Thursday, June 30, 2005

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) – 5

João pastava Maria na palha do estábulo da quinta dos cavalos invisíveis. Cheirando-lhes ao amor, os cavalos punham-se a resfolegar como acordeões inquietos. O rapaz era baixo e forte. A cara dele, depois de África, parecia uma mão aberta de cicatrizes. João suava Maria, fazendo-a soar como uma pele de bombo.
Esse era o meu mundo: o monte, o amante a monte, o estábulo suspeito, a ronda fotográfica da sensibilidade a tudo. Eu queria ver.
Saltei de cima do muro do pátio-estádio e cortei um pé numa lata afiada que a silveira escondia. Sangrei no bidé feminino. Lembro-me da água debruando, como um pincel de pintor, o sangue, recordo a cor corredora do vermelho-vivo na louça do bidé, recordo o ralo gorgolejando o meu sangue. Conservo a cicatriz na base dos dedos do pé direito: uma ferida reavivada e revivida pela areia da praia. Fulgor e glória do menino ferido, salteador de muros, devassador de silveiras prenhes de frigoríficos, ratos, sofás e outros despojos fascinantes.
Um cão acompanhava-me. Era de pêlo malhado de ouro ruivo e branco-nácar. Era um animal muito inteligente, dono de um olhar apreensivo. Pertencia a si mesmo com uma nitidez decisiva: um príncipe carnívoro. Também ele, um entardecer, acabou. Sem querer, descobri que um irmão o levava para lá da silveira cortante, tinha-o metido num saco de farinha de padeiro, sepultou-o já anoitecia. Apercebi-me de que já então me escondiam a morte, como se ela jogasse às escondidas comigo, a criança em transe perdedor dos primeiros e últimos verões. Chorei mais pelo cão do que por ter cortado o pé. A morte do Cão é uma monstruosa lição infantil. Estamos, deixamos de estar: Verão, Inverno. Fui aprendendo assim.
Com a aprendizagem, veio a perda. Veio a perda porque veio o tempo. E o tempo era o tempo perdido. Sem cão, perdia-me no monte da fotografia. Esfregava as mãos nas ervas aromáticas, mordia folhas de oliveira, bebia água de uma fonte muito pura que chorava de dentro da terra, para lá da linha do comboio, como se chorasse pelos que via passar dentro do cavalo-de-ferro. Comia figos da Figueira do Carmo, apedrejava o ar, pastoreava as vacas interiores de uma tristeza que já se me tinha tornado tão inexplicável como sem remédio.
Georgette Magritte perdia o marido, entregue ao cancro terminal de 1967. René e Magritte com o meu cão depois da guerra, mais ou menos como na canção de Paul Simon. A guerra de João, o cavalo de Maria. Ao longe, morteiros da festa de Verão, morteiros da guerra de África da Piedade, as mortes de Magritte e do cão a que eu pertencia.
Caixas vazias de ananás dos Açores serviam-me de cavalos faroesteiros. Manhãs assim, no pátio-estádio, cavalgando imóvel, sendo tão feliz como a ideia de rosa que uma rosa dá sem pensar nisso. O meu corpo contava caracóis, delia as paletas do sol caindo além da quinta onde os cavalos sofriam o odor de João aleitando Maria, desferia pedradas contra Deus, esse assassino de cães e pintores.
Mas então vieram as letras, essas minhocas pretas que catalogam a terra: Selecções do Reader’s Digest em edição brasileira, a morte de Francisco Lázaro na maratona olímpica de Estocolmo (1912), ano do suicídio da mãe de Magritte, os nomes coloridos de países que nunca visitarei, centenários de santos, ilustrações francesas, Matt Marriott no Mundo de Aventuras, uma das muitas vidas de Leonardo, uma colecção espanhola de ‘dibujo’ (como eles chamam ao desenho), um folheto de psicanálise mágica que não sei se de Freud se do Professor Karma, um atlas tão pobre como o mundo que representava, Edmondo de Amicis, Mark Twain, R. L. Stevenson e o Pai Tomás na colecção Fruto Real, tantas letras que me induziram na pura perda de tempo que a eternidade era para ser e não foi.

22 de Junho de 2004

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) – 4

Ainda. Entretanto, trabalho. O corpo cresceu para o trabalho e leva-o a cabo. Levanto pesos, mudo madeiras, rodo motores, decifro humidades. E finalmente escrevo. Numa parede, uma fotografia. Data, 1967. Não é coisa de Magritte, que morria por esse ano. Não sei se já vos falei disso.
Era o Verão, então. A luz fulminava o sal da respiração. A pele era toda uma grécia pessoal. Como contar isto? A mão desconhecia a luva, o olhar conhecia o ar, as tardes rebentavam de cor surda, além, por cima da quinta de invisíveis cavalos que jantavam laranjas e azeitonas e tranças de menina. Isso já era a solidão, mas eu não sabia e não via. E no entanto.
Jantávamos carne guisada com arroz, a Mãe ordenava os perfumes do Mundo: meias, axilas, terrinas, fotografias, cobertores, horas, rosas, cadeiras, carpetes, mendigos, vizinhas, cães, rádio, lâmpadas, bibelôs, música, Pai, sombra, paz, amanhã. Que poderoso é o sangue, verdade?
Fui para o pátio, levei a guitarra. A Irmã ou estava lá ou lá foi ter. O Fotógrafo magrittou-nos com monte ao fundo, invisíveis cavalos, ano 1967. Ainda éramos todos. Eu não sabia mas via. Na foto, estou a olhar para o chão, embora.
Agora, não estou. Estou a olhar para uma rapariga de olhos claros como vidros de través. Ela toma um condensado de alperce. Na mesa ao lado, joga-se dominó. Convidaram-me para jogar, declinei com gentileza. Não é 1967, não é de dia. Copos tilintam como ovos chocos. Mãos mal lavadas apertam a minha, glória de boas-noites de café, a solidão iluminada, cinquenta cêntimos a chávena.


21 de Junho de 2005

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) – 3

O fotógrafo desconhecido é como o pintor e o escritor. Fica do falso lado de cá. O lado de cá do observador que existiu talvez, talvez resista, talvez não desista: o apreciador de quadros, o folheador de álbuns de família, o leitor. Tantos anos depois (como antes), não importa muito. Os cavalos, sim. Importam.
Relinchavam como instrumentos fundos, plenos de oxigénio e música pulmonar, de dentes poderosos que arrancariam o polegar da mão que oferecesse a maçã. Entretanto, os verões esvaziados como frascos de geleia. Custa lavar a memória da pureza enjoativa de seus restos de geleia. Ainda aqui não entraram algumas palavras faladas, sinos silábicos na boca de bronze. Por exemplo, nesta situação: eu era o mais novo, não pude entrar na batalha de pedras e os rapazes da quinta dos cavalos não fotografados. Disseram-me que eu não podia ir. Segui-os de pertolonge pelo monte. Eles emboscaram-se. Os outros cheiraram a presença deles. A primeira pedra escreveu no ar um risco mineral. Um dos irmãos acertou em cheio num cântaro de barro, deflagrando uma explosão de água e cacos. Eu filmava, exaltado por esse vento de guerra que sempre colherá frutos no pomar humano. Os cavalos relincharam, electrizados, prontos para pisar sangue. Pedras, torrões, lascas de tijolo, de cá para a quinta, de lá para nós. Era a glória. Isto já não pode ter sido em1967, tem de ser depois. Talvez 1968, Magritte já morto. Pedras que cantavam como sonhos de cavalos. Um dos irmãos, de tronco nu, em chamas. Aquilo desfez-se, como tudo. No regresso, escapei à punição paterna dos guerrilheiros. Os irmãos foram sovados, eu era o menino inocente.
Um dos inimigos era João. Tinha relações na palha com uma rapariga que servia. Poucos meses depois, embarcou para a guerra africana, a verdadeira. Teve um acidente grave, lá. O camião verde virou-se pela terra vermelha, um soldado morreu, ele bateu de cara em ferros, as cicatrizes pareciam riscos de palma da mão. Regressou com uma vaga aura de herói. No Verão do regresso, carregou fardado o andor da Senhora da Piedade, mas o foguetório da festa acordou nele o terror dos morteiros, de modo que largou o andor e atirou-se ao chão, aonde a Senhora da Piedade foi ter com ele. Ainda era a guerra, para ele.
O sol era a totalidade: tudo era feito de luz, branca e amarela tinta que só deixava sombra nos arredores da memória, isto que agora falseio para ter como suportar a orfandade do Estio. Eu não sabia que via, eu não tinha ainda aprendido a falsear. Sem ficção, não é possível aceitar viver. Não é, cavalos?
Sim, mas perdura, a frase dos irmãos emboscados quando me descobriram: “Queque táza quiafazer, carago?”. Eu estava a ver e não sabia que reveria. ‘Verão’ é o futuro de ver para eles, comigo. Quando eles estavam todos e eu os via e era o futuro a acabar-se e eu não sabia.
Antes (como depois), esta é a vida, ainda. Miga-se cebola miudinho. Esparge-se azeite, o mais santo óleo popular. Carne pobre ao cubo é deixada tombar onde o tomate sangra, coração aquoso que contamina a folha de louro, o alho dental. Água fervida separa as hostes desavindas, irmanando-as depois num suco comum em que o arroz pode inchar pontuado de ervilhas. Entardece, a brasa do Verão adormenta o muro do pátio-estádio, o canavial e as silvas, como um palácio de ratos, guardam o frigorífico apodrecido, o sofá de napa encarnada que o vizinho trocou por outro sofá de napa ouro-palha. Isto é o tempo a passar, o calendário de Jesus evangeliza a cozinha de paredes de azulejo, quadrados 15x15 passíveis de registar tantas palavras cruzadas sem solução no próximo número. Quéque toua quiafazer, carago.


20 de Junho de 2004

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) – 2

Há um quadro de Giorgio de Chirico chamado “Canção de Amor”. Data, 1914. Magritte viu uma reprodução fotográfica do quadro. Ficou doido. Magritte não se importava com o trivial, nem com o comércio, nem muito com gente como o irmão mais novo, Raymond. Extraía deles o não trivial, o mistério. Nem Quéops, a pirâmide vista ao vivo, o fascinou: era parecida com o que esperava dela a partir de reproduções, conta Marcel Paquet. O outro irmão, Paul, importava-lhe.
No meu quadro de 1967, não vejo cavalos. Desconheço o fotógrafo, decerto alguém da família, quando ela era toda. Irmã, guitarra, monte – tudo isso nesse ano final de Magritte. Não podemos ver os cavalos. Só posso pedir-vos que acrediteis neles. Eles eram, como o Verão era, como terei sido. Mas podemos dar-lhes imagem: imaginá-los. Gostarei disso. Ver cavalos invisíveis é tão de pintura como de literatura, descubramos as diferenças de ofício. Magritte não viu a foto, mas veria os cavalos.
A irmã boceja hoje na manhã grisalha. Falo agora de outra imagem, não da foto inicial deste livro. Acabo de vê-la. Dormiu mal. Sucede-lhe sonhar coisas que depois aparecem escritas em livros. Conversamos um pouco, depois parto. Deixo-a. Só torno a vê-la na fotografia. Falo outra vez da fotografia da irmã de 1967, o ano da morte de René Magritte (1898-1967). Falo de cavalos. Nada de psicolinguística, atenção: René não gostava de psicanálise. Nada a ver com o sofá de Viena. Nem mesmo que a mãe de Magritte se tenha suicidado no ano em que o futuro pintor faz catorze anos.


18 de Junho de 2004

Uma Quinta ao Fundo com Cavalos (1967) - 1

Os verões são poucos. Tive-os eternos, mas acabaram-se-me.
Era o meu corpo tudo de que dispunha para ser, estar, permanecer. Já então, nada de alma. Fui e estive, não permaneci – por isso escrevo.
Escrevo contra o gastar da eternidade, que não cumpre (nunca cumprirá) o prometido, tirando a morte, a vida tirando.
Órfão do Verão, tive de fazer-me à vida. E ela era triste e formosa: cafés de leitura, raparigas de passagem, comboios à chuva, árvores à chuva, cerimónias impuras de iniciação a nada de importante. Isso continua.
Descobri outros. Alguns estavam mortos, a julgar pelas datas taxativas. Mas como tinham pintado, fotografado, escrito e contado, pude conhecê-los. Afinal, o que me sucedeu foi reconhecê-los, a esses claros obscuros outros. Outros homens, outras mulheres, gente exposta a partir de dentro, como no elogio dialéctico de Magritte a Hegel, ou de Hegel por Magritte.
Magritte, precisamente, é um desses outros. Ele, muito belga, tirou-se da eternidade, tornou visível isso que pensávamos não poder dar a ver, isso que cada um pode, a partir de Magritte, ver.
Eu não sabia, em 1967, que via, agora sei que não sabia que via mas via: era o meu corpo, era o Verão, e o meu corpo era tudo aquilo de que o Verão dispunha. Mantenho o corpo, é certo, mas ele adquiriu volumes, reentrâncias, coisas estranhas, madeiras que o tempo deixou na praia. Não é a mesma coisa, daí que não seja eu o mesmo de quando o Verão etc. Não permanecer no corpo é deixar que o tempo desperdice verões.
Depois (antes), Magritte morre quando tenho três anos, há uma fotografia desse ano em que tenho uma guitarra de brincar e uma irmã a sério. A preto-e-branco num cenário de monte. Numa quinta ao fundo (não se vê na fotografia, mas hoje posso dar a vê-la) havia cavalos. Era a oeste, naturalmente, como nos filmes. Ouvíamos os cavalos adormecer, ouvíamo-los sonhar. Talvez sonhássemos com eles adormecendo, não sei. Poder ouvir-se uma fotografia: desejo meu.
Conjugo nós: os que éramos, a família ainda toda. O Verão fulgura mais a preto-e-branco. Supostos cavalos intensificam esse clarão fotográfico, quando os verões eram o império das luzes, a brisa nas rosas, o cansaço delicioso ao entardecer, a carne guisada com arroz, o monte americano, o pátio italiano, a vida portuguesa, os cães portugueses, a melancolia apátrida, a família ainda toda, sua tutela de amor e memória, a sobrevivência no humano galinheiro, a água fresca como nenhum beijo, então – qual carapuça de beijo – água, fresca na boca no interior do Verão.
Enfim, esses verões que o tempo me escreveu no corpo com caligrafia de médico. Devo, farmacêutico, decifrá-los. É isso que faço aqui perante vós.



17 de Junho de 2004

Colagem

O texto seguinte foi elaborado a partir de textos de Olga Gonçalves, Raul Brandão e José Rodrigues Miguéis. Só dei a cola. Os excertos vão 'ipsis verbis'.


"Parece que a vida se estraga nas palavras. Parece que é no silêncio que tudo fica inteiro. Debalde amontoamos inutilidades ou palavras, aí está na nossa frente o mundo real, o mundo sem subterfúgios. Que é a realidade, senão o que nela vê ou recorta o cérebro individual? Nenhum de nós sabe o que existe e o que não existe. Vivemos de palavras. Temos construído o universo assim, podemos construí-lo de outro modo. A vida não se compadece de retornos. Isto é decerto a vida. Mas a vida é também o instinto que me diz: Aproveita, não deixes fugir o único minuto. Se a vida é um momento entre o nada e o nada, o que vale a pena é aproveitá-lo."


Entre Viseu e Tondela, manhã de 30 de Junho de 2005

Wednesday, June 29, 2005

Adendas de Hoje à minha Vida

A gengiva do lado baixo-direito pulsa como um coração: mau sinal.
Retroversão português-inglês do resumo inaugural de um trabalho de Física, a pedido do amigo da amiga.
Revisão de uma falsa bula farmacêutica.
Leitura matinal de Carlos de Oliveira ("Uma Abelha na Chuva").
Almoço: pastel, café com leite. Depois, só café. Sem açúcar.
Cigarros açorianos dados pela Mariana.
Plano-programa de um festival de músicas do mundo.
Olhos passeados pelos jornais do dia.
Envergadura da camisola de malha sobre a de algodão de mangas curtas: fazia brisa fria.
Descansar os olhos de tanto computador e tantos óculos: passear no relvado.
Cadelita castanha não veio hoje: não brinquei com ela.
Gravação pirata de três discos no computador: dois de Bau, um de Elomar (Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai).
Sol manso quase todo o dia. Alturas em que não.


Tondela, 29 de Junho de 2005

Falta M.

Ela entra no sonho do homem
como se homem e sonho
fossem casas dela.
Ela é uma mulher,
ela é uma criança,
ela é a mãe,
ela é a rapariga achada e
perdida
numa estação de comboios.
O homem acorda,
mas nenhuma delas,
ao nascer do sono,
ficou para o aparar,
verbo obstetrício a que só falta o
'm'
depois do primeiro
'a'.


Pombal, 3 de Janeiro de 2005

Entre P.

(Isto tem de ser escrito entre parêntesis porque é um segredo terrível: é possível ser feliz.)


Pombal, 15 de Dezembro de 2004

Verificação por Assim dizer Numérica

Meus senhores:

A realidade tem menos táxis do que golpes baixos.



Pombal, madrugada de 28 de Novembro de 2004

Apontamento

O apontamento, quando a mão, enfraquecida embora, pesa quilos:

"O que ainda me interessa?"



Pombal, 27 para 28 de Novembro de 2004

Mar de Vigo

(A mulher na fímbria do mar pensa:)

"As ondas do mar são a voz dele.
O pensamento dele ao largo está.
E ao alto."



Pombal, 24 de Novembro de 2004

Obras

Obra I

Crescendo a hora acordada, aplicando o pensamento à situação como o reboco à parede crua. O raspar das botas no entulho vivo da obra: a casa que fazes (que ajudas a fazer) para que outros nela morem.

Obra II

Com coerência, não gostando ainda assim nem da vida nem da obra, viver uma e fazer outra.



Pombal, 8 de Novembro de 2004

Mais um Inventário

O frio nos vidros dos automóveis.
O dentro do automóvel.
Vazio, o lugar ao lado.
A estrada toda e nenhum caminho.
Por agora.
(Atenção, é só por agora!)
Fecha o inventário.


Pombal, 7 de Novembro de 2005

Azulejo

Havia o azulejo do Sporting na parede da frente da casa, logo acima da campainha. Andorinhas de barro rasgavam a parede parada. Era a casa do meu primo. Trabalhava na Cerâmica e vivia devagar, como convém aos que moram na memória. Dois filhos fez crescer com a ajuda da mulher. O rapaz gaguejava um pouco, a rapariga era de sardas tímidas. Boa gente. Todos do Sporting. E todos ainda vivos, felizmente e algures.
A informação memorial é electroquímica, festa de luzicus neurónicos que piscam-piscam "primo", "Sporting", "andorinhas", "Cerâmica".
Eu a aturar isto, domingo à noite, não sei porquê. No café, em redor, mastigantes de tremoços olham o realmadridbarcelona. Já anoiteceu há tantos anos, mas toda a gente finge que foi só hoje, que amanhã de manhã isto passa.
Serradura no chão: a caspa da madeira do balcão. Escaparates de arame com chicletes. TV por cabo. Domingo à noite.
Lá fora, o azulejo do Sporting está embaciado do humilde frio português. Outra vez Novembro. E enquanto isto, como quem não quer a coisa, o realmadridbarcelona a zerozero, Sporting só terça-feira que vem, se vier, vamos dormir, amanhã escrevo, ou pinto, outro azulejo.


Pombal, 7 de Novembro de 2004

Um Cartaz do Passado

FESTA EM HONRA DE S. MARTINHO

13/14/Novembro/2004

Estrada (Pombal)

SÁBADO, 13

8h00 - Alvorada
15h00 - Castanhada acompanhada por Bom Vinho da região

DOMINGO, 14

8h00 - Alvorada
9h00 - Chegada da Filarmónica Artística Pombalense, que percorrerá as ruas do lugar
12h00 - Missa Solene, seguida de Procissão
14h00 - Início da Venda das Fogaças
15h00 - Actuação do Grupo de Acordeonistas "Os Elos + Fracos do Concelho de Pombal e Arredores"
17h15 - Levantamento do Ramo pelos Próximos Mordomos
18h00 - Sardinhada
20h00 - Baile com o Famoso Acordeonista Graciano Ricardo
22h00 - Fogo-de-Artifício

Patrocínio de Empresas Locais

Leituras do Sagrado Evangelho (segundo o Correio da Manhã de 3/11/2004)

1

Foi absolvida a jovem de 21 anos acusada há quatro anos de ter ingerido medicamentos para abortar. O julgamento e a sentença ocorreram terça-feira, 2, nos Tribunais Criminais de Lisboa.

2

Duas casas antigas desabaram na madrugada de terça-feira, 2, deixando desalojadas duas famílias, num total de sete pessoas, das quais três crianças. Em Porrinheiros de Silgueiros, Viseu.

3

Em Alvaiázere, Leiria, dois indivíduos identificados e detidos por, alegadamente, terem tentado matar um vizinho. Desavenças pessoais terão estado na origem do incidente.

4

Em Coimbra, viatura que transportava carne despenha-se após despiste da ponte-açude. Queda de dez metros termina na margem esquerda do rio Mondego.

5

Pancadaria e tiroteio, segunda-feira, 1, em interior de cervejaria. Questões de prostituição e proxenetismo na base da ocorrência, que causou ferimentos de bala a dois irmãos, de 51 e 41 anos. Em Matosinhos.

6

Amém.

Notas para Histórias

1

O homem que entra no bar da estação de serviço.
Tem um chapéu amarelo na cabeça.
Uma fita castanha rodeia a copa.
Causa estranheza.
Os camionistas que comem sopa e bifanas no pão olham-no com homofobia.
O homem do chapéu pede água mineral e pão com manteiga.
Mais estranheza.
Um dos camionistas assobia.
O empregado de balcão não reprime o riso.
O homem rejeita o copo, bebe um pouco da garrafa de água, pergunta quanto é, paga em moedas contadas com o mindinho esquerdo na palma direita, sai do bar com o pão inteiro, que morde no carro enquanto liga o rádio, engata a primeira e arranca, rumo ao resto da noite, ao resto da história, sua dele mesma história, num mundo onde usar chapéus amarelos é tão precário como não ser camionista, comer sopa, ser empregado, olha a bifana a sair, serviço só ao balcão.

2

A mulher que espera o cessar do aguaceiro sob o pórtico de lona da ourivesaria.
Ela própria susceptível de confusão com as outras jóias expostas.
Os carros passando na ordem semáfora da realidade, seus charcos, seu escoamento.
O tribunal do lado de lá, o hipermercado, a absurda naturalidade da Natureza.
Um helicóptero paramédico entrecorta o som da respiração: vietnam benigno.
A mulher recebe uma mensagem escrita no telemóvel, que esperava há muito mas só lerá depois, cruzada a rua, passada a passadeira, chegada ao tribunal.


Pombal, 30 de Outubro de 2004

Vida Moderna

E então essa voz desse homem no corredor.
Mais espessa, de tão escura, no escuro.
O infante dorme no berço do quarto ao lado, torso de sono nu.
A mulher desperta ao negro clarim da voz macha.

"Pior é o Rui Paulo", cogita ela, guardando o infante da ameaça do não-progenitor.
Descerra a porta do quarto, o homem entra.
Beija-a, halicose uísquica que saboreia a seda do sono fêmeo.

"Não acordes o menino, por favor, se ele acorda, e como já fala tão bem, depois conta tudo ao pai no sábado de ele o vir buscar", malbucia ela.

O homem, "Acorda nada, tira-me mas é os sapatos".

Ela tira-lhos, subdeita-se, a pequena alegria do corpo autónoma da almargura, a fugaz explosão: fuga, gás, implosão, porco.

Alui-se o homem, arruina-se a mulher, inclinado o homem a 8% como nos sinais de trânsito.

Como um desmoronamento, o fragor das pedras da ribanceira, ou das de gelo no copo de base martelada, vidro grosso. (Mas não é tudo vidro?)

Ele dorme boquiaberto, tem uma cárie azul.

Sete da manhã, ela vai vigiar o Rui Paulo, que nada sabe nem contará, o meu menino.

"Também, o pai vive com outra, que também já era mãe quando ele."

Quando este.


Pombal, 29 de Outubro de 2004

Clandestinidade e Exílio

Estas jornadas de chuva fervente que Outubro nos traz: gosto delas.
Subo pela chuva à nuvem onde a minha infância está guardada.
Quando chove muito, estou de volta às tardes perpétuas de quando tinha nove anos, quando o mundo era uma casa arrumada. Arrumada e limpa.
Na cidade onde há quinze anos acumulo outubros, falta a luz quando chove.
Até disso gosto, valha-me Deus.
A cidade torna-se fantasmática: água que cai na escuridão, isqueiros que brilham como pirilampos náufragos, exclamações que detonam como cartuchos.
É outra dimensão, outro postal para as estrelas congeladas, clandestinidade e exílio.
Falta a luz, e só me dá para jogar às escondidas com um regozijo que os anos me roubaram.
E convosco, como é convosco? A chuva faz-vos bem? Sentis, ou não, que o mundo se torna outro?
Eu sinto. Por exemplo, vede este cão amarelo. Está aqui, tem as mãos no meu joelho, quer uma festa na cabeça e um passeio pelo monte.
Sim, o monte: a cidade desapareceu, tenho nove anos e um cão amarelo, passeamos à chuva como fantasmas futuros e benignos, oliveiras e vinhas sucedem-se como se fôssemos de comboio no túnel sideral do Tempo, não posso perder de novo este filme, está tudo bem, está tudo tão bem, tudo tão limpo e arrumado, não tarda é noite e pode ser que chova.


Pombal, 19 de Outubro de 2004

Demora

Demorada atenção tenho deitado, como a um pequenino filho, ao mundo.
Aprender, aprendo. Vossemecês não?
Demoro-me de boca aberta, já, perante outra realidade: mais surda, de mar interior.
Isso sabeis. Também.
Demora-me a vida, esse sopro no barro que o leite origipaternal tomou de rosa respiratória, convulsa, apaixonada ainda, tantos irmãos depois.
Demora-se quem me tarda: pois que por ela arda, toda a ânsia é demora moratória.


Pombal, 24 de Setembro de 2004

Mais Notas para o Pintor

O silêncio é ruidoso: como não vê-lo?

A claridade - para ela mesma, só por ela.

O conhecimento das leis: escapar-lhes dentro delas.

A si mesmo alheio é o próprio amor: inclinação do espelhado-espalhado: pêlo-palha.

Os cavalos invisíveis trotam na tremura involuntária de uma pestana, um canto da boca. Resolve-se isso pondo uma pedra de sal por baixo da língua.


Pombal, 5 de Julho de 2004

Tuesday, June 28, 2005

Estes Dias Fossem Noite

Ainda tinha até que fosse noite. Tinha tudo até que fosse noite. A própria noite tinha. E isso já era ter tanto. Agradeceu para dentro. Não são muitos os dias para agradecer, são muitos mais os da dor. E a dor recebe-se, oferece-se-lhe um lugar à mesa, paga-se-lhe um copo, mas não se lhe agradece.
Agradeço estes dias. O que tenho até que seja noite? Vou enumerar.
Não é domingo.
Uma ideia certa.
Uma previsão.
A possibilidade de urdir histórias (preferiria que fossem quadros pintados, mas não sei pintar, só sei escrever).
Crédito no bar.
A memória de Paris, aonde nunca fui nem decerto irei.
A glória da vida.
A merda da vida.
A glória da merda.
A merda da glória.
A possibilidade de urdir histórias?
Prova isso, rapaz.


Pombal, 1 de Fevereiro de 2005

A Prova - o Rapaz Responde ao Desafio

Glória Grimalde Vargas, senhora de 45 anos, vivia só, mas não demasiado só, numa torre de apartamentos.
De profissão directora, auferia para vestir, calçar e comer, conservando na garagem um carro sólido como um monarca de outros tempos. Cerâmica de colecção encimava o bom aparador da sala, sobre que também um cristal de vinho da Madeira e um frasco de ginjas cristalizadas. Revistas pausadamente dispersas arrumavam pela sala uma desarrumação de leitora ávida, que não era. E as siglas electrocutavam a modernidade: TV, DVD, ADSL etc.. A solidão próspera era o tipo voluntário de Glória. Até que Mário.
Tinha vindo para estudar arquitectura, mas estudou. Curso tirado, só lhe saiu um horário de professor no regime nocturno. Saía às onze da noite sem saber para onde ir e ia. Um restaurante de ceias para alcoólicos desembaraçados de dinheiro abria portas até que fossem quatro da manhã. Mário comia, desenhava pontes e urbanizações num bloco, aborrecia-se sem metafísica e aguentava.
Glória Grimalde Vargas jantou lá numa ocasião de muita chuva, essa intempérie que dá solidariedade aos que vêem entrar. Glória vinha adiantada para ninguém, pelo que se achou só numa sala cheia. A única mesa (três lugares, menos Mário) era a de Mário. Desembaraçada, directora, pediu lugar ao cavalheiro.
Mário fez que sim sem favor, preparando-se para guardar as pontes na pasta. Glória quis ver, interessada sem favor. Mário mostrou. Falaram de cidades, passadas e futuras: falaram de cidades como se falassem de pontes, e é isso o tempo.´
E é esta, a prova.


Pombal, 1 de Fevereiro de 2005

Alguma Felicidade

O rapaz estava sentado ao balcão, luzes azuis radiografavam a natureza de couro dos sapatos, a ganga das pernas com suas tíbias. Alimentava-se do próprio entardecer, à hora a que os merceeiros despacham a frescura derradeira das últimas tangerinas. Era o entardecer, mas não, Deus, de domingo. O rapaz ouvia o grilo da caixa registadora, os pipis dos pequenos consumos das gentes que vêm entardecer ao bar.
Era a alguma felicidade do rapaz, a música-ambiente inglesa, o azul nos joelhos portugueses sobre que, outrora, outras horas e outras mãos poisado haviam. O rapaz na luta pela vida, a que se garante de pronto ao primeiro berro obstetrício. Era o rapaz na função maravilhosa da felicidade.
Muito existia tudo em torno, dentro. Colecções de romances policiais, cadáveres ricos agora pobres de tão mortos em chãos de bibliotecas fornidas de clássicos ingleses e bandejas argênteas de whisky, soda e água cevada.
Muita televisão.
Pouca vida.
Tanta felicidade.


Pombal, 2 de Fevereiro de 2005

O Sofá Verde

Falei com a mulher do sofá verde. A cor verde ia molhando a natureza da conversa, que alastrava a partir dos joelhos, as dobradiças sobre que podemos, havendo confiança, poisar as mãos. Era de noite, um candeeiro alto cegava de branco o estuque branco do tecto: como numa fábrica.
Era num ano da minha vida, numa noite da vida dela.
Tínhamos histórias recentes e palavras de demora. Com juros de mora: há sempre um notário no coração. Beijámo-nos bem, separando as palavras inferiores às salivas e aos dorsos das línguas. A língua, as línguas, o tomar dos castelos, o coração rendilhando-se de pronto como uma janela manuelina.
Por experiência, cada um despediu-se com separação de bens, tocando-se as barrigas no termómetro certo. A tesão centígrada tem seus gelos de estímulos: um continente sempre novo, desbravado sempre, lá em baixo. Pinguins deslizando, escorregadores de fibra, asa, mergulho, cegueira: a orca da consumpção.
Isto já não era no sofá verde, mas noutra dimensão. Em derredor, blocos iguais, idênticos apartamentos, homens e mulheres e sofás, desencontros e tempo, não me digas o que já ouvi.


Pombal, 2 de Fevereiro de 2005

Pronto

Ocorre-me pensar, sem gentileza nem violência, que entramos uns nos outros e saímos uns dos outros como quem entra no consultório do dentista ou sai do mercado, neles deixando e deles trazendo algo para nós: dentes ou couves, recordações e imagens. Alguém disse que os físicos são algo que os átomos usam para falar de átomos. Eu, átomo de calças e cachecol, concordo ao sol de inverno, já dentro do comboio que me levará a sair daqui para entrar ali, onde o entardecer me cercará sem dificuldade, sem violência e sem gentileza. Estou pronto.



Pombal, 3 de Março de 2005

Outras Palavras de Outro Autor

O que segue é produto de Robert Walser, in 'O Salteador' (citado por Gonçalo M. Tavares no diário 'A Capital', 27 de Junho de 2005):

"Preferimos ser amados de uma forma moderada. Gostamos todos mais de comodidade. Ninguém gosta que o outro o considere como que sagrado, porque isso o obriga a ser um modelo."

Palavras Dinamarquesas

O senhor Jens Pieter GrØndahl, que é dinamarquês, tem um livro traduzido para português. Chama-se 'Silêncio em Outubro'. Transcrevo aqui três breves excertos do livro.

Página 142: "Se calhar nunca conheci essas mulheres, se calhar são como as cidades, apenas um punhado de instantes de que me recordo, os efémeros pontos de vista isolados em que rostos e ruas vêm ao meu encontro."

Página 178: "Há dois remédios infalíveis contra todos os males - o tempo e o silêncio." (citação de citação: GrØndahl remete para 'O Conde de MonteCristo')

Página 199: "Mas deve haver em cada um mais do que se conta, do que ao fim e ao cabo se possa contar."

Urbanismo

Desmantelaram as fábricas, empacotaram-nas e levaram-nas para longe.
Agora, os terrenos vão ser, como se diz agora, urbanizados.
Eles querem dizer (mas não o dizem, limitam-se a fazê-lo) -dormitórios.
O que aí vamos ter é tão fácil e tão deprimente: gaiolas de periquitos empregados nos hospitais, nos bancos, nas seguradoras e no que resta de comércio na cidade.
A minha cidade.
A minha cidade adormecida nos dormitórios, a minha deprimida cidade universitária e tesa, plebeia e beata, bonita e triste como uma noiva contrariada.
Posso bem com a minha cidade - voltarei a partir.
É um domingo. Hoje, dormirei, também eu, por cá. Tropeço já na sonolência, aliás, pelo cair do dia.
Cairei eu na noite dormitória.


Coimbra, 13 de Março de 2005

Ruínas

Já conheci pessoas em ruínas.
Ombros, escombros, olhos, escolhos.
Pessoas partidas, ex-verticais.
A vinha selvagem emaranhando os pés.
Eu já.




Pombal, 14 de Março de 2005
Tondela, 28 de Junho de 2005

Agora (fragmento de OPdC work in progress)

Agora, precisamente agora: sou o cristal suspenso, sou a suspensão, o caldo químico onde o eu bóia entre outros neurodestroços. Mas calmo. Cabelo cortado curto, bebedor de café com leite, grato às mãos, grato ao caderno que arruma a vida de Dário, a vida do senhor Leal Casimiro, os amores das mulheres, a possibilidade de iludir a aranha com a aranha. Dário na pastelaria, na pastelaria o senhor Leal Casimiro. Crimes da província recortados do jornal, os recortes na parede do senhor Leal Casimiro, os mortos-vivos-amarelos, o gato de sempre.

18 de Abril de 2005

Os Consultórios

O meu amigo médico atende um casal antigo na penumbra branca do consultório privado.
O homem apresenta irregularidades no coração e na memória.
A mulher lembra-se de tudo, mas os intestinos andam-lhe trôpegos como gatos velhos.
O doutor assenta neles um olhar bondoso, prescreve-lhes pastilhas inúteis contra a força do tempo, a areia da vida.
À mesma hora, também em privado gabinete, o meu amigo advogado espera a marcação do casal que é atendido agora pelo médico - uma questão de serventia com um vizinho tão viúvo como hostil.
Para entreter o tempo, o advogado relê o Oliveira Martins do 'Portugal Contemporâneo'.
Depois do advogado, o casal antigo terá tempo de comprar no armazém mais antigo da vila (hoje cidade) uma saca de milho e outra de trinca de arroz para os animais, que, em casa, cumprem as leis fixas da terra, do coração e da memória.

Pombal, 26 de Janeiro de 2005

O Despovoamento

Quando sair daqui, erguerei as mãos no ar fino e frio da nova manhã.
Quando sair de dentro da cabeça, a marginal nova que o arquitecto traçou na fímbria do mar acolherá a minha boca respiratória, estas mãos povoadas de roupa velha há tempo de mais.


Pombal, 26 de Janeiro de 2005

O Levantamento

Ao homem que daqui a quinze anos se levantar da cama:

- O sol ou a chuva te vigiarão. Não terás já idade para que te tratem por tu, mas sabes bem o que isto de falar por voz de papel implica: pequenos, inofensivos desrespeitos. Nada de tão especial, enfim, como levantares-te ainda.



Pombal, 25 de Janeiro de 2005

Monday, June 27, 2005

Viv’ó’nião!

Desde sempre, a Humanidade tem feito gala de atribuir a responsabilidade dos eus princípios a dois conceitos mutuamente adversos. Esses conceitos são sempre os mesmos. Mudam os nomes, mas a base é constante. Exemplos: o Bem e o Mal, o Céu e a Terra, o Fogo e a Água, o Pão e o Vinho, o Ouro e a Lama. As regiões assentam, todas elas, na oposição entre o Corpo e o Espírito. A cultura resulta, quase sempre, daquilo que lhe permitem o comércio e a indústria.
A Criança sofre o conforto entre o Papá e a Mamã. Até há pouco tempo, dizer América e Rússia era o mesmo que dizer Deus e Diabo. Exemplos não faltam.
O poeta Eugénio de Andrade embirrou sempre com estas “dualidades que dividem todo um ser”. Tem razão, naturalmente, o poeta. Mas que as duas dualidades persistem e persistirão, também não tenho dúvida.
Tanto assim é, que Coimbra não escapa ao exemplo. Todos sabemos que Coimbra se divide em duas partes essenciais: a Académica e o União.
A Académica é associada aos doutores. Coisa normal, se atendermos a que o próprio nome da Associação é adjectivo parente do substantivo academia e que uma academia é mundo de doutores, com consultório ou sem ele. O União de Coimbra é outra coisa. O União é dos operários, com trabalho ou sem ele.
Neste ponto do assunto, esclareço desde já duas coisas: uma, é haver doutores que, por serem filhos de operários, são do União; outra, é haver operários que, por terem os filhos na universidade, se passaram para a Académica. Mas são acidentes de percurso. Continua a contar aquilo que se disse: União é União, Académica é Académica.
Os anos passam e, com eles, as pessoas. Para a glória dos dois clubes conimbricenses, muito contribuíram algumas vidas entretanto apagadas. Do lado academista, não será de mais lembrar o dr. José Maria Antunes, capitão da Taça de 1939. Nome honrado, público, histórico. Entre os unionistas falecidos, escolho (perdoem-me os leitores) o de um ilustre desconhecido do grande público. Falo do sr. Augusto Gonçalves. Que tinha ele assim tão especial para merecer esta evocação? Eu vo-lo digo: era do União, era mesmo do União, era mais do União do que dele próprio. E basta.
Naturalmente, o mais fácil seria, para mim, desfiar aqui o rosário das glórias e das misérias, dos altos e dos baixos dos clubes da nossa cidade. Para tanto, bastar-me-ia falar da grande Académica dos anos 60 e do União primodivisionário de inícios de 70. Mas não é preciso. Os clubes não são amados apenas pela História que fizeram. Amamos um clube apenas porque sim. É a melhor das razões. Quando dizemos “sim” no dia do casamento, alguém nos pergunta “porquê”? Então...
Aquilo de que gosto na Académica é indefinível. Sei lá, é a cor do equipamento, é o cheiro a tradição, é o não ter fronteiras (nem regionais, nem internacionais), não sei, não sei, não sei.
Agora, outra coisa é o União. Do azul-vermelho, sei. Joguei lá, em criança. Era o número 6. No primeiro jogo, atrasei-me. O meu Pai meteu-se comigo num táxi, mas já só consegui equipar-me com o número 13. Azar. De qualquer maneira, o União era aquilo: a geada das nove da manhã tornava ardentes as chuteiras, tremiam as franzinas pernas daquele plantel de crianças fascinadas pelo amor dos sócios, que tanto gritavam em manhãs de iniciados como em tardes de seniores. Azul-vermelho, azul-vermelho, azul-vermelho! Ónião, Ónião, Ónião!
Na época de que falo, eu era apenas iniciado. Fabulosa mesmo, era a equipa de juvenis: Bonacho, Quim Jorge, Lobo, Rebelo, Pires, Marroni... E a dos juniores? Moinhos, Isidoro, Castanho, Peres... E, nos seniores, Toninho, Coelho, Ribeiro...
Grande gente, grandes manhãs. Vivi lá um ano. Nunca fui campeão do mundo. Não passei ao lado de uma grande carreira. Basta-me a lucidez de recordar com calma a cor da luz das manhãs da Arregaça.
Nessa tal manhã de estreia, entrei na segunda parte. Empatámos 1-1. Com a Académica.


Diário de Coimbra, 6 de Dezembro de 1996

Velhos

Fiz recentemente uma viagem à chuva. Foi pelo cair da tarde. O Outono já pesa na atitude. Como não era eu a conduzir, permiti-me ir apreciando pela vidraça a beleza triste do mundo, essa formosura melancólica de todos os fins de estação. A condução era precária, exigindo do condutor toda e mais alguma atenção.
Mesmo assim, foi possível ir conversando. Éramos cinco pessoas no jipe. Os temas iam sendo batidos na corda bamba do diálogo sem restrições. Falou-se de muita coisa. Uma dessas coisas foi a do poço natural entre as sucessivas gerações. Quem conduzia, tinha 37 anos. Eu, 36. Os outros, 28, 24 e 23. Ou seja: três jovens e dois cotas, como agora se costuma chamar aos que vão tendo mais coisas no sótão do que na sala de estar.
Uma das medidas mais eficazes para aferir a diferença de idades é o gosto musical. A condutora e eu alinhávamos nos Supertramp, Simon & Garfunkel e (valha-nos Deus!) Cat Stevens. Os restantes diziam umas palavras assim do tipo drum n’ bass, techno e derivados.
Naturalmente, tudo isto é natural: o tempo passa e nós não ficamos. Nem para semente, nem para exemplo. O mais que nos sobra é ir fazendo umas viagens em boa e serena companhia, comer uns jantares sem pressa nem horário e alinhar no número dos que, reconhecendo a efemeridade do tempo, tentam aproveitá-lo da melhor maneira.
Mas alguma coisa (triste e bonita como o tempo que fazia) me ficou na ideia. E essa coisa é uma canção dos velhinhos Simon & Garfunkel. Nela se fala dos idosos sentados em bancos de jardim como "bookends". Isto é: como encostos de livros, para ali apenas, à espera de nada, à espera de voltarem a ser nada. Há dias assim.


O Eco, Pombal, 6 de Outubro de 2000

Uma Questão Incolor

Racismo é talvez, em Portugal, uma palavra pesada de mais. Por isso, torna-se provavelmente mais justo dizer discriminação. Vem a presente questão semântica a propósito de um assunto a que damos especial relevo na presente edição. Trata-se dos ciganos. Ou, para utilizar um eufemismo tido ultimamente como politicamente mais correcto, dos cidadãos de etnia cigana.
Quis o RL saber de casos que permitissem entender até que ponto é ou não o distrito de Leiria tolerante para com os indivíduos deste povo antigo. Tolerante e integrador. É sabido que, como um rio, uma questão como esta apresenta, pelo menos, duas margens. Há que saber se a tolerância, por exemplo, é privilégio de um único lado, restando ao outro a esperança de ser beneficiário dela.
A estrutura mental do povo cigano não é já, forçosamente, a mesma dos últimos séculos. Por isso também, será talvez mais conveniente abordar a questão não como um problema de acção (o que podemos nós fazer por eles, por exemplo), mas como de integração. Formulada assim uma possível plataforma filosófica para o tema, não resultará despiciendo, numa primeira fase, enumerar os pontos de desentendimento entre a sociedade não cigana e a outra.
Objecções comuns são, também como exemplo, do seguinte teor: “Se eles não descontam para nada e não pagam impostos nenhuns, por que razão deve o Estado construir-lhes casas?”. É uma questão a ter em conta, até porque, permanecendo-se numa ignorância humanista da razão de ser desta objecção, não é plausível esperar dos contribuintes (ciganos ou não) qualquer tolerância ou simpatia para com os que escapam ao esforço colectivo da taxa, do selo, da franquia, do verbete.
A ponte comercial já estendida entre as duas (ou mais) comunidades de cuja (o)posição aqui falamos não é suficiente. É necessário que a tal interacção passe pela escola, pela saúde, pela justiça. Nessa perspectiva, a questão da integração passaria a ter um outro nome: solidariedade. E este nome, como também não será por certo muito difícil de reconhecer, não tem credo. Nem cor. Nem etnia.


Região de Leiria, 23 de Junho de 2000

Trocas

Fez este mês seis anos, uma família do concelho de Leiria esperava que lhe chegasse por avião, vinda de França, uma triste carga. Tratava-se do cadáver de um emigrante, que a morte resolveu visitar sem aviso nem recuo. Em vez do defunto, no entanto, o que chegou foi um cão. A companhia aérea tinha dado prioridade ao transporte do animal, que vinha acompanhado pelo dono, o qual estava convenientemente vivo.
O caso não é tão insólito como parece. Na verdade, aconteceram sempre e sempre acontecerão estas trocas aziagas. Não é raro que a pessoa à nossa frente pareça ser uma coisa, quando, na realidade, não passa de um lacrau. Ou até uma osga. Não é invulgar que o emprego que queríamos venha a revelar-se um campo de urtigas. Nem é nada de outro mundo que a pessoa com quem partilhamos cama e mesa tenha, afinal, nascido em Neptuno.
Assim sendo, o melhor é não esperarmos nada de especial. De tudo e de todos. É que a desilusão tem sempre origem na ilusão. E o dom da ilusão não é o melhor amigo do homem. O cão é que sim.


O Correio, Marinha Grande, 23 de Novembro de 2001

Trabalho e Liberdade

À entrada de um dos seus mais tristemente célebres campos de concentração, os nazis escreveram: “O trabalho liberta”.
Era uma ironia assassina. Os milhares e milhares de pessoas que lá morreram, ficaram a dever a morte não ao trabalho mas ao ódio que os cães ferozes de Hitler lhes tinham.
Ironia por ironia, podemos hoje negar, em liberdade de pensamento, que o trabalhe mate. O que não podemos recusar, todavia, é que há muita gente que se mata a trabalhar sem esperança de, pelo fim da vida, ver fruto digno desse esforço. As mais das vezes, vê dez réis de fel coado. Fel, em vez de mel. Fácil é o trocadilho. Difícil, mesmo, é a realidade que circunscreve.
Quem sente o que escreve e se arrisca a escrever o que sente, não pode, ainda assim, sentir o que sente quem lê. De modo que me ponho já a imaginar que, à direita e à esquerda do espectro político, haja quem se vá pôr de sorrisinho trocista. Fria gente, essa que, sendo de uma direita hereditária que dá heranças gordas e magros corações, se limita a subir as calças em face de lama humana. E tontas pessoas, essas que, raspando com as unhas os muros da esquerda, trabalham como formigas e votam como cigarras.
Dizem os da direita: “Vão trabalhar!”.
Dizem os da esquerda: “Dêem-nos trabalho!”.
O resultado deste totobola não é xis. É zero. Zero à esquerda e zero à direita.
Num país de revolucionário na reforma e de reformados sem revolução, o ideal seria poder escrever: “A liberdade trabalha”.
Mas isto é só uma folha de jornal. O importante são as mãos que a seguram.


Diário de Coimbra, 10 de Janeiro de 1997

Tantos Zeros, Senhor

2000 é um número redondo. E, como todos os números e demais riscos traçados pela mão humana, é uma coisa convencional, inventada para que o Homem possa viver na ilusão de controlar o Tempo e a História.
É também, ou sobretudo, um número cristão, uma cifra nascida da acumulação do pó dos acontecimentos contados a partir do nascimento do Messias, o Deus Humano, o Homem-Deus, O que falou límpidas palavras para tantos e tão turvos ouvidos, os nossos.
Para muitos, é um número terrível: a porta do Apocalipse, nem menos. Para muitos mais, no entanto, é um bom negócio: o champanhe reluzirá na ponta de mãos alegres, os restantes encomendarão o falecimento do cabrito, os municípios vão gastar em fogo-de-artifício o que não gastaram em estradas, centros de saúde e outras desimportantes coisas que tais.
Confesso, finalmente, que se trata de um número que me confrange um pouco. Não por ser redondo, não por ser tão pouco cristão, não por nada disso. Mas por ter tantos zeros, que me lembram o zero que, liminarmente, também serei, um dia destes, no meu último milénio.


Imparcial, Ourém, 31 de Dezembro de 1999

Super-Homem na Fontela

Cai-se sempre sem rede na adolescência. Os sinais da minha queda (hoje evidentes, mas então obscuros e exasperantes) encontraram substância na frequência do café da minha rua. Anoitecia e pronto, lá estava eu a olhar para os homens sós que comiam batatas e carne, um talher e um jarro de vinho por mesa. No fim de comer, bebiam café e fumavam. Eu só me atrevia a chás de limão. Em Novembro de 81, comecei a fumar e a mandar vir café.
E então? Então, agora sou um desses homens que jantam em pensões tomadas pelo desamparo. Janto sozinho, fumo sozinho e aguento sozinho com a invariável SIC. Os restaurantes de Lisboa estão todos ligados à Grande Irmã de Carnaxide. No penoso momento em que escrevo esta inutilidade, passa o programa Ai, os Homens!. A convidada do rapazelho Figueiras é aquela cachopa antiga que parece ter ido buscar aos miolos o plástico suficiente para os esticanços da pele das bochechas – O., a Amiga O..
A Amiga O. está debaixo de um penteado muito louro, muito amarelo-farmácia, com rabo de cavalo soerguido à maneira de quando os quadrúpedes se aliviam.
A minha mágoa é eu ser apenas este homem que mete comer na minha mesma barriga, é eu ser o portador desta mão direita impotente e calígrafa. De outro jeito dita a coisa, a minha mágoa é não ser o Super-Homem. Não o de Nietzsche, mas o Clark Kent. Que me lembre, o Clark Kent despia-se mais depressa que a Sofia Aparício e fuzilava a laser os bandidos siderais que desde sempre inquietaram os Estados Unidos. Se eu fosse o Super-Homem, nunca jantaria sozinho. Iria a voar em busca da Amiga O. e trazia-a para o restaurante. Punha-lhe bifes de cavalo à frente. E depois dizia-lhe assim (num Português com sotaque de Krypton): “Agora, come e cala-te; se não, ligo o laser.”
Em Junho de 1990 (menos de nove anos depois, portanto, de ter começado a fumar), vivi uma honra terrível: fui padrinho da Marcha da Fontela no S. João da Figueira. Ganhámos, claro. E digo “claro” sem quaisquer vaidades bufas. Sempre que participou no S. João, a Fontela ganhou. O dia virá, talvez, em que não vença a suave competição de tanto entusiasmo popular. Não interessa: nesse ano, a gente da Fontela tirou-me um pedaço do coração para que eu o pudesse ver, um dia, à lareira. E é o que estou a fazer sem quebras há seis anos e meio. A lareira está acesa e chama-se Memória.
Quando se fala de divertimento popular, não é obrigatório que a coisa seja pimba, foleira, pirosa. Pode ser alegre sem ser ridícula, pode ser preciosa sem ser joalheira, robusta sem ser gorda.
Entre o S. João da Figueira e a SIC, prefiro o santinho. Nesse Junho já remoto, senti-me como um super-homem. Mas não convidei a Amiga O. para jantar nem bebi chá de limão.


A Linha do Oeste, Figueira da Foz, 20 de Dezembro de 1996

Salvador

Morreu no sono, de 22 para 23 últimos, o senhor do restaurante onde sempre almoço quando estou em Leiria. Os filhos vão garantir a continuidade do negócio. Quem diz negócio, diz vida. Os filhos do defunto hoteleiro vão continuar a vida. Sempre assim foi, sempre assim será.
O conhecimento da morte daquele homem chegou-me no último dia de 2001. Um dia como outro qualquer para se reconhecer a mais antiga das notícias: a da morte. Ainda assim, simbólico: último dia, passagem, futuro, certeza, incerteza.
A última vez que o vi vivo foi pouco antes do Natal, festa que ele já não viveu. Era de compleição miúda, tisnada, atenta e obrigada. Tinha unhas antigas e amarelecidas pelo sal das décadas. Olhava como quem reconhecia.
Mandei vir alheira (só com arroz) e pedi a um dos filhos que me esclarecesse as circunstâncias do passamento. “Tranquilamente”, disse-me. Ao balcão, observei o lado de lá, onde ele reordenava o pequeno e circular mundo de meias doses, sobremesas e azeitonas. Notei a ingratidão material dos objectos, que, também eles, teimam em sobreviver ao dono.
Chamava-se Salvador e era do Sporting. Foi pai dos filhos e pai de amigos em hora de necessidade. Está guardado no interior da terra. Se hoje aqui deixo isto escrito, por outra coisa não é que pela necessidade de lhe agradecer a maneira como, com um olhar, reconhecia o cliente. E por dizer sempre “boa ideia”, fosse o que fosse que escolhêssemos para comer.
Boa ideia, digo eu, foi o senhor ter existido.



O Correio, Marinha Grande, 4 de Janeiro de 2002

Saber e Habilidade

Tive dois companheiros na escola (que então era primária, mas não tão básica como isso) com cujo exemplo aproveitei alguma coisa.
Refiro-me ao facto de um deles gostar de praticar em silêncio o que sabia (aritmética, caligrafia, desenho), só aceitando críticas depois de apresentar obra feita. O outro, esse preferia bufar e soprar para todos os cantos o quanto era habilidoso nisto e naquilo, recusando-se porém a mostrar fosse o que fosse de feito, acabado, definitivo.
Que aprendi eu com os dois camaradas primários? Aprendi que um tinha razão: o primeiro, porque revelava saber. E que o outro a não tinha: porque se limitava a ser habilidoso na propaganda, sem que dela nem dele resultasse o que quer que seja.
Trinta anos depois, já não sei bem. O que sabia, é um vulgar cidadão. O outro chegou a chefe.


O Aveiro, 19 de Outubro de 2000

Realidade

A maior das ilusões criadas pelo Verão é a do desaparecimento da realidade.
Pura ilusão. Os espíritos mais sólidos e racionais sabem que, sob as capas e os brilhos da estação dourada, os problemas subsistem, teimosos e duros. E sempre à espera de, ao nosso mais pequeno descuido, nos saltarem em cima.
Por isso, há quem, sabendo disto, vá usufruindo, com a tranquilidade possível e sem tolas ilusões, do bafo morno das noites, da largueza interminável das tardes e da cabeleira radiosa das manhãs.
Nem toda a gente consegue. Na verdade, as prestações da casa não são mais leves só porque o mês se chama Agosto. Outros, sem prestações, têm porém oitenta anos. Outros, ainda, são jovens, mas a doença e a falta de rumo ajudam pouco. A verdade é que todos temos gostos simples, mas hábitos complicados. No fundo de tudo isto, está o outono da realidade.
No equilíbrio das coisas está a sobrevivência das mesmas. E a nossa também. Faça chuva ou faça sol.


O Aveiro, 10 de Agosto de 2000

Ponte

A partir desta semana, podemos todos tirar a máscara. O Carnaval passou. Escusamos de fingir que somos europeus de primeira. Podemos voltar à realidade: somos aqueles senhores das traseiras da Europa que têm e mantêm pontes do século XIX ao serviço da morte dos cidadãos.
O que aconteceu em Castelo de Paiva vai acontecer de novo. Mudam os mortos, sobrevive o cenário. Somos um país de aguarela. As cores são giras, o clima é ameno, etc..
O que lixa o etc. é vir um inverno diferente. Chove mais, o vento sopra mais rijo, os postes abatem-se sobre as árvores, os empreiteiros roubam areia ao leito dos fluxos de água. Resultado: a morte.
Viver em Portugal não é fácil. Morrer, sim. Basta, para tanto, lançarmo-nos à estrada. Aí nos esperam os buracos, o álcool dos outros, o capricho do destino.
Vejo na televisão os artistas: telemóvel, lantejoula, futuro, perfume oral, tudo lhes pertence. O problema é quando se lhes pergunta que querem eles fazer do País. Que obras, que mudanças, que fidelidade. Não sabem. Nem querem saber.
O que caiu ao rio Douro não foram só as vítimas do país triste que todos somos. O que caiu na água foi a máscara. Sobra-nos o rosto. E é triste, a expressão.


O Aveiro, Março de 2001

Pena de Vida

O Tempo, que nos mata por acumulação, é uma coisa estranha. Se ouvimos falar de um século que não é o nosso, o mais que podemos fazer é acreditar que existiu mesmo, esse Tempo sem nós. Por outro lado, quando fazemos filhos, fazemos o Tempo que há-de vir – o Tempo desses dias que não vamos viver por termos cumprido já, então, a nossa pena de vida.
Sobra-nos cuidar do Presente. Mas a estranheza continua. O Presente é, ao mesmo tempo, a contínua transformação do Futuro em Passado. Entalados no exacto fulcro desta roda descomunal, pouco nos é dado. Em consequência da fraqueza do corpo e da anemia da alma, tratamos mal o Presente.
Exemplos? No fim do ano passado, uns tipos engraçadinhos decidiram entrar para o Guiness, o Livro dos Recordes. Para tanto, fizeram um bolo com, salvo erro, dois quilómetros e meio de comprimento. O Guiness é mais do que apenas um livro ou um programa de televisão. O Guiness é o espelho da estupidez humana. Os fulanos do bolo quilométrico estão-se nas tintas para as filas humanas de refugiados do Ruanda e do Curdistão. Essa gente estropiada e faminta estende-se por bem mais que dois quilómetros e meio. Estende-se no Espaço e no Tempo. Estende-se pelos vários presentes da Humanidade.
Continuação da lição anterior. O Vaticano está revoltado com a atitude tomada pela Direcção de um liceu italiano. Em curtas linhas, que fez o director? Fez isto: mandou instalar na escola uma máquina de preservativos de fáceis acesso e manejamento. O nosso tempo é o da glória dos vírus assassinos: SIDA, Ebola, etc. No caso da SIDA, o preservativo parece que ajuda. Mas o Vaticano é doutro tempo. Confundir o preservativo com um dedo mole do Diabo, é o mesmo que afirmar que o Sol anda à volta da Terra. É o mesmo que atribuir à Bíblia as pistas práticas de uma posologia medicamentosa. É o mesmo que processar o Pai Natal por continuar solteiro, apesar de tantos filhos lhe puxarem a calça encarnada. É o mesmo que tratar mal o nosso Tempo.
Ora, acontece que, apesar de matador, o Tempo é tudo o que temos para continuar vivos. Por outras palavras, o Tempo é feito de pessoas, de cavalos-marinhos, de periquitos e de cronistas. Tratar mal o Tempo que e em que vivemos é tratar mal tudo o que existe. E o que existiu. E o que vai existir, apesar de tudo.



Diário de Coimbra, 17 de Janeiro de 1997

Pedro Lavoura

O sentimento de revolta impotente que a morte sempre desperta, é especialmente intensificado aquando do passamento de alguém jovem.
Estamos habituados a pensar que a juventude é o futuro aqui e agora. Mas a morte gosta de, de vez em quando, vir recordar-nos, sensata e ditatorialmente, que todo o ser vivo já carrega em si o sinal último do fim desde que a luz do sol lhe aproveita o corpo para a indústria da sombra.
Pedro Lavoura e dois outros (muito) jovens ingressaram, na manhã de domingo, dia 13, nas hostes do passado. Diz-se hoje que eles já não eram meras esperanças, mas certezas. De quê? De futuro, precisamente. Todavia, a morte, que é invejosa, aproveita sempre as ajudas que lhe dão. Pode ser areia na estrada, pode ser velocidade a mais, pode ser qualquer coisa.
Que nos resta desta história? Em privado recato, as famílias e os íntimos vivem as más horas da perda. Os outros, fazendo-se à estrada, continuam a dispor da possibilidade de conservar viva a glória de respirar nas mais maduras manhãs do Verão. E de não ajudar a morte.


O Aveiro, 17 de Julho de 2000

Parábola de Honra

1. Naquele tempo primário, havia por cima do quadro da escola uma imagem de Cristo. Mas, em vez da companhia das doces figuras animais do Presépio, Jesus sofria então a escolta dos retratos de Américo Thomaz e Marcello Caetano. Nesta recordação, encontro um ensinamento: não basta ser bom; é preciso, também, evitar as más companhias.
2. Falei de ensinamentos. Continuo nesse rumo. Acredito piamente que, naqueles anos e naquela sala, Jesus encontrava uma especial compensação para a dor de se ver assim tão duplamente crucificado. Falo do Professor. De seu nome, Elias. Como o profeta. E se os profetas não enganam, este é o caminho que ele me ensinou. Aqui estou, senhor Professor.
3. Figura enxuta, nariz magro e transparente, dente de fumo e bago de arroz. Fato mais limpo que a luz do dia. Bandeira viva: da honra, do respeito, da ortografia, da lealdade. Às vezes, eu e outros miúdos desse tempo encontramo-nos em algum café. Falamos das nossas vidas, falamos daquilo em que se transformou o rumo de cada um: trabalho, filhos, futebol, copos, casas, horários. E nunca falha: falamos do Professor Elias. E nunca falha: falamos bem.
4. Intervalo. Uma palavra pode sofrer, da sua origem aos nossos dias, dois tipos de evolução. A evolução por via erudita e a evolução por via popular. Exemplo: o superlativo latino “pauperrimus” (= “o mais pobre de todos”) deu, por via erudita, “paupérrimo”; por via popular, deu “pobríssimo”. Nenhuma das formas é “melhor” que a outra. A riqueza está em conhecer ambas. E depois? A que propósito vem o “sermão” gramatical? Lá vamos: serve para dizer que o mesmo aconteceu ao termo “parábola”. Parábola e palavra são o mesmo. Mas a primeira forma (erudita) é usada para formulação de uma história exemplar (as parábolas bíblicas, por exemplo). A segunda forma, “palavra”, sofreu a evolução do uso popular e consiste na unidade mínima da frase. Serve às maravilhas na expressão “palavra de honra”.
5. Já cheguei aonde queria. Esta crónica falava (quem se lembra ainda?) de Jesus escoltado pelos chefes do Estado Novo na parede da escola. E falava de um homem chamado Elias. Oqual, por obra e graça da humanidade que carregava consigo, aliviava o Salvador de um peso político que Ele não merecia.
Elias Rodrigues Faro. Senhor Professor: onde quer que estas palavras o encontrem, saiba que são para si. São palavras aprendidas nas suas mãos. Como poderíamos nós, crianças da sua sala, não lhe devolver esta parábola de honra?

Diário de Coimbra, 27 de Setembro de 1996

Olé

Não é pacífica, nem provavelmente alguma vez o será, a questão das touradas. Com ou sem morte em cena do touro. Com picadores de um lado e defensores dos animais do outro. Os amantes da lide tauromáquica defendem-se com a tradição. E com o argumento da bravura do Homem. Os críticos sublinham a miopia do Touro. E com o direito do mesmo a não dar sangue e vida em troca do prazer humano.
Não é provável que alguma vez estas facções desavindas venham a entender-se. Ou, recorrendo a palavreado da gíria artística, a deixarem de trocar bandarilhas. A pega parece apresentar, por conseguinte, todo o ar de ser perpétua. Sem remédio. Sem consenso. Sem fim.
O remédio, penso eu, seria dar a palavra ao Touro. Ou então, no caso de ele não dizer nada, ajudá-lo a montar o cavalo e, dessa posição, perseguir com agudos ferros o espavorido ex-cavaleiro. O espectáculo estaria garantido. E nem seria preciso pagar ao bravo.

O Aveiro, 3 de Agosto de 2000

O Silêncio da Universidade

Fez catorze anos há pouco tempo, entrei para a Faculdade de Letras. Sétimo filho de operário (mal) reformado, o meu destino natural não era a Universidade, mas a serralharia ou as obras. Nas gerações que antecederam a minha, a promoção a homem fazia-se pela tropa e/ou o casamento. Ir para a universidade era uma utopia irresponsável.
A democracia teve isto de bom: a desmistificação do ensino superior. Eu, que lá andei, posso dizer, no entanto, que chamar superior ao ensino universitário é uma balela mal contada. Porque o mesmo é chamar inferior a todo o resto do sistema educativo. Acontece que não é bem assim. E passo a picar alguns conceitos que muito gosto teria em ver dissipados.
Os graus básico e secundário não são géneros menores. Não é por se ter menos idade que se aprende menos. Mais ainda: é nestes anos de formação literária, técnica e científica que mais a pessoa dá de si. As iniciativas das escolas chegam mais à rua e à sociedade que as pesporrências universitárias. O ensino inferior faz exposições, dá concertos, mostra livros, dinamiza excursões. E o outro?
O outro, o de cima, publica umas revistas tão elitistas, que ninguém as lê. A Faculdade de Letras, por exemplo, vive à conta de uns quantos prestígios bolorentos que se estão nas tintas para fazer chegar à população o conhecimento do que há de melhor na língua portuguesa. Antes pelo contrário. Nas Letras, Camões é um cadeirão, não o poeta magnífico que falava de Sexo, de Amor, de Aventura. Da Economia, não sai um caderninho mínimo que aproxime os cidadãos de noções tão fundamentais como o Orçamento de Estado, a Poupança, o Investimento, o IRS.
Eu sei que há excepções honrosas. No meu tempo universitário, tive bons mestres. Recordo aqui a malograda Doutora Angélica Coxito, uma senhora que chegava a telefonar para casa dos alunos, preocupada com a assimilação da Linguística que era o pão dela e haveria de ser o nosso. Mas as excepções são o que são: tristes confirmações da regra geral.
Seria bom que os professores universitários se dessem à humildade de escrever nos jornais que o povo lê. Seria muito bom que, em artigos molhados por uma linguagem viva e escorreita, fossem capazes de quebrar o silêncio falsamente superior de tantas teses ilegíveis. Seria óptimo que Camões, uma vez explicado às criancinhas operárias de quarenta anos para cima, fosse mais que a estátua em que o transformaram.
Os estudantes, esses, também deveriam descer à praça pública para outro efeito que não apenas o da exibição de bebedeiras descomunais. As propinas são ilegítimas, eu sei. Se no meu tempo me tivessem exigido o que agora se exige, eu não teria podido ser superior. Têm razão, os estudantes. Mas também há fundamento na observação popular: estuda-se pouco e mal. Lê-se zero. Escreve-se menos.
O povo mais fácil de governar é sempre o povo inculto. Não escrevi analfabeto de propósito. É que se pode perfeitamente ser universitário e inculto. Por outro lado, não defendo a banalidade muito corrente da cultura geral à moda do extinto Diário Popular. Para se ser uma pessoa bem (in)formada, não basta saber as capitais da Europa. Não é suficiente cantarolar de cor os apeadeiros entre a Estação Velha e a Figueira. Não é preciso andar sempre a malhar no ferro frio de D. Afonso Henriques ter sido o primeiro rei de Portugal.
Para a identidade cultural e adulta de um País, o importante é saber onde procurar a sede de conhecimento. Como escreveu um grande autor dos nossos tempo, “tudo no mundo está dando respostas; o que demora é o tempo das perguntas”.
Não consigo evitar o sentimento muito íntimo de que estou a aborrecer uma data de gente com esta conversa mal fiada. Mas, ao menos, disse. Estive cá. Vou estando. Não alinho no silêncio da Universidade.


Diário de Coimbra, 13 de Dezembro de 1996

O Rosto do Outono

O Outono já mostrou a cara. Ainda não é, mas já (a)parece. Apetece já acender o lume, chamar as castanhas e a jeropiga. Já é suave ouvir a dança nua da chuva nas vidraças melancólicas. As rosas irrompem como bocas de cor. As pessoas passam a preto-e-branco, levadas por um rastilho de piano de cinema mudo. A vida é uma doença linda. Crianças estreiam livros e cadernos. Os dentistas vêm à janela cantar A Marselhesa. Por momentos, a existência suspende a dor e vem à rua ver o amarelecer da folha. No fundo de tudo, está a morte, mas finjamos com decência que não. Que o novo dia embala o celofane da nova noite com requintes de jantar de velas e álgido champanhe. Os amantes cruzam o espaço como riscos de estrelas. Os velhos tocam a pedra com pétreas mãos antigas. O mar chama de longe os filhos barcos. O pássaro, o peixe, a lonjura, o sal, a distância, a fragrância, a sacana da memória e o sacana do desejo. Horas longas. Boas, apesar de tudo.
O vento canta. Façamos como ele. A política não é tudo. Sobretudo quando é nada.



O Correio de Pombal, 13 de Setembro de 2002

O frágil lado de fora

Um cadáver sexagenário do sexo feminino apareceu encalhado numas pedras da Foz do Douro. Eram nove da manhã de quarta-feira, 12 de Março. À hora de almoço, não tinham sido ainda determinadas as causas da morte.
A notícia, assim (mal) escrita e atrasada, não atrai leitores, não vende papel, não empata o trânsito. Quando a desgraça se vulgariza, nem para notícia, dois dias depois, serve. Assim é.
Por uma obscura razão qualquer, no entanto, o assunto fez-me parar, escutar e olhar para dentro. As autoridades que tomaram conta do caso da Foz do Douro já certamente determinaram, hoje sexta-feira, 14 de Março, as causas da morte e a identidade do corpo. O que eu gostaria de ver determinado, porém, são as causas da vida. Por outras palavras: perante uma mulher morta, uma anónima mulher antiga e encontrada presa nos calhaus do rio, não me pergunto quem é. Pergunto-me quem é que ela deixou de ser. E permito-me, contra todas as regras jornalísticas, dar cordas à imaginação.
Era pobre, portuguesa, silenciosa e só. Viveu demasiados anos no lado errado do rio, o lado de fora. Andou nos mercados, vendeu artifícios de plástico para segurar o cabelo das raparigas. Depois, foi perdendo a vista, a audição e aquilo que, em Economia, se designa por perspectivas. Dormia nos jardins municipais – como uma princesa solteira. Acordava molhada pelas incontinências do frio. Tornou-se escura e leve. Andava pela cidade como uma cabana andaria se as cabanas andassem como mulheres sós. Nesta altura, ela já era, há muito tempo, o futuro que há sessenta anos se prometia.
Todos comemos bom bacalhau, todos sabemos que Portugal já dividiu com a Espanha o globo terrestre. Somos todos os maiores da nossa rua. Vemos muitos filmes, compramos muitas cassetes, votamos, em pleno odor de santidade, nas eleições democráticas. Mas, enquanto estas coisas nos acontecem, aquela mulher partilhava um papelão de embalar frigoríficos com um rapaz dado às drogas, perto da Sé. Na madrugada de quarta-feira, por volta das cinco horas, a mulher sentiu que o rapaz tinha morrido. Os olhos do rapaz estavam abertos para as letras do papelão: “FRÁGIL – ESTE LADO PARA CIMA”.
Foi então. A mulher aconchegou o drogado na noite fresca. E dirigiu-se, sabem aonde?, ao rio.
Não é necessário determinar as causas da morte. É preciso determinar as causas desta vida.


Diário de Coimbra, 15 de Março de 1997

Noite

Se a vida são apenas dois dias, aproveitemos bem a noite que, unindo-os, os divide.
Em pleno inverno, não é má ideia chegar lenha ao lume, comer uma sopa de agrião, cheirar a quietude da casa, desrolhar uma garrafa de porto antigo e abrir um Maigret na primeira página.
O pior é ser, ou estar, sem-abrigo. Nesse caso, o melhor será dobrar O Correio e guardá-lo entre o peito e a camisola.
“Aproveita o dia”, como reza o adágio que nos legou a velha sabedoria. Aproveita a noite também, digo eu. A noite é quando não nos é possível enganarmo-nos sobre quem, verdadeiramente, somos. O dia é a planície do disfarce. A luz branca tapa os olhos. Mas, à noite, a máscara cai, assim como as artes e manhas da subserviência, da insinceridade, do constante adiamento. E nem sempre gostamos do rosto que mora sobre o nosso próprio pescoço.
De modo que o melhor é aproveitar tudo: a lição do mal, o ensaio do bem, a distância quase nula entre uma e outra coisas.
Que no caldo das horas ferva, sereno, o sal do instante. A serenidade é o que merecemos. Acontece que o que mais (nos) custa é, precisamente, aquilo que merecemos. Desconheço por que digo isto, hoje e aqui. Talvez porque se vá fazendo tarde. E, como é por demais consabido, a tarde é a mais larga porta para entrarmos na noite.



O Correio (Marinha Grande), 19 de Janeiro de 2001

Momentos

Há dois momentos do dia, todos os dias, que nos deveriam servir de instrumentos de auto-análise.
O primeiro desses momentos acontece quando, levantados da cama, levamos o rosto a beber no espelho da casa-de-banho. Momento terrível, porque de toda a verdade.
O segundo ocorre quando, à noite, apagamos a luz e desistimos a cabeça na almofada. Sobre as pálpebras, descem então as derrotas e as vitórias do dia de trabalho. E os desejos. E os ombros algo descaídos da memória. E alguma auto-ilusão, que só há-de ruir no outro momento, o do espelho.
Entre um e outro, a ponte das horas é por nós cruzada com a coragem e a mesquinhez comuns a toda a humanidade. Como num conto de Julio Cortázar, deveria ser-nos possível ler, em visão aérea, a caligrafia dos nossos passos pela cidade. No itinerário de cada dia, fica escrita a nossa vida. E a nossa passagem. Que um dia acaba, cansada de mo(vi)mentos perpétuos.



O Aveiro, 30 de Novembro de 2000

Molero 25

Suponho que, por ter passado na TV 2, ninguém viu a entrevista com o escritor Dinis Machado conduzida por Ana Sousa Dias. Quem não viu, perdeu. E perdeu muito. Ouvir uma pessoa como Dinis Machado é ouvir a vida a falar por si própria. Por assim dizer, é como perceber que as árvores utilizam o vento para terem voz. Dinis Machado é, “apenas”, o autor de “O Que Diz Molero”, uma obra publicada em 1977 e que está para a literatura portuguesa como o 25 de Abril de 1974 está para a política nacional. Nem menos. “O Que Diz Molero” é também, nem menos, uma obra perfeita. Pelo imaginário, pela linguagem, pela utopia, pela memória: pegue-se-lhe por onde for, é uma obra total e avassaladora. Lê-la é uma forma magnífica de comemorar o 25 de Abril. E por falar nisso: 25 de Abril sempre!



O Aveiro, 19 de Abril de 2001

Maravilha

Pequena maravilha espera aquele que acorda cedo.
Às seis da manhã, a noite é ainda soberana. Mas algo vai já acontecendo. A luz recorta a árvore junto da casa, conferindo-lhe uma qualidade de ermida que faz de quem ainda dorme um ser para hoje.
Laranjas pipilam ouro, argentino orvalho pisca riqueza na humilde couve.
Há uma paciência guardadora, uma magia nova, de tão antiga, para aquele que acorda cedo. Chama-se mundo, a pequena nova antiga enorme maravilha. E só está à espera de quem não tempo para esperar por ela.
Juro que sim, agora que são seis horas e dez minutos da nova manhã.
Bom dia, senhores.


O Correio (Marinha Grande), 9 de Novembro de 2001

Jipose

Há aquela piada do fulano que morre do coração. Ou de uma trombose, melhor dizendo. Sicrano, por sua vez, morre do fígado. De cirrose, pronto. E Beltrano morre de jipose. Seguindo dentro de seu belo jipe, foi bater numa árvore e acabou-se-lhe a história.
Pois a piada vem a propósito da manchete do Diário de Notícias de 29 de Maio último: “Jipes caem a pique”. Não os jipes, mas a venda dos mesmos. Parece que há modelos que registaram quebras de quase 100 por cento.
Mauzito e invejosozito como sou, a notícia deu-me um calorzinho íntimo que aqui exponho sem vergonha. É que o meu carro é só um AX(zito) de há seis anos. Mal estimado de chapa e coração, cada vez que o atesto de gasóleo o valor da viatura passa a ser o dobro. Quando as criancinhas da minha rua não querem comer a sopa, ameaçam-nas com uma volta a bordo do meu carro. Misérias.
De modo que a quebra dos jipes me propiciou uma vingançazita tão ridícula como real. Há dias assim, senhores.


O Aveiro, 31 de Maio de 2001

Friday, June 24, 2005

Assalto Mortal

Acontece-me muitas vezes: sou assaltado por mortos. Roubam-me.
Os mortos roubam-me a tranquilidade. Recusam o esquecimento. Todos os mortos são ladrões. Os familiares, que vivem no sangue, manifestam-se pela distracção.
Quem não assistiu já ao espectáculo de uma pessoa que, sem aviso, fica de olhar fixo, alheia a tudo? Essa pessoa está a ser assaltada por um parente defunto.
Os mortos amigos manifestam-se pelo soluço que corta a meio uma gargalhada. Exemplo: estamos no café, rimo-nos a propósito de qualquer coisa. Alguém diz: “Fulano é que costumava fazer isso…”. E pronto: uma sombra desce sobre o mundo da mesa de café.
Todos somos náufragos de alguém. Pensar que isso não tem remédio, é muito penoso. Para mais, em pleno Verão, que é azul e pincha de crianças desfraldadas como bandeiras. A tudo assistindo de muito perto, os mortos levam a mão ao rosto. Ao meu rosto. Ao vosso, também.


O Aveiro, 6 de Julho de 2000

Rio Filomena

Faleceu e foi sepultada, por estes tristes dias de Outubro, uma rapariga chamada Filomena. Estava em coma há onze anos e cinco meses. Na Queima das Fitas de 1986, estava completamente viva, preparava-se para terminar Letras. Namorava, tinha família, semeava amigos. Um acidente de viação atirou-a para o poço sem regresso do coma vegetativo. Na longa noite destes onze anos, a Filomena foi-se fazendo sombra nas conversas de reencontro dos antigos colegas. Hoje, escrevo isto para que, de algum modo ou por algum deus, ela volte a ser a luz que nos tem feito tanta falta.
Do outro lado do rio que o Tempo é, que fazem aqueles que amámos, aqueles que tivemos de sepultar, aqueles que, no escuro de pensarmos neles, nos deixam sem morada e sem caminho? Eu não sei.
Sei que me acontece muito pensar no Guilherme Pais. Parava no café Santa Cruz. Tinha família, semeava amigos. Vestia-se bem, ia a Paris e voltava. Ria-se muito, disfarçava-se de mauzão de Chicago. Aos trinta e tal anos, a vida lembrou-se de matá-lo. Que fará ele agora, do lado de lá do rio?
Todos temos os nossos mortos. Como flores secretas, guardamo-los no avesso da pele. Preocupa-nos o modo como emagrecem, como passaram a vestir mal, como mal suportam a humidade da memória, do mármore, do mau vinho com que, em vão, tentamos matá-los de vez. Aflige-nos que só saiam à noite. Eu tenho os meus, tu tens os teus, aquele tem alguns que também são nossos.
Mas: no outro dia, a filha de um amigo fez anos. Treze. Treze anos. Fez-se a festa num pátio acimentado. Houve doces, presunto, refrigerantes e uma bicicleta nova. Foram impressionados dois rolos de fotografias. As crianças bateram muitas palmas. Um cão ladrou imenso. Todos temos, também, os nossos vivos. Um rio tem sempre duas margens.

Diário de Coimbra, 28 de Outubro de 1997

Inocência

Na muito limitada parte do Mundo onde cresci, as casas eram habitadas sobretudo por gente operária. O bairro existe ainda, entre o monte com o marco geodésico dos militares (suponho eu) e o cinturão de fábricas. As unidades fabris justificavam a designação algo pomposa de zona industrial. Produtos da zona: crianças, bolachas, rações, louça sanitária, ferro fundido, correntes, cerveja. O todo era rematado por um matadouro, um aviário, uma escola primária e uma preparatória.
Em 1979, as coisas começaram a acabar. Para mim, digo. Fui para a cidade fazer o liceu. O uso dos autocarros urbanos e a visão das raparigas perfumadas de chiclete acabaram de vez com a inocência. A minha, digo.
Mais de 20 anos depois, sei que as fábricas estão a fechar, umas a seguir às outras. Há quem rosne um projecto de urbanização para o sítio do marco geodésico. Eu olho para isto e sei que, no fundo e na verdade, o que se passa é que tudo isto significa apenas que se preparam para acabar, outra vez de vez, com uma segunda inocência que eu nem sabia que tinha.

O Correio (Marinha Grande), 12 de Abril de 2002

Honra

O meu único pai despediu-se da vida, ou foi por ela despedido, aos 77 anos de idade. O corpo dele considerou que chegar vivo ao mês de Abril de 1994 era suficiente. E foi. De modo que fiquei sem pai.
O Estado português gostou da notícia. Passou a pagar menos 29 contos mensais de reforma a um bicho que tinha contribuído, durante meio século de fábricas e manhãs de nevoeiro, para a Excelsa Pessoa Colectiva Mas Não de Bem Que Honramos na Bandeira.
Naturalmente, o meu País não sente, como eu sinto, a falta do meu Pai. Nem é por aí que vou. Por onde vou, é por aqui: é talvez tempo de pôr um ponto final na conduta desavergonhada de um Estado (eu até disse Estado, nem disse Governo…) que não sabe, ou não quer saber, respeitar a velhice dos operários que foram sempre a gamela a que os porcos metem focinho para engordar as educadas entranhas.
A revolta é mais secular que o século, eu sei. Mas como nos preparamos todos, eu e vós, para chegar ao fim da vida sem que a vida tenha começado, aqui fica o registo de que, ao menos, alguém tem a certeza de o Estado não ser, mesmo, uma pessoa de bem. Porque não é pessoa, primeiro. Segundo e último, porque nem sequer sabe o que perdeu quando perdeu o meu Pai. No desgosto e na alegria, pagar impostos é o mínimo. A honra é outra coisa. Não há dinheiro que a pague, senhor ministro. Seja V. quem for.


O Correio (Marinha Grande), 22 de Junho de 2001

Historieta

Definitivamente alheio aos males do mundo, aquele de quem vos falo optou por desaparecer. Em vão o procuraram. A esposa não sabia. O patrão nem quis saber. Os filhos esqueceram-se dele. As semanas deram lugar aos anos, que transcorreram como horas.
Se não tivesse sido o acidente de automóvel de que morreu (com o rosto desfigurado, recorreram às impressões digitais), não teríamos sabido.
Tinha-se exilado numa montanha. Acolhido por pastores, deu-se bem nos primeiros anos de choupana. Uma tarde, assaltaram-no sem remédio as saudades do monóxido de carbono, dos hambúrgueres de peru, das estatísticas que empilham os números do desemprego junto à taxa de violações por minuto. Escolheu outra cidade, casou-se com outra mulher, teve outros filhos. Mas não deveria ter comprado outro carro.

Eternidade

O Verão torna a cidade bonita.
Tão bonita como as mulheres dos filmes.
A luz barra o ar como uma manteiga benigna. Dentro de vestidos leves, as senhoras emanam a música mais secreta, que é a do sangue todo tomado pelo calor.
Uma placa indica a melhor direcção que as vidas podem tomar: Praias.
O rapaz das bombas de gasolina leva um lenço de papel ao rosto.
O agente da polícia espreguiça-se de mansinho.
Na pastelaria, as persianas cerradas evocam o recato de um interior de igreja.
A miséria não existe. Nunca existiu. Não há droga nem drogados.
O Demónio para a Antárctica sem bilhete de volta.
Os hospitais fecharam para obras que nem são precisas, pois que as pessoas nunca mais vão adoecer. Vão apenas ser bonitas e felizes nesta eternidade que dura, se durar, dois meses.


O Aveiro, 20 de Julho de 2000

Elogio do corpo

O corpo é tão sensível como a alma. Apesar disso, a moral, que é uma invenção das almas ao serviço do Diabo, tem metido o diabo no corpo. Castiga-lhe a nudez, a nudez que, afinal, é mais natural do que o pronto-a-vestir. Recrimina-lhe o desejo, o desejo, que, disparado na direcção certa, tem servido para que não faltem corpos e almas. Censura-lhe o descanso, quando toda a gente sabe que o trabalho é o pecado-mor de quem não sabe fazer mais nada. E por aí adiante.
Se pararmos um pouco, porém, acabaremos dando razão ao corpo. Na verdade, que seria da filosofia sem as caveiras que a pensam? Que seria das religiões sem esse território de mortificação que é a carne? Que aconteceria às amantíssimas mães na ausência desses bolos de luz que são os corpitos dos bebés?
Em pleno Verão, façamos exultar o corpo. Levemo-lo a dourar na praia. Paguemos-lhe um belíssimo jantar, à luz das velas, se possível em frente, e ao alcance da mãozita, de outro bonito corpo. E, agradecidos por ele ser quem somos, brindemos-lhe à saúde.


O Aveiro, 13 de Julho de 2000

Duas horas noutra cidade

Numa manhã antiga, há muitos anos, o vento das oito horas trouxe consigo uma chuva que eu não tinha pedido. Bastou pôr os pés na rua para que o resto do corpo se visse devolvido a essa condição lamentável da mortalidade. A ponte era pequena e mostrava os ferros do esqueleto. Os carros emergiam da névoa como peixes atónitos. Não era fácil estar vivo na antemão de tantas leitarias despojadas. Apesar de tudo isto, no entanto, não estranhei. Se de menino te fizeram mamar o leite da lírica, o remédio é não pensares na cura, que não há, para o mal de viver. De modo que me botei ao caminho. Não tinha rumo definido. A pele que me levasse embrulhado dentro por esse mundo, essa manhã, essas leitarias,
Pelas nove e tal, as coisas começaram a acontecer. Primeiro, as lagostas. Viviam, até que, num aquário de restaurante. As lagostas, como se sabe, comunicam por antenas como as televisões e as formigas. Comunicaram comigo. Escutei-as pelo mero recurso aos olhos. Disseram-me que tinham habitado, outrora, um mar temperado onde o único remédio era viver sempre. E que isso, agora, já lhes não bastava. Que decerto ia aparecer um empresário com a família para as comer. Eu fiz assim: fui-me embora.
Segundo, a chuva pôs-se a cantar no chão uma melodia perfeitamente solfejável. Era um tema lento, no compasso de C cortado tão próprio dos slows de bailes de província. Como eu não sabia a letra, fiz como com as lagostas: fui embora.
Terceiro, pus-me a sentir a ansiedade evidente do ar. Havia névoa, jornais, um perfume de axilas de celulose. Havia as minhas botas como se não houvesse mais nada. Entrei num salão de bilhar. Estava deserto. Uma das mesas tinha as bolas todas iguais, como se os últimos jogadores fossem cegos. E então, já na rua, tomei conta de que há quase duas horas não via ninguém.
Encontrei uma cabine telefónica. Marquei uma chamada de longa distância.
- Filho, onde estás?
- Estou na Figueira, mãe.


A Linha do Oeste (Figueira da Foz), 27 de Outubro de 1996

Despir, Pesar, Medir

Por ter nascido em 1964, todos os anos um autocarro do Estado ia buscar-me à Escola Primária do meu bairro. A mim e aos outros de 64, claro. Era uma manhã excitante. Em vez da Tabuada, da Ortografia e de jogar à porrada no recreio, éramos levados para o Magistério Primário, ali à Solum. Objectivo: sermos despidos, pesados e medidos. Desde 1970, portanto, que sou uma espécie de número atómico numa já remota estatística governamental. Nunca encontrei esse gráfico de antropometria relativo ao crescimento da miudagem portuguesa nascida há 33 anos. Na altura, calçava botas de rebenta-tudo, vestia uma canadiana para todas as chuvas, mostrava um olhar castanho de puro vira-latas português e não devia pesar mais de 40 quilos. Media pouco.
Hoje, é Fevereiro na minha vida e já dobrei esse cabo de cristal dos 30 anos. Entre tormentas e boas esperanças, continuo a ser despido, pesado e medido. Despido, pelo IRS, pelas farmácias e pelo preço dos livros com que entretenho o vício de estar vivo. Pesado, pela avaliação da Polícia (sou ou não sou um eventual toxicodependente?), pela desconfiança dos condutores de autocarros (tenho ou não tenho senha pré-comprada?) e pelo cérebro (?) dos porteiros de discotecas (sou ou não sou filho de um dr. engenheiro?). E medido, dos pés à cabeça, pelos meus familiares e amigos, que vivem na dúvida seguinte: até que ponto um gajo que chega ao jornal pode ter o juízo todo?
Todos temos alçapões e nichos secretos para guardar conchas mentais, relíquias de lixeira e sonhos inconfessáveis. Esses sítios secretos não podem ser despidos, nem pesados, nem medidos. São os lugares da nossa essência: onde somos sem precisar de estar, onde estamos sem precisar de vir e para onde vamos sem precisar de dizer nada a ninguém.
Por ter nascido em 1964, já tenho, plenamente, idade para ter juízo. Mas confesso que desconheço em absoluto o que fazer com tal juízo. Provavelmente, deveria vestir-me melhor (para que melhor me despissem), comer mais (para gozo dos donos de restaurantes e dos bichos da terra) e crescer mais (para ir jogar basquetebol na América).
Mas, porque me sobra a mania de me presumir como mais do que um mero miligrama estatístico, vou continuar com a roupa do costume e com o peso possível.
E sem medida.

Diário de Coimbra, 28 de Fevereiro de 1997

De Caras

Navegando em plena sola de sapato pela cidade, sozinho como um cão, verifico os rostos dos outros. Em todos os adultos descubro essa brandura triste, essa branda tristeza que é a marca-de-água do rosto português. Nos jovens, leio a excitação comercial dos consumos do pré-Natal. Chego ao café C., tomo assento rente à parede e continuo a ver caras. Caras e subúrbios de caras: cabelo onde o tempo pousa a neve, orelhas cosmogónicas que encerram a espiral das nebulosas. E bigodes, brincos, verrugas, dentes. E casacos, anéis, relógios, telemóveis. Toda a parafernália de objectos, enfim, que sitia os rostos.
Finalmente, dou por mim olhando a exposição de noivas numa montra de fotografias. Jovens, roliças, fotografadas de manhã, pouco antes do abate.
Vestidas de branco, sorrindo de branco. Certamente, o sorriso é a capital do rosto. Mas nos subúrbios, mesmo que nupcial, lá está a tal brandura, a tal suave tristeza que nos leva pela mão por todas as ruas da cidade.


O Correio (Marinha Grande), 21 de Dezembro de 2001

Contar o Tempo

Nos idos de 80 e picos, uma rapariga, elevando no ar um cigarro distraído e cedendo ao torpor filosófico da digestão, ciciou: “O Tempo chega sempre. O problema é que nem sempre chega a tempo…”
Sem talvez se aperceber disso, a moça emanou uma dessas verdades irresistíveis que sulcam o inconsciente colectivo. Porquê? Ora, porque uma coisa é o Tempo maiúsculo, o Tempo de caixa (muito) alta que dispara séculos a uma velocidade-luz, e outra é o tempo minúsculo, o tempo comezinho, o segundo em que se boceja, se está triste ou se pensa em ir comer qualquer coisa porque se faz tarde ou porque chove. Vestindo agora uma roupagem mais cultural, o Tempo é um dos grandes rios temáticos que irrigam o planeta da Literatura. De toda a Arte, melhor. O tempo de Ulysses, o romance de James Joyce que muitos consideram ser a grande obra do século XX, é de apenas um dia. Mas, num dia, a vida encontra tudo para ser o que é: encontro, desencontro, perda e adiamento, esperança e morte, sedução e moeda, solidão e cheiro, ruído e praia. Outra enorme obra do século é Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. O fim último da obra é o da própria anulação do Tempo. Através de que ardil? Através do ardil mágico da evocação ininterrupta (a Memória), do não cortado fio da consciência que lembra, chama, apela, conta.
Os relógios moles de Dali apontam, por aparente paradoxo, a mais rija condição: o Tempo é sólido e alimenta-se de seres vivos, aos quais gasta para sobreviver.
Porque a verdade também é esta: se ninguém houver que o conte (no duplo sentido de contar por palavras e por números), o Tempo não está, não é. Não chega.
“Sou capaz de concordar com isso”, diz, do fundo do tempo passado, a rapariga. E esmaga o cigarro no cinzeiro que o empregado trouxe mesmo a tempo.


Região de Leiria, 8 de Junho de 2000

Coimbra

Toda a gente já muito naturalmente se esqueceu daquilo de o Natal ser quando um homem quiser. Também, quem raio se lembraria disso em pleno fogo de Junho? O céu destes dias é uma fogueira alta. As tardes são alentejos longos. A praia, o campo e o rio são a santíssima trindade da estação corrente. Natal? Espírito solidário? Paz no mundo? O melhor é ir chatear as almas de outra freguesia. Está bem, eu vou.
A minha terra é Coimbra. Coimbra é a cidade sem futebol de primeira. Há por lá muitos estudantes. São mais ou menos um por cada dez garrafas de cerveja. A universidade lá está em cima, alta, altaneira, atrasada, doutoral, salsicheira, caduca. A velha Torre produz mais e mais desempregados com habilitações. Diz-se, porém, que nela andou Camões.
Sou de Coimbra, disse, mas Coimbra não é minha. Coimbra pertence aos barbados que tratam das vereações, das infinitas rotundas, do abate de árvores lindas e antigas. Coimbra pertence aos especuladores da habitação. Comprar casa em Coimbra é quase o mesmo que dar entrada para as águas-furtadas do Taj Mahal. Coimbra também é dos tristes homens-sexuais que bordam a marginal do rio à cata de rapazitos de aluguer. Soberana, catedrática, a cidade vende e compra hot dogs e hamburgers até às seis da manhã. Quando passa, o carro do lixo leva consigo a memória dos adormecidos.
Apesar de tudo, Coimbra é uma aguarela combinada a partir do verde-escuro do Choupal, do azul-faca do Mondego e do ouro-citrino das laranjas da Lapa dos Esteios. Do miradouro do Vale do Inferno, a cidade aparece em clarão postal: linda, humana, intemporal.
Faltam seis meses para o Natal, eu sei. Mas por causa do calor ou da melancolia física que o calor traz, lembrei-me de dar o presente deste beijo ácido à minha terra.
Sou de Coimbra, essa estranha terra adormecida à sombra da Torre da Universidade. Chamavam-lha a Lusa Atenas. Para muitos, é lusa, apenas. Lá, a cultura é quase sempre uma coisa de doutores. Lá, raros são os doutores com alguma cultura. A coisa dá mais para rotundas, abate de árvores, parques de estacionamento, capas e batinas, tapas e latrinas. Tenho pena, mas é verdade.
Apesar de tudo, gosto da minha cidade. Tem ruas bonitas e tristes. Há lá uma qualidade do entardecer só legível por quem lá respirou o ar de raparigas fluviais, o ar de laranjas boiando nas antigas cheias do Bolão, o ar das ciganas com um rancho de filhos a caminho da mata. Coimbra ainda é a cidade onde o meu pai e a minha mãe encetaram uma linhagem de pesquisadores de um ouro que talvez não haja.

O Eco (Pombal), 25 de Junho de 1999

Claridade

Fui educado no amor pelos animais e no respeito pelas pessoas. São coisas que se não dispensam umas às outras: o amor e o respeito, os animais e as pessoas. Assim tenho levado a vida por diante. Um destes dias, deitado no escuro e impermeável ao sono, pus-me a enumerar os animais e as pessoas da minha vida. Como lâmpadas, uns e outras foram-se iluminando no tecto do meu quarto à medida que as chamava com o coração subido à garganta.
Tu, leitor, foste educado, também. Pergunto-me que cachorro, pássaro, gato, mãe, filho, mulher, irmão, se fazem luz na tua peregrinação. Agrada-me a ideia de, apesar de transportarmos narizes e contas bancárias diferentes, sermos, no escuro, todos iguais.
Não há escuridão que apague esta claridade. É isto que tenho dito à minha filha. E ao meu gato também, claro.


O Correio (Marinha Grande), 21 de Setembro de 2001

Carlos Luís

Chamava-se Carlos Manuel Gomes Luís. Tinha 48 anos. Mostrava olhos claros a quem o olhava de frente, que era também a única maneira com que olhava os outros. A morte veio afligi-lo durante a madrugada de terça-feira última. Em vão foi tentado o socorro. Não foi possível a ninguém resgatá-lo da impiedade de morrer numa idade em que a vida começa a fazer sentido: com uma casa e uma família feitas pelas próprias mãos. Lembro-me de ter estado uma vez em casa dele. Mostrou-me fotografias dos anos da guerra colonial. Abriu-me o passado, a mesa e a amizade. Certas manhãs de domingo, encontrávamo-nos no café do sr. Henrique. Uma vez mais, dizia-me: “Então quando é que vocês lá voltam?”. Tudo indica agora, Carlitos, que o Zé e eu não voltamos lá. Voltasses tu, queríamos nós.

O Eco (Pombal), 3 de Março de 2000

Caça

Uma das coisas que o meu avô, morrendo, deixou de praticar, foi a caça.
Ao contrário do meu avô, muitos caçadores continuam vivos. Vivos e a matar.
Já que estou num transe de almanaque de família, mais digo que um dos meus irmãos, felizmente vivo e de saúde, também abandonou a caça. Porquê? Porque, certo domingo em que andava pelos montes de cartucheira a tiracolo, deparou com uma cena grotesca. De volta de um arbusto, no interior do qual se tinha escondido um coelhito tão pequeno como um cérebro de atirador, sete ou oito caçadores disparavam sem cessar. Todos reivindicavam a posse póstuma do pequeno animal, entretanto reduzido a uma confrangedora pasta de sangue e pêlo. Nesse dia, o meu irmão arrumou a espingarda. Até hoje.

O Aveiro, 12 de Outubro de 2000

Avó

Se fosse viva, a minha avó materna teria completado, no passado dia primeiro de Julho, 98 anos. Não aconteceu assim. Devo dizer-lhe, avó, que o mundo não está melhor sem a senhora. Vou contar-lhe um caso.
No domingo do seu aniversário não cumprido, fui a uma aldeia cá do concelho. Havia festa. Cheguei pelo fim da manhã, ainda a tempo de ver passar a procissão. Fazia um calor de fornalha aberta. Guardei-me à sombra do café de um amigo e esperei. Fui almoçar com os músicos da filarmónica. Às quatro da tarde ia haver concerto, que era o que ali me levava. Afinal, não houve concerto nenhum. Porquê, avó? Por causa de o palco da festa estar ocupado pelos técnicos de um cantor pimba que ali se ia exibir nessa noite de 1 de Julho. Repare bem, avó: não houve filarmónica por causa do rei dos parolos.
Como vê, senhora mãe da minha mãe, o mundo não está melhor. Descambou na porcaria. As pessoas já não têm gosto. Não se importam de que lhes impinjam esterco sonoro em vez de boa música. Vim-me embora com as vísceras atadas num nó zangado. Tão depressa, não volto àquela festa, avó. Porque, assim, aquilo não é uma festa. É uma feira de parolos. E eu posso ser muita coisa, avó. Por exemplo, hei-de ser sempre seu neto. Mesmo que a senhora já por aqui não ande. Por magia, consigo recordar, através da memória da senhora, o tempo em que as festas populares o eram na verdade. E não eram esta triste imitação de artistas de plástico despejando músicas de alguidar sobre a populaça. A avó sabe.

O Eco (Pombal), 5 de Julho de 2001

A secreta vitória

Fazem as pequenas pedras os grandes edifícios. E pequenos, por igual ideia, parecem os homens que organizam as ditas pedras de modo a que a História encontre marcos no tempo que passa. Que passa para as pessoas, não para os monumentos.
A Batalha, toda ela, vila e mosteiro de Santa Maria da Vitória, evoca essa comparação. Não é possível, perante a beleza descomunal daquela pedra, evitar a íntima inquietude de sermos, nós pessoas, ínfima areia. E que só ela, junta e trabalhada pedra, é eterna.
Ainda assim, retenhamos de uma visita à Batalha (que é, como em tantos outros casos de amor, uma revisita) a noção de que a alma colectiva existe. E que olhando nós o que invisíveis e dissipadas mãos ergueram, também mãos damos ao que eles quiseram olhar por dentro e de frente: a alma da História, a nave do Tempo, as abcissas da Memória.
Visitada, revisitada, nunca esquecida, a Batalha exalta deste modo uma vitória mais secreta que a de Portugueses sobre Castelhanos: o triunfo da arquitectura sobre o esquecimento. Ou a morte da Morte, por assim dizer.

Região de Leiria, 14 de Março de 2000

As vergonhas simbólicas

José Carlos é um rapaz com vinte e poucos anos. Alto, forte, formoso, José Carlos é, ainda, o modelo do bom gigante: um coração da cabeça aos sapatos. Vendedor de publicidade comercial e desportista de bom plano, José Carlos toma por amigos todos quantos se lhe demoram perto de cinco minutos apenas. Foi a este moço de boa cepa que sucedeu, há coisa de dias, um caso exemplar.
Um problema de saúde levou-o a procurar a sua médica de família. A médica não estava. José Carlos foi atendido por uma colega da dita. O problema de José Carlos não era grave, mas localizava-se naquela zona do corpo a que o nosso bom devoto povo chama as vergonhas. Por palavras outras, a moléstia de José Carlos era precisamente na...quilo.
Na consulta, a médica substituta fez muitas e variadas perguntas de pormenor ao doente: se tinha borbulhas, se dava comichão, se estava da cor escarlate, etc. José Carlos foi dizendo que sim e que não. A consulta acabou com uma receita de pomadas e comprimidos. Mas (e é aqui que bate o ponto) a entrevista clínica chegou ao fim sem observação visual nem toque material directo nas partes afectadas.
José Carlos, tão meu amigo como leitor meu, sabe ser-me costume dar atenção e voz às partes envolvidas em casos como este. Vai daí, veio contar-me tudo. E perguntou-me se eu não achava estranho que uma médica se limitasse à despistagem teórica de um aborrecido mas, afinal, palpável.
A única coisa que percebo de medicina é andar doente, de vez em quando. A minha ciência acaba aí. Nada entendo do outro lado, o muito nobre lado do parecer médico. Mas o acontecido com o José Carlos fez-me lembrar, sem remédio, alguns políticos deste nosso país. Na verdade, bastas e repetidas vezes referem os políticos (alguns, não todos, quase todos) as moléstias sociais que afligem o país e os paisanos. Ou seja: falar, falam; perguntar, perguntam; receitar, receitam.
Mas pegar na coisa, está quieto.

Armando

Durante alguns anos, fui vivo numa vila breve. Era, e ainda é, uma povoação habitada por esse tipo de gente a que se costuma chamar simples e laboriosa. A vila tem alguns edifícios de nome aumentado pela lupa da História. Em torno, os campos de arroz parecem olhos verdes molhados. Do que comi, bebi e amei nessa terra, guarda o meu corpo memória e cicatriz. Anos volvidos, estou de volta. Os dias são mais activos. A juventude, como lhe é de competência, renovou-se. Os velhos estão um pouco mais antigos. Já há mortos numerados entre o meu ir e voltar. Há mais lojas, mas também menos gente nos cafés. Os sinos batem as horas matadoras. A calma desce as escadas da tarde. O inverno não é muito frio, o verão traz a devoção financeira dos emigrantes. Tudo na mesma, diria. Tudo na mesma, não. Já cá não está o Armando, nunca mais há-de voltar o Armando. Ouro me foi tê-lo conhecido, sal me é não reencontrá-lo na volta à breve vila, à breve vida.
Encerro esta breve e inútil crónica com a lembrança de um dito de Kierkegaard, um senhor estrangeiro que filosofava mas já morreu: “Olhamos os outros objectivamente e a nós mesmos com subjectividade.” Ou seja: não perdoamos ao vizinho o que para nós tem sempre desculpa. Na manhã de meio Maio, escrevendo no café pouco concorrido, olho para a rua e vejo a má estrada sobre que não voltará a passar o Armando.

Mais 9-Canções-9 para a Mariana

1

SABES, VOU DEIXAR-ME

Olha, sabes, vou deixar-me,
Deixar-me de canções
Olha, o sinal de alarme,
Até p’lo teu charme,
Queima palha de colchões.

Olha, sabes, vou deixar-me,
Deitar-me comigo sozinho
Ao mar, a Marte, amar-te
Com uma pouca de vinho.

Se disseres que me queres,
Talvez me deixe
De mulheres.

Sabes, mel melhor, mal menor,
Vou deixar-te
Deixar-te estas canções.

Até para deixar
É preciso
Ter arte.

2

SE SOUBESSES QUANTO CUSTA

Se soubesses quanto custa amar
Obedecias.
Dias a fio de navalha, se soubesses.
Quanto custa a quem não tem,
Meu bem, outro remédio.
Só de pensar nisso.
Se soubesses no quarto cresce-míngua,
Lua ante.
Língua minha.
Adiante.

3

QUANTO QUERO

Quanto quero a quem quero
Nem metade posso dar
Por isso nem dou nem espero
Nem quero isso lembrar

Que a memória do já dado
Não dá para dadivar
É bem fraco rebuçado
Bem amargo de chupar

Quanto gosto de quem gosto
Nem meio dá p’ra contar
É parede de desgosto
Que já não quero caiar

Que a cal do já caiado
Não dá para mais caiar
É bem fraco pincelado
O desgosto de pintar

(Quanto quero a quem quero, etc.)

4

DO AMOR EU NÃO

Do amor eu não conheço
Senão a mesma cegueira
Que não vejo e não esqueço
Falo do que tenho à beira
Litoral da baixa alta
Sobrevém e sobressalta
Como o vento amor exalta
Fuma o mar a terra inteira

Do amor eu não sei mais
Menos dele não conheci
Que já houve o dos meus pais
E outro que tive por ti
No relapso manso agreste
O que deste bem tiraste
Amor é coisa que preste?
Conheceste? Deserdaste.

5

DE VINHO RUBRO

Dá-me o fruto dessa boca
Palavrosa imaginada
Rosa turva encarnada
Dá-me o fruto da voz rouca

Oh Maria tu bem sabes
Mais que tentas esquecer
Botelha de vinho rubro
Que Outubro faz doer

Vindimei gengiva acima
A dente cortei palavra
Quem não lavra pois não estima
A boca é lima amarga

Faz tu vinho de ananás
Do teu cuspo coração
Granada soez capaz
Da maior rebentação

Mar em volta da cintura
Quando for pelo Natal
Terei dito à procura
Que perder está menos mal

Oh senhora do encanto
Nem por fax reciclado
Terei eu perdido tanto
Olhar preto desmaiado

Dá-me a boca desse fruto
Oh imagem palavrosa
Ananás o mais enxuto
Turva encarnada rosa.

6

JÁ ME DESCEU

Oh menina uma palavra

(Diga diga meu senhor
Que o traz a esta casa
Tão revestido de dor)

Oh menina uma janela

(Abra abra meu senhor
A manhã já vai tão bela
Faz da luz santa de andor)

Oh menina uma palavra

(Peça peça meu senhor
Se a boca arder que arda
Não seja pelo ardor)

Oh menina uma janela

(Feche feche meu senhor
Que o patrão já vai subir
Vai-nos cobrar o amor)

A palavra à janela
Que a minha menina deu
É bem a santa mais bela
Que do céu já me desceu.

7

ROBERTOS

E venha lá quem vier
Que o teatro já fechou
Pancada de Molière
Só na tem quem n’apanhou

Já vi dramas do caraças
Assisti bem me calei
Em falando de desgraças
Oh caraças disso sei

Começou em pequenino
Minha desgraça maior
Um destino desatino
Sangue pranto e suor

Na plateia ninguém mexe
Nem remexe o balcão
Quanto mais sobe se desce
Furagato furacão

E o tornado entornado
É truque de mau cinema
Fica o verso bem rimado
Ritmado dá poema

Meu amigo Gil Vicente
Ourives ou sim ou não
Faz lá tu rir esta gente
Que é de pobre condição

(Não ligues a televisão!)

Meu amigo Shakespeare
Oh que nome do caraças
Em falando de desgraças
Desata o povo a rir

Que o teatro tem bem disso
Ouriço peida cacheiro
Sou por isso o ouriço
Sou actor vou em primeiro

(E venha lá quem vier, etc.)

8

POR PURA PÚRPURA

Por pura púrpura tomei
Um sinal de bem-olhado
Era em torno campo molhado
Espécie vento desaguado
Li lilás trono de rei

Ri de roxo pantanoso
Puro gozo sapo antigo
Coaxando coxeando
Puro gozo meu amigo

Por pura purifiquei
Bem olhada eu nem sei
Tão amada purpurina
Eu sei lá era menina
Que olhei quando passei

Eram em volta ilha agreste
Vinha vento vento ia
Quanto mais ao mar se dava
Mais à terra se volvia

Coração de ilha pouca
É ter por norte o céu
Voz de mar oh voz mais rouca
O mar é só a terra ao léu

Meu trono de bispo-rei
Real sono episcopal
À igreja a levarei
Purpurina por sinal

(Um sinal de bem-olhado...)

9

TANGO PARA FRANCÊS VER

Je ne Zé pá
Export-import é a rosa
Diz-se francé ou françuá?
Isso je ne Zé pá
Export-import é a rosa


De pifos Piaff sei eu
Era bem mais nova do que eu
Pio XII treze ou mais
Dizem que em Sete Rios
Entre pandas e renaults clios
Bem sofrem os animais
(ou menos)

A exemplo de Gauguin
Jacques Brel até amanhã
Nas cancer’ilhas do Taiti
Ilha é floco de neve
Morena que bem se atreve
A ser longe sendo daqui.


21, 26 e 29 de Julho de 2004, algures