Saturday, September 30, 2006

Nevoeiro, Noites e Chegada

Entre o Caramulo e a Estrela, o longo vale estava longamente açucarado de sol. O nevoeiro tinha ficado lá em cima, no ponto de partida, como um elmo. A um par de quilómetros da chegada, no entanto, a serra dissolvia-se numa nuvem quase negra, irmã decerto da primeira. Às seis da tarde, a noite deixava já entrever a sua autoridade colossal.

Com reserva na pensão e no restaurante, a vida tornou-se-me quase fácil. Pedi licença à dona do café, obtive-a e liguei o computador à tomada. Trabalhei um pouco. O mundo focou-se no quadrado de luz. O Vitória de Setúbal jogava na televisão e na Holanda ao mesmo tempo. Gente bem vestida flanelava nas mesas da sala. Recebi dois telefonemas. O segundo fez-me rir, facto que agradeci por dentro. Às oito, fui jantar. O Nacional da Madeira jogava na televisão e na ilha ao mesmo tempo. Homens pequeninos infiltravam martinis e azeitonas no sangue. Eu tornei-me um dos homens. A toalha tinha um buraco de cigarro. Queimei a boca com a flor de uma recordação despropositada. Não o sabia então, mas essa flor combustível revisitar-me-ia em sonhos. Combinei para as onze da manhã seguinte a primeira das entrevistas da expedição.

Depois de jantar, o caderno abriu-se-me como uma borboleta amnésica. Como sempre, eu estava atento ao despiciendo. De modo que me encontrava pronto a dançar com os meus lobos. Dancei. À mão esquerda, solícito, um livro de 1932: “The Narrow Corner”, de W. S. Maugham. Uma serenidade opiácea, por assim dizer, dominava o mundo exterior: uma rotunda relvada exposta à poalha de ouro da iluminação pública. E as bolsas de ouro da luz nas massas de névoa. Telefonam-me nessa altura. Atendo. É uma senhora que conheci em outras paragens, aragens outras. Com palavras não inteiras (quartilhas palavras, por assim dizer), pede-me um escrito. Digo-lhe que sim. Antes de deitar o lápis, penso:
– Escusavam de pedir-me que escreva. Não posso deixar de fazê-lo.

Rápida, a mente. Rápida mas circular. É como uma rotunda: cheia de relva, pontuada de flores vermelhas (pretas sob a Lua).

Toquei a boca como a uma música. Não exerço. Olho a rotunda, um que outro automóvel esbeiçado de vermelho-rubi na noite farolina. Duas árvores espasmam como pulmões fotografados. Um bloco de dez andares quase todo apagado, à excepção de duas ou três cartolinas amarelas dentro das quais crianças escrevem os trabalhos-de-casa enquanto as mães delas, divorciadas, lavam o tachito que foi de arroz.

Homens de antebraços civis falam de construção. Como os escritores: sempre nas obras. Homens pequeninos, rotundos, de enorme força. Animalizados pelo salário e pelo futebol (Nacional, 1 – Rapid de Bucareste, 2). O Setúbal empatou a zero na Holanda mas não se safou, tinha perdido em casa. Um homem também pode perder em casa, a começar pela própria casa. (Dentro das cartolinas amarelas, as mães separadas passam o serão agarradas às salas de conversação para adultos da rede.)

O outro dia culmina na visita nocturna à casa do pastor. A mulher, queijeira por fatalidade, poderia ter sido outra coisa na vida. Outra mulher – concluo. Regresso à pensão, não sem antes apascentar na pastelaria uma melancolia material como uma ovelha.

Não há muito mais. Almoço e regresso à serra de partida. Casas abandonadas pelas encostas. A complacência dos sábados. A gata cheia de fome e de saudades. O nevoeiro, levantada a tenda, voltou a permitir a cristalaria das estrelas. Do outro lado do mundo, a queijeira deita-se. O homem dá ainda uma volta pela casa escura.






Caramulo-Seia-Caramulo, 28 a 30 de Setembro de 2006

Nevoeiro e Partida

Esta manhã, tão cedo como um nascimento, o ar pulverizou-se de água.
Nadandei no nevoeiro para respirar entre algárvores e passareixes.
Naus de rodas bramiam na cegueira resplandecente.
Faz-me feliz sempre, tal cenário.
Pouca coisa me faz feliz, por isso fico feliz com coisa pouca.
Tenho um livro decente e fácil para ler.
Tenho uma data de lápis, um caderno limpo.
Os pulmões alcatroados agradeceram-me o breve passeio pela rua cega.
Tenho de fazer, hoje ainda, nova viagem à outra serra.
Em dias de sol, a outra vê-se desta.
Alguma roupa no saco, os tarecos higiénicos, o livro, o caderno e os lápis.
Vou encontrar-me lá com novos textos.
Eu sei que sim.
Espero que também lá o mundo esteja londrino.
Uma pessoa encontra-se nas sucessivas perdições.
Uma pessoa continua sempre, como se fora para sempre.
No livro, um homem anda de barco pelas Índias Orientais.
Quando fecho o livro, a terra reclama-me como a um marinheiro docemente fatigado.
Quando abro o caderno, posso ir aonde quiser.
E vou.
E vou.





Caramulo, tarde de 28 de Setembro de 2006




Thursday, September 28, 2006

Viagem

Estou entre serras, trabalhando uma coisita pouca.
Quereis saber?



Seia, noite de 29 de Setembro de 2006

Wednesday, September 27, 2006

Clave de Sol (outra história para ouvir na rádio)

1)
Era uma vez um homem que vivia numa casa amarela e branca. Tinha as coisas dele dentro de casa e também no barracão de madeira do quintal. O resto do quintal subia no ar: uma laranjeira, uma cerejeira, uma figueira e couves de pé alto. Ele tinha um cão, que só prendia de noite. Manhã cedo, soltava o cão.

2)
Iam os dois, cão e homem, à vida deles. O trabalho do homem era de cantoneiro. Desobstruía valetas, fazia e tapava furos na terra, reparava vedações, fazia recados ao Presidente. Às vezes, fazia mesmo de coveiro. A vida ia e vinha e ia todos os dias.

3)
Às cinco da tarde, de verão como de inverno, o tempo voltava a ser dele. O cão acompanhava-o todo o dia. Ficava à porta da Junta quando o homem ia lá dentro, retomava a sombra do homem quando ele saía. Às cinco e vinte da tarde, o dono da taberna não se importava de ver o cão entrar loja adentro com o homem.

4)
O homem merendava carapaus fritos. As espinhas, não as dava ele ao cão. As cabeças, sim. Por baixo da mesa, o cão ia comendo as cabeças uma a uma. Ouvia o dono falar com o taberneiro, mas as palavras não o prendiam. A espessuras delas, sim. Era como se os homens cantassem. O cão temia o canto da irritação (o futebol) e gostava do ramerrame da paz (a agricultura).

5)
O taberneiro dava ossos ao homem. O homem pagava a merenda, pegava no saco e saía. O cão já estava à porta. No inverno, já era noite por essa hora. O homem prendia o cão e dava-lhe os ossos. No verão, não lhe dava logo os ossos. Deixava-o solto até à lua. Só então o prendia e lhe dava os ossos.

6)
Um veterinário pago pela Junta vinha todos os meses. O homem aproveitava para lhe mostrar o cão. O doutor ou dizia “Tudo bem” ou lhe dava qualquer coisa tirada da maleta. E as vidas do homem e do cão poderiam trocadas uma pela outra, de tal modo seguiam juntas.

7)
Veio então o dia em que o homem estava a ajudar à manobra de um catrapilo em obras na berma da estrada. O cão pôs-se a seguir, por mera curiosidade, uma lagartixa ferida até meio da via. O carro não conseguiu matá-lo logo. O cão foi atirado uns seis metros. Tinha as patas da frente como galhos depois de um vento mais duro.

8)
A cabeça do animal tinha sido tocada do lado esquerdo, o olho desse lado já estava vazio. Um fio de sangue indicava o lugar da boca. O cão esperou que o homem chegasse junto dele, como sempre faziam ambos: o cão, esperar; o homem, chegar.

9)
Mas primeiro o homem falou com o dono do carro. O condutor teimava que o pára-choques e a pintura iriam custar não sabia o cão quanto. O cão, dessa última vez, deu atenção às palavras do dono. E o dono cantou assim:

10)
– Ó homem, vá-se embora já, que eu rebento-lhe o resto do carro e a cara toda!
O do carro foi-se embora. O cão gostou muito do que ouviu. O homem baixou-se para o cão e disse-lhe assim:
– Meu cãozito, meu cãozito.
Mas o cão já não ligava às palavras. Tudo era, outra vez, apenas música.




Caramulo, 1 de Junho de 2006

Tuesday, September 26, 2006

País de Pixotes de la Mancha

Ontem, 25, no Um Contra Todos, do Malato, a pergunta com tríplice resposta era: que rosto é, em Espanha, o da moeda de 50 centavos?

a) Miguel de Cervantes
b) Luís de Camões
c) Marquês de Pombal.

O gajo respondeu a)

porque, não conhecendo embora quem era Cervantes (de lado nenhum), duvidava que os espanhóis pusessem "o nosso poeta nacional" na moeda deles. Muito menos o Marquês.
Ganhou uma data de euros.

Friday, September 22, 2006

Ver se (ve)jo

Fazem os amantes muito bem fazendo alguma coisa.
A vida não está para menos.
Os que não têm, raspam.
Também fazem muito bem.
Tenho-os visto, a uns e outros, pelas ruas da nossa sociedade.
Uns com cara de espiões, outros com cara de caso.
Toda a gente existe muitíssimo.
Transportam as glândulas daqui para ali.
Uns voltam, outros não.
Uns acham-se belos ao espelho, que os não contradiz.
Outros perguntam que mal fizeram a Deus.
Esta gente, esta gente.
Toda esta gente emproada, emperuada, agalinhada p’la passerelle da passagem de modas paris-milano.
Fazem muito bem.
Vejo-os segurando o jornal como a um catecismo, fria a chávena em frente.
Outros arranjam muito dinheiro de repente e depois moralizam logo.
Elegem presidentes com o dinheiro novo e a moral velha.
Fazem muito bem, também.
Eu gosto de toda a gente.
Eu gosto de toda a gente, sobretudo da que não presta nem para adubo.
Aprecio particularmente os canalhas malformados.
Gosto da sobrancelha deles, onde branqueja a cicatriz dalguma navalhada infantil.
Gosto dos de dentes separados.
Gosto dos que não usam meias para índex de modernidade.
Gosto das mulheres todas, sobretudo das estúpidas.
Divirto-me como um perdido, achando triste o comércio tradicional, bolorenta a estátua liberal, caduca a universidade, podre a república, encardida a humanidade.
Nada a fazer?
Tudo a fazer.
Tenho uma barba de quatro dias.
Voltei a usar casaco.
Borda a chuva as estradas.
Leio versos escritos há 170 anos por um gajo sério como o caraças.
Cheiro a terra molhada: pão d’água.
Deixo andar.
O que não deixo, versejo.




Caramulo, tarde de 22 de Setembro de 2006

Thursday, September 21, 2006

À Moda da Casa

Isto agora chama-se noite.
É um país independente.
Uma pessoa vira a cara,
a janela não devolve senão a cara.
Temos todos de ter cuidado com isto:
ela é diária, ela é mortal.

E usa-se muito em Portugal.




Caramulo, noite de 21 de Setembro de 2006

É Preciso Ter algum Caco

Cospe de esparadrapo
hemoptise versilibrina
quem no tem veste casaco
quem na tem'a gabardina

Paga juros bufa fina
bons galões tem o cossaco
lá na baixa pombalina
há tremoços e tabaco

Pai Adão era macaco
costeleta babuína
deus meteu no mesmo saco
a serpente e a menina

Sangro rosa cristalina
dos pulmões eu sou tão fraco
cega o dia de neblina
paro escuto olho e estaco

Do nariz tir'eu um caco
substânci' à luz tão fina
por baixo da mesa ataco
a cadela desatina

Dom Gregório Dona Lina
só cospem de esparadrapo
cavalheiro de casaco
senhora de gabardina.




Caramulo, tarde de 21 de Setembro de 2006

Usa o Dia Tintas

este texto é todo Calitos,
que deu de luz no dia 8 de Janeiro de 1978 e eu lembro-me






Usa o dia tintas
luzes coloridas
que emprestam aos olhos
a ciência dos volumes

Nas caras os olhos
diamantinam
pensamentos e extensões
e âmagas coisas

Homens escoram casas
dentro mulheres
conservam móveis
caldos e fotografias

Todas as vezes
que choveu
eu estava lá
nem al podia

Tule gaze popelina
infância têxtil
inconsútil
reverberadora

Maravilhas pobres
e definitivas
eu ainda posso
no dia cada dia

Afluxo de sangue
aos tecidos erécteis
e um
lápis afiado

Criancinhas pressurosas
mariposam a tarde
de ulmos à sombra
raposinhas brancas

O homem velho
grelha um sono
breve e futuro
sentado no muro

Cães circulam
na tarde profissionais
cheiram-se os mijos
perdem-se o lobo

Árvores de subágua
floram peixes
boquiabertos
como figos de prata

Da cidade na noite
o ouro longe
dos candeeiros
e das putas

Trabalho todos os dias
o último verso
o da absolvição
o da redenção

Enquanto não
estou vivo
demoro-me
de emprestados olhos.




Caramulo, tarde de 21 de Setembro de 2006

Esquina


Imagem: © Fernando Silva (Caramulo)
Vivemos já todos dias de sol.
Não hoje.
Na névoa humana, somos
manchas de tinta-da-china.
Dormem-nos as mentes.
De o céu ter sangrado
cantam os sapatos nas folhas.
Senti, da cama, a pureza
mortífera do novo dia.
Não pôde, o pobre,
desembrulhar-se de todo
da noite.
Ela passa de costas.
Desconheço que esquina
a tomará.
Ela é a minha vida.
E que nome darei à esquina?
Caramulo, fim da manhã de 21 de Setembro de 2006

Wednesday, September 20, 2006

A Boca Molhada e Outras Imposturas



para a Mariana, uma das minhas raras luzes


1. A boca molhada – a boca erótica
– é a mesma que levamos
a casamentos, baptizados
e funerais.

2. Vamos todos pensar – a Felicidade.
Se não pensarmos – a felicidade.

3. No escuro a mão toca a rosa negra
– a cabeça amante.

4. O sangue e o leite
por uma perna a baixo.

5. O coração é inconsútil.
E ázimo.

6. Só sonho antes
de me deitar.

7. O telefonema que conta uma morte
– a pequenina euforia da voz.

8. A dignidade é um atletismo:
corre, coelho, corre.

9. O sorriso do calculista:
– dentes de fita métrica.

10. A nossa mulher vai com outro
– torna nosso o outro.

11. Sentado num muro ao sol
– vou morrer sem ti.

12. Música e bailarinas espumantes
incendeiam a noite psicadélica.

13. Um homem leva o cansaço à fonte
– bebe como um menino.

14. Dá-me um prato de sopa
e deixa ficar a mão.

15. Já dormi com uma mulher.
Ela via-me dormir, a minha irmã.

16. O leite faz-se pedra
– já nascemos apedrejados.

17. Mancha de sangue na estrada
– levaram o corpo mas deixaram
a vida.

18. Beatitude.
De boi atitude.

19. Solto na praia os meus dois mortos
como a papagaios de papel-de-seda.

20. Já tenho mais terças-feiras
do que futuro.

21. Mulher sentada em carro chorando.
O telefone à mão, longe.

22. Sentado num muro ao sol
– não re(a)verei o mar.

23. Dos amores velhos fiz uma lista telefónica.
Não tem nomes nem números.

24. Chovem guarda-chuvas a pique.
Em terra tornam-se homens velhos.

25. Jantamos pão com azeitonas.
Ouvimos a Lua.

26. E de repente, quando nada o fazia prever, uma prosa. Falei hoje ao telefone com a minha Mãe. É sempre outro século que fala comigo, quando me fala ela. Ela é do Outono de 1924. Ela já foi uma menina. Depois fez amor com um homem da Primavera de 1917 e multiplicou-o. Ela permaneceu una e indivisa: uma existência geológica. Calculou milhares de tostões. Recorreu a enchidos para nutrir os galgos. Está sozinha na casa dela. Nem sempre reconhece. Ainda toma café. Traz aparas de fiambre para os gatos. Às vezes, lembra-se e telefona. Depois senta-se no século dela, imune ao Outono deste.

27. A minha vida é feita de beleza.

28. Eu escrevo versos.
Aqui está outro.

29. Esse soluço antes de explodir.
O regresso à base em silêncio.

30. Esquecer dá mais trabalho
do que amar.

31. Recebe, do sexo,
o coração o vento suão.



Caramulo, anoitecer de 20 de Setembro de 2006

Proposições Caramulanas

Moro num sítio tão despovoado, que as moscas voam de costas à procura de outro chão.
Ério, ário: eremitério voluntário.
A geração anterior foi a última. Aqui, não nasce ninguém. Suspeito de que nem por amor as pessoas fodam.
O ermo é lindo, isso é. O ar lava as árvores como um sabão profissional.
Todas as manhãs vejo um menino de mais de 50 anos. Faz recados à merceeira, que lhe paga em bolachas e outros carinhos. Ele ri-se muito contente da vida.
Da minha varanda, a extensão panóptica do vale desmente a brevidade da vida.
As árvores do parque abrem os dedos garrotados de anéis de pássaros.
Os loucos mansos fumam cigarros dentro das memórias calcinadas.
Há aqui gente muito abastada. Sofre muito, tal gente, por não ter onde gastar a fortuna: o ar é de borla, a serra é graciosa, a morte é a crédito e eu dou a poesia.
Se, como hoje, não chove, é pior. Atarantadas pela granada do sol, mulheres de chapéu olham sombriamente as pedras do chão. Poucas mulheres, poucos chapéus.
Por esta altura, os meus queridos amigos pensarão estar lendo uma confissão de soledade. Nada disso.
Nada disso. Quem, como eu, já existiu, não d-existe. Na calma obliterante, r-existe. É bom que assim seja, até porque tem de ser assim.
No posto local dos Correios, não é possível carregar o telemóvel. Bom, adiante. Nos sanatórios abandonados, as almas pulmonares sofrem nostalgias tuberculínicas. Na Associação, fantasmas levantam pó quando dançam sem músicos. As senhoras fantasmas vão ao bufete tomar gasosa e capilé, os cavalheiros renovam a brilhantina no espelho ferrugento da privada.
Às vezes, sinto-me tão feliz, mas tão, que quase adoeço. Dou corridas furtivas pela devastação.
Caiu-nos em cima a bomba do Tempo. As casas e os olhares (poucos olhares) aparecem estilhaçados.
O vento enfia-se-nos na boca.
Não procuro e não sou procurado – todos nos encontramos aqui.
Eu vou estar, eu vou ser.
Não há outro sítio no mundo.




Caramulo, tarde de 19 e manhã de 20 de Setembro de 2006

Monday, September 18, 2006

Nelo e Lídia e Fernando

(Todo o santo dia, excepto dias santos, escrevo uma história para a rádio. Esta é a sexta dessas histórias. Nasceu com estas duas infelicidades: ser verdadeira e não adiantar nada.)

1)
A polícia veio ter com a gente, a gente não estava a fazer nada, a gente estava só ali à frente do café, o café já tinha fechado, o dono ia-nos dando cervejas de litro por causa da multa das duas da manhã, a gente metia o dinheiro na mão dele, ele metia as cervejas de litro na nossa mão, e pronto, estava tudo bem, entretanto chegou a polícia.

2)
Se tínhamos visto passar um carro verde com cinco pessoas dentro, a gente disse que não, e a polícia perguntou se não tinha passado carro nenhum mesmo que não fosse verde, e um de nós disse que não, que só tinha passado uma motorizada mas que não tinha dado para ver a cor, quanto mais cinco pessoas.

3)
O polícia, que era a polícia toda, fez de conta que tinha percebido, levou um dedo à pala de plástico da autoridade e olhou para o lado, que era onde estava o carro com o condutor e o rádio a tossir ocorrência, ocorrência. Eu tive pena e disse assim à polícia, que era um polícia só: - Você vá-se embora mas é.

4)
Isto foi num inverno qualquer, desses que se juntam na desautoridade do esquecimento. Só que eu lembro-me. O polícia não era velho. Disse ele assim então:
– Isto é um trabalho do caraças.
E disse eu:
– Ocorrências.
E ele disse:
– Pois, ocorrências. E vida para isto?

5)
Alguém tinha telefonado à polícia. Uma queixa qualquer por causa de estarmos a beber cerveja e a falar alto nas escadas do café depois da hora. Ou por causa de estarmos a beber alto e a falar cerveja nas escadas da juventude depois da hora. E depois veio a polícia e não havia nada, o dono do café tinha desligado as lâmpadas de néon e não aconteceu nada para desgosto da aldeia.

6)
O tempo passou, como é costume. Duas horas passaram. Dois dias passaram. 25 anos passaram. O primeiro dono do café chamava-se Manel. O filho era Nelo. A filha era Lídia. O café era Nelídia. As pessoas eram todas vivas, há 25 anos. A polícia da altura era quase a mesma de agora. A cerveja continua de litro. Só a memória parece ter envelhecido.

7)
Mas também há outras coisas. Um dos rapazes da escada já não comparece ao “Pronto!” da convocatória. Há duas, três semanas, lembrou-se de morrer de cancro. Tinha 45 anos. Que me conste, ninguém telefonou para a polícia.

8)
E, no entanto e entretanto, eu acho que um rapaz das escadas do café morrer se trata de um caso de polícia. Vós não achais? Eu acho. Tenho de dizer-vos alguma coisa sobre ele. Depois, talvez a razão me volte ao convívio. Ou não. Vou tentar.

9)
Era Fernando. Usava calças finas de ganga ruça. Botas afiadas como lápis. Cabeleira de cascata, lavada a sabão. Cara grave, picotada de hereditariedade. Voz cava, de raciocínio pulmonar. Eu disse pulmonar. Disse. Cancro. Ajudava ao litro da cerveja.

10)
Falamos sempre de cor. Falamos sempre pelas três primeiras letras de coração. O rapaz Fernando já não enfia por baixo da porta a nota de cem da moeda de antigamente. A polícia já não tem que fazer. Está tudo bem. Tudo está sossegado. Não há ocorrências a registar.



Caramulo, tarde de 17 de Setembro de 2006



(A transmitir hoje, 18 de Setembro de 2006, no programa radiofónico Anoitecer ao Tom Dela, de Sandra Bernardo, na Emissora das Beiras, 91.2 FM. Também é possível ouvir o Anoitecer ao Tom Dela na internet. O programa vai para o ar das 20 às 24 horas. Clicar em http://www.radio.com.pt/, depois escolher Distrito-Viseu e Concelho-Tondela. Todos os dias, de 2ª a 6ª. Mais informações úteis em http://www.anoiteceraotomdela.blogspot.com/)

Canção das Filhas

Amo-vos
contra a vida minha
e o vinho de cozinha

Amo-vos
sempre
como uma árvore
é sempre
até ardendo

Amo-vos
antes até de vós
que já então
éramos nós.




Caramulo, tarde de segunda-feira, 18 de Setembro de 2006

Fico à Espera do Raio

Domine
Senhor de ninguém
Atrasado mental à escala sideral
Violador de crianças
(as pobrinhas como as riquinhas)
Multiplicador não de valores
Mas de bolsas de valores
Protector de gestores economistas e taxidermistas
Genocida exemplar
Que só está bem a matar
Meteorologista de fugir
Que só está bem a poluir

Domine
És exclusivo de canais de televisão
A consumir em jantares micro-ondas

Domine
Não sejas cobarde
Não te escondas.




Caramulo, tarde de segunda-feira, 18 de Setembro de 2006

Sunday, September 17, 2006

Não É Só Ainda

Se se fez noite
na tua vida
não é ainda tarde
mas apenas noite.
Todo o dia
se faz tempo
e sustento
não é só
mercearia.




Caramulo, domingo, 17 de Setembro de 2006

Saturday, September 16, 2006

Ele Há-de

Conheço tão poucas pessoas que
só me sobra apontar o dedo às que
desconheço. De resto mereço
a dedo ser apontado pois que
a virtude é um zinco quente sobre que
ciam as ignotas gatas loiras como
cervejas em dia de chuva vendo o mar
a bramir e a bramar e a espumar como
um epiléptico descomunal que
da ilha traz a nostalgia continental.

Conheço tão poucos livros que
me agrada o jornal regional
inçado de artigos da padralhada
da autarcada e de mais nada. Em
sábados assim mornos sossego eu
os cornos em cafés de vila
bebo um portinho coço a pila
e deixo andar o futuro que deus
me deu.

(Mas um pouco de lenha no lar perfuma
de bosque o meu coração suburbano
já lá vão o verão o mar e a espuma
ele há-de estar frio o resto do ano.)



Caramulo, princípio da tarde de 16 de Setembro de 2006

Redacção Nacional por Amor da Pátria

A gente ama o nosso país
O nosso país suporta-nos
O litoral refrigera a demora
A serra oblitera a hora
E isto está bem assim

Nenhum de nós vai muito a Lisboa
Nas aldeias do Norte há caçadeiras
Velhas preservativam chouriças
Padres escrevem boletins
Macacos comem amendoins

E isto está bem assim

Eu amo a nossa gente o país nosso
Sou fraco de carnes e débil de osso
Ouço aqui repito ali
Ser culto é ser possesso

Raparigas de trincadeira parreiram à sombra
Rapazes delicodoces amargam caramelos
O inverno não é frio e no estio
Os dias torram lânguidos e belos

E é assim que isto está bem

Eu por acaso tenho ainda mãe
Avós não mas esses
São mesmo p’ra perder sem dar luta
Não os ter é ser quase filho-da-puta
A gente ama os nossos avós

Também os nossos defuntos defumamos
Insensatos incensos incensamos
Magnos mognos lhes dedicamos
E é pelos mortos sonhos que vamos

É ou não é ó Sebastião da Gama
Poeta que a gente também ama?

Se isto não estiver bem assim
Vou ali a Espanha e só volto se for doidinho.




Caramulo, madrugada de sábado, 16 de Setembro de 2006




Masculinidade

A minha canoa é de um pau só.




Caramulo, madrugada de sábado, 16 de Setembro de 2006

Digo Eu

O homem doura a cabeça de cabelos eléctricos antes de viver um pouco mais.
Os olhos do homem exercem uma lucidez mortiça sobre as madeiras da casa.
A casa é tudo o que o homem pôde juntar contra o frio, contra as mais casas.
A mansidão do homem evoca a loucura dos bois a caminho das terras verdes.

A mulher é toda séria contra os jardins carnívoros com candeeiros e pêlos.
Não haverá mais mulheres onde uma mulher haja completamente.
A mulher enche os bolsos de rosas e de pães para confundir o comércio.
A mulher sangra a partir do coração bífido sem abrir as pernas nunca.

A criança assassina pequenos bichos no quintal do primeiro exílio da criança.
Os olhos da criança radiografam as nuvens duras sobre o monte violador.
Há uma condenação em toda a criança que escuta a poesia do homem.
A mulher e a criança queimam juntas árvores molhadas de esperma.

Eu digo isto antes de viver um pouco mais.




Caramulo, madrugada de sábado, 16 de Setembro de 2006

Friday, September 15, 2006

Camilo Ardenas ao Domingo Olhando a Oliveira do Largo

“Deus não existia antes de Bach e não voltou a existir depois dele.” Assim pensa Camilo Ardenas, vendo chover no largo da aldeia. Uma oliveira escurecida de água e encanecida de prata, sem ter luz de que fabricar sombra, toda ela sombra de prata e água, parece-lhe uma estátua erguida à solidão do lugar. No largo, um monte de pedras aguarda que o domingo acabe e os operários regressem das tocas, amanhã. Hoje, os operários ouvem o relato da jornada de futebol dentro da taberna. Cheiram a azeite, a alho, a vinho e a enchidos. Alguns olham também a oliveira e as pedras, mas sem vê-las nem pensar em Deus e em Bach como o senhor Camilo Ardenas. O céu é uma tampa posta sobre a panela da terra, o dia é uma cozedura lenta e fria. Mas Camilo não se aborrece. As coisas do mundo interessam-lhe desde sempre, mesmo que o mundo agora não seja mais do que isto – uma aldeia tornada concêntrica pela força magnética do largo, onde a oliveira e a chuva da tarde de domingo são uma espécie de caligrafia que é possível ler em todos os sentidos. No fim, não há sentido algum. Assim pensa Camilo Ardenas, que nem de pensar tantas frases curtas se aborrece.
Em poucas horas, a chuva e a escassez da iluminação pública cerrarão a aldeia. Hão-de apertá-la num torno de silêncio e humidade. Só algum cão há-de tossir nas trevas, mas brevemente, a raiva de aprisionado. As galinhas farão de travesseiros de penas umas às outras enquanto sonham com milho e furões. Na cama, Camilo deixará que Bach sonhe por ele até que o leitor de cassetes diga boa-noite com um estalido breve, mais breve até que Deus.



Botulho, Tondela, 30 de Outubro de 2005

I See José Hermano Saraiva...

Thursday, September 14, 2006

Tombo e Pulo

Às vezes engulo em seco o coração.
Sinto-o tombando no gastrácido.
Fica ali, pulsa ainda, mas flácido.
Devo confessar que é uma aflição.

Outras vezes, não. Não engulo.
Abro a boca, deixo que voe.
A quem ele bater, que me perdoe.
Tarde ou cedo voltará, num pulo.




Caramulo, tarde de 14 de Setembro de 2006

Rarefacção de Leão e de Meninas

A chuva e o nevoeiro regressaram ontem à montanha. Revi-os como a duas pessoas conhecidas desde sempre. Das árvores do parque, restava apenas a cabeça. Interrompi o trabalho, fui à varanda assistir. O verão, como um leão moribundo, tinha-se rarefeito, abandonando um rasto de folhas torradas e de horas sufocadas. Risquei o fósforo, queimei jornais velhos na lareira. Estive calado todo o dia. Não pus música a tocar. Fiz comida, chá, café. Não saí. Estive quase sempre na sala. Trabalhei pouco. Os fantasmas da casa permaneceram sossegados. O frio surpreendeu-os. O da casa-de-banho estava de pé na banheira. Via não sei o quê através do vidro martelado da janela. Estava vestido e descalço. Mijei sentado para não o perturbar. Duas crianças desirmanadas brincavam em cantos diferentes do quarto de hóspedes. Antes de me deitar, espreitei-lhes as mãos muito brancas, muito rápidas no ar encarnado. Beijei-as mentalmente. Li meia dúzia de páginas do romance policial, fumei um cigarro sem dor, desliguei a cabeceira. Sonhei com um rádio ligado algures na casa. No sonho, vi-me num salão de casino dançante. Mulheres fumavam haxixe por longas boquilhas. Usavam chapéus moles e redondos debruados a fita de seda. Os homens não tinham dentes. Riam-se como buracos. O balcão do bar era de mármore verdescuro. Tinha um varão para os pés e outro para as mãos. O barman tinha dentes. Ele não falava, mas eu ouvia-lhe o rumor dos pensamentos. O barman estava sempre a pensar na mulher doente em casa. Perguntei-lhe se tinha combatido na II Guerra Mundial. Os únicos dentes do salão faiscaram com tristeza:
– Ela não merecia uma doença assim.
Acordei cedo, hoje. O ar do quarto cheirava a bolachas e a haxixe. As crianças não estavam, não estava na banheira o outro. Tomei banho de olhos fechados, recebendo na abóbada da cabeça a chuva particular. Despejei a cafeteira, lavei-a, fiz café fresco. Fritei toucinho, torrei pão, abri um frasco de espargos. Comi devagar como um padre. Pensei (ainda penso) em como arranjar lenha. Ao meio-dia (há menos de duas horas) saí. Havia algumas nódoas de sol frio nas árvores. Depois, já não. Fui ao escritório do patrão receber ordens. Voltei para casa.
Não tenho pena do leão.



Caramulo, início da tarde de 14 de Setembro de 2006

Wednesday, September 13, 2006

Animação

A porra do blog animou-se como o caraças.
Ainda bem.
Pessoal: é evidente que não sou detentor exclusivo da razão.
Sou parcial, inculto, incompleto, odiento, mau-carácter - tudo isto.
Sou tudo isto.
Considero a vida demasiado breve para o "politicamente correcto".
Abomino o "politicamente correcto".
Não gramo os américas.
Não gramo o terrorismo.
É por não gramar o terrorismo que não gramo os américas.
Vou sentir sempre isto e dizer sempre isto.
Tenham paciência.



D.A.

Tuesday, September 12, 2006

Ko

Não aceito que se seja morto.
Aceito, que remédio, que se morra.
Digo: desconheço, por falta de cultura geral e particular, o nome próprio e primeiro de uma (uma única) criança japonesa de Hiroxima.

Amérdica

Posso passar aqui a minha vida a dizer que te amo, língua minha portuguesa.
Posso, posso.
Posso.
Em teu nome, minha língua portuguesa, mando foder os
Estados Unidos da América do Norte,
vulgo Nazis-B.



Caramulo, agora mesmo, tarde de 12 de Setembro de 2006

Monday, September 11, 2006

Decisão do Registo de Santos e Anjos

Nota: este texto, cuja organização me custou uma boa parte da tarde de 29 de Agosto de 2006, é um compósito mais ou menos cirúrgico de fragmentos roubados a cinco capítulos de uma história abandonada. Esses capítulos
(I - Um Ajudante de Farmácia; II - Decisão do Registo de Santos e Anjos; III - São Orlando Gil Deseja uma Mulher e Fala; IV - Graça Teresa Lima – Clarissa do Agravo Mais Dois Santos e uma Santa Antecipada; V – Cerveja Preta, Olho Verde)
remontam, em ideia e esboço, a Fevereiro/Março de 2006. Já me tem acontecido mais vezes. Isto e coisas piores.

O inverno aumenta as noites e o mar.
Os anos correram e correm.
Há a luz.
Há o vento dando nos cedros.
Do lado da água chegam os gritos das gaivotas fluviais.
Exerço aos domingos a minha condição plátana.
Aos domingos, não sou.
Aos domingos, deixo-me encontrar pela vila despovoada.
O tempo do corpo pode ser já pouco, mas é o meu maior dote, também.
O tempo dilui os fluidos, retempera-os, torna-os substanciais: estabelecimentos comerciais, lances de rio, polícias, pombas narrativas, paços do concelho.
Um pedinte pequeno à porta do talho: parece um anjo de gesso de segurar a lanterna tumular.
Dentro do talho, animais do extermínio vermelham a potência alimentar da vila.
Defendo-me.
Se me sinto sufocar no quarto, onde a escassez da mobília e a estreiteza dos sonhos não raro me minotauram, saio tão cedo, que as estrelas frias dão gritinhos e correrias no céu congelado.
(Hás-de chegar indefesa à autoridade do tesouro que acumulo para ti. Assim chegarás – e nada alheia ao rumor erótico, escumoso, desumano do mar. Encontrarás um santo de asas partidas pelo manso alcoolismo pós-laboral.)
Comércio, arquitectura, economia, trânsito, hipismo, erotismo, culinária e poesia portuguesa – o mundo existe.
A santificação do meu trabalho (registar santos e anjos urbanos, suburbanos e aldeãos) e o cumprimento do meu dever quotidiano (atender) já decorrem do simples chover, do dar simples do vento nos cedros.
Desnecessito, pois, de Josemarí Escrivá.
Não tenho favores a pedir.
Há muitos anos, numa sexta-feira de glória, parti em demanda de meus mesmos sacros cálices, os quais fui servido encontrar.
A balcões muitos os encontrei.
Sucessivas terras, mulheres e homens fui despregando de minha túnica.
Não desprezo, renego ou amaldiçoo haver demandado.
Deveria havê-lo feito e hei-o feito.
Assim fiz.
Creio na espera e no registo, apenas.
E em santos e anjos, o que dá o mesmo.
Um vago receio de pederastas e faquistas, noctambulando pelo parque de uma cidade hoje, felizmente, indeterminável.
No regresso, a casa cheirando a cozido e a mijo de gato.
A gaveta das facas forrada a papel de revista.
Sob as facas, a cara de Lady Diana, essoutra santa antecipada.
Lady Di póstuma nos quiosques: a sorridência esmaltada, o cadáver louro, a aura sistina que tanto entontece, ainda e sempre, costureiras, adolescentes, caixeiras e advogadas sem banca nem príncipe.
Não importa.
Tão pouca coisa importa, depois de quase tudo, vividos os anos crematórios.
Se revisito alguma das cidades, percebo a espera.
As cidades esperam.
Apodreceram um pouco nas juntas, é certo.
Creches deram doutores.
Roseirais tropicalizaram-se.
Vieram hordas estrangeiras, aprenderam-nos a língua e submeteram-se à sopa e aos horários municipais.
Há muitos anos, em glória, era sexta-feira.
Apeei-me do comboio entre adolescentes, material escolar, aposentados trôpegos como pinguins, gajas sozinhas com revistas, serralheiros fumando sem-filtros, últimas pombas.
Vista das escadas da estação, a cidade parecia-se com a cidade da memória futura: este parágrafo.
Ruas, edifícios e pessoas aderiam, como decalcomanias transparentes, ao que deles e delas eu haveria de recordar.
Senti-me bem.
Entrei num café colonial e bebi um doce ao balcão.
Entretive-me a apreciar a comida colorida do mostrador.
Pedi outro doce e acabei por sentar-me a uma mesa.
Havia uma revista abandonada na cadeira.
Tomei-a e dei de caras com Lady Di.
À mesa da janela, duas senhoras que eram putas comiam pastéis de bacalhau.
Empurravam o bolo alimentar com cerveja preta.
Uma estava toda vestida, calçada e brincada de lilás.
Tinha um dente azul, em cuja superfície rechinava de saliva um fiapo de bacalhau.
A outra envergava verde e azul.
Os brincos desta eram de plástico brilhante.
Não me notaram, pelo que deram entrada no meu registo em plena inocência, uma vez na vida. Depois, levantaram-se e saíram – e eu receei um pouco a solidão.
Fiz-me forte e despejei para a garganta o resto do doce.
Pedi um pastel de bacalhau.
Estava frio, mas a salsa trincou o sabor num arremedo de primavera.
Li o resto da sinopse biográfica de Diana Spencer, tomei nota mental da melancolia interminável que deve ter sido a sua vida ao lado do príncipe Carlos e verifiquei que a noite, lá fora, começara já a embrulhar em celofane toda a esperança.
A mesa das putas, que tinham acudido ao celofane, era agora ocupada por uma senhora vasta.
Ela era um porta-aviões ginecológico torpedeado sem clemência pelos anos.
Calculei-lhe oitenta anos.
Maquilhada de oito boiões diferentes, parecia sonolenta.
O rímel pesava-lhe nas pestanas como lixo num toldo.
A boca era-lhe um trapo escarlate.
As mãos de pergaminho terminavam em dedos tão couraçados de anéis, que se diria usar soqueiras de gangster.
Enroupara-se com uma elegância anacrónica e piedosa de coquete.
O cantor António Calvário haveria de reconhecer nela a madura de sonho que em 1966 lhe surripiou um beijo lateral e um postal autografado.
Paguei e desandei.
A noite tinha purificado as vielas.
À porta do restaurante chinês, um gato, vivo por milagre, lavava a cara com gestos de tenista.
Passei a loja das bicicletas e o Salão do Reino de Deus.
A bagagem pesava-me menos do que o coração.
Entrei na mesma churrasqueira a cujo balcão em U sentei outrora, comendo frango, o cantor Art Garfunkel.
Serviram-me uma travessa inox com frango.
Africanos, eslavos e brasileiros serviam-se do mesmo pasto no rebordo do U.
Era como um parlamento de autistas.
O televisor, num poleiro alto, ardia de frio o telejornal.
Ninguém lhe ligava peva.
A carne crestada ossificava-se, debulhada de pão e garfadas violentas de arroz.
A paz subia com o vinho preto.
Persegui duas azeitonas por puro tédio, no fim da ração.
Um dos africanos tinha pedido sopa.
Serviram-lha.
Espreitei o prato: parecia um olho glauco e verde.
Ele sorveu-a com gestos elevatórios de grande firmeza, cheio de dignidade e encardido de solidão.
No fim, limpou a boca com a mão contrária à da colher e bebeu um copo de vinho.
Então, olhou para mim sem me ver.
Já constava do meu registo de santos negros.
Mas, então, nem eu o sabia.
O telejornal ia na parte desportiva.
Fez-se ainda mais silêncio na sala.
A angústia do Belenenses mereceu dois comentários ao assador de frangos.
Os comentários caíram no vazio das nossas vidas.
Pedi café e para telefonar.
Indicaram-me a ponta do balcão.
Atenderam-me.
Isto foi assim numa sexta-feira.
Eu registo santos e anjos.
Nego, naturalmente, Deus.
Mas anjos e santos são essências inegáveis.
Numa manhã de vento e chuva, concedi-me tréguas e iniciei o meu registo de santos e anjos.
A luz, já havia.
Os anos já corriam com pés de sextas-feiras.
Veio outra.
Tinha vestido um casaco preto, uma camisola castanha e umas calças pretas. Tinha calçado botas castanhas.
O cabelo precisava de ser cortado, mas tinha feito a barba e tomado os comprimidos.
O meu aspecto passava por decente, embora só duas moedas de ouro e meia dúzia das de cobre me restassem no bolso.
Acordei cedo, lavei-me, barbeei-me e comi dois ovos.
Saí para o mundo diagonal da chuva.
Era uma sexta-feira de regresso.
Ia apanhar o comboio da tarde.
Tinham-me prometido dinheiro para a viagem, iam passar-mo pela hora de almoço.
Foi sentado na pastelaria que se me deu a evidência do registo de santos e anjos.
Logo que o decidi, senti-me melhor.
Até à hora do comboio, tinha já tudo em ordem, uma vez na vida: a bagagem irrisória, o corpo abastecido de fármacos, café e fármacos, um registo decidido e um futuro breve e ardente como um fósforo ou um beijo.
Bebi água mineral e suportei a euforia.
A minha vida já era então esta de agora: paralela, sempre ao meu lado sem me tocar – como se, em vez de vida, eu tivesse mas era um cão.
Entramos num sítio escuro, os olhos demoram a habituar-se às trevas, depois vêem – assim é quando a vida nos regressa ao cabo de escuros anos.
Escuros, crematórios anos – agora, ainda, sempre, outrora.
De modo que a minha vida regressara – e tudo foi depois possível, mas só antes de ter sido.
Assim acontece nas epifanias.
Bastou-me um pouco de atenção, a chuva do lado de fora da pastelaria.
Na manhã do casaco preto, tomei os anjos e os santos com um quartilho de água mineral.
E um pouco de whisky também, vá lá.
O registo já é.
É a louvação objectiva da pureza diáfana de homens negros comendo sopa verde, de cantores arruinados pela moda seguinte, de putas coloridas como comida de mostrador, de te esperar eu, de santos e de anjos.
(Registar-te-ei.)
Também é a corrida dos anos e das noites e do mar inflacionados pelo inverno.


11 de Setembro?

1973.
No Chile.
Encomendado e pago pelos camones.

Viagem ao Fim do Dia

Amigos e amigas:

o texto "Literaturras - Parte II", lá mais para baixo neste blog, suscitou uma polémica entre várias pessoas. É-me grato que tal tenha acontecido.
Não sei se a poesia acabou. A grande, talvez.
Só posso continuar com a minha.
Vou fazer isso.
Agradeço-vos a generosidade, o empenhamento e a atenção.

D.A.

Friday, September 08, 2006

Senense

Nos dias 4, 5, 6 e 7 de Setembro deste ano de 2006, mudei provisoriamente de montanha. Razões profissionais levaram-me a Seia, cidade e região. Quando não estava a trabalhar para ganhar dinheiro, escrevia. O que escrevi, foi isto.


1. Proposições Senenses
(Seia, Pastelaria Olhos d’Água, entardecer de 4 de Setembro de 2006)

O ar é denso como um cobertor.
O calor não cede com a noite.
Incêndios em Ourém, Tomar e Peneda-Gerês.
A terra queima a boca.
Rumino numa pastelaria secular.
Telefonar depois das 22 à menina.
Não sofrer mais do que o necessário.
Encarar a mente como um autarquia local.
Frascos de mel no mostrador, o amarelo-torrado.
O Irão desenvolveu um novo míssil terra-ar.
Uma casita-troféu do concurso de doces regionais (5-2-05).
O rapaz do avental atento ao maior avião do mundo.
Jantar devagarinho.
O céu sem a pureza do frio.
Desemprego de longa duração: caras de vidro.
Casa de terra-e-pedra: abandonadas, aluídas.
O caso da jovem austríaca raptada e feliz.
Na pastelaria, estantes de madeira: garrafas-livros.
Cadeiras de forro verde-escuro, doutoral.
Sabão com água.
Dizem-me – Boa-noite – em Seia.





2. Olhar para Homens
(Seia, Pastelaria Olhos d’Água, entardecer de 4 de Setembro de 2006)

Eu vi homens novos em anos hoje envelhecidos.
Quando os revejo, vejo o antigo olhar novo na cara velha.





3. Mais Proposições Senenses
(Seia, Pastelaria Olhos d’Água, tarde de 5 de Setembro de 2006;
o meu irmão Fernando faz hoje 52 anos)

Rolam os corpos nos espaços.
Sou jornalista: alimento-me de palavras alheias.
Quando posso, aqui regresso: aos versos irresponsáveis.
Entrevisto pessoas, no resto.
Aponto-lhes ao rosto o rotundo microfone negro.
Escrevo à frente delas.
Assusto-as devagarinho.
Elas gostam.
São muito humanas.
Chego ao espaço delas e instalo-me.
Devasso-lhes as pastelarias, as casas, as datas biográficas.
Coço-lhes o umbigo.
Pareço querer saber coisas.
Mel, queijo, música, curtumes, costumes.
Coração autárquico.
Filmóliúdes no cinema local.
Crianças repetidas pela sandália global.
Represálias, genitálias, brevidades.
Gajas brasileiras encourando.
Uma fábrica de estúpidos: a televisão.
Os entrevistados ensinam-me coisas.
Só é preciso saber perguntar.
Às vezes, como num engate, sugerir.
Secar os olhos, ser sem ser.





4. Em Viagem
(viagem Caramulo-Seia-Folhadosa, tarde de 7 de Setembro de 2006)


No novo dia, viajo de serra a serra. São mares enxutos. O plâncton é o cardo. O peixe bale. Não ligo de mais a que tudo seja igual em toda a parte. Levo aqui a minha vida: é todo o tanto de que sou capaz.
O calor cedeu um pouco. Este filme sem intervalos: viver. Um camião azul, como um elefante compactado, assombra à frente. Homens de colete laranja-flúor deservam valetas, ao ar torrado. Não ligo de mais. Necessidade de estancar a torrente de imagens, sons – o bolor audiovisual do passado. Curar a vida como a um queijo artesanal, dando tempo à maturação, ao poder da sombra, à espera feita de madeiras. Ser de água praticando o azeite. E o vinho e o sangue. E merecer uma boca cheia de água e de carne.
Rola o corpo no espaço. Escrevi hoje muito. Incensei de crédito outras vidas: o homem das peles, o homem das abelhas, o homem das ovelhas, a mulher do queijo. Cortei-lhes em bocados as frases. Quando, esta noite, a rádio os libertar pelas esferas, serão música. Depois, serão silêncio. Outras vozes, pressurosas, acorrerão em vez delas, em vez da minha.
Escrevo para tornar insubstituível a viagem. Escrevo por puro púrpuro terror aos intervalos: viver. Isso sim. Não ter vivido é a pior morte. Não ter ido. Ter voltado sem ter ido.
Saber coisitas. Distinguir terra e céu. Ver, de dentro de água do mar, as nuvens ardendo de ouro. Tratar bem os animais, esses cegos. Percutir a poesia até que ela cante nas igrejas como uma possessa. Eu agora sei coisitas.
Não se trata ainda do cansaço. Não é já a desesperança. O que é, é a minha vida. Algumas vezes (gosto de mapas), pego no mapa de Portugal e vou. Gosto dos rios venosos, das curvas de nível, dos nomes das terras. Aqui dormi, ali amei, acolá desgostaram-me. Além, uma das infâncias. Confusão, fuga, pânico, euforia: ali, ali, ali, ali. E anos nisto.
Colo pelas costas as palavras ao papel, hoje outra vez, sempre. Devo proceder assim. Devo ser um homem. Um homem em festa permanente. Um homem perpétuo. Às vezes, uma sombra sem corpo: quando na cama: ou em viagem.
Nas bermas da estrada, as casas, os negócios, os jardins poeirentos como vestidos de avó-noiva. Vinhedos e milheirais, árvores de fruto como mulheres de brincos. Gosto das oliveiras. Ali em baixo há um ribeiro. O meu olhar à flor da água, beliscado pela boca perguntadora dos peixes. Num vórtice, de novo em cima, entre pinheiros. Há muito ficou para trás o elefante azul, os homens-flúor.
Entre montanha e montanha, o corpo é veloz pelos veios abertos a picareta e dinamite. A vidraça toda descida, o cabelo eólico à janela do carro. A vogal única do vento. A densidade da solitária figueira anunciando a próxima aldeia, já nas costas: como uma palavra escrita.
Algumas crianças num quintal, revoluteando como pássaros de papel-de-seda. Um tanque cheio de água fria que olha o céu. Velhos escuros sentados em bancos de pedra: rápidos, também. Rejeito o incêndio e a inundação.
À sombra de eucaliptos novos, uma prostituta: uma flor do leite. Montes, povoas, quintas, pedras. De pastores defuntos, abrigos de pedra. Carvalhais. Uma mercearia com a placa dos Correios. Um homem com uma moto-serra ao ombro. Todos somos sísifos.
Cafés de aldeia: mínimos, devassados pelo sono e pelas moscas, sonhos da emigração. O meu país é tão bonito como um menino doente. Obras em carne viva que me devolvem aos tempos em que andei de pintor na construção civil. Saudades, sim – por que não? Mas não, o dia é novo.
Não tão novo, já. Às cinco da tarde, com a madurez e a consistência de um pêssego, o dia boceja sem esconder a boca. Do bojo dos jardins, subirá breve a sombra da noite, a data da luz marcada a giz no alto esquerdo. Ainda tenho tempo para celebrar a quinta-feira. A cidade de destino abre-se na encosta da serra como uma folha dupla de jornal.




5. O que Acontece
(Seia, tarde de 7 de Setembro de 2006)

Verifico leis.
É o mais que faço.
A qualidade da luz não me é indiferente.
Não tenho toda a razão, ainda bem que não.
Tenho dias.
Eu tenho dias, talvez anos.
Vêm aí tempos difíceis: qual o não é, porém?
Acontece-me (é um pouco assustador) olhar para as pessoas humanas e ver apenas as pessoas animais: plantas encarnadas, bombas de sangue, capas de gordura, cálcio, carbono, nocturnas na manhã clara e justa.
Acontece-me (é normal) senti-las bonitas, às humanas alimárias: flores brancas, fontanários de luz, peças manuais, pimenta, sal, solares na chuva clara e justa.

Sunday, September 03, 2006

Duas Verificações para Uso do Comércio

1.

Passa o tempo.
Como uma pessoa na rua passa.
Passa por ti e vai comprar
a outra loja
o que tinhas para lhe dar.



2.

Não há credo que subsista
se não for por teimosia.
Haj'à noite quem resista
e se esqueça, sendo dia.



Caramulo, anoitecer de sábado, 2 de Setembro de 2006

Saturday, September 02, 2006

Fado Escãotológico

Não me apanharás no jardim curvado
cheirando as flores e a caca canídea.
Já fiz letras para muito fado.
Não estou isento de perfídia.

Vê lá tu agora nesta altura
é que dou por mim errado.
São minhas letras, é o meu fado.
Não estou isento de loucura.

Mais bem decerto teria feito
de outra maneira que não esta.
Outro o coração, outro o peito,
outra genitália, outra testa.

Ou não? Não. Já agora não.
Nem flor curvada nem caca de cão.




Caramulo, tarde de sábado, 2 de Setembro de 2006

Três Segmentos para um Diário Repreensível

1.
Sei de coisas que não têm fim
e doutras que apenas não acabam.
Como chegaram até mim
lá de onde elas estavam?

Isso não sei.
Sei pouca coisa
das coisas.



2.
Arranco moscas do ar
como carraças a um cão
transparente.



3.
Os dias são comuns e diversos
como maçãs e mãos.
Não é possível sempre segurar
um dia nas mãos.
Outros dias há que caem
com a gravidade das maçãs.
Depois apodrecem no chão.
Há que se os passar
da mais diversa
da mais incomum
maneira.



Caramulo, esta manhã, sábado, 2 de Setembro de 2006

Friday, September 01, 2006

Sérgio Godinho





É um escritor de canções. Também lhe chamam, aliás carinhosamente, SG Gigante. Gigante por ser o que é: uma enorme figura da música e da cultura portuguesas. E SG por ser Sérgio e Godinho.
Nasceu a 31 de Agosto de 1945 na cidade do Porto, este gigante.


Antes que mais alguma coisa digamos dele, ouçamos o que tem a dizer o próprio Sérgio Godinho:
“Sou um músico. E na música englobo as palavras – nesse aspecto, sou um poeta; englobo o estar num palco – e nesse aspecto, sou um cantor; e sou também um compositor, porque também faço melodias e ritmos a partir de coisas que vou escolhendo. Um músico usa tudo, as palavras, o palco, não consigo separar…”

Um pouco mais do discurso directo do músico, poeta, compositor e cantautor Sérgio Godinho. É ele quem diz que
“O cantor acaba por ser a consequência natural das canções serem compostas. É um pouco como um script de cinema, ou uma peça teatral, que só existem se forem representadas e para serem representadas.”


Aos 61 anos de idade, a velhice continua a ser uma questão que tem a ver com os trapos, não com Sérgio Godinho. Ele soube sempre renovar-se, embarcando com bilhete próprio nas correntes da actualidade. Foi ele quem divulgou, na década de 70, O Namoro de Fausto; e é ele quem, hoje, pode ser visto e ouvido na companhia dos Clã sem cair na atitude de outros pseudo-sobreviventes oportunistas.

Trata-se de um artista com, passe a expressão, pau para muitas colheres. Além de figura cimeira da música portuguesa de intervenção e de autor, Sérgio Godinho também é o actor de múltiplos filmes, séries televisivas e peças teatrais. Mas não só. Também é o dramaturgo criador de várias peças e realizador. Podemos dizer que Sérgio é o nosso Jacques Brel. E dizer isto é dizer bem dos dois.


Em meados da década de 60 recusou ser soldado colonialista. Esteve 9 anos fora do País, radicando-se principalmente na Paris de França. Por aí contactou outros gigantes da nossa cultura então exilada: José Mário Branco, Zeca Afonso e Luís Cília, entre outros.


Depois de, em 1971 colaborar no primeiro álbum a solo de José Mário Branco, um disco intitulado Mudam-se os Tempos Mudam-se as vontades, Sérgio Godinho acabou por concretizar nesse mesmo ano a sua estreia discográfica. Em França, gravou o LP Os Sobreviventes. Bom título de estreia, até porque serve como uma luva ao seu criador.

Os discos desta geração eram censurados, o que no entanto não impediu a crítica e o público nacionais de premiarem Sérgio Godinho como o Autor do Ano de 1972. Sérgio casou-se pouco tempo depois, no Canadá, com a também artista Shila, sua colega na famosa companhia ambulatória The Living Theater. São os tempos hippies de Vancouver, cidade onde recebe a grata notícia de se ter dado em Portugal o 25 de Abril.


Regressa e edita o LP À Queima-Roupa, no mesmo ano de 1974. A carreira de Sérgio Godinho disparou autenticamente a partir daí. 32 anos depois da Revolução dos Cravos, o SG Gigante continua gigante, muito à custa de canções como É Terça-Feira e Com um Brilhozinho nos Olhos, entre dezenas de outras.

A Sérgio Godinho, é escusado tentar colar rótulos político-partidários. O êxito comercial da sua carreira não fez dele um capitalista de carteira para dentro e um esquerdista da boca para fora. Sérgio é Sérgio e ponto. Final, é que não.

Fontes para o texto:
http://pt.wikipedia.org
http://www.pflores.com/sergiogodinho/index.php



(A transmitir hoje, 1 de Setembro de 2006, na rubrica Filhos da Madrugada do programa Anoitecer ao Tom Dela, de Sandra Bernardo, na Emissora das Beiras, 91.2 FM. A rubrica vai para o ar às 23h. Também é possível ouvir o Anoitecer ao Tom Dela na internet. O programa vai das 20 às 24 horas. Clicar em http://www.radio.com.pt/, depois escolher Distrito-Viseu e Concelho-Tondela. Todos os dias, de 2ª a 6ª. Mais informações úteis em http://www.anoiteceraotomdela.blogspot.com/)

Keith Jarrett - Somewhere Over the Rainbow

Posto isto,

quero lá saber do Gil Vicente - Belenenses.

Quero lá saber do Cavaco.

Quero lá saber da Câmara Municipal (toda e qualquer uma).

Quero lá saber de não teres telefonado.

Quero lá saber de teres telefonado.

Quero lá saber de não querer cá saber.

Caramulo, manhã de 1 de Setembro de 2006

Vejam Isto





(imagem achada e roubada onde? Em http://complicadissimateia.blogspot.com/
Clicando na imagem, o fruto e o usufruto são outra coisa.)

Sentido Proibido



(imagem roubada do sítio
http://daliteratura.blogspot.com/)

Uma Outra Mesma Coisa

“Poesia é uma coisa que não é a mesma coisa mas é igual.”


Beatriz Bruno Antunes, 4 anos


(in http://a-caixa.blogspot.com//)