhas de gares
e de esgares – ferrogarerodoviárias,
muitas sim mas nunca várias.
Que as piores putas são as que percebem.
Calculadoralistas, (o)várias e concertistas
de sapatilhosposos e crias pianistas.

9
É domingo, não rumorejei o mar.
A memomarmórea, sim.
Falei de vós, que não de mim.

2. Quadras de Borla para o Clã Azevedo

Haj’ arroz em casa, haja sentimentos.
Que não falte nada a quem ou que somos.
São asas de frango e alho e pimentos.
E laranja pelada cortada em gomos.

Nada dunicéfes, só tv por cabo.
Ao fim e ao rabo, morre toda a gente.
O que tu começas, eu depois acabo.
Não temos de ser casal diferente.

Heroalcoóis dormem sem abrigo?
No cartão ao lado se estende um amigo.
As OPAs compensam o porta-moedas:
’tá tudo contente, o resto são merdas.

3. Oração do Pescador de Enguias em Valas

Lualguidar dos pobres remediados,
concede sartela d’enguias viscosas.
Nós temos na vida andado fardados
’té nas procissões as mais horrorosas.

Nós queremos peixe, mas, longe do mar,
nada fácil é pescar sem esperança.
Cagança nós temos, q’ o mais é pescar,
Depois ’diantar ’ma farta pescança.

Filhinhos pequenos. Velh’ a viver em casa.
Mulher zempregada, voando sem asa.
Só nos soçobra a pesca (doce, fluvial)
no rego que é cano industrial.
Tu, Deus dos artistas, que a todos bem guias,
Permite, senhor, meu balde d’enguias.

4. Querença

Quando acabar de matar as mulheres e
as crias das mulheres, talvez regresse
à pátria de homem sozinho.
Serei leão com cartão de biblioteca,
não cachorro apenas de cinemas itinerantes.
Eu quero que isto seja como dantes.

Quero por cima a Lua e, por baixo,
ovos estrelados lácteos e frios.
Quero não desconfiar-me de arrepios,
Griponstipação faz do corpo lixo.

Derivei na capital um mapa de bifanas.
No Porto assisti a merdrogas medrosas.
Eu já não vou em fins-de-semana.
Milhares de pessoas de facto horrorosas.

Eu quero Cacilhas. Barquito tossindo
gasóleo de margem laranja em flor.
Eu quero outra vez aqui o meu amor,
que a gaja é azul, é gaja e linda.

5. Tenho Tempo para meu Mármore

Nutriu saudade de quem não nutria
saudades algumas, pois que não vivia.
Verificou, feito inspector,
aspectos que eram apenas amor.

Bem falta lhe fez, quem nada fazia.
Todos eles na morte, ele no dia-a-dia.
Não mais é possível negociar.
Agora já está, foi-se-lhes juntar.

6. Alexandrina de B.

Lírios brancos levou consigo a dita paraplégica.
Morreram flores e virgem juntas, está bem.
Não consta fundo d’alma própria mãe,
pai não conta: lírio negro.

Padres vieram, muitos: nutridos corvos
oleando as próprias penas amortalhadas.
Não é possível dizer a portutorvos
que tais doutrinas estão mal, são erradas.

É tudo só temor de virgens paridas,
o delicioso susto dos homens violadores.
Salta, filha, pela janela, mas tem cuidado,
não me partas os vasos.

Mas, enfim, não adianto solução.
O lírio, percebo.
A gaja, não.



Tudo Caramulo, tudo noite de 18 de Fevereiro de 2007

Sunday, February 18, 2007

Fadança

para o Fran Pérez



Serena passa a própria água mesma
do rio a foz montante conta vidas
sombras frias cortam pedras a jusante
a montante frases estreitas e compridas.

Não conta a própria voz a vez falada
de nada serve ter razão ou não
a pele do peito pode ser cortada
tracejada dos mamilos de união.

Em baixo o aparelho conta mijos
cebolas organizam odorímetros
tenho sentido perto gajos rijos
violando moedas e parquímetros.

O corpo cresce, sim, mas só p'ra isto
que isto é só fedúncia a mais fiscal
concorre o ermo triste a ser benquisto
e nisto acontece Portugal.

Fora do fisco 'ind' assim é possível
acorrer ao fluxo ribeirinho
um gajo é luz sozinho e fusível
f(i)o-de-terrra zunegemendo baixinho.

Do rio já guardei eu coisas mansas
as cheias são do tempo não contado
eu trago viola e tu danças as danças
que o fado também pode ser dançado.



Caramulo, noite de 17 de Fevereiro de 2007

Pers(Onan)gens




Escrevi algures que a literatura e a masturbação são artes siamesas porque ambas se dedicam à emissão de pequenos, estéreis seres – personagens para nada, para ninguém. É possível que tenha tido razão. E, daí, talvez não. De facto, recordo com mais recorte e mais nitidez certas personagens do que (in)certas pessoas. Leopold Bloom, Mrs Dalloway, Biscuter, Bouvard & Pécuchet, Florentino Ariza, a S. Joaneira, Madame Francinet, Raskolnikov, Clawdia, Hans Castorp, a Mulher Canhota do Handke, Palomar, a Joaninha dos Olhos Verdes, Dinamene, Acácio, Madame Maigret, Calisto Elói, Henri Castang, o Horácio d’A Lã e a Neve, Nick Adams, Benjy, Sancho, Santiago Nasar, o Gineto, Manuel da Bouça, Heidi, Evaristo Carriego, Jim, Matt Marriott, Bernardo Soares, Austin & Mr DeLuxe, Pat Garret & Billy the Kid, Maria Eduarda, Cristo, Jacinto, Monsieur Bebé, Rodrigo, John Barleycorn, Tom Joad, Dorian Gray, Rose, Brian Ash, o Touro Azul, João Evangelista, Cyrano, Lord Edgware, Dr Watson, Jules, Juliana, Garth, Powder, José Francisco, Fernando Oliveira & Armando Oliveira, Augusto Graça, José Maria Luís, o Príncipe Valente, Cisco Kid, Afonso, Eurico, Lear, Ájax, Bill, Godot, Sir James Bellamy, Doc, Alberto & José, Teresa, Guedelhas & Maquinista, a Viscondessa de Tardinhade, o Gebo, Chico & Rosa, Nathan, Stingo, Craft & Croft (o do Eça e o do Mailer), Sophie, Lenny, Margarita, Thomas, Moll Flanders, Blue & Black (& Decker?), Jau, Kip Kirby, Magnus Pym, Karla, Electra, Deus, Clea, Janvier, Mycroft Holmes, Stephen Daedalus & Molly – nenhuma desta “gente” é estéril. Talvez, de facto, eu ande errado repetindo que “literatura e a masturbação são (…)” etc.. Talvez quem concorde comigo esteja certo – e que quem de mim discorde o esteja também. Não sei nem vou apurar. Sei que uma pessoa pode preencher-se disto. Contra o vento e contra a moral, contra o barómetro e contra o cronómetro. Como digo e disse – não sei. Sei que tenho andado – dias a fio em novelo de noites – urdindo um senhor chamado Camilo Ardenas. Quando vos apresentar, dele, a(s) história(s), não mais meu gajo será, mas vosso. Literário, onanista, contado – já vive. Para que vive, não sei. Não sabe ninguém.


Caramulo, tarde de 17 de Fevereiro de 2007

Saturday, February 17, 2007

(Im)Pares - 1 - Teixeira de Pascoaes e George Harrison


















Teixeira de Pascoaes
(1877-1952)
George Harrison
(1943-2001)
A Caminho com George e com Joaquim

1
Hoje, durante quase todo o dia, meti-me vidas escritas adentro de dois artistas separados pelo Tempo (mas não totalmente) e reunidos agora pela Totalidade (o terem morrido): George Harrison (1943-2001) e Teixeira de Pascoaes (1877-1952). Houve por ali (algures) mais ou menos nove anos em que o músico inglês e o poeta português partilharam o ar, a água, a terra e o fogo.

2
Ambos foram férteis criadores, tendo ambos aumentado a humanidade da Humanidade. Se hoje, e aqui, os refiro, não o faço para colher, à sombra deles, qualquer réstia da luz intensa que emanaram. Não. Faço-o em preito de admiração, que não tem de ser devota para ser devotada.

3
Entretanto, a noite chegou com suas armas todas. Frio e aguaceiros afiam a pedra e o ar: viver é desembaraçarmo-nos de facas. Está bem. O Inverno é a mais perfeita catedral para celebração do casamento da crono e da meteoro logias. Gosto disso – e tenho sorte. A sorte advém-me de gostar de todo o tempo.

4
Desde menino que nenhuma temporada nem temporal algum me causam repulsão. É uma excelente coisa – uso plena consciência de tal. Tenho vivido a plena comunhão dessas três artes tão siamesas: a poesia, o tempo que faz e o outro tempo – o que tudo desfaz e refaz sem cessar. A poesia, a meteorologia e o relógio.

5
António, irmão de Joaquim, suicidou-se em Coimbra, com um tiro de pistola, a 28 de Junho de 1903. Noventa e seis anos depois, um perturbado tentou matar à facada George. A nota necrológica e a nota criminal são reais, mas não é senão profunda vitalidade o que ressuma das carreiras do antigo Beatle e do paladino do Saudosismo. Ou assim: vidas que foram vivas enquanto vidas.

6
Há uma aparente renúncia à mundialidade no português, de facto. Mas as palavras que escreveu, pela densa, constante e invencível hombridade que ressalvam, contrariam tal equívoco. Já George, obstinado criador de canções rebeldes à ditadura da chancela Lennon/McCartney, não abdicou nunca de orar ao oriente de si mesmo, para bem de nossos particulares ocidentes.

7
Vejo um dia de sol, mas no televisor. Vejo água e palmeiras: jogos entre a cor azul e a cor verde, a que o branco superior do céu algodoado confere um arbítrio e um regulamento. Rodo a cabeça para a esquerda e colido com a noite: nunca sou imune ao mortífero encanto do circo dela.

8
Teixeira de Pascoaes madrugava nela, repescando dela os espectros que depois colava pelas costas ao pergaminho. As noites de George terão sido de outro aparato, mas não decerto alheias à natureza introspectiva de todo o gajo que traz dentro alguma coisa deveras novas para dizer ao outro, a todos os outros.

9
Oh eu sei! Eu sei quão artificiais são estas simetrias. Mas “artifício” não é palavra que me repugne. É, também, fazer arte, até pela sua imemorial etimologia. E se o não é, deveria sê-lo. De que outra coisa (para que outra coisa), aliás, me sobraria viver? Ou que me resultaria do viver sem estes arte-ofícios? Bem pouca coisa, menos ainda que a regular quotidiana comezinha coisa da vida. Adiante.

10
Há a história da mulher de George Harrison passando a mulher de Eric Clapton, não obstando porém à posterior e perene amizade dos dois músicos. Há as ginofiguras de Teixeira de Pascoaes, ao mesmo tempo (o Tempo, sempre) etéreas e com mamilos. E há as histórias que me forço a ser capaz de. À sombra que me é natural e à luz para que caminho. Como todos, George e Joaquim incluídos, caminhamos todos.

Caramulo, noite de 16 de Fevereiro de 2007

Friday, February 16, 2007

Raposa, Leite e Prata - histª 60 do Anoitecer ao Tom Dela




1
Uma raposa que vem matar a sede num remanso da cascata, entre laranjeiras bravas e ferrugentos limoeiros sem dono. O leite que a Lua derrama pela encosta nascente. O fulgor plúmbeo da casa de novo habitada – não por um casal de velhos ou por uma família incolor, mas por um operário metalúrgico aposentado. Dir-vos-ei breves coisas interiores desse homem.

2
Chama-se, tal homem, Silveira. Os nomes próprios foram de imperador: Francisco José. Francisco José Silveira cumpriu quarenta e dois anos de pena de vida como operário metalúrgico da construção naval. Viveu no Barreiro todos os invernos desses anos. É possível que aí tenha formado família regular de mulher e quatro filhos. Aceitou a indemnização colectiva do encerramento do estaleiro, entrou na pré-reforma, despediu-se da mulher, telefonou aos filhos e partiu sem olhar para trás.

3
Quando operário, o serralheiro Silveira tinha convivido com um camarada de modos reservados que não acreditava nem na Igreja nem na Revolução. Esse companheiro de trabalho chama-se Mário Júlio Lobo. Era um montanhês exilado na cintura industrial do Tejo. Lobo trabalhava a par de Silveira, mas era Mário quem falava com Francisco.

4
Mário disse a Júlio que havia uma casa de pedra na encosta nascente da montanha onde nascera. A casa não era de todo isolada. Ficava a uns duzentos metros do cabeço da aldeia. Mas era uma habitação solitária o suficiente para um homem, no fim da vida, pedir à vida desculpa por ter feito dela o que quer que fosse que dela houvesse feito.

5
Francisco herdou de Mário a casa da encosta nascente. O operário Lobo ficou doente, o sindicato acompanhou-o com dignidade, choveu um pouco na tarde do enterro, mas antes do anoitecer, num clarão de granada citrina, o sol fez do crepúsculo uma espécie de pomar.

6
Francisco José Silveira apanhou o barco para o Terreiro do Paço, foi a pé até Santa Apolónia, desceu do comboio no Vimieiro e foi a pé até Tondela, onde passou a noite no café das bombas de gasolina. Manhã cedo, apanhou a carreira para a serra.

7
A casa recebia a chuva por cima e por dois lados. O piso tinha aluído, restando apenas a trave-mestra. O chão era ondulado como uma maré quieta. Francisco poisou o saco e a mala, foi à aldeia tratar com o carpinteiro e voltou para casa.

8
A noite embebedava de vento as laranjeiras bravas. O som da água subia e descia por partitura. A lareira e a chaminé aceitaram de boa vontade um toro de pinho grande e uma pilha de gravetos que pareciam ter estado à espera de Francisco – ou de Mário – desde sempre.

9
As estrelas da noite de Maio preencheram os vãos do telhado nesse primeiro serão. Consultando sem perguntas a perpétua resposta do lume, Francisco José Silveira receou que a felicidade lhe rebentasse o coração a coronhadas. Comeu o pão da aldeia, bebeu vinho e foi buscar duas laranjas à árvore mais próxima da água. Foi então que viu a raposa.

10
A raposa tinha vindo beber água ao regato, aos pés da breve cascata. Mas o efeito da Lua fazia com que parecesse beber leite e prata. Suspenso de delícia pânica, Francisco José não ousou deixar tremer uma pálpebra. A raposa bebia leite e prata – ou então, a vida tinha aceitado os pedidos de desculpa de Francisco José Silveira e de Mário Júlio Lobo.

Texto: Caramulo, tarde de 5 de Fevereiro de 2007
Foto: idem, manhã de 17 de Janeiro de 2007

A Fervura das Conversações (Segmentos)

Sobrevivificante é o poder da ilusão
que a cuspo cola os segmentos – uns
aos outros – da existência: pois
que todos, e cada um, segmentos, são,
não mais que isso.

Verdade que a memória semelha continuar.
Ainda essa – e assim – não.
Uma só morte, de facto. Muitas vidas.

Na pousada lida, formiguinha, a criadita.
Diligente, rubicunda, gordinha, de crespa
natureza capilosa são suas axilas
rosquilhadas, como duas vaginas suplementares,
braçais que trabalham. Vigia o caldeirão da sopa,
a asma da máquina de lavar louça.
Nunca em si mesma cai.
Ou levanta.
Feliz.

E no degredo esponjoso da vegetal noite,
em seu coração de veredas e meandros,
estrelas e insectos intercambiam dimensões.

Estou atento.

Uma vez de cada vez, sou.

Outros (um por si cada)
semelhantemente adentram rajadas,
ventos, revoadas eléctricas.
Sofrem como pedras: em vagar
e duramente.

A ponto de uma pastelaria ser alegria.

Calçaram de pedra o chão das árvores.
Rodearam-lhes o pé de círculos de terra,
como no gelo os pescadores de azuis
inverosímeis peixes puros.
Revoa o folhedo do Grande Inverno:
despojos outonais que o frio acama
como a películas meninis.
Pisa a calçada a criadita feliz.

Bem aplanada condição é a de nossa
carne manual: serviço de ossos e unhas
na incessante necessidade de satisfação.
O que guia o taxista na noite senão
seu corpo tornado mecanismo?
O que seguia o taxista na noite senão
seu mesmo anacronismo?

Em salas pejadas de retratos
arrefecem velhas mulheres
como institutos fechados
no domingo perpétuo
de cada vez.

Fora de salas assim, sempre um cedro,
como um cão oblongo e crespo e áspero,
vigia o zunido do cabo telefónico,
a fervura das conversações
de cabo a cabo.

Outros caem ao rio no Inverno, vivendo nos telejornais
tão mais quão maior o tempo de
resgate de seus corpos recenseáveis já só
em salas de velhas que arrefecem.

Cuidamos dos jardins, que sempre enferrujam
a ponto de fazer de nós almas inglesas
esperando o sol na relva.

Tripulamos automóveis iguais entre si
como ovelhas, entre si idênticos
como diabéticos esperando o açúcar
do Outono nas alamedas terminais.

Dezasseis anos são mil – e mais
e menos que este cheiro de cozinha,
em cujo halo se move a criadita
atenta à liquefacção do tomate,
ao pranto da cebola, à vinificação da
carne em bocados iguais

aos segmentos de cada vida,
ao lume,
lá fora a memória (a fervura) do cedro.



Caramulo, noite de 15 de Fevereiro de 2007

Thursday, February 15, 2007

Perdão

A história 62 do Anoitecer ao Tom Dela, afinal, é só amanhã que passa. Mesmo horário, mesma onda. Perdão.

D.A.

Raposa só Tem mais Duas Letras do que Rosa (histª 62 do Anoitecer ao Tom Dela)

História hoje, 15 de Fevereiro de 2007, no ar,
entre as 22 e as 23h00.

1
O café arredonda a esquina da avenida com a rua arborizada que leva ao pavilhão, ao museu e ao hotel. A entrada para o restaurante situa-se no lado oposto às bombas de gasolina. Dentro da sala de café, a luz é sólida e branca como um ovo. Há banca de jornais, cujas edições diárias lutam em vão contra a perenidade do tempo. Não é sítio onde, ou por onde, o tempo passe.

2
Às vezes, sinto fome entre derivações. Saio do parque, vou à mercearia, mando cortar umas páginas de fiambre, acrescento um tomate maduro e outro verde, compro uma garrafa de vinho e dirijo-me à secção de padaria do café. Compro três pães, volto ao parque e alimento-me. Às vezes, a vida restaura-se com uma ajuda pequena.

3
Como dois pães e esfarelo o terceiro sobre a cercadura de cimento do espelho-de-água. Os pássaros não demoram muito. Gosto de vê-los devorar as migalhas com aquele ar só deles, aquele ar de polícias desconfiados de tudo o que mexe e não mexe. Antigamente, quando as minhas pernas eram firmes como a fé, eu descia a serra até meio e deixava carne para a raposa.

4
Arranjava toucinho e frangos, descia meia serra e abandonava a comida numa pedra que o vento deitou à sombra. Escondia-me dentro de um maciço de silvas e esperava pela raposa. Ela também não demorava muito. Parecia uma labareda solidificada. Era bonita e adulta como certas crianças. Foi morta pelo camião dos ovos quando atravessava a estrada do aviário – como se as galinhas houvessem logrado vingar-se pelos filhos delas que lhe dei a ela.

5
Os meus próprios filhos, dei-os ao Canadá. Lá estão, casados e laboriosos, esquecendo isto. A minha mulher suportou mal a partida de ambos na mesma manhã de há tantos anos. Depois, a minha mulher adoeceu e deixou de ser minha. Passou a pertencer toda à doença. Avisei-os um mês antes de ela morrer, mas não vieram. Mas também isto já foi há anos de mais. Já nem raposa havia na minha vida. Só pássaros.

6
A minha saúde é boa. A minha idade, também. Moro na mesma casa de pedra em que nasci, a ponto de o lume na lareira ser o mesmo dessa manhã de Inverno em que me minha mãe me expulsou dela com um grito abafado por respeito a meu Pai. Não havia ainda o café em frente às bombas. Nem bombas. Nem carros. O mundo era maior em tamanho e em mistério. Não era melhor. Apenas maior.

7
Quando comprei a motorizada, senti-me bem. Tínhamos dois capacetes brancos com rebordo de napa, metíamos os capacetes e íamos à feira da vila todas as segundas-feiras. Depois, os rapazes também compraram motas. Não quiseram vendê-las quando foram para o Canadá. Para lá estão, a um canto da casa da lenha, as três. Parecem aranhas mortas. Mas às vezes olho para elas e sinto o vento na minha cara e no cabelo dos meus rapazes, que eles nunca usavam capacete.

8
Gosto de cozer uma posta de peixe-vermelho à noite. Ponho a panela pequena ao lume (também, nunca mais precisei da grande para nada), espero que a água se anime de borbotões, chego-lhe uma batata, um nabo, uma cebola, espero, depois deito-lhe a posta e duas folhas de couve. Ainda tenho azeite do meu. Sobrou-me vinho da merenda no parque. Como e bebo devagar olhando o lume do meu nascimento. Levo os restos ao cão. Ele come tudo, couve e tudo. Não é como a raposa. Uma vez, com a carne, deixei uma rosa à raposa. Não a comeu. Limitou-se a perceber.

9
Se tivesse tido outra educação, não teria sido um homem melhor. Sou este homem, aquele que se torna canhoto quando raspa a barba com a lâmina que foi de meu Pai. O espelho tem uma mancha de ferrugem onde o estanho ruiu. Tem a forma de estrela, a mancha. Durante a barba, penso que aqueles olhos já viram muitos pássaros e muitas coisas. Mas uma raposa só.

10
Sou sempre o primeiro cliente do dia no café que arredonda a esquina como a Rosa faz à saia. Faltam vinte minutos para as oito da manhã, já eu estou sentado na cadeira de plástico branco junto à grade das botijas de gás. Às oito menos cinco, chega o Sílvio, se for segunda, quarta ou sexta. Nos outros dias (menos domingo, que está fechado), chega a mulher, a Encarnação. Bebo o meu café e o meu bagacito. Depois, vou para o parque e tenho saudades da raposa e do vento na cara.

Texto e foto: Caramulo, noite de 14 de Fevereiro de 2007

Wednesday, February 14, 2007

O Interior do Frigorífico (Tercetos da Possibilidade)

Podemos ser, desde que fora do real,
o que quisermos. Não podemos ter.
Podemos apenas ser.

Isto é um rio. Isto é um tacho de arroz
de marisco. Isto é uma bicicleta. Isto
é um sinal de trânsito. Isto vamos ser.

Isto é uma sala. Outros animais a
devassaram antes. Podemos tê-los
sido. É mais ou menos igual.

Próstata e vesícula casam-se e
suportam-se anos a fio. Tudo
em nome do coração.

A mulher que passa a ferro vem duas
vezes por semana. Vem, passa, vai
– e só depois passa. Como tudo.

A cozinha é (torna-se) uma nave espacial
às quatro da manhã, quando te levantas
para um copo de água e desces em Marte.

O interior do frigorífico: necrotério
de corrupções mimosas sobre que
planas, águia do consumo.

A quantidade de vivos que ambos vimos
hoje. Tudo com sua próstata, tudo com
sua vesícula. Tudo a ir-se.

Maravilhas do passado: em gesso,
coçando as costas com palha-de-aço.
Disponíveis, informativas, mortas.

Um homem com mais reumático que uma cancela.
89 anos. Tomador de sua cevada,
atirador de sua brejeirice. Zé. Ou Manel?

Sempre me vos dirigi a sério.
Agora estou a ser o homem da montra.
Passa um carro, passa como tudo.

Sabes aqueles filmezinhos porcos
que em pequenos víamos? Porcos,
tigres, gazelas, corvos, tudo – e falavam.

Um homem era a namorada de outro homem.
À noite, ia para casa e ralhava à mulher.
Depois, voltava a namorar.

Em Bucareste, há crianças que parecem ser octogenárias.
Remexem o lixo. Em Londres também. Em
Paris também. Em também em também em também.

Eu agora vou ser o corpo que se amoranga
todo num beijo à raparigananás
que alpercebi sozinha na rodoviária.

Cada uma de nossas cabeças é um retrato.
Desunhamos a vida raspando a cercadura.
Só mortos ficamos bem na moldura.

A tonelagem naval destroça o chão do mar.
Aspron Wesley, 22 anos, Royal Navy.
Liz Harley espera ainda por ele. Sentada.

Os livros outonecem nas madeiras.
O leitor também, entre regressos.
Uma só partida, uma só estação.

Nos olhos com que olhamos, o símio,
o peixe, o cavalo, o porco, a cabra,
a vaca, o periquito. Só o corvo não.

As luzitas inimputáveis: casas na noite,
candeeiros que exclamam, carriscos,
isqueiros contrariando a chuva.

S. José, Coimbra, 1979.
Minocas, Louriçal, 1991.
Em também em também em também.



Caramulo, noite de 13 de Fevereiro de 2007

Monday, February 12, 2007

Sociedade com o da Barba e Outras Coisas

Fotografia: Nazaré, 1958, por Gérard Castello Lopes
(Edições 19 de Abril, Lx.)


Sociedade com o da Barba


1. I Presume

Agora é tudo antes de morrer.
Nem sempre assim foi.
Quase nunca antigamente se morria.
Se até os mortos enciclopédicos viviam.
Parecem um pouco mais mortos hoje,
os defuntos das enciclopédias.
Os exploradores da nascente do Nilo.
As cadelas Lassie e Laika.
O senhor Charlie Chaplin.
Agora é tudo quotidiano.
O que de nós se quotidianiza em sustento.
O que de nós damos em sustento ao quotidiano.
As sopas, o lavar da roupa, o despejar dos bacios,
o que nunca dizemos a ninguém
por acharmos que não é verso.
O que de nós morreu em vida.
E o que a vida em vós se fez voz –
para que no-lo digam – vós
que não falais já,
Lassie, Charlie, Laika.
E Mr Stanley e Dr Livingstone.

2. Miroir

Negoceia-se a preço de reflexo estanho
a própria cara, a ruga indiciadora,
a barba negligente.
Tudo é espelho e tudo é gente.

E s’ o estranho s’ insurge no ’stanho?
Se o outro (a outra) aumenta,
tirando do sério a própria antig’ ancestralidade
verificável na factura, por pagar, dos móveis da sala?

E se aquilo que o mesmo espelho não mesmeriza nem
devolve, por pagar, a esmo do eu-istmo?

Istmo aquilo, istmo aqueloutro:
nous vous en prions d’accepter nos excuses,
pode tocar desde que não abuse.

3. Ode das Batatas Alheias

É sempre uma alegria verificar a tua tristeza.
O que me devias em sexo e me não pagaste em géneros.
O que faltou dizer, aquando da seminal interrupção.
As tuas batatas, por outro compradas,
postas à tua, que não minha, mesa.

4. Sociedade

Tão perto do rio assavam carne. Eram dois irmãos, aberto a loja tinham depois de lançadas as poupanças de seus, quase de repente, falecidos pais. Um arranjou mulher, que cozinheira quis ser. Era esse o da barba. O outro, não: nem barba, nem mulher. Só sociedade.

5. Tanto

Às vezes, o sol dói-me
como um anúncio de emprego
a que falho o limite de idade
por cima,
dois anos.
Ou nem tanto.

6. Rapace Passa

A águia do coração voa baixo
nos centros comerciais, hodiernamente.
Há coisa de 20 anos, ou século e meio,
rapinava doutra maneira
ventrículos vísceras versículos
de caixeirinhas de ourivesaria.
Mas século – ou década – não é dia.
Águia voa, águia passa.

7. Colorau

Um clarão cor-de-laranja sitiou o termo da rua. A minha Mãe tinha mandado ao minimercado a comprar uma especiaria terminal qualquer. Eu demorei-me. Fiz bem, embora o não soubesse: demorando-me, pude apreciar, um pouco mais só de tempo, dois ou três mortos que depois não eram vivos como então. Era colorau, a necessidade.

8. (…)

9. Bleuâtre

A escuridão económica dos pobres de espírito,
essa noite de tostões abatida na pessoa,
não permite à alma de Adérito
ser grande coisa, sem números, em Lisboa.

A tristeza taxativa do albicastrense
que veio ser taxista em Lisboa
dá-lhe noite de tostões, batida a pessoa –
que espírito não estudado não pertence

nem a si mesmo. Só à merdita
de morar lá na DamaiAmadora.
Mais matrimónio de gaja. Comedora.

Se ao Sul não chega quanta Coimbr’ aqui vai,
nem Coimbra merece ser perto do Sul.
Le ciel est une merde, quando é do céu que ela cai.
O céu é verde. A merda é azul.

10. (…)

11. (…)

Caramulo, noite de 2 de Fevereiro de 2007




Outras Coisas

Nós

Nós somos homens e mulheres.
E gatos e pardais.
Somos estátuas de terra.
No aquário da cabeça, barbatana
o peixe da alma.
Gato, pardal, peixe.
E homem e mulher.
E as luzes públicas na privada noite,
longe, além, sinalizando
os caminhos sem rumor
que outras mulheres, outros homens e animais
devassam para comer, dormir,
aquecer, derivar, alhear.
Somos nós – somos nus.
Já a mentira nos não sublinha.
Temos aprendido tantas coisas.
Temos aprendido tantas coisas à nossa custa,
que a nossa custa é a única aprendizagem.
O vento escreve-nos árvores na face.
O mar comove-nos como um baptizado.
Barcos e carros sulcam as noites
apreensivamente.
Gado beija a terra, través a erva.
Aquela rapariga tem algo a dizer –
mas estamos fechados até segunda-feira.
O restaurante paquistanês vive de
clientela divorciada,
baralha-e-torna-a-dar.
Quando for Verão, corações doentes
sofrerão de asfalto.
Cuspiremos pedacinhos de gelo,
de dentes, de frases.
Aviões levar-nos-ão até a respiração,
à vista espumando branco no azul,
altos como moscas.
O salão de chá tornou-se banco.
Nós reencontramos a ausência sempre.
Só de nós nos não ausentamos,
que o eu é uma corda de nós.

Trabalho

Este trabalho é para fazer agora,
estes agor’ anos.
Não há mais saída.
Contribuo disparando a tosse das palavras
enumeradoras, listas-coisas
que a semântica revolve
como uma betoneira.
É tudo a sério.
Se alguém fez aquele jardim,
eu tenho de fazer este.
O caso contrário é a ruptura,
o exílio, a entrega e a humilhação.
E isso pode – mas não tem de ser.

Escassez

Nem sempre
quase nunca aliás
andam anjos
sublinhando
nossas vidas escritas
em ortografia
de repartição pública.
Ele há uma grande
escassez antropológica
(ena, antropológica!)
de anjos.
Cada pessoa
é
um incêndio ontológico
(ena, ontológico!)
mas não podem
eles
os anjos
acudir a todos os
fogos.

Senhoras de Sacavém e Whiskies Idem

Também eu já regressei a casa depois de revistos o porto comercial e as mercearias mosqueadas de nortafricanos que regateavam citrinos entre senhoras de Sacavém e whiskies idem. Já fiz isso.
Já tentei ter – e por instant’ anos tive – o lume da salamandra ajudando a canja e o pernil de porco a dourar-se no serão nutritivo.
Já aleijei a memória alheia. Sim, já fiz isso também.
Já pratiquei o bem.
Só queria, em contraponto, ter percebido. Ter percebido a tempo de nenhum já nem outrora algum. Ter apenas percebido a tempo.

Não é possível.

Caramulo, tarde de 6 de Fevereiro de 2007

Verbiversos

Tenho todo o tempo para enganar-me,
nenhum tempo para que me enganem.
O tempo do primeiro verso é porvir.
O tempo do segundo verso é passado.

As Trutainhas

Nadavam gordas e prósperas,
as putas das trutas,
sob as nódoas furta-cores
do óleo do barcos.
Ainda nadam: quando as sonho.
Caudalam frémitos alimentícios:
limpas porcas da água.
Desprezam suas espinhosas parentes de ninguém:
as tainhas.
Amam à distância salmões de cinema.
Com limão, melão e presunto,
são excelentes bestunto e unto,
as putas das trutas.
Aparecem em restaurantes improváveis,
grelhadas por brasileiros que
não puderam mais ser
futebolistas de carnaval.
São servidas a casais improváveis
e desamáveis, em folga de turno
de filhos.
As trutas são bonitas e putas e intocáveis
como mulheres vistas num comboio.
São quase azuis, as trutas.
E são feitas de água tridimensional,
efeito especial de Deus
em água doce e distraída
de arquitecto de bichos.
Eu falo das trutas para não dizer
recordações caudalosas,
cegos investimentos natatórios
da carne e do leite-de-figo.
Eu falo das trutas,
chamo-lhes putas
– e mais não digo.

O Vento Traente

O vento trazia, adágio, palavras de outros ares, outras (p)aragens. Eram soluços, nalguns casos. Digo: mulheres electrodomésticas ao fogão, queixando-se de quão antónimos são os teores das revistas de cabeleireiro às vidas delas, de cada uma delas, a vida (a truta). Escutando-as a elas e ao vento, tornei-me deveras minucioso, direi até que estenógrafo. Faço sempre isso. O vento zune nas casas afiadas de aflição. Os que vão emigrar, esses estão ainda nas casas absortas de cal, ao vento. Eu escuto o rumor do vento na cal. Eu escuto. Eu poderia escrever para uma dessas revistas um desses ventos, ao vento devolvendo, lento, o violento rumor das vidas, das trutas.
Promete-te que, o que o vento trouxer, tu escutas.

E depois fala-me das trutas.

Firma ou Cena

Quando o actor famoso morre e é celebrado morto pela agência funerária televisiva mais próxima, o pano não desce nem sobe. Está tudo – e tudo está – sempre em cena. Parece que nada é nunca a sério. Representação é procuração comercial, aliás. O vero palco do actor é nas costas do actor: aí dá ele cu e coração por comércio e procuração.

Entretanto, sobe o pano.

Carne-Oficina

Enorme, sobe o bebé
ao piso da assistência social.
Tem olhos e buracos:
é um animal.

Redondo, róseo, catolicizável,
o bebé não é amado mas é amável.
Merece a fruta d’ oiro ser nutrida?
Merece a puta-coiro ser lambida?

Não, não, não, não – e nada disso.
Uma coisa é fiambre. Outra é chouriço.

Caramulo, noite de 7 de Fevereiro de 2007

Sustos, Prazeres e Desejo de Clementina - histª 59 do Anoitecer ao Tom Dela



1
Em casa, por meados da manhã, Albertina Amorim retira os cortinados da sala para que na lixívia tomem cores novas que ajudem toda a gente a levar de vencida o Inverno que se aproxima. Ao lume da cozinha ferve com brandura uma galinha com nome próprio que ainda ontem esquadrinhava pelo quintal com ar de filósofo peripatético. Albertina retira de um sacão os cortinados – e, de um sacão, rompe pela sala o fulgor atómico da manhã que não brilha já para Clementina.

2
Na mesma manhã, um pouco antes (mais precisamente, no momento em que Albertina Amorim degolava a galinha), Carlos Alberto Cavaleiro fazia jus ao nome içando as nádegas gordas ao assento da motorizada. Atrasado uma hora para o emprego, Carlos Alberto deu-se a si mesmo perdido-por-cem-perdido-por-mil e não foi trabalhar. Fez tossir a motorizada rumo à beira-rio, onde abre portas um café de horário non-stop frequentado pela fauna pessoal que remanesce da noite e dos ofícios da noite.

3
À hora a que, em vão, guinchava o despertador de Carlos Alberto, o polícia Ernesto Branco Peres despia a farda na sala de cacifos da esquadra. Ernesto tinha vivido uma noite sem registo e sem ocorrências, a ponto de sentir, sem palavras embora, que a noite parecia não ter ocorrido. Em troca, a manhã começava ocorrendo. De novo civil, Ernesto Branco Peres foi tomar o pequeno-almoço à beira-rio.

4. Às 5 e ¼ da madrugada, quando o arvorado Peres cabeceava de sono em odor de santidade perante o aparelho de rádiocorrrências, a técnica de amor urbano Gracinda dos Anjos Costa, mais conhecida no milieu por A Cachucha, batia os saltos altos no passeio empedrado que separa o asfalto da avenida da porta de vidro das Ferragens Antunes. Passou o carro do lixo, numa revoada de aroma que arrastava consigo os insultos mansos dos dois homens pendurados atrás como macacos escatológicos. Gracinda foi jogando snake no visor do telemóvel até se cansar. Cansou-se e voltou para a pensão sem um único cliente feito toda a noite.

5
Hora e meia, mais ou menos, antes de Gracinda recolher sem glória nem cêntimo ao quarto de pensão iluminado apenas pelo retrato da filha, o patrão do Café Beira-Rio bocejava sem angústia perante um maço de facturas atrasadas. De seu nome Evaristo Licínio Elói, é homem que gosta de berloques de ouro. É um risco acrescido à profissão de risco que leva na vida. Ter uma pulseira de ouro mais grossa que o braço não parece ajuizado em sede de café aberto todo o dia e toda a noite. Mas Evaristo gosta muito de ouro. Sobretudo de, em hora morta como esta, iluminar com ele os débitos aos fornecedores.

6
Evaristo pega no turno à meia-noite, hora a que Isabel e Márcio despegam. A cozinheira e o balconista são irmãos, mas funcionam como casados. Partilham emprego, casa e contas. Nem sonham casar-se por fora, cada um para seu lado. Isabel já esteve junta com um tipo da Rodoviária, mas o fulano ou foi para o Brasil ou morreu nalguma viela sem código postal, dá no mesmo. Márcio só gosta de mulheres nos filmes, quando fazem de sofridas em papéis muito trágicos por causa dos homens que as abandonam depois de gozadas e usadas.

7
Pela janela da cozinha, sendo as nove, 9 e ¼ da noite, Isabel entrega a bandeja inox de bifanas quentes a Márcio, que as despeja na guarita do mostrador do balcão. Há quem jante bifanas e penalties de traçado, como são os casos de Ernesto e de Gracinda. E de André Gomes Porto, médico de urgência sempre que pode para ganhar mais uns cobres, que isto não está bom nem para doutores.

8
Às sete e meia da tarde, rigoroso como um destino ou uma má notícia, chega a casa, para jantar rápido e sair depressa, Horácio Amorim. A mulher tem o comer pronto. Horácio ladra um comentário áspero sobre a sujidade dos cortinados da sala. Albertina ouve e regista, enquanto deita na mesa, como a um menino fumegante, a posta de bacalhau. Horácio volta a ladrar:
– Outra vez bacalhau?

9
Albertina nem olha para as costas de Horácio saindo de casa. Se lavar a louça depressa, a telenovela devolverá a Albertina tudo o que é preciso: os sais minerais da utopia, a largueza respiratória de Ipanema, o dulçor sem gramática do acento carioca, a paixão mediada dos outros. Mas, hoje, Albertina quase nem ouve, embora olhe, a catártica descoberta da traição conjugal desfechada por Ivanildo a Rôsemére. Não ouve porque acaba de decidir matar a galinha. Só porque estás farto de bacalhau, Ivanildo.

10
O mundo é um pátio terriço cheio de minhocas, caracóis e talos de couve. O mundo é uma alegria. É bom dormir a sesta no torpor calorífero do ovo. É bom que o cão se cale. Assusta-me a ténia alta dos aviões a jacto e a tosse da motorizada do Carlos Alberto. Mas só isso me assusta. Só queria que as espigas de milho dos cortinados da sala da minha senhora fossem a sério.

Caramulo, tarde de 2 de Fevereiro de 2007

Sunday, February 11, 2007

Do Alto dos Recifes - histª 57 do Anoitecer ao Tom Dela


In memoriam H.C.

1
Do alto dos recifes, redescubro o mar com o espanto calmo de sempre. À vista do oceano, ninguém tem idade. Eu também não. À noite, na noite da montanha, basta-me fechar os olhos para subir aos recifes e perder a idade.

2
Mesmo que uma pessoa não tenha lido sequer um livro, o facto é que a mente é uma biblioteca maravilhosa. Todas as histórias se congregam debaixo do cabelo, olhos adentro. Toda a vida, toda a morte, todo o céu e toda a terra. Toda a pessoa, lá em cima, nos recifes.

3
Era um automóvel de apenas dois lugares. Tinha escrito nos flancos uma marca de bolachas, rações e massas alimentícias. O carro estava vazio. No alto dos recifes, abandonado, declinava o caso de um mistério talvez triste, talvez final – e decerto humano, como só os mistérios automóveis.

4
Quem – ou quens – deixou aqui este carro e porquê? Vejo o carro e na minha cabeça (lá dentro, na biblioteca) volta a passar a história não filmada de Helena C., a quem a tristeza irreversível atirou, com carro e tudo, dos recifes para o mar. Mas este carro está aqui. Helena C. é que não.

5
Lá em cima (cá em cima), o vento alonga o trapo sempre lateral da sua tenda invisível. As orelhas gelam como folhas de couve visitadas pela geada. A matrícula é de há dois anos. Os recifes e o mar são de sempre, comemorados pelas estrelas seus aniversários sem origem nem final.

6
É um carro branco. Do espelho retrovisor pende um crucifixo sem adoradores. O cinzeiro peja de pontas mordidas. Há uma lata de cerveja amolgada aos pés do lugar-do-morto. Ou do lugar-do-ausente, coisa que pode dar no mesmo.

7
Massas purpúreas tornam lento e sanguinolento o céu de fim de tarde. Os recifes recebem o cromo na cara. Em baixo, o mar desenrola a fita imemorial. Não vejo corpos boiando ao dissabor do sal. De quem foi – ou terá sido – este carro improvável?

8
Helena C., morena de cabelo preto, nariz partido para baixo como um imigrante do Norte em tempo de gaibéus, olhava a partir da profundidade da sua biblioteca pessoal. Matou-se, atirando-se, com carro e tudo, da serra para o mar. Mas este carro não é dela. Só esta história é que é para ela.

9
Tenho de ir descendo. Tenho de ir andando. Uma pessoa nunca pode ficar onde está. É como o aviso eléctrico das cabines de alta tensão: perigo de vida, perigo de morte. Talvez faça uma sopa de peixe, chegando a casa. Talvez telefone à polícia por causa do carro solitário ao alto dos recifes.

10
A notícia veio depois nos jornais. Deputado e secretária misteriosamente desaparecidos. Duplo assassinato ou fuga amorosa – ou duplo suicídio amoroso? Se os jornais não sabem, por que raio deveria a rádio saber? Eu não sei. Bolachas, rações, massas alimentícias – em letras azuis. Imagino. Conto. Convosco. Sem Helena C.


Caramulo, tarde de 31 de Janeiro de 2007

Saturday, February 10, 2007

AlfaBotto



1. O H. de Julho

Um bife frito com feijão verde cozido, num dos definitivos Julhos do nº 36, primeiro e segundo andares, da Rua Maestro David de Sousa, Figueira da Foz. Com H. Década de 70 do outro século.

2. O B. de Verão

Bolas-de-berlim rechonchudas de fritura com sua suculenta tira purulenta. Gelados de espicha-creme de framboesa química.
O Verão dantigamenteralento.

3. O M. de Exemplo

Quanta delicadeza nos sobra,
ao cabo de um dia mais,
gasto-entregue, o dia,
ao sorvedouro de dias chamado
pensamento?
Alguma seja, a delicadeza, ao
mínimo de nossos
mores exemplos.

4. O T. de Serenata

Lu’ álgida trem’ argentina.
Transparece, Sé.
Só se for prata.
Dá-me recados, menina.
Comparece à serenata.

5. O V. de Bondade

Boa é a chilra água do Mondego.
Algarve é pobrinho, peidoso e alarve.

6. Os NN. de António

Ai quanto, António Botto,
terás sofrido, então outrora,
a hora do shemale e do escroto,
perante que a Pátria corou e cora.

Levar e dar – tudo é cristão.
Só, infiel, a Pátria é que não.

7. Os DD. de Felicidade

Dizem, os pobres, que são pobres os poetas
– e pior: que são tristes e não viris.
Mal sabem (quem no-lo diz), os patetas,
que é só um modo de ser feliz.

8. O A. de AlfaBotto

Se um homem quiser,
sempre que um homem quiser
– ser mulher –,
ninguém tem nada (no cu) a ver com isso.

9. O Z. de Gazela

Sofássábados à tarde, ramerrando,
séries de ciências naturais.
Homem é bicho rebuscando
co’ comando o reino dos animais
que, fora dele, mutuamente se leopardam e agazelam.

10. O L. de Oliveira

Ao Senhor da Serra
subiu Carlos de Oliveira.
Jogou no Febres.
Abelha e chuva.
Serra.
Senhor.

11. O U. de Queiroz

Lavada, fresca, limpa, branca, clara,
perfumada janela
– se a olhaste tu, José Maria,
lá do céu.

12. O Ê. de Francês

O senhor Napoleão era pequenino e parvo,
mas nem com tudo isso era francês.
Corso foi, apenas.

13. O R. de Amarelas

Que mãozitas (com que cola?) estreliciam as janelas
da primária (dessa escola) que são belas e amarelas?

14. O G. de Portugal

Bols’ ácida funda (estomacal)
agita gases e despesas
de caves de Portugal.

15. O J. de Canja

Pela luz laranja
dum entardecer boreal
a prometida manja
era uma canja
de galo natural.
Faltou-me-nos o Ernesto
e eu se ainda presto
conto agora à malta
o quanto nos-me faz falta
à canja o Ernesto.

16. O Q. de Arqueiros

Diz-me outra vez, por favor, o favor do futuro
anunciado no mesmo dia do regresso das
barcas a Alcântara.
Os arqueiros-morteiros.
Os iriagranadeiros, as ceras-de-chorar-por-mais,
no Sabugal como na Jamba.
Samba, samba, que já’ lmoças.
Dá um peido e pinta-o de amarelo.
Água de colónias: ordem e progresso.
Por favor: tu ris-te mas a História é triste.

17. Os SS. de Best-Seller

Só os pastores deveriam comentar
o best-seller e os milhares
que o consomem.
Quem melhor que o pastor
para explicar cornos e rebanhos?

18. O C. de Escotilha

Submarinamente dormimos.
Faz de escotilha
a janela do quarto.
Emprestamos os nossos olhos
aos tubarões cegos
que, través de nós, passam
sem nos olhar.

19. O Y. de Cyrano

Também a mim aconteceu já o encargo
de por outro escrever a quem queria
própria.
Mas deixei-me
dysso.

20. Os OOO. de José Afonso

Natureza de albatroz vegetariano,
de humano andorinho:
mar primaveril, lupa de sal.
Em baixo nos via,
só de frente nos olhava.

21. O F. de Teleférias

Em menino, enquanto não era Julho e
H. me não levava para o 36
da Maestro David de Sousa,
gostava muito do Janeiro europeu
que a TV me dava:
saltos na neve e crianças nórdicas,
sky e ski, feéricos teleféricos,
oxigénio frio e boas, quentes roupas
de Inverno.
Julho chegava.
Ao sol da praia,
perante o mar escaldado,
eu repensava a neve januária.

Vim para a poesia por causa disso:
para estar, nunca tendo estado.

22. O X. de Enxuto

Entre o bar e o barbitúrico
o escroto e o escorbuto
o tolo e o telúrico
o chato e o enxuto:
tudo é nosso em estado bruto.

23. O I. de Poesia

Arte brutal.

24. O K. de Mikhail

Bulgakov conclui,
poucos dias antes da morte própria
(der eigene Tod tão cara a Rilke)
Margarita e o Mestre.
Mas conclui.

25. O W. de Somewhere

Trabalhar todos os dias e todas as noites,
a vida toda, para ser,
no final do Concerto de Paris,
Keith Jarrett em
Somewhere Over the Rainbow.

26. Os PP. de Despedida e de Para Quem

Quando, como agora acontece, concluo um trabalho,
pergunto-me (quase sempre, nem sempre): – Para quê?
Não obtendo (nunca, mas nunca) resposta,
evito a pergunto sequente.

Caramulo,
tarde e noite de 1
e tarde de 2 de Fevereiro de 2007

Wednesday, February 07, 2007

Montanha Mágica - segunda emissão

Logo, às zero horas de 5ª feira, 8, e até cerca das duas, vai para o ar a segunda emissão do programa Montanha Mágica.
Em 91.2 FM e/ou www.emissoradasbeiras.com.

Textos de fabrico próprio e também de Rainer Maria Rilke, Fernando Esteves Pinto e Jorge de Sousa Braga.

Muita e muito boa música: Lisa Ekdahl, Carlos do Carmo, Roberta Flack, Joan Manuel Serrat, Patxi Andión, Léo Ferré - entre muitos, muitos outros (até Cavaquinhos do Louriçal!).

Os textos regulares para este blog voltam amanhã.

Até logo, então.
E até sempre.

D. A.

Tuesday, February 06, 2007

Amanhã

Hoje foi dia.
Amanhã vos direi mais.

Sunday, February 04, 2007

(Ser) Mão da Montanha

para a Xelinha, aos 63


1
Não outra coisa quero ser - e vou sendo:
mão (uma das mãos) de que se serve
a Montanha para (esc)rever-se sem
eternidade e sem dor.
Não guardo ciência orográfica.
Nenhuma ciência guardo.
Tenho pés e olhos - tenho
ar e pedra.
Cá bem dentro, no estojo das coisas mentais,
(a)guardo apenas a esperança
de me ser devolvida
a animal-idade.
A grande fortuna é esta
- toda a pedra, todo o ar.
O resto vem e não passa
- não enquanto for um homem
cuja mão não serve a
Montanha,
nuas ambas de deuses de calendário
- a mão e a Montanha.

2
Não nasci aqui.
Por que me sinto tão,
então,
de volta?

3
Não ser lúgubre,
abandonar a morbidez
como a um trapo
pelas ruas que o vento
abriu na pedra.
Levar o vento,
viver um único dia
para uma noite única.

4
Perdi o tempo negocial da cidade.
Nunca voltarei.
Talvez aproveite uma das excursões
dos lares - e vá de carreira
ver o mar,
essa outra, deitada,
Montanha.



Foto: Caramulo, tarde de 3 de Fevereiro de 2007 (com Carlos e Gracita)
Texto: Caramulo, noite de 4 de Fevereiro (por minha conta)

Friday, February 02, 2007

Mr Raymond e o Arroz entre Barcos - histª 58 do Anoitecer ao Tom Dela

1
Um jardineiro português apanha o comboio para Bristol às 6 e 45 de uma madrugada fria e chuvosa. Chama-se Raimundo, mas é tratado, com gentileza aliás, por Mr Raymond. Mr Raymond trata de todos os jardins particulares de Victoria Road. Às 4 da tarde, a noite inglesa alastra já como tinta preta por tudo o que existe. No comboio de regresso, Mr Raymond volta a ser Raimundo, português de Elvas que de Elvas saiu há quarenta e três anos rumo a Buenos Aires.

2
Raimundo era Garcia e padeira na metrópole da Prata. Aprendeu jardinagem, desenvolveu a arte e fez dela seu novo ofício. Os bons serviços prestados no jardim da embaixada britânica em Buenos Aires proporcionaram-lhe um convite particular para Bristol. Aceitou, tendo embarcado para a Inglaterra no dia 1º de Fevereiro de um ano que nunca cuidou fixar.

3
Nunca se habituou ao chá, beberagem que para ele continua associada à indisposição gástrica e à febre gripal. Em compensação, gosta de uma perna de carneiro assada e de sanduíches de pepino. Compensa a nostalgia dos tintos alentejanos com carrascão chileno e brancos californianos. À chuva perpétua de Sua Majestade, a essa já se habituou, benigna que é para a população colorida dos jardins de Victoria Road.

4
Mr Raymond já foi a Brighton, a ver o magma de estanho a que os Ingleses chamam mar. Comeu um gelado enjoativo de mirtilo e passeou sem metafísica ao longo das esplanadas de madeira apodrecida pela morrinha em pó que nada acrescenta à eterna maré baixa daquele Atlântico improvável. Em criança, Raimundo foi levado a ver as praias de Lagos, ao Sul do país a que nunca voltará.

5
Mr Raymond é um sexagenário atraente. O azul dos olhos do jardineiro envelheceu bem, adquirindo a pátina clássica dos painéis de azulejos. Mas é sobretudo nas suas mãos masculinas que a simetria estabeleceu para sempre uma formosura ímpar e par. Mora em Victoria Road a viúva de um carteiro. Chama-se Mrs Stonehead. Nome próprio, Gladys. Tem quase 70 anos, mas não esconde a ninguém o quanto gostaria de morrer assinando Mrs Raymond Garcia.

6
O problema de Mrs Stonehead é que Mr Raymond adquiriu, involuntariamente embora, a parcimónia por assim dizer sacerdotal dos solteirões de longo curso. Raimundo habita um rés-do-chão suburbano a 24 minutos de comboio de Victoria Road. A casa de Raimundo é quarto, saleta, cozinha e casa-de-banho. Não tem jardim.

7
Raimundo digere bem e dorme muito bem. É verdade que lhe acontece sonhar com as praias algarvias, essas safiras engastadas no ouro das rochas verticais de Lagos. Isso costuma acontecer-lhe sobretudo no decurso do breve e insípido Verão inglês. Mas depois tudo isso passa, como tudo. Uma vez por mês, Mr Raymond vai ao futebol e depois ao pub. Da última vez, o Bristol City recebeu e bateu o Stoke por 2 a 1. Foi um jogo tão morno como o par de canecas de cerveja preta que depois engoliu no Golden Lion’s Arms.

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Mr Raymond nunca se esquece de levar consigo, todas as frias e chuvosas madrugadas de segunda a sexta, um pacote de arroz. Pelos jardins particulares de Victoria Road vai libertando os bagos, de conluio estratégico com os pássaros friorentos e miúdos que o identificam ao longe. A ideia de Mr Raymond é associar o direito ao arroz com o dever da caça à lagarta. Os pássaros cumprem a parte deles. Também os pássaros, como Mrs Stonehead, gostam muito das mãos de Mr Raymond.

9
Foi de barco que o ex-padeiro Raimundo Garcia veio de Buenos Aires para Inglaterra. Todos os homens quiseram, pelo menos uma vez na vida, ser marinheiros. Raimundo não é excepção. Ainda hoje compra revistas com o mar fotografado. Mr Raymond já prometeu a si mesmo que, na reforma, há-de ir aos mares do Norte da Europa a ver os barcos grandes. Certa manhã, Mr Raymond caiu na asneira de confessar esse propósito à sempre atenta e solícita Mrs Stonehead.

10
É claro que a viúva do carteiro lhe pediu para ir com ele. Com gentileza, Mr Raymond explicou-lhe que tal não poderia ser, que era um projecto demasiado pessoal para não ser solitário. Mrs Stonehead perguntou então a Mr Raymond se havia alguma coisa na vida dele que não fosse solitária. Mr Raymond respondeu-lhe que sim, que havia na vida dele uma coisa não solitária. Mrs Stonehead quis saber qual.
– O arroz – respondeu Mr Raymond.
Mas a velha senhora, ao contrário dos pássaros de Victoria Road, não percebeu.


Caramulo, tarde do 1º de Fevereiro de 2007

Thursday, February 01, 2007

Prejuízos por Causa da Moral e Outras Discrepâncias

1

Não os pobres rendimentos mas os espíritos pobres
são capazes de me desassossegar o dia.
Que se compre quem à venda esteja por uns cobres,
nada me turva - dá-m' até cert' alegria.

Agora, não me corusquem de mel moral ou fel afim.
Cada um por si. Cá eu, por mim.



2

Gosto (sempre gostei) de fisdeputa.
Que é como quem diz (gostar),
de saber quem são.
Olha, aquele é 'ma tesa rica trampa.
Olha, aquele tem pasta e é cabrão.
(Mas, às vezes, ao espelho,
também me confundo:
sou eu da equipa, estando no mundo?)



3

Já não vou a tempo.
Foi praí uns dezasseis anos.
Dizia-me um imbecil encatedrado
que a poesia é
a expressão de sentimentos,
que a poesia é
o sentimento da vida.
Forte, rotunda, córnea besta.
Eu disse-lhe que não.
Disse-lhe
que a poesia é
conforme cada gajo,
conforme cada gaja.
Se fosse hoje, dir-lhe-ia
que a poesia não é
uma feitoria.
A poesia é,
para mim,
como o pára-brisas dos carros.
Ah pois é.
Se lhe caga em cima o pássaro,
foi expressivo o pássaro,
não o vidro.
O pára-brisas é para ver,
em andamento,
o próprio andamento.
Para ver.
Não para dar a ver.



4
(para a Sofia)

Tenho chegado à noite.
Tenho chegado.
Tenho.



5

Quando,
contra todas as expectativas,
chegarmos ao mar,
será de novo
que chegamos,
de novo
novos.



Caramulo, tarde de 30 de Janeiro de 2007