Tuesday, August 30, 2005

Um Fim de Tarde do Século XXI - 10 Fragmentos para a História da Civilização Ocidental

1

Sou desde menino um homem do entardecer: um ser outonal.
Não tenho culpa. Também gosto de ver, mas de fora, as grandes alegrias dos outros, os estrepitosos carrosséis, a invejável Feira Popular da Existência Alheia. Aprecio e passo. Digo boas-tardes e desando.

2

Desando até que aqui chego, a este formoso café triste.
É numa aldeia. A montra dá para o largo da igreja. Depois de tolerados dias intoleráveis, o Verão cedeu tréguas. Embaciou-se como uma limpeza de óculos. Até choveu. O largo está em obras, mas não a esta hora, quase jantar. Uma mastaba de areia, três pilhas de pedras, um passador de areia, um barraco de ferramentas isolado a aloquete: obra sem operários, por hoje. É tudo sempre tão hoje. Gosto da paisagem que vos mostrei.

3

Na TV, uma série norte-americana, pois pudera.
Um assassinado, cinco assassinos e uma data de polícias. O mundo à americana. Sacudo uma mosca portuguesa. Sacudida, ela voa molemente para outra mesa, onde vai afiando as unhas de pêlo enquanto o próximo escritor outonal não chega.

4

E se alguém me perguntasse se amo a vida, diria que sim.
Sim, claro, como não?

5

No mais, é esta demora escrutinadora.
A consciência muito acesa: a cabeça como uma lâmpada. A chuva de meia tarde foi uma bênção. Os incendiários do meu País devem andar macambúzios. Os bombeiros vão poder esta noite cear, copular e dormir com suas esposas desveladas.

6

A TV muda para uma série de médicos.
No café, um homem de meia calva e barba completa afixa na montra uma notícia necrológica. Dando para a rua, vejo o reverso à transparência: era uma vez uma senhora. Se a senhora fosse de ficção, teria talvez sido salva pelos doutores do "Serviço de Urgência" da TV por cabo. Mas a notícia na montra é tão real como a montra.

7

A foto emoldurada da equipa local de futebol:
na parede pintada com tinta plástica dada a rolo com técnica de relevo areado. Debaixo da equipa, um homem material de camisa grená. Fuma um Português Suave, bebeu um martini com cerveja, sorri calado para a TV, onde agora decorre o concurso "O Preço Certo em Euros". O homem está na distracção beatífica dos iletrados: um camelo digestivo. De todos os prémios a concurso, só queria o carro para ele e a máquina de costura para a mulher. Não tem filhos, caso contrário haveria de cobiçar o computador.

8

Um par de representantes de pastelaria entra em cena.
Ele, glabro, nédio, vermelho; ela, carnuda, morenaça, ridente. O patrão da tasca sorri nãos a este produto e àquela promoção. Acabam por acertar uma encomenda modesta de bolos congelados. Magnânimo, o patrão oferece bebidas aos vendedores. A carnuda aceita um frasco de sumo de manga. O macho partilha uma rodada de martini. Tudo bem, paz na terra ao comércio de boa vontade. Eu assisto de lado.

9

Debando a cabeça de pássaro velho:
espreito a obra do largo. O aviso necrológico tapa meia pirâmide de areia. Toda a gente se pirou daqui para fora: olha a novidade. Sobramos eu e a adolescente tardia, filha do patrão, que serve.

10

O cepticismo nonagenário de Bertrand Russel;
o Prior do Crato; o Centenário, este ano, da Noruega; o euro; o assassinato de F.F. em Sarajevo, ano 1914; a derrota de Churchill nas eleições pós-II Guerra Mundial; e a Pasta Medicinal Couto - também fazem parte da História da Civilização Ocidental. Não tenho culpa que sim.



Botulho, Tondela, 10 de Agosto de 2005

Thursday, August 25, 2005

Import-Export

Isto de estar vivo é coisa que dá trabalho. Uma escova de aço torna-se preciso, desde que precisa. Escovamos a penúria, passamos a tristeza a fio de aço. A penúria e a tristeza resistem muito.

Chuvas intensas matam gente, aí. Incêndios desumanos matam gente, aqui. Entre a água e o fogo, toda uma humanidade se torna estatística.

Cabo Verde nunca me choveu. Vivi em Santiago, se tanto, dois dias nublados. O ar chegava à respiração como um trapo de flanela. Pouca sombra abrigava o caminhante. As pessoas eram silhueta de vidro tremido. As casas de tijoleira-cinza reverberavam na ardência quieta. Não chovia.

Por todos os lados do olhar, o mar era um egoísmo de sal. Verde, morno, salgado, alheio – como se dois punhados de ilhas não fossem nada com ele.

Havia minutos tristes. Uma pessoa parecida connosco sentava-se numa cadeira, levava o nosso braço à nossa chávena de café, filmava a Assomada com os nossos olhos, tossia com o nosso peito o nosso grogue.

Havia meias horas distraídas. Na embaixada de Portugal, um pintor de Moçambique coloria uma roda de conversa com whisky da Irlanda. Senhoras gralhavam educadamente em torno. Cavalheiros charlavam, talvez, a propósito da chuva que 1997 não deu.

Havia noites puras. Numa delas, uma farmacêutica madura abordou-me como um transatlântico. Era senhora de um decote de bandeja que arrulhava como uma pomba bífida. Sorriu-me com excepção de nenhum dente. Eu tinha 33 anos e percebi logo por que morreu Cristo com essa idade. Não choveu.

Os anos passaram: para os lados, para a frente, para trás. Os mortos da chuva e os mortos do fogo acrescentam terra ao ar, compendiando os elementos fundamentais que os Antigos tinham por tudo. Não sei se são tudo. Sei tão poucas coisas. Sei que trabalho dá viver. Escrevo devagar. Fio de Cabo Verde. Aço de Portugal.


(Escrito para o sítio na net: www.liberal-caboverde.com
na tarde de 24 de Agosto de 2005, em Tondela.)




Ouro e Sal (série última, 2003-2004)

1 O caso da moral da porca

O meu vizinho tem uma porca que escapou à morte por causa do cio. Foi ele, não ela, quem mo disse. E eu acreditei e acredito. Acredito mas penso. Várias coisas.
Penso que, afinal, o sexo não é a porcaria que dizem. Pelo menos a partir de sábado passado, dia de matança que não foi de matança.
Reparei há muito no facto português de as quatro letras da palavra “amor” serem as quatro primeiras, também, de “a morte”. Mas isso é ortografia nacional. Este caso da porca ciosa (que se chama Ruça mas é branca e rósea como uma solteirona involuntária) levou-me para outros aléns pensativos. Mesmo. Muito.
Perguntei ao meu vizinho como é que ele sabia. Que ela, enfim, estava “saída”. Ele respondeu: “Anda distraída. E despreza o comer.” Fiquei maravilhado. O povo é deveras o maior sábio. Porque eu quis ver a Ruça. E vi: estava distraída. No olhar, aquela ausência mística de actriz de telenovela. No grunhir, aquela surdina que nasce das trompas do sul do corpo. No mexer, aquela preguiça enérgica de quem iria mas não vai porque só ia se fosse. Na hora, aquele instante de quem, estando ali, estava acolá, perfumando de alma uma essência de corpo, tendo “corpo”, por outra ordem, as mesmas letras de “porco”.
A Ruça não foi abatida no sábado passado. E não o será enquanto estiver como está. O que é bom para os porcos, penso ainda, também há-de ser bom para as pessoas. Sobretudo a moral. Que é esta: se sentirmos a morte por perto, o melhor é comer pouco. Comer pouco e distrairmo-nos muito. O mais possível.


2 Sem volta a dar

Os anos que levo de vida são-me suficientes para vos garantir que, na verdade, nunca regressamos. Só partimos. Não regressamos a lugar algum porque os lugares mudam e nós também. Pela noite, nada continua a ser o que foi de manhã. É por isso que as manhãs se tornam amanhãs.
Somos e estamos de partida. Sempre. Todos nós. Não olhem para dentro, não olhem para o lado: não há excepções.
Circunstâncias da minha profissão levaram-me a (pensar) estar de regresso a Leiria. Mas a Leiria de há três anos já não é e já não há. Nem a cidade nem a casa de pasto que, teimoso e contente, escolhi para exercício dessa filosófica travessia do deserto que se chama almoço. É uma casa de pasto que conheço desde 1999. Descobri-a numa noite de muita chuva. Agradou-me logo. Continua a agradar-me.
É um desses sítios em que quase toda a gente sabe o nome de quase toda a gente. A comida sabe e cheira a ninho maternal. As pequenas manias alimentares de cada um são aceites e servidas sem discussão.
Os dois homens que servem à mesa usam unhas compridas nos dedos mínimos e pulseiras de um ouro que assinala essa masculinidade ao mesmo tempo marialva e humilde. Travessas de bacalhau com grão rasam as cabeças dos sentados. O mesmo litro de gasosa mistura vinho alheio em mesas vizinhas. Até as moscas parecem esquadrilhar a aparente repetição da vida.
O ourives prefere cavalas cozidas, o representante de fazendas vai pelo borrego, o caixa do banco devora olimpicamente uma alheira chiante de óleo de fritura. Uma família de três divide duas maçãs assadas. Um reformado muito velho tira do casaco a caixinha rectangular em que conserva comprimidos tão pequenos como a esperança de vida dele. Também há mulheres sozinhas, mas menos.
Pelas duas da tarde, a plateia de comedores rarefaz-se, sobrando duas ou três silhuetas que rodam cálices de bagaço ao balcão. Eu sei que estas parecem as mesmas pessoas do ano 1999. Mas não são. Serão, no máximo, edições antigas da mesma história.
De modo que estamos todos, nesta casa de pasto como em todo o mundo, condenados ao futuro. E toda a gente sabe que do futuro nunca se regressa.


3 Dias de glória

Vivo dias de glória.
Cinco “misses” do concurso Miss Universo andaram à bulha por causa de mim. Isto foi-me dito pelo meu amigo Carapuço, que nunca enfia barretes a ninguém. Fiquei contente.
Na segunda-feira seguinte, o meu banco informou-me de que as prestações do meu empréstimo foram perdoadas até 2053, pelo que só devo mais trinta anos a partir de então. Isso é bom.
Nessa noite, fui meter gasóleo à estação de serviço do costume. Veio de lá o dono e perguntou-me onde é que eu queria guardar os cem mil litros de combustível. “Cem mil?”, espantei-me eu. “Cem mil”, confirmou ele. Parece que o meu cartão de pontos de abastecimento foi sorteado em cheio. Gostei. Vou guardar os bidões ao pé da minha colecção de caixas de fósforos.
Mas a glória não acaba aqui.
O meu antigo patrão da empresa de furos e sondagens mandou dizer pelo criado que ia pagar com juros os salários que ficou a dever-me. Vou abrir um poço para guardar o dinheiro.
Em casa, encontrei uma carta do Instituto de Oncologia. Tremi ao abrir o envelope. Mas eram boas, excelentes, magníficas notícias. A minha galinha de estimação (chama-se Nitro) não tem cancro nem quer ter. Decidi dar-lhe um banho quente e aproveitar a água para uma canja à maneira.
De modo que ando feliz. A vida é tão boa como um beijo demorado. Gosto do meu espelho. Ando tão feliz, que ontem à noite até liguei o rádio na estação das valsas para rodopiar no salão de cristal com a Miss Tailândia, que deu porrada de criar bicho nas outras, para glória dela e de mim.



4 Palavras de água

Não sou só eu. Vocês também sabem que as grandes chuvadas demoram mais tempo a passar do que os anos.
Éramos todos muito novos naquela noite em que choveu, choveu, choveu. Vocês lembram-se: nós deitados no escuro, na cama solteira, nós ouvindo o dilúvio, vendo sem ver as árvores tornadas cabeleiras densas de água preta, os cães levados pela enxurrada, o contentor do lixo tornado aquário de espinhas de peixe nadando sem corpo entre algas de cascas de batata e espumas de detergente, o susto náutico de todas as coisas que tinham sido feitas para estar paradas para sempre e agora se viam rumo a uma foz de desastre, a força imparável da água do céu quando chega à terra.
Não sei se vocês se lembram. Eu lembro-me. De manhã, as casas tinham quilha. A garganta era um nó de marinheiro. Vesti-me até o pescoço de botas de borracha e saí para a rua. Já não havia rua. A rua era rio. Fui agarrado a um tronco até à escola. O professor apareceu de barbatanas e tubo respiratório. Tinha olhos de peixe. Vocês apareceram como puderam, os olhos transparentes de medusas de sono e com cavalos-marinhos no estojo dos lápis. Não era um sonho: era apenas o mar dos pobres.
Não sei se convosco ainda chove. Comigo, sim. Noto mais quando falo ou escrevo. As palavras saem-me bolhas inaudíveis, como balões de banda desenhada. Sobem à superfície (mas não há ninguém lá em cima) e rebentam sem ajuda de alfinete. Dá-me ideia de que a pressão submarina ensurdece as conchas dos ouvidos do cardume. Continuo nadando na metrópole de afogados que olham sem ver e vêem sem ouvir e ouvem sem perceber bóia. Parece-me que há um vidro de aquário entre a vida e a vida.
Toda a água doce, enfim, se torna salgada. Sobretudo nos olhos. Vocês sabem que assim é. Não sou só eu.


5 Eça de Queiroz forever

Mais dado a pasmos que a espasmos, o País almoça em diferido com Carlos Cruz, estuda no 12º para se matricular numa academia de famosos que ninguém (re)conhece, folheia no dentista ou na cabeleireira as férias galápagas da namorada do ex-ministro e sofre como se na própria carcaça as violências domésticas daquela senhora com nome comunista que em hora de mau vento contraiu casamento com um espanhol. Eça de Queiroz “forever”, portanto.
Há sempre um Portugal conhecido à espera de nós. O Portugal de que vos falo é antigo, senão clássico: o da ignomínia espantalha que propicia prebendas para venda e comendas de encomenda. Neste rincão que nem ladra nem morde, a incompetência confessa e a falta de talento não magoam: vencem. Isto nem sequer é triste. É apenas assim. Apenas Fernando Rocha.
Nas zonas da Nação de onde os patos-bravos não exilaram ainda a feminil cabrinha, a pastadora ovelha e o melancólico cão-pastor, as horas de luz natural vivem do queimo da lenha e do azeite devoto à Virgem dos emigrantes. As fábricas de sapatos, porém, que a essas paróquias levaram, há uma década ou menos, o alento e o desembaraço redentores da Europa, produzem menos sapatos do que despedimentos multitudinários, remetendo para o desemprego e para a TVI a tristura emaciada de jovens sem 12º e sem chances na Academia. Entre o elo mais forte e o chinelo mais fraco, o Diabo já veio e já escolheu.
Sobra sempre, como por profuso milagre de desperdício, a meia amazónia de eucaliptos derrubados cada quarta-feira para que cada sábado se encontre no quiosque o maná de semanários inteligentíssimos que mostram ao povo rural como há-de parecer lisboeta. Isso e o 10 de Junho antecipado no peito de cronistas que, por prebendas e encomendas imorredouras, sobem ao altar das agências noticiosas nacionais, se ele há mais que uma.
O velho Eça, que troçaria sem rancor tanto do “hash” envergonhado do Bloco de Esquerda como da reconversão da Quinta do Lago em partido político pelas mãos muito brancas, de bispo precoce, do dr. Manuel Monteiro, dará voltas sossegadas no panteão em que o guardaram depois de ter morrido, de tédio e dos intestinos.
O mundo recicla-se, ETAR de si mesmo: Freitas do Amaral, por cá, e Jacques Chirac, por lá, vão empurrando, “hélas!”, a verdadeira esquerda; Che Guevara, suado em t-shirts XL, parecer-se-á cada vez mais com Brad Pitt, no dia em que Brad Pitt usar boina e barba e fingir em filme que morre numa mata boliviana pela dignidade derradeira da Humanidade; e a Presidência da República, constantemente adiada para novas eleições, chorará de mansinho num “boeing” de embaixação turística. Pelo entardecer, fingiremos indignação por causa da universidade que, moderna, está na prisão ao pé do Benfica e do Bibi. E o Iraque será sempre, para nós, a desinteressante vitória anunciada de um FC Porto-Juventude de Évora.
Mas o rio Tejo, nadado embora por olhos tristes e cacilheiros sem esperança, é sempre novo. Nas margens dele, pelo anoitecer, os poucos milhões de portugueses que a nada disto ligam, ligam a televisão para jantar em diferido com Carlos Cruz. E Eça, hein?



6 Oh Leandro!

Esta semana, não sei porquê, voltei a pensar no velho Leandro. Deixem que vos conte. O Leandro era um velho muito velho. Tão velho, que já era velho na minha infância. Era jardineiro, dizem que bom. E bebia como uma nuvem. Tinto, cheio, muito. Ia de autocarro para a cidade. Nunca pagava bilhete. Nem lho pediam. Era uma figura pública: a primeira figura pública que conheci. Para prazer de todo o mundo, insultava todo o mundo com os palavrões mais grossos do nosso idioma. Mas só o fazia quando provocado. Quando não, respirava o silêncio de uma solidão sem tréguas.
Pelo fim da tarde, passava pela minha rua a caminho de casa. Nós, miúdos, escondíamo-nos atrás de um carro ou de uma oliveira e gritávamos-lhe: “Oh Leandro!”. Só isto, mas era quanto bastava. O velho alinhava logo na festa. Punha-se a vociferar torrentes e torrentes de obscenidades a propósito de coisas tão existenciais como, por exemplo e sobretudo, o modo como tínhamos sido gerados e por quem. Claro que, na boca dele, as nossas mães nunca coincidiam com os nossos pais. Era fascinante.
Morreu muito velho na casa do Vale do Forno, entre flores e laranjeiras e cheirando a mijo e a santidade.
Mas ainda o vejo, mais eterno que vivo, ao pé da casa da Cuca. Eu vinha sozinho e despreocupado. Quando dei de caras com ele, o sangue evaporou-se-me do corpo. Ele trazia, como sempre, a tesoura de podar. Nessa altura, eu era de tão pouca idade, que ainda tinha medo. E tive. Nessa ocasião fulminante, tive muito medo. Era ele e eu, sozinhos no mundo. Debaixo do sol ardente que me ilumina sem clemência nem crepúsculo a infância perdida para sempre, só ele e eu éramos, estávamos, existíamos. Mais ninguém. Hora terrível, avassaladora, hora de agonia.
Em puro desespero, com o coração feito num nó de água chilra e as tripas reduzidas à condição de serpentes murchas, pensei num estratagema para evitar que a tesoura dele confundisse o meu pescoço com um ramo de sebe. O estratagema era este: passar por ele e dizer “Boa tarde, senhor António!”. Porque ele era António, não era Leandro. Respirei o mais fundo que podia e tentei. Mas, ao passar por ele, o medo traiu-me. Gaguejei isto: “Boa tarde, senhor Leandro!”... O velho, furioso como um deus pobre, levantou a terrível tesoura de podar e apontou-a à minha cabeça de franganito. Desatei a correr como um TGV de calções. Só parei nesta página. Ao longe, ainda ouço o velho a ralhar coisas sobre a minha Mãe, coisas em que vos peço não acreditem.
Acreditem nisto, apenas nisto: aquele era um bom homem que cuidava de flores. E por tão bem ter cuidado de flores, merece bem, penso eu, a rosa de uma crónica em memória de si, senhor António.


7 Conto dos meses

Em Junho de 1916, Fernando Pessoa escreve uma carta à tia Anica. O poeta informa-a de que está sujeito a intensos fenómenos espírito-mediúnicos. No escuro do quarto, Fernando vê, reflectidas no espelho, as próprias mãos incharem de luz rubra. Mais conta que lhe sucedeu ver, num café, as costelas de um sujeito através do fato do mesmo sujeito. Tomado de almas alheias, o poeta escreve num tempo alheio à data local, possesso de espaços-seres que o resgatam da mediocridade de empregado comercial de firmas da Baixa lisboeta. Portador de lucidez, essa espécie de tristeza poderosa que é o preço da além-vida, Pessoa vive de tinta e papel, tabaco e café, noite e dia.
Em Setembro de 1888, Eça de Queiroz instala-se como cônsul de Portugal em Paris. Já casado, já autor consagrado, o escritor deu já os passos que o tornam eterno o suficiente para chegar vivo a uma página de O Eco de Abril de 2003. Só não sabe que a vida propriamente dita lhe durará, apenas, doze anos menos um mês. Por isso, compra móveis, monta casa, instala a família, fala francês e faz projectos.
O leitor experimente reler o que acima se deixa dito. Vai ser Maio, não esqueça. Mês bom para esperar a noite. Quando a noite vier, consulte o espelho do quarto: Eça, Pessoa? Essa pessoa é você. Você de mãos acesas na noite, projectando móveis e futuros, você vivo, sem saber que são os meses que o contam a si, não você a eles.



8 Sonhos sem rede

O melhor a fazer quanto aos sonhos é acordar deles. Nem mais.
Uma noite destas, sonhei que à porta me batiam dois tipos da NBA. Vocês sabem, aquele campeonato de basquetebol que os “camones” disputam no intervalo de invadirem outros países. Os fulanos eram, naturalmente, altíssimos. Tão altos como caspa de eucalipto, por assim dizer. Nem tive tempo de perguntar ao que vinham. Vinham assaltar-me a casa. Tive tempo para fechar a porta antes de acordar. Já acordado, mas mal, ainda os vi a puxarem de facas e pistolas. Depois, dissiparam-se na luz fria da janela do quarto. Acontece que nada tenho contra o basquetebol, apesar de ser jogado com as mãos e de não ter guarda-redes. Não percebi o sonho. Não tenho nada que se roube.
Também não percebi aquele que sonhei duas ou três noites depois. Encontrei-me em Odivelas (em Odivelas, santo Deus!) com o Fialho Gouveia, aquele do buraco no queixo e dos concursos da televisão de antigamente. Ele tinha um pacote de batatas fritas e queria voltar para Lisboa. O problema dele era o de muita gente: os táxis são caríssimos. Eu disse-lhe para ele ir de Metro. Ele ficou com um ar felicíssimo (neste sonho, os superlativos não paravam de surgir), agradeceu-me e desapareceu. Mas não há Metro até Odivelas. Ou há? Continuei ali. Sozinho, sem batatas fritas e sem ter para onde ir, a vida parecia-me uma coisa sem remédio. Então, vi uns sete tipos novos a olharem de esguelha para mim, como vesgos voluntários. Percebi logo que eram personagens do Correio da Manhã, dessa escumalha de canos serrados em madrugada de gasolineiras. Acordei logo, claro. Congelados na luz cinzenta da janela do quarto, os tipos chamavam-me com voz de ponta-e-mola. Mas eu não fui saber o que eles me desqueriam.
Sonhos lixados. Revolvem a covardia inata. Espelhos lixados da alma.
Tudo seria diferente se pudéssemos decidir os sonhos. Na TV por cabo, parece que já dá para fazer algo desse tipo com os filmes. Não sei se vos agrada a ideia. A mim, agrada. Agradar-me-ia dominar parabolicamente essa espécie de loucura por turnos que é sonhar sem rede. Vejam o filme: vou para a cama, ponho os óculos e leio duas ou três páginas da lista telefónica (gosto de histórias com muitas personagens e pouca acção). Deixo-me estar acordado até cair no escuro. Então, aparece-me por ali a Shania Twain, mas sem música. Converso, por assim dizer, com a rapariga e pronto, já está, é outra vez de manhã. Se a Shania naquela noite não pudesse, não haveria crise. Christina Aguilera, Amparo Cristales, Raquel Welch (mas em nova), Lucrécia Bórgia (mas sem pai nem irmão por perto): qualquer uma seria um sonho. Pronto. Eu sei. Não vai ser assim. Mas ao menos expliquei-me.
Entre os sonhos que tenho sem querer e os que quero sem ter, fica-me a vigília macambúzia de bocejador impenitente. São coisas deste tipo que tornam realista uma pessoa. Realista, isto é, velha. Porque estas coisas gastam e cansam. Já nem o dormir parece resgatar um tipo da insanidade diurno-diária. De modo que, assim sendo, assim vai ser: vou deixar-me de sonhos. Basquetebol e concursos de TV, nunca mais. Odivelas, também nunca mais. Batatas fritas, o menos possível.
Resta a vida. Não vai ser fácil.


9 Mães de Bragança

Depois do longínquo Iraque e da lamentável Casa Pia, chegou a vez de Bragança subir à ribalta da (des)atenção nacional. O caso só faz sorrir quem não é mulher casada. Ao que parece, a velha cidade do nosso Nordeste está repleta de cidadãs brasileiras de alterne. Até aqui, nada de especial. O resto do País também está e a vida anda na mesma. Para as casadas de lá (que a si mesmas chamam “Mães de Bragança”), porém, o problema não é a vida andar. É quem anda à vida.
Parece que os respectivos maridos, com efeito, se perderam no labirinto vermelho-negro das casas de alterne, onde se não importam de pagar caro o champanhe barato do costume. Ao que se diz, os casados brigantinos só querem que seja de noite.
Tão longe de Lisboa como de Las Vegas, a Bragança masculina eriça-se de malícia carioca. No calor da noite, açucarados sussurros fazem ferver a cera do ouvido indígena transmontano, enquanto a voz do eterno Roberto Carlos destila mentol puro pelos interstícios da oculta aparelhagem. Nós amamos você. Sim, nós todas.
Nos ditos estabelecimentos nocturnos, os noctâmbulos encontram consolos tropicais que, perdendo-os de casa, os salvam da estafada mesma-coisa do matrimónio. Derretido o euro em champanhe de palito, o cidadão ouve ali coisas em sotaque verde-amarelo que nunca sonhou lhe dissessem em pátrio idioma.
O caso não é para rir. As barbudas esposas nacionais abaixo-assinam, em puro desespero, amarfanhadas folhas de 25 linhas que o notário reconhece e carimba, receoso de tanta mulher à porta. As meninas brasileiras, em virginal recato, não comentam. Mas aumentam. Assim como as separações brutas e os divórcios abruptos, que sobem em flecha (de Cupido).
Acerolas, jabuticabas, açaís, jacas, graviolas e goiabas vão assaltando de mansinho as hortas familiares, delas expulsando a histórica couve, o ínclito feijão, o rubicundo tomate, o intelectual nabo e a clássica batata. Resta o suspeito grelo.
A polícia do sítio, entretanto, mais que farta de sofrer as passas do Algarve com a ira ginecológica de Trás-os-Montes, já deteve duas profissionais brasileiras. Sobram umas dezanove mil, para aí.
Entre o sovaco barbudo e a rapada axila, os homens de Bragança não têm dúvida: axilam o mais que podem. Ninguém a tal os obriga, mas eles sentem-se na obrigação. Se entende, né?
E as criancinhas? Sim: e as tenras crias do sacro matrimónio? Ao que parece, lá vão cantando e rindo, a tudo alheias por mercê da Natureza, que à tenra idade abençoa e asperge com a dulcíssima ignorância, essa rude chave da felicidade. Os filhinhos das “Mães de Bragança” (e dos pais, já agora) estão, para bem delas e nosso sossego, muito longe da Lisboa da Casa Pia e da Bagdade do Iraque. Com um bocadinho de sorte, até pode ser que alguma das “mininas” que andam a desaparafusar a cabeça aos pais conheça o Ronaldo e lhes arranje uma camisola autografada que vistam no domingo grande da festa de Agosto.




10 Veja as diferenças

Sempre gostei de coisas antigas. Sobretudo das que se mantêm novas. Isto não é contradição. O clássico é o antigo jovem. O velho é apenas velho, por mais novidade que pareça ou queira parecer.
Há subtis distinções a operar: na língua como na vida. Pobreza e miséria, por exemplo. Não são nada uma à outra. Pode ser-se pobre sem se ser miserável. Ser as duas coisas é possível, também. E é mau. Mas muito pior é ser-se rico e miserável ao mesmo tempo. Conheço exemplos. Vocês também. Mas deixemos isto: é sempre igual.
Nos jornais, gosto daquele duplo quadrado de bonecos geralmente intitulado “Veja as diferenças”. É um passatempo curioso. Muitas coisas deste mundo, apesar de não serem o que parecem, gostam de parecer o que não são. Gosto de me ir a elas com o lápis.
Por exemplo, coisas velhas e gastas que vão à plástica esticar as peles para ilustração de revistas ocas e pasto de televisões sem miolo. Ou então, pelo avesso, coisas antigas como a solidariedade, clássica maneira de remoçar um gesto de ajuda. Entre mulheres que parecem galinhas e voluntariosos sem nome que se assemelham ao auxílio que praticam, vou pelos voluntários.
Acontece-me viajar por dentro do idioma. Em plena rua, ao sol da manhã, derivo sem amarras pelo oceano palavroso, redescobrindo a maravilha essencial de estar vivo através de vivas provas. É o caso das palavras “rua”, “sol”, “manhã”. O sol, esse enorme arquitecto, desenha a rua casa por casa, sombra por sombra, cão por pessoa, carro por peão. Tudo existe, tudo é, tudo (a)parece. Vamos ver mais algumas palavras, vigiar o seu ofício de aranhas.
Percebo que esta árvore é tão vertical como algumas pessoas. Tento dizer que esta árvore tem ideias como folhas e que fala pela voz dos frutos.
Compreendo que algumas pessoas nunca poderão (a)parecer-me árvores. Porque vivem vidas que não ramificam e porque dizem coisas podadas à nascença do dizer.
Entre pessoas e árvores, palavras e palavras, veja o leitor as diferenças.
Há sempre o risco, claro, de, falando de diferenças, estar a falar para o boneco. Mas quando é que, afinal, uma crónica mundana mudou um mundo crónico? Que eu saiba, nunca. Mas isso não faz mal nenhum. O que faz mal é, tendo nós topado o mal, nada fazermos para o transformar em bem. Ou, pelo menos, em inofensivo. Eu sei, eu sei: esta é a parte da crónica em que alguns leitores já não percebem nada. Permitam-me que os ajude: falávamos de diferenças. Esqueça os miseráveis de há pouco. Concentre-se nisto: no nosso mundo, só têm valor os que fazem a(s) diferença(s). Para melhor, claro está. Se daqui a pouco vos falar de bombeiros (e não só), já daqui se percebe porquê.
O semanário “O Eco” faz 71 anos. Os Bombeiros Voluntários de Pombal, 91. Ambas as instituições têm primado pela renovação. O mesmo é dizer que têm feito pela vida. Pela própria e pela vida dos outros. Num caso, informando com elevação. No outro, protegendo e salvando vidas e bens. Fazem anos este mês. “O Eco” faz 71. Os Voluntários, 91. Não são velhos: são clássicos. É ao sol que as diferenças se vêem melhor.


11 Manual do atirador furtivo

Encontrei um papel na rua. Estava todo borrado de esquecimento e de caca de pombas. Era dia de mercado na vila. Gente trocava gestos por gestos, sacos de cereal faziam coxear balanças, pintainhos amarelejavam dentro de cartões respiratórios. Apanhei o papel. Refugiei-me numa casa de pasto e disfarcei a leitura do meu achado no interior de um jornal, este. Partilho convosco aquilo que li, então (agora).

“Era uma casa na noite. No monte em redor, o silêncio dos animais tornava-os mais ocultos. Na massa escura da casa, uma janela acesa brilhava como uma jóia.
Entre nós e a casa, uma laranjeira adormecida sonhava com pássaros. Tinhas razão: ficámos a cheirar a árvores de olhos fechados.
A Lua tinha ido dar uma volta, de modo que a janela era a nossa última oportunidade para acreditar na luz.
Tínhamos vindo de longe. Era como se tivéssemos vindo de uma recordação alheia. E agora (então) aqui (ali) estávamos, suspensos como cristais numa solução sem remédio.
Pediste-me um cigarro. Eu disse que não. Instruíram-me na tropa que um cigarro nocturno é o melhor alvo para o atirador inimigo.
Então (agora), a terra começou a cheirar a manhã. Era como se o tempo fosse um carrossel que começa. O tempo com os seus circulares animais de madeira: nós.
Parti o último pão, que nos acordou na boca o sabor das leituras neo-realistas. Comemos. Ficaste com sede. Disseste: “E se tirássemos uma laranja?” Eu disse: “Não acordes a árvore.” Disseste: “Vamos ficar anos a cheirar a sono de fruta.”
O dia levantou-se todo de uma vez como um estore fulminante. Estávamos indefesos, finalmente. A luz da janela continuou acesa, jóia agora (então) mais pobre por causa do esplendor da manhã.
Respirar tornou-se um ofício. Tínhamos de esperar vivos. Os animais saíram do escuro para comer o cabelo verde da terra. Alguém teria de sair da casa.”

Guardei o papel na carteira. Ali (aqui) ficou, entre facturas de gasóleo e saudades de dinheiro. Não posso dizer que me tenha alterado a vida. Não posso dizer que tenha compreendido. Posso duvidar. Posso continuar, por minha conta e risco, a história.

“Era uma casa na manhã. Tinha um pátio. O pátio tinha uma laranjeira. Dois rapazes esperavam pardais. Um dos rapazes tinha uma pressão-de-ar de chumbos 4,5.
O sol estilhaçava-se de revérberos na folhagem da árvore. A luz enchia a hora como a água enche um poço.
O rapaz que não tinha a arma tirou um cigarro do bolso. O outro rapaz disse: “Não fumes aqui, a minha mãe pode aparecer.” O rapaz do cigarro disse: “Então (agora) comemos mas é uma laranja e que se lixem os pássaros.”
De modo que desistiram dos pássaros e apanharam laranjas. Uma voz surgiu alta da janela da casa: “Malandros do caraças! Querem fruta, comprem-na!”
Os rapazes fugiram de calções neo-realistas enfunados pelo vento da corrida. Dissiparam-se por entre a multidão comendo as laranjas como donos de jóias tão luminosas como o esplendor da manhã.”

Escrevi isto. Não presta. Amarfanho a crónica e atiro-a para o chão.



12 Viagem ao (m)ar alto

Eu fui à serra respirar. O ar era tão puro, que se tornava possível levitar.
Vi animais comendo com uma lentidão de gente sábia. Vi gente adoçada pela pureza do silêncio.
Abandonei o carro como se fosse para sempre e fiz da minha vida uma questão ambulatória. Andei por montes e vales, acrescentando a minha sombra aos tesouros minerais da solidão.
O sol, essa rosa fulminante, filmava do alto o mapa da eternidade. Fui-me transformando em pedra.
A manhã passou como uma lembrança. No regaço da manhã vinha, nascitura, essa pradaria incendiada a que, à falta de melhor palavra, chamamos tarde.
Fiquei para a tarde. Esfreguei ervas aromáticas nas mãos, aderindo sem retorno ao perfume de estar vivo.
Voei um pouco. Vi uma casa abandonada. Bati à porta. Respondeu-me o eco do abandono estancado no interior. Saí dali.
Senti a inclinação de bronze que todo o envelhecimento forja para que sejamos estátuas de nós mesmos. Tirei a camisa, dei-a ao ar, ela voou como uma borboleta suada.
Um milhafre olhava-me do fundo do céu. Eu olhava o milhafre do alto da terra.
Abri as mãos à altura da cara. Vi que eram duas estrelas.
A noite começou a apagar o lápis das coisas. Uma colina deitou-se como uma mulher.
Eu tinha ganho o dia. Ilusão minha, pensei voltar.
Não havia por onde. Uma serra é tão definitiva como um destino.
De modo que por lá ando. É um bom destino.
É um bom destino porque a noite transforma a serra em mar. O mar é tão puro, que se torna possível andar sobre a água, como dizem Cristo fez.
Algas aromáticas passam na corrente de ar frio. Sombras cetáceas anunciam-se como navios.
O milhafre é albatroz. Lembrar é uma navegação.
Abro as mãos à altura da cara. Vejo que são duas estrelas do mar.
Vejo que a minha vida se tornou transparente como uma medusa. Perdi todo o peso, até o de pensar.
Ao longe, a casa abandonada é um farol. Viver é remendar naufrágios.
Estou à espera da manhã.

A verdade é outra coisa.
Vou mais vezes ao supermercado do que à serra.
Mais vezes aos Correios do que ao mar.
O meu verdadeiro nome é mecanográfico.
Sei de cor o meu número de contribuinte.
Vou mais vezes com o carro à inspecção do que comigo à introspecção.
Defendo-me do sol com óculos escuros e desodorizantes químicos.
O pássaro da minha vida é o frango assado.
Junto os cromos do esquecimento na colecção de tudo o que não vale a pena lembrar.
Vou à piscina como um peixe com cartão de utente.
Vejo mais futebol do que colinas.
Conheço mais sapatarias do que ervas aromáticas.
Percebo mais de semáforos do que de estrelas.
Cetáceos, vejo-os nos programas de vida selvagem da TV.
Sob o verniz escarlate da ilusão, a unha suja da realidade.
Entre rostos iguais como fotocópias, passeio uma cara A4 que é a minha.
Percebo que o pão é trigo domesticado.
Percebo que a vida é mais vezes um carro-de-mão do que um barco.

Ainda assim, levitar é preciso.
Navegar é possível.
Eu costumo ir pelas palavras, mas os senhores podem ir pela estrada de Ansião até à placa que diz Sicó.
Metam por aí.
O mar é lá em cima.


13 Só para pobres

Era uma vez uma casa tão pobre, que até os buracos do telhado eram emprestados.
As pessoas entravam de costas porque não havia como dar a cara a tanta miséria.
Era sempre Inverno naquela casa, de modo que se podia ir lá dentro ver se estava a chover.
A humidade era tanta, que até os ratos tossiam.
Pai, mãe, avó e crianças odiavam-se a uma só voz, roubando uns aos outros até o ar da respiração.
Era má ideia morrer ali, talvez porque no dia seguinte nunca havia funeral, mas cozido à portuguesa.
Naquela casa, tudo acontecia em câmara lenta.
Uma frase dita hoje só era ouvida dois meses depois, chegando as palavras pela ordem errada e cheias do bolor da demora.
Depois, era preciso raspar os substantivos com uma faca para que se não parecessem tanto com papéis rasgados.
A vida era uma coisa tão assustadora, que até as crianças esperavam a um canto que ela passasse sem as ver.
E mesmo o sol, cujo nascimento, a par da morte, dizem ser a melhor democracia, chegava cor de café àquela casa irremediável.
O próprio Tempo era outra coisa.
Um mês, ali, não tinha trinta dias, mas sessenta noites.
E sem lua eram as noites, pelo que os lobos, sem terem a que uivar, enlouqueciam de mudez.
Nas trevas perpétuas, os olhos brilhavam como pirilampos cegos de sal.
Enguias fosforesciam no veludo frio do pensamento.
Sobre a mesa, o fantasma de uma galinha punha ovos negros.
Ao lado, um machado vibrava sem que lhe tocassem.
No chão, dormia a sombra de um cão que não estava lá.
Um dia, o país onde essa casa ficava, mudou de governo.
Os novos governantes eram muito boas pessoas.
Muito sérias, muito missa das onze, muito cuspifalantes.
Resolveram tudo lindamente.
Impostos, Justiça e Educação, Saúde, Emprego e Administração, Circo, Tropa e Europa, Comércio, Indústria e Ambiente, Futebol, Andebol e Parapente, Literatura, Ortografia e Saneamento, Agricultura, Previdência e Planeamento, Suinicultura, Autonomia e Vaca Fria: tudo ficou um brinquinho.
Visto do céu, o país brilhava de exposições universais e europeus de futebol.
Visto de lado, o país exibia um perfil de imperador romano.
Visto de costas, o país nem parecia ter cauda.
Visto de frente, era isto que vos conto.
Pronto, enfim, as coisas foram andando, o totoloto saindo, a pedofilia entrando, o amor cada vez mais lindo, os pombos arrulhando, o eurodólar subindo, o preço do pão baixando, os ucranianos sorrindo, as baleias aumentando.
Restava, no entanto, um problema.
O problema restante era o problema da Pobreza.
Quando chegou a vez da Pobreza, o novo governo comprou um catrapilo assim muito grande, muito poderoso e muito amarelo.
Uma espécie de dragão mecânico com S. Jorge a conduzir.
Vai daí, o governo mandou arrasar tudo, erradicando de vez essa purulenta chaga social.
A Pobreza deixou de existir para sempre.
Materialmente arrasada, a Pobreza tornou-se um caso mental.

Era uma vez uma casa, era uma vez um país.
Quem tossir, é rato.


14 Ma(i)s mé

Na essência, democracia é a possibilidade de se dizer asneiras sem se ser preso por isso.
Mais (em francês, é “mas”, mas diz-se “mé”): democracia é a possibilidade de (e)levarmos ao poder quem as (às asneiras) diga, e faça, por nós. A democracia não é, portanto, uma coisa má. Quando muito, é mé. Mais (mé) asneira, menos asneira, liberdade para todos. Mas (mais ou mé) acontece que.
A coisa fica preta quando o dinheiro entra em cena. Porque o verdadeiro poder não é o do voto. É o do dinheiro. Não o dinheiro de ir à mercearia. Não o dinheiro de comprar um frigorífico. Sim o dinheiro que aligeira um favor. Sim o dinheiro que aluga um órfão para sexo diplomático.
Tirando isto, a democracia é como a primavera. Tem passarinhos e flores e meninas ao piano, que agora se chama órgão. E tem gente que, gozando dela, dela mal diz em nome de manhas menos cristãs que sacristãs.
Mas (mé) a minha democracia é a vossa. Comum da vossa comunidade, sócio da vossa sociedade, varão da vossa vara, a tudo me obrigo que vos obriga. Impostos, brigada de trânsito, cinema à segunda-feira, frangos de chiclete: tudo convosco partilho. E ainda bem.
Ainda bem porque da outra maneira era pior. Porque era ser “dono”, lá, do Ultramar, mas analfabeto sem aspas por cá. Porque a jeira de Deus nunca correspondia à horta do pobre. Porque até a asneira de pensar era proibida.
Cruz, Felgueiras, Ritto, Herman, Portas, Pedroso? Trovoada mediática, barulho de luzes.
Os problemas verdadeiros são o desemprego, o preço do livro escolar, as reformas entregues aos seguros, a pesca parada, a agricultura esterilizada. E a carneirização do povo.
Mé.


15 Para isto

Andam a desaparecer pessoas. De casa de seus pais ou de outras, andam a desaparecer pessoas. Quase todos os dias os jornais publicam algumas linhas a propósito destes mistérios domésticos. Ao lado das linhas, aparecem os rostos desaparecidos. São fotos de família, quando a têm, ou de arquivo policial, quando outras histórias subterrâneas levaram essa mal lograda gente à barra da autoridade. Em todo o caso, caras de epitáfio em vida.
Algumas almas reaparecem vivas passado um tempo. Um rapaz de dezoito anos andou, afinal, na apanha do morango em Espanha. Durante três meses, a família correu a via sacra do costume: hospitais, bombeiros, guarda, parentes remotos. Ao cabo de um trimestre de maus augúrios, o desaparecido apareceu, parecendo bem. Uma adolescente de catorze anos não se sentia bem na casa adoptiva, pelo que dela desertou por uma semana. Foi detectada numa festa de Santo António. A rapariga conseguiu, com a fuga, chamar a atenção da mãe, que dela se tinha separado anos e quilómetros. A mãe chamou-a para uma temporada juntas.
Outros casos, porém, permanecem húmidos de bruma. D. Sebastião, por exemplo. O problema é quando os jornais já não trazem nada. Os desaparecidos desaparecem até da comunicação social, o que cerra em torno deles um nevoeiro sem vento. Os dias tornam-se meses, os anos rolam como pedregulhos sísifos. Até que um dia um rafeiro fareja ossadas gentias num pinhal, numa duna, numa lixeira. Os jornais voltam, varejeiros. Cadastros dentários e exames de ADN dizem ao mundo a identidade do perdido. Reaparece aquele Joaquim sexagenário que falava sozinho à beira de falésias sem rede. Reaparece, pouco parecida com o próprio retrato, a triste Liliana que queria ser cantora de imitação num concurso da TV. Joaquim voou a pique a falésia que lhe coube. Liliana encontrou-se a tempo e desoras com o seu destino de alterne sem alternativa, acabando sem música nem remédio numa valeta de Espanha, perto de um campo de morangos para sempre.
Mas isto de desaparecer acaba por calhar a todos. Quantas vezes não encontrámos já no espelho, em vez da nossa, a cara de alguém? Os mesmos olhos, mas outro olhar. O mesmo cabelo, mas outra cor. A mesma pele, mas outra resignação. Isto, porém, já se sabe. Quero dizer outra coisa. Quero dizer isto: é melhor desaparecer sem deixar rasto do que andar de rastos só para aparecer.
Apesar de Fátima, Portugal é mais pródigo em desaparições do que em aparições. (A vergonha: há quanto tempo nos desapareceu a vergonha?)
Agora, é o ar que, por ordem de Lisboa, nos vai desaparecer. “Otário” quer dizer quem acreditou na Ota para aeroporto?
Agora, é o mar que, por ordem de Bruxelas, nos vai desaparecer. Em vez de traineiras de pescadores, vamos ter os submarinos do Portas, esse tão moderno “sobrinho” do NATO Donald (Rumsfeld). Com um cherne por primeiro-ministro, é natural que a desaparição da frota pesqueira seja motivo de alegria.
Oitocentos e sessenta anos de História.
Oitocentos e cinquenta quilómetros de costa marítima.
Para isto.


16 Bodas Burras

“A população de Bangalore, no Sul da Índia, casou dois burros, na tentativa de solucionar o problema da seca que atinge a região.”
Vinha no jornal “Público” de 20 de Junho passado. Tal e qual.
Em Portugal, como se sabe, é diferente: só depois de os burros se casarem é que a seca começa.
Confesso que gosto de burros. Não. Adoro. Adoro burros. Mas só os verdadeiros. Na mocidade, li “Platero e Eu”, do grande Juan Ramón Jiménez, e passei a viver, até pela literatura, uma espécie de destino paralelo ao destino dessa espécie, que é triste e pensativa e de longa e felpuda orelha, olhar líquido e coração cabisbaixo, com uma cara de gente que não merece o que lhe praticam.
O burro verdadeiro lateja de uma humanidade mais humana que a da gente. Nunca mereceu que lhe transportassem o nome para, na estúpida linguagem dos homens, equivaler a homem estúpido. Muito menos merece que o casem. Até porque ele, sendo burro substantivo mas não adjectivo, tem sabiamente permanecido solteiro. Até agora. Agora, a Índia e o “Público” fizeram-lhe esta desfeita imerecida: casaram-no.
O burro falso é uma coisa completamente diferente. Começa a diferença pela falsidade. Parece gente, mas é burro. Casa-se com uma burra sem que a tal o obriguem, mesmo que não chova há dois carnavais. Ainda por cima, faz disso um grande alarido. A burra, vestida de branco para esconder o cinzento da pele e as moscas das axilas, faz um esforço sobre-humano para não devorar o ramo de flores que lhe perfuma a iminente perda da virgindade oficial. O macho, vestido de preto como um boneco de bolo de três andares, afivela na cartucheira dental um sorriso onde a palha amarelejou cáries cavalares. Segue-se a ração para trezentos convidados que desapertam as cilhas para enfardar como mulas as vitualhas da boda.
Cheira a domingo no celeiro. Uma lâmina de charrua foi fundida para produção das alianças. Póneis cor-de-rosa seguram a cauda da noiva enquanto escoucinham, atormentados pelos tavões sanguinários, as canelas das mulas mais antigas e mais sentadas, em cujas patas pulsam cordões de varizes. Zebras vestidas de código de barras parecem, entre a multidão sacramental, presidiários de cinema mudo. À sorrelfa, a noiva esconde, para comê-lo mais tarde, um cravo na ferradura.
Na enorme segunda-feira da realidade, burros e humanos convivem como lhes vai podendo. Uns, de corda ao pescoço, ruminam na solidão rural. Outros, de corda ao pescoço, fazem récua no centro de emprego. Aqueles, de mãos no chão, levantam o olhar para a luz. Estes, de mãos nos bolsos, descem a cara para o chão. No campo como na cidade, não é fácil distingui-los.
Mas há uma maneira infalível. Numa das oito mãos, há-de reluzir de baça luz um anel de casado. O burro é esse.


17 Rumo à Índia

Não sei como é Paris por esta altura do ano. Nunca lá fui. Também não sei a temperatura do mar de Cuba. É sítio onde nunca nadei. Ignoro a textura da sombra do entardecer em Osaka. Desconheço o rumor da Floresta Negra. É-me impossível contar-vos a pungência da solidão do cão-lobo no Alaska. Algures na Índia, está crescendo uma flor vermelha que não chegarei a tempo de colher. Hoje à noite, é provável que cantem Verdi no La Scala, mas é certo que não vou lá estar.
Invertendo o espelho, sei que não voltarei nunca a sítios onde estive. Até já escrevi, algures, que a nossa morte começa aí, nesses sítios onde não mais nos verão. Isto não tem de ser triste: é apenas a vida.
Junho acaba. A luz é um vidro fino. Estou sentado. Esse homem à beira da falésia, no alto Lorvão, é o meu pai. Trinta anos entre o que vejo e o que escrevo. Impossível voltar a essas alturas do tempo e da serra. Essa mulher que compra fruta no mercado da Figueira é a minha mãe. Nem um cabelo branco. Que formosa é, verdade? Trinta anos entre ela e a escrita. Impossível pedir-lhe uma cereja das que escolheu.
Se os meus pais quisessem, eu seria capaz de contar-lhes o agora de Paris, como nos tornamos crepusculares em Osaka. Se eles quisessem, eu pescaria em Cuba três bilhetes para La Traviata de Milão. Eu não mais seria este cão-lobo perdido numa floresta negra. Mas também vos digo que eles nem precisam de querer certa imagem vermelha que só há na Índia. Já é deles: há mais de trinta anos que lhes dei essa flor.


18 Toca-se o Hino

Os porcos são animais parcimoniosos. Quer dizer que se contêm. Conter-se é aguentar-se. E eles aguentam-se. Sobretudo os da nossa região. Só se aliviam aos fins-de-semana, vésperas de feriado e quando chove. Quando os economistas e os governantes falam de contenção, é nos nossos porcos que pensam. Nossos, por assim dizer, posto que toda a gente sabe (de) quem são.
Quem não gosta nada da manha dos porcos são os peixes do rio, que se fartam de morrer na cama por causa do que lhes despejam no leito. Os porcos não ligam. Mas fazem mal. Fazem mal porque também aos porcos chega a má hora. A diferença está em que os porcos, desiludidos com a Pátria, vão morrer a Espanha, em matadouros mais europeus que os nossos.
Os nossos peixes são mais patrióticos. Morrem cá, afogados em esterco químico e sem fazerem a mínima ideia de como é o mundo a partir de Badajoz.
Amigos telefonam-me para gozar comigo. “Pá, quando é que organizas aí uma pescaria de sarrabulho?”. Etc. É ver a dor. Respondo-lhes que a sorte é não criarem por aqui elefantes, em vez de porcos. Nem o pescoço mexeríamos.
Os nojentos desta história são os porcos-mealheiros, cuja ganância é apadrinhada pelas desautoridades incompetentes. Cheira mal, a nossa terra, a nossa água, a nossa alma.
A Pátria começa no sítio onde vivemos. Verdade pura. Mas, perante tão conspurcada Pátria, não se toca o Hino. Toca, suíno.



19 Norte e Sul

Há dias que parecem “flashes” de fotógrafo. São de uma luz cujo dote é a eternidade do instante.
Renato Adriano Arcádio teve o seu dia num Junho improvável. Conduzia o carro por uma estrada de pinhal. Tinha desligado o rádio. Cantarolava baixinho. Então, viu o coelho. Era um animal pequeno. Renato parou o carro e esperou. O coelho olhava sem gesto a serpente que surgia do lado esquerdo de Renato: o hipnótico lado do coração. A serpente abraçou o coelho e levou-o para sempre. Renato Adriano Arcádio sentiu-se iluminado pela revelação. Soube então que nem sempre temos de ser ou coelho ou serpente. Podemos ser apenas alguém que assiste a um abraço.
Juliana Flores Lácio teve o seu dia ao refugiar-se da chuva, em incerta tarde de Outubro, no átrio da Biblioteca Municipal. Ficou a olhar para fora. As cabeças dos passantes tinham-se tornado manchas de tinta preta, talvez guarda-chuvas. Juliana reparou num homem antigo que conservava a cabeça no lugar que lhe é suposto: a norte do insone coração. O homem avançava devagar, como todos os que não têm aonde ir. Tinha o ar irreparável dos que perderam, como todos os que nem sabem que chove. Juliana Flores Lácio, que ainda não tinha perdido nada, saiu para a rua. Revelou-se-lhe que todos somos o sul da chuva. E que todos, algum dia de clarão fotográfico, perdemos o norte.
Então, só uma serpente nos levará para casa.


20 Abaixo de Cão

A televisão mostrou um rapaz que era drogado mas agora é pasteleiro. No rosto do rapaz pulsam ainda as olheiras venosas de antigamente. O olhar do rapaz ainda é triste, mas menos triste, talvez, que o olhar penitenciário de outras noites, outros filmes. O rapaz falou do futuro, mas com menos certeza a propósito do assunto do que aquela senhora com nome de abelha, Maya, a cartomante, que aparece na TV muito mais vezes do que o rapaz, deve ser por isso.
Na televisão apareceram também uns cavalheiros de “t-shirt” de marca que foram a pé a Santiago de Compostela. À reportagem, falaram de paz interior, de regeneração espiritual, de tonificação místico-astral, de acalmia dos íntimos furiosos ventos consumistas soprados pelo mundo do telemóvel, do horário, do hipermercado, da loura, do jipe, do banco e do diabo. O problema (meu) é que Paulo Coelho parece também ter percorrido os caminhos de Santiago, o que não concorre nada a favor do santo. Paulo Coelho, sabem?, aquele brasileiro vendilhão de livros espírito-qualquer-coisa, aquele richard bach de terceira apanha, aquela figura em cuja boca “amor” rima com “knorr”, deve ser por isso.
Um jornal português trouxe a notícia da pungente misericórdia que uma californiana sentiu, ao ver televisão, por uns cachorrinhos abandonados numa rua miserável de um país pobre. (País pobre é, para um norte-americano, todo o Estado não unido aos Estados dele). Vai daí, a dita senhora organizou prontamente, qual padre Melícias para espécies não-cristãs, uma rede internacional de adopção de canídeos sem-abrigo. O jornal não indicou se, na mesma mísera rua e à mesma mísera hora, havia ou não crianças abaixo de cão.
Desliguei a televisão e amarfanhei o jornal. Fui ao quintal, colhi um pêssego e sentei-me a comê-lo nos degraus da marquise. A raiva foi-me passando. A noite veio vindo, lenta e permanente como tinta e negra como tinta permanente. A noite perdoa. A noite absolve. A noite sabe. O pessegueiro adormeceu e deu por si a sonhar com laranjeiras de saias levantadas pelo vento de África. Deixei-me estar. Os grilos, como uma orquestra cardíaca, convocaram a Lua, que nasce de noite para que ninguém saiba o que custa nascer. O firmamento deu de si como um picadeiro de estrelas. Entre as estrelas, passou palpitando o pirilampo alto de um avião, levando-me com ele, não me levando com ele. Bocejei cristais lacrimosos. Espreguicei-me como um cristo olímpico. O sossego era comigo. Já me não mordiam os lobos da estupidez televisiva, as hienas do cabotino aparato de tanta banha-da-cobra pseudo-mística, os dingos da ranhosa escritura de alquimistas de pacotilha.
Recolhi-me à hora a que os anjos costumam chegar à aldeia para guardar o sono das casas, dos animais, dos pessegueiros, das crianças e dos bem-aventurados que não têm televisor.
Dormi como um cão.


21 Por Perrice

Provavelmente por perrice, pediram-me para patentear peça produzida por palavras por “pp”. Porquê?, pensei, pois produzira, preteritamente, peça parecida (palavreado para provocar políticos por piada, patetices próprias, passadas, perdidas). Porém, parei, perambulei, pesei, pensei: pronto, produzo. Porque, parece-me, posso promulgar pergaminho positivo.
Porém, para políticos? Pobres penitentes! Pobres profissionais pouco percebidos pelo povo! Perdoei-lhes, portanto. Poupei-os por pena, pois politizar pode produzir pérolas para porcos...
Porcos! Perfeitamente! Pareceu-me plenamente pertinente perturbar, por pedagogia, produtores porcalhões, persuadindo porqueiros pouco preocupados pela poluição periódica patrocinada pelas próprias patas! Porreiro! Para produtores porcícolas (por palavras populares, porqueiros, pronto...) perorarei, pois, palavreado provocado pela própria precariedade piscícola presente. Pela podridão, percebem? Propriamente, preciso pedir-vos para pararem. Parem. Pensem. Pelo precioso porvir. Pelos pobres peixes permanecentes. Parem para pensar. Porque, pondero, parece preferível pescar pelo prato.
Possivelmente, prefeririam pôr-me, partido pelo pescoço, para pântanos perdidos. Perigosa possibilidade, poça! Peço perdão. Porém, paciência. Porque prosseguirei perseguindo podridões perpétuas. Por pura preocupação pedagógica, peço-vos: produzam pasta pestilenta, porém portem-na para paragens preparadas para processar porcaria parecida. Percebido?
Pronto. Porque pude, palavreei para pecuárias. Pode parecer, pessoalmente, pedante, paternalista, provocador. Pode parecer prosápia. Pois pode. Porém, pessoas preocupadas perceberão perfeitamente: picar produtores papões poderá prejudicar pecúlios poderosos, porém, pela precaução proposta, prestará, possivelmente, para prevenir piores penúrias.
Peixes, porcos, pessoas: passam pelo planeta padecendo poluições pouco próprias. Paremos. Pensemos. Previnamos. Parece-vos pertinente, pombalenses?


22 Conceiçãozowska

Morreu a Santa da Ladeira.
Quando moçoila, chamava-se Maria da Conceição e era uma pobre de Deus como as outras. Na década de 60, diz que entrou em ligação directa com Cristo, Nossa Senhora e outras entidades menores do Céu. De vez em quando, um estigma de mercuro-cromo dava-lhe de cruz na testa. Auto-curou-se de uma leucemia. Fez-se santa viva. Foi uma excelente opção de carreira. Acumulou fiéis e ouro de fiéis. Mandou fazer uma catedral. Não consta que tenha chegado a levitar da poeira ardente, até porque ela era uma vidente de pés bem assentes no chão.
A Igreja oficial e o Estado Novo não quiseram nada com ela. Bem pelo contrário: açularam-lhe a GNR e até a internaram num manicómio. Com uma paciência oriental, ela resistiu tanto e tão bem a guardas e a psiquiatras como a ministros e cardeais. Ali tão perto de Fátima, a concorrência santuária da Ladeira (Torres Novas) sobreviveu.
Com o 25 de Abril, a Santa prosseguiu a sua revoluçãozinha particular. Formou o Exército Branco, aceitou a aliança dos ortodoxos polacos e foi levando os outros. À fé, quer-se dizer. E ao mar, uma vez por ano, em peregrina demanda de purificação. Lá bem do fundo, chegou lá bem ao alto.
Vi-a na televisão. Olhinhos espertos. Pèzinhos gordos. Palavrinhas curtas. Orelhinhas desconfiadas. Um alho humano.
Chamavam-lhe, entre outros nomes, Mãe. Agora que voltou a chamar-se Maria da Conceição, pode finalmente descansar da fadiga de tanto puxar à terra os estores do Céu.
Não sei o que vai ser dos polacos sem ela. Mas pode ser que a Ladeirowska continue a dar. Ele há milagres.



23 Melão ao Mar

Tirando os imbecis, que nem a si mesmos entendem, julgo que toda a gente pode compreender toda a gente. A ler vamos.
1. Rodolfo Hilo de Astona, muito velho e quase cego, revisita, no pino do Verão, a outra cegueira: o mar. No regresso a casa, ouve o vento no sangue, o trabalho do sal na areia do coração. Pensa: “O ruído é o silêncio que não sabemos ler”. O velho mete-se em casa e cala-se para dentro. Ouve o vento repetir nos pinheiros a gravação das ondas da praia.
2. Maria de Jesus Taborda, vendedora de melões, dormita no abafo da sombra da barraca de canas à beira da estrada nacional. Um chinelo de borracha pinga-lhe do dedo grande. Duas moscas disputam-lhe a orelha, despertando-a. A mulher mastiga em seco, abre um olho e descobre-se viva num sopé de ouro branco: os melões por vender.
3. Conheci estas duas pessoas numa paragem de autocarro. A vendedora de melões ajudou o velho a subir para a viatura. Deitou-lhe a rude mão ao fraco sovaco e içou-o com inesperada delicadeza, como se erguesse do prato uma codorniz grelhada. Maria escolheu para Rodolfo um lugar à janela, sentando-se depois ao lado dele. Sentei-me atrás deles para ter que vos contar.
4. Ela disse: “Os malandros dos incendiários, era amarrá-los a um pinheiro e deixá-los arder.” Ele respondeu: “Moro ao pé de pinheiros. À noite, parece o mar.” Ela perguntou: “Um pinhal ao pé do mar?” Ele esclareceu: “O pinhal é o mar.” Ela: “Antes fosse e que os incendiários não soubessem nadar!” E ele: “Vejo que compreende.” Maria, feliz, disse: “Quando passar pela minha venda, dou-lhe uma peça de ouro branco, meu senhor.” Rodolfo aceita: “Adoro melões, minha senhora”.
5. Não é difícil perceber os outros. Difícil é termos alguma coisa para lhes dar. Nem que seja um melão. Nem que seja o mar.


24 Apanhados do Clima

A única coisa capaz de parar o Tempo é o calor.
Quando está muito calor, a hora bate de cabeça na parede da luz e desmaia. É então que a vida fica, um pouco mais que de costume, sem sentidos. E é então que se pode ver com nitidez o pombo suspenso no ar, como se esperasse o tiro de partida. As próprias casas, por natureza quietas, parecem museus encerrados ao turismo. Apenas nas igrejas, dotadas por dentro de um ar condicionado que só é possível atribuir à graça sobrenatural, se pode detectar algum movimento: quem nunca lobrigou, pelo canto do olho, o gesto de um santo furtivo?
Cá fora, na inclemência da rua, as estátuas aguardam a brisa do entardecer para voltarem a ser gente. Aquele polícia hirto a meio da multa, aquela mãe de abandonado seio oferecido ao filho que não mama, aquele reformado de banco de jardim repetindo uma sesta dormida nos anos 30: estátuas da quieta comédia de Agosto.
Longe daqui, a vida continua. Há países onde, faça o tempo que fizer, o futuro é a maior novidade do presente. São paragens que não param: os estudantes estudam, os mecânicos reparam, os médicos tratam, os pescadores pescam, os governantes governam. Que países são esses onde as coisas se mexem? Outros que não este.
Obviamente, outros que não este nosso lamentável país queimado todos os anos, à mesma hora, pelo mesmo incêndio. Fatalmente, outros que não este nosso país acidentado todas as semanas, na mesma curva, pelo mesmo buraco. Tragicamente, outros que não este nosso país violado em todas as edições, no mesmo jornal, pelo mesmo pedófilo.
Então e nós? Nós estamos à sombra. Limitamo-nos a esperar que a canícula passe. Rezamos para que o nosso calendário deixe de rodar sobre o melancólico eixo de doze agostos consecutivos. A realidade é que não deixa. A realidade é que há procissões quietas todos os dias e romarias imóveis todas as noites. Mas o santo do andor, exposto ao sol secular, não mexe um dedo. E o fogo-de-artifício é só a preto-e-branco.
Por tudo isto, pensar, neste país, é um excesso de velocidade. Criticar, nesta terra, é um abcesso de liberdade. Denunciar, neste canteiro, é um processo de inutilidade. A culpa é do clima, claro está. Somos apanhados do clima, é tudo.
Na França, no Luxemburgo, na Suíça, na Alemanha, até trabalhamos, até ajudamos a pôr o mundo sobre rodas. Aqui, o movimento perpétuo do resto do mundo não faz embaixada. A honestidade, depois dos cornos conjugais, é o segundo maior motivo de riso. Todos nós levitamos: num país onde nada é grave, nem a lei da gravidade o é efectivamente.
Alberto João Jardim e Paulo Portas são dois meros riscos do nosso termómetro colectivo. Merecemo-los inteiramente. Num país de parados, haja ao menos quem, como eles, baile o corridinho e ajoelhe a missazinha. Numa terra de tristes, haja ao menos quem faça da anedota um modo de vida. O mais certo é que, se a temperatura não baixa, ainda vamos ver o Pedro Tochas e o Fernando Rocha no lugar deles.
Para os apanhados do clima que somos, a diferença, mais grau menos grau, não há-de ser por aí além.
Aposto um corneto que não.



25 Pombalíadas

No pombal eu tenho pombas, bem as tenho no pombal. Em cá não caindo bombas, vamos indo menos mal.

Tenho pombas num pombal, no pombal as tenho bem. Pomba-mãe arrulha “Filho!”, filho-pombo arrulha “Mãe!”.
Milho quer, de maçaroca, choca a pomba sem atilho. Filho-pombo grulha “Choca!”, pomba-mãe regrulha “Filho!”.
Rulha bulha no pombal: que será que aconteceu? Eu não fiz nada de mal! Este mal não no fiz eu!

No pombal eu tenho pombas, bem as tenho no pombal. Em cá não caindo bombas, vamos indo menos mal.

Devagar, devagarinho, tudo se há-de esclarecer. (Que um pombal, assim baixinho, até dá gosto de se ver.)
Gosto muito destas pombas, destas pombas gosto eu. Filho-pombo só diz “Mãe!”. E mãe-pomba: “Filho meu!”.
São penas que a vida pena, são penas que pombal tem. Pena da mãe pelo filho, pena do filho da mãe.

No pombal eu tenho pombas, bem as tenho no pombal. Em cá não caindo bombas, vamos indo menos mal.

Tudo dá a mãe ao filho. Dá tudo o que ela tem. Tudo dela tira o filho, sem pena o filho da mãe.
Se a pena esvoaçasse, bom rapace era o pombinho. Mas se alguém o controlasse, não gostava o menino.
Se eu dissesse mesmo o que penso, que euforia no pombal: uns diriam que está bem, outros tudo menos mal.

No pombal eu tenho pombas, bem as tenho no pombal. Em cá não caindo bombas, vamos indo menos mal.

Nos tempos da fidalguia, o pavão mais promovido fazia de conta que nunca mais tinha morrido.
Acontece que, porém, as coisas não são assim. Filho-pombo só diz Mãe!”. E mãe- pomba: “Benjamim!”
Diz-me tu, ó bico lindo, que milho queres p’ra jantar. Eu sou lindo, eu sou lindo, e tudo quero papar.

No pombal eu tenho pombas, bem as tenho no pombal. Em cá não caindo bombas, vamos indo menos mal.

Tens tu disso a certeza? Estás bom de teu juízo? O que no pombal é mesa, no céu será paraíso.
No pombal eu tenho pombas, bem as tenho no pombal. Se for com isto que zombas, então zombas muito mal.
As ganas que isto me dá! A pena que isto escreveu! Papel mais imerecido, nunca o sofri senão eu.

No pombal eu tenho pombas, bem as tenho no pombal. Em cá não caindo bombas, vamos indo menos mal.

E da moral desta história, tirem vossas conclusões. Se a perdiz der perdigoto, também dará perdigões.
Para já, peço perdão. Isto são coisas rimadas. Nunca na vida se viu tais coisas serem passadas.
Mas passando pelo pombal, vi que afinal se passaram. Coisas lindas de passarão, que tão mal aqui rimaram.

No pombal eu tenho pombas, bem as tenho no pombal. Em cá não caindo bombas, vamos indo menos mal.


26 Lado B

“O Verão foi-se embora. E quem sabe o que levou com ele...”, disse o Victor com olhos de reticências, remexendo o açúcar coagulado no fundo da chávena como se tentasse ler o futuro.
Eu não respondi.
Não era uma pergunta.
Deixei-me estar.
Então, vindo da tarde triste da rua triste, entrou o Rodrigo.
Trazia uma bolsa de fotógrafo com relógios dentro.
Os relógios eram pesados e prometiam uma pontualidade suíça.
Notei que o tempo custa mais a passar para os vendedores de relógios.
Sobretudo até que se venda um.
Mandei vir três botijas de cerveja.
A tarde continuava lá fora, parda e fria como uma declaração de rendimentos.
Entrou o Fernando.
“Quatro botijas”, disse o Fernando.
Deixámo-nos estar.
O Victor contou uma história engraçada passada num baile.
Rimo-nos.
O Fernando contou outra coisa, sem baile mas com piada.
Rimo-nos.
O Rodrigo disse que aquela bolsa lhe tinha sido dada pelo Zé Manel.
Nós acreditámos.
O Rodrigo tinha um colete de malha novo.
O colete caiu no chão.
Eu disse: “Rodrigo, o colete caiu no chão.”
O Rodrigo disse: “Então já não o quero.”
Vai daí, ofereceu-o ao Victor.
O Victor vestiu-o.
Servia-lhe.
Ficou com ele.
Então, eu contei a história do lado B.

Em 1994, trabalhei num bar nocturno.
Servi botijas e mastigantes a muita gente.
Uma noite, apareceu o rapaz Raul.
O Raul tinha maus dentes e bons fígados.
Mostrou-se uma jóia de rapaz.
Falava pouco, comia muito e bebia à percentagem do falar e do comer.
Uma noite, falou mais do que de costume.
O Raul pigarreou e disse isto: “Pessoal, atenção: conhecem a do lado B?”.
“Não, nós não conhecemos a do lado B”, respondemos em coro grego.
Então, ele pôs-se a imitar o som de um gira-discos antigo.
Mortos de riso, primeiro, e ressuscitados de espanto, depois, ouvimos perfeitamente o “single” a receber a agulha, percebemos, por magia, a ferrugem de chuva da agulha a chegar ao 45 rotações, escutámos, como se fosse possível tanta música, a canção (era o Palito Ortega em “Yo Tengo Fe Que Tudo Cambiará”), sobressaltámo-nos com a crepitação da espiral sem-fim da agulha no fim do disco.
Foi uma coisa maravilhosa.
Um acontecimento único, uma efeméride instantânea como um pudim de pó.
Eu percebi que aquilo era uma história boa para contar nos bares do futuro.
Acabei de contar a história do lado B.

Riram-se.
O Fernando disse: “Quatro botijas, Daniel.”
Havia, e ainda há, outro Daniel na história.
Nada de confusões.
O Daniel trouxe as botijas, baixou o som da televisão e não mandou bocas.
Espreitei para dentro: a noite já estava lá fora, fora do Verão e à nossa espera.
Castanha como um fundo de chávena, mas sem açúcar.
Pagámos, despedimo-nos, cada um foi para seu lado.
O lado A.



27 Obrigado, Vítor Damas

Por azar, sou benfiquista. Sou e serei. Mas tal sofredora condição não me impede de reconhecer em certos quatro sportinguistas outras tantas estrelas de diamantino imperecível fulgor. Falo de gigantes. Falo do Carlos Lopes, no atletismo, do António Livramento, no hóquei em patins, e do Joaquim Agostinho, no ciclismo. Mas eu disse quatro. Vou dizer-vos quem é o outro, agora que a sórdida morte tão sordidamente no-lo roubou: Vítor Damas.
Uma figura de homem. Um leão elástico. Um ídolo sem pés de barro. E um guarda-redes como nenhum outro. Há muitos anos, vi-o em Coimbra. Foi num Académica três Sporting quatro. Os outros vinte e um que me perdoem, mas só me lembro do Damas. Voava como um anjo poderoso. O Damas começava no meio campo, tal era a envergadura da sua acção defensiva. O Damas, como o operário do Chico Buarque, erguia na baliza uma parede mágica. Quando a vida, às vezes, me obriga a defender-me da própria vida, eu só queria ser como o Damas.
Lembro-me, claro que sim, de outros número 1. O Benje do Farense, o Nascimento do União de Tomar, o Rui e o Tibi do Porto, o José Henrique e o Bento do Benfica, o Vaz do Vitória de Setúbal, o Conhé da CUF, o Maló da Académica, o Matos e o Alfredo do Boavista, o Mourinho do Belenenses, o João do Sporting de Braga, o Melo e o Rebelo do União de Coimbra, o Maier da Alemanha, o Jongbloed da Holanda, o Dassaev da União Soviética, o Shilton da Inglaterra, o Bats da França, o Zoff da Itália, o Leão do Brasil, o Pumpido da Argentina, o Arconada de Espanha, o Pfaff da Bélgica, o N’Kono dos Camarões e o Fernando Duarte do Pedrulhense.
Mas qual quê? Era só o Damas. Quem mo dera na Luz, desde sempre e para sempre, mas nem Deus se lembrou disso. Lembrei-me eu. E nisso não fui o único “encarnado”, de certeza que não.
Lembrais-vos vós de quando o gigante foi para Espanha? Qual era o clube, qual era? O Santander, exactamente. Era então raríssimo, tão ao contrário de hoje, que um jogador português fosse para o estrangeiro. Foi o Alves para o Salamanca, o Humberto Coelho para o Paris Saint Germain, o Jordão para o Saragoça e pouco(s) mais. E quando voltou, voltou para onde? Exactamente: para o Vitória de Guimarães, para o Portimonense e para o seu, afinal, único clube de sempre: o Sporting Clube de Portugal. Agora, vou falar só para ele, mas vós podeis ficar a ouvir.
Cavalheiro: o senhor ainda é o número 1. Por sua causa, fui sportinguista algumas vezes. E o meu pai (até o meu pai!) também. Por sua causa, ainda estou na escola primária a fazer postes de baliza com pedras, ainda estou em casa com o velhote e os irmãos a ver, a preto-e-branco de meados de 70, aquele Inglaterra zero Portugal zero que o senhor tornou (im)possível. Que mais quer o senhor que lhe diga? Que a sua morte me esfaqueia? A sua morte esfaqueia-me. É verdade, mas não é isso que tenho para lhe dizer. O que tenho, aqui e agora, para lhe dizer, é isto: obrigado por me ter ensinado a defender-me.
Mesmo da vida.
Mesmo da morte.


28 Por agora

Tem catorze anos, a minha ligação ao concelho de Pombal. É uma espécie de segunda adolescência.
Às vezes, vou a Coimbra, onde vivi a primeira. Se me perguntam onde vivo, digo: “Louriçal”. Fazem uma cara de reprovados a geografia e arriscam: “A terra do queijo, não é?”. Digo que não, que o Rabaçal é outra coisa. E depois, perdoando, esclareço: “Louriçal é Pombal”. Salvo seja.
Quanto a Pombal (a que muita gente ignorante deste País chama “o Pombal”, como acontece na publicidade da TeleLista que corre as rádios nacionais), que direi? Direi que Pombal é Pombal. Descoberta esta fraca pólvora, passo a explicar-me.
Como em todo o lado, Pombal é sítio feito de casas formosas e de barracas abjectas. De ruas respiratórias e de vielas bolorentas. De boas horas e de horas más. E de gente maravilhosa que é vizinha de gente que não presta.
Mas há uma coisa especial, aqui. E a coisa é que toda a gente sabe quem é que é a boa gente e quem é a que não presta. O virtuoso é tão reconhecível como o imbecil, nesta terrinha. É como se usassem, uns e outros, uma cruz na testa.
Catorze anos chegam-me e sobram-me, portanto, para participar com uma espécie de gula moral nestes carnavais. Basta-me sair à rua, entrar em estabelecimentos, pousar o cotovelo em balcões efervescentes, atender o telefone, frequentar debates, ler os cronistas e encontrar o João Faria.
O meu leitor gostaria decerto que eu escarrapachasse aqui e agora, sem mais tretas, quem é quem (bom e mau) na terra do senhor marquês. Mas eu não escarrapacho. São nomes ditos e reditos, sabidos e consabidos, velhos e revelhos. Com esta agravante: os bons são maus para os maus, que são bons para os maus como eles.
Por outro lado, os muitos “tribunais” da terra vão (des)fazendo e (des)dizendo de sua (in)justiça a cada dia que passa. Há uma relativa paz em tudo isto, embora se trate de uma paz podre. Podre e antiga.
Gostaria que assim não fosse. Preferiria que esta não fosse uma terra onde as suspeitas se tornam certezas tão sem apelo como com agravo. Onde a frontalidade é confundida com a cuspidela. E onde a cuspidela só aparece de lado, como se cuspida por cobras belfas.
Coisa curiosa: enquanto escrevia isto, surgiu-me o Zé Silva do Teatro Amador de Pombal. Mostrou-me fotografias muito antigas de cantos da cidade. Uma eternidade de décadas exila-nos para sempre desses tempos em que, onde estão hoje o Teatro-Cine e a Igreja Baptista, era a Sociedade Cerâmica de Pombal. Em que a Ribeira Quente era sobrevoada pela Ponte Pedrinha, à perfumada sombra da Casa Cor-de-Rosa. Em que a hoje Rua de Albergaria dos Doze se chamava Rua do Quintalão.
Eu só aqui ando há catorze anos, mas as fotografias tornaram-me mais cúmplice ainda tanto da cidade que já foi e não volta como da cidade que ainda não é mas há-de ser.
Quanto “ao” Pombal de agora, estamos conversados.
Por agora.



29 Um longo verso branco

Fiz-me ao mar da Nazaré. Fiz-me longe. Sol glauco: a tarde parecia uma caixa de sapatos vista por dentro. Na doca, o comandante Zé Falcão e os imediatos Adelino Correia, Santiago e Artur avaliavam a consistência da água enquanto nos rostos se lhes urdia aquele olhar de quem parte.
Antes do mar, almoçámos com uma largueza de príncipes por um sábado. Fomos servidos por homens de colete verde, que nos trouxeram marisco vermelho, preto, branco, nácar, ocre, roxo: as cores do mar, é em terra que começam. Depois de ameijoarmos, robalámos até a boca nos pedir café, e o coração, qualquer coisinha onde o gelo mostrasse o bem que sabe boiar.
Finalmente, a hora de largar. O barco, de brancos seis metros e meio, dormia no cais. Acordámo-lo com brandura. O motor tossiu três vezes, depois deixou-se ronronar como um gato manso. Largámos terra de olhos filmando a formosa baía nazarena e a crespa penedia do Sítio. Íamos deixando, à popa, um rasto de espuma que me pareceu uma espécie de escrita: um longo verso branco, um único longo verso branco na página sempre ímpar do livro do mar: branco como um dedo de cal e puro como uma oliveira à chuva.
Ancorámos no deserto. Ao colo das dunas movediças, deitámos fio a 48 metros. Alguns peixes vieram ter connosco, embora contrariados. Depois, o comandante decidiu rumar ao Cerro Padeiro, onde avistámos uma lustral família de golfinhos. Pareciam gente feliz sem lágrimas e sem anos de solidão. E eram-no.
Enquanto o Adelino não enjoou, fomos cinco a recolher do abismo o honesto pão do mar: besugos, cavalas, pargos e sargos: o dia era tão perfeito, que até o pescado subia por ordem alfabética. O barco era a mão branca que nos colhia da água. O vento não afligia: vinha do sul e falava um árabe atlântico, pacífico.
(Escrevo de olhos fechados: o mar é a mais densa floresta; navegamos na copa de apertadas árvores; a luz, lenta e preciosa como resina, enche-nos de sombra; ansiamos, não sabemos o quê, não sabemos porquê. Adiante.)
Recolhemos canas e âncora, refizemo-nos a terra. A noite, esse outro mar, tinha-nos sitiado. A oito milhas, a costa parecia uma árvore de Natal derrubada. À popa, outra vez o verso branco. Mais branco agora, mais legível agora: o regresso é mais fácil de ler do que a partida.
Deram-me o peixe todo. No fim, depois de me terem dado o ar todo, o mar todo, o dia todo, deram-me tudo o que o mar nos dera.
Jantámos sem pressa no regresso. Falámos de coisas tão inadiáveis como o hóquei em patins, as dores de dentes, a Mocidade Portuguesa e o valor da grade de cerveja como andor de procissão.
No fim, não era o fim. Eram apenas três da manhã, hora a que, já a bordo do meu carro, sozinho já, naveguei entre outras apertadas árvores. Pela escotilha aberta, perfumava-me a respiração o cheiro a mar que os pinheiros libertam na noite. Não precisei de olhar para sentir a certeza inapelável de no meu rasto nocturno continuarem nadando os golfinhos da tarde, perseguindo ainda os peixes adormecidos no porta-bagagens, à proa.
À proa, sim, de onde continuava fluindo o longo verso branco que muita gente pensa ser, apenas, um traço contínuo.


30 Outra coisa

Por razões que talvez me sejam mais alheias do que cheguei a pensar a partir de 1977, só a literatura me interessa de um modo verdadeiro. Com a tenacidade das manias vitalícias, a literatura aparece-me até onde não faz falta nenhuma. O problema, meu, é que, a mim, faz. Claro que tenho nomes e exemplos.
Lisboa, zona do Cais do Sodré. Bebedores matinais e senhoras nocturnas. Homens sós, suas sombras verticais. Nevoeiro público, neblina pessoal. A voz de elefante dos cargueiros partindo. José Cardoso Pires, por aí.
Penedia baixabeirã. Terra, desterro, campo descampado. Café de província. Conversa miúda: o senhor padre, o senhor regedor, o senhor agricultor, o senhor doutor. Virgens ilustradas no bafio dos solares. Parto difícil de camponesa. Fernando Namora, outra vez.
Febres, Cantanhede. Coimbra, Senhor da Serra. A vida, esse caso semântico. A morte, tudo idem. Carros cansados como cavalos. A abelha varrida pela chuva. A árvore negra contra a tarde cinza. Carlos de Oliveira, ainda.
A sepultura numerada da Mãe, ao lado da do marinheiro. Com o neto no Jardim Zoológico, vendo animais numerados, patrocinados, exilados. Não ignorando a morte, bastonário da Ordem da Vida. O toque italiano da mão escritora. António Osório, na manhã clara como água.
Meninos, afinal. O rio com um “f” antes. A maquinaria da miséria. A esperança contumaz. O galo flutuando rumo ao mar, cercado de laranjas. O engenheiro triste que tinha pena e escrevia. Soeiro Pereira Gomes, laica santidade.
Dívidas e moscatel. Sapatos de fivela, latinidades a tostão. Gajas e versos. Remoques à padralhada. Arcádicas respostas que cortam cerce, com sadina cesura. Manuel Maria Barbosa du Bocage.
Pobre comedor de broa, o olho vazado. Charme húmido. Endecha à face toucada, que não tocada, de senhora nobre ou pobre de mais. Moçambique, Ceuta, uma tença onde o Nobel. Imortal, morto, banido, inesquecível. Camões, homem.
Fora daqui, uma galeria de fantasmas palpita transparências de cortinados, de medusas. Proust, sua tosse fumigada, seu horror às correntes de ar, sua máscula proxenética Albertine, seu tempo redescoberto.
Beckett, o rosto talhado a navalha, o absurdo-mudo do acto(r) minimal, o bilinguismo de irlandês auto-exilado.
Joyce, outro que tal. Unha do pé, nádega osculada, um dia é a vida toda, toda a história.
Cortázar, o do jaguar que cruza salas e corredores para deliciado horror de meninas. O dos ratos ou sonhos, aztecas de motorizada, cosmogonias de comboio subterrâneo, engarrafamentos de auto-estrada, enguias previstas por constelações.
Basta. Lentamente, regresso. Soa o sino da Matriz. A manhã acaba de acabar, o mercado já não dura muito. Senhoras levam ao sol uma oferenda de legumes, sementes, atacadores de sapatos. Um homem surge da luz para me pedir sombriamente um cigarro. Tem um olhar de segunda-feira. Dou-lhe o cigarro, olho para o lado, reparo que a janela do bar matinal tem um papel afixado com a face legível para fora. Fecho a crónica, saio e vou ler.
Não tenho feito outra coisa.


31 Justiça

(Não, esta não é mais uma crónica sobre a Casa Pia. Apesar do título, não é. Tenho nojo de mais do caso para escrever a propósito dele. Tenho nojo dos nojentos que viram naquela e em tantas outras instituições uma espécie de talho de onde sacaram, a troco de tostões e rebuçados, carcaças vivas para cevar, pornografar, lambuzar, humilhar, corromper, desumanizar. Nojo de mais.)
A crónica chama-se “Justiça” por causa de um amigo que me disse isto: “Às vezes, pá, parece que só escreves para doutores, para elites.” O que ele me disse (e disse-mo olhos nos olhos, com a franqueza construtiva que o caracteriza) é quase justo. O que aqui lhe respondo é isso mesmo: tens quase razão, amigo.
Sabes, parceiro, uma pessoa escreve porque procura. Procura ser compreendido, procura partilhar, procura não estar só num mundo imperfeito, intolerante e amargo. Procura dar para receber para dar para receber. Escreve para estar vivo: escrevive, portanto.
Nem todas as pessoas que me lêem, como sabes, são “doutores”. Mas todas são a minha elite. Percebes isto, companheiro?
Vou contar-te uma coisa. Acontece-me tentar imaginar o que acontece às minhas palavras depois de se desamarrarem de mim, como barcos largando o porto sem abrigo que sou quando fico sem palavras. Aonde irão elas parar? A que olhos, a que mãos? A que vidas não escritas? Que dirão elas a quem lhes recebe a visita? Que contarão elas de mim? Que segredos, que (in)confissões? Que cantos negros iluminarão? Que sombras deixarão onde a luz era? Eu não sei. Escrevo-as, desamarro-as, um vento de tinta mas leva, barquitos de papel de jornal ao sabor da corrente do acaso. Dou-as, perco-as: é tudo. Ou quase tudo.
Porque às vezes, amigo, recebo delas sinais de retorno. Sim, às vezes algumas delas voltam. Como acontece aos barcos. Então, quando voltam, voltam com gente nova pela mão.
Diz-me lá tu se não é gente de “elite”, essa gente que dá a mão a palavras. Achas justo pensar que sim, Fernando?


32 Telegrafia

Pombal. Outubro. As mulheres continuam bonitas. Todas elas. Os comerciantes enfrentam dificuldades. Quase todos eles. O trânsito tem dias. O sol divide com a chuva a matéria da luz. Entro na pastelaria. Falo com a dona. Anda triste. Não é triste. É decepcionada. Esteve em França. Pensa voltar para lá. A mentalidade de cá não lhe agrada. Viu outro mundo. Este já não lhe diz nada. Saio da pastelaria. Manhã. A vida é telegráfica. Tem stop. Atravesso a rua junto ao hospital. Velhos cambaleiam, chumbados de tempo. Raparigas deixam no ar da respiração um rastilho de mentol. Mercado. Farmácia cheia. Correios cheios. Mercearias cheias. Um cão coxo. Ar de sem-abrigo. Olhar de sem-família. Cheira alheia mijada. Dissolve-se na esquina. Da esquina surge uma senhora totalmente grávida. Sugere todo um globo cartográfico: pólo sul de cabeça nevada com equador de coração de romã rumo a pólo norte de cotos de caminhante. Emigrantes estralejam tremoços de boca aberta. Branco abafado com patanisca. Sandes de isca. Outubro. Pombal. A manhã desagua no restaurante. Mastigadores de bacalhau. Cozinheira nutrida. Bonita. Luzidia. Égua senhoril. Avental com pureza de neve. Telefonema. Atendo. Sim. Estou. Ainda. Está bem. Certo. Sem falta. Combinado. Desligo-me. Outubro já prepara o novembro das coisas. A linha do comboio. Onde Filipe. A biblioteca. A câmara municipal. O jardim. Um pedinte cego recita baixinho a História de Portugal. Outro telefonema. Sim. Mãe. Pombal. Na mesma. E a senhora. Como a lesma. Saúde. Cada vez pior. Novidades. A lesma. Beijos. O castelo lá em cima a sonhar com gruas. Rua do Tirol. GNR. Os carros para Ansião. Senhora de Belém. O bombeiro de pedra. A serra mastigada de brita. Um copo no César. As bocas dos veteranos. A luz como um adesivo na pele da tarde. A palpitação das árvores. Sua papiada língua de pássaros. Crianças saindo da Marquês de Pombal. Marquês de Pombal no feminino. Íntimo gramático sorriso. Há que sorrir. Telefonema. Sim. Malandro. Então. No Daniel ou no Tó. Seis. Seis e meia. Sem falta. Combinado. Shopping. O néon do produto. A promoção. Os tantos por cento. A cerveja holandesa. A roupa de artista. O CD na berra. O código de barras que te faz zebra. A música de elevador. Vivaldi de estacionamento subterrâneo. Rua. Pombal. Outubro. Estacionamento pago. Dias úteis. Noites inúteis. As laranjeiras domesticadas. A Secundária. O bairro cor-de-rosa. A Caroca. Agora para onde. Noite. Caraças. Outra vez. Telefonema. Sim. Não. Talvez. Vê se podes. Fala com o gajo. Fia-te na Virgem. Malandro. Nove. Nove e meia. Claro. Tens dúvidas. No Jorge ou no Aniano. Pois. Tem de ser. Xau. A chuva é a sombra tornada corpo. A humidade contando ossos na alma. A lenta cinematografia de estar sendo. Cruz verde. Néon. À esquerda. Entro na farmácia. Vazia. Finalmente. Atende-me o senhor Manaia. Faz favor. Tem alguma coisa que faça bem. Pergunto eu. De que se queixa. Pergunta ele. De Outubro e de Pombal. Estou a ver. Leve esta caixinha de Abril. Stop.

33 Luz negra

(Em 1981, o Clube Recreativo da minha paróquia tornou-se “disco”.)
Futurismo, tázaver? Altamente. Foi um flash. Loucura. Duran Duran, ouve. Ya, o teu perfume patchouli. Manobras orquestrais no escuro tavam a dar.
(Espremíamos as borbulhas da cara, vestíamos um pulôver azul-escuro, pedíamos cem paus ao velho, escoicinhávamos a zundape, zunda, zunda, e spidávamos no café um sg filtro que, na altura, não nos dizia que, no caso de estarmos grávidos, távamos a prejudicar a vida do nosso filho. A ponte era uma passagem. Como a vida, tázaver?).
Ya, ouve, cuba livre é cola com rum, nessa base, altamente. Loucura.
(Vinham uns ménes de fora ver se nos sacavam as garinas. Às vezes, sacavam.)
Mas Pink Floyd, ouve, curte o universo, as estrelas psicadélicas, cenas alta flash, origem do Cosmos e Deus com sede social em Marraquexe.
(A Direcção do Clube investiu na luz negra, um tubo de néon roxo que punha a dentadura e os defeitos têxteis do pulôver a brilhar no escuro.)
Samarras de pastor e botas bicudas, tázaver. Futurismo. Ya, beijos de língua, curtições e cenas baris. Altamente. Patilhas rapadas a gilete, cabelo alto em cima. Risco ao lado nunca, fogo. Spandau Ballet é fixe, mas AC/DC é outra onda, num tem nada a ver.
Slows para encostar as gangas. Shine on you crazy diamond, diamante louco, tázaver, cena pó gajo dos Pink que se passou. Os americanos dizem que o Jim Morrison tá vivo no Tibete. Alimenta-se de raízes e cenas naturalistas, cena monge, nessa base.
(O Clube fechou. Reabriu agora. Serve feijoadas ao pessoal da sueca, sábados à tarde. São os mesmos. Venderam as zundapes. Estão naquela. Cena. Loucura. Não altamente. Não tou a ver. Deve ser da luz negra.)


34 Maria

Esta de hoje é sobre a minha tia Maria, defunta ao cabo de quase cem anos de solidão. Nasceu e morreu solteira. Talvez por isso tenha durado tantos anos, não sei. A mãe dela (e do meu avô, pai da minha mãe) demorou cento e um anos e meio a apagar-se. Já o meu avô durou pouco mais que metade disso, pelo que o melhor é o neto despachar a crónica antes que o badagaio lhe dê nas coronárias.
Maria se chamava, pois. Em família, referíamo-nos a ela como “Maria da Estação”. Durante muitos anos, ela sentou-se num banquinho à frente de um tabuleiro de bolos que vendia aos passageiros da Estação Velha, como ainda hoje é conhecida a plataforma ferroviária de Coimbra-B. No filme português “Capas Negras”, com Amália Rodrigues e Alberto Ribeiro, ouve-se, na cena da estação, um trinado fininho. É o pregão da mulher das arrufadas. Essa mulher é a minha tia Maria da Estação, que assim, sem querer, abriu e fechou uma breve mas documentada carreira cinematográfica. Uma carreira que só não chegou a Hollywood porque os americanos não fazem a mínima ideia do valor da arrufada. Mas adiante com Maria.
Lembro-me da casa em que vivia. Pequena como ela, era quase toda cozinha. Havia mais o quarto de dormir e um saleta tão restrita como o coração de um gato, mas era na cozinha que ela desempenhava o mandato vitalício da solidão. O tempo estava assente em naperons de renda. O relógio era tão antigo, que marcava melhor o século do que a hora. Plantas humílimas dividiam com ela o ar. Cheirava a frio e a lixívia, a casa. E era pouco maior que as alminhas das encruzilhadas.
A minha tia tinha um calendário do papa Paulo VI e uma litografia de cores murchas em que a Senhora de Fátima aparecia sem intervalo mensal aos pastorinhos ajoelhados. A estas duas relíquias juntava-se um rosário de plástico muito preto e muito rijo, que ela digitalizava com a distracção filosófica dos nonagenários. Na parede da cozinha, ao lado de um fogãozito de dois bicos, tinha ripas pregadas de que pendiam o púcaro de esmalte azul e um tacho que me parecia ser o tacho mais pequeno do mundo. Hoje, compreendo que a solidão se pode medir pelo tamanho da louça.
Também me lembro da chávena almoçadeira, que era debruada a filete de ouro com um cromo de rosas virginais estampado na porcelana estilhaçada de tempo de mais. A mesa tinha sido pintada de um azul que a acumulação de amarelo (a vida) tornara verde. Eram apetrechos mínimos, escassos despojos de solteira velha. A minha tia Maria? Uma boneca antiga numa casa de brincar a estar viva sem filhos.
Visitei-a algumas vezes. Fritava-me uma costeleta, dava-me uma nota de cinquenta escudos e fazia-me as mesmas perguntas da visita anterior. Eu passava sem distinção esse exame oral que o tempo teima em apagar.
Se hoje vos conto isto, conto-o talvez porque chove e faz frio, condições meteorológicas ideais para o exercício da melancolia. E porque cinquenta paus são sempre de agradecer.


35 Usucapião

É um mundo que vos não pertencerá, como a nós nos não pertence, onde estareis como estamos, e deixaremos (deixareis) de estar. Não o digo (não vo-lo dizemos) por maldade ou pessimismo, mas porque assim é, foi, será.
Pertencemos, antes (depois), nós a ele, como também vós, os vindouros, e vós ainda, os idos de ouro que substituímos para que nos venham substituir os outros vós, que vireis para lhe pertencer a ele, mundo.
Somos como árvores e como táxis: verdes por cima, negros por baixo, estilhaçados em cima pelo cubo do vento, ancorados em baixo pela roda da terra. Sempre porém, arbórea ou automóvel a imagem, em quieta viagem por este mundo corredor.
A bandeirada (o preço do vento) marca o passo dos que passam para que outros venham a passar ou passem a vir, rápidos como árvores vistas em viagem, de táxi ou não.
O dinheiro não nos salva. O prédio, rural ou urbano, não nos resgata. A simpatia bancária, por mais juros, nada nos jura.
Protestos de amizade, acusações de correspondência, colecções de selos, filhos (es)partilhados ao fim-de-semana como apartamentos no Algarve em época baixa, confirmação do maligno em pessoa próxima: números sucessivos (passantes) da conta com que o mundo nos (vos) faz de conta, este mundo a que pertencemos sem que nosso seja ou vosso possa vir a ser, como de outros não foi. Nem podia, pode, poderá. Este mesmo mundo por que transitamos sem culpa e sem inocência, sem mistério e sem apelo, sem querer e sem poder. Nada nos salva. Nada nos salva excepto o nome.
Quando, dia 15 que vem, o jornal onde escrevo fizer gala de honrar certos oito nomes, talvez este mundo se deixe pertencer um pouco a quem tanto lhe pertence. Nós, que estamos, e vós, que vireis ou fostes, vivos e mortos, rápidos e lentos, árvores viajantes todos.
Já sei os oito nomes a que O ECO vai retribuir sinal de mérito. É a primeira vez que a gala do jornal mais antigo da terra se chama António Serrano, essa outra antiga árvore que segue viajando na lembrança de uma terra que nem sempre, ou quase nunca, se lembra do que deve. Premeia-se nesse dia de Novembro o valor de cinco pessoas e de três instituições que, com propriedade, valem. Sei os nomes, sei que rostos trazem esses nomes encastoados, raras pedrarias, na madeira do que são: árvores todos também, passantes que dia 15 não passarão sem que lhes digamos que sim, que valem, que o mundo também nos pertence (um pouco, ao menos) quando, como eles oito, o tornamos menos mau e mais culto, menos feroz e mais educado, menos bárbaro e mais desportivo, menos umbilical e mais associativista, menos longe e mais migrante, menos solitário e mais solidário, menos pobre e mais desenvolvido, menos maldito e mais prestigiado.
Não vos (nos) pertencerá um mundo que não mereçamos, eis.
Fraca passagem, por ele-mundo, a nossa (a vossa), se não houver de nós (de vós) uma única tentativa de registo de propriedade.
Rural ou urbana.
Como na matriz de certos oito nomes de que o ECO faz agora usucapião.


36 Apita o comboio

De Étienne de La Boétie sabe-se que viveu pouco: trinta e três anos, a idade física de Cristo. Mas Étienne teve tempo, ainda assim, para, em 1548, com dezoito anos de idade apenas, escrever um livro chamado “O Discurso da Servidão Voluntária”. Philippe Corcuff diz-nos que, para o jovem, “todos os humanos são humanos da mesma maneira”. Nesse livro, La Boétie escreve: “Este patrão não tem senão dois olhos, duas mãos, um corpo e nada a mais que o menos importante dos habitantes do número infinito das nossas cidades.” Talvez por revelar esta e outras tão luminosas verdades tenha tido a sua vida tão escassa duração, não sei.
Cinco séculos depois, a bordo de um avião rumo a Praga, Julio Cortázar encantava os seus amigos García Márquez e Carlos Fuentes com uma erudição descomunal a propósito da evolução do piano no jazz. (O jazz, esse comboio negro que os brancos só apanharam em andamento.) O argentino nascido em Bruxelas existiu entre 1914 e 1984, durando-lhe a vida o suficiente para criar, entre tantas outras maravilhas, figuras como Madame Francinet e Monsieur Bebé, talvez tenham ouvido falar de.
Trinta e três anos, setenta anos, quem sabe quanto nos durará a vida? Há quem parta criança ainda, como há quem complete um século particular. No entanto, penso que a vida não é importante pelo que dura, mas pelo que dela perdura. E também penso que a liberdade e a sabedoria são pilares firmes da perduração. Em contraste, a servidão e a ignorância condenam ao desaparecimento, que não por acaso rima com apagamento.
Eu, que sirvo e ignoro, já só espero durar o suficiente para merecer a liberdade de um Keith Jarrett ao piano.
(A liberdade, esse comboio branco que os negros só apanharam em andamento.)


37 Infra

Ao que vi na televisão, os nossos (salvo seja) GNR em missão no Iraque já estão fartos de… macarrão. À TV, confessaram saudades estremes e estremecidas da gorda feijoada, do lauto bacalhau e do total cozido à portuguesa.
Eles lá estão. Patrulham, vigiam, fiscam e confiscam. Mas têm saudades, esses portugueses cujo patriotismo exilou, a tantos euro-dólares por dia, do remanso das nossas hortas para o humanitário petróleo dos outros. Desligo o televisor e imagino.
Imagino o cabo Meireles, de nervosa fusca na mão, deambulando por entre os fumegantes destroços da bomba de 3ª-feira, a farejar os ilusórios vapores duma farta dobrada com feijão branco, a lágrima ao canto da boca. Já o capitão Dâmaso, de pança amortecida já, vai tocando com enojado garfo o minhocoso esparguete enquanto a alma se lhe esvai, em peitorais suspiros, pela taçada de caldo verde.
Naturalmente, isto é tudo uma brincadeira. A sério, os nossos bravos (salvo seja) do pelotão andam secando agruras na árida Mesopotâmia. Profissionais bem treinados, não deixarão de cumprir o que se lhes exige: garantir ao mundo que Paulo Portas é homem, e de palavra, ao pé de Rumsfeld, o Nato Donald. Mas também é, valha a verdade, uma brincadeira triste. É que, por lá, a morte é bombástica. Oxalá, claro fica, que a nenhum dos nossos (salvos sejam) tal suceda.
As coisas, garante a TV, até estão fixes. Parece que os luso-intrépidos “guênêrrês” já têm visão infra-vermelha: vêem de noite como se fora de dia. Desligo e imagino.
Imaginai comigo o cabo Meireles e o capitão Dâmaso às duas da manhã. Sorrateiros, escapulindo-se da camarata, de viseira infra-vermelha afivelada aos oftálmicos, tacteiam a cozinha da messe à cata de um improvável prato de rojões. Encontram os rojões e muito mais. Já os vejo: sentados no chão, de pichel de verdasco ao lado, abrasando a tenra fritura, a lasca de bacalhoso, a supurenta farinheira, a porcina orelha ensalsada, mais a isca figadal afogada em alho vinagrete, esquecendo nada a jucunda morcela de arroz, antes do palito esmifrador e do acamador arroto. E então, ala pá cama, que não tarda o nosso major ainda (n)os apanha c’a mão… na massa.
Então adeus e até ao meu regresso.


38 Contar no escuro

Tão pouco depois de ter nascido, a luz entrega-se à noite como uma mulher ou um telegrama. As casas surgem nimbadas de uma espessura humana: a suave amargura do declínio. Pintor, o último sol lambe licor de rosa na larga vidraça do longe.
Juliano Santos Peres desce a Heróis do Ultramar, compra o jornal na tabacaria de Maria Luísa Antunes, desaparece na esquina da farmácia Paiva. Vai jantar sozinho no primeiro andar que herdou dos pais. Guisado de carne com ervilhas, em cima um ovo escalfado que parece um olho glauco. Uma maçã no fim. O outono range nas madeiras do quarto. Juliano liga o despertador no automático, programa meia hora de música, os números vermelhos pulsam o rubi da hora já nocturna, fuma um cigarro no escuro.
Enquanto Juliano confere o troco do jornal, Mariana Esteves Gualdim sobe a rua do Cais, ascende à Matriz, estaciona junto ao Tirol. Bebe uma água mineral enquanto espera por António Crespo Reis, seu noivo serôdio, seu encosto final. Mariana tem 52 anos. António, 39. Ele prometeu vir, mas nunca se sabe. Mariana sabe. No escuro, Mariana sabe.
Quando Mariana leva à boca mineral o quartilho de água, Sacha Ilich Gregoriev compra uma lata de salsichas, um pão escuro e uma garrafa de vinho na mercearia de Ramiro Manuel Lopes, ao Barrocal. Paga com contadas moedas, sai pela direita, regressa à garagem com divã onde adormece a pensar numa mulher de Minsk que não entra nesta história.
Até às duas da madrugada, os náufragos do anoitecer têm abrigo no café de Filinto Diamantino Gonçalves, que esteve em Angola a combater de G3 e em França de colher e talocha. No chão, peles de tremoço namoram priscas frias. Um homem vestido de escuro inscreve-se no sorteio do presunto pelo número suplementar do totoloto.
Lá fora, a noite fotografa de luar a quietação do mundo. A larva do sono baba a seda mortífera do esquecimento, que perdoa a homens e mulheres o pecado de dormirem no escuro contra a clareza da vida.
Pouso o lápis. Já é de manhã. Já não está escuro, palavra seis vezes constante desta história, sem contar com o título, sem contar com nada.


39 Ponto de partida

Corria o Verão de 1963. O meu Pai chegou-se ao pé da minha Mãe e desafiou-a para jogar à “Verdade ou Consequência”. Na hora da verdade, a minha Mãe perdeu. A consequência, fui eu, dez meses depois. Sim, dez. Aos nove de gravidez, o médico palpou a barriga planetária da minha Mãe, olhou-a nos olhos, tirou o cigarro da boca e disse-lhe: “Isso que tens aí dentro ainda não está pronto”. Era no tempo da ditadura e os médicos tratavam as pessoas pobres por tu. Resignada, a minha Mãe voltou para casa. Eu também, e feliz da vida como nunca mais.
Um mês depois, eu doí-lhe. Ela voltou ao Instituto Maternal (onde hoje funciona o Conservatório de Música de Coimbra; as trompas de Falópio deram lugar às trompas de harmonia, portanto). O médico calcou o cigarro, queimando o linóleo do chão. Foi a vez de ele se resignar. Disse ele: “Olha, ainda não está completo, mas paciência”. Vai daí, sacou de uns ferros tão esquisitos que até se chamam fórceps e ferrou-me a cabeça. Abriu-me tal lanho na mona, que ainda hoje, tantos anos depois, cá mora. Mas é uma cicatriz útil. Por causa dessa lesão original, sei sempre quando está para chover: basta que me caia um pingo no sítio para eu me pôr a desconfiar do tempo.
Nasci gordo como um cozinheiro de rodízio, mas o hábito ulterior de trabalhar para caloteiros secou-me os refegos. De modo que fui levando, embora nem sempre no melhor sítio. Andei, andei, andei e aqui estou. Se vos acontecer passar pela sala onde hoje se estuda clarinete, olhem para o chão. O linóleo é o mesmo de há 40 anos. Nele vereis, devidamente queimado, o primeiro dos meus pontos finais.



40 Um embrulho na pastagem

Esta manhã, ao chegar ao meu carro, reparei que a capota da viatura tinha sofrido um bombardeamento aéreo. Por toda a superfície, lá estavam os sinais de uma massiva rajada de caca de pássaros. Foi então que o meu incurável optimismo veio ao de cima: “Ainda bem que não tenho um descapotável!”.
É com este tipo de ginástica mental que vou iludindo a pobreza. E acho que a nossa querida Pátria faz o mesmo. Caso contrário, como suportaria a mera possibilidade do Santana Lopes poder vir a ser Presidente da República?
O grande Eça de Queiroz admirava-se sempre quando, de regresso de férias a Portugal, não via o País transformado naquilo que em verdade é: uma imensa pastagem. Ora, Portugal é o que é. Eu acho que é uma pastagem.
Mas há razões para optimismo, mesmo que “optimista” seja o idiota para quem tudo é óptimo. O jesuítico Código Laboral de Bagão Félix, por exemplo. É óptimo: pior não podia ser. Ou o telemóvel de Ferro Rodrigues. É bem melhor que o meu: dá para falar com e para uma data de pessoas ao mesmo tempo. Ou, ainda, a piada sobre o Menino Jesus que o Carlos Cruz contou ao seu amigo João Braga. Não me ri, mas é sempre óptimo saber que os famosos se riem de coisas sérias.
Pela nossa zona de pasto, também tudo é óptimo, excepto o que é péssimo. E péssimo foi o que li num órgão de informação(?) local na semana passada. Li “declaracções” em vez de “declarações”, “inúmera” em vez de “enumera” e “contexto” em vez de “contesto”, para além de tantos outros atropelamentos mortais de sujeitos, predicados, sais minerais e outras coisas mais.
Mas o mais grave nem era o sistemático coice na gramática. Grave foi a caneladazita manhosa na disponibilidade de Carlos Mota Carvalho, que foi “levado” pel’O Correio de Pombal a prestar declarações sobre uma iniciativa d’O ECO. O muito honroso presidente do Guiense foi induzido a comentar algo que não lhe diz respeito, como seja quem decide O ECO, cada ano, homenagear. Eu conheço Mota Carvalho. E como sei que a sua muitíssimo meritória acção associativa se caracteriza pelo muitíssimo bem que tem feito na Guia e nos Antões, não estava nem estou a vê-lo a dizer o que não sei se efectivamente disse a propósito do também meritório ARCUDA.
Não nasci ontem. De modo que me cheira a esperteza saloia. Não de Mota Carvalho, naturalmente. Não só a mulher de César tem de parecer séria. César também tem. Na vida em geral e no jornalismo em particular. Porque este tipo de manobra bufa descredibiliza o jornalismo. Sou contra o boato careca, a trica maldosa, a alusão rasteira, a chufa piolhosa e o bedelho imberbe.
Mesmo numa pastagem, há que saber pastar. É claro que eu sei donde é que isto vem e para onde é que este tipo de coisa quer ir. Quer, mas não vai. Primeiro, porque O ECO homenageia quem muito bem entende. Depois, porque só induz o mal quem não é capaz de fazer melhor. Finalmente, porque até para comer palha é preciso vocação.
Não podemos “tar” para o jornalismo sério como o Ferro Rodrigues “tá” para o segredo de justiça ou os pássaros “tão” para o meu carro.
Embrulha.


41 Da minha parte

É hoje pacífico aceitar que a personalidade genética dos homens inclui uma nada desprezível parte feminina. E naturalmente vice-versa. Aceito tudo isso não apenas pacificamente como até com algum entusiasmo. De facto, a parte feminina das mulheres foi sempre, não sei porquê, o que mais a elas me atraiu. Claro que desconfio o meu bocado. Se uma mulher me dissesse “Tenho uma parte masculina”, eu perguntar-lhe-ia logo “Qual parte? E em que parte?”. Isto deve-se seguramente à minha parte masculina, que obriga a minha parte feminina a fazer-lhe a barba, coçar-lhe as costas e pagar-lhe a factura do telemóvel nos piores onze meses do ano.
É claro que, quando me refiro às partes, nunca aponto com o dedo. Nem às próprias, nem às de ninguém. Questão de delicadeza, talvez, que agradeço à mulher que há em mim.
Se o problema vos parece complexo (ou, no mínimo, esquisito), então vamos por partes. Lembram-se daquela canção? “Este parte, aquele parte...”. A canção é sobre aquilo de que vos falo: “Galiza, ficas sem homens...” Estão a ver? Por isso a Galiza é o paraíso de gineceu que é. Que quer dizer gineceu? Quer dizer: ala mulheres que lá vou eu.
Claro que há mais que isto. Faca & garfo, estão a ver? Não? Anfíbios, OK? Ainda não? Está difícil. Talvez Marco Vassi, esse velho devasso italiano, vos ajudasse: existe uma terceira parte. Masculina, uma. Feminina, duas. Todos ao monte, três. Já perceberam? Pronto. Sossegados!
Duas histórias para arrefecer.
Jorge. Há muito que resolveu o problema. “Que problema?”, pergunto. “Pá, nunca vou para o Algarve sem levar a minha mulher e a minha esposa”, diz ele com um ar de comparte que me parte todo.
Tatiana. Dezanove anos, pais no Canadá, finalista de Terapia da Fala, chave do Clio. Sexta-feira à noite. Jantar com Gervásio, 48 anos, gestor de telecomunicações, divorciado, pai de um filho mais velho quatro anos que Tatiana. À hora do café, Gervásio mostra a Tatiana, no PC portátil, o e-mail que recebeu de Cyro, brasileiro, 31 anos, gato moreno que afia as unhas com pau de canela. Tatiana lê, compreende, aconselha. Gervásio enxuga uma lágrima futura. Separam-se à porta de duas discotecas anexas. Uma só para gervásios. Outra, para toda a gente.


42 Traçado

Muita gente acredita que o destino está traçado. Eu não. Se estivesse, quem lhe teria deitado gasosa? Tretas. Mas já topo que a vida é como os casacos de bombazina: já vem com remendo no cotovelo. Há que levar ambos os quatro, enfim: o destino, a vida, a gasosa, a bombazina. E não pôr “a” em destino, que dá desatino. Pôr, antes sim, o “a” em vida, que a torna ávida de si mesma. O que deve ser bom.
Digo estas coisas por piedade, que é quando a idade nos dá pena de nós mesmos. Ou a mim, se a vós não. E a idade é um fogo que arde e se vê. E com o fogo não se brinca. Ainda no outro dia. Eu conto.
Um menino lia um compêndio de História da Humanidade. Perguntei-lhe: “Já sabes as idades da humanidade?”. E ele: “Para além da contida no próprio nome da espécie, há a da Pedra, a do Átomo e a sua”. Senti-me velho como um naperon de tia-avó. Dei-lhe um rebuçado de piri-piri e abandonei a Biblioteca com o rabo entre as pérnias (sofro de hérnias nas gâmbias, e logo em âmbias).
Mas ele há dias em que não falo assim. Calo-me e fico posto em sossego como Ricardo junto a Lídia ou Luís Vaz decimando Inês. Torno-me guarda-costas do meu próprio silêncio. Vigio o crescimento das sombras. Respiro por puro milagre. Os bocejos saem-me odes.
É quando a noite papia estrelas. Faz frio. Venho à rua. Ruído e cheiro de chuva. E então sim, acredito: chover deve ser Deus, ou o Diabo por Ele, deitando gasosa no destino.


43 Provérbios

Eu sei, e vocês também sabem, quem escreveu “Os Lusíadas”. Mas quem é o Autor de “Água mole em pedra dura...”? Isso gostaria eu de saber. Porquê? Porque morro de inveja. A única ambição séria que alguma vez tive, tenho e terei na vida foi, é e será criar provérbios. Ao menos um. Unzinho. Mas um bom, um definitivo, um imortal. Deve ser o máximo, inventar uma máxima. Deve ser anexo, criar um anexim. Melhor que sair-te a rifa, só sair-te o rifão. Os provérbios são o melhor que o Povo deu a si próprio. São lapidares, perfeitos, arrasadores de bom senso comum. Bem tento criar uma coisa dessas. Mas quê.
Outro dia, veio cá um antigo astronauta. Houve bebendas, comendas, polainas, sotainas e comezainas. A um canto da recepção, esperei a minha orbitunidade, perdão, oportunidade. Quando ele passava perto, de capacete numa mão e croquete na outra, sussurrei-lhe: “Quem vai para o espaço, enche-se em terra de bagaço.” O homem ligou o reactor e desamparou-me a loja. Pobre de mim, que nem loja tenho. Só desamparo.
Mas não desisti, olha quem. Para entreter a frustração, inscrevi-me num curso de joalharia por e-mail. Já tenho a pulseira electrónica do primeiro semestre, pelo que pouco saio de casa. Aproveito o tempo livre para pensar (pois em que mais?) em provérbios. Só me tem saído fruta bichada. Querem ver?
Um pássaro num ramo. “Ao cantar da cotovia, ou é noite ou é de dia”. Péssimo. Actualidade? “Quem do mundo não quer mal, não vê telejornal”. Horrível. Desistir, enfim, não desisto: “Mais vale repetente que desistente...”
Mas sofro de cavalo dado com dor em dente. Dente, dente... tentemos: “Quem te adente que t’aguente.” Menos mal, menos mal. Outra: “Quem vê cáries, não vê obturações.” Muito forçada. Outra: “Dente na língua, na perna é íngua.” Haja Deus.
Que hei-de fazer? Nada. A fase normal (mulheres nuas e motos) acabou-se-me aos seis anos de idade. A mania dos provérbios atacou-me à porta da escola primária, única altura da vida em que me aceitaram em primeira classe. Desde então, sofro torpes torpezas, tristes tristezas, arrábidas de frustração de monchique ao marão.
De repente, “flash”: “O venal e o venéreo encontram-se no cemitério.” Ná. Impraticável. Não estou a ver a mulher dos tremoços a dizê-la. Tentemos o reino hortícola: “Grelo couve não volta a haver.” Bã. “Couve-flor não leva jarro.” Nã. Vamos pela anatomia: “De petiz se torce o nariz.” Esqueçam. Música: “Matinée de cassete, só miúdas de chiclete.” Oh Senhor! Dinheiro: “Tostão poupado, nem ardido nem queimado.” Melhorzito, mas fraquito. Reino farmacêutico: “Amor diabetes, beijinhos hermesetes.” Acudam-me. Reino automóvel: “Quatro pá frente e uma pra trás, só mete quem é capaz.” Cristo. Reino informático: “Computador de cabeça, não há esposa que lh’apeteça.” Santo Cristo. Reino monárquico: “A Afonso, nem missa nem responso.”
Enfim, contas somadas, provas de noves tiradas, estou a maluquecer. E de vez, espero. Porque uma coisa assim, quem é que a atura?
Tanto bate até que fura.


44 Adeus de cor

Chamava-se Estela Seminário e entardecia todo o chão que pisasse. Estela chegava e o mundo tornava-se crepuscular. Era como se a luz portuguesa passasse a falar aos olhos noutra língua. O instante da sua passagem valia o valor de todo o ouro velho de todos os outonos que fazem de cada homem um montão de folhas caídas.
Estela Seminário saía de casa tão cedo, que a nova manhã não diluíra ainda a tinta permanente da noite. Chegava à fábrica, bebia um copo de água com açúcar, sentava-se à secretária e durante oito horas dactilografava cartas comerciais num francês asséptico. Ao contrário do que acontece na literatura, eram os dedos a dar sentido às letras. A respiração soerguia-lhe o mármore morno do busto. Oito horas corria o rio de a esperarmos. A foz era a passagem.
Durante o dia, a coragem era feita de tentar esquecê-la. Mas cada um de nós levava a cabo a tormenta de tanta boa esperança de, um dia, ela não passar mas parar, escolher algum de nós, embalá-lo em papel-manteiga e levá-lo para casa. Nunca aconteceu.
A fábrica fechou, transferiram a maquinaria para o lado contrário do País, a administração escolheu meia dúzia de empregados e despediu o resto. Estela Seminário estava entre os escolhidos, depois de tanto ter sido a eleita. De modo que ficámos sem ela.
O ouro velho fez-se pó, que o vento levou e, que se saiba, até agora não devolveu. O inverno instalou-se de imediato com suas frias armas, suas ferrugentas mochilas de escuteiro velho. Os menos resignados começaram, a partir de então, a recusar a evidência de a vida ser pouca coisa ao pé de uma rua por onde Estela Seminário não passasse. Fingiam-se distraídos, assobiavam tangos perfumados pela noz moscada do desespero e recontavam proezas eróticas que despertavam em cada outro o pequenino regozijo da desconfiança. A única certeza era a nostalgia.
Eu deixei-me viver enquanto me foi possível suportar a visão poeirenta da rua que ela abandonara à má sorte de tanto papel-manteiga sem uso. Usei livros de bolso que me não cabiam na algibeira do coração. Até que veio o dia em que não pude mais. Levantei-me cedo e parti sem me despedir de todos os que sabiam a palavra adeus de cor. Telefonei à minha mãe, não sei quantos anos depois, de uma estação de comboios. Digo de uma estação de comboios porque é o que faço na e da vida desde então: andar de comboio. Verifico em cada apeadeiro a impossibilidade de ficar. Desacerto o relógio parado de todas as gares. Reconheço um irmão em todo o viajante de nenhures a sítio algum. Não me lembro de um comboio que tivesse perdido. Sei de alguns que não quis apanhar. E de um que não soube que partia.
A partir de então (como acima se diz, em narrativo tempo, do momento em que Estela Seminário acompanhou maquinaria de desactivada fábrica rumo ao avesso do País), aconteceu isto: tornei-me um ele, como sempre acontece a todo o eu que parte.
O resto da história, os senhores sabem-na: está nas crónicas anteriores dele.


45 O maior país

“Qual é o maior país da Europa?”. Foi isto que me perguntaram ao balcão da Cervejália, mal me tinha sentado para um café e um bocadito de futebol por cabo. Não sou grande espingarda em geografia, mas lá lhes respondi: “Acho que é a Rússia”. Tratava-se de uma discussão amigável que tinha redundado em aposta: meia dúzia de amigos, meia dúzia de jantares. A maioria inclinava-se, também, para a Rússia. Mas dois pretendiam que se tratava da Ucrânia. Teima aqui, reteima ali, só havia uma hipótese: saber com precisão os quilómetros quadrados de um e de outro país. Acontece que o César, em vez de enciclopédias ou atlas, é mais sapateiras e navalheiras. Problema nenhum. Arrancámos para o Net.Caffe e vai de pesquisa. Azar dos “ucranianos”: entre os Montes Urais e as fronteiras a ocidente, a Rússia europeia espraia-se por 4.238.792 km2. Não contando com a vastidão asiática, atenção. A Ucrânia tem 603.700 km2. A cara do que perdeu a aposta parecia um retrato do Picasso transportado num carro de rolamentos em ladeira de paralelos. Mas o “ucraniano” principal vai pagar as ceias da aposta. É um homem de palavra. O preço dos jantares deve equivaler ao de um atlas actualizado. Não se perde tudo.
Sem apostas, fui jantar a outro lado. Fui ao Carriço, a ”O Nosso Café”. A convite do Dionísio, dei de caras com o dono Rogério e com uma seita tenebrosa de gente que trabalha na dureza. É uma malta do norte. Pontificam o Tomás e o Fernando, que entre a metalurgia e a feijoada de búzios raramente têm dúvidas, nunca se enganando nas companhias que aceitam. “O Nosso” foi, em tempos passados, gerido por um homem cuja morte acidental entristeceu meio mundo. Chamava-se António, era um cavalheiro solidário, um homem bom. A vida dele ainda ilumina os olhos de quem a recorda, do irmão aos tantos amigos dele separados pela fronteira sem retorno da morte.
Mas à malta do norte não pergunto eu qual é o maior país da Europa. Eram capazes de dizer que é o Porto. Querem lá saber de quilómetros quadrados. Por mim, desconfio que no fundo no fundo, o maior país é o da amizade. Mas não sei se aposto.


46 Optimismo

Na televisão, um senhor disse, com bom humor, qual a diferença entre o pessimista e o optimista. Pessimista é aquele que diz: “Isto não pode estar pior”. Optimista é o que diz: “Pode, pode...”
Foi das poucas coisas inteligentes que ouvi dizer na tv. Sem excepção, os canais nacionais são pobres de espírito. Não, pior que isso: são empobrecedores dos espíritos. No entanto, o Povo, cuja indiferença pelo importante em detrimento do supérfluo lhe é fatal, quer lá saber.
Acontece que a realidade não se esgota na caixinha aldrabona que todos temos na sala, à maneira de aquários povoados de peixes tão coloridos como idiotas. Fora da TV, a vida prossegue, implacável.
A Educação, por exemplo. Qual educação? Cada vez mais, os professores vêem-se obrigados a ser burocratas. As competências básicas (ler, escrever, contar) desapareceram das planificações. Em seu lugar, vicejam os paleios sócio-integrantes, afectivo-estruturantes, educo-rapinantes, euro-causticantes, bigbrodó-esvaziantes, asinino-cavalgantes. É pena, mas “é assim”, como toda a gente diz 52 vezes por minuto. As novas gerações vão para a escola e da escola saem com o raciocínio embotado, o cálculo oxidado, a sensibilidade anestesiada, a criatividade congelada. Quando a coisa atinge himalaias de escândalo, faz-se uma greve à sexta-feira e pronto.
A Saúde. Qual saúde? A dos hospitais públicos entregues à voracidade das seguradoras? Ou a dos centros de saúde de província, onde a desconsolada população rural enverniza com as nádegas murchas as cadeiras de baquelite das salas de espera?
A Justiça? Está bem, está. A Indústria? Cada vez melhor. O Comércio? Uma praça da alegria. A Floresta? Em Agosto falamos. O Cocó dos Suínos? São necessidades.
Haverá quem me chame derrotista. Não sou. Mas também digo que vale mais um pessimismo durinho do que um optimismo barrosão.
Trinta anos depois do 25 de Abril, os direitos laborais vão a caminho do mar, depois de despejados na fétida latrina dos “interesses conjunturais superstruturantes”. O Benfica não é campeão há dez anos, o País não tem juízo há 861.
O que vale é que sempre podemos levar a Joana Rita a comer plástico ao centro comercial para sermos europapás como lá fora. O que vale é que sempre podemos deixar o Bruno André na fila do Harry Potter enquanto nos comovemos com o último da Margarida Rebelo Pinto e o próximo do Paulo Coelho, ao som estereo-afónico do Robbie Williams.
Derrotismo? Mas que é que os senhores querem? Espinosa diz-vos alguma coisa? Sim, aquele do título do António Damásio. Sinceramente não, pois não? E Nuno Bragança? Não, não é da família do nasal D. Duarte. Azar: Sophia de Mello Breyner não é casada com o Nicolau também Breyner. E se de repente alguém vos dissesse que anda por aí uma maltosa a querer esvaziar a Constituição da República? E que há sérios riscos de instauração de um Senado cheio de digestões parasitárias?
Nem tudo é mau, enfim. Pode ser que a Joana Rita chegue à final dos Ídolos e seja famosa 15 dias. Pode ser que o Bruno André vença o Quem Quer Ser Milionário. Desde que lhe não perguntem qual é a capital de Espanha, pode ser que sim. Não pode?
Pode, pode.

47 Humi(l)dade

Vivo há anos numa casa tão húmida, mas tão húmida, que em vez de pantufas uso barbatanas. O gato dedica-se muito mais à perseguição e caça dos inquietos carapaus da sala que dos ratos da garagem. Os ratos, aliás, fazem-me o favor de morrer de muito tossida pneumonia. Tenho encontrado sardinhas electrocutadas na ficha da televisão. De noite, um polvo enrodilha-se-me aos pés, partilhando comigo a gelatina da insónia. Nas paredes, observo todos os dias a mutante galeria de pinturas abstractas assinadas por Mestre Bolor. Quando o frio aperta, mais ainda, suas algemas de vidro, trago o frigorífico para a sala e aqueço a solidão, num torpor de velha solteirona, à contraluz de iogurtes e cabeças de nabo.
Por tudo isto, estranhei que a Câmara Municipal de Pedrógão Grande me não tenha convidado para a mesa de honra do Dia Mundial das Zonas Húmidas, cuja celebração aquela edilidade promoveu no passado dia 2. Digo isto, atenção, com toda a humi(l)dade: a minha casa, afinal, vale por todo um sistema ribeirinho. A minha cama, vazia embora, é um leito de cheia. O autoclismo enche-se sem ajuda de canalização. Ir do escritório à despensa é bem um roteiro ecoturístico. A minha vida, ao contrário de rotineira, é biodiversa.
Assim sendo, já não espirro por dá cá aquela alga. Nem já os dirigentes do futebóleo me crudam as costas. Pelo contrário: dando-me a seca que dão, sempre me enxugam a roupa do corpo no estendal da alma. Nem o Marcelo da TVI, esse infatigável leitor de capas de livros, me faz estremecer. Nem o Pacheco da SIC, esse grande educador da blogoclasse, me dá água pela barba. Nem Mário Freitas Soares do Amaral, essas Twin Towers da Nova Extrema-Esquerda, me deixam de olhos molhados. As pessoas, enfim, já não me comovem. São pessoais de mais para serem humanas. Prefiro de longe o atum, que, tendo embora mais lata, é mais verdadeiro.
Pelo contrário, alguns sítios sim, comovem-me. O Baleal (de que vos falarei em crónica próxima), em Peniche, deixa-me sempre à beira de um ataque de lágrimas. A rumorosa água de Anços, na Redinha, faz-me sempre do coração um salgueiro cabisbaixo. Qualquer gaivota, em tarde de invernoso domingo no Osso da Baleia, me embebe sempre de passageira imortalidade.
Os senhores leitores e as damas leitoras, que decerto vivem em palacetes fotografados pelo sol, pouco perceberão, talvez, desta minha aquosa realidade. Ainda bem, para vós, que assim seja. Um lugar ao sol conquista-se, não se espera. E eu, que percebo bem mais de esperas que de conquistas, sempre vos digo que tenho gastado demasiados anos a fazer como o peixe. Que faz o peixe? Nada.
De volta a casa, enfim, troco, ainda no carro, o casaco de repórter pelo escafandro de Tintin e meto chave à (com)porta. Já na sala, ligo a aparelhagem e fico-me a ouvir o locutor a afogar-se lentamente no fundão sem fundo da carpete eriçada de coral. Então, saco do jornal e leio de olhos muito abertos as notícias do abismo, esses relatos movediços de caranguejos e atentados, atento sempre à rápida sombra dos tubarões que me infestam a casa em busca do gato.

48 Nossa Senhora dos Gatos

Foi há muitos anos. Nem ela nem ele eram já moços. Não sei qual deles publicou o anúncio, não sei qual deles respondeu. Sei que a centelha chispou. Mobilaram-se, naperonizaram-se, acolchoaram-se e casaram-se. Ela faleceu há pouco, levada pelo vento lento de uma doença prolongada. Ele ficou. Disse-mo Ana por telefone. A Ana lembra-se do ano que passei vivo na terra que o casal do anúncio tinha escolhido para viver passando. Manuel e Cristina se chamavam os noivos anunciados.
Foi há muitos anos. Há dezoito, para ser preciso. Como se fosse preciso, contar os anos. Manuel era o cozinheiro da Nau, casa de pasto onde pastei os jantares solicelibatários de rapaz atirado à vertigem estrangeira do primeiro emprego. Cristina ficava em casa a tratar dos gatos vadios. Manuel, como a Lua e as recordações do futuro, voltava pela noite.
Manuel e Cristina viviam num rés-do-chão com pátio interior a céu aberto. Na falta dos filhos que ambos desejavam mas que algum deles não podia ajudar a conceber, Cristina tornou-se Nossa Senhora dos Gatos. No telhado oblíquo do pátio interior, Cristina dedicou-se a miracular os bichos com a diária dádiva de peixes inteiros e sobras de carne dos jantares solitários que Manuel servia no restaurante com nome de embarcação.
Eu lembro-me dos gatos. Via-os do pátio vizinho, pertença de Manuela, mãe de Ana. Eram muitos gatos. De todos os feitios, cores, tamanhos, idades, destinos. Eram gatos vorazes, tigres proletários cristianizados por Cristina. Não sei que será feito dos de então. Quer dizer, sei. Existe, por mais improvável que a meus agnósticos olhos tal cenário pareça, a possibilidade de Cristina seguir alimentando os de 1986, a que entretanto se reuniu.
Mas mais me conta o telefon’Ana. Manuel foi despedido da Nau, agora igual pastelaria a todas as pastelarias desmemoriadas da modernidade. A gerência da antiga casa de pasto, por morte do patrão de Manuel (Álvaro, antigo timoneiro da Nau do meu descobrimento), mudou de rota. Imagino Manuel, hoje mesmo, na casa agora insuportável, sendo assediado pelos tigres do presente e pelo velho leão de naperon em que todo o passado se torna. Desmobilado, desnaperonizado, desacolchoado, descasado, Manuel há-de estar por esta hora no mais interior dos pátios.
Essa terra de há dezoito anos, deixem-me que vos diga dela. Terra marítima, mais sal que terra. Terra de prolongado vento para rápidas vidas. Terra de gatos por filhos. Com o que dela me retrazem agora, outra imaginação peço compartilhem comigo. Esta a imaginação: no intervalo dos gatos (lá onde estará, e de novo moça), Cristina há-de ressentir-se só. Como a eternidade é uma temporada que custa a passar, Cristina imagina-se (ela connosco imaginando, também) noiva. Nossa Senhora quer ser senhora de alguém. De modo que, afinal, eu até sabia quem, afinal, pôs o anúncio de há muitos anos. Foi ela.
Manuel responderá, Senhora.


49 Pevides, olhos e tremoços

Fui ter com a mulher dos tremoços e comprei-lhe uma medida dessas tão portuguesas moedas de ouro pobre. Simpática, a senhora bonificou-me um punhado de pevides. Ia agradecer-lhe o gesto quando ela se me antecipou: “As pevides são para lhe pagar de adianto o favor de me explicar a relação de Schopenhauer com Unamuno.” Eu, que já tinha atafulhado de tremoços a sucata dentária, fiquei de janela mastigante suspensa a três quartos, numa exibição pouco bonita de detritos amarelos em plenos horrores de negra trituração.
“Perdão?”, cuspinhei eu. Diz-me ela: “Sabe o senhor, foi coisa que ouvi dizer àquele senhor que fala muito e muito bem nos domingos da TVI.” E eu: “Ah, esse. Olhe, senhora, faça como eu: não ligue.” E ela, já ameaçadora, erguendo já com dois dedos um saco enorme de castanhas piladas, morteira-me isto: “Bem diziam que havia um português que não ligava pevide ao senhor professor dos domingos da TVI. Afinal é você. As minhas pevides de volta, faxavor!”.
Devolvi-lhe pevides e tremoços, recusei o retorno do dinheiro e, desalentado pelo mau fim da relação de Schopenhauer com Unamuno, fui ao Pérola tomar uma malvasia para assentar o desgosto agora público de ser, muito provavelmente, o único português que se está nas tintas não apenas para os domingos da TVI como para todos os dias da semana, do mês, do ano, da década e do milénio que TVIer.
Sabem os senhores, é que aquele género de xaropada não me convence. Quer dizer, não me diz nada. Não sei se já vos disse aqueles dois preciosos versos de um obscuro poeta de Coimbra chamado João Damasceno: “Em terra de cegos, quem tem um olho é rei./Quem tem os dois, é frequentemente abatido.” Pois é. Marcelo só tem um olho, embora escancare muito os dois para parecer que acredita naquilo que diz. O povo, esse usa figurativa bengala de alumínio pintada de vermelho e branco. Mas, naturalmente, não é só o Marcelo.
Uma destas noites, estava eu feliz da vida a ouvir no Projecto Jazz os cinco magníficos leirienses que formam o JazzyHot. A minha companhia era o Laureano. Que, pedra de gelo para aqui, nome de música para acolá, me disse: “Olha que o António Vitorino d’Almeida disse mal dos Led Zeppelin.” E eu: “A sério?”. E ele: “Pois é.”
Pois é. O maestro pode perceber muito de muita coisa, mas não pode perceber de tudo. Tanto assim é, que nem hesitou em fazer a figura que fez numa comédia televisiva qualquer, salvo erro da SIC. Nem se importou de andar, por assim dizer, a tiracolo da Bárbara Guimarães num programeco irrelevante, também qualquer, de há tempos idos e felizmente não voltados. Que eu saiba, o tipo de figura que nunca vi fazer ao quarteto Page/Plant/Jones/Bonham.
De tudo isto, penso apenas que não se deve confundir o que é tremoço com o que é pevide. Pode, naturalmente, tomar-se partido. Mas só depois de verdadeiramente se saber o que se diz. Wagner ou Verdi. Camilo ou Eça. Patxi Andion ou Mico da Câmara Pereira. Mas, acima de tudo, convém usar os dois olhos que a Natureza nos deu. E não nos deixarmos abater cada vez que, tendo-os usado, ousarmos dizer o que vemos e como vemos. Aqui tremoço, ali pevide. Aqui um olho, ali outro. E abertos ambos.


50 Quem estiver

Luís Manuel Lucas Barbosa veio da aldeia para a cidade trabalhar como ajudante de farmácia. Tinha 24 anos, era alto e magro. Olhava o mundo novo da cidade com os mesmos olhos de azul aguado do pai. Por indicação de um conterrâneo, arrendou umas águas-furtadas e nelas se instalou sem armas e quase sem bagagens.
Uma esteira isolava o colchão do soalho. À cabeceira, sobre uma caixa de detergente coberta por uma toalha de rosto, ligou o despertador, que de imediato começou a pulsar zero zero zero zero a vermelho. Para além do quarto, havia um cubículo de banho e uma cozinha tão escassa como a luz de um dia de Inverno.
O único luxo da casa, herdou-o Luís do inquilino anterior: um telefone. Estava ligado à rede. Luís disse à senhoria que não se importava de manter, pagando, a assinatura. O telefone dava-lhe a ilusão de estar ligado ao mundo. Mesmo que nunca tocasse.
Uma noite, tocou. Luís tinha chegado da mercearia. Ao pousar o saco das ingénuas compras de solteiro na mesa da cozinha, o telefone pôs-se a tocar.
Luís não soube o que fazer. Com o espanto, pousou mal o saco. A garrafa de molho de tomate caiu, transformando-se numa mancha escarlate que lembrava os cenários dos filmes de acção. Entre o desastre e o toque do telefone, Luís não conseguiu escolher. O telefone, enfim, calou-se. A mancha de sangue continuava viva, porém, alastrando dedos compridos em várias direcções. O rapaz sentou-se na única cadeira da cozinha e diluiu a água azul do olhar no desastre encarnado que coagulava lentamente nos mosaicos do chão. Isto passou.
Uma semana depois, à mesma hora, o telefone tocou outra vez. Desta vez, Luís, que acreditava na circularidade da vida, pousou bem o saco das compras e acorreu à chamada. O telefone estava instalado no quarto, em cima de uma caixa de detergente de outra marca. Com a mão a tremer, Luís atendeu e disse “está” sem ponto de interrogação e na terceira pessoa, como se falasse de alguém que não era ele mas que estava.
Do outro lado, ninguém falou. Ouvia-se uma crepitação que lhe lembrou uma efervescência de fritura. Repetiu o “está” e esperou. Esperou muito tempo. O outro lado não desligava, mas também não falava. Luís aguentou enquanto pôde. A ansiedade desceu-lhe à bexiga, aumentando bexiga e ansiedade. Foi Luís a desligar. Sentou-se na sanita como uma mulher e aliviou-se das ácidas águas da perplexidade.
Passou outra semana. À hora certa, Luís trouxe a cadeira da cozinha para o quarto e ficou a azular de olhar fixo o telefone preto como a pele da noite. O telefone só teve de tocar uma vez. Atendeu de imediato. Do outro lado, a mesma fritura, as mesmas ardentes reticências, a mesma mensagem de silêncio que não era silêncio, a mesma voz que não falava.
Mas Luís sabia o que fazer, desta vez. Começou ele a falar. Disse como se chamava, que idade tinha, o que fazia na farmácia, de que aldeia tinha vindo, que doença lhe tinha levado o pai, o que preferia fazer aos domingos. E marcou encontro para o seguinte: “Domingo, às dez da manhã, vou estar na Pastelaria Imperial, na mesa mais perto do balcão dos jornais. Esteja lá.”
Então, a voz disse-lhe: “Lá estarei.”


51 Rosa acordando

Estive olhando o rosto da minha filha dormindo: rosa em processo.
Os dois rubis justapostos que lhe formam a boca acordavam no espectador a recordação do morango esmagado.
Fremia o pequeno nariz de sinceridade e oxigénio, pois que assim respiram os inocentes.
O restolhar dos sonhos fazia adejar a fímbria do lençol pré-púbere, de onde o pescoço subia para me anunciar todo o cisne que ela é, acordada bela ou bela adormecida.
O cabelo abandonava-se pela fofura da almofada, enquanto os sempre inquietos pés de neve se lhe caramelizavam na placenta do leito ainda maternal.
Senti que ela sonhava e quis orientá-la no labirinto, como se fora possível penetrar os labirintos dos outros.
Porque, enfim, nisso se tornam os filhos e as filhas: outra gente dormindo fora de nós. Foi despertando como uma flor com artes de coelho: à luz felpuda da primeira hora solar, alheia a tesouras e a lobos de podar, completamente nova na insensatez da repetição.
Reconheci nela os ínvios trâmites da paz, essa planície mental que merecemos às vezes, quando é o caso.
Era o caso: a rosa acordava.
Abriu um olho macio, um olho-alho já (d)esperto, um olho de consolada.
Disse ela: “O que é que estás para aí a olhar?”.
Espreguicei-me como um cabide que tivesse deixado o casaco cair, bocejei como uma cobra tónica, alonguei-me de artroses estaladiças e não lhe respondi no momento.
Ela ecoou o bocejo, exalando no ar do quarto o mentol da mocidade.
Fingi eu que readormecia para lhe proporcionar o gozo que sempre há em observar outra pessoa de olhos fechados.
Respirei o silêncio observador dela, renascida para enfrentar sem medo o minotauro da realidade.
“Pareces um sapo”, disse a princesa, não me beijando a flacidez involuntária da bochecha.
Ri-me no escuro interior de falso adormecido.
Um sapo: boa definição do cronista que procura no charco estagnado da língua o gafanhoto da palavra.
O momento era um algodão que ardia, um cacau fumegante, um instante de manteiga, uma solução de cristais suspensos, um jardim da hora, um orvalho bebido a conta-gotas.
Nem tudo pode ser mau.
As paredes vigiavam os deitados, colhendo deles a flagrante hum(an)idade.
Deixámo-nos estar em puro transe preguiceiro.
Até que ela voltou a falar.
“Queres jogar um jogo?”, perguntou ela.
“Qual jogo?”, disse eu.
“Eu digo uma cor e tu dizes uma coisa dessa cor”, regulamentou ela.
Eu disse: “Está bem.”
Começámos a jogar.
“Castanho”, disse ela.
“Cavalo”, disse eu.
“Verde.”
“Mar.”
“Branco.”
“Papel.”
“Azul.”
“Mar.”
“Dourado.”
“Outono.”
“Encarnado.”
“Carne.”
“Cinzento.”
“Peixe.”
“Amarelo.”
“Lápis.”
“Roxo.”
“Saudade.”
“Preto.”
“Noite.”
“Violeta.”
“Pétala.”
“Prata.”
“Rio.”
“Anil.”
“Argentina.”
“Laranja.”
“Sede.”
“Lilás.”
“Cortina.”
Ela tinha guardado a cor preferida para o fim.
“Rosa”, disse ela.
“Leonor”, disse eu.
E disse bem.



52 Nascimento à baliza

Vou contar-vos uma história real.
Vivi os dias e as noites de dois anos e meio em Lisboa. Um fim de tarde de outono então recente mas agora antigo de quase nove anos, descia eu uma calçada envergando aquele ar provisório dos que vivem o que queriam onde não querem. Não fazia sol. A luz era duma macieza baça de caixa de sapatos de sapataria pobre. Mas a vida ainda era suportável por causa de ser possível andar não longe do milagre milenar de um rio tornando-se mar. Então, vi-a.
Nas pedras do passeio, uma rapariga tipo-passe olhava-me a preto-e-branco. Era bonita, a cara. Sorria o sorriso preparado pelo passarinho invisível do fotógrafo, mas não só para mim, antes sim para todo o exilado que costumasse descer calçadas com o olhar no chão. Então, o homem abordou-me.
Era um cinquentão vestido com o falso ar desportivo dos que tentam segurar a idade a golpes de hugh boss e frases curtas. Disse-me ele: “O namorado deve-a ter deixado, hã?”.
Levantei-me da fotografia para ele. Olhei-o nos olhos que me olhavam. Eram olhos tristes e reticentes. Olhos pederastas de deixar cair fotografias com um olhar feminino dentro. Não me custou perceber o que ele queria. Custou-me que ele tivesse tido de inventar uma abordagem assim, tão crónica que só de crónica.
Eu tinha trinta e um anos, nesse outono breve. Era uma presa ainda, aos olhos do velho leão da velha cidade. Disse-lhe eu: “O melhor é rasgar a fotografia.” Ele disse: “Não faça isso. Só tenho essa.”
Devolvi-lhe a fotografia e continuei a descer. Não era já, porém, a calçada o que eu descia, mas as minhas mesmas pensativas catacumbas, essas caves de champanhe vigiadas pelas aranhas do mesmo pensativo destino que me faz defender em éter ou vinagre o nome do guarda-redes do União de Tomar da época 1969-70 e outros cromos crepusculares do género.
Se me não acompanhastes, repito-vos sem favor a história. Lisboa. Outono de 1995. Luz de cartão. Homem ainda novo desce calçada. Acha fotografia de rapariga. Hugo Boss aborda jovem. Olhos nos olhos etc.
Que posso eu fazer com tudo isto? É uma pergunta justa, nesta quase primavera que daqui a nove anos há-de ser tão a preto-e-branco como tudo o que é, ou foi, ou talvez tenha sido. O problema é que não tenho uma resposta justa. Talvez, apenas, nada disto seja importante. E talvez, apenas, o homem tenha, depois de mim, encontrado quem esperava encontrar. Ou seja, algum rapaz que, encontrando no chão de pedra uma cara sem coroa, tenha pensado em tudo menos rasgá-la.



53 Curto e forte

Acendeu a luz, e a realidade simultânea das coisas deflagrou como uma granada a seus olhos piscos.
A imponência da cama arredorizava os outros objectos do quarto, os quais, ainda assim, obtinham um lugar ao sol cru da lâmpada nua do tecto.
A mesinha de cabeceira, sem par, oferecia um copo de água envelhecida junto a um cinzeiro de fórmica que dizia martini a uma existência até então sem grande apetite.
Um jornal mal dobrado caía sem acabar de cair da cómoda mal envernizada, sobre que velava um espelho rectangular sem memória de corações, pois que quem vê caras.
A mulher pousou o saco na cama, consultou no espelho a própria identidade e, não a achando, tirou os sapatos sem olhar para a vida.
Era sexta-feira.
Esperou até domingo.
Ele não veio, não telefonou nem atendeu o telemóvel.
O sábado, gastou-o ela em minúcias de pessoa que espera.
Levantou-se cedo, livrando-se da dupla humidade dos sonhos e dos lençóis.
Tomou um duche surpreendentemente agradável, tida em conta a pobreza da pensão escolhida por ele para primeira etapa da fuga.
Numa pastelaria sem recordações, houve café com leite e um bolo de arroz, depois só café, curto e forte.
Curto como ele e forte como ela, afinal.
Barrigou montras de douradas quinquilharias, conferindo no dourado da casquinha o pechisbeque essencial das ilusões.
Não almoçou, aturdida primeiro pelo desespero, depois saciada pela resignação.
Foi ao cinema e viu “As Pontes de Madison County”, com Clint Eastwood e Meryl Streep.
À saída do cinema, na realidade, já não esperava.
Nem por ele, nem por nada.
Passeou longamente pela cidade forasteira.
Porque, então, já todo o sítio se lhe tornara forasteiro para sempre.
Decidiu durar o que o cartão de crédito durasse: uma janela aberta para a paisagem das coisas que se deixam comprar.
Mas segunda-feira, como toda a gente sabe, tudo volta ao que nunca deixou de ser.
De modo que ela apanhou o comboio, viajou sem memória e desceu na vila forasteira onde sempre tinha vivido, sem grandes martinis, uma vida de fórmica.
Tomou um café curto e forte numa pastelaria com recordações e ainda foi a tempo de ajudar o marido a descerrar a portada metálica da tabacaria, porque, para ter um cartão de crédito, manter um negócio ajuda sempre.


54 Simplesmente Maria

O título desta crónica é copiado. Era como se chamava uma fotonovela (tenebrosa como todas as foto, rádio e telenovelas) que na minha infância enfraqueceu as coronárias de muita costureira. Directamente provinda da pobreza, a Maria em questão chegava à cidade montada num burrinho delicodoce, alcançando, depois de peripécias mil ou novecentas, o clímax e o casamento. Não me alembra o resto da história, pelo que passo a especular. Tudo acaba quando acaba em casamento. Ou não? Dissestes vós alguma coisa? Não? Posso continuar?
Enfim, agora que o meu outono particular começa amarelecendo até as folhas dos cadernos onde lapijo estas histórias irremediáveis, dou por mim pensando em Maria. Deve ser ela, hoje, mulher dos seus cinquenta e muitos. O mais certo é ter-se separado do engenheiro ou médico ou arquitecto ou advogado de sonho com quem, então, aliançou suspiros. Deve ter-se fartado das patilhas dele, do apartamento em Santo António dos Cavaleiros, das pontas arrefecidas de Ritz a boiar no laguinho triste da sanita. Talvez ele lhe tenha prometido um futuro de manteiga que com os anos se volveu margarina, simplesmente margarina. Quase aposto que ele teve e manteve amantes enquanto ela se aborrecia no cabeleireiro a erguer vasos de cabelo à senhora Knorr e à senhora Maggie e à senhora Vaqueiro e à senhora Dabri e à senhora Tokalon e à senhora Creme Byly. Mas também pode ser que, aos cinquenta e tal, tenha ela arranjado-se com um rapazinho directamente provindo da pobreza para tentar na cidade uma carreira de cantor pleibeque ou coisa assim. (O bom de escrever é que tudo pode ser.)
O futuro torna-se, com o passar dos anos, menor do que o passado, essa é que é essa. O passado é o sítio mental onde as donzelas pobres, escarranchadas em burrinhos, continuam chegando à cidade pirilampada de reclamos luminosos na noite cosmopolita. E é também, bem mais bastas vezes do que gostaria, o meu sítio. Nele busco, com a ponta do lápis, as referências mais ínclitas, os mais egrégios avós, os heróis de um mar a que basta somar ia para dar Maria.
Maria que, sozinha de novo, liquida o salão de cabeleireira e regressa, não de burrinho mas de clio, às berças natais. A taberna tornou-se snack, o padre já não é Sacramento mas Eliseu, a primária fechou por falta de crianças, o outeiro onde as cabras pastavam com lenta filosofia está agora crivado de rápidas maisons fechadas onze meses ao ano, a avó de Maria simplesmente morreu de ter noventa anos há mais de trinta, os cães já não comem broa e o pai de Maria, que lhe perdoou a fuga, lacrimeja pingentes de velho comovido à aparição da filha, cujo telemóvel começa a tocar quando ela o abraça.
Estou, sim pois, é assim, agora já não dá, não, se voltar é porque acabaste de vez com essa sirigaita, tu é que é sabes, tu é que sabes, só tenho de saber que acabas de vez, é assim, isso e as beatas no laguinho triste da sanita, caso contrário não dá, Bernardo. Bernardo promete que dá.
O passado acaba sempre bem.


55 Outra coisa

Uma mulher deitou-se na cama para dormir a sesta. O marido e a filha tinham saído. A mulher adormeceu, talvez. Hoje, não sabe se sonhou, se outra coisa. Sabe que abriu fisicamente os olhos. Ao lado dela, acordado e olhando-a, estava um menino. Vestia um bibe de finas linhas que seriam verticais se não estivesse, como ela, deitado. Deitado de barriga para cima, a cabeça virada na direcção dela. Muito azuis eram os olhos, muita branca era a pele. O menino olhava a mulher com uma atenção fixa de serpente. A mulher, paralisada, esperou que da boca do menino emergisse silvando uma bífida língua negra. Não aconteceu isso. O mais importante acontece de boca fechada, sempre. A mulher fechou fisicamente os olhos.
No regresso à luz, o menino já não estava. A porta da rua rangeu de alumínio e vidro martelado. Marido e filha tinham regressado. A mulher levantou-se e foi à casa-de-banho diluir com água fria o cansaço acrescido da sesta.
Mamã, mamã, mamã, mamã.
Diz, filha.
Tenho um patinho novo.
Sim, filha.
Na cozinha, o marido fazia café fresco e torrava pão. O homem mostrava-lhe a desenvoltura indiferente que é a marca d’água dos matrimónios T2. A mulher ainda pensou contar-lhe do menino. Decidiu não contar. Preferiu chá de camomila e não quis comer nada. Esse sábado passou, não a memória.
Menos de um mês depois, eram as férias de Natal. A família veio a casa da mãe da mulher, como sempre acontecia no curto eterno sempre dos casados há cinco anos. Marido e filha saíram. A mulher ficou com a mãe na cozinha. Então, contou-lhe: o menino, a cor azul, a cor branca, o não poder determinar se foi sonho, se outra coisa. A mãe, que sabia as coisas acrescidas que as mães de mães sabem, olhou-a.
“Quando foi isso?”
“Há coisa de um mês.”
“Morreu aqui um menino por essa altura. Tinha essa roupa vestida.”
A mulher arrefeceu como a camomila. No esquentador, uma rosa de gás perpetuava a adoração do frio.
(“A serotonina faz parte de um mecanismo extraordinariamente complicado que opera ao nível das moléculas, das sinapses, dos circuitos locais e dos sistemas, e no qual os factores socioculturais, passados e presentes, têm também uma intervenção poderosa. Uma explicação satisfatória só poderá surgir de uma visão mais extensa de todo o processo, na qual as variáveis relevantes de um problema específico, tal como a depressão ou a adaptação social, são analisadas em pormenor.” Isto diz António Damásio, a páginas 95 de “O Erro de Descartes”, à venda nas melhores livrarias.) Marido, esposa e filha fizeram de volta os muitos quilómetros a 30 de Dezembro. Fim de ano, família dele. A ilusão da paz. Pararam no caminho para comer bifanas.
Entretanto, a menina acrescentou o patinho ao jardim zoológico de borracha de todas, ou quase todas, as infâncias. A mulher nunca mais viu o menino. Mantém os olhos abertos e a boca fechada.
Mas acontece que eu soube de tudo isto de fonte próxima: água que corre.
Sábado que vem, talvez me não deite para sestear. Talvez prefira telefonar à minha mãe, perguntar-lhe como vai o mundo dela, se o senhor do minimercado está melhor da operação, se o jornal lhe continua levando recados de filho que a ama, ou se outra coisa.


56 Se renascer

Por uma ironia qualquer cujo sentido não sou capaz de descortinar, os idiotas da turma lograram aceder às cadeiras onde se decide, manda, influencia, determina. Olhem o Carlos Alberto do meu liceu.
Era impermeável ao Inglês, a História fazia-lhe brotar furúnculos nas axilas, a Geografia era um mistério a cores, a Língua Portuguesa não lhe servia para mais do que comprar rissóis frios na cantina e a Filosofia, segundo ele, só podia ser uma invenção de padres comunistas. E no entanto, olhem hoje para o Carlos Alberto. Anda montado num carro cujas rodas valem mais do que a minha casa. É director de uma associação industrial cuja sede tem tapetes forrados a fundos europeus. Meteu-se na política pela porta do cavalo, coisa que os burros fazem excelentemente. Está bem na vida. Casou com um toninha que já lhe deu dois filhos gordos que olham o mundo com o mesmo olhar parado e azul do papá. O sogro gosta dele e tudo. Volta e meia, vai às meninas a Lisboa e aos meninos ao Porto, que isto de ser idiota não impede que se seja pós-moderno.
Olhem a Beatriz. Chamávamos-lhe Bibi como quem chama galinhas. E era o que ela era: uma galinha humana que depenava a paciência ao velho professor de Latim, um pobre humanista que se reformou mais cedo por causa dela. A Bibi deixava ovos no assento do autocarro e fazia fru-fru com as asas quando conseguia perceber uma anedota, tendo completado o 12º por directo milagre da Venerável Alexandrina de Balasar. A Beatriz é hoje tão feliz como eu gostaria de ser metade. Um terço, digo eu, metade seria bom de mais. Porque a Beatriz é mesmo feliz. Casou com um toninho que manda fazer apartamentos por todo o lado, é presidente da bola local e há-de ser, querendo Deus, presidente da Junta.
Claro que o que me faz falar é a inveja. Vivo de sonetos. Ninguém me manda conhecer contistas argentinos. Gosto de entristecer à chuva como um cão sem coleira. Ao sol, apresento uma pura vocação nocturna. Na pasta, transporto rosas poeirentas, tangerinas mirradas como mulheres de faraó e problemas por resolver de palavras cruzadas sem solução. É a vida.
Se eu voltar a nascer, quero chamar-me Carlos Alberto. Quero ter olhos azuis e perceber muito de assembleias. Quero ser senhorio de muitas casas e senhor de muitos filhos imbecis. Se renascer mulher, quero beatrizar-me logo de início. Hei-de pôr tantos ovos, mas tantos tantos tantos, que o céu há-de ser estrelado para sempre.
Homem ou mulher, nunca mais hei-de recordar aquele verso de José Gomes Ferreira sobre o mar. Nunca mais hei-de comover-me à visão dos noctâmbulos de Hopper. Nunca mais hei-de perceber que a vida é uma casa em cujas janelas brilham flores de sangue.
Se me for dado renascer, hei-de trocar o poster do Che Guevara por uma litografia da Alexandrina de Balasar. E hei-de ser feliz, mas tão feliz tão feliz tão feliz, que até pode ser que me elejam presidente da Junta. E então nunca mais hei-de cair da cadeira.


57 Zamericanos

Zamericanos são aquela gente que aparece na televisão com pistolas. Nisso, são diferentes da gente. Nós andamos sempre com ela e eles andam sempre com elas. Com as pistolas. Nunca se fartam das pistolas. Nós aqui temos associações recreativas para jogar à sueca. Eles não. Têm a National Rifle Association, que lhes serve para vender as pistolas e para comprar presidentes. Como o Bush. “Bush” quer dizer “moita” em português. Vocês sabem para que serve uma moita. Tanto eu como vocês estamos sempre a dizer coisas do género: “Vou ali atrás daquela moita.” Entretanto zamericanos andam pelo mundo a defender os direitos humanos. Eles dizem “humanos”, mas no fundo no fundo querem dizer zamericanos: direitos zamericanos. Os direitos humanos são uma coisa. Os direitos zamericanos são mais à base de petróleo, mais à base das Lajes. Zamericanos também falam de outra maneira. Metem sons no meio das palavras. Sons tipo “anm”. Parecem motas a pegar, quando zamericanos falam. Pegam na anm pistola e anm vão para anm o Iraque anm ou para o liceu anm é o mesmo e anm matam iraquianos e anm miúdos do anm liceu. Mas não são infelizes como nós, parece. Por exemplo, não têm anm saudades. Como só foram inventados há 228 anos, zamericanos não anm se lembram de nada. Mas são muito democratas, lá isso. Têm dois partidos. Nós é que temos a mania de ter muitos. Eles têm dois. E ambos partidos. Vai um e conta com a National Rifle Association, com o Exército e com os Judeus. Vai outro e também conta com eles e com os artistas da televisão e dos jornais. E vão sendo assim. Felizes, parece. Têm um sentido de humor que nem os Monty Python. Zamericanos anm até elegeram o Reagan para presidente. O Reagan é um senhor de série B com um problema A: Alzheimer. Já antes da eleição que o tinha, de certeza. O vice dele era o Bush pai deste Bush filho da. Mas ele há excepções. Zamericanos, para se distinguirem uns dos outros, chamam-se uns aos outros afro, italianos, irlandeses, hispânicos e brancos. Os brancos são “quakers” ou “mórmones”, por causa de Deus. “Quakers” são uns que estremecem puritanamente. “Mórmones” são uns que compraram o Utah e uma equipa de basquetebol à base de afros. Isto não é anm difícil de perceber. Basta reparar nas pistolas junto aos calções dos jogadores de basquetebol. E nos direitos humanos que eles defendem numa tabela e afundam em afundanços na outra. Zamericanos também inventaram os hambúrgueres e os cachorros. Mais a gasosa e as cuecas de senhora com notas de vinte dólares no elástico. Zamericanos são muitos. O 25 de Abril deles é a 11 de Setembro. Antigamente, anm era a 4 de Julho, mas deixaram-se disso. Foram à Lua e ao Vietname e puseram os buracos da Lua no Vietname. Depois tiraram fotografias e elegeram por piada o Nixon, que recebia as ordens do Kissinger napalm da mão. O Kissinger até ganhou o Nobel da Paz, nem sei por que gozam com o da Literatura do Saramago. Quando vamos à Feira Popular, zamericanos estão lá. Na barraca das pressões-de-ar, a mulher diz sempre: “Oh freguês, vai um tirinho?”. Tirinho é coisa do zamericanos. Anm.


58 Sempre

Há trinta anos, vi um homem no centro de uma praça.
Era o que se chamava uma figura de homem: um corpo maciço pedestalizava um rosto franco. Os maxilares emparedavam a firmeza da boca, essa porta sob um olhar de janelas. Cabelo militar, braços amplos em cujo amplexo uma arma podia parecer uma guitarra. Mãos firmes, dessas mãos que tomam para libertar, como as mãos dos músicos. Atrás e perante esse homem central, milhares de figurantes armados aguardavam. Todos tinham a boca seca de expectativa. No centro da praça, no exacto centro da multidão, o homem avançou. Avançou só, como é da vida. Dirigiu-se ao comandante do outro lado. Disse-lhe poucas palavras: as suficientes, as definitivas.
Em torno, o tempo tinha parado: era a eternidade. Por acção desse homem, o sangue não correu para fora dos corpos que esperavam atrás e perante ele. Mercê das palavras do homem, as armas já eram guitarras.
A praça dava para um rio. Também o rio tinha parado, também o rio esperara as palavras do homem. As palavras do homem disseram ao rio que seguisse para o mar. E o rio seguiu para o mar. Havia uma quantidade extraordinária de cravos cor de sangue justificado pela antiga ânsia do mar. No interior das hostes, o rio de sangue era uma profusão de cravos. Bandeiras falavam ao vento multitudinário.
O homem estava vestido de verde. E sangue lhe corria dentro: ele próprio era um cravo. Não posso esquecer isto. Eu tinha dez anos. Foi a primeira vez que vi um homem. Quis logo ser como ele. Tenho tentado.
Com o correr do tempo, esse outro rio, conheci outras gentes, assisti à eternidade de outras praças, soube de outras flores. Tenho algumas fotografias mentais para vos mostrar: a papoila acesa na pastagem; a harpa inconsolável da chuva; uma gaivota de Peniche; uma mulher cercada de filhos como uma oliveira de rebentos; um nadador que se suicidou na América junto a um livro aberto de Álvaro de Campos; a condição imperial de Beckenbauer; o meu professor Elias Faro instituindo a Primavera com uma palavra dirigida aos olhos; um homem falando sozinho numa estação de comboios; a gola de renda de uma morena no Jardim Botânico; uma cadela amamentando um gato; uma chávena almoçadeira debruada a filete de ouro; um livro de Camus lido na sala de espera do dentista; os joanetes do senhor Damião d’A Brasileira de Coimbra; as noites perfumadas de fruta de Alcobaça; os olhos do Adelino; a mercearia da senhora Albertina, em cujas arcas de cereais eu mergulhava os braços avulsos; a enorme cama de ferro onde a minha tia Maria expirou como uma miniatura; a colher de óleo de fígado de bacalhau; o ano em que o União de Coimbra subiu à I Divisão.
Mas no centro desta praça mental, no cerne solar dos dez anos de idade que há mais trinta tento manter, está aquele homem. O nome do homem é Salgueiro Maia.
A verdade é que todos os homens verdadeiros se chamam Salgueiro Maia.
Salgueiro Maia sempre.


59 FRA

Também Abril passa, não só a vida.
À porta estão já as cantigas do Maio, seus campos de morangos para sempre. Para sempre até que Junho, o mais puro dos meses, estenda sedas brancas às janelas do Verão.
(Apesar de não ter qualquer pólo de ensino superior, Pombal já fervilha de jantares académicos e festivais de tunas universitárias: Éfe-Érre-Á!)
Na cegueira de lírios do Estio, os rios quase morrem de sede. Línguas de areia estiolam sob o domínio inclemente do ar feito pó de cal. Respira-se pela boca do forno. As crianças amolecem e escorrem devagar como geleia. Agosto fala francês.
(O que resta da lunar Serra de Sicó pode ser passeado a pé e a jipe, vista lançada, lá do alto, aos confins e senfins de outros buenos aires. Evitar os oitocentos mil camiões britadeiros diários. Pare, escute e olhe. E se tiver coragem, fale.)
Setembro é a madurez do perfume frutado. As últimas sombras dos últimos dias ultimam já a pré-hibernação dos vendedores de gelados.
(O saneamento básico é que, enfim, não é. A cárie das estradas municipais merecia toda uma odontologia de alcatrão. Só de mota.)
Novembro: a luz é feita de papel de mercearia. Fechamo-nos nos dias. Todos os dias parecem ser domingo à noite. Logo depois, Natal, hóstias e boa vontade, etc.
Começam em Janeiro, porém, o ano e a inquietação. Porque o novo Abril aí vem. E, com ele, afinal, o verdadeiro FRA: Façamos Renascer Abril. Todos os anos. Não, todos os dias.
Nem que seja só para chatear.


60 Árvore de nome Manuel

O homem estava ali como uma árvore. Parecia aceitar o sol e o vento como um pedinte aceita o que lhe dão: pão, moedas. Era pelo fim da tarde. O vento, suave como uma palavra benigna, amanteigava a respiração e as casas da praça. O reclamo da farmácia pulsava como um peixe verde, tocando de luz as primeiras sombras do fim. O homem tinha um saco de papel aos pés. Dentro do saco, uma lata de sardinhas em molho de tomate picante vizinhava um pão e uma garrafa de vinho. Uma maçã esperava a boca do homem, também. Mas o homem não comia ainda. Estava apenas ali, vivo e calado, suportando a doçura da tardinha de Abril. Sentado no banco de ripas verdes, o homem mantinha as mãos abertas em simetria, as palmas viradas para cima: como se implorasse ou explicasse alguma coisa a ninguém. Em torno do homem, o tempo tornava-se denso como água. O reclamo da farmácia pulsava mais, mais nítido pela vitória que crescia das sombras. O trânsito rarefez-se. O bando de pombas conquistou o campanário da Matriz: santos vivos saudando a noite. Tudo era.
O farmacêutico da praça fechou a porta, a luz do peixe verde aureolou-lhe a calva por instantes pulsados. Da churrasqueira, chegava voando o perfume de aves assadas. O homem sentiu o perfume, espreitou para dentro do saco, conferiu a ceia e seus nomes pobres: pão, sardinha, vinho, maçã. A fome tirou-lhe o ar de árvore. Tornou a ser um corpo portador de suas misérias biológicas: fome, pensamento, sede, memória. À passagem pelo homem, o farmacêutico atirou: “Então, Manuel”. E continuou o caminho. De modo que a ex-árvore era Manuel.
Manuel levantou-se, pegou no saco e abandonou esta página, deixando-a entregue à vigília dos pombos inquietos pelo cheiro da churrasqueira, à luz verde da farmácia, ao antigo sentido dos atalhos noctâmbulos e à necessidade de calafetar com palavras benignas as fissuras da realidade, sendo Abril, havendo ainda luz, depois já não.


61 1932

Faltava um ano para que nascesse o poeta Ruy Belo, três para que morresse o poeta Fernando Pessoa. Foi um ano de trevas e de luz: como todos, afinal.
Gandhi é preso na Índia.
O Estado Novo dá os primeiros passos, com os estatutos da União Nacional (partido único) e a nomeação de Salazar para a chefia do Governo.
Hitler cresce, imagine-se, em eleições democráticas.
Há fome na União Soviética e em Inglaterra, não contando (nunca se conta, aliás) com a África e a Ásia.
Acaba o “mandato” inglês no Iraque (já ouviram falar?), país que adere à Sociedade das Nações, antecessora da ONU.
O sexólogo Wilhelm Reich já publica obras que irão alterar o comportamento horizontal das gerações seguintes.
O Japão invade Xangai e não só.
Raptam o filho de Lindbergh, herói da aviação. A criança aparecerá morta.
Na filosofia, Bergson e Jaspers surgem a lume.
O jazz de Duke Ellington é levado (muito) a sério.
Na literatura, ano riquíssimo: Céline, Faulkner, Steinbeck, Amado, Huxley, Greene, Brecht e Caldwell publicam obras-primas.
Em Los Angeles, há Olimpíadas, as penúltimas antes da II Guerra Mundial, de então a sete anos apenas.
D. Manuel II, último rei de Portugal, morre no exílio inglês com apenas 43 anos.
F.D. Roosevelt torna-se presidente dos EUA.
Estaline impõe o segundo plano quinquenal de produção.
A Lituânia vai pelo programa fascista.
Chadwick descobre o neutrão. A vitamina D também é descoberta.
As estatísticas oficiais apontam os milhões atrozes do desemprego: 5,6 na Alemanha e 2,8 na Inglaterra, países que se combaterão sem tréguas entre 1939 e 1945: a guerra é sempre boa criadora de “empregos”.
O ano de 1932 é, ainda, a 12 de Maio, o da fundação d’O ECO. Pombal era vila. Sete décadas e uns “pós” passaram. Vidas vieram, vidas foram. Modas, comportamentos, censuras, repressões, sobrevivências, partidas e chegadas, memórias e amnésias, opiniões e indiferenças, revoluções e circunvalações, construções e aluimentos, casamentos, funerais e baptizados: de tudo, o pouco e o muito de que são feitas as existências, independentemente da cor dos olhos ou da pele, das posses ou das tosses, dos credos ou dos ai-credos.
A notícia é que ainda existe. Nuns casos, resiste. Noutros, insiste. Mas nunca desiste. Sai às quintas-feiras.


62 Sabadingo

Não gosto de domingos. Nunca gostei. Falta-me a necessária catequese à adoração da eternidade triste desse dia a que chamam santo sabe Deus porquê. Digo bem quando digo eternidade. É um dia longo de mais e, para mais, cheio de produtos sucedâneos (sucedâneos como antigamente os chocolates espanhóis de contrabando) da mesma eternidade: o passeio dos tristes, o tédio da tarde, os barrigudos de fato-de-treino, os candeeiros públicos acesos ainda é dia, a lua acesa até segunda-feira.
Levanto-me cedo para nada. Para os meus gatos, enfim, não é domingo nunca. Gastaram a noite sonhando com ratos e andorinhas. Baixo-lhes leite e biscoitos também sucedâneos: pastilhas de atum, lingotes de frango, restos de sábado. Depois, vou ver se a laranjeira ainda vive. Vive. Depois, faço lume no fogão de ferro e espero que o café fresco me perfume a cozinha povoada pelos minuciosos rastos e restos da sobrevivência: um pão meio mordido meio por morder, um jarro meio cheio meio vazio de água da fonte (descalça foi Leonor), um prato coagulado de feijões, um ramo de salsa que amareleceu de nostalgia da terra. Descongelo o frango que me há-de saber a chiclete remascada, ponho um disco a tocar para que a vida pinte os lábios e possa fingir que não é tísica, pantufo as vinte mil léguas submarinas de pensar de mais tão cedo. Mascalmoço o franguete e vai de pêssego de lata.
Depois de almoço, é pior. Suspeito que houve missa e casa mortuária inaugurada de fresco numa aldeia vizinha, que por isso cheira a pólvora e a sardinha. De modo que vou tomar a bica ao café das bombas, enquanto folheio o casamento real na revista dominical e peço um quartilho de água mineral etc e tal. Pago e saio.
Volto a casa, saio de casa, entro no carro, saio de carro. Sair é importante. É importante como ter uma alma (para os que crêem nela) e importante como manter vertical a coluna (para os que a têm).
Ao longe, um foguete estoira de sardinhas. Os discursos, arrotados de azeite eleitoral, altifalam em minha perseguição. Acelero o carro. O domingo, esse traço contínuo, ameaça-me de brigadas, ambulâncias, caravanas, vereadores arregimentados, regimentos avariados e outros fados. Fujo das sardinhas mortuárias.
Enfim, a noite. Mereci chegar-me-lhe. A mais longa, a mais humana travessia: a do dia para a noite. As coisas sossegaram. Os eucaliptos já não fazem de tubos de órgão de missa. O céu já não cheira a pólvora. Emudeceu a sardinhada altifalante. Posso voltar para casa, onde me esperam os gatos de extra-calendário. Sento-me no sofá da sala, lambo longamente o pêlo das patas com que (a)garrarei andorinhas em ninhos de rato.
“Nem Cristo se sentou nos primeiros lugares do templo”, digo eu a ninguém na cozinha devassada pelo mau hábito do desamparo. Junto pinho ao fogão de ferro, faço chá de camomila na água da última légua submarina.
Vale que já é segunda-feira, primeira hora. Amanhã já é hoje. Disso, gosto. Sábado, vou comer pombos à Moita do Boi. Mas essa festa será particular. De sábados, gosto. Em particular.


63 Viva o Olhanense

Aguentei o que pude. Todos estes anos, aguentei o que pude e como pude. E agora não posso mais, por isso vou desabafar. Aqui vai: eu também gosto de futebol. Mais: e até pratiquei futebol, federado e tudo. Eu sei que é uma vergonha. Peço-vos perdão por todos estes anos de disfarce. Perdão por tantas e tão embrulhadas crónicas intelectualóides. Perdão por tanto umbigo. Perdão por tanta fractura exposta. Perdão por tantas e tão estapafúrdias historietas (d)existenciais. Perdão pelo que fiz com a língua. Era tudo a armar ao cuco literário.
Há, no entanto, um problema: um ex-futebólico não existe. Futebólico uma vez, futebólico para sempre. Nunca pode ser “ex” como um marido, um comunista, um travagante, um voto ou um libris. Ou como um alcoólico, verdade seja dita e à saúde.
De facto, O Processo de Kafka nunca me interessou tanto como o do Valentim Loureiro. E que valem os Cem Anos de Solidão ao pé dos cem anos da FIFA? A ligação aberta do Sartre com a Beauvoir teve muito menos piri-piri do que a das autarquias com os clubes.
Mas vós também deveríeis penitenciar-vos. Yes, vós. Eu sozinho porquê? Vós gostais do Santanaláxia Lopes por causa do Sporting Municipal de Lisboa. E do Benfica porque o Benfica livrou o Eusébio da guerra colonial em Moçambique. E do Belenenses por causa do Américo Thomaz, essa abóbora contumaz de nula memória que foi almirante num país naufragado. E admirais o Pinto da Costa porque nunca o apanharam, nem apanharão. Mas quem se lembra do Olhanense? Na época em que foi primodivisionária, a garbosa equipa algarvia deu 1-0 ao Sporting e foi empatar a duas bolas à Luz logo a seguir. Para minha vergonha, lembro-me eu do Olhanense. Ainda desabafo mais: tenho pena de não ter um filho macho. Se tivesse, inscrevê-lo-ia nas camadas jovens. Nem que fosse de caspa.
Bem tento não ser assim. Mas é que também eu estou entre os que aproveitam não ter tv por cabo em casa para irem ao café ver a bola. Abro um livro e finjo que não ligo. Mas ligo. Pelo periscópio periférico, gosto de ver o Saviola a liquefazer os rins ao Naybet com um tornozelo digital. Gosto da heteronímia babélica das equipas. Se me distraio, esqueço o livro e ponho-me a grunhir GOLO como os meus colegas de chávena e bancada. E já me aconteceu sorrir quando o Rui Jorge, que tem três pés esquerdos (cabeça incluída), consegue finalmente centrar uma de jeito para o Pauleta, esse grande açoriano que nunca jogou num dos três ditos grandes porque não é parvo. Mas não é isto o que aqui me traz hoje.
Vai começar o Euro. Quando o Euro acabar, o País vai ficar com um euro, se tanto. O resto foi derretido nos dez estádios novos. Leiria, por exemplo. Ainda há dois anos a cidade esteve dias a fio sem fio de água potável nas torneiras. Agora, empenhou na banca o futuro de vinte anos. Por causa da bola, claro. Por causa de dois jogos da bola. Quando os holofotes se desligarem, quero ver o saneamento, o ambiente, as estradas, as escolas. Quero ver o futuro dos miúdos que não foram seleccionados para os sub-9, ou sub-13, ou sub-21. Ou sub-10 milhões, que é o que somos todos: sub.
Ah, uma coisa: naquele ano, o Olhanense desceu de divisão. E nunca mais subiu.



64 Meio café

Um amigo contou-me que o pai dele acredita em Deus, mas não que o Homem tenha ido à Lua. E pior: o senhor diz que também não acredita no surf. Diz que é tudo truque de cinema. O meu amigo gosta do pai, claro, mas tem um bocado de vergonha quando ele se põe com estas coisas. Pus-lhe uma mão compreensiva no ombro e garanti-lhe que, apesar de eu próprio acreditar no surf, nem por isso sou praticante. Quanto ao zamericanos terem mesmo ou não ido à Lua, sabe Deus se sim ou não. Isto dos filmes é difícil de avaliar. E nada mais difícil de avaliar do que a fé.
Para mim, a fé consiste em duas coisas distintas. A primeira é ser só metade de café. A segunda é ser uma espécie de elevador que tanto dá para trazer a Nossa Senhora cá a baixo como para levar o Neil Armstrong lá a cima.
Os portugueses mantêm com a fé uma relação de grande intimidade. Até a tratam por “fèzada”, sobretudo quando o totoloto rompe de desejo corações e conversas. Por outro lado, toda a gente é generosa, quando se trata dela: quem não gosta de dar fé da vida do vizinho? Os portugueses não fiam, mas confiam. Peça-se fiado a um honesto e peludo merceeiro, que ele puxa logo a culatra do manguito e dispara: “Queres fiado, retoma!”. Mas se à cera do ouvido do mesmo merceeiro se soprar que uma santa de gesso chora lágrimas de sangue, lá vai ele, de farnel e família aviado, a boquiabrir-se de palito suspenso do beiço gordo na capela tal.
A fé, porém, não se limita à religiosidade. Como vimos, pode estender-se à astronáutica e aos desportos radicais. E muito mais. Diz-se, e bem, que a fé move montanhas, sobretudo a dos donos de pedreiras e britadeiras: olhai o que vai de fé por essa desgraçada Sicó.
E depois há a questão das profissões de fé. Neste caso, os ateus são os desempregados. Bons e santos ofícios têm o empreiteiro, o projectista, o vereador, o amigo, a amiga, o conhecido, o primo, o irmão, o director, a sobrinha, o acólito, o secretário e o engraxador: grandes profissionais da fé. Ou da crendice popular, arrisque o que interessar.
A fé é uma grande coisa, maior do que a realidade, até porque invariavelmente a transcende. Quando uma coisa é inexplicável, diz-se que não tem explicação, por mais implicações que tenha. E há sempre quem implique. À falsa-fé, claro.
E a fé em Pombal? É preciso muita para levar em frente. Fé no Sporting local. Fé no rescaldo do incêndio interno dos Bombeiros. Fé na multi-desistência dos velhinhos face às multi-resistentes bactérias do Hospital. Fé no sorteio de salários da Azulefa. Fé no Arunca, cujos peixes ressuscitarão no Paraíso, onde não consta que Deus permita suiniculturas.
O resto do País segue-nos alegremente na má-fé e nos bons exemplos. Por cada festival de rock, fecham dez fábricas sem aviso prévio. Bagão Félix, católico, ministro e benfiquista, ergue a Taça de Portugal como um sacerdote o santo cálice, reza o breviário do despedimento colectivo e beija as criancinhas sem puto receio de envolvimento no caso pio. A Ferreira Leite azeda tanto, que um dia destes continua Ferreira mas volve Iogurte. Tenhamos fé nisso, ao menos.
Por mim, no que acredito mesmo mesmo mesmo é no surf. Só me faltam a prancha e a onda certa para ir ter ao Brasil, 504 anos depois, país onde o café não fica pela metade, se me não falha a fèzada.

65 Um milagre simples

A realidade é uma coisa inventada pela televisão, paginada pelos jornais e repetida pelos parolos que se abstêm ao domingo para dizer mal dela à segunda-feira. “Basicamente é assim”, concordaria comigo um parolo qualquer como eu.
Acontece que descobri a solução para os males da realidade: basta não deixar que Junho acabe. Dois jogos de bola por dia, um morto ilustre por semana e milhares de bandeiras nacionais flamejando varanda sim popó também. E está feito. É um milagre simples.
Se Junho não acabar, Victoria Beckham fica entre nós e põe os filhos a estudar no ensino público. Se Julho não entrar, Marco de Canaveses, a Madeira, Felgueiras, Pombal e Matosinhos passarão também a fazer parte da realidade, já que da normalidade não é possível.
Se conseguirmos ficar em Junho para sempre, os incêndios de Agosto nem começam. Também fica resolvida a questão da limitação dos mandatos com a mandatação dos limites. O crédito bonificado não subirá a partir de 1 de Julho porque não vai haver 1 de Julho algum. E ainda há tempo para antecipar outra vez o Bodo.
Só vejo vantagens. Não envelheceremos mais que isto. Tony Carreira pode dar-nos um concerto eterno. Guterres, esse outro Tony, não vai ter tempo para voltar. Álvaro Cunhal permanecerá firme na luta contra o grande capital em defesa das conquistas de Junho, perdão, de Abril. As multas da Pombal Viva poderão ser pagas no mês que vem. O Portas não chega a receber os submarinos de brinquedo. O défice fica como está. A abstenção nunca mais vai subir. Melhor que tudo, temos tudo para ainda dar a volta ao 1-2 contra a Grécia. Com a realidade suspensa, podemos tomar a nuvem por Junho, além de uma cerveja geladamente estúpida. As três empresas que ainda pagam o subsídio de férias podem sempre declarar falência retroactiva a 1143, ano em que a realidade se começou a estragar.
Até o mais parolo dos parolos vê que tenho razão: inventei a felicidade vitalícia, mereço um beijo, sou o maior da minha rua. Resta a questão dos feriados.
Dia 10, está resolvido. Dia 1, feriado por ser o primeiro dia. Dia 30, por ser ponte de 1 de Junho. De 2 a 7, Bodo. Dia 8, Dia da Pedreira do Lado Direito. Dia 9, da do Lado Esquerdo. Dia 11, geminação Pombal-Meirinhas. Entre 12 e 16, um dia para cada filarmónica, com rancho de manhã, feijoada à tarde e organista nocturno na Pérgula. Dia 17, Bênção da Primeira Pedra da Urbanização Praia do Osso da Baleia. Dia 18, elevação a freguesia de Ranha, Roussa, Ponte da Assamaça, Boldrarias, Vale Nabal, Casal do Queijo, Governos, Vinagres, Outeiro da Cruz, Ratos, Cancelinha, Avenida Heróis do Ultramar e Pombal. Dia 19, Medalha de Mérito Municipal para um gajo qualquer com muito dinheiro. Dia 20, Portugal-Espanha no Estádio de Aljub’Arrota Pelintra. Dia 21, Sardinhada das Ex-Directoras da Biblioteca Municipal. Entre 22 e 29, edição em CD-ROM de Armando Portela ao Vivo na Assembleia Municipal. Dia 30, Tony Carreira. E todos os dias, bandeira nacional.
Escusam de me agradecer. Um beijo basta-me perfeitamente.


66 Pele curta

Um homem ficou sem gasolina num pinhal muito ermo. Era noite alta. Não havia telemóveis. Entre as árvores, o perdido viu uma luz eléctrica. Dirigiu-se lá. Era uma casa. Bateu à porta. Um homem veio abrir. Vivia ali sozinho. Não tinha telefone. Disse o homem da casa: “O melhor é você dormir aí no sofá da sala, que de manhã logo se vê.” O visitante agradeceu a hospitalidade, mas avisou: “Mas olhe que tenho a doença da pele curta...” O da casa disse: “Homem, isso não me interessa. Você no sofá e eu na minha cama!” E pronto, lá se foram deitar.
O resto da noite foi horrível para o dono da casa. Um cheiro insuportável tornou-lhe o sono impossível. De manhãzinha, irritado e olheirento, ralhou com a visita: “Um gajo oferece a casa e você faz dela uma suinicultura ilegal, gaita!”. O hóspede respondeu: “Mas eu disse-lhe que sofria da doença da pele curta...” E o da casa: “Mas que porra de doença é essa?” E o outro: “Sabe, é que tenho a pele tão curta, que, quando fecho os olhos para dormir, abre-se-me o olho do cu...”
O leitor desculpe. Mas esta anedota, que me foi contada pelo meu máximo amigo Fernando Nabais, é o que me ocorre quando vejo uma das milhares de bandeiras nacionais ao eurovento. Por mais bandeiras que estiquem, não é possível tapar o défice, nem o esgoto a céu aberto, nem o tribunal degradado, nem a escola fechada, nem a impostura dos impostos, nem a Ribeira dos Milagres, nem o futuro.
Nem é pela bandeira ser curta. É por fecharmos os olhos.


67 Madeira

Segunda-feira passada, através de um calor de sufocação, preparava-me para estacionar o carro quando um agente de polícia me sinalizou que o não fizesse ali. O agente inclinou-se com cortesia à janela direita e explicou-me: “Há um cavalo morto, tem de passar por aqui a máquina para o levar.” Estacionei noutro sítio e fui ver. Era verdade. No terreno baldio onde acaba o bairro social (pintado, com humor, de cor-de-rosa), havia um animal entregue à impenetrabilidade da morte. Era um pónei acabado. Perto dele, um pónei vivo olhava o morto com a mesma humana incompreensão. Talvez fosse irmão dele.
Nem eu nem o guarda sabíamos porquê. Se de doença, se de sede, se de quê. Um animal deitado de vez na erva exausta, apenas. Abatido pela inclemência do sol, parecia o que era: um saco de ossos, carne, pele, cabelo – um saco igual àquele em que nos embrulhamos para existir, faça chuva, faça sol. Fazia sol.
Jazia todo o sol que há, nessa segunda-feira esbraseada que já não podia punir o cavalito, o cavalito que nenhuma terça-feira torturará mais. O ar vibrava de vidro derretido. O gás da luz cozia as casas como a ovos geométricos. Nenhuma brisa chegava de nenhum mar. A única árvore do sítio dardejava riscos de giz de passaritos de ardósia. O calor era tanto, que a eternidade se tinha tornado um fenómeno local. A marca da camisa tatuava-se-me sobre o mamilo do coração.
Era uma cena triste. Por um momento, desejei que não fosse verdade, que o polícia e a realidade e o sol se tivessem enganado, que aquele vulto jacente não fosse um pónei morto mas, afinal e tão-só, um cavalito de pau ali abandonado à condição de madeira sem magia dos carrosséis desmantelados. Que ainda fosse, enfim, uma brincadeira de crianças. Mas era o que era. E o que era, era triste e ao sol.
“Os animais são como nós”, disse eu ao polícia, só para que, dizendo alguma coisa, alguma coisa nos desse a ilusão de ser possível sobreviver ao calor e à tristeza e ao pónei. Ele concordou com um menear de cabeça. A verdade é que não havia nada a dizer. A máquina falaria, arquejando de gasóleo na remoção do corpo. Não fiquei para assistir a essas exéquias mecânicas.
Ao fim do dia, quando a noite me concedeu o cessar-fogo, voltei ao carro. Antes de meter a chave, decidi regressar ao baldio. Nenhum pónei, vivo ou morto, por ali siderava na sufocação fátua da lua de Junho. Regressei a casa pensando no pónei vivo. Já tinha a crónica. A crónica que é, afinal, sobre ele.
Resume-se a isto: é nos vivos que devemos pensar. Póneis ou não, irmãos ou não, é nos vivos. A eles devemos a sombra em plena canícula, a água no cálido deserto, o soro em hora de veia aberta, a palavra quando o óxido da indiferença (n)os arrepanha de ferrugem. Os mortos cantam, mas os vivos contam. Caso contrário, a vida torna-se tão improvável como um lugar de estacionamento num carrossel de vivos cavalitos de osso, carne, pele, cabelo, madeira.


68 Sofá

Era uma vez um menino que podia ser filho de nós todos, não desfazendo. Ocupava todo um sofá de príncipes espadachins, vários corsários e outras coisas que só aos oito anos se explicam. Era, enfim, um menino, com tudo o que ser menino implica, os senhores saberão. As senhoras também, naturalmente. Um menino. Oito anos. Os anos passaram.
Agora, tirou 19 a Física Nuclear. Deve ter estudado bem: quase para 20. Que eu saiba, não namora. Entregar-se, não é com ele: o amor é carteiro, mas ele não aceita encomendas.
Estou a falar-vos do Carlitos. Sei que ele frequenta sombras propícias. Brumas dele. O leitor não tem brumas? Tem. Ele também. Voltemos ao sofá.
O Carlitos tem oito anos, está no sofá. Uma bebida vitamínica efervesce perante ele: a avó vigia. Quando a avó volta à cozinha, os bons fantasmas regressam ao sofá. Todo o menino e todos os oito anos se fazem acompanhar de fantasmas benignos: agentes do silêncio.
O pai do menino vem libertá-lo às seis e meia da tarde. O pai é moreno. O menino é branco. O futuro é isto. Sete menos um quarto, casa. Outro sofá. O menino tem fantasmas portáteis.
A cisão do átomo não é coisa fácil. A Física Nuclear também não, naturalmente. Os meninos crescem. O Carlitos muda de sofá. Os piratas são danados: no mar de napa, assaltam tapetes. Televisão pretibranca. Não tentem perceber. É a infância.
Pronto, já passou.

69 Toalha e lençol

Durante muito tempo, adormeci a pensar em mulheres e acordava a pensar em comida. Hoje, talvez felizmente, já não é isso que me acontece. Por uma espécie de feitiço, acordo a pensar naquilo que pensava no momento de adormecer. E no exacto ponto de continuidade: se adormeço a meio de uma frase, acordo com o som raspante da vírgula que o sono deixou suspensa. De modo que a pontuação tomou o lugar da comida, (reparastes na vírgula?), tal como a ortografia substituiu as mulheres.
Peço-vos que não tenhais pena. Isto não é mau. Um filho doente é quantas vezes pior? Ou, em menor escala, uma ingratidão, uma hipocrisia, uma cobardia, uma decepção: tudo isso é bem pior que a pele do sono mudar a carne do sonho, certo?
Durmo, portanto, como se de facto não dormisse. O que pago bem caro: por simetria, ando acordado como se de facto andasse acordado. Isto, sim, é perigoso, principalmente a conduzir ou a pedir um orçamento.
Recentemente, vivi um momento de confusão a que só escapei porque a sabedoria de envelhecer consiste em disfarçar bem a loucura. Por motivos profissionais, fui almoçar com três mulheres. Estava ali tudo, pois, o de antigamente: as mulheres e a comida. Só não adormeci porque o som da televisão era mais violento que a evidência de me ter perdido algures entre o sono e a vigília. Foi-me difícil escolher entre sonhar e responder, mastigar e ouvir, saber e recordar, toalha e lençol. Não eram mulheres a mais nem comida a mais. Era eu a menos. Espero que convosco tudo seja mais limpo e arejado. Comigo, agora, a coisa é pontuação e ortografia. Mulheres e comida, já não. Mas também sempre é melhor que adormecer a pensar em bebida e acordar com um homem ao lado.

70 De caras

Nenhuma das minhas avós é já deste mundo, pelo que não receio a possibilidade de ser desmentido por uma ou ambas. Isto a propósito de revistas, imaginação minha sobre que passo, gozão, a especular.
A minha avó paterna decerto não gostaria que o neto aparecesse numa revista frívola (dessas conhecidas por “do coração” ou “cor-de-rosa”, cópias indígenas de material estrangeiro produzido em massa para folhear sem memória tanto no cabeleireiro, em hora de pinta, como na sanita, em hora de ponta). Decerto que não. E mais ainda se o neto aparecesse fotografado de caras com uma louraça insuflada e produtora de revelações sem verbo do tipo “apaixonada e feliz”. A minha avó acharia que o amor, quando é verdadeiro, é para ter em casa, como o gato ou o copo dos dentes.
Já a minha avó materna talvez se não importasse. Talvez até pelo contrário. Porque o foto-facto tem vantagens. Dá regalias. Pode não dar conhecimento, mas dá conhecimentos. E o plural é sempre mais rico que o singular. Não sei. Não sei mesmo. Sou um neto pouco experiente. Quando cheguei, já as avós me estavam de partida.
Porém, atenção: já apareci numa revista. Sim, “moi”. Mas apenas porque sou amigo do fotógrafo. E porque fui eu a pagar os martinis. E porque telefonei à directora, ininterruptamente, da uma e meia às seis e um quarto da madrugada do grande dia. E porque ameacei enforcar-me com um elástico de “lingerie” caso não aparecesse na moldura. Apareci.
Mas apareci com mais três gajos de fato e de facto melhores que “moi”. Tenho o recorte em casa a servir de base ao copo dos dentes: quatro sorrisos palermas numa ilhota de masculina solidão. “Masculina solidão” significa “sem loura”. Quatro sorrisos de gala, colados na boca à força de cuspo e vermute.
Nenhuma das minhas avós sabia ler. Isso descansa-me: vendo o cinzento sorriso do neto na revista a cores, nem notariam a insensatez da legenda “apaixonados e felizes”.


71 Gel

Emerenciano Castro Ávila, solteiro, português, 37 anos. Ocupante fechado do apartamento 5B do condomínio Fonte dos Frades, a um quarto de hora da capital, segundo o prospecto da imobiliária, e a hora e meia da capital, de acordo com a realidade do trânsito. Aos sábados, cliente-park de hiper-superfície: refeições congeladas para digestões de micro-ondas, aerodesodorizantes de cedro finlandês, cybermagazines, esfoliantes de dura cera de calcanhar, mais muitos géis: cabelo, duche, reumo, barba, deo. Mãe remota em Oliveira de Azeméis, bem mais do que a um quarto de hora da capital. Uma irmã casada com o Canadá, idem. Frequência de singlebares, marketingalas, jantares de c(h)ampanhe. No reverso, pequenos-almoços crocantes de flakes de aveia, o mais solitário dos cereais. Na sequência, atónitos despertares de meio-dia de domingo no sofá da sala, lata vazia de cervegin derrubada mirando o dêvêdê por desligar, o Expresso espalhado pela carpete. Uma nada vaga admiração por Santana Lopes. Uma desistência de Punta Cana à última da hora, depois da decepção recordada de Sierra Nevada. O telemóvel cheio de Lilianas 1, 2, 3, 4. Punta Cana dá, afinal, menos que a Galiza. E a 3 dá menos que a 2. O problema é o Verão: incendeia-se o calendário, dão-se pulsões sanguíneas no crepúsculo magenta, a linfa arfa de dopamina (essa velha invejosa da serotonina), emerenciando-se-lhe uma ânsia de elevar a alma ao estatuto muscular de todos os ginásios in. No out, baccardi e alguma loura-limão de Oura inglesa. Trocar o BMW pelo do anúncio. Com ALD, tudo é possível, menos disfarçar o que o Emerenciano-espelho não pode negar a Castro Ávila-barbeando-se. Dois bilhetes para os Stones dados pela Administração, mas Liliana 4 não lhe parece, desde que Bernardo Lopo Romarigães deu à costa da 24 de Julho. O som dos Moby alastra como um tumor benigno pelo estuque do 5B Fonte dos Frades, meio-dia e meia de domingo. Lasanha verde, horror de muco. Melhor iogurte biomagro, fibras de cantor TVI, café instantâneo como a amnésia, muito cedo para um risco de dona branca, white lady em americano anos 80. Anos 80, outro horror: Oliveira de Azeméis, bola de espelhinhos prateados, spébóques e zundapes, cenas. Agora, tudo menos isso. Agora, Cascais, etc. Inglês de curso de Gestão, nada a ver com a fonética do vocalista de baile, cluzioraizendalkíssiu, etc. Agora, Robbie Williams e tv cabo, essa brisa de Cascais por satélite. Por mais que a vida real se pareça com uma estação de serviço na Azambuja, o ideal é New York. Ou Moscovo, mas com Paul McCartney e calças jeans para toda a gente.
Aos 13 anos, Emerenciano Castro Ávila chamava-se José Augusto da Silva Ferreira. É lógico que as coisas não podiam ficar assim. Não ficaram. Fez Gestão, safou-se do ar branco, cursou traços contínuos, adquiriu conhecimentos de corredor, terreiropaçou-se, descascavelizou-se de José Augusto, evoluiu. Tem assente permanente na sua ONU particular, quase íntimo dos seguranças de Coffee Anã, ou lá como se diz, e de assessores de adjuntos de secretários de assessoria. Se o Presidente da República diz que sim, é porque sim. A Constituição garante. Não se fala mais nisso.



72 Algumas datas

Escrevo a 2 de Agosto de 2004. Faço-o com alegria. Faz hoje 75 anos que nasceu o Zeca Afonso. Há três quartos de século, portanto, que o mundo vale a pena. Desde então, os pássaros são notas nas pautas dos cabos eléctricos. O mar e a areia são instrumentos de percussão. Nos jardins, as estátuas tossem sol. As galinhas parecem ter estudado no Bolshoi. O pão é uma palavra que a mão diz. Um feto é uma rosa sideral. Há 75 anos que assim é.
A 10 de Maio de 1984 chorei copiosamente. Tinha morrido o grande Joaquim Agostinho, esse substancial gigante do ciclismo. Chorar por causa de um grande homem fez-me bem: aprendi a fazê-lo tão bem, que na noite de 23 de Fevereiro de 1987 pude descer de novo esse rio escuro com artes de navegador experiente. Nesse Fevereiro, a morte do Zeca apanhou-me em Peniche, terra onde o sal faz bem ao coração. Liguei o rádio. Todas as estações estavam como eu: ligadas a ele. A ele vivo, naturalmente. Como hoje ainda, aliás, que faz 75 anos.
Escrevo pelo fim da tarde desta segunda-feira irremediável. Faz sol. As casas, fulminadas de luz, espreguiçam-se ao sol como gatos cúbicos. As árvores, muito feminis, levantam as saias à passagem da brisa. Um cachorro inspecciona o pneu de um carro com um ar suspeito. Não tarda, aí terei a noite, perpétua e negra como um corvo. Escrevo isto com alegria: há 75 anos que viver faz, afinal, sentido.
Há pessoas assim. Assim como o Zeca. Sabem? É como quando o vento nos vem de frente, devolvendo-nos a exaltação de quando meninos, quando a morte ainda não tinha sido inventada, quando o cromo da sorte era o 114, um do Boavista que dava direito à bola de couro da caderneta, quando o pai nos deixava ensaboar o queixo para um barbear de imitação do pai, quando no baile uns olhos de rapariga nos cravavam à cruz psicadélica da puberdade, quando o mar começou a fazer de coro grego, quando até as árvores passaram a usar saia.
Depois é agora. É o entardecer de 2 de Agosto de 2004. Hoje, uma vez na vida, acolherei com serenidade a noite, esse velho corvo. Sentado na praça deserta, vigiado mansamente pelos plátanos, ouvirei chegando o Zeca. Não virá só. Com o aniversariante, há-de vir o Carlos Paredes. E o cantor me dirá que trouxe outro amigo também.
Ele a dizer isto, e o vento a levantar-se. Levanto-me para o receber no peito, ao vento, e então, não sei mas sei porquê, hei-de pegar na bicicleta que a 8 de Maio de 1976 recebi do meu pai e hei-de pedalar até de manhã a fingir que sou o Joaquim Agostinho.


73 Cláudia

Chamou-se, em vida, o título desta crónica.
Pouco sei dela. Pouco quero saber. Pouco posso saber. Dizem que uma coisa no sangue, não sei. Sei que não sei. Sei outras coisas. Passo a dizê-las.
Ocupava um lugar de café, tartamudeando as frases que toda a gente, a propósito disto e daquilo, tartamudeia. Era uma rapariga. Pronto, certo: era uma mulher jovem. Não teve tempo para ser antiga, faltou-lhe o tempo, não lhe faltará uma crónica.
Lembro-me dela por causa de uma inclinação da luz, um comentário televisivo, uma aflição qualquer, a chuva nas Filipinas, a mudança de canal, o Carmo’s Bar, escrito em inglês ninguém sabe porquê.
Era uma vez a Cláudia. Acento agudo na primeira sílaba. Dentes naturais, olhar claro, a ausência multiplicada pelas cadeiras do bar. Não assistiu ao Euro 2004. Não viu as bandeiras. Remediou-se, penso agora. Mais cedo. Mais cedo, ela. Não nós, que ficámos. Cada um em sua cadeira.
A Susana veste mormente de preto. Vem o Verão, usa um branco esporádico. Um algodão de refresco, um luto indiano. Ela (a Susana? a Cláudia?) nem sabe que a esplanada continua sendo servida às horas lunares de tanto desassossego, como se Fernando Pessoa, como se Susana, como se Cláudia.
Agosto tomba como um prato: redondo, de lado. O Verão esvai-se como uma hemorragia. Há tv cabo, é possível encomendar um jogo de cartas, uma namorada, um pires de tremoços, um futuro. Outras coisas não são possíveis. É onde a Cláudia entra. De novo.
Tenho pensado no assunto. Vejo as obras que mudam o rosto da cidade. Passo nas passadeiras. Compro tabaco. Bebo café em copos de vidro grosso. Até falo com advogados. Durmo como posso. Depois, chega o dia.
A Paula Sofia telefona, diz: “Preciso da crónica.” Eu digo que sim. Sempre disse que sim. Toda a vida disse que sim. Ainda no outro dia, nas Finanças.
Depois, o dia entrega-se a seus nocturnos viadutos, suas corrupções cromáticas, seus delírios hemorrágicos, seus poemas crepusculares, suas pequeninas injecções.
O tabuleiro sobre que (uns bispos, outros cavalos, um rei, peões todos afinal) nos movemos: onde a casa, por onde vais, queres ser rainha porquê? Xadrez metafórico, coisa de jazz, telefonema do Fernando, “Quinta-feira estou aí”, sim, Fernando, mas a Cláudia não.
Depois é quarta-feira. Tenho usado muitas vezes a palavra ‘depois’. Tenho usado muitas vezes a palavra ‘antes’. Sei que são apenas palavras. Modos de estar, estando. “Palavras, palavras, palavras”, diria Wordsworth, cuja palavra, até pelo nome, valia a pena.
Um nome? Uma cadeira de bar. Uma sombra? Um ofício de luz. Uma tangerina? Uma pepita disfarçada para o baile de Carnaval. Uma ausência?
Cláudia.
Cláudia, Cláudia, Cláudia.


74 Pensão vitalícia

Recolhi cedo à pensão porque a chuva tinha encerrado o mundo, como se o mundo não passasse de um museu cujo horário fosse determinado pela chuva, essa vasta nua senhora de tranças.
Subi ao quarto, troquei de sapatos, assomei à janela para que a chuva me soubesse isolado, como ela queria, mas seco, como ela não queria.
Fiz a barba com água fria, bebi da torneira, escolhi um dos intermináveis livros começados com que começo as noites intermináveis, sentei-me na beira da cama e nem tive tempo para sentir a autoridade da tristeza porque a fome deu horas.
Desci à sala de jantar, onde a senhora Graça já pontificava de meios litros, pires de azeitonas, cestos de pão e guardanapos de pano.
Na toalha de quadrados vermelhos e brancos, depus as mãos como se abdicasse delas.
“Livrou-se de uma boa molha, senhor Horácio”, disse ela.
“Verdade, senhora Graça”, disse eu.
Fui o mesmo de sempre à mesa de sempre, se se pode chamar sempre a quatro anos e oito meses.
A eternidade tem destas coisas.
Jantei bacalhau.
Levitei de conhaque até o quarto, onde me descalcei em silêncio, falar para quê, para quem.
Sem acender a luz, fui à parede beijar de cor a senhora Isabel d’Este.
Um beijo baço no vidro anti-reflexo.
Ritual manso, este meu, Isabel, uma inocente cópia de cópia de cópia de cornucópia.
Num quarto de pensão (logo existo?), o perfil de Isabel d’Este pintado por Leonardo há séculos de mais. Séculos?
Ainda dizem que a vida é curta, Isabel.
Lá fora, a chuva tinha desistido.
A noite arrulhava de goteiras, povoada de húmidas pombas recolhidas a vãs caleiras.
A manhã era a maior impossibilidade que me ocorria.
Sempre de luz apagada, sentei-me na única cadeira do quarto.
Estive ali muito tempo, o tempo de que as palavras antigas necessitam para emergir do naufrágio no rio do sangue.
Ouvi em silêncio as palavras antigas, que murmuravam pelo escuro disfarçadas de estalidos de móveis.
À meia-noite, um toque na porta.
A voz: “Boa noite, senhor Horácio.”
Outra voz: “Noite, senhora Graça.”
Pude então entregar-me às rosas pretas do sono.
No cinema dos sonhos, vi peixes transparentes atravessados pelo sol afogado da luz do mar, encontrei moedas perdidas de novo quando acordasse, fiz festas a um certo cão amarelo, senti com uma nitidez quase insuportável o sabor a arame frio da solidão dos fetos, perdi sozinho a guerra civil do tempo contra a pessoa.
Acordei na cama, saudado pelo homem sentado na cadeira vazia e pela senhora Isabel d’Este, que há séculos é beijada por baços homens cujo anti-reflexo é determinado pela chuva num mundo de museus fechados, pensões familiares e pombas recolhidas.


75 Aperto de mão

Ouvi dizer e concordo: um homem vale pelo aperto de mão que dá.
Acrescento: o aperto de mão começa nos olhos. Um homem frontal tem olhos de homem que olha outro homem a partir das mãos, valendo ambos o que valer a força das mãos apertadas.
Por que falo nisto? Porque me aconteceu, na semana passada, uma coisa desagradável. Vi um amigo sentado num sítio público. Esse amigo estava acompanhado. Eu não conhecia o outro homem. Mas o meu pai educou-me bem. De modo que estendi a mão ao meu amigo e ao outro. O outro não me apertou a mão. Fiquei com a mão no ar. Engoli a desfeita e retirei-me.
Passados dias, fui compensado. Encontrei o Jorge David, esse gigante da cortesia, da bonomia, da sensatez, da hombridade, da educação, do carácter, de tudo. Apertámos as mãos. Apertámos as mãos com força. Olhos nos olhos. Homem para homem. Sentimo-nos bem. Sentámo-nos, mandámos vir um chá de tília (por assim dizer) e conversámos. Contei-lhe a história do sacanita que me tinha recusado o aperto de mão. O Jorge ficou escandalizado. O Jorge acha inconcebível que um homem recuse a mão a outro. O Jorge acha impraticável que uma mão estendida se não prolongue aos olhos. Eu gostei de o ouvir. Senti-me pago da desfeita do outro imbecil.
Por causa disto: um Jorge vale mais que mil sacanas. Um aperto de mão dele vale mais que uma desfeita. Fiquei bem. À despedida, olhei o Jorge como deve ser. A mão dele vinha a caminho. Apertei-a com força, paguei o chá de tília e dormi honradamente.


76 Retrato de senhora

Uma película fosse o teu sorriso, se a língua o permitisse.
A pequena boca recortada à faca com laivos de maçã, caída a casca de um beijo.
Azeitonas? Duas: os olhos.
Ancas de potra madurecida.
No resto, orgânica mulher.
Pés simples, nudez de unhas que geometrizam.
Barriga onde o umbigo vale a cosmogonia.
Pouco tempo para tanto amor, tanto engano.
O leite ferve no fervedor, que gás é efervescência masculina: rosa azul.
Um samba, um fado: duas orelhas, um só ritmo.
A minha senhora cresce na sombra do quarto, apodrecida de luz: se tirar o z, fica lua.
Outras coisas pode (deve) um homem dizer a uma mulher: desde que lhe chame senhora.
Antiga história: um homem, uma senhora. Quantas canções por causa disto, verdade?
Também posso falar de futebol, mas hoje não. Hoje, princípio eterno do sempre, é contigo, senhora.
Mãos vegetais onde o sal se mineraliza.
Costas de planalto difícil, onde a fulva penugem se adiciona à lombada curvatura.
Terminação montícula, em baixo: pura carne é a do amor.
Depois, segunda-feira, terça, outros dias.
Ter uma senhora é ter o domingo preso em casa, não sei se os senhores sabem.
Só com as saudades me lembro.
Sei que isto é difícil para os senhores. Para mim também não é fácil.
No resto? Orgânica vida: geometria de unhas, cosmogonias, umbigo e seu cotão, trópico de câncer, capricórnio, equador e que a dor.
Por outra palavra, amor.



77 Campainha

A trapalhada monumental que este (des)governo armou contra os professores e os alunos (e, portanto, contra o futuro) consubstancia a degradação da democracia à portuguesa. Apenas três décadas depois do 25 de Abril, o País vê-se devolvido, e aparentemente sem remédio, aos cabeças-de-abóbora, aos botas-de-elástico, e aos lambe-botas-de-elástico. Campeiam a ignorância voluntária, a cegueira ilustre, a desonestidade alegre e a peluda corrupção. As pessoas sérias, por nojo, afastam-se (ou são afastadas) dos lugares de decisão, deixando-(n)os entregues à viscosa lesma da irresponsabilidade.
O senhor Presidente da República não existe.
O senhor ex-Primeiro Ministro foi jogar para o Chelsea.
Quem agora manda é, de Caras, um artigo de Lux que trabalha quanto pode no sentido de fazer desta choldra uma espécie de Disneylândia com campinos e peixeiras. Tenho pena, mas isto é verdade.
Lembro-me vagamente de ter sido professor do ensino secundário. Na altura, havia aulas. Já então, os sucessivos ministros da Educação eram fraquinhos, mas nada permitia supor o pior. E o pior é isto: hoje.
Milhares de professores por colocar, gente casada e com filhos que desconhece a próxima porta, o próximo pão, o próximo dia. Em Lisboa, porém, tudo corre alegremente. Milhares de funcionários jogam às copas no computador. Um senhor a quem, decerto por piada, chamam secretário de Estado vem ao Louriçal desconhecer publicamente a Carta Educativa do concelho. Uma alegria. Entretanto, nada.
Tudo isto tornou o pessimismo coisa sinónima de realismo. Desprezar a Saúde é mau, porque intoxica o País. Desprezar a Justiça é mau, porque injustifica o País. Desprezar a Educação é mau, porque invalida o País. Mas quê, não tivemos a Euroforia? Não arrancámos três medalhas nos Jogos Olímpicos? Não vamos arrancar muitas mais nos Paralímpicos? Não começou já a Superliga para ver quem fica em primeiro a seguir ao Porto? Tivemos. Arrancámos. Começou.
O que não temos, nem arrancamos, nem começamos, é o ano lectivo, esse luxo a que habituámos (mal) crianças, jovens e docentes. Estudar para quê, realmente? Para ser caixa de hipermercado? Para adjunto de ucraniano? Para angariador de rifas de sorteio de cegos? Para arrumador? Para Tó Chico Dependente?
Se o tema me corrói de má bílis, é porque sim. Acredito que o povo mais bem educado e mais bem formado é o povo mais apto a viver em democracia. Por contraste, sei que o povo mais analfabeto é o mais fácil de governar pelos patos-bravos que só acreditam no dinheiro, no roubo, no estupro, na clientela, na prima e no espelho. Se vos pareço danado com o assunto (e com o Governo), é porque estou danado mesmo. Sinto-me mal governado, mal entregue, mal responsabilizado.
Mas se calhar nem é nada por causa da tragicomédia do arranque do ano lectivo. Se calhar, é porque ainda me não devolveram o IRS e eu tinha de dizer mal de alguém ou de alguma coisa. Pronto, já disse. Aula acabada.

78 Rosário de tristes contas

O ministro das Finanças, Bagão Félix, nunca deixa de me atrair a atenção. Não só pelo que diz como pela curiosa mistura que o rosto e a expressão argamassam: sob um olhar jesuíta, aquele nariz semita e aquela fina boca de canivete. Tudo na figura dele me acorda para o mau pesadelo de Salazar. Nas mãos, em vez da papeleta do discurso ou da caderneta de poupança, adivinha-se-lhe um rosário. Na lapela, quase lobrigo um alfinete de ouro com a águia da Luz. Nunca estive perto do senhor, mas não me é difícil adivinhar que dele emanará uma fragrância mista de bolacha e água benta. Em seu gabinete, é natural que pondere entre madeiras escuras, numa meia-luz de sacrário que imporá aos assessores um silêncio de martírio tranquilo. Mas, enfim, nada isto é importante. Importante é o que sofremos por causa de o Governo ser constituído por figuras destas.
Quando gizou o novo Código Laboral, deve ter-se benzido: afinal, quem o sofre é quase tudo cristãos. Apreciei o ar de pardal repugnado com que esvoaçou, apesar de tudo incólume, entre a revoada triste do processo da Casa P(edofil)ia. Mas não gostei que lhe tivesse faltado a dignidade mínima de fazer o que Manuela Ferreira Leite fez: virar as costas a Santana e ir trabalhar, que é o que ele gosta de nos mandar fazer depois de nos condenar ao desemprego.
Agora empossado nas Finanças, apareceu na televisão com aquele ar entre o seráfico e o mefistotélico, aspergindo-nos com os perdigotos de extrema-unção das contas públicas. Que o Estado não tem cheta, diz ele (como se o Estado não fôssemos nós). Que o défice público vai deixar de ser uma obsessão (afinal, era uma obsessão, Manuela). Que vai haver crescimento (de número de assessores, suponho, não exactamente do PIB). Que o tabaco vai aumentar (deve aumentar os mesmo cêntimos que as pensões e os salários).
Acontece que eu acredito que o ministro acredite naquilo que diz. Eu é que não acredito. Não acredito, pronto. Falta-me a fé(lix). E ando sem bago, quanto mais bagão.
Com os anos, uma espécie de ateísmo político emaranha-se-me no optimismo, tornando-me incréu. Incréu e azedo.
Depois, penso com amargura nas pessoas que deram o corpo e a alma ao manifesto para que um dia este País proporcionasse trabalho aos cidadãos livres de o procurar. Educação para todos, idem. Saúde, habitação, justiça, essas coisas, ibidem. Mas não. Portugal descola-se cada vez mais dos campos, onde uma população inculta amanha a couve à espera que o filho venha do Luxemburgo em Agosto. As fábricas declaram falências não raro fraudulentas. Os mais abastados fogem ao fisco como o Diabo da Cruz, mas ninguém os obriga a prestar contas. Impostos e duplas tributações, que os paguem os raros empregados do comércio, os vendedores, os professores, os electricistas, os sérios, enfim.
O senhor ministro não concordará nada comigo, naturalmente. Por isso será ministro. Mas não do meu país, saiba o senhor. O meu país é outro, embora os meus impostos sejam deste. O meu país é o de Ruy Belo, que o senhor desconhecerá. Ruy Belo disse: “Portugal não é pátria mas país”. Ponha lá mais esta no rosário, senhor ministro.

79 Memória doutro Inverno

Chamavam-lhe respeitosamente Senhor Arquitecto. Todos os dias fazia de comboio Figueira-Coimbra-Figueira. Vestia-se de preto como uma andorinha anacrónica. A cabeça subia para um chapéu de judeu velho. A gravata parecia uma guita de embrulho de loja de ferragens. A camisa, outrora branca, mostrava o enxovalho têxtil dos homens que vivem sós. Inverno ou Verão, caminhava munido de um guarda-chuva maior do que a tristeza a que chamávamos mata-cães. O Senhor Arquitecto era um holograma do passado. Tinha o ar irrefutável de quem aparece do nada para ir a nenhures. Regressava de Coimbra com quatro livros novos. Todos os dias, quatro livros novos. Imperturbável, folheava-os num transe de alheamento que impunha o silêncio em torno dele, como sucede com certas árvores e certas dores.
Cheirava tremendamente a alho. Numa tarde do Inverno de 1988, chovia tanto, mas tanto, que o mundo visto do comboio aparecia mais desalmado do que um fim de amor. A carruagem vinha atulhada de gente. O Senhor Arquitecto sentou-se no único lugar disponível. O bafio a alho tomou imediatamente conta do lugar. Folheava ele os livros novos daquele dia hoje antigo quando uma mulher tirou do saco de compras uma embalagem de desodorizante do ar. Com dedo firme e quase morta de riso, espraiou na atmosfera exígua do compartimento uma nuvem de eucalipto químico. Os passageiros conseguiram sufocar o riso até que o velho homem, percebendo que aquilo do spray era com ele, abandonou sem uma palavra aquele recinto popular. Então, o maralhal desatou à gargalhada. Alguém abriu uma janela até que o alho e o eucalipto se dissolvessem no ar afiado de chuva.
Segui-o. Havia dois lugares noutra carruagem. Ele escolheu o de costas para o destino: homem sábio. Sentei-me de frente para ele. Então, ele olhou-me. Eram olhos de outro século, pérolas de fundo de poço, olhos que vêem para dentro. Eu disse: “Tanta chuva, Senhor Arquitecto.” Ele disse: “Sempre gostei do Inverno.” Depois, calámo-nos. Ele voltou aos livros. Eu pensava que àquela hora estava a chover no mar, tendo-me vindo à mente a frase de Mercè Rodoreda: “Como se o mar não tivesse água suficiente.”
Nunca mais o vi. Os anos levaram-mo, supunha eu que para sempre. Até que hoje, tendo despertado sem remédio às seis da manhã, amanheci a pensar nele. Não exactamente nele, mas no enorme guarda-chuva dele. Que será feito de tal objecto? Que sucede às coisas que substituem a memória dos mortos, que no-las fazem perder?
No meu quarto de ocasião, como que em resposta, uma ligeira fragrância de alho palpitou no escuro. Na rua, senti que começava chovendo. Também sempre gostei do Inverno.

80 Crónica persa

Dona Gerenciana Ávila de Montenegro sofreu, aos 87 anos de idade, a vontade peregrina de casar-se. Virgem devota de horóscopo e condição, era senhora de seus dela haveres, plural que incluía um gato persa, um naperon português, um jarrão da China e um pastel de Tentúgal. Mais pinhais a perder vista, apartamentos na Lapa lisbonense, dois petroleiros e uma caderneta da Caixa Agrícola com mais dígitos que eu caspa.
Objecto lúbrico de seu dela amor era um rapaz de breves 22 anos chamado Arnaldo. O qual era marceneiro por castigo, que desistir de estudar no 8º ano dá nisto. Alto, moreno, cabelo negro até raias de azul, espadaúdo, saudável como um pêssego e portador de beiço grosso peliculado de saliva viva, o rapaz gelatinou as deferências cardíacas de Dona Gerenciana, a pobre que pensava saber tudo da vida até que o amor a arrastou em vórtice para os arrais desta crónica.
Ventando-se de nipónico leque à janela, a velha senhora esperava as nove menos cinco da manhã e os três depois das seis da tarde de cada dia todos os dias, menos domingos e meios sábados. Eram as horas a que passava Arnaldo, tão insolente como inocente, deus de motorizada a caminho de setenta contos por mês. Belo como o sol, fresco como a lua, Arnaldo lapijava, sem o saber, uma ruga nova, cada vez que passava, no rosto já pergaminhado de Dona Gerenciana. Ele não se sabia amado por toda aquela renda.
O rolo dos meses fez-se, num riscar de fósforo, dois anos. Aos 89 de idade, Dona Gerenciana desfalecia mas não falecia, posto que o amor dá rijezas inauditas a quem o sofre. Arnaldo, sempre marceneiro, sempre sem saber, passava sem saber que ficava, mais fundo ficado e fincado no coração de melancia de Dona Gerenciana.
Esta história não é para rir, mas à vontade o faça quem a isto ache graça. O gato persa, bufando de mau ciúme, escalavrou de sangue as varetas varizentas de Dona Gerenciana, que estiolava de amor a uma janela que se apagava. Arnaldo acabou arranjando outro emprego, pelo que deixou de passar. Dona Gerenciana murchou como uma jardineira. As orelhas antigas fizeram-se-lhe cera translúcida. O olhar, sumido pelo abuso da luz de quase um século, amortizou-se-lhe como um resto de dívida. As sardas do peito uniram-se-lhe de negro. Os joanetes pantufados romperam pela parede, causando mossas no reboco.
Até que, uma quarta-feira, Dona Gerenciana desistiu da janela. Recuou em passinhos curtos de monge budista até o sofá, onde se lhe desmoronou o amor, todo o amor. Chorou de mansinho a conta exacta de sal: se há coisa que a velhice traz, é a medida certa do pranto. Depois, a coisa passou. Todas as coisas: o rapaz, a juventude, a motorizada, a esperança, a saúde, a espera, a luz, a loucura. Passou tudo.
A senhora da Assistência Social veio dar com ela atravessada no sofá, partida de tanto ter vivido sem viver. Chegou o ouvido à boca dela e ainda teve tempo de guardar um sussurro sem explicação: “Eu volto, Arnaldo”.

81 Mariposa

E então uma mariposa, grande e inóspita como um helicóptero de combate, apareceu no ar gorduroso do restaurante à cheia hora do cozido. Gerou-se de imediato um vietnam de porras, braçadas e xôs. Guardanapos anti-aéreos desfraldaram patriotismos de caça higiénica. Intrusa involuntária, e aturdida de tanto pano predador, a mariposa tentou colar o ventre à pá do heliventilador, de onde foi sacudida sem mercê por um comedor de farinheira que se tinha empoleirado com garbo e sem cautela num banco precário. Tão precário efectivamente, que deu de si, o banco, dando com ele, o da farinheira, no chão, nadir frio do zénite ventilador. Houve risadas. O tombado, caído sem querer nem remédio no ridículo, amuou e foi continuar o cozido numa mesa que não era a dele, facto que aproveitou para reenfarinhar-se a gosto e à borla.
Entretanto, a voz da razão tentava serenar os desânimos, que pela sala guardanapavam ainda com luxúria, mas tanto menos acuidade quanto mais nervo. A mariposa resistia num voo copérnico, imprevisível, desesperado e desesperador. Pertenciam, a tal voz e a tal razão, a uma senhora afinal mais esbracejadora que uma deusa hindu ou um sinaleiro lusitano, desses de antigamente que, de capacete cor de cueca e do alto de uma peanha de lata, desorientavam vauxhalls e NSUs a caminho do ferro-velho do destino.
De repente, já não havia mariposa. Havia, em vez dela e tão-só, um restaurante de preço popular virado de pantanas. O vinho derramado pelo chão consubstanciava um lúgubre onanismo cor de sangue, um guardanapo pendia como uma mão de velho do poster do Sporting local, duas cadeiras tombadas juntas armavam uma aranha octoplégica, tudo somado a um dono da casa perfeitamente estarrecido de desconcerto perante a evidência do prejuízo.
Mas, enfim, lá se recompuseram mesas e cadeiras, fraldas de camisa e respirações. Famílias desunidas redesuniram-se e voltaram aos enchidos, crianças de colo foram reencontradas já púberes, uma senhora amelanciou o decote farto, o telejornal foi posto em som mais alto que de costume e a ordem do mundo voltou ao mundo, o nosso mesmo mundo que só precisa de uma mariposa para soprar na gentinha o escabroso tufão da loucura.

82 Memória marmórea

Estamos sempre a reconstruir o passado.
É por isso que ele aumenta à medida que envelhecemos. E envelhecemos. Uns mais, outros menos operosa ou graciosamente. O passado não apenas aumenta como se modifica por nossa obra e graça. Tendemos a suavizá-lo onde nos doeu (e dói ainda, quantas vezes). Também temos muito a mania de nos lembrarmos a nós mesmos no papel de valentões quando afinal foi a mediocridade (e até, não raro, a cagufa impura e simples) que nos guiou. Isto são coisas humanas, pelo que nem suponho pernicioso dizê-lo entre gente.
Já o presente é outra coisa.
Hoje contém já em si o mármore de ontem, mas não é fraca coisa o termos ainda tempo, sem aldrabices, de modificar o que ainda não é, em benefício do que, vindo a ser, será sempre passado, passado o tempo de ser. Somos responsáveis agora. Somos agentes agora. É agora que conta. Amanhã não me mintas, que eu sei o que disseste ontem.
Falta o futuro.
É essa, aliás, a maior qualidade dele: ser o que falta. Ausente desejado, incerto, temido, arrolador de outonos ou pagador de promessas, o porvir é a bruma e o castelo ao mesmo tempo.
“O tempo presente e o tempo passado/Estão ambos talvez contidos no tempo futuro./ E o tempo futuro, contido no tempo passado.” São versos de T.S. Eliot, síntese mais que perfeita do que acima deixamos dito, com tão maior pobreza embora.
E tudo isto, afinal, para dizer que os Xutos & Pontapés andam comemorando esta temporada 25 muito activos anos de carreira. Simpatizo com a banda. Acho-os porreiros, bacanos, engraçados. E sérios. São profissionais sérios. Dali não vem mal ao mundo. Não quer isto dizer que os Xutos venham a musicar o grande mas pouco cantável Eliot. Longe disso.
Quero apenas dizer-vos que um casal amigo, ambos na casa trintona, deixou o filho pequenino entregue a bons cuidados e ala para Lisboa, ver os Xutos ao vivo no Pavilhão Atlântico. Ele curtiu principalmente as “cenas” tiradas dos primeiros álbuns, quando ele próprio era “single”. Ela gostou de tudo, principalmente da quantidade de “cotas” sem preconceitos que zuniam o capacete numa sala repleta de múltiplas gerações. Eu gostei que ela me contasse isso quando esta crónica ainda só tinha dois parágrafos. Aproveitei logo a deixa.
Reconstruir o passado não é forçosamente mau. É apenas humano. Só os animais, à excepção talvez dos elefantes, são eternamente presentes.
Alterar as condições do presente é mais do que humano: é pessoal. Só as pessoas, à excepção sem talvez dos ditadores, são capazes de mudar.
Não ter medo do futuro é o que deve resultar de se ser humano e pessoal todos os dias: ontem, hoje e amanhã, como cantava o José Cid. Ou esta já era dos Xutos?


83 Boa noite

Entrei na casa de pasto a encolher o morcego do guarda-chuva. A noite tinha caído no mundo como um colchão de água arremessado de um terraço de hotel. Havia um casal sexagenário que debulhava uma alheira de dose para dois. Havia um homem que conheço de viver só num quarto arrendado. O quarto é numa viela visitada pelo vento lunar e pela magreza dos cães. Havia o patrão da casa, cuja bonomia é suportada por um olhar marejado de sal, algum desgosto antigo, não sei. Havia uma rapariga que anda a estudar computadores à noite na Associação Comercial. E havia o destino que eu levava agarrado à roupa como um cheiro. Aquilo passou. Não recordo que coisa jantei.
A manhã do outro dia foi hoje. O sol era o morango da canção. As palmeiras do jardim titilavam de passarada. Dei os bons-dias ao farmacêutico, ao talhante, à florista e àquele senhor do cartório de quem se diz ter ganho o totoloto.
Esta noite, voltarei à casa de pasto. A tarde está toda poente. O vento visita vielas, atravessa cães, promete chuva que decerto cumprirá. Há futebol na tv, o que sempre vale por noventa minutos de armistício. A rapariga dos computadores estudará alheiras, e os sexagenários de olhos salgados saudarão o dono da casa, que bondosamente me há-de emprestar o guarda-chuva cujo fecho equivalerá a uma abertura de crónica ou de algum desgosto antigo, não sei.


84 Insónia de fa(c)to

1. A insónia de uma madrugada recente colou-me de costas ao sofá da sala, de onde brandi o comando da TV como um náufrago agarrado a um escolho de madeira. A ideia era encontrar um canal que me substituísse a consciência. Demorou, mas consegui. No canal Odisseia, um documentário sobre guerras recentes devolveu-me a lição por de mais sabida de que todas as guerras são sujas, injustas e humanas. Humanas, sim. São produto do homem desumanizado.
Outra coisa: os alegados ‘motivos’ religiosos, étnicos, fronteiriços, etc., são tudo treta secundária. Na base de todas as guerras, lá bem na base, está o dinheiro. O dinheiro e o poder que ele dá.
Vi, horrorizado mas desperto, quatro soldados russos prisioneiros serem executados, a tiro e à faca, por um comando checheno. Revi os morteiros da Operação Condor, organizada e financiada pela CIA, a rebentarem a fachada do palácio de La Moneda, em Santiago do Chile. Foi isto no verdadeiro 11 de Setembro: o de 1973. ‘Revisitei’ Sarajevo fustigada pela impiedade sérvia.
Tudo horror, horror, horror. O documentário (excelente) incluía a entrevista com um bastardo, por acaso espanhol, mercenário de armas. Que disse não ter especial má consciência por servir de ligação entre os países ocidentais que vendem as armas (Portugal incluído, atenção…) e as vítimas absolutamente mortais que estão sempre na outra extremidade do tiro, do obus, do morteiro, do dinheiro. Esse dinheiro sujo que nenhuma operação manhosa pode lavar.
Claro que seria uma ingenuidade tamanha esperar que o panorama mude. Nunca mudará. Somos, nós humanidade, piores que bestas. Bem piores que elas, coitadas das bestas.
No fim da madrugada, já tocado pelo primeiro livor do dia novo, dei por mim acordado sem remédio. A carpete da sala coagulada de sangue. As estantes empilhadas de mortos. As molduras de família exibiam agora as faceiras repugnantes de Milosevic, Kissinger, Estaline, Pinochet, Franco, Putin.
Fui ao Esquina e tomei, apesar de tudo, um café em paz.

2. Vou à gala d’O Eco. Fui convidado. Vou levar uma fatiota lavadinha. Nesse dia, faço a barba. Talvez até banhe o pêlo de brilhantina. Vou pôr molas da roupa nas orelhas para esticar os pés de galinha que já me pergaminham as olheiras. Ver se dou uma esfregadela ao único par de sapatos que me separa do chão. E se não me esqueço de tomar banho. Depois, lá no Teatro-Cine, cumprimentarei à esquerda e à direita com os piscas da boa educação mínima com que todos devemos frequentar tanto o quotidiano como as festas. Hei-de espreitar a mesa de aperitivos com um olhinho cerrado de milhafre cartografando pintainhos. E hei-de dar um beijo às meninas que fazem d’O Eco o óptimo jornal que, sem favor, é. Aos meninos que o ajudam a fazer, beijo nenhum. Vai de aperto de mão e pronto.
O Dito e Feito (Carlos e Cristina incluídos) agradecem o convite. Lá nos veremos. Depois digam-me alguma coisa da fatiota.


85 Livro

As pessoas não sabem que precisam, mas precisam de um livro que lhes preencha o anoitecer, quando lá fora a geada cicatriza de renda a terra. Um livro que faça de lareira, quando a alma tirita. Um objecto tomado pelas palavras bem ordenadas por remotas mãos. Não interessa que seja vivo ou morto, o Autor desse livro preciso: desde que haja livro, o Autor revive desde e para sempre. Atenção que isto é mesmo assim.
Precisam, as pessoas, que se lhes conte uma história. De reis, de cavalaria, de foguetões espaciais, de amores contrariados, de tráfico de droga, de diamantes impossíveis, de grandes roubos do século (qualquer século), de animais fabulosos, de hotéis e de bordéis, de cais marítimos de onde um navio se despede a caminho do nascente carregado de ‘cowboys’ resgatados ao poente, de aztecas de cabelo azul de tão negro, da solidão perpétua do faraó, do tuaregue açoitado pelo vento de areia, do filho hoje velho que sonha de novo os sonhos que a mãe sonhou quando grávida dele, de flores carnívoras, de vampiros tocando cravo em salões de fantasmáticas cortinas de castelo romeno, de espiões divididos ao meio como viscondes, de baleias esventradas por pescadores pobres, de fomes e pestes genocidas, de desencarceramento de perseguidos políticos, de fraudes bancárias, de assassínios presidenciais, de corridas ao ouro, da conquista do pólo (qualquer pólo), do que se sente quando a noite vem ao nosso encontro a partir da primeira hora da manhã. Não sei se me expliquei bem.
Também pode ser, admito, que as pessoas não precisem nada de livro algum. Que sintam não ter paciência para queimar horas com um paralelepípedo de papel manchado de tinta nas mãos. Que prefiram ir dar uma volta ao bilhar grande da indiferença. Que tenham mais que fazer: tratar dos filhos, tratar da roupa, ver televisão, fraldar a sogra entrevada, coçar a sarna ao gato, rir da gosma do papagaio, pagar a prestação do carro-melhor-que-o-do-vizinho, meter cunha para a operação ao quisto, sonhar com uma ‘maison’ com torres de ‘chateau’, ler é que não. E terão toda a razão e todo o direito.
No entanto, eu cá vou pelo livro. Não nego que a roupa e o papagaio sejam necessários. Não desminto que ter uma casa é quase tão importante como ter um carro-melhor-que-o-do-vizinho. Sempre é gesto de cristandade, remover as excrescências da criança senil que o marido ou a esposa nos impingiram por mãe. E não é mentira nenhuma que um quisto dermóide entalado no cóccix nem deixa ler seja o que for em posição sentada. Tudo isto é verdade, mas eu cá vou pelo livro.
Para alguns, o livro é a Bíblia. Para outros, o Alcorão. Para outros ainda, um qualquer de capa a cores desde que haja no hipermercado e tenha vendido milhares. Tudo bem. Não tenho problemas com isso. O meu problema é outro.
O meu problema é a insidiosa presença da noite a partir de todos os lados. É a rendilhada manha da geada. É a lareira apagada. A solução, sei-o bem, é o livro. Mas tudo me leva a crer que esse livro ainda não tenha sido escrito.


86 Ligação à medusa

Devia ter chorado durante o sono, pensou, porque ao acordar os olhos lhe estavam inchados como incham os lábios durante o amor. E também porque, no exacto lugar onde outrora o coração, sentiu que lhe pulsava uma medusa de ácido. Pessoa prática, fingiu não sofrer os destroços de alguém que desperta para a certeza de o mundo ter recomeçado sem ela.
Levantou-se, ferveu água para o café, gargarejou elixir no lavatório, bebeu o café, vestiu a melhor roupa, calçou os sapatos melhores, semeou flocos de comida na água do peixe vermelho e saiu para o patamar, onde o poço do elevador de grades escancarava a dupla possibilidade do inferno ou do rés-do-chão. Foi pelas escadas.
O fecho eléctrico da portaria emitiu um protesto indignado, a que não ligou porque se não deve ligar a tudo. Havia sol.
Caminhou pelo lado do sol, rasando as sucessivas pastelarias de almoços rápidos, as rápidas lojas chinesas onde budas miniaturais incham de plástico ao pé de telemóveis de brincar, as infinitas sucursais bancárias das capitais pobres, os carros abandonados à mercê dos cães urinários. Foi marchando com a pressa de quem não tem aonde ir. Que fazer de tanto domingo?
Num relance de avenida alta, viu, longe, um trecho de rio: pele de luz, mais que de água, tatuada de velas e cargueiros. Dirigiu-se a essa visão hóspita, bastando-lhe descer no sentido das calhas do eléctrico. Até que chegou. Livre de prédios, o rio unia sem tracejado o céu montante ao mar jusante, como certas palavras são capazes de fazer. Gostou de ver o sol dissolver-se na água, açucarando-a da mais benigna das ilusões – a eternidade.
Um cargueiro bramiu como um elefante acorrentado, e a voz do navio rasgou o domingo em dois, como se o domingo fosse um melão. Pescadores à linha erguiam as canas à maneira de exclamações mudas, atentos ao parkinson das bóias. Também gostou dos pescadores, que procuram mais a solidão do que o peixe.
Lembrou-se, então, do seu peixe, o vermelhusco de olhos esbugalhados que por ora mordiscava a tona do aquário com a felicidade indiferente dos que se resignaram. Lamentou não tê-lo trazido consigo, dentro de um saco de plástico tão inchado de água como olhos ou budas, não tê-lo trazido para o dar ao rio, onde teria de aprender a evitar a solidão assassina dos pescadores mas onde se não veria sujeito a rasar pastelarias, chineses, bancos ou carros, nadando, em vez disso, no açúcar solar como se para sempre.
Lamentou mas não ligou, porque não ter nada é a melhor razão para não ligar a tudo, muito menos à medusa.

87 Tó

Segunda-feira de manhã, regressava de comboio a Pombal. Vinha de casa de minha mãe, onde passara um domingo entregue aos ardis da nostalgia. Na carruagem, seguiam apenas três outras pessoas: duas mulheres que conversavam de doenças e um idoso que lutava contra a desordem das folhas do jornal. A minha alma viajava de pé, inquieta pelo receio premonitório de filho quarentão que deixa só em casa uma senhora de 80 anos.
E todavia não era uma hora precária. A glória democrática do sol fazia coruscar a pele das mãos, como se as tivesse de ouro. O comboio cantava como um escuteiro, as duas mulheres ladainhavam tranquilamente as respectivas hipocondrias, eu olhava os campos de água com que Novembro imita terrenamente o céu e o velho homem, tendo desistido de ordenar o Diário de Notícias, limpava as unhas reformadas com um canivete de cabo de madeira.
Foi então que do bolso do casaco me saiu um pipi de mensagem escrita. Saquei distraidamente o telemóvel. A mensagem era do João Pedro, pelo que me preparei para sorrir à esperada leitura de um dos amáveis insultos do costume. Não sorri. A mensagem era: “Morreu o Tó Mas!” Assim, sem mais nem menos, com a pureza lapidar da desgraça.
Toda a gente sabia que sim, que a doença do Tó era sem regresso. Mas mesmo assim. De repente, foi como se o meu comboio tivesse entrado num túnel. A sombra pariu o seu ovo negro. O sol perdeu a glória, a água alastrou pelos campos até não sobrar vestígio de terra, casa ou árvore. As aves debandaram dos céus agora baixos, mortais agora.
Sozinhos, valemos nada. Valemos os amigos que alcançarmos merecer, a família que soubermos manter, os amores que pudermos cativar. No desaparecimento de um amigo, passamos todos, cada um por si, consigo e em si, a valer menos. A morte de alguém como o Tó desbarata-nos em remédio. Empobrece-nos sem esperança. E, estranhamente, purifica-nos, porque nos revela como verdadeiramente somos: animais nus acossados pela evidência do malogro.
Desci do comboio de joelhos desconjuntados pela incerteza. Aonde ir, na manhã acabada? O meio-dia subia o escadote solar, indiferente à má notícia, mas as casas, os cães, as pombas e os pombalenses pareceram-me mais obscuros que de costume. No jardim, a brisa não catava à palmeira a caspa de pardais de outros dias: os dias de quando ainda o Tó. Procurei o alento de outros amigos destroçados: o César e o Arlindo, entre outros que a tarde me permitiu somar à resignação.
Terça-feira, 23, teremos todos estado no funeral. De olhos molhados como campos de Novembro, haveremos de ter conciliado a saudade viva com que, ao menos, se torna possível negar à morte a estupidez da sua vitória inútil.
E, no regresso de lá de cima, apaziguados finalmente pelo sono peremptório de tanto mármore, cada um de nós, Tó, terá retomado o comboio que a cada um de nós levará de novo até ti, um dia democrático e solar.

88 Pá

Estive quatro dias quase completos em Lisboa. Dissipei-me de Pombal de sexta a segunda. Fiz bem. Durante quase quatro dias, ninguém me meteu em tribunal, ninguém me enegreceu de moscas a sopa, ninguém me pediu autógrafos de sangue, ninguém me encarquilhou a santa paz. Segunda-feira à noite, estava de volta. Desci na estação transida de frio dos ventos ferroviários, pronto para voltar a ser réu, alcoviteiro, hepático, telegrafista, coitado, pedestre, tonto e manso.
O Luís foi buscar-me à estação para ouvirmos o disco dos Cavaquinhos do Louriçal. Fomos comer ao Aniano. Trouxe-me a’O Eco para depositar este Ouro e Sal, coisa que fiz enquanto faço. Nos entretantos de tudo isto, porém, a alma demorava-se-me em Lisboa. Por causa de um homem que levantei do chão. A história segue-se.
Era uma vez em Lisboa. Domingo à noite. Frio e chuva. Um homem ia ao teatro. Atravessou a avenida, meteu-se por um tímido jardim urbano. No chão, uma figura de roupas apodrecidas jazia de peito para o ar. A chuva tomava-lhe o rosto povoado de uma barba apóstola. As mãos crispavam de cera o ar frio. As pernas, quebradas como cabides, penduravam a magreza de estar vivo sem ninguém. O homem que ia ao teatro parou. Parou como se pára nas passagens de nível. Afastou-se. Parou. Voltou. Falou para o deitado: “Ajuda-me a levantar-te. Não sei se consigo fazê-lo sozinho.”
O homem abriu um olho atónito. “Desmaiei.”, disse. “Ia para o Centro de Abrigo e desmaiei. Não como há não sei quantos anos.”, disse.
O homem do teatro não respondeu. Depois respondeu: “Resiste, pá.”
Depois foi ao teatro, viu a peça, saiu com os actores, ouviu fado numa catacumba propícia, deitou-se às cinco da manhã com uma lâmpada de whisky a bruxulear no circo do cérebro e adormeceu mal.
No sonho que se seguiu, viu-se de regresso a Pombal a bordo de um comboio de crónica anterior. A carruagem tremulava de fantasmas que mutuamente se mensageavam de telemóveis em riste, sitiados pela chuva preta dos regressos de domingo, ou segunda, ou qualquer dia contrariado. Tossiu durante o sono, autografando de sangue a fímbria do lençol. Rezou a um deus desconhecido para o que o Inverno não fosse apenas descontentamento.
No outro dia, o sol, muito puro, vassourava de laranjeiras o ar molhado das vésperas ferroviárias. O mundo tinha voltado ao sítio. A vida tinha voltado ao sítio. Pombal tinha voltado ao sítio. Eu tinha voltado ao sítio. Cá estou.
De modo que se se der o caso de um dos leitores cair desmaiado nalgum desses tímidos jardins da cidade, conte aqui com o especialista. Em Pombal como em Lisboa, em Santiago do Chile como em Saigão, o importante é resistir.
Resistir, pá.



89 Fotografia

Perdi uma série de fotografias obtidas num domingo agora duas vezes pretérito. Na impossibilidade de reavê-las, resta-me tentar, hoje e aqui, revelá-las pela palavra.
Uma delas era de duas mulheres quase tão jovens quão pálidas. Apontavam a ninguém quatro olhos dotados da clarividência azul-cosmos dos cegos. Eram cegas, tinham seios perfeitos e apresentavam-se muito bem vestidas: talvez por serem manequins e se encontrarem expostas na montra de um pronto-a-vestir.
Outra das fotografias não conservava gente, fingida sequer, à superfície da eternidade que toda a foto ilude ser. Era de um cão dormindo entre as linhas de um caminho-de-ferro desactivado. Só eu sabia que o cão realmente dormia, que por ali comboio algum passava ainda. Um observador pensaria talvez no atropelamento mortal do cachorro.
A terceira foto (mas porquê “terceira”?; por que ordenamos ainda o que se perdeu?) revelava uma mansarda eriçada de vasos de sardinheiras. Entre as flores, assomava uma cabeça de mulher cuja maior evidência era a desolação da pobreza. O olhar da mulher, recordo-o bem, fixava directamente a minha objectiva, pelo que me é lícito assentar que foi ela a fotografar a própria fotografia que eu haveria de perder.
Lembro-me de ter interrompido o trabalho desse domingo duplamente irrecuperável para tomar um vermute e munir-me de cigarros num café de reformados que escutavam o relato de um Belenenses-Atlético para a Taça. Sem que o notassem, fotografei dois dos velhos à contraluz da montra pontuada de cocó de moscas, prospectos de bailes e editais venatórios.
Já cá fora, a grande tenda solar estava segura ao chão por estacas de árvores e pedras de carros estacionados para sempre. Cheirava ao que os domingos cheiram: a espera e a ruas vazias.
Fotografei de costas uma mulher de chapéu que caminhava com a graça involuntária de um charlot diurético.
Fotografei um telefone preto dos antigos, dos de discar. O telefone tocava, ninguém vinha atender, pareceu-me que até o som ficou gravado na fotografia. O som e a ausência de atendimento: ambos impressos na película perdida.
Foi um domingo de roubar luz, esse domingo. Trabalhei muito, depois devo ter guardado o rolo no bolso de um casaco cujo forro se me desforrou, como às vezes a vida se desforra de quem a não vingou.
O que vos ainda não revelei (verbo de fotógrafo) é isto: houve uma fotografia que não tirei nesse dia. Um par beijava-se na paragem do autocarro. Não um desses beijos lambidos, sôfregos, desses de dorsos linguais expostos ao basbaque dos velhos e à má-língua das velhas. Era um beijo bem posto, breve e simbiótico, um beijo dado por aquilo a que chamamos alma quando se usa a boca sem ser para falar ou comer. Não era coisa de adolescentes, mas um beijo claro entre um homem já maduro e uma mulher serôdia já. Não tirei o retrato dessa eternidade mínima.
E curiosamente, de todas as fotografias que tirei e perdi, essa foi, não a havendo tirado, a única que pude guardar para, hoje e aqui, vo-la revelar.




90 Austrália

Deu-se-me o caso de, uma ocasião, passear sozinho por uma duna. Foi num mar aqui perto. A duna fazia o que é de competência de toda a duna que se preze: ondulava muito láctea, muito derramada, muito lânguida. Tão lânguida, derramada e láctea, que, na pele da areia, certas florações escuras de que só os botânicos conhecem o nome me pareciam (valha-me Deus!) hirsutas emanações pélvicas. E mais não desenvolvo.
Lá ia eu, pois, muito bem indo, quando eis senão me desemboco, sem preparatório, com a visão já pouco distante, e em sentido a mim contrário (como quase tudo na vida, enfim), de uma senhora.
Dona da duna, por assim dizer e forçando o trocadilho, a senhora tornava-se mulher à medida que os metros entre nós se volviam meios metros. Ela caminhava com a competência de toda a mulher solitária ao colo de duna: ondulava, muito lacteante e languidamente. Perante isto, tremulei. Pudera.
Parei e dei-lhe o perfil. Pus-me, muito flautista, muito virado para o mar, a assobiar baixinho. Ai, amor: o vento levava-me o solfejo até à zona de desembarque das ondas, onde o oceano rebobina para sempre aquela madrugada de Junho na Normandia, 1944. Mas essa é outra História. À da duna voltemos.
Tivesse eu cauda e ao rabo estaria dando com fúria de limpa-pára-brisas no máximo. (Reconhece o cão que há em ti. Ou o lobo. No caso, do mar.)
Pois, e então a mulher já me estava tão perto, mas tão, que a mecânica da respiração se me tornou mais complicada que a casa de máquinas do Titanic. É que nem menos. Pois que ‘aquilo’ era todo um mulheraço, todo um mármore caminhante, um lençol cristalizado, uma geleia oftálmica toda. Ouvi perfeitamente, passando ela pela minha retaguarda, um amarfanho de papel caro: uma capa de revista ela era.
À falta de melhor, meti diálogo. Disse, naturalmente, a maior estupidez possível: “Linda manhã, hã!?”. Sim, assim: com triste involuntária rima. Ela parou, cegou-me com o magnésio de fotógrafo de casamento do seu olhar sem sombra e disse “I beg your pardon?”.
Devia ser australiana, conjecturei. E, num ápice, fui à enciclopédia da minha cultura demasiado geral para que me seja possível saber qualquer coisa em particular: “Cangurus, deserto e Ópera de Sydney, não é?”.
Ela encolheu os ombros, soerguendo a insuportabilidade da bandeja do busto. E seguiu caminho, sem mais, para fora da minha vida e para longe desta crónica. Limitei-me a acabar a duna, perfurei o trecho de pinhal que se lhe seguia, cheguei à bicicleta e apertei as bainhas das calças com as molas da roupa que a minha mulher não sabe que roubei do arame do quintal, o quintal onde amanho a minha couve, encano o meu feijão, choro a minha cebola e cultivo a minha tão masculina ignorância sobre tudo o que diga respeito a mulheres solitárias e à enciclopédica Austrália.


91 Herbário de António, o Santareno

No Verão de 1996, tive nas mãos o herbário juvenil de António Martinho do Rosário, depois (e espero, apesar de tudo, que para o maior sempre possível) conhecido por Bernardo Santareno, o grande dramaturgo de ‘O Judeu’, ‘O Crime de Aldeia Velha’, “António Marinheiro” e de “Português, Escritor, 45 Anos de Idade”, entre tantas outras obras de lugar cativo na nossa tão rica como amnésica portugalidade. Estagiava eu então na RDP/Antena 2, onde, a troco de estar calado, fui remunerado com a riqueza de ouvir e ver coisas e pessoas de outra dimensão que não apenas esta nossa merceeira condição de sobreviventes a prazo e a malefício de inventário.
O herbário de António (não ainda Bernardo) é o que um herbário antigo tem de ser: uma antologia de folhas e flores coladas de costas ao papel do Tempo, esse impiedoso combustível. Enterneceu-me poder manusear um objecto criado pelas mãos do grande escritor quando moço. Por assim dizer, revisitei, pela mão dele, o tempo dele: as flores dele, as folhas dele, a botânica juvenilidade dele. Depois foram, para ele, os anos de Lisboa: médico psiquiatra, escritor de teatro, homossexual discreto, sombra solitária, portador de óculos de espessos aros, gravata decente, perpétuo cigarro ao canto da boca, sentido atento às vozes de dentro que, soltas dele, se tornavam, fora dele, corpos de actores. Os tablados dramáticos encheram-se dessas vozes, dessas vozes por assim dizer herbárias: borboletas vegetais alfinetadas pela revisitação das nossas História, Língua, Pátria, Moralidade, Sensualidade, Criação, Alma, Hipocrisia, Solidariedade, Tragédia; e dos nossos Drama, Desamparo, Confronto, Cérebro, Vazio, Frio, Fado, Exílio, Silêncio e Desconhecimento.
É justo que pouco ou nada disto vos interesse grande ou mínima coisa. É justo que sejamos diferentes, a começar pelos interesses. Esse é, aliás, um dos ganhos a obter da leitura da obra de Bernardo Santareno, esse senhor de quem alguns manuscritos andam perdidos por obra e desgraça da má hora em que deles tornou herdeiro um rapazelho de duvidosa honra e proxenética condição: a justiça da diferença contra a injustiça que toda a indiferença é.
Eu sei: o Povo (essa entidade concretamente humana que vive numa abstracção animal) não vai ao teatro, não gosta de pensar nem de se repensar, prefere mostrar as cáries no desbragamento da gargalhada, gosta mais de broa. Três décadas apenas depois do 25 de Abril, não estamos melhores por aí além. Não sabemos mais, não conhecemos mais nem minimamente nos reconhecemos: como Povo. Queremos ser da Europa sem saber ao certo onde é que isso fica. Deve ser ao pé da Turquia. Temos liberdade de expressão, é certo, mas não sabemos exprimir-nos. Votamos massivamente na Abstenção, desconfiados de que, seja quem for que lá ponhamos, é para nos roubar. E nem sabemos quem foi e o que fez Bernardo Santareno. Posso dar uma ajuda.
Era António. Juntou flores em pequeno.


92 Pescador de sons

Por ter habitado vinte e três anos o rés-do-chão direito de um prédio com mais dois andares, habituei-me a compensar a vaga humilhação de viver debaixo de outros através do prazer algo indecente de lhes reconstituir a intimidade doméstica pelos sons que me chegavam do piso superior imediato. Do segundo andar, na verdade, pouco me chegou durante esse quase quarto de século. Mas os sucessivos agregados familiares do primeiro piso basto me compensaram, confesso-o sem rebuço e com rebuçado. Particularmente, aquele matrimónio com nome de peixe: os Garoupa.
Os Garoupa vieram recém-casados para o primeiro. Da minha cama de solteiro militante, escutei-lhes as surdinas asmáticas do amor, as exclamativas ascensões ao ‘himenlaia’, o roçagar pressuroso de tanta sílaba húmida, a tropicália do futuro consumada em jogo(s) de lençol de flanela, derramadas as almofadas pelo chão a golpes de cerúleo calcanhar e discóbolo cotovelo. Com o tempo, o cardume de dois acabou refreando essa natação convulsa: a senhora Garoupa, Lúcia de nome próprio, viu-se engravidada como um aquário de amnióticas águas. Os sons de cima passaram a ser menos convulsos e mais pantufados, tendo as almofadas voltado ao lugar na cama que lhes é de função.
Os meses fecundados que se seguiram proporcionaram-me os suspiros do Garoupa macho, de nome próprio Goraz, que, dengoso de piscícola ternura, muito carpinteirava madeiras, assaz calafetava frinchas, bonde aferrolhava portas e janelas, afanosamente reparava torradeiras, bastante desfarpava tacos, tanto escondia fichas, sem-sopro donzelava sofás e de mais pedunculava salsas e hortelãs em vasos de varandim: tudo para que a chegada à praia da mais recente garoupa do mundoceano ocorresse na demasia da mais alta maré.
Também a ouvia a ela, à impregnada Garoupa, que, de núbil, passara a ventríloqua, não falando senão pelo que do ventre se lhe tumescia de róseo porvir e seus derivados celestes: fraldas descartáveis, indecisão rosa/azul, telemóvel da pediatra, condições da pré-escola, acnes da secundária, propinas da universidade, bolsa em Inglaterra, sardinha nora e netinhos fofos.
Tudo isto escutei, isto tudo me tocou de ouvido. Na celibatária preia-mar do meu quarto de pescador de sons, engodei e molinetei a meu bel-prazer a intimidade desses vizinhos de tão marinha felicidade. Até o dia em que o aziago albatroz do destino lhes pousou ao parapeito. A gravidez inviou por malogrados baixios, a senhora sentiu-se mal, o homem chamou o ‘tinónim’ e o primeiro andar ficou-me emaranhado de sons ilegíveis. Rezei por eles (e logo eu, que nem credo confesso). Devo ter rezado mal ou ao orago errado: nunca regressaram. Duas semanas depois, um camião de mudanças veio buscar o que nunca deveria ter mudado: os móveis, as lãs, o aquário de madeira, as farinhas rápidas, o televisor com DVD, as almofadas voadoras, o ominoso jogo de flanelas da concepção e até a bicicleta sem rodas com que o senhor Garoupa, no quarto ao lado, queimava a febre erótica sem consumação das últimas semanas de pai que espera a terna desova: tudo madeiras de naufrágio.
Fumando no escuro, de barriga para um tecto agora calado, senti o peso desse silêncio que sempre sucede ao que corre mal. Era um silêncio de canalizações antigas, um silêncio de fumar sozinho no escuro escutando as expectorações perenes da canalização.
Voltando a cabeça para o parapeito da janela do meu quarto, vi (longe, afastando-se) a silhueta preta do albatroz recortada na Lua. Eu teria preferido (perto, aproximando-se) uma cegonha.