Monday, July 31, 2006

FM

Anteontem, conheci uma senhora que foi tanoeira, outra que foi moleira. Octogenárias ambas e ambas viúvas – frágeis são os homens. Duas lutadoras invencíveis – foi o que me pareceram.
Ontem, conheci dois homens (pai e filho) ferreiros. Mostraram-me lances da arte do ferro e do fogo. Vi, deles, as alfaias e as ferragens novas.
Hoje é hoje. Na rádio, as vozes delas e deles retornam ao éter. Faço de altifalante. Pego em vidas, torno-as ouvidas.
Impossível não gostar desta gente. Na casa da moleira, as estruturas de produção envelheceram com a mestra do ofício. Inquietei-lhe o gato, um bicho negro e lustral que se escapuliu entre tabuamentos ruídos. À porta da tanoeira, no pátio, ouvi e vi o correr da água para o tanque, para as árvores fruteiras. Na oficina dos ferreiros, consultei sem dicionário de rimas o duro lirismo dos oficiais de toda a vida, todo o ferro, todo o fogo.
Gravei orgulho e humildade. Magnetizei algum tempo. Estou, portanto, ainda a tempo. Posso ser moleiro, tanoeiro, ferreiro, repórter. Posso estar vivo para além da mecânica da respiração, do frenesim onírico, da roda alimentar, da enxúndia bibliográfica.
Pela tardinha, arrumado o gravador, quando o mel do sol coagula casas e veredas, uma pessoa é outra vez gente. Eu sinto. Os lugarejos, semeados pelo vento a toda a extensão do vale, pepitam de candeeiros. Um fio de azeite frita peixe miúdo. O louco que pede cigarros sossegou sob a tília, ei-lo que boceja imune como um cachorro.
Mulheres vivas, ausentes homens – o jogo é de sempre. Compreendo a minha função, exerço-a, não lhe chamo destino, chamo-lhe função. Formiga laboreira, acumulei víveres no carro. Pensar é conferir bronze à lata de viver. Não penso muito.
Às nove da noite, o ontem dos ferreiros reviverá no futuro escuro da rádio. Escuro e furtivo como o gato da moleira.
Não ligo o rádio: ainda é tudo tão cedo.



Caramulo, tarde de 27 de Julho de 2006

Thursday, July 27, 2006

Antes da Noite de 25 de Julho de 2006

1. Verificação do Cenário

O futuro era isto.
Ao cenário falta apenas acção.
Há casario, há arvoredo.
A estrada existe.

Há resina, há azeite.
A loja expõe melões.
Um inválido de olhar transparente
espreita, de entre cortinas, para
baixo.

Homens de pele cor-de-ouro
brilham sem querer
ao derradeiro sol do dia, digo,
do futuro.



2. Xilo

Para escrever quanto me lembro de ti
fui comprar um lápis, mas esqueci-me quase
de ti por causa da loja, que era
muito triste e bonita, o chão de madeira,
as paredes de madeira, a cara da
velhota de madeira, de madeira a louça,
de madeira os tapetes, os frascos, os azulejos,
o ar.
De tudo isto verificarás quão fácil é quase
lembrar-te.
Basta alguma madeira e
alguma arte.



3. Promessa

Ainda demoro um pouco.



4. Punho

Seres tão bonita não me afecta.
Essa esquerda perna soerguida como a perna esquerda
da letra A não me treme.
Nem a liquidez orquideada das pestanas me faz sentar.
Não. Já não.
Posso discorrer sem sobressalto
em torno da lembrada baía reentrante
da barriga, seu delta, sua fenda.
Mereci esta sobrevida.
Confesso, muito lati, outra hora.
Hoje? Tenho um lápis novo, um dia
que envelhece e desce
das árvores
como um macaco de luz.
Os teus pés perfeitos, desenhados pela
ausência de chão, nimbam-me não
mais.
Nem sei se viceja ainda, cordilheiro, o
tufo vertical de pêlos de ouro
vertebrais.
Basto-me: punho-me, lapiseiro.
Afligiu-me apenas, algum tempo, a conversa dos
outros homens. Garantiam eles a existência de
outras mulheres.
Nisso nunca cri.
Disfarço hoje que creio.
Vejo as mulheres deles: passam alheias
como importadas brisas.
A vida é quanto
basta para que
os dias se tornem anos
como o vento se torna movimento
no ramo da árvore.
Não é assim?
Assim é.
Fluo.
Às vezes, a luz é estrepitosa
como uma règuada.
Um homem também sente.
Finge apenas que não, que
guia tão-só carrinhas a gasóleo,
mercadorias, ir-e-vir-180-quilómetros.
Nada contra isso,desde que
paguem ao fim do mês.
Com o dinheiro novo, compra-se
um lápis novo e escreve-se
para se dizer que se não
lembra.



5. Soneto Heráldico

Podemos sempre, naturalmente, ignorar
a família e estudar heráldica.
Esfregar sabão nos azulejos, dar de costas neles,
afirmar depois que se lavou o corpo todo.

E ser consciencioso: também se pode.
A bem ver, pode-se tudo.
Basta reler o Conan Doyle,
acertar-se à quinta vez no criminoso.

Um amigo meu comprou, mas com
a mulher, uma vivenda por
dezoito mil contos. Foi um bambúrrio,

Digo, o achado. Tenra relvagem afronta
a casa, garagem depois, atrás. Não
ignorantes, heraldizaram-se um do outro.



6. Outro, Mas Agora Menos

A luz pulsa, da farmácia.
Bronqui'árv're tosse d'ar.
Gema d'ovo dá d'acácia,
sinto o corpo farfalhar.

A manteiga é tão cinzenta,
tão nojenta a margarina.
Diga-m'agora, menina,
'm'é q'um home' s'á-d'aguentar.

Fixa triste na janela
o além-campo litoral.
Tule e gaze dão por ela
flu'rescente, seminal.
Nasci perto do Mondego,
minha vid'é sem sossego.



7. Carlos de Oliveira Tinha as Suas Coisas

Animal cansado, capô de peito,
moreno talvez - nunca te vi mais
gordo.
Bicho semântico, quantas vezes
ministrei vocabulário (dizia-se
léxico) teu a incautas crianças.
Gostavam, aliás:
do que um morto é capaz.



8. Tenho de Ir Jantar, de Modo que um Fado

Rio é mar sem um diploma
sem curs'universitário
gaivota não é paloma
camelo n'é dromedário

Tu não faças confusões
e compra mãe-ciclopédia
põe de lado uns tostões
p'ra fazer ver ós ganhões
que tu és da classe média

(agora todos)

Somos bairristas
da bandeira nacional
somos sacristas
mas ninguém nos leva a mal
país d'Amália
Luís Figo e Belmiro
se m'atirar só m'atiro
p'la honra de Portugal

Caravelas cinco c'roas
peida-se o Vasco da Gama
damões dius tudo goas
penico baixo da cama

S'ingurança social
ó Estado pró-vidência
ETA Brigadas Vermelhas
'té tu Papa t'ajoelhas
a Cristo e à violência

(agora todos etc..)

Tuesday, July 25, 2006

Entardecer de 24 de Julho de 2006

Prólogo

Vivi ontem um dia tranquilo. O calor não exagerou. O dia de trabalho formigou-se bem. As horas foram de areia. Havia brisas verdes e canárias, cantavam de fresco nas tílias e nos cedros. Cirandei a meu mesmo lado como um companheiro inelutável. Tinha lido bastante, sobretudo coisas necessárias ao trabalho. Pelo fim da tarde, mereci uma hora na esplanada do Avenida. É a tal sob tílias, as mesas são de ferro pintado por ingénua mão. Tinha papel e lápis. Saíram três textos. Dou-vo-los.

1. Casa Pouco Pia

Nunca tive filhos homens, por isso escrevo-os.
São os meus homens rumorosos, partidos cacos
de espelho. São os meus meninos.
Personagens? OK, está bem, personagens. Mas
gente masculina, gente geralmente só,
em pensões, mecânicos de autocarros,
advogados, professores, electricistas,
farmacêuticos,
geralmente sós,
em pensões.
São a minha galeria.
As letras de galeria
dariam
alegria,
já vistes?
Não dão.
Geralmente sós,
os meus meninos.



2. Já Agora

Está tudo bem.
O Manel não ligou.
Suponho que a Mãe
finalmente aceitou.



3. Guião-Sinopse para um Programa do Professor José Hermano Saraiva

Raspas de corno
unha de gata
amor-alcatifa
co'a Sé concordata

Ó Gomes da Costa
28 de Maio
é tudo uma bosta
desabril desmaio

D. Carlos coitado
vindo da caçada
levou c'a chumbada
banhudo caçado

Ó Tó-Zé d'Almeida
Ó T'ó'filo Braga
ó levar na peida
muit'o povo caga

Vei'a tuberculose
mu'to povo limpou
n'há rico que goze
t'm'ém ele chupou

Em Vila Viçosa
florbelo irmão
mu'ta a gente goza
co' sexo da mão

Ó Nicolau Bráina
Da velh'RTP
tu sabes da faina
iss'a gente vê

Pátio das Cantigas
Costa do Castelo
Broches às urtigas
Q'o mamar é belo

Minet'é limpinho
Conforme a senhora
'té Jesus bebèzinho
limpou manjedoura

Esta casa q'aqui vedes
nela cagou d.afonso
oxiúros de tão verdes
ó cu mesmo deram responso

Ó 1º de Dezembro
ó 24 de Julho
ó país de que não lembro
tanta porra de entulho

No nosso próximo programa
daremos em 1ª mão
florbelinha que muito ama
(é segredo, é o irmão!)

Friday, July 21, 2006

Mãos Velas

Há mãos mais belas do que mulheres inteiras.
Não tocam os objectos, dizem-nos.
As outras mãos são objectos, perante elas.
Essas mãos não dão nunca a mão.
Não têm idade nunca.
Semelham jamais ter nascido.
Nunca as vi mortas, pousadas embora,
algumas, sobre vazios cascos, de gente,
na igreja, velas ardendo.
Não amo tais mãos, acho-as só
sós. E belas.
Torcem-se de sangue e ossos.
Ganham sol, aranhas morenas.
Algumas dizem adeus no vidro
dos comboios.
Outras pulsam a linha de pesca.
Umas têm dinheiro, outras
pedem-no.
Todas iguais, rumorosas todas.
Como insolentes crianças cheias
de inteligência macabra.
Só se calam quando chegam
à poesia: é vê-las
então, mamando
do próprio veneno.



Caramulo, noite de 20 de Julho de 2006

Wednesday, July 19, 2006

Três Homens mas já Nenhum Rio

São dois homens sentados em cadeiras de ferro pintado de azul. O chão foi acimentado há muitos anos. Gretas sulcam-no, enveredando formigas. Um dos homens levanta-se, a rua é a descer, ele desce até desaparecer do lado direito, em baixo.
Se eu agora pegasse num lápis de cor e pintasse o percurso dele, obteria mais do que um traço sinuoso. Obteria o rio dele. A greta de sombra que ele sulcou, abandonando esta nascente de dois homens. Sem ele, eu faço de segundo homem. Estamos em mesas separadas. Estamos sob as tílias. A luz é muito doce. Lá dentro, na sala de café, não tardará muito que o televisor comece a expectorar o telejornal. Líbano, pedofilia, incêndios, banco-de-portugal, hóquempatins, desfile de moda. Não possuo, sequer, um lápis de cor.
O rio do homem secou, entretanto. Ressinto a facilidade mortal com que secam os rios da passagem dos homens.
Entendi, finalmente, a História: as coisas são as coisas são as coisas são as coisas. Tanto tempo. E finalmente. Ou: e inicialmente. É bom. Sinto-me bem. Pena - só dispormos deste corpo traçador de rios deléveis. Se eu fosse, se eu pudesse ser os três homens - o que vai, o que fica, o que imagina um lápis de cor.
Belas tílias, entretanto. Chupam a água de sob o cimento. Deflagram interminavelmente. Gretam o cimento: querem olhar para baixo e voltar a ver a terra. Sobre o cimento, os meus sapatos muito correctos. Dentro dos sapatos, os meus pés portugueses. Lembro-me de ter metido estes pés num rio verdadeiro. Foi há muitos anos, mas já estas tílias existiriam.
Meter os pés no rio foi como molhar o coração. A floresta, nas costas do terceiro homem, subsistia dele. Digo - do rio. Nesse dia sem data (as coisas são as coisas são as coisas são as coisas), não poderia nunca ter-me ocorrido traçar de cor o rio. Quem já o traçava era uma mulher de quatro anos de idade. Assisti a tudo: a alegria dela era frondosa como um agrupamento, tantos anos depois, de tílias. Sim, ela era metade da razão por que o Verão se solsticia: para que nele fulgurem águas e crianças.
Reparo que, por momentos, não estive sob as tílias. O outro homem desapareceu, neste lapso. Não pude traçar o rio dele. Ficamos eu e algumas formigas. O telejornal vai nos incêndios. As tílias são as tílias são as tílias são as tílias.


Caramulo, tarde de 18 de Julho de 2006

Tuesday, July 18, 2006

Fado-Tango da Rosa Plastificada

1
Cada um em seu destino
trata da vida a correr
é assim desde menino
é assim até morrer.

2
Todo o dia se faz anos
todo o ano anoitece
quem pode à noite esquece
do dia os desenganos.

ESTRIBILHO
A rosa plastificada
sentinela à cabeceira
primavera congelada
falsa à tua maneira.

3
Estou a meio da vida
mais metade entretanto
fica-me a letra vencida
reformada no que canto.

4
Tenho andorinhas de barro
no muro crucificadas
à janela de cigarro
voo de asas paradas.

5
Às vezes por distracção
sou feliz não digo nada
tépido o meu coração
é uma rola sossegada.

6
S'a filarmónica passa
alecrim e rosmaninho
sino não tange desgraça
Deus é pão o Deus é vinho.

7
Minha casa é lusitana
naperons e guardanapos
acolchoam a choupana
são garridos os meus trapos.

8
Desde que te foste embora
mais sobra onde arrumar
o sal que um homem chora
põe-se ao sol a secar.

9
Sobe a Lua argentina
ó prata do mar estrelado
tenho deitado a meu lado
um fantasma de menina.

10
Ela cresce é rapariga
é dengosa é mulher
nada conta só castiga
quanto um homem lhe quer.

11
Hoje faz-se a luz vapor
algodão que queima a sede
no campo passa um tractor
vermelho em milho verde.

12
No solar abandonado
Camilo Júlio Dinis
na taberna sossegado
meu coração é perdiz.

13
Todo o antes é depois
ilusão de saciedade
um mais um nunca são dois
são só dobro de metade.

14
Vejo noivas engordadas
fotografadas a sós
luzentes acetinadas
e beijadas por avós.

15
Pisca o estio seu luzeiro
clarões flasham milharais
depois o céu em chuveiro
quer chorar 'té nunca mais.

16
A cois' assim se sucede
não se mede o infinito
antes que um anjo se quede
fica o não dito por dito.

17
Da infância refogada
ó cheiros da mãe-cozinha
a alma nasce sozinha
sozinha é entregada.

18
Verifica a tua rosa
tu não lhe queiras geada
qu'embora plastificada
dá ilusão de viçosa.

19
Certa terça-feira um dia
Vi que chovia à maneira
parecia a vida inteira
na quarta 'inda chovia.

20
Num repente fez-se sol
barra azul de giz o mar
m'estendeu o seu lençol
só p'ra nele m'eu ir deitar.

21
Não deitei fiquei n'areia
não me falta embarcação
não a vida não é feia
tem remos o coração.

22
Guardo dentro da carteira
a etiqueta de um gelado
que a minha filha matreira
deu depois de o ter papado.

23
Junto a Sua Santidade
a etiqueta deformada
podeis rezar à vontade
não é quadra blasfemada.

24
Eu não queria mas vivo
do lusco-fusco a manhã
tarde noite sobrevivo
coraçãozito-romã.

25
Muito tenho eu vivido
em certa literatura
não compensa tanto lido
o viver que se procura.

26
1800 sessenta e três
Júlio Dinis para a sobrinha:
fui renovar a covinha
que cavaste outro mês.

27
Covinha fui renovar
teus 13'anos minh'alma beija
adro da igreja d'Ovar
já morremos assim seja.

28
Uns baguitos de arroz
marmelada aos quadraditos
ceia que a si mesmo pôs
o T. Braga entre escritos.

29
Havia o Pinheiro Chagas
merda escuma portuguesa
ao Eça 'inda hoje pagas
c'os colhões e c'a tristeza.

30
Não é triste o meu viver
papéis voam pela casa
sou mais ave d'anoitecer
não me falta o golpe d'asa.

31
Minha mãe lavou retretes
na estação dos Correios
meu pai via bicicletes
e sonhava sonhos feios.

32
'screvo como quem procura
sentido orientação
'inda não é a loucura
'inda não a salvação.

33
Talvez venha se vier
o remanso prometido
não ser homem nem mulher
ter-se apenas nascido.

34
Ter-s'apenas merecido
por nascer em Portugal
idioma escrito e lido
fado-tango coisital.

35
À mesa da cabeceira
ó rosa plastificada
ist'é insónia parvoeira
faz favor não digas nada.

(ESTRIBILHO à vontade do cantor)



Caramulo-Campo de Besteiros-Tondela-Caramulo, manhã de 12 e manhã-tarde de 14 de Julho de 2006

Monday, July 17, 2006

Calor

Movimento-me devagar no plasma, peixe de boca aberta no aquário desconforme da luz. Que a luz é tão intensa, que desfoca a aldeia do Carvalhinho, esse presépio partido na língua de serra suspensa sobre mais nada. Babam sombra as crianças terminais do lar de velhos. Estão na xaroposa realidade, talvez alheias à loucura de viver. Consomem remédios, papas, garrafas de água, bolachas moles que se lhes empastam nos interstícios das próteses dentárias.
Eu ainda passo. O coração bate-me contra um fundo de alguidar. Os ossos guincham-me de esferovite. É o dia décimo deste julho irremediável. Ao almoço, como um operário da minha infância, comi bacalhau. Lavei a cara com água morna, purgatoriei uma sesta benigna que as moscas serraram a meio. Voltei ao trabalho como um sonâmbulo. Às vezes, custa um pouco mais do que o preço exposto. Eu digo – viver. Outras vezes (mas não é este o texto), é bom. “E a quem alçaras/O gemente clamor? Ao mar, que as ondas/Não altera por ti?” Isto é Alexandre Herculano, n’A Harpa do Crente. O mar. É longe disto aqui. Ouço-o na cama, quando me espiralo como um búzio fetal. Ouço-o no vento que dá nos cedros, raspando o vento de ondas os cedros.
Tive um cedro, na infância. Tive tudo, na infância. O amor batia-me na cara como uma epifania. Tudo fazia sentido. O mundo era completo como um ovo e cantor como um galo. Um ananás totalizava a maravilha. Como me não impuseram Deus, só tive de acreditar no ciclismo. Hoje, é o calor. Umas vezes, bacalhau. Toucinho, outras. No púcaro de folha, o café para soprar à janela nocturna, de onde verificar o vento nos cedros. Faço sempre isto: que é não existir senão por antecipação da matéria textual, instante merecido do mundo – ovo, cantor – a que só posso chamar poema.
Por outras palavras, tenho saudades do frio. No outro dia, a gata fugiu-me para um sanatório abandonado. Entrei por um vidro partido, andei pelas salas desertas. Impressionou-me a quantidade de penicos de esmalte. Onde eram os quartos, só o desenho geométrico. Arrancaram madeira e caliça, levaram os móveis e os apetrechos. Andei pelo deserto dos fantasmas. Encontrei a gata, tomei-a, resgatei-a do limbo.
Saímos para o ar muito puro do presente. Era um dia de sol, mas não deste calor. Em casa, cozinhei peixe para ambos, ela quis água, eu quis café. Ainda não tinha pegado n’A Harpa do Crente. Já tinham nascido as moscas que podem enlouquecer um homem.
Agora, calma. Calma é calor. Construo o meu texto – a minha vida encalmada. Também me acontece retocar de verniz a geografia por onde me venci e perdi: Praia, Bruxelas, Foitos, Figueira da Foz, Peniche, Braga, Setúbal, Adémia, Vigo, Viseu, Sevilha, Bairro da Relvinha, Alcobaça, Lisboa. Tudo se recondensa na serra. Sou abençoado, cada noite, pelo cinema do sono. Deflagra-se-me o litoral na cerração das pálpebras. O céu da serra, mar alto, sardinha-se de estrelas. Sou devolvido ao oceano amniótico. Pulso. Tenho uma cabeça de astronauta transparente. A nave-mãe não será velha nunca, nunca a verei, quando do bacalhau regresso, entre as crianças senis do lar de penicos e extraviadas gatas.
Movimento-me no plasma, faço por merecer a noite. Hoje, tenho ainda de visitar um político de aldeia, depois um concerto de jazz, depois o velocímetro do carro galgando o dia ganho caminho da cama. Amanhã, dia undécimo deste julho remediado, verei acrescida a conta de meus calores. Sobrou bacalhau. Hei-de pentear de água a couve inconsútil, esfaquear o queijo açoriano, encebolar o rubro tomate, torrar o pão a banhar de manteiga, fazer café. Enquanto não, encalmo de pó o meu texto. O meu corpo, tépido de alguidar, rasa as torneiras. Estou sossegado nele. A tristeza não mata depressa – é um napalm lento. Espera-me na aldeia o político. Na cidade, o jazz. Ainda há tempo, é tempo ainda. Quatro homens chucham caracóis na primeira mesa à esquerda de quem entra. Deixo-me, devagar, passar. É certo o vento, certo é o sol. Casais tensos como arcos farão crianças hoje. Gente só alugará um videofilme. As luzes pirilamparão na noite encalmada. O vento cheirará, no sono, a ananás.


Caramulo, tarde de 10 de Julho de 2006









Thursday, July 13, 2006

Cambra

(Quarto-quadro -e quadras; fita de luz-lua-néon diagonal: sentido céu-janela-cama; rapariga madura deitada de lado; cabelos escuros.)

Esta cama não é minha.
Minha não é esta cama.
Sou a virgo aqui sozinha.
Nunca mais me fazem dama.

(Olhar de cima-tecto; cama larga; duas mesinhas-de-cabeceira: uma inútil; rapariga alonga o braço direito fora da colcha; mão esquecida sobre o útero.)

Posso eu, se quiser,
arranjar qualquer amor.
É reguengo de mulher.
Assim mo disse o doutor.

(Quarto-chambre-cambra-câmara: deslocação do olhar para os pés da cama; deslocação rápida por baixo: um copo de plástico tombado, um lenço de papel amarfanhado, uma revista feminina partida como uma borboleta.)

Eu de dia, lá na caixa
do superminimercado,
só penso em meter baixa
e fugir p'ra qualquer lado.

(Entra aquela música dos violinos: uma qualquer que não dê para dançar; visão romântica: à janela, a cortina respira brisa; relance, quando a cortina sobe, do cedro e da lua.)

Deitada tenho 20 anos,
outr'idade dia afora.
Eu da sombra uso os panos.
Vou ligar a luz agora.

(Flash branco: tipo raio; trevas imediatas; a janela bate; cortina frapeja no exterior; chuva grossa; revista sob a cama folheia-se sozinha; o copo rola; o lenço foge; ela recolhe o braço para dentro; e termina:)

Amanhã, domingo, hei-d'ir
à capela da Agonia
deixar rosas a florir
trinta noites e um dia.

(Trevas definitivas.)



Caramulo, manhã de 6 de Julho de 2006

Wednesday, July 12, 2006

XXX

I
Convoco a minha força.
Dor, humilhação, ultraje, alegria
- rostos do que convoco.
Não chamo por ninguém
- força é força.

II
Sobre o lado esquerdo,
a muralha de pedra
defendida do mar
pelo farol vermelho.
O mar perto e rondando,
como uma orca.

III
Não chamo por ninguém
- e no entanto sou escutado,
não por ouvidos, mas por mãos
pequenas, brancas pequenas mãos.
Ressinto isso.

IV
Às vezes, na cozinha, com
o meu feijão verde, o meu
pão d'ontem, os meus pés
descalços como mãos falidas,
às vezes repouso.

V
Isto está sempre a acontecer
- a convocação. O meu
peito, alcatroado de cigarros,
silva como serpente de mamilos
sem leite nem crias.

VI
Hoje, ouvi música. Ou ontem.
Música acontecida a um homem
que, aos 64 anos, se pergunta:
- Ainda faço sentido?
Li as palavras dele. Ele faz.

VII
Eu também faço. Um homem
é um homem: é a força.
Ou o chamar por ela.
Também ressinto isso.
As minhas mãos cresceram.

VIII
Estou atento à palavra
que diz - Pássaros. Se essa
palavra voa, aqui poisa.
É o milagre do meu ofício:
vejo por isto a volta da força.

IX
Sou amado por desempregados
deuses. Não têm mais que fazer,
amam-me. Reverto-lhes o meu
agnosticismo o mais cínico.
De modo que os amo, também.

X
Isto aconteceu-me: o idioma.
Uma vez, no cais sobre a foz,
vi um pederasta cigano
amaciar as palavrinhas.
Também lhe acontecera.

XI
Não podes matar o passado,
não podes renascer.
Matar é errado.
Renascer é errado.
Só não poder é certo.

XII
O homem que transporta
galinhas passeia com a
mulher dele. Ela deixa
cair penas no chão. Ele
apanha-as, guarda-as. Profissional.

XIII
Ao crepúsculo, a brisa fria.
Rondo, orca, minhas muralhas.
Na volta da fonte, o canto
pelas costas da água. Isto
não é, ainda, o mar. Será.

XIV
Ou não será. O que for,
faz-se consoante as vocais
respostas da força. Não vejo,
às vezes não vejo. Nem olho.

XV
Tenho obedecido a retratos.
Pressa de rosa - pressurosa vida.
Os pés fincados na terra. As
orelhas diademadas de salitre,
a cabeça como um farol vermelho.

XVI
Na cama, abdico da força.
A cabeça, estratossolta, pincha
no ar como um balão de Verne.
Os pés tossem. Abdico. As mãos
fatiam-se de dedos que
afagariam.

XVII
Ou se afogariam, incautos.
Têm força, estas mãos.
Só que não pensam. Esmagam
dentes de alho, fotografias.
O meu problema é que
também fazem versos.

XVIII
A esquerda, menos.
Mas no café é ela quem
dá as cartas. Tira, por
cima ou por baixo, o
transitório trunfo.

XIX
Não existe mais ninguém?
Eu às vezes pergunto.
Falta-me religião para
crer que sim. E no entanto
ouço vozes: lã de som,
de amortecidas ovelhas.

XX
Homens que vi: bigodes de
flanela espumada, cortes
de escocês os cachecóis,
perpétuas constipações deles
penduradas como lustres.

XXI
Vejo que, hoje, a minha força
se faz rogada. Santa caseira,
a minha força de homem
a pouco mais de meio
caminho.

XXII
Sob os plátanos, deles através,
o enlouquecido canta
"gaivota que andas perdida".
Deve estar a gozar, digo
eu, sob os plátanos.

XXIII
Mulheres que vi: bigodes de
escamadoras de peixe, sanguíneas
de alimentação, deformadas
de caçoilos, ânforas havendo
sido, alguma vez, para o
pescador.

XXIV
Tenho pena de não dar
notícias concretas. Aero
ou cabogramas. Algumas
linhas que dissessem de
mim, salvo estas.

XXV
Em outra vida, disseram-me:
- Agora nada, uma pausa.
Eu entendi:
- Agora tudo, uma breve.
Assim se fala de música.

XXVI
Mas não sou o homem de 64 anos.
Faço só esta música, que me
escusa de perguntas. A mão
esquerda galga a mesa, a
folha: a mão esquerda é
mais outonal.

XXVII
A mulherzita das couves
traquiteja, diligente, rumo
a casa. O sol já foi,
a lua será, ela é.
Sagrado Coração de Jesus.

XXVIII
Ou então a mulherzita
professora, diligente, gizando
as moléculas, o pretérito
imperfeito, a união europeia.
Também Sagrado, também Coração
e também Jesus.

XXIX
Ou então o homem das galinhas
aerocabotransportadas, sua
rouquidão suspeita, seu
cavername tabágico,
sua pena suspensa.

XXX
E eu aqui à espera dela.
Talvez tenha pousado no meu
ombro como um papagaio
mudo. Força, ó força.
Desempregada como um deus
dos meus.



Caramulo, anoitecer de 5 de Julho de 2006

Sunday, July 09, 2006

Teletexto

Uns baguitos de arroz, uns quadraditos de marmelada, uma
cafeteira de café: este o jantar, segundo Julião Quintinha,
de Teófilo Braga, perto de morrer-se.
A televisão deste fim-de-semana não me o recordou: vi
corpos elasticados, tvdourados como fritos de capitão iglo,
nadegando fissuras espermatizáveis junto a lusos litorais.

E vi mais.



Caramulo, noite de domingo, 9 de Julho de 2006

Friday, July 07, 2006

Vencimento e outros Poemas de 4 de Julho de 2006

1. Vencimento

Sei que está certo procurar, como sei que achar
é incerto. Em vão numeramos os dias, pois que
as noites são devoradoras de algarismos.
Assim é. Não é
a tristeza poderosa, mas a sua memória: a
nostalgia dela.
Fruto é da civilização, tristeza tal.
Em bifes de cervejaria molhamos o pão
alheio de cada dia.
Não hemos escorrido do padeiro o suor,
nem sua insónia profissional.
Somos os mesmos democráticos outros, nada
nos enche, tudo nos emprenha.
Valha-nos a palidez do bibliotecário, o dele
tédio funcionário, sua fartura
de volumes.
De Yeats se retenha, em péssima própria tradução, que
Carecem os melhores de convencimento, enquanto
aos piores assiste apaixonada convicção.
Sei que está certo não convencer-me.
Vencer-me, sim.



2. Higiene

Nenhuma razão tens, o que não equivale
a que nenhumas razões te assistam.
Se no idioma se fecham
horizonte e janela, mantém limpo,
ao menos, o quarto.



"As razões são tanto o que somos, que só nascendo outra vez as poderemos renegar."
Vergílio Ferreira, Adeus (in Contos)





3. Mas as Crianças, Senhor

Relato televisivo sobre menina adolescente suicida.
Alegados maus tratos do pai
levaram a três tentativas num mês.
Depois lá conseguiu, com a arma dele.
Em criança esfaqueava o boneco Ken,
marido da Barbie.



4. Pano

Drama social e tragédia
não são, dramaturgicamente,
a mesma coisa.
Ora ainda bem.
Suba o pano.



5. Vero

Verdade Total e Verdade Local
e Verdade Individual.
Toda a alma é guarda de corpo.
Ambicionamos um ligeiro
comercial a gasóleo, uma que outra
excursão ao paraíso da vitela assada,
domingos flébeis, sossego de
candeeiro laranja na sala de leitura.
Somos pobres-de-pedir, não tão
pobres a pedir, pobríssimos.
Não desejo qualquer Verdade.
Mente-se para viver-se:
esta é que é a verdade.



6. À Margem

Quero dormir rente a um rio.
Não é pedir muito,
mas é muito, por pedir-se.
A quem, ao quê, aliás, pedir?
A miséria provém da perda
de autonomia.
A miséria não é a falta, mas
o verbo.
Reside ela na repetida ausência
de acção.
Porque há rios todos os dias,
sons todas as noites.
Falta-se o homem.



It is true to say, I think, that the language of the family is the language of the private life - prose. The language of society, the language of public life, is verse.
Arthur Miller, The Family in Modern Drama, cit. por Dennis Welland in Arthur Miller

Thursday, July 06, 2006

Situação Internacional - Quadras Portuguesas

Portugal seria berço belíssimo
de bombistas-suicidas desde que
se não morresse disso e houvesse
hora de almoço a respeitar.

O país da Santa da Ladeira
não percebe nada de Deus.
Pois se nem sequer tem judeus
que se vejam, valha-lhe Deus.

Portugal palestina-se só nos incêndios
de Verão. Extremidade cagada a sul
da europeiunião, país-praia
tira-mete-bandeira-azul.

Vivemos bem, atenção. Ainda hoje
almocei cozido à bandeira nacional.
Comer farinheira não quer dizer
que se não conheça Fialho de Almeida.

Vi um coiso fascista na internet.
Português, fez filhos. Ele já morreu.
Mas os filhos coiso ponto com.
Mandei cortar a luz.

Mas ao sol, de rubra opa,
segura o terno cidadão
a cruz de jesuseuropa,
chefiando a procissão.

Vem aí o mês de Agosto.
Em Moimenta, o émigrã
pode dizer com desgosto
ó que seita ucranianã.



Caramulo, tarde de 6 de Julho de 2006

Pastoral dos Filhos

para a Gracita, que sabe
Vê pois tu como se nos tornam os filhos
meninos-de-rua.
Parece-nos, a nós, impossível como assim,
quando de nós mesmos não fizemos ainda
gente grande.
Eles aí andam, vestidos já de roupas
que lhes não comprámos.
Os livros aprenderam-nos uma vida
parada, paginada, compaginável.
Inimaginável é a outra, a vida
deles.
Como estão agora? Jantam sozinhos?
Terão frio? Imaginam o quê?
Saíram-nos do corpo, não do
pensamento.
Aí estão presos, ilusão nossa.
Estamos quietos como Saturno,
anelamos por eles.
Frescos, tristes, cansados como borregos,
ouvimo-los que balem.
Sonhamos com o Lobo.
Somos o Cão.
Já os amamos para além de nós,
o que não impede tenhamos
sempre um pouco de erva tenra
para eles.
Caramulo, manhã de 6 de Julho de 2006

Tuesday, July 04, 2006

O Último Dia - teatro mínimo

PERSONAGENS:

Dário, um homem de sessenta anos
Hélia, uma mulher de setenta anos

ACTO ÚNICO:

Hora indefinida do dia e/ou da noite

CENÁRIO:

Um quarto-casa. À direita baixa, duas estantes-nichos, uma sobre a outra. Na de baixo, uma cafeteira azul de esmalte com flores de papel muito velhas. Na de cima, fotografias a preto-e-branco com rostos indistintos, brumosos. A seguir, subindo, do mesmo lado, uma lareira sem lenha onde um aquecedor eléctrico pequeno de duas resistências substituiria o lume se não estivesse desligado: a ficha, à vista do público, no chão aos pés da tomada. Nota: o mesmo com todos os apetrechos eléctricos em cena. À direita alta, uma banca de cozinha minimamente apetrechada. Um fogão pobre, branco, de esmalte, só de dois bicos. Por cima do lava-louças, o esquentador tem um aspecto queimado que sugere avaria irremediável. Ao centro-fundo, a cama de ferro do casal. Por cima da cama, o quadro do menino-que-chora. À esquerda alta, um roupeiro sem portas com roupas penduradas de um arame. Aos pés do roupeiro, uma arca de cartão com motivo escocês verde muito lascada. Maços de jornais e revistas. Sapatos e chinelos desirmanados. Apetrechos eléctricos imprestáveis. À esquerda baixa, uma porta. Ao centro da cena, uma mesa de cozinha de fórmica e duas cadeiras de igual material. Sobre a mesa da cozinha, um rádio de fio pendurado, inútil. Uma lâmpada nua suspensa na perpendicular, mas descentrada, sobre a mesa. No início, Dário está de pé, à esquerda; Hélia está sentada à direita, de costas para o centro e virada para a lareira apagada. Folheia um álbum de fotografias. As pretensas fotografias familiares são recortes de revistas.


Hélia (com um suspiro) O que estes meninos crescem, parece impossível…
Dário (de costas para ela, sem se virar) Hã?
Hélia O meu filho aqui na escola, parece ontem, parece uma miniatura dele mesmo, valha-me Deus.
Dário Não é boa coisa estar sempre no passado, mulher. Faz mal, acho eu que faz mal.
Hélia (em voz baixa) Como se tu alguma vez fizesses outra coisa, benza-te Deus. (Subindo a voz) De vez em quando, não faz mal nenhum. É o que o futuro nos deu.
Dário (virando-se para ela) Hã?
Hélia Felizmente, tenho-os aos dois bem. O meu Raul de mecânico de oficina e pagam-lhe ao fim do mês. E a Isabel lá fora.
Dário (aproximando-se da porta) Achas que chove hoje?
Hélia Vi o meu Raul há coisa de dois meses na cidade. Riu-se para mim com a boca toda. Ele ri-se com os olhos. Gosto quando ele faz assim.
Dário Pára lá com essa conversa do filho e da filha e dos filhos dos outros. Tás aqui tás a falar do teu falecido homem pai deles e lá vem a missa.
Hélia (voltando-se, fria e agressiva) Não te admito faltas de respeito. Estás avisado há muito tempo que não te admito faltas de respeito dessas.
Dário (encarando-a, mas de ao pé da porta) Estou farto de ser obrigado a resmoer no mesmo. Sempre a ir ter ao mesmo.
Hélia Estás ao pé da porta.
Dário Hã? O que é que queres dizer com isso, hã?
Hélia Que estás ao pé da porta. Quero só dizer que estás ao pé da porta.
Dário És bruta. Está-te na massa do sangue. És bruta. A pensão é tua, modos que podes falar como as rainhas, não é o que pensas?
Hélia Só não quero é faltas de respeito. Quais rainhas…
Dário (olhando as próprias mãos) Eu só queria falar do tempo. Se chove, se não chove. Ter uma conversa de gente. O que eu queria era só isso, ter uma conversa de gente. Quero lá saber de fotografias ou de mortos.
Hélia Ciúmes pode ser uma coisa boa como o sal. Mas demasiado faz mal.
Dário Hã? Qual sal? Vou mas é ver se está a chover, que merda esta!
Hélia Se saíres agora, esquece-te de voltares.
Dário (parando, sentando-se na cadeira ao centro) Eu falo-te alguma vez na minha filha? Eu falo-te alguma vez na minha filha para te moer, falo?
Hélia Não me mói que me fales da tua filha. Até gostava que me falasses dela.
Dário Gostavas era de ir lamber sabão.
Hélia Tenho setenta anos feitos. Não tenho de te ouvir falar assim, nem a ti nem a ninguém.
Dário Eu calo-me. O que me dói, eu calo-me.
Hélia Calas-te até a bebida te desarrolhar a boca. Depois é a conversa do costume.
Dário Não bebi nada hoje nem ontem.
Hélia Por isso é que torces as mãos e me faltas ao respeito. É por isso. Então sai e vai beber e deixa-me aqui. E esquece-te deste sítio.
Dário É tão bom estar no poleiro, não é, minha galinha velha? Tão bom receber uma merda de cinquenta contos e pagar as sopas e mandar no palácio, não é? Hã?
Hélia Homem, cala-te, por amor de Deus. Sai um bocado, a sério. Podes voltar depois. Faz isso, faz como quiseres. Quando estás assim, a tua boca fica mais suja do que o chão. Deixa-me ficar aqui ao lume.
Dário Eu também não quero guerras, Hélia. Só queria era começar outra vez.
Hélia Isso não pode ser. A vida não pode ser isso, não deixa. O futuro já está feito para a gente.
Dário Ainda temos algum tempo.
Hélia Olha à tua volta. Aqui dentro. Olha à tua volta: o que é que vês?

(Silêncio prolongado. Hélia de olhos fixos na lareira. Dário esgazeia em torno.)

Dário Achas que chove hoje?
Hélia (fecha o álbum, levanta-se, vai ao fogão) Vou fazer café. Só há do de frasco. Queres uma caneca dele?
Dário Com uma pinga de aguardente?
Hélia Sim, meu amor. Já mereces a tua pinga de bagaço. Pareces ter tudo controlado, finalmente: o ciúme, a raiva, o futuro, a chuva e o mais que vier de debaixo da cama ou da terra.
Dário Hélia, desculpa. Desculpa-me mais uma vez. Sou um gajo perdido. Tenho uma raiva qualquer contra quem não devo. Só aqui estás tu.
Hélia Tu também aqui estás, Dário. Também és suspeito.
Dário Hã?
Hélia Deixa. (Põe as chávenas e o frasco na mesa. Traz as colheres e o açúcar. Vai à arca e tira de dentro dela uma garrafa de aguardente) Não bebas pela garrafa. Não posso com isso. Nunca pude que fizessem isso à minha frente. Bebe pela chávena no fim do café.
Dário Sim, minha rainha.
Hélia As rainhas são mulheres como as outras.
Dário Achas que as rainhas também bebem café instantâneo?
Hélia Acho que sim, que devem beber. Só não acho que se juntem com electricistas de automóveis que não saibam consertar uma porcaria de um radiador que dê calor à casa.
Dário Ao palácio.
Hélia Quê?
Dário Elas vivem em palácios. Nunca viram uma casa por dentro, aposto. E um quarto destes, muito menos.
Hélia É tudo igual. No fim, é tudo igual.
Dário Achas que já chegámos ao fim.
Hélia Não há-de faltar muito.
Dário Não era uma pergunta.
Hélia Também não te estava a responder. (levantando a louça) Mas se mo tivesses perguntado, respondia-te que sim, que acho. Mas também acho que mais vale fingir que não.
Dário Eu queria ter-te conhecido antes dos filhos. Queria que essas fotografias todas fossem de filhos nossos.
Hélia Deus me livre.
Dário (ofendido) Hã? Porquê? Meto-te nojo?
Hélia (alheia) Tive algum tempo bom, apesar de tudo tive algum tempo bom.

(Silêncio. Hélia retoma o lugar sentado à lareira. Dário senta-se e levanta-se, inquieto, ciranda pela cena, mexe nos aparelhos eléctricos.)

Hélia Ainda cá ficas depois de mim.
Dário Não sejas parva. Isso é conversa parva.
Hélia Não tem mal nenhum. É como é.
Dário O que é que é como é?
Hélia (marcando as frases) Só gostava era de termos uma janela. Não precisava de ser para a rua. Bastava-me que fosse para trás. Sempre se via uma couve, ou se era de manhã ou de noite.
Dário Olha, querida, podíamos sair hoje. Ir ao café. Sempre víamos se era de dia ou de noite. Cheirar o ar, ver os candeeiros públicos. Ou ver as estrelas, que também são públicas.
Hélia (dura) Combinámos, não combinámos? Que espécie de palavra é a tua? Que espécie de homem és tu?
Dário (em falta) Hélia…
Hélia Combinámos, está combinado.
Dário Achas que o dinheiro de dois cafés nos vai fazer passar fome? Então tomas só tu, eu digo que não-me-apetece-nada-obrigado. Mas sempre saímos daqui um bocado. Isto abafa. Não temos uma janela, estamos sempre para aqui com os teus filhos e o teu falecido e isto e isto mesmo. Abrimos aquela porta e saímos. É de borla. Nem vamos à porcaria do café, pronto, Hélia! Hélia…
Hélia Já tomámos café. Já tomaste a tua aguardente. Queres mais, tens ali mais. Queres sair, sai tu. Já te disse até que se quiseres voltar, volta. Não quero estar sempre a fazer de carrasca, mas combinámos o que combinámos. O meu lugar é aqui. Se queres ter um lugar de homem, é ao pé da tua mulher. Se não tens palavra de homem, faço eu de homem também.
Dário (ofendido) Faz antes de rainha. É o que sabes fazer melhor.
Hélia Estou cansada. Deixa-me em paz.
Dário E eu quero ver luz, quero cheirar ar fresco.
Hélia O que tu queres, sei eu.
Dário (levanta-se e senta-se, desistindo) Está bem, não se sai. Fica-se aqui para sempre. Mete-se um papel debaixo da porta com os nossos nomes e as nossas datas. Só temos de escolher o último dia. Quantos são hoje? Sem janela, é difícil saber quantos são hoje, meu amor.
Hélia Disparates.
Dário Não, a sério. Nunca falei tão a sério. Dário Pereira, 8-5-1944 e Hélia Silva, 4-2-1934. Escolhe tu a outra data. Escolhe hoje. Só tens de saber quantos são hoje.
Hélia Pára com isso! Estás-me a assustar! Não te devia ter deixado beber aguardente.
Dário Diz-me quantos são hoje, ó meu amor reformado, ó guardiã do futuro e do passado que nem sabes a quantas andas, eh guardadora de pobres de espírito sem asilo nem filhas emigradas em França nem filhos mecânicos que se riem até aos olhos: queres que este seja o nosso primeiro último dia?
Hélia (levanta-se, dirige-se à arca, tira uma carteira de dentro dela) Toma dinheiro. Sai. Podes voltar, não tenhas medo. Tens a minha palavra de honra em como te deixo entrar em casa, venhas no estado em que vieres. Toma, leva a chave. Eu deixo-te entrar. Bebe o que quiseres. Mas agora pára com isso!
Dário (marcando as frases) Mas eu quero sair contigo. E voltar contigo. Homem e mulher, um casal de gente normal. Quero que a gente seja um casal normal de gente normal, homem e mulher.
Hélia E eu combinei contigo cada tostão. É pouco, mas dá se fizermos como combinámos fazer com cada tostão todos os dias de todos os meses.
Dário Não quero o teu dinheiro. Só queria que me dissesses quantos são hoje.
Hélia Não queres o meu dinheiro? Não tens onde cair morto, miserável!
Dário Aqui parece-me um sítio tão bom para cair morto como outro sítio qualquer, ó minha rainha… (aparentemente senhor da situação, mas à beira do colapso) Não tenho mas é onde cair vivo, Hélia.
Hélia (visivelmente constrangida) Desculpa, Dário. (Vai compor as fotos na estante-nicho. Muda a posição da cafeteira-jarra) Achas mesmo que estou sempre a falar no mesmo?
Dário Não. Acho que és uma mulher maravilhosa. Só queria ter tido filhos contigo e que Deus não tivesse de te livrar por causa disso. Queria mesmo. Não é coisa de macho nem de ciúmes.
Hélia É coisa de macho, mas gosto de ouvir. Aos setenta anos, ainda é agradável.
Dário Ainda gostas de mim?
Hélia Nesta idade, Dário?
Dário (batido) Hã? Nesta idade, como? Sim, nesta idade, por que não?
Hélia Às vezes, pergunto-me em que mundo é que andaste os teus sessenta anos todos. A sério.
Dário (desconfiado) O que é que queres dizer com isso?
Hélia Só o que disse. Não desconfies.
Dário (chocado, em plena incompreensão) Uma pessoa… És fria. És como o gelo.
Hélia A vida é assim. Sente-se ternura, mas o amor gasta-se. A ternura acaba por ser melhor, acredita.
Dário À merda mais a ternura!
Hélia Dário…
Dário És fria. És de pedra.
Hélia Pronto. Estou outra vez cansada. Sai daqui.
Dário És uma rainha de cinquenta contecos por mês: uma rainha de chinelas!
Hélia (ciranda em torno da mesa; senta-se na cadeira dele) O falecido pai dos meus filhos, sabes?
Dário Que se foda ele e tu e os teus filhos!
Hélia (ignorando, com visível esforço, as obscenidades de Dário; tom de solilóquio, virada para o público, olhar para cima, perdido) O falecido pai dos meus filhos. Também teve um tempo bom e deu-me um tempo bom. Era mecânico, pegou o gosto dos carros ao filho como se fosse a gripe. Tinha bons dentes em solteiro. Pareciam mais brancos na cara suja de óleo. Depois o tempo e as comezainas e o tabaco e o álcool estragaram-lhe os dentes, mas lembro-me sempre deles muito brancos, a gente lembra-se sempre como escolhe lembrar-se. Também me lembro das mãos dele com o pano de desperdício às voltas. Mãos de homem, feitas para segurar destes lados, levantando as costas, as minhas costas leves, feitas de cana. Foi pouco tempo, isso tudo. Demorou o tempo de o estar a contar agora. Foi dois anos? Não, o Raul e a Isabel têm vinte e um meses de diferença. Depois, ele ficou mau. Ou o que era mau nele tomou conta do resto. Eu depois disseram-me que a doença faz assim, que a doença é mesmo assim, que a culpa não é toda da vítima.(Dário senta-se no lugar dela à lareira apagada) O cancro na cabeça não o deixou escolher o último dia ou o primeiro, como tu pretendes fazer por causa das moedas dum café ou dois, comigo ou não, com aguardente ou sim. Ele não escolheu nada. Olha, safou-se disto: de me conhecer velha e reformada, a tirar vinte e seis contos de cinquenta para pagar quarto, água e luz, fora pão, café e aguardente, contando contigo, meu querido. Uma vez, chegou-me a casa riscado de sangue. Tinha sido despedido, pois pudera. Tinha-se metido por uma valeta num carro dum cliente. Os espertos concluíram logo que tinha sido do álcool. Quando souberam que era cancro no cérebro, vieram ao funeral. Estive para mandá-los à merda dentro da própria igreja. Nunca te contei isto, já está contado. Vamos sair? Sempre vamos sair? Acho que sempre me apetece o tal café.
Dário Não. Percebo.
Hélia (dirige-se a ele, põe-lhe as mãos nos ombros, acariciadora) Pobre homem. Pobres homens. Pensam que só eles é que têm contas a ajustar com o céu e com a terra e com o mar, não é, meu príncipe?
Dário Diz? Como?
Hélia Agora diz-me a tua história. Ao menos, podemos ficar os dois decentemente tristes. E depois, talvez eu concorde com essa coisa toda do último dia por baixo da porta. Ou talvez não. Vende-me lá o teu peixe, meu querido.
Dário Tu já sabes a minha história. Não tem piada nenhuma, a minha história.
Hélia Sei. (relance para o público) Mas há quem não saiba.
Dário (mesma posição “narradora” de Hélia, antes) É o normal do costume. O marido desta senhora, meu colega de oficina. Há muitos anos. Ela, boa de fazer farinha, a trazer-lhe o almoço ao trabalho. E eu fora da mulher num tempo em que divórcio nem palavra era. Uma vergonha para mim, um gozo para ele. Depois vi-o ficar esquisito, as dores de cabeça, a doença, falhar as reparações mais fáceis. Disfarçava comigo com bagaço e cerveja ao mesmo tempo quando mais lhe doía. E eu sempre com ele, sempre com ele. Sem ser por mal. Depois não há muito mais história. É a degradação. As pessoas usam roupa preta, os sinos tocam, as mulheres ficam livres como os táxis e envelhecem e nunca mais hão-de emprenhar de ninguém e é bem feita.
Hélia Chega perfeitamente, meu querido, minha ternura. Chega perfeitamente. Estiveste branquinho como um anjo.
Dário (sorrindo, pueril) Achas? Achas mesmo?
Hélia Acho. E também acho que devíamos sair os dois para tomar um café grande, um café royal!
Dário E eu conserto amanhã o radiador?
Hélia E tu consertas amanhã o radiador.
Dário Ou arranjo lenha.
Hélia Não, lenha é que não. Mais dez tostões de luz não atrasam. E o verão está à porta.
Dário Achas mesmo?
Hélia Que o verão está à porta?
Dário Sim.
Hélia Acho que tudo está à porta.
Dário Vamos ver?
Hélia Vamos.

(Vão ao roupeiro. Vestem os casacos. Não saem. Sentam-se cada um em sua cadeira. Luz diminui gradualmente até escuridão total. Assim o tempo suficiente até confusão do público, que aplaudirá confundindo com FIM. Regresso também gradual e lento também da luz. Dário está sentado à lareira, na posição que era de Hélia. Hélia está de pé junto à cama, terminando o gesto de benzer-se.)

Hélia Não vens deitar-te? Está frio. Está muito frio.
Dário Vou já. Amanhã conserto mesmo esta porcaria de radiador. Ou arranjo lenha. Costumam deixar bons bocados de madeira nas obras, não lhes hão-de fazer falta nenhuma.
Hélia Não, não faças isso, ainda te apanham e é uma vergonha. Lenha, não. Conserta mas é o radiador. Não te há-de custar nada. (Som de sinos gravados de igreja perto: música de “A 13 de Maio na Cova da Iria…”). É tarde.
Dário Já nem sei se ainda sei fazer isso, já lá vai tanto tempo.
Hélia Já tudo lá vai há tanto tempo, Dário, não podemos ligar a isso. Não há-de ser por isso que não sabes. As mãos não esquecem.
Dário As mãos não quê?
Hélia As mãos não esquecem. A cabeça esquece, mas as mãos não. Ainda no outro dia estive a falar disso com…
Dário A tua cabeça nunca esquece coisa nenhuma. E o que não esquece, inventa.
Hélia Benza-te Deus.
Dário Só cá faltava esse.
Hélia Não o Ofendas. Nem a mim, já agora.
Dário Preciso de falar de outras coisas. Precisamos os dois.(Luz geral diminui. Foco vermelho sobre Dário. Hélia apenas silhueta, em contraluz. O mesmo a seguir, mas vice-versa, quando a fala for de Hélia e o silêncio de Dário)
Hélia (em contraluz) Talvez sim. Exemplifica.
Dário A 6 de Abril de 1974, num estádio cheio de cabelos e cigarros sem filtro, a versão Deep Purple com Coverdale/Hughes enfrenta a multidão com pleno sucesso.
Hélia Com o sacro triunvirato Blackmore/Paice/Lord?
Dário Isso. Esses todos. Eu não estava lá. Devia estar na oficina com o teu falecido. Éramos moços. Jovens. Era tudo tão cedo, que nem se sabia se era de manhã na nossa vida ou não. Tudo era possível, mesmo assim. Mudar de oficina, ir para o Luxemburgo, não emprenhar ninguém. Ir ver um filme. Comprar uma máquina fotográfica para registar o que se tornava ontem a olhos vistos.
Hélia (sentada na beira da cama, jogo de luzes inverso como indicado) No próprio instante, a possibilidade não é futura, é imediata. Logo, não é possível, mas instantânea. Eu gostaria de perceber Henry James, que era músico de senhoras e cavalheiros sós. Algum jardim onde tomar chá e apreciar a correria sexual dum podengo. Se outra fosse a vida. Se ainda falássemos assim um pouco mais.
Dário Também podemos, um pouco apenas mais. Um sopro de outra gente falando por nós. Sei dizer um poema, não sei como sei, mas sei.
Hélia Di-lo, amor.
Dário Vem de um sonho. Espera, não é ainda o poema. É a explicação dele. Sonhei uma coisa. Se soubesse escrever, teria escrito isto. Ouve:

Um tempo para perceber a pele do ar
Uma oportunidade nova como uma sala azul
Um desejo não obsceno uma mulher que o quisesse
E não perguntasse e só estivesse.



Hélia É um poema, realmente. Não é para perceber. Eu preferia não saber nem escrever nem sonhar. Torna-se monótono ser a desejada. A tal rapariga vestida de azul no tal comboio. Não me importaria de substituir todo o álbum de falsas fotografias de família por algo como um cesto de conchas, uma lata de bonecos de jazz, uma litografia de Jesus no Monte das Oliveiras, uma praia da República Dominicana fotografada em Cuba para que os americanos de cima não soubessem disso.
Dário Substituir?
Hélia Por outras palavras. Antes que a vida acabe, termos outras palavras em casa. Como brinquedos, outras palavras por toda a casa. Palimpsesto. Ónus. Revérbero. Podengo. Blackmore. Bivalve. Radiador.
Dário Eu trato dele.
Hélia Não. Olha só a palavra. A palavra que cheira a queijo antes do queijo ou a flor do monte antes da flor do monte. Um concerto antigo dos Deep Purple, como dizias agora.
Dário Há a versão da banda com Glover/Gillan. É outra coisa, o timbre é outro.
Hélia Sim. Essas coisas deixam conhecer-se. Há acesso a elas, noutra vida, noutros dias que não sejam tão últimos quanto este. Mas, daqui a pouco, meu príncipe, perdemos a noção, vamos perder de novo esse conhecimento mundial. Voltaremos para junto de nós, à frentatrás. Nem medo tenho. Só frio. E é tarde. Não vens deitar-te? Está frio, está tanto frio.
Dário Daqui a pouco, quando nos perdermos.
Hélia Gostei do poema. É teu?
Dário É de outra pessoa, é doutro sonho. Não é a mesma coisa. Não sei se vou saber consertar o radiador, Hélia. Está frio e eu estou cansado amanhã.
Hélia Às vezes, vejo-te e és só um pobre homem. Outras vezes, és só um homem pobre.
Dário Eu olho-te. Acho que não te vejo.
Hélia É o momento em que poderiam bater à porta. Viriam para nos salvar. Uma ambulância, um filho rico vindo do futuro para que não passássemos frio, um músico, uma lufada de ar fresco pela janela. Achas que podemos mesmo escolher o último dia?
Dário O último dia foi o dia 6 de Abril de 1974. Califórnia Jam. Penso que vou ser capaz de arranjar o radiador. Só espero que sim.
Hélia (deitando-se sem abrir a cama) Espero que sim.
(Luz diminui gradualmente até escuridão total. Luz volta gradualmente. Posições iniciais da peça.)

Hélia Vamos.
Dário Vamos ver.
Hélia Está alguém à porta.
Dário Deve ser o verão.
Hélia Achas mesmo?
Dário Acho.
Hélia Época dos incêndios. Mais dez tostões de bombeiros.
Dário Lenha não falta.
Hélia Conserta a telefonia. Gostava de ouvir música.
Dário Amanhã conserto.
Hélia Devíamos sair mais. Tomar um café royal!
Dário Achas?
Hélia Acho. Parecemos aqui anjos de gesso com as asas partidas.
Dário (posição “narradora” para o público) Não me dói a cabeça. Não me dói nada. Nunca estive numa oficina, nunca conheci o teu marido. Nunca tive filhos, nem tu. Nunca apanhei um táxi na minha vida.
Hélia Não sei.
Dário O quê?
Hélia A tua história.
Dário Como?
Hélia Pobre homem. Homem pobre. Andam no céu a perder a terra. E o céu e o mar: perdem tudo de vista.
Dário Não percebo.
Hélia Nunca me casei. Nunca perdi um homem na minha vida. Nem a vida de nenhum homem. Nunca tive um tempo a que chamasse meu. Nunca tive um tempo a que chamasse bom. Merda merdeca. O dia e a noite, o frio por baixo da porta.
Dário Filhos, instantes.
Hélia Alguma ternura.
Dário Café. Agora, bebia um café.
Hélia Saímos? Vamos sair?
Dário Vamos.

(Vão ao roupeiro. Vestem os casacos. Não saem. Sentam-se cada um em sua cadeira. Luz diminui gradualmente até escuridão total.)





FIM


Tondela, 29 de Dezembro de 2005 / 11 de Janeiro de 2006




Saturday, July 01, 2006

EDWARD HOPPER, ALBERTO ABRUNHEIRO E OUTROS POEMAS DE TRAZER POR CASA

1

Só não digo que guardo em casa as coisas erradas
da vida toda até amanhã - porque
de coisas erradas é feita toda a casa
de todo o homem.
Também de certas - decerto.
A disposição dos órgãos, os cantos mudos,
uma reprodução de Hopper, a neve
(as caras das filhas).
Em casa urde o misantropo sua anónima
filantropia. Os velhos
rejuvenescem em casa, quando
sós.
Em casa, coragem e mercearia.
Um pouco de ambas cada dia.
Se a pergunta estivesse escrita
nos muros das ruas
- "Foi para esta vida que vieste?" -
oh sim, foi para esta casa que vim.
Há vezes em que mais recordo que
penso. Prefiro o contrário, claro.
Em casa, Jorge de Sena e Vitorino Nemésio.
Em casa, viagens litorais.
Na lareira, não apenas lenha:
também o manso ódio às putas sérias,
aos políticos cadaverosos, à má poesia;
e ainda o suave amor às mulheres
cuja tristeza vera impede a putice,
aos utopiómanos e à boa poesia
- tudo arde.
Vejo do parque a minha casa:
covil limpo em cujo dentro posso
esperar homens e mulheres tocados pela
bondade.
Sairei certas noites sem de casa sair.
Assim me sucede permanecer no parque,
abandonado o parque.
Tu agora estás a ler isto, pensas
- "Quanta amargura" - mas olha
que não.
Já não.
Tenho um disco dos Psychedelic Furs,
tempo para ouvi-lo, tenho o número
de telefone da minha Mãe, talvez
lhe ligue para que diminua
a idade dela com a minha.
Isto nunca vai fechar-se - a casa escrita.
Tenho ainda tempo para nascer um pouco mais.
Ser um homem bom para ser um bom poeta.


2

Quando descobrimos que a vida real
não era exclusiva dos reis, foi
um choque. Agradável, mas choque.
Está documentado.
Quem viu já fotografias de Portugal
(de Lisboa, quero dizer) de inícios de
XX, entende isso logo com o coração.
Piolhoso piedoso país pátrio - criança
suja, ignara, malevolente, bonita.
Tenho um sofá no meu coração
em que me sento para folhear
as caçadas gordas do D. Carlos,
a prateleira mamária da Rainha,
a beocidade servil dos ministros,
o bodum dos pés populares pré-Fátima.
Por esse tempo, voltou Fernando Pessoa
para Lisboa. Equivale o momento,
em importância civilizacional, à
chegada do Homem à Lua.
Um clarão daguerreótipo nimba-me
o coração, o sofá.
Esqueci o cigarro que ardia, acendo
outro. Vou buscar mais café.
Estou assim há cem anos.


3

Desde criança espreito os quintais
dos matrimónios velhos.
Casitas brancas e baixas.
Jardins mais hortas que jardins.
Gosto da ferrugem vegetal:
o Tempo botânico.
Na empena frontal um painel
com a Rainha Santa
pingando rosas.
À porta, sentada, descascando favas,
a rainha santa real.
Na horta, o homem, amanhando mais
favas.
Eu passo e fico.
Comovo-me até ao sorriso.
Podes crer que sim.


4

E os mortos?
Queres que fale deles?
Amei alguns.
Não muitos: nisso
são iguais aos vivos.
A imortalidade deles é
nosso ofício vivo.
Devagar.
O meu truque é usá-los como
a um perfume.
Não temos de concordar sempre
com eles.
Aqui na montanha
morreu-me um tio
em Agosto de 1980.
Em Junho de 2006
visitei, por uma manhã de sol,
o cemitério.
Não li o nome dele.
Há muitas campas anónimas.
Pareceu-me bem.
Senti-o, devo dizê-lo.
Não como pirotecnia fátua,
fantasma hollywoodesco,
nada disso.
Senti que o nosso comum apelido
se eriçava de pêlos de braço.
Sussurrei
- "Alberto Abrunheiro" -
e nada mais.
Foi a primeira vez que assim
o tratei.
Quando vivo, chamava-lhe
- "Tio" -
ou
- "Tio Alberto" -
e mais nada.
A morte é merecer o apelido.
A vida, também.


5

Só a beleza faz sentido.
Obrigatório, direi mesmo.
Quando, na praia, uma nuvem
acinzenta o sol, depois nuvai
e nos devolve o ouro:
desse sentido escrevo.
E nesse sentido.


6

Culpa é morrer em vida.
Pena capital merece e leva.


7

Alguns homens sentam-se no muro
ao último sol do dia útil.
Estão muito cansados, trabalharam muito.
Tiraram em casa, à soleira,
botas e meias, tiveram sede,
beberam vinho na cozinha, vieram para o
muro solar.
Pouco falam.
Mas a mim, dizem-me tudo
assim.


8

Antecipo pela língua portuguesa
todos os homens vestidos de cinzento
que no futuro vão demorar-se
um pouco
em varridos do vento cais ferroviários.
Será inverno, terá chovido, terá
a cidade fechado o coração aos viajantes.
Já os vejo - já
os escrevi.


9

Na manhã
ama ainda alguma coisa
antes que se faça
tarde.


10

Há corta-unhas com fartura,
apara o teu corpo;
pentes também,
sulca os pensamentos.
Trata de ti com sabão
e livros.
Não deixes as panelas sujas.
Há ovos e fiambre,
o pão de ontem está bom,
come contra o frio.
Se fores ao baile, leva
as chaves do regresso
a casa.



Caramulo, Café Montanha, tarde de 1 de Julho de 2006,
durante o Portugal (3) - Inglaterra (1) do Mundial da Alemanha 2006