Wednesday, January 31, 2007

Montanha Mágica

É hoje.
Logo à noite, entre as 00 e as 02h00, começa o programa radiofónico Montanha Mágica.
É coisa para ouvir música entre textos breves: efemérides, filosofices, curiosidades, nocturnidades, um pouco de tudo.
É a seguir ao Anoitecer ao Tom Dela (20-24h00).

Em 91.2 FM e/ou
www.emissoradasbeiras.com

Até logo,
até sempre.

D.A.

Tuesday, January 30, 2007

Uma Gracinha para quem Confunde Poesia com Tristeza

Muito copofónico era o gajo. Tanto, que, na sequência de um acidente de viação, a mulher ficou em coma. Ele continuou em beba.
Caramulo, manhã de 30 de Janeiro de 2007

Monday, January 29, 2007

Vinte e um Poemas em Três Sequências

Desenho: IX, de Fernando Campos



Primeira Sequência - AVENIDAS FRIAS mais SETE POEMAS

(Caramulo, tarde de 26 de Janeiro de 2007)

1. É FALTA

Na boca quarentona (de)moram ainda
a canela e o cuspo da lascívia
tocada ao espelho por antecipação,
lembrança hoje apenas.

Tudo o que foi.
Tudo o que era para ser.
O que vai sendo.
O cacto que esta manhã vi,
agora lula anoitecida, grisa,
não verde já, não.

Os meus amigos quadrangulando mesas
a que não assisto por ausência económica.
O fervor-em-dulçor das vidas deles.
E a minha vida – pontapé na canela.



2. DO NÃO-RETORNO EM CROMÁTICA COERÊNCIA

Não voltarei a teu sopé.
Outra g(i)esta me apela.
Quem já foi, foi, já não é.
Gosto da cor amarela.

Te não sou também já não.
Outro o macho, outr’ o Verão.
Colorau e estragão.
E pimenta. E açafrão.



3. TRATADO ECONÓMICO

Para afinal morrer, viver é o mais mínimo salário.
De tão pouco nos serve, trazer na bolsa valores.
Acções, justas que sejam, só descer podem.
Resto é numerário: débitos, créditos, amores.



4. PANDA

Se ela conduz a toda a brida desabrida
um carrito utilitário ‘té à 24 de Julho
só p’ra estar contigo, não a desprezes, pá,
em forma de carro.
Gastam pouco.
E gostam muito.



5. ACIMABAIXO – RECORDAÇÃO

Finos, loiros, choviam os cabelos
omoplatas a baixo
(não é muito lírica a palavra omoplata,
je sais e I know, mas).
Morangos citrinos mamilavam
a serpentina língua que
aos dois buscava.
Baía d’ ouro escondia
o real nilo, labirinto, sob, das tripas.
Delta e genebra pé-de-galinhavam
a fenda-fundura.
Depois, pernas e pés – o normal.
Ao alto de tudo, a cabeça.
Ou Deus,
que a gaja era bestial.



6. SEXTA-FEIRA

E na minha sexta-feira
quantas sextas-feiras se gastam
sem notícia?
As do que exilam a própria exibição.
As do que se expõem na própria exposição.
As dos que metem cinco eurosóleos
(e ter cinco euros – viva, viva!).
A sexta-feira dos jantantes
que jantam coisas que já foram jantadas antes.
E a promessa do sábado,
do estado laico,
quando a merda da fé
dá cristão ou judaico.
E na minha sexta-feira
(feita da mesma maneira)
nem notícias nem fritadeira,
nem malícias nem eira-ou-beira,
nem estrelícias nem terrinteira,
nem sevícias nem a laranjeira.
Na minha sexta-feira,
a vossa sexta-feira.
Não há outro modo. Nem outra maneira.



7. AVENIDAS FRIAS

(mais outra canção, e sempr’ ainda, canção para a Mariana)

Isso faz sol-pôr
Isso dá geada
Isso é como amor
Qu’ é tudo e nada

Avenidas frias
Vem de lado o vento
Às vezes lamento
As noites e os dias

Às vezes também
Isso dá geada
Retrato de mãe
E um espelho de nada

E uma montra triste
De França relembrando
Que tudo o qu’ é triste
Insiste espelhando

Cachecol aos pés
Negra penduração
Não sei como tu és
Nem quem vou ser
Eu quero não

Isso é magia
No cais das velas belas
Dá tu vento por elas
De noite e de dia

Quando cantar já foi
Não lembro quem cantou
Isto não dói, não dói
Isto já foi, eu sou.



8. MAP’ALMA
(idem)

Quando a alma pulsa finda
Inunda o coração
É uma alma que abunda
Rotunda redundação

Repete a alma filha
De quem gerou e mais nada
Pode ser que a alma ainda
Saiba cantar desgarrada

Se não fora p’los meus filhos
Se não fora o que fiz
Se nunca bosque nem trilhos
Nem filhos nem meretriz

Alma-mater pulsa ao fundo
É tod’ uma geração
Mapa a cores todo o mundo
Uns vieram outros não.



Segunda Sequência - LINGUÍPICA mais QUATRO POEMAS
(Caramulo, noite de 28 de Janeiro de 2007)




1. A RESTAURAÇÃO PORTUGUESA (NA FIGUEIRA DA FOZ SOBRETUDO) ESTÁ PARA O COMÉRCIO COMO O IMPROVISO ESTÁ PARA O JAZZ, MAS SEM PRÉVIO E SÉRIO ESTUDO DAS ESCALAS NEM DA FRASE-MOTE

O casal ‘inda não é velho, mas já não é jovem.
Pediram ao banco, montaram esplanada.
Parte dá pró mar, metade é tapada.
Tem sandes modernas, cerveja gelada.

Ele arranha inglês, ela esteve em França.
Ela é pequenina, ele já tem careca.
Foi na discoteca, na pista de dança,
que se conheceram. Agora é uma seca

querer ser modernaço mas picar o boi,
que o turismo de praia não é o que foi.



2. UMA NOITE, EM LISBOA

Enquanto um verso corre e desenrola
seu mesmoutro eu na linha seguinte,
gente existe que dormir tenta
na pedra doente da cabeça.

Olha, fecharam aquele teatro!
Faltam letras ao reclamo da Companhia da Luz.
O expresso alentejano passa, hidráulico.
Uma baforada de papéis de rebuçado aflora a relva.

O Tejo muge como um boi fotografado
contra a corrente do jugo.
Paredes negras são cinzentas.
Raparigas estragadas sorriem
impropérios (od)ontológicos.

Deixaram aqui cair isto: esta gambiarra
de luzes-vias que não iluminam ou levam
nem trazem. Manchetes eléctricas,
como peidos dados em estrangeiro,
arrefecem de luz os trâmites negros.

Para mais, tudo caríssimo.
Um croquete vale meio leitão.
Uma cerveja parece ter foros de armagnac.
E a indelicadeza dos criados que,
com o nono incompleto,
aspiram a estrelatos de Carnaxide.

A aurífera sanha dos taxistas.
A brutidade anã dos bairristas.
O energumenismo dos porteiros.
Cigarros p’ra cravas e craveiros.
O lambesbianismo da velha secretária
com sete netos e rata vocabulária.

O gajo que foi de Esquerda (inda diz que é)
mas finge ser groselha o que é capilé.
E o sobrinho do embaixador
que recruta crianças
p’ra que o tio enrole
a pila em tranças.

Lisboa é boa p’ra fazer de má.
Uma nalga é Chelas; outra, Massamá.
Se fores a Madrid, lava a cara.
Corta as unhas rentes,
desprendendo ao chão
esterco, verniz e gentes.

Disse e escrevi, Lisboa, em má hora.
Que eu já t’ aí estive.
Estive mas vim-me, embora.



3. (MEN)SONG(E)

I had a song for you
My song was me and you
D’ailleurs on est partout
Song mensonge e eu e tu.



4. SO(U)NO

Torna-se a criança o homem
que dorme (apesar de tudo, dorme)
(apesar da desproporção enorme)
(apesar da noite, dorme):
retorna-se o homem a criança
que dorme.



5. LINGUÍPICA

Por vezes a língua portuguesa freme
como involuntariamente treme
o flanco dos cavalos.
Por vezes, a língua portuguesa apresenta
a beleza involuntária dos cavalos.
Contra o horizonte raso do pensamento,
crepuscula-se, toda língua, a silhueta
da Língua.
Também merda e moscas a assediam.
Ela resiste,
lembrada de códigos de feiras ganadeiras
e de tiques sinaléticos de ricas senhoras
em pastelarias finas
tomando branco português
por chávenas inglesas.
A língua portuguesa está para os portugueses
como o vento para os cortinados.
Ventríloqua de outras línguas
graças ao triângulo
das suas catorze vogais.
Rica língua de pobres comedores de batatas
e porcos doentes,
instrumento de exílio entre
Povo e Parlamento.
O bafo do dizer troca e truca
mais do que o dito.
A maliciosa pálpebra remela o erotismo
ilícito e implícito.
Adérito chega a vias de facto-casamento
com Susana por mor de uma
chicana.
Rita tira Abel a Joana por mor
de outra
gincana.
Ou grogue de cana.
A língua cresce nos muros e nas orelhas
como o musgo da idade.
As velhas aldeãs falam para as panelas,
essas pretas surdas que só ao lume
abrem a boca.
Eu tenho visto cães que entendem perfeitamente.
Eu tenho visto éguas dando-se a cavalos lusitanos.
Deus ainda é brasileiro, mas Cristo
sempre foi português.
Cristo é de Vilanova de Milfontes, dedica-se
a búzios e a marés irrepreensíveis
que trocam cascas e espumas entre si.
Por vezes a língua portuguesa vai à discoteca
e fala com o disco-jóquei.
Jóquei é rapazito de cavalos.
E de cavalos sabe a nossa língua.

FFFRRR.


Terceira Sequência - SÍLABAS CAUDAIS mais OITO POEMAS MATINAIS

(Caramulo, manhã de 29 de Janeiro de 2007)




1. CERTEZA

Um cavalo negro na linha superior do monte
esmalta por contraste o céu frio.
Não possuo a certeza de haver cavalo.
Nem monte. Nem céu. Só o frio.



2. DIA

Se algum dia quisemos
que fosse outro
o dia,
aqui o temos.



3. COMPRAS

Vais à loja e compras

um pacote de chá
uma barra de chocolate amargo
um esfregão de palha-de-aço
uma posta de bacalhau
uma barra de sabão azul
uma caixa de molas da roupa
um ananás
uma lata de feijão-manteiga
um pacote de manteiga
um frasco de café instantâneo
uma garrafa de aguardente
uma lata de leite condensado
uma couve
um saco de rebuçados
um pacote de bolachas
uma linguiça
uma pedra-de-amolar
uma pedra-pomes
uma revista de viagens
um lápis nº 2
uma afiadeira
um caderno quadriculado
um saco de batatas (10 kg.)
uma molhada de grelos
(com referência maliciosa na caixa
à frente de senhoras)
uma lata de graxa preta
um frasco de espargos
uma lata de tomate pelado
uma lata de feijoada pré-cozinhada
uma embalagem de caldo de carne em cubos mágicos (16)
um poster de Jesus Cristo a carvão (edições salesianas, 25 mil exemplares)
uma embalagem de bolos de bacalhau prontos a fritar
uma fritadeira
um pacote de caixas de fósforos (10 unidades sindicais)
uma alface
um livro de literatura rápida
um limão
uma lata de sardinhas em molho de tomate picante
uma esponja de banho
uma embalagem de pensos-rápidos
um livro de mortalhas
uma ganza
um coiso de mercurocromo
um pacote de algodão
um conjunto de pilhas para o transístor (4)
uma lâmpada-lágrima para alumiar por baixo o menino-que-chora
uma cassete do Fernando Farinha
um conjunto de pilhas para o leitor de cassetes (4)
um garrafão de tinto corrente para ver se a coisa corre (5 litros aos cem)
um pacote de esparguete
um saco de trinca de arroz para cozer com fígado para o gato (20 kg.)
uma botija de gás
uma embalagem congelada de hambúrgueres de peru (6)
uma alheira
uma cuvete de caldeirada com dois mexilhões e delícias-do-mar
um rolo de corda sintética
um par de luvas de lã castanhas
oito laranjas
um fígado de porco para cozer com a trinca de arroz para o gato
duas mãos de vaca com sotaque nacional
duas caras de bacalhau
quatro cebolas
quatro cabeças de alho
um frasco de grão-de-bico cozido
e
um pack de água gaseificada (6).

Vais à caixa, trocas com o caixa um comentário malicioso a propósito dos grelos, pagas, sais e entras quatro vezes para arrecadar as compras no porta-bagagens, entras e sais de casa outras tantas vezes para acumular as provisões, sentas-te no sofá da sala, abres uma garrafa com gás, abres a revista de viagens, fechas a revista de viagens, olhas para a janela, calculas a altura da varanda até ao pátio, olhas para o rolo de corda e pensas na vida.



4. VIETNAM

O velho mendigo
atira ao chão um fruto:
napalm da mão,
o agente laranja.



5. BOSQUE FLUVIAL

Lembro, do bosque fluvial, a abóbada cinematográfica do sol lancetando o folhedo alto.
A suspensão mineral do pó.
A nudez simultânea dos rapazes nadadores.
Lembro o tasco de madeira onde gelados e ovos cozidos e batatas fritas e caramelos.
E laranjadas e cerveja preta precoce.
Lembro o avantesmismo existencial dos ciganos.
Ranchos-famílias enpandeirando arroz de tomate e bolos de bacalhau.
Velhinhos solitários pré-inscrevendo-se na eternidade.
As pontes de madeira que rangiam aludes.
As raparigas iniciando o estatuto mamário.
Os basquetebolistas transpirando gáudio.
Os quarentões demandando uma renascença aeróbica.
As maçãs sobrevoadas pelos milhafres.
O papagaio vivo cumprimentava em espanhol, antecipando as máquinas de brindes por moeda.
Lembro o prestígio das marcas de sapatilhas (quando as sapatilhas eram sapatilhas e não ténis).
Lembro a minha bicicleta negra de travão a contrapedal.
Depois, num flash maligno, lembro o outoniverno de 1999.
Depois, não quero lembrar.



6. COELHO

O homem da espingarda existe.
O coelho existe.

Trocam números de telemóveis logo ao primeiro encontro, numa roda de amigos profissionais, um sábado à noite, discoteca, vamos tantos neste carro e tantos naquele, levam as fulanas que não bebem. Ela é solteira, ele é divorciado. Ele usa um pulôver de malha verde sem mangas que lhe assenta bem. Ela entrapa-se de qualquer maneira, está na idade, tudo fica bem quando se é doze anos mais nova.

O homem da espingarda existe.
O coelho existe.

Ela é mais velha do que ele, engenheira filha de engenheiro, conhecimentos em sede de município. Ele é bonito e está quase a acabar Farmácia. Ainda bem que ela não tem filhos: ele faz as vezes e até mais que isso.

O homem da espingarda existe.
O coelho é poeta.



7. NENHUM

Vou a funerais como se foram aulas.
A casamentos como ao cinema.
Susanas, Odetes, Mónicas, Paulas,
Abéis, Tiagos, Zés e Tos – não há problema.



8. ROL DE SEIXOS E DE COMPRAS

Indefinitamente murmura o sol de seixos
arrolado pelo ribeiro. Poda o velho avô
suas vides genealógicas. O senhor do gás
sonha vender televisores. O limoeiro perfuma
sozinho a manhã toda. Chama-se “mente” e
é sempre verdadeira. O homem que recebia
com maçãs e vinho branco na casa
vermelha – já não mora nem recebe. A mulher
da loja das meias é subida por uma medula
dormente. O sol costuma pepitar os seixos
ribeirinhos, translúcida a corrente aquária,
fotografados os peixinhos castanhos que
proferem sílabas caudais. O arquivista municipal
não sabe que há-de fazer dos anos aposentados
por força de lei. Madame faz Leiria e Fátima
por 50 euros, só cavalheiros, casais não,
obrigada. Os retratos tornam-se auras anunciadoras
de cinza. Em dia véspero de mercado, as galinhas
extremungem afecto pelo pátio de mato. A menina no
labirinto de bonecas que só falam quando se escondem.
A árvore assinada a mijo pelo cão territorial. O coração
patronímico. O tachito de arroz consagrando a
domesticidade. Lavanda entre seios. O nácar
ventríloquo da mulher aberta. O tutano exposto
da palavra. O homem da espingarda alvejando
o cavalo negro, o frio, a linha do monte.
As compras todas por arrumar.

Sunday, January 28, 2007

Janeiro é um Lugar Público

Coimbra, 18 de Maio de 1979
© Olle S. Nevenius
(http://www.ss.se/forum/viewtopic.php?p=40022&highlight=#40022)








Bem esteve e andou Fernando Esteves Pinto quando, a 19 de Janeiro de 2007, escreveu


Os blogues são lugares públicos de solidão.

(cf. Fernando Esteves Pinto, http://escritaiberica.weblog.com.pt/).


A solidão pública não é uma invenção da blogosfera, naturalmente que não. A blogosfera é a confirmação electrónica de um facto universal. É outra vez Camões, o seu/e/dele “solitário andar por entre a gente” (cito de cor, talvez mal). O que não está mal nem mau é, é que assim seja. A condição humana ergue-se (e declina; e reergue-se; e infinitamente assim) a partir de aparentes paradoxos do género. Os séculos confirmam isso. Cada um navega, invisível, de retrato na mão – retrato de si mesmo, à procura de si mesmo. Das outras barcarolas, respondem-lhe com enfado
– Não, não o conhecemos.
Certo. Assim isto é: nem triste, nem exuberante – tão-só humano.
Digo-me e repito-me, todos os dias com suas noites, a mais abstracta das palavras: “hoje”. A irmã siamesa dela, a palavra “eu”, ri-se baixinho. E como haveria de não rir-se?
Hoje, eu assisto ao domingo. Está sol e muito frio. Como conseguirá o tempo arranjar maneira de, pela noite, as forças lhe não faltarem para arrefecer ainda mais? Vale que é tudo muito puro e, “o” em vez de “p”, ouro.
Aqui está o meu caderno: quase completamente preenchido de lavores fátuos (cheio de “hojes”), aguarda que o reveja eu, extirpando dele os anticorpos mortos em combate à infecção da melancolia, da memória, do desejo e da ortografia. Textos deste Janeiro (poemas, histórias) vão romper pelo deserto coruscante da internet.
Liguei o aquecedor do escritório. Emoldurada pela janela, a árvore sobe na luz congelada. Disponho de fotografias tiradas, há quase 28 anos, aos transportes urbanos da minha cidade. Foi um sueco, o fotógrafo. Encimo estes textos todos (poemas, histórias) com uma dessas fotografias. O “hoje” da fotografia é “Coimbra, 18 de Maio de 1979”. À medida que o envelhecimento assenta praça no quartel do meu corpo, troco “hojes” numa sucessão cada vez mais insidiosa. Ao tempo desta fotografia, eu tinha, de idade, 15 anos e dez dias. Tudo me preparava para domingo, 28 de Janeiro de 2007. 1º de Novembro de 1981. 17 de Fevereiro de 1981. 5 de Novembro de 1977. 7 de Maio de 1976. 1º de Janeiro de 1974. 23 de Maio de 1986. 24 de Abril de 1994. 17 de Dezembro de 1993. 19 de Janeiro de 2000. 8 de Março de 1988. 15 de Novembro de 1982. 12 de Julho de 1987. 31 de Outubro de 2003. 7 de Setembro de 2000. 1º de Maio de 1974. 4 de Outubro de 1970. 1º de Maio de 1971. 30 de Maio de 1974. 20 de Março de 1978. 11 de Abril de 1983. 4 de Julho de 1994. 14 de Agosto de 1980 - uma galeria de diamantes entregue ao mais obscuro judeu de Amesterdão: o calendário.
Um relatório de ínfimas culpas preciosas, uma colecção de cromos da Agência Portuguesa de Revistas, as verde-claras carrinhas Volkswagen de volante à direita nas áleas de Lourenço Marques, a pulsão envenenadora dos celibatários ingleses, a criação de porcos (subsídios para uma compreensão de) no Sul de França, descobertas de 1968 na Terra dos Maias, Maria Alberta Meneres reconhecendo poetas de 10 anos, a macaca Pépée, as azoadas do vento na estepe do Velho (fala-me de solidão, anda), a não menos que maravilhosa possibilidade de viajar no Tempo a bordo de uma estante (poeta-operário Adelino Veiga, até às 13 horas de 8 de Março de 1887), frango guisado com massa, o Mundial de Futebol Argentina-78 como trampolim markentigário da Coca-Cola em Portugal, o movimento operário entre barricadas, a senhora-de-fátima contra a República (em exibição de Maio a Outubro num pintodacosta perto de si), Gabo vendo Julio a escrever com tinta verde, os barbeiros que de sangradores passaram a guitarristas, a laca do móvel-psyché, a veneração quase sousamartínica pelo Casal Curie (e por tudo o que viesse de, ou cheirasse a, França), Bulgakov morto antes dos 50, as velhas que vieram em rancho tomar a bica à hora improvável desta grafia insensata, os pássaros brancos que azulam o olhar ao visitador do mar, o pequeno-almoço de café e toucinho n’ O Longo Vale (Steinbeck, Livros do Brasil), a tosse que escalavra a pasta mucosa, Helena Lisboa (as mãos dela) no comboio que seguia para o Norte (Peniche, 1986/87), a horrenda algaraviada das mulheres da Nazaré, a explosão do Café Sofia que matou indirectamente a senhora mexicana, a clarividente cegueira de toda a erecção, as portas de madeira pintadas de azul-eléctrico, o sossego do reformado que recorta – palavra a palavra – um jornal todo para depois aspergi-las pelo quintal para instrução das galinhas, o terror de que a memória volte amanhã, a boca sinedoquada no filtro esmagado no cinzeiro, a perfeição de The Misfits (John Huston, 1961), a volta ao mundo que Ferreira de Castro deu para ilustração de galinhas e ficha de bibliómanos (há um exemplar em casa da ex-namorada do Luís Ferreira, na avenida Estados Unidos da América, Lx.), o fim hitchbangkokiano de Manuel Vásquez Montalbán em 2003, um pouco mais de frango guisado com massa e por favor, 14 de Agosto de 1980, cum and scum, a reacção calorífera das mãos-ambas à neve única, o cristal límpido de um verso de António Osório, as sombras rápidas do cinema nos olhos, o delíquio homomexicano de D.H. Lawrence, as meias altas da Pipi e de T.S. Eliot, o veludo verde das mãos-luvas da bebedora de chá, um tiroteio genético no bairro cigano-social, fundamentalmente (funda, mental, mente) a cona, o grão duro de café que o actor do Actor’s Studio (método Stanilawsky, ou Strasberg, ou Steinberg, ou Steinbeck, ou icebergue) dentala depois das refeições, e mais isto: Deus não existia antes nem voltou a existir depois de Bach.
É de novo o toque das trindades. Dos casebres, pela falerecta chaminé, mole orgasmo de fumo substancia o passamento alimentício da sardinha esbraseada. O domingo torna-se duro e transparente e quebrável como vidro ou gelo. 18 de Maio de 1979. 28 de Janeiro de 2007. Diz-me poemas. Lê-me histórias. Só.

Caramulo, manhã de 28 de Janeiro de 2007



Fado Cortesão com Assalto às Bombas de Gasolina na Forma Tentada
(história 53 do Anoitecer ao Tom Dela)

1
Ó senhor guarda, a gente tinha fechado como sempre às dez da noite, não bale a pena ter as bombas abertas depois dessa hora, só se for para sermos assaltados – e a berdade é que o fomos na mesma, na forma tentada, a gente tinha subido a casa para jantar, a minha mulher tinha ligado a rádio, tab’ a dar aquele fado chamado Fado Cortesão, não sei se o senhor guarda conhece.

2
O Fado Cortesão é um fado de Coimbra, por isso só tem duas quadras, a primeira começa assim

A delicada desgraça
dá-se a si mesma passada


não sei se o senhor guarda tá a ber, se calhar não porque nunc’ oubiu, depois daqueles dois versos é assim


Nada faz quem nunca passa
de graça a desgraçada

é-é, o Fado Cortesão é assim.

3
Bem, o fado taba a dar muito bem dado, o senhor guarda desculpe porque eu desafino, mas exactamente por alturas da segunda quadra, começa assim

Sente quem tem de sentir
vir nunca vem pode ir

sentimos qualquer coisa esquisita lá em baixo na porta da loja, que é onde temos os óleos e as escovas prós pára-brisas, quase nem oubi o resto do fado que é o fim, é assim

Desgraça tão delicada
passa que passa e mais nada

o que não habia maneira de passar eram os barulhos esquisitos lá em baixo, pareciam ratos – e eram.

4
A minha mulher poisou a sopa à pressa na mesa, até entornou um bocado c’a pressa, as coisas estão de maneira q’ o comer não é p’ra se estragar, mas naquele caso até percebo, modos que ela meteu a cabeça de fora da janela p’ra ber o que era e o que não era mas tebe logo de a meter p’ra dentro por mor de uma chumbada de zagalote que beio lá de baixo, iam-l’ arrancando um bocado ó nariz, se fosse à língua também não se perdia nada, senhor guarda.

5
Olhe, senhor guarda, visto aquilo, não tenho mais nada, como a sopa ferber por ferber já ‘taba ferbida, fiz como antigamente nos filmes de espadachins e atirei c’ a sopa, panela e tudo janela a baixo c’a pontaria posta onde eu supunha c’ os gajos tabam e tabam. Ouvi-l'es dizer uma palavra palavrona que parece aquela que os gatos querem dizer mas não conseguem acabar, mandaram outro zagalote e arrancaram c’ o carro sem roubar nada, bendita sopa.

6
O rádio continuou a botar música como se não fosse nada com ele e não era, a minha mulher ia-lhe dando uma coisa como se fosse natal, que é quando se dão coisas, e eu disse-l’e assim, ó mulher, tu tem calma q’ o pior ‘tá passado – e taba.

7
O senhor guarda é claro que não pode fazer nada sem imagens, já tibemos p’ra instalar um sistema de bídeo, mas num é fácil por causa dos euros, agora é tudo em euros, desde q’ acabou o escudo ‘tá tudo p’la ordem da Europa, isto é, da morte, salbo seja, senhor guarda.

8
Vamos mazé começar a fechar às oito da noite, perde-se dinheiro mas não se perde a bida, e o dinheiro não é tudo, é só quase tudo, sempre começamos a oubir a rádio mais cedo, t’lebisão não gosto porqu’ aquilo, ´senhor guarda, aquilo é só manias.

9
Não, não temos filhos. Lembrámos-se disso, sim. E ainda nos lembramos quando chove. Ou quando vamos à pastelaria e bemos os filhos dos outros, tão engraçados, sempre a pedir coisas e a serem tão bonitos, a gente até ganhábamos para sustentar um rancho deles, mas não, não temos, somos sozinhos eu e a minha senhora.

10
Como é que se chamaba, pergunta o senhor guarda, o fado? Chamava-se e chama-s’ ainda Fado Cortesão, ‘tá bem, eu canto-l’o todo só duma bez. É assim:

Caramulo, tarde de 17 de Janeiro de 2007



Assistência dos Anjos
(história 54 do Anoitecer ao Tom Dela)



1
À tardinha, quando a própria luz do dia se senta nos bancos do jardim, gostamos de ir ver os anjos. São pessoas como nós – apenas não falam nem envelhecem. Conhecemos alguns há mais de quarenta anos – e o nosso envelhecimento agrava a mocidade deles. Os anjos conhecem toda a gente, mas não reconhecem ninguém. Isto acontece por causa de eles não terem memória. E é por não terem memória que não envelhecem e são anjos.

2
Há histórias de anjos que frequentam a noite dos quartos de cama. Também há registo dos que se sentam à mesa para imitar os gestos de comer. Nós preferimos os que se limitam a devassar as ruas do entardecer. Temos muita pena deles porque nunca hão-de morrer. E assim também nunca hão-de viver.

3
Nós preferimos o banco da praça. Gostamos de entardecer ali. No Verão, até ali anoitecemos. Os pombos sobem aos ombros dos anjos, divertido pela moção dessas estátuas tão tristes e tão jovens. Temos a certeza de que os anjos gostam da irresponsabilidade cívica dos animais. Os animais são anjos de si mesmos – talvez por isso. Dizemos “talvez” porque, ao contrário dos anjos e dos animais, não sabemos tudo.

4
Os anjos trabalham muito. Há os que se sentam no rebordo do poço para que os meninos se não afoguem. Esses têm poder para travar as crianças, mas não os suicidas rurais que acertam contas com a vida. Há os que esperam nos semáforos para que os motores dos carros morram quando as grávidas não acabaram de passar. Há os que cumprem penas de prisão com os condenados passionais. Os anjos têm trabalho para sempre, emprego para a vida toda.

5
Nós gostamos da praia no Inverno. Eles também. Encontramo-nos sempre lá, sobretudo quando os dias parecem azulejos transparentes. A brandura do nosso litoral é propícia a eternidades sentimentais que lhes são de inteira conveniência. E a nós também.

6
No Outono, é quando eles são mais. Talvez porque nós diminuamos. Nós morremos muito no Outono. É uma coisa que não conseguimos evitar. Não conseguimos nem queremos. Há outonos que começam a ser finais no Verão ainda, já. Os animais sobem à nossa ideia como pombos a ombros de anjos. Muitos de nós recebemos os sinais e retransmitimos resposta afirmativa.

7
Nos festivais gastronómicos, quando as hordas se açordam, os anjos interferem na bondade das digestões, trepam às árvores a incliná-las de modo a que sombra não falte aos velhinhos abandonados pelas famílias comedoras e participam dos jogos populares corrigindo a trajectória das malhas para alegria dos lançadores.

8
Nós sabemos que as maternidades estão sempre cheias de anjos. Desconfiamos mesmo de que se intrometem no subconsciente dos padrinhos, determinando os nomes: Gabriel, Serafim, João, Emanuel; Teresa, Sara, Margarida, Isabel.

9
Na praça do nosso assento favorito, houve, há mais de um século, fogachos revolucionários que deram no de sempre: um punhado de mortos pobres, montras alvejadas a calhau, flatos das senhoras, dispepsias dos cavalheiros e perpetuação das duas piolheiras mais constantes do País: a demográfica e a democrática. Os anjos já cá andavam na altura, mas não corrigiam as trajectórias.

10
Nós não andamos muito depressa. Comemos uma sopa às onze da manhã – é numa pastelaria, mas o dono não se importa que o apetite seja pouco e o dinheiro menos ainda. Depois da sopa, vamos ver os anjos. Eu sou Gabriel. Minha mulher, Margarida.

Caramulo, tarde de 19 de Janeiro de 2007



O Banquete Anual
(história 55 do Anoitecer ao Tom Dela)


1
Entramos tarde na sala onde o banquete anual vai já no terceiro prato, somos olhados de baixo pelo proletário desdém dos bandejas mal pagos e bem fodidos, cumprimentamos pressurosamente à esquerda e à direita, alegamos uma indisposição mental do padrasto dos nossos filhos, não queremos incomodar (nós nunca queremos incomodar), tomamos assento para ingestão da sopa arrefecida e passamos logo ao pudim, saltando pela carne assada como cães por vinha vindimada.

2
Isso no seu decote são estrelinhas colantes, pois não são, minha senhora? Ficam-lhe muito bem, as estrelas: ajudarão talvez ao firmamento dos peitos, pois não ajudarão? Gosto de estrelinhas, senhora, até das de massa na canja das ressacas. Gosto, gosto.

3
Um dia que eu não venha com a minha senhora, minha senhora, sairemos talvez a comer um bife antecipado de mariscos e maioneses, depois a dançar nalgum nostalgiabar e a tomar um cremuísque ouvindo Richard Clayderman e Paul Anka e Peter Allen, um dia destes, uma dessas noites. Ou não. A senhora depois me dirá.

4
Pessoas como nós são pessoas como toda a gente. De vez em quando, num banquete assim, é-nos possível perceber quão iguais, que não fraternos nem fraternais embora, somos. É talvez bom que assim seja, mas eu não sei. Como toda a gente, percebo pouco disto de ser gente.

5
A minha senhora é que gosta muito destas comezainas brilhantes. Gosta de insinuar-se aos chefes, mesmo que de apenas secção. Secção com cê e cê cedilha, não com xis, atenção.

6
Sermos convidados para o banquete é sempre bom. Mesmo que só nos convidem à última hora, para substituir alguém mais acima que não pôde vir cá abaixo. Mesmo assim, é bom. Pela hora dos digestivos e dos cubanos, já nem nos lembramos, a minha senhora e eu, da nossa condição de suplentes. Ora ainda bem que nos não lembramos: esquecer é uma ciência.

7
Sim, eu sei, é verdade – já não há empregos para toda a vida. Não sou anjinho. Agora, o que há, é toda a vida à procura de emprego. Também é por isso que vou batendo a bolinha baixo. Muito baixo, muito bolinha, muito baixinha. Também nem o meu feitio dava p’ra mais. Sempre gostei muito, aliás, de cumprimentar pressurosamente. E a minha senhora também.

8
Eu e a minha senhora, é como se tivéssemos nascido um para o outro, depois dos divórcios. Em casa, o chefe de secção é ela. Ela franze o sobrolho e eu visto o pulôver amarelo-pintainho. Não gosto da cor, mas também não vou armar barraca e dormir ao campismo por causa disso. No escritório, até já me disseram que me assenta bem, o pintainho. A cor, quero dizer.

9
Sim, claro, vamos sempre ao Algarve. Antigamente, antes do euro, até éramos quinze dias. Bons tempos. Estava lá toda a gente do escritório, chefes e tudo. Agora, só vamos lá quando há fim-de-semana alargado. E só no Inverno. Mas vamos sempre, lá isso.

10
Um conhecido meu teve de ir, aos 52 anos, para uma quinta de criação de porcos na Holanda. Ou no Sul de França. Mandou umas bocas no emprego por causa das horas extraordinárias – e pronto, rua. Também nunca aceitava um convite para o banquete. Penso muito nele, quando às vezes os chefes fazem má cara. E eles fazem sempre má cara. Só lhes passa a má cara nos banquetes, mas para isso a minha senhora ajuda. Ora ainda bem, não podemos passar a vida com medo ou maldispostos ou na Holanda.

Caramulo, manhã e tarde de 24 de Janeiro de 2007



Arquivo de Morcegos e Mariposas
(história 56 do Anoitecer ao Tom Dela)


1
Nós ouvimos tiros na noite, todas as noites. Só que sabemos perfeitamente que não são tiros. São almas que estoiram contra a cal da igreja, morcegos psíquicos que revoam aos milhares depois de ter abandonado os casulos dos defuntos. Aqui na aldeia, estamos habituados e cientes. Quem vem de fora e pernoita, é que pode estranhar. Quando, de manhã, nos perguntam dos disparos, respondemos sempre que é um homem que enlouqueceu na guerra colonial, que ele ainda guarda granadas patrióticas, que as rebenta nas vinhas contra negros e javalis.

2
As nossas criancinhas já nascem cientes e habituadas aos morcegos, aos tiros. Também é verdade que nascem poucas. Quem nasce muito, são os morcegos. Um só casulo dá mais de mil. No Verão, temos de estudar por fora a igreja. O bombardeamento mental é constante.

3
O senhor padre aumenta os arquivos caligráficos da paróquia. Ele atende os corpos e os espíritos. É o trabalho dele. À tardinha, na taberna, por vezes, ele chega e senta-se. Toma um anis e conta: fulano de tal, tantos morcegos; fulana assim-assim, tantas mariposas. Todas as almas são voadoras, ao contrário dos corpos.

4
Manhã cedo, rasgamos os campos. Influenciamos a água e o estrume para que estudem hortaliças, leite, carne. Sacamos peixe miúdo do ribeiro. Aproveitamos a luz conforme o céu que nos amanhece. Duramos os anos necessários. Depois, vamo-nos vergando como se respondêssemos ao chão. Já os morcegos nos habitam.

5
O que fizemos, o que não fizemos. A temperatura do pensamento. As ínsuas aguardando o nosso desaparecimento. Nós, juntando de dia a lenha que nos perdoa o anoitecermos tanto. A esmola para o santo. O anis do senhor padre e as almas registadas, uma a uma, por cada milheiro de morcegos. Morcegos e mariposas.

6
Já se sabe: nada há mais veloz do que a alegria física, a ginástica das glândulas, o incandescente território da mocidade. A lentidão chega depois. Abóboras povoam os telhados com sua caspa de pevides. Da chaminé, o fumo anila o céu peremptório de mais, espiritual de mais para nosso consumo. As pessoas expostas são para consumo da terra.

7
As casas vão sangrando gente. Chegam alguns holandeses fartos de Amesterdão e da vida americana da Holanda. Querem morar aqui – e moram. Plantam flores e cebolas. Deixam-se estar. Também já se habituaram aos tiros nocturnos. Respeitam mas não acreditam. O senhor padre fala com eles de pintura flamenga. Nós, não.

8
O melhor é pelos Santos. É quando aturdimos a noite com foguetório, assados de peixe, jorros de vinho e cestos de pão e fruta e amêndoas de açúcar. Há tremoços e electricidade. Fazemos filhos por essa altura, mas muito menos do que fazíamos dantes.

9
Nós nunca amámos. Só gostamos ou não gostamos. Conhecemos os trilhos que a terra abre para depois fechar em pedra, água e sombra. Nós estamos vivos como pedras molhadas. É de noite que o ribeiro se desvia. Fervilham então, olímpicos, os morcegos. Os morcegos e as mariposas.

10
É como quem vive junto à linha do comboio: só se acorda quando o comboio não passa à hora certa. Receamos que, uma noite, não haja tiros. Isso será quando mais ninguém tiver morrido. O mesmo que ninguém ter nascido.

Caramulo, tarde de 25 de Janeiro de 2007



Trinta e Nove Outros Poemas de Janeiro

1 Contravisão

As costas dos homens que vêem televisão contra a memória.
E de peito para o olvido horário das emissões com
descontrolo remoto. Re-morto. Sua – deles – ou não
só deles – anestesia. Pior merda poderosa que alguma
vez veio ao mundo: a telecegueira. Perdão: visão. So they say.

2 Peitopombo

Os cornos que ainda não parti a quem os tem
inteiros: antes que a quilha do peitopombo me
fraqueje, convém proceder a tal desidério.
Bem menos fútil, aliás, que sério.

3 Bochecha

Nunca admiti a covardia. Uma vez, levei uma
chapada na bochecha. Proveio a parte manual
da história de um gajo que já lá está. Era
grande de largura e altura. Eu teria respondido.
Respondi com palavras. Ele não sabia ouvir.
Se eu chegar a exumá-lo, não falo. Bato-lhe.
Só que um esqueleto não tem bochechas.

4 Aldeia Irredutível

A vida perdoa-me. Os sonhos, não. Sonho que o
Tom Waits se faz à minha mulher. Fico cabisbaixo.
Fico lapisbaixo. Não fico. Acordo. Depois, recordo,
por pura conveniência bibliómana, o ensinamento
de Júlio César a propósito daquilo que depois foi
França:
Gallia omnis divisa est in partes tres
. Ai sim? Então, não os percas, Gália. Nunca.
Nunca, nunca, nunca mais.

5 O Amor das Pessoas Pode só Acontecer aos Outros

Nunca me tinha dado para isto.
Deu-me para chocolates, na infância,
depois para livros, na distância,
depois para jimantónios, na estância
– mas para isto, nunca.

Há sempre histórias de dinheiro,
(m)her(d)ancas e morgadios.
Casa-com-casa, apartamento-barlavento,
asa-com-asa.
Mas isto não – nunca me tinha dado.

Pode acontecer, no entanto.

6 A Covardia dos Sonhos

Nos sonhos, é que foi.
Aguadilha na boca-memória de manhã.
Um rasto de torpezas.
Queres o quê no dia?
Não.
Dizes o quê no dia?
Vê os teus farrapos: os teus sonhos:
nunca bates em ninguém.
Nem amas?
Caraças, pá, caraças.

7 Soneto das Hermesetas

A pessoa doce contra a tua diabetes.
O teu hábito de morrer não confirmado.
Registo de polícias e cassetetes.
A fuga de sextassábad’ a ouvir o fado.

Três 4 repelões t’ acompanhavam.
Entrou-se, sim, no Terreiro da Erva.
Pelo que foi depois, não no esperavam.
Escadas eram descidas de Minerva.

Já fui, já vi, já deixei marca.
Não é coisa qu’ oje me seja estranha.
Noé, a Pomba, o Ramo, a Arca.
E o cu mais quem no cu apanha.

Se digo saudades, saudades digo e digo bem.
Que eu sou filho de pai, filho de mãe.

8 Mais Devagar

Frequentei antes e depois do verso
a Nau dos Corvos. Mais Nau era,
cervejaria, que Torre. Manuel
fritava, em porcina banha, o
fraco estilete de bifana.
Álvaro presidia, atento aos afogados da noite,
mas nem sempre.
Foi ao meu muito sempre.
Eu tinha uma dor.
Eu tinha uma incompreensão.
Eu não saí disso.
Eu estou nisso.
Eu tenho uma armação excessiva.
Eu tenho de escrever mais devagar.

Devagar.

Vou-te dizer.

Vou dizer-te.

Barra de azu’lamento na casa-modelo.
Imitação do agricultor de trigo.
Carta, linha, cópia, selo.
Não vás embora: sê pessoa amiga.

Trincham carnes pressurosas
brancas cozinheiras francas.
Suas conas? Olor de rosas.
Sofrem de reticênci’ ancas.

Oh não.
Agora, não.
Não vou lembrar-me do meu cristo
junto à electricidade.
Não vou.
Vou mais devagar.

9 Diz-me

Diz-me como foi.
S’ ele era diferente.
Não de mim, mas de ti.
S’ ele era diferente.
S’ ele era gente.
S’ ele não m’ era.
Outon’inver’ão, primavera.
Os anos.
A loucura de Virginia Woolf
maila paciência do marido dela, L.
Diz-me como foi.
Ele (L) era eu, tu eras ela?

10 Círculo de Leitores

Tenho só o terror das pequeninas.
É como se me entrasse (X2)
a gata na memória.
Eu tenho, mas não tenho,
história.

Poemas 1 a 10 – Caramulo, noite de 10 de Janeiro de 2007




11 Ida

Quando eu volto a ir-te
não sou eu
é a memória
de alguém
que foi
a alguém
que não estava
afinal
de modo
que
não foi
nem
fui.

Caramulo, noite de 11 de Janeiro de 2007



12 Sextilha

Já nem comigo exerço telepatia.
Apouca-me até a distância
entre ânsia e desejado.
É uma tarde cor de carta.
Rumorosa, adeja, farta,
líbana cor do cedro-dia.

13 Despesa

Um quartilho de mágoa mineral.
Uma chávena de chuva.
O pão do rosto.

14 Darwin

O povo mais estúpido da Terra é dono da Terra.

15 Noruega

O seco amor é para bacalhoar em armazém.

16 Camone

You shall not fear poverty
for every face’s worth a moon
rather than six pence.

17 Volta

– Descafeinado com adoçante – diz o homem adocicado de maneiras à gentil rapariga do bar. – E rebuçados de laranja cor-de-laranja – acrescenta.
– Tem aqui uma despesa de ontem para pagar – sussurra gentilmente a rapariga.
– Qual despesa? – quase protesta o dócil.
– Volte ao poema 13, se faz favor – fecha a rapariga.

Poemas 12 a 17 – Caramulo, tarde de 14 de Janeiro de 2007



18 O Pianista

Acho-me como o pianista de hotel:
sei ler música, mas toco de cor.
Riscos de tinta preta e papel branco:
todas as noites, perante sofás mais atentos
que fugazes hóspedes executivos e
rameiras de luxo que estudaram
filosofia noutra vida, no outro mundo
além-hotel.
Toco enquanto me pagarem.
Quando deixarem de me pagar,
pagarei para tocar.

19 Águas do Caramulo

Ribeiritos não passíveis de geografia idiomam
as terras descensoras, línguas só de água
falando os códigos mais sensatos do Tempo.
Nem no Estio aquecem. Vertebram gelatinas:
plantas que reflectem plantas ondulatórias.
São vaginas serpentinas, os ribeiritos.
Ásperos púbis e rugosas virilhas
(mato, pedra)
os contextuam. Consulto-os sempre: do Tempo,
da Não-Duração, da Passagem, do Perigo dos Telefonemas
Funerários.
As cidades conseguiram sufocar sua linguagem,
não aqui.
Quando chove, desce o céu harpas
que faremos ressoar com olhos aprendizes
de ribeiritos.
Então, escurece o parque, rumoreja euforias.
Bicharocos burburinham pelos espelhos.
Uma raposa preta no cocuruto de uma árvore.
Uma pássaro que come carne de pássaro.
Ao lado da paragem da camioneta de carreira,
outro ribeirito de gasosa fervilhadora vida.
Limos limam segundos, décadas.
Corcovam-se as madeiras das casas de madeira.
Fungam os fungos. Um verniz de gelo
imita unhas aposentadas, nos lares terminais.
Peripatética ubiquidade das águas correntes,
como nos reclamos das pensões de quartos
ao dia, à semana, ao mês, à década, à noite
– e às meias-horas, mas toca a
despachar.
Vedor mínimo de minhas pianistas águas,
também riberejo por aí e
por enquanto.



20 Toque Tocado

(para o Carlos Guerreiro,
Gaiteiro de Lisboa)


Toca toca toca
Toca o teu burrinho
Tinha minha minhoca
Coca no saquinho
Badala badalhoca
Troca o teu burrinho
Soca soca soca
Soca tamanquinho
No Minho Trás-os-Montes
Bebo em todas as fontes
Na Beira Litoral
Poucos bem e muitos mal
Toca toca toca
Toca Zé Povinho
A galinha choca
Penoso pintainho
Ó anorexia
Da tia e da princesa
Arquiviva bulimia
Beleza é magreza
Sempre-em-pé Zé Povinho
Se cais nunca cascais
Com sintras de azevinho
Se estorilam natais
Carnavais torres vedras
Meu brasil brasileiro
Povo feito de pedras
Só sonha ser pedreiro
Só sonha ser servente
Prègar às argamassas
Nunca sonha ser gente
Nem povo c’um caraças
Toca toca toca
Toca meu burrinho
Pulga estafilococa
Heroa no saquinho
Alentejo Algarve
Galiza de Marrocos
A galinha alarve
Já compra os ovos chocos
No telejornal
Europa pingo doce
Mas quem foi que trouxe
A Europa a Portugal
A tropa ao quintal
A OPA ao telegal
A sopa ao comensal
A roupa ao Stendhal
Vermelho e negro
Negro e vermelho
Negro o joelho
O preto é negro
Damão Diu e Goa
Sacavém Lixa e Lisboa
Toca toca toca
Toca meu burrinho
Sacode a minhoca
Faz xixi baixinho
Ao toque desta caixa
Feita de pele de burrinho
Anuncio pela baixa
Paraísos do altinho
Sai a Carmo
C’o Trindade
Vão os dois a ouvir fado
Vou parar que estou cansado
Toca toca toca
Toca toca está tocado.

Poemas 18 a 20 – Caramulo, tarde de 15 de Janeiro de 2007




21 Os Meninos

Das trevas nasceterás.
Isso convindo – sempre – e para.
Os meninos vão nascendo.
Ninguém os pára.

Ninguém os ama como tu.
Até Tróia é várias – a
mesma – enterradas.
(Depois queixam-se das pornomitografias.)

Os meninos são natatórios.
É o que mais custa, aliás – amá-los
em monção.
Um dia destes, vamos ter de numerá-los
como os franceses dos documentários
fazem aos golfinhos.

22 Xan Pó

Sei lá eu
Sei lá sei não
Cebola sabe a Ceilão
Lanka lança manca laça
De Mombaça a Sião
E sôbolos rios vão
Mesmas larmas larvas são
Pa’ larvas palavras são
Sôbolos rios se vão
Chorava a Dinamene
Nem com caspa nem pantene.

23 Fado Cortesão

(para o Paulo Cortesão,
Fadista de Coimbra)


A delicada desgraça
dá-se a si mesma passada
Nada faz quem nunca passa
de graça a desgraçada

Sente quem tem de sentir
vir nunca vem pode ir
Desgraça tão delicada
passa que passa e mais nada.

24 Canso Net

Zinga linga pinga pinga
Do telhado do’ studante
Um gato faz de coringa
Tinga pinga adiante

Ovo ’strelado não faz
Só banha de porc’ a ’rder
Se tiver pois tem de ser
Só será se for capaz

Só terá tendo de ser
Serenando meu rapaz
Minha filha a crescer
Cabana do Pai Tomás

Minha filha Crusoe
Minha filha Robinson
Dumas que não são mas é
Problemas com o som

Edmondo Coração
Fruto do Fruto Real
É pobre a tradição
Pobre nosso Portugal

Vinha Lorde Monte Cristo
Armado em zero7
Minha tia – vem ver isto
– Vem ver isto Graciete

Tão trist’ é ser lusitano
Hóquei porra contra o Franco
Mais porra ser catalano
Ser maneta e ser manco

Do tudo qu’ aqui se disse
Descontai as minhas filhas
E contai à Rosa Alice
Qu’ elas são ’mas maravilhas.

Poemas 21 a 24 – Caramulo, noite de 16 de Janeiro de 2007



25 Soneto Cortado ao Verso Oito

Da minha aldeia o senhor enlouquecido
olha a minha roupa pensativo
parece ser meio morto meio vivo
da minha aldeia o senhor pensativo.

Já nem tristeza passa o senhor
desse cabo passou além o Bojador
da minha pensativa aldeia o senhor
parece meio ser morto e vivo.

Caramulo, noite de 17 de Janeiro de 2007





26 Lucidez

De tua mínima maneira de falar
falarás, ouvindo-te a própria voz
que calarás, ouvindo-a.

Caramulo, noite de 20 de Janeiro de 2007





27 Se uma Boca, Certa Noite, ou Duas

Pode a tua boca de todos os dias
amar, noutra boca, uma noite?
Pernas magras, magras canelas,
longitudinam o avanço da boca
na noite deitada a outro corpo.
Filhas de quem? Digo: as bocas:
amaram-se deveras, alguma vez,
os pais destas pernas, destas bocas?
E tu? Amacansas? Fodespensas?
Orgasmamas?
Esticas teus tendões eléctricos
no preênsil afluxo de sangue
aos erécteis tecidos – sei. E sei que tu
fá-lo, falo, devidamente.
Quê?
A vida mente avidamente?
Então como?
Bebo então?
Recebo da plana lisura –
fêmeo liso um desnudo coração?
Fissura: pontaria e loucura.
Mansa a segunda, brava a primeira.
Robin Hood.
Represo leite açude.
Investida,
investimento.
Marra-corno-preto-aguento,
unguento. Banha-
-se a cobra feirante.
Quanta mercearia cheira
a partir de
um homem
cravado como Jesus
contra as costas de uma cruz
– de uma mulher?
Liga.
Estabelece.
Ilumina.
Esclarece.
Senhor João da Terra Pouca
cavalga Irene, dita louca.
Fende colinas.
Separa joelhos.
Raposos vermelhos
aleijam meninas.
(Conheceram-se num bar de solteiros. O barman, interessado, ouve relatórios que pós-sussurra aos ofícios judiciários. Relatórios e judiciários rimam entre si, mas em outro prontuário versilibrista. Atenção ao que resta das bocas.)
João.
Irene.
Boca.
Boca.
Agora não me convém.
E depois.
Não sei.
Bem.
E vão duas.
Nos bairros novos, saem dos zero-tês
os pais desquitados.
Bocas desbocadas.
Coitados. Coitadas.



28 Sérgio que Amanhece (II)

Rapariga lavada desce à rua
Mastiga chuva como fora chiclete
Noite é nela se mete
Nela se intromete bela e nua
Que a rua
Sua de arame como biciclete
Já tem poupanças cofradas no banco
Andanças também tem e no entanto
Ao sol-nascer já pôs
Algum rouge e arroz
Que entretanto
Sem espanto
Se torna canto canta toda nua
A vida quem na tem chama-lhe sua
Há vida ávida em qualquer rua
Eu já nasci não sei se nascerei
Nascido lavo a rapariga nua.



29 Boletim, Enquanto

Do claro dia no planeta
Ao menos do que isso nos chega
Diremos – formoso dia!
Diremos – enquanto for.
Enquanto formos.
Enquanto formosos.



30 Nesciência

O casal vivia ao cimo das escadas.
Eu sei que ele bebia e que ela costurava.
A casa era húmida e até molhava
os passados dias e as noites passadas.

Passado o dia, ela esperava
por ele que não vinha e tardava.
Tiveram um só filho, o que bastava.
A casa era húmida e até m' olhava.

Água descia da vida-casamento,
anos eram 70, se tentam, se tento:
boca-de-sino, largo no momento,
copular er’ apenas aquecimento.

O casal vivia e viveu e vive.
Que eu saiba, ainda não morreu.
Eu digo o que foi, o q’ era e o q’ é.
Inda muito digo eu.



31 A Mãe Ultima-se

A mãe ultima-se
e despede-se com guisados
perfuma-se e abaixa-se e acima-se
canta bons boleros e bons fados.
A mãe foi fenda, foi coisada.
A mãe é mãe solteira,
a mãe não é nada.
A mãe está à nossa beira.
A mãe é atenta e obrigada.

Poemas 27 a 31 – Caramulo, noite de 21 de Janeiro de 2007



32 E.U.V.

Amam antes os amantes
o mesmo amor que é fogueira.
À beira queimam de gead’ instantes,
queimam sós-ígneos a serra inteira.

Das cinzas, restarão filhos, talvez.
Um amor, era uma vez.

Caramulo, noite de 22 de Janeiro de 2007



33 O Rosto do Meu Pai

Como outros pensam em viagens a fazer que não farão,
penso eu no teu rosto.
Penso eu no teu rosto esclarecido
pela marca-de-água do olhar.
Já não és homem nem mulher:
mas um rosto apenas – lua e moeda e
pele de lagoa.
Freática te murmura, rosto, a interior memória.
Tenho muita pena do teu rosto civil,
muita pena dos teus olhos orais
ensombrados pela mágoa carbuncular
dos mortos.
Eu ainda aqui estou e ando,
na margem de cá do teu rosto.
Vejo documentários framejados
a partir dele, de ti: tinhas 19 anos
quando rebentou a Guerra Civil de Espanha,
22 quando a Alemanha entrou pela Polónia adentro,
46 quando mataram o Kennedy e
8 anos e sete meses quando Rilke escreve,
em carta a Witold von Hulewicz, que
a Morte é apenas
o lado da Vida que não está voltado para
nós e que nós não iluminamos
”.
Oh sim, a beleza do teu rosto mouro,
preto, lábil, tenso, refractário,
parabólico, enxertado, abrunheiro e santo.
Oh não, a tua mortenvida, a particularidade
estacionada de tuas sombras, a pólvora
de teus irmãos rodando no carrossel da tuberculose.
Quinto de nove, pai de sete, rosto tão só
e tão, afinal, multitudinário.
Decerto boa fremente piça
quando homem.
Não homem hoje já
nem mulher,
rosto apenas,
resto apenas,
apenas rasto.
Trabalho, se queres saber, para o mesmo:
para ter sido Pai,
em lugar de apenas pai.
Não outro amor me defere tanto a respiração,
no caso de quereres saber.
Queimo a água com lápis-fósforo.
Eu tenho dias.
Eu estou por anos.
A minha importância é ter ficha (paga) no dentista.
E ser versilibrista,
rata acrobata que não vive nem mata.
Rosto: da infância só reclamo o que a ti amo.
Revisita, porra!, comigo: o tinir
dos azulejos, a mufla, o Hoss do Bonanza,
o teu terror de que um dia eu fumasse uma ganza.
Deixemos isto.
É de tarde, é Janeiro, está frio.
Só te sobra um irmão. O Serafim. É meu tio.

Caramulo, tarde de 23 de Janeiro de 2007



34 Caderneta

Quem terá p’ra tudo isto troco
que não seja pouco prà nota dada?
A vida – eu digo – mas, trocada,
val’ a nota ‘ma coisa de nada.

Triste comércio: aos 50
anos ou menos temos cromos,
colecçõezitas de somenos
estampam ainda – somos, fomos.

Colo nas costas com farinha:
jogadores findos, vida minha.



35 Dúvida do Iletrado Integrado na União Europeia

Na cidade, verdade, inda perdoo.
Assassínio agrícola é que não.
No sangue lisboeta inda voo.
N’ aldeia, serventia dá paixão.

Calçam botas de borracha e tossem
cuspos-ranhos de mau mortalhabaco.
Sopam horas tristes e estremecem
da medula símiamesclademacaco.

Eles são tão portugueses, eles são
nacionais como nós, ah pois isso são.
Casaram com formandas da CEE,
mas saberão jamais o qu’ isso é.

Então? Voltas p’ra casa?
Eu não vim c’ o grão na casa,
sou ora marido europeu.

Quê? Dizes que te vais embora?
Qual o século, qual a hora?
Meu pai, s’ ela vai, atão e eu?



36 Terceiro

Os fundamentos da cultura portuguesa
são
o senhor Luís de Camões,
o senhor Fernando Pessoa
e o senhor Nicolau Breyner.
Os fundamentos de Portugal,
com ou sem cultura,
são
o senhor Luís de Camões,
o senhor Fernando Pessoa
e o senhor Nicolau Breyner.
Menos o primeiro e o segundo.

O Portugal verdadeiro é o terceiro.



37 Fado Adelino Veiga

Senhor Adelino Veiga
Conserte o meu guarda-chuva
Chusma operária meiga
Mão magra fraca sem luva.

Morriam aos 30 anos
Nem enganos desenganos
Senhor Adelino Veiga
A memória não é meiga.

Poemas 34 a 37 – Caramulo, noite de 23 de Janeiro de 2007



38 (N)Ever Song

She told me
“This is good stuff”.
I was aware it was.
I was aware of her.
Down along the seashore
I’ve been living on awareness.
And on bread, and vegetables.
Been acting well.
Not afraid, not anymore.
Her eyes were clear as sea-
-Wolves-waves.
Scent of dawn, she was,
Four times, I mean.
She was not in the mood for
Big fancy hotels.
“A cheap motel’s gonna work alright”,
She said.
A crevasse her heart was,
That I promise you.
Four times I dawned,
Her being my seashore,
My plastic shell,
Not sleeping but feeding
Ghost-babies,
Well,
The ones I would (n)ever would.
Lonesome lights aside.
Yester heart of mine,
Yester nights we are
Now.
Round the corner,
Not so fast
(I do beg you/her)
Your/hers past time.
A river does flow: no still waters
Will embrace us.
Darkly it flows
Wherever it goes.
Burnt hair, a cut:
A mouth: the whole of a
Face.
I gave her the stuff.
She welcomed it, not
Me, and she
Went away,
She did.
Good stuff’s always for
Real.




39 Fado para a Estrada

Do que há-de vir não diremos
Menos nunca que dissemos
Mais ou menos que calámos
Lenha ardida quanta foi
Dor que doeu e que dói
A vida quanta queimámos.

Estradas riscadas a dedo
Do viver o maior medo
É não ter feito a estrada
É sentir sem sentimento
E pensar sem pensamento
Perder tudo sem ter nada.

(É não ter feito a estrada
É sentir sem sentimento
E pensar sem pensamento
Perder tudo sem ter nada.)

Poemas 38 e 39 – Caramulo, noite de 25 de Janeiro de 2007

Friday, January 26, 2007

Do Natural Cantor

Todo o natural é cantor.
Só a nossa surdez resulta imperdoável.
Até na bacia de ferro, o carvão
canta o lume como translúcido rubicoração.
Pássaros e fontes são virtuosos:
mas que dizer do cão preso
retornado a si mesmo lobo ao fulgor da Lua?
Os gerânios gritam.
As camélias orquestram.
Quanta música numa criança calada, não?
Toda a minha vida tenho feito por ouvir.
Escrevo versos por imitação de solfejo,
não por outra coisa.
Somos agora ouvintes e bocas da natureza.”
– isto é Rilke, Sonetos a Orfeu, Primeira Parte, XXVI.
Sim, Rainer Maria. Como não?
Cem anos depois, é a mesma a manhã,
a mesma a música brutal
do silêncio de que nos cercámos.
Mas, se queremos, quando queremos,
se queremos muito quando queremos,
ouvimos.
A beleza desprevenida das mulheres – canta.
Canta – a saúde da falta que alguém faz
a alguém.
Um cacto velho – línguas verdes
consumindo sol, do lado de lá
da estrada.
Os pescadores tensos violoncelam o mar.
Hoje, ouço o canto da viúva
que sobrevive entre galinhas e palha.
Canta ao vento frio a portada
da janela do meu quarto,
quando a mulher de quem sou
se agita dentro do sonho dela,
da música que só ela ouve.
Nem sempre temos que dizer.
Mas sempre temos que ouvir.
Renasce moço o corpo
às sete da manhã,
movediça armação de carne
ao movediço gelo da respiração.
Aranhas desemaranham a existência das moscas.
Desembaracei-a da existência” –
isto é o que diz Antoine Roquentin,
o narrador d’ A Náusea,
depois de esborrachar uma mosca e
falando por Sartre,
que li no Jardim Municipal da
Figueira da Foz,
penso que em 1983.
Ouço o roçagar dessas páginas
(Europa-América)
por esses dedos
nesse jardim,
nessa cidade marítima,
nesse ano.
Por outro lado, sou escutado
pelo tampo da mesa
sobre que alinhavo o meu trabalho
como um alfaiate de giz-sabão
na mão.
E o pequeno ardil que miracula
a memória (e a poesia): ouço de novo
a voz do senhor Rodrigues,
alfaiate que fez o meu casaco verde,
na década de 70 do século passado,
para que um homenzinho eu (a)parecesse
no casamento de minha prima Elvira
com Diogo,
que figurou num filme do 007
e é, hoje ainda, um homem bonito.
Tudo me/nos canta.
Gosto de ouvir passar os comboios,
como julgo que toda a gente.
Como canta o senhor Paulo Frederico Simão,
Everybody loves the sound
of a train in the distance
Everybody thinks it’s true
”.
Mas também aprecio sobremaneira
a passagem cantora da camioneta de carreira,
caminho da vila,
povoada de velhos humanos
que vão à Previdência e ao sabão
e ao açúcar amarelo e à missa maior
da sede do concelho.
Também ouço ainda,
quando o silêncio e a dor mo permitem,
o ranger rítmico da cama de meus pais,
era o amor e eu pensava que eram
ratos.
O coração faz-se ouvir num
largo espectro de acção acústica, num
largo espectro de acção fungicida.
É natural.


Caramulo, manhã de 26 de Janeiro de 2007

Turismo - Castelões (Rota dos Laranjais) - tarde de 25 de Janeiro de 2007

Descendo a nascente da serra, vimos uma raposa portuguesa cruzando a estrada, embrenhando-se depois na mata. Era como um poema correndo na língua portuguesa. Depois, fotografei a laranjeira estatelada no céu: A pele do dia era água. Depois luz e oiro - simultâneos na laranja:A terra sangra água. A sombra e a luz têm fronteiras definidas. Da água nascemos. As fronteiras são as vidas:
O tecto da catedral: olhemos para cima, cuidado com os pés e com o coração:
Caminhamos com os olhos: nunca c(h)egaremos:
Não temos medo: chegar é ir:
Morámos aqui muitos anos, há tantos anos: que é feito de nós?
Voar é sonho antigo. Pousar, também:

Tinta e papel:
Preso à memória:
Sempre sequiosa, a santidade:
Uma flor negra amanhando o oiro:
Uma criança invisível:

Espero agora a noite. Serei servido. O dia foi frio e puro. Na noite, os nomes: Castelões, Coração de Maria, Portela, Ribeiro, Eiras, Quintal, Quinta da Cruz, Vila de Rei. Caramulo.


Noite: também fria e também pura.

Thursday, January 25, 2007

Cus de Portugal - Fado- Subsídio para um Retrato Traseiro da Nação

Tantos cus configurados
de matéria adiposa
são daltabaixo limados
pelas rugas duma grosa.

Tais cus-ânus semelham ser
as próprias caras dos donos.
E até pode acontecer,
se o cabelo lhes crescer,
parecerem machos-conos.

Abundam bundas abundantes
pelo nosso litoral.
Já não é como era dantes.
Já não é, mas não faz mal.
Qu' isto é tudo Portugal.
Qu' isto é tudo litoral.
Quisto é tudo pêlo anal.

O dermóide e o sebáceo
crescem muito prá lanceta.
Se tem casca, é crustáceo.
Se tem banha, é cetáceo.
Se tem rodas, é lambreta.

Certas peidas inflamadas,
tão fendidas de infecção,
lembram rosas requeimadas,
furuncravos da estação.

País de brandos curtumes,
cu é couro Portugal.
Levando nos bons costumes
(tudo em nome da moral),

cu em Fátima,
cu em Braga,
caga e reza,
reza e caga.

Na peidinha é um descanso,
feriado prolongado.
De peidar nunca me canso,
assim peidei este fado.

O dermóide e o sebáceo
crescem muito prá lanceta.
Se tem casca, é crustáceo.
Se tem banha, é cetáceo.
Se tem rodas, é lambreta.



Caramulo, noite de 25 de Janeiro de 2006

Três Poemas de Ontem à Noite



Outonal(x.) 95 e Ss.

Desço ainda algumas escadarias de Lisboa, no Outono.
Levo comigo pouco dinheiro, vou ver de borla os barcos.
Cidade fundeada em si mesma, dura flor
que a veia aberta do Tejo sangra em cor.
Estou muito dividido, nesse Outono.
Um amor espera-me em Coimbra, crédulo.
Saio de manhã muito cedo e trabalho.
Pela tardinha, ajudo à fabricação do crepúsculo.
Ando muito a pé, nesse Outono.
Venho dos Prazeres à Alameda,
de Campo de Ourique a Xabregas,
da Pontinha ao Relógio.
Quase chego a amar a violência económica da cidade.
Como sopa na cantina e ambulo pelos
tapetes outonais que assentam o campo
no betão desalmado e descoroçoado.
No Areeiro, há um maluco muito parecido
com o actor italiano Ciccio Ingrassia.
Tem a mania que é cobrador de autocarros.
Devasso a João XXI,
como esparguete na Avenida de Paris,
espreito as velhas ouriveseiras que se mostram de chá
na Mexicana.
É um Outono para sempre, o do meu coração partido,
em Lisboa, 1995. E seguintes.



Versos pró Camões

Vimos sem culpa formada
Vamos sem absolvição
Possa a nossa condição
Desculpar-se acabada
Morde o gato ladra o cão
Cheira a rosa a couve não
Que é de sua condição
Uma cheira a outra não
Vá meninos e meninas
Chupa-chupem aspirinas
Senhoras e meus senhores
Tenham bancários amores
E mil outros estertores
E um televisor a cores
E uma avó a cores também
Pretibranca basta a mãe
Do crime de ter nascido
Vão os dois a tribunal
O papá por ter lá ido
A mamã etc. e tal
Há tão pouco classicismo
O que mais há são gozões
Manhas de versilibrismo
Fazer versos pró Camões!
Gosto de ti Rosa Alice
Queres tu vir na m’t’rizada?
Oh não queres que chatice
Atão queres ‘ma lambada?
Esta vida são dois dias
Uma noite a vida é
De dia sou Malaquias
Mas de noite sou Zezé
De dia mula-de-carga
Amarga lá isso é
À noite Zezé descarga
Quando se torna Zezé
Rosa Alice cheir’ a couve
A couve de sopas frias
Muit’ odeia Malaquias
Resposta que dela ouve
E em torno a sociedade
N’ eterna luta p’lo pão
Nunca sente saciedade
Qu’ ele há muita ambição
Quem tem pão quer broa doce
Quem tem broa quer faisão
Farto de faisão fartou-se
Quem tem saudades do pão
Por exemplo o João
No bufete do hotel
Come faisão a granel
Mas diz que l’e sab’ a pão
Vimos sem culpa formada
Vamos sem gato nem cão
Qu’ a vida seja ladrada
Como a rosa perfumada
Que é da sua condição.



Se Ainda Gosto de Ti, Rosa Alice, e Quanto
(não parece, mas é um poema de amor)


Todo o frio já passado por todas as putas do mundo.
Todo o lixo de todas as feiras ao cabo do domingo.
Todos os sacos de café mandados ao mar para regulação dos preços.
Todos os subornos liquidados a polícias a liquidar.
Todas as freiras imoladas no altar de Deus Macho.
Tudo quanto for cremação de membros gangrenados.
Todos os tremoços tasquinhados pelas bocas cervejeiras.
Todas as bocas cervejadas em tasquinhas tremoceiras.
Todas as matas brasileiras.
Todos quantos vão ainda ao teatro (um, dois, três, quatro).
E toda a minha vida – da entrada à saída.




Caramulo, noite de 24 de Janeiro de 2007



Wednesday, January 24, 2007

Fala da Divorciada da Secção de Embalagem - histª 52 do Anoitecer ao Tom Dela


Desenho: VIII, de Fernando Campos


1
Acordei a meio da noite com a ciência antecipada de um acontecimento fora da ordem dita natural das coisas. Assim foi. À contraluz da janela do quarto, vi um homem-silhueta sentado na cadeira em que, ao deitar, abandono a roupa como a uma pele excessiva. O homem não tinha peso, nem voz, nem razão. Tinha dois olhos que me olhavam, amarelos.

2
Juro que não senti terror. Não transpirei mais depressa. Também não falei. Olhei e deixei-me olhar. Comecei a sentir que o meu corpo planava numa espécie de saúde para lá do físico e do mental: uma harmonia alheia a este mundo de objectos que pesam e se avolumam. Uma espécie de felicidade.

3
Passei a receber o conhecimento das coisas sem ter de olhá-las. Por exemplo, senti que se tinha congelado o copo de água que sempre deposito à cabeceira para emergência de algum sonho no deserto. E que o vidro do copo se quebrara, restando apenas, em forma e potência, a água sólida. E que, se eu bebesse a água, ela me saberia a lamber uma estrela.

4
Aos pés, a gata dormia a inocência duplicada dos animais adormecidos. Na parede, os retratos das minhas filhas também eram sombras. E olhavam-me de olhos amarelos, também.

5
Não estranhei sequer minimamente a minha nova posição: de coração para baixo, as costas deitadas no tecto, a lâmpada no sítio em que as pernas abertas se tornam a letra V. O homem da cadeira olhava-me para cima. Os retratos, também.

6
O rectângulo da janela mudou para círculo. Mudou de lua para estrela, de estrela para água (daí talvez o sabor do copo), de água para cartaz publicitário, de cartaz para retrato de alguém que nunca conheci mas que eu poderia amar para sempre.

7
Em simultâneo, sem tempo dentro nem fora, fui o copo de água sem vidro, fui a cabeceira, fui as meninas fotografadas, fui todo o quarto, fui o avesso de todos os mortos que nunca nasceram. E fui aquilo com que a gata sonhava: uma árvore deitada ao sol como um lagarto com cara de rato.

8
A verdade é que mantive o emprego. Estou na secção de embalagem. O peixe congelado não cheira. É uma espécie de estatuária naturalista do mar. Gosto do meu trabalho porque não penso nele. Sou uma pessoa – não penso. Apenas embalo.

9
Trago pão e legumes para casa. Acendo a lareira com o auxílio de histórias de papel. O fósforo aumenta a escuridão como o farol aumenta o mar. O relógio acelera as horas e suspende os segundos. A Lua nasce em privado para cada janela de cada quarto.

10
Chamada pela brincadeira incontinente das crianças fotografadas, a gata acorreu ao quarto. Voltou furiosa para junto de mim. Soprou-me injúrias e bufou-me ameaças. Na cadeira da roupa, ela tinha cheirado o homem. E isso não pode ser, pensa ela.



Caramulo, tarde de 16 de Janeiro de 2007

Tuesday, January 23, 2007

OVOS DE PATA EM AZEITE seguidos de 5 POEMAS P’RA MULHERES

0. Ovos de Pata em Azeite

Janeiro tem-me sido generoso. Não me interessa o vivido, mas o que dele ressuma em escrita. A vida é fragmentária, sobretudo quando – e sempre que – cotejada com a imperiosa integridade dos escritos. Esta mesma manhã (23 de Janeiro de 2007), fui visitado pela imagem dupla de a vida ser desgraciosa e trôpega como pata em terra. Mas, uma vez em água (em escrita, claro), quanta graça tem a penosa, verdade? Cuidado e atenção. Não me refiro a uma “qualidade” eventual dos escritos que de seguida acumulo perante a vossa complacência. Chiça! Nada disso. Refiro-me, tão-só, ao facto de haver textos. Sim: de haver possibilidade de resgatar à puta da vida estes seus/dela órfãos autónomos e orgulhosos, estes versos insensatos e fisdeputa, estas iluminações que não passam (eu sei) de ovos negros. De pata os ovos, naturalmente.
Dizer que passo a vida nisto – é infinitiva frase de beócio. Pois que o seja – passo a vida nisto. E quanto aos leitores? Existem? Isto é, estão vivos? Penso que sim. Atentemos a isto: a manhã (23) termina, um homem toca piano na televisão, os leitores procuram almoço como formigas. Faço de cigarra. Por antecipação, resgato para as formigas a babugem nutritiva do que me sucede por escrito. É um ínvio negócio – um estranho abastecimento – um obscuro contrato. Mas é, também, muito melhor do que a apenas-vida. Posso falar do último sonho, aqui há poucas horas. Uma das três filhas da senhora da mercearia planeava envenenar a mãe com azeite marado. Enquanto intoxicava o óleo de oliva, ia-me piscando o olho de pata: sabia do meu silêncio irredutível perante o que é vital. Lixou-se. Intervim, impedindo o matricídio. Como o fiz? Acordando – e escrevendo. Hoje, escrevi a partir de nomes de mulheres.



1. Sonetalgia do Solteiro que Vai ao Casino

Não cumpri, Lena, não, eu não
cumpri o desidério.
Entrego sandes e colas no necrotério,
da fé não fiz a procissão.

Casa-te, anda, eu percebo,
casa-te lá c’ o enfermeiro.
É sério e ganha, o mancebo,
muito mais, do que eu, dinheiro.

Ai Lena, Lena, antigamente,
quando a vida nos dava trégua
e outro d’ um, tão simplesmente,
potro com potra, cavalo & égua!

Eu fico aqui: à sexta-feira,
saio mais cedo, vou à Figueira.



2. Tu Ama-me Devagar, que Eu Tenho Artrose

Tu ama-me devagar, que eu tenho artrose,
ferrugem não é coisa que se goze,
oxidaram-me os anos até a alma.
Por isso, Cláudia, tu vai com calma,
sem apressar terás a dose,
mas devagar, que eu tenho artrose.



3. Transpira, Co(nspi)ração

Celeste, senhora, o teu marido
anda, não te parece?, desconfiado.
Ó puta que pariu o malparido,
carneira-me de morto, olha de lado.

Lanígero, no’ scritório, vai largando
um rasto de milcagazeitonetas.
Balir não vale, mas ele bale
– e ameaça facadas de operetas.

Desensanga-me o rosto, eu fico fulo
só de pensar que à noite, em casa tua,
ele tem direito (o merda!, o chulo!)
de num relance te topar branca e nua.

Minha tu és – e eu sou eu.
Tem d’ assim ser, Celestezinha:
matas o teu;
eu mato a minha.



4. Quadra do Penitente

Não te baste, Maria, a biologia.
Não t’ ela afaste, de mim, Maria.
Ouro e velas queimei, Maria,
por ti na Cova que é da Iria.



5. Glória com Mar

Do mar a tosse funda auscultando,
andei (e ando) em voga da memória.
História de entrepernas separando
quanto me fiz ao mar dentr’ a ti, Glória.

Teu olho esmeraldeiro, coralino,
farolava a boca rubiscente.
Nacarada luzia, cintilante,
cremosa dentição, cuspo de sono.

Mamosas meias-laranjas eu lembro,
alicantes torrões mamilolhando.
Não sei já s’ em Maio ou em Novembro,
glórias, Glória, eram, gotejando.

De tudo o que recordo, não acordo,
dormindo vou em transe amador.
Meu estibordo tu és e meu bombordo,
minha proa e convés: não és, amor?


Caramulo, manhã de 23 de Janeiro de 2007










Monday, January 22, 2007

Boletim Ginoastrológico

1.

Aldeias mínimas de pequenino gelo
no mapa preto?
Oh sim: as estrelas
na noite de Janeiro.

2.

Por que me acontece tudo isto?
Por ser um homem de cinco mulheres.

3.

Uma estrela, quantas pontas?
Cinco.

Caramulo, noite de 22 de Janeiro de 2007

Duas Palavras no Linho

Foto: Sandra Bernardo (Castelões, 18 de Janeiro de 2007)


Olha comigo as tuas mãos: vê,
são duas palavras escuras
escritas no linho. Lê
comigo as tuas duas escuras
mãos escritoras, riscadas,
cheirosas de caruma, tojo,
urze, giesta,
levadoras de cravos e hortênsias
ao lugar onde dorme o antigo
dono do segundo anel, o menos
gasto dos dois, o mais consumido,
afinal, dos dois.
Acontecidas no linho
como na terra o rosmaninho,
ambas.
Simultâneas desde sempre.
Estrelas humildes – e invencíveis.
Limpadoras de merda, cozinheiras,
agrícolas, íncolas, embaixadoras
da vontade do coração.
E quando uma delas subia
a espremer a aguadilha de uma teta,
expectante ao colo a cria de mamar esse soro
genesíaco, inicial, fundador, completo?
Nenhuma tocou jamais o sexo
de teu homem, cravadas no lençol
(no linho)
pelos pregos da Igreja.
Ainda assim, amaram.
Quase nunca receberam,
amestradas para dar
desconhecendo uma o que a outra.
Mãos portuguesas, uma fêmea,
macho a outra.
Mãos de ir ver, em paroquial
excursão, a amendoeira em flor,
o Bom Jesus, a azinheira miraculada
pela manha das sotainas.
Mãos de perfumar a água fervente
da negra panela com rica enxúndia
de galinha guilhotinada.
Escalavradoras da batata enterrada.
Amanhadoras das ominosas vísceras da sardinha
viva, vivas, atentas ao augúrio
de tais entranhas, tais destinos.
Nucleares.
Jamais as traiu um lápis:
na Casa do Povo, o índice direito
bebe da almofada de tinta
a assinatura genuína.
E no entanto são de pergaminho,
lenha e linho.
Em vão tenta a geada carburá-las:
de tão queimadas, são incombustíveis.
É vê-las à lareira: rosas incandescentes,
refractárias.
Irmãs entre si e da montanha filhas.
Bonsais.
Testamentárias e berçãs.
Quando meninas, esmifravam da romã os rubis.
Púberes, esfregavam-se na funchada flor do anis.
Viúvas, dão amêndoas de açúcar à saída sineira das noivas.
Benzem o próprio peito, sobre os ocultos
mamilos pretos traçando a cruz e o murmúrio.
Mãos mães,
ancestrais palimpsestos
de cuneiforme adágia ciência.
Na capela, aos sábados, esfregando de água fria
as lajes místicas.
Separadoras de gatos e andorinhas,
afogadas as ninhadas de recém-gatinhos
inda cegos.
Acústicas estrelas repercutoras.
Quem, se não elas, dobou e desdobrou o linho
para o tabernáculo da Ceia última?
Numa enxertia, fazem da laranjeira
um piano verde tocado de
teclas de ouro.
Numa matança de porco,
vinagrando o sangue borbulhoso da gorja,
acarinham a agonia do cerdo
cujos olhos assassinados lembram
os humanos olhos recebendo
telefonemas funéreos.
Mãos que a terra emprestou ao ar
por oitenta anos.
Aglutinam a luz que esclarece
este texto.
Acariciam, ao ígneo filamento do azeite,
as pagelas da Sãozinha e da Alexandrina
e do senhor Padre Cruz e do Doutor Sousa Martins.
Sugam do curral o suco do boi.
Bordam de esterco a florescência fátua.
E à magra lâmpada eléctrica procuram,
na adega morta do homem,
a garrafa de negro vinho para
celebrar outro neto.
Lê comigo as tuas mãos
neste texto:
texto-vela escrito para a cera
em que, missais, terçãs,
se juntarão, finais,
na capela bem esfregada,
lavada e de caruma, tojo
urze e giesta
perfumada.
Sobre o linho,
uma é o macho,
outra é hortênsia,
cravo,
fêmea.
Palavra e palavra.

Caramulo, tarde de 21 de Janeiro de 2007





Sunday, January 21, 2007

Turismo - Quinta da Cruz (Castelões)



1. Quinta da Cruz

De manhã, cortámos para a Quinta da Cruz, em Castelões. Talvez venham a restaurar o edifício senhorial e as casas serviçais para turismo rural de habitação. Estiveram para ser aviários industriais. Há um eucalipto muito velho e muito vivo à esquerda. Disseram que, no tempo habitado da Quinta, aquela encosta era tudo laranjais acima. Não ficámos muito tempo. Mirámos brevemente o longo vale. Reentrámos no carro e fizemo-nos ao dia.





2. Senhor e Tempo - Alegria

O meu tempo nunca foi, nem será.
Nem meu, nem tempo.
Momento, sim. Isso sim. Quando,
como agora, ergo o olhar aos
laranjais que sobem a montanha,
rumo ao sumo céu, não serei já,
nem terei sido.
Isso sente-me alegria.


3. Senhor e Mulheres - Criação

A casa envernizada pelas mulheres:
ao ar, a casa, como uma nave:
no espaço sideral juncando lenha,
estrume de estrelas, destroços de fruta.
Todas criadas, as mulheres: sobretudo
a minha perante Deus, que o são também,
minhas, as outras da criadagem, mas sem
documento nem voto.



4. Senhor e Filhos - Geração


Quatro crianças dei à geração,
três herdeiras.
A bastarda, amada embora,
levada embora.





5. Os Animais – Memória

Os animais aqueciam a manhã gelada
com a mecânica sã da respiração.
Cheiravam a terra viva.
Comiam como quem se integra.
Tinham olhos cheios de uma memória
igual à das crianças.
Trabalhavam e morriam e nasciam.



6. A Cruz

Casas e terras nomeadas pela obra
crucifixadora. A humidade vegetalizou-a,
não a derrubou. Sinal
deixado por um deus
pedreiro e
ausente.



7. Refeições – Velas, Petróleo

Comemos animais e frutos.
Do mercado, subíamos a carroça
salgada de sal grosso, peixes,
açúcar. Eu caçava, também.
A louça era grossa e pintada
por crianças operárias.
O talher era de ferro vitalício
(encontrareis garfos nas ruínas interiores;
velas, não).




8. O Fogo e a Água – Os Senhores

Era maior, mais alta e mais ao alto
a quinta de meu Pai.
Deixou-me esta para que, nela,
me tornasse Pai
e o deixasse ir.
Fiz, como ele, arder a lareira.
Vi como ele o que chovia.
Vivi como ele.
Como ele, fui.


9. Neve – o Senhor de Botas

Microclima, aqui.
Microverão.
Ameixas, pêssegos: água.
Nevou alguma vez.
Quando nevou, os animais e as mulheres
confirmaram o natal perpétuo de suas
atenções.
Eu calcei as botas,
dei uma volta a ver
a claridade.


10. Casal Antecipado - Dia Sido

Outra manhã (que não esta noite de onde falo), um casal tomará este caminho. Passará a Cruz. Verá o que isto foi no que isto é. Ter-lhe-ão dito das laranjeiras que subiam. O eucalipto jovem terá outros adjectivos. Nem do casal novo será o Tempo, mas de quem souber. Depois, de quem tiver sido.

Fotos: Quinta da Cruz, Castelões, manhã de 20 de Janeiro de 2007

Textos: Giesta Dourada, Caramulo, noite de 20 de Janeiro de 2007

Friday, January 19, 2007

Terminam e Nascem os Dias na Língua

Esta manhã, quase de repente, vieram estes versos todos.




Terminam e nascem os dias na língua,
perfumada a boca de café e ditos.
Pendura-se da varanda a noite: atinjo-a.
Da cozinha lufa ainda o cheiro dos fritos.

Glabra, intumescida, a luz, como um falo,
molha, gota a gota, lactífera, a manhã.
Por vezes, só olho, não digo, só calo,
só vivo, não durmo, é longo o divã.

Na boca a memória cuspinha pevides.
No minimercado: cores e prateleiras.
Bom dia, Manel! ’dia, s’or Alcides!
– instantes da infância doces como freiras.

Agora a noite, agora e depois.
Tractores exilaram da terra os bois.
Não já o pastor carda a madrugada.
A fábrica alui, que foi encerrada.

Os meus vivos são, em certos momentos,
concretos e ricos como alimentos.
Cedinhas na rua perpassam crianças,
meninos-calções, meninas de tranças.

Em cima, na pauta dos fios do poste,
andorinhas semínimas primaveram compassos.
Pode lá ser que haja quem delas não goste!
Vírgulas voadas ao papel dos espaços!

Tudo isto eu vejo e beijo com a língua,
não sei distinguir ’ma rosa d’ um cravo.
Tingindo-a na boca, porém, distingo—a:
é isto uma rosa! Bem dito! Bravo!

Chegam depois as outras horas.
O corpo entristece sem ser por maldade.
Coçando as virilhas, aturo demoras.
Tenho, um dia destes, de ir à cidade.

Na infância, lá longe, a rua perdendo-se.
Ao cimo, a família mais pobre do mundo:
a Deus e aos ricos, pedindo, oferecendo-se,
crianças baliam p’ra sair do fundo.

Chegou o futuro. É tudo o que resta.
Ontem fritei frango, sobrou um bocado.
Com um pouco de arroz, é quase uma festa.
(O arroz convém ser sempre lavado.)

Não dói (já não dói) cruzar o Inverno
marejando canoas nas águas do olhar.
Mão esquerda poisada pisando o caderno,
a dextra amestrando o verso, o falar.

Será um dia Verão, o Estio já fora,
já caniculámos fendas sudorosas.
No bidé da pensão, tive uma senhora
sentada em perfume de água-de-rosas.

Depressa odiar e amar devagar.
O tempo não está p’ra juros de mora.
Amar – um Verão; odiar – uma hora:
fica ela por ela, depois vai-se embora.

A nota de 50 que o meu Pai me dava,
dava pró cinema – e troco restava.
Ia ao Tivoli p’lo domingo à tarde.
Não recordo os filmes, tão-só a idade.

Murei-me de livros, escorei-me de capas:
Colecção Dois Mundos (Livros do Brasil).
Depois como antes, dias como mapas
pintados a lápis cor dazulanil.

Viva a nossa vida! Vivam nossos anos!
Vivam as crianças e os passaritos!
Vivam as cozinhas, viv’ os oceanos!
Vivam os momentos ditos e não ditos!

À tardinha, junto ao rio que passa
caminho da foz, caminho do mar,
tem sempre p’ra mim uma certa graça
pôr a língua de fora sem ser p’ra falar.

Não mais dobra trindades o sino da igreja,
trocaram o sino por uma cassete.
Perto, no café, bebendo cerveja,
maldizemos a Deus e ao Diabo a sete.

Ainda te quero, mas longe de mim.
Ando optimizando implementações:
palavretas-coisas que hoje, enfim,
não coçam cabeça nem coçam colhões.

Nun’ Álvares, burro detestável,
erguido a beato p’la salazarice,
espadeira de cruz muito condestável,
muit’ ínclit’ egrégio em sua pulhice.

Prefiro o Camões. Prefiro o Pessanha.
Prefiro espargos (dos brancos, em frasco).
O resto é País que no cu apanha
de Espanha e do mundo, até do mais rasco.

Ó Senhora da Agonia,
Maria Aflita das Dores!
Nossa vida, quem na diria
tão propensa a desamores?

Senhora do Patrocínio,
Madalena prostibular!
Nossa vida é latrocínio
sem nada ter que roubar.

Pela boca morre o peixe,
naufragando o pescador.
Pela boca vivo eu.
E tu também, ó meu amor.

Meu amor tão pequenino
que trago à botoeira:
se te esqueço, é destino;
se te lembro, bebedeira.

Manhã finda, tarde nova, nova noite.
Todo um inverno de verões particulares.
Que ao meu coração se acoite
– ou a pensões, ou a bares.

Ou se deite no divã
e, na noite varandada,
espere que a nova manhã
não nasça tão terminada.



Caramulo, manhã de 19 de Janeiro de 2007